Já
preparados para ir até Coimbra e enquanto tomamos o pequeno almoço
lembrei-me de uma anormalidade que senti no salão, aliás nos dois
pois a experiência repetiu-se em ambos. As clientes juntavam as
cabeças para cochichar e exclamavam aqueles “não me digas”, que
traduzido o eufemismo quer dizer conta mais que isto é saboroso,
e seguidamente agarravam no
telelé para distribuir a novidade, tapando o bocal com a outra mão
e assim fingir estar segregando. Passados uns minutos perguntei às
empregadas o que acontecia de tão importante. Enviaram-me para a
Ivone, que tu sabes ser a minha chefe de plantão quando eu não
estou.
A
Ivone tentou deixar passar a bola, mas quando lhe apontei o
entusiasmo que reinava entre as galinhas (são
as clientes, caso não soubesses)
teve que abrir o jogo e contar-me que se tinha apresentado, na Câmara
Municipal, uma brigada mista das Finanças e Judiciária para ver e
estudar ao detalhe a documentação de alguns serviços. A reacção
imediata dos curiosos foi a de que esta presença inesperada devia
ter alguma ligação com os mortos da casa do Vale. Eu disse-lhe que
não parecia ter nada a ver uma coisa com a outra. Que os
assassinatos não acostumam a ficar documentados nas Câmaras. Que
isto deve ser consequência de alguma denúncia. Tu tens ideia do que
se está a passar?
Ouve Luísa. Sabes que eu nunca
quero saber de política e de políticos, e em quase todas as Câmaras
Municipais, para não dizer que em todas pois não quero carimbar sem
conhecimento de causa, surgem assuntos que podem levar a denúncias.
Os eleitos foram apoiados por algum partido, e nas estruturas existem
sempre interesses, sejam pessoais ou de negócios. Depois surgem os
compadrios e os concursos amanhados, ou decisões tomadas sem
concurso, desdobrando as empreitadas para não atingirem patamares
com exigências legais que se for possível vão fintar.
Ou seja, com as decisões
camarárias, nem sempre pode-se evitar que os preteridos se sintam
ultrajados, e daí a fazer reclamações e denúncias. Numas mais e
noutras menos eu creio que será o pai-nosso-de-cada-dia,
especialmente naquelas Câmaras com orçamentos vultuosos. Neste
caso, comparativamente, pode tratar-se mais de uma quezília pessoal
do que de montante elevado. O que te garanto é que eu, José
Maragato, nada tenho que me ligue a esta inspecção, nem tenho nem
tive qualquer negócio ou contencioso com a edilidade.
Luísa, esquece. Isto não é coisa
nossa e o melhor é ouvir e calar, pois qualquer comentário teu ou
meu, pode ser deturpado. São assuntos que não nos dizem respeito.
Esquecendo
esta novidade, eu, depois da conversa com o Dr. Cardoso, sinto-me mais
leve, mais descontraído, mais confiado. Deixou-me a impressão de
que, pelo menos no seu serviço, estão tomando este assunto dos
mortos plantados mais seriamente do que eu temia. Isso não obsta a
que certos capítulos permaneçam ocultos, em sigilo confidencial.
Mas como a imagem que temos acerca das pessoas que se movem nas altas
esferas já está mais do que feita, não os desprezaremos mais nem
menos, humana e socialmente falando. Antes de ir visitar o Cardoso
vamos passar pela agência de viagens onde eu, anteriormente, tratava
de passagens, hotéis e trajectos.
- Boa tarde, Dona Isaura. Como tem passado? Pelo seu aspecto, cada vez mais jovem, deduzo que a saúde, felizmente, não lhe tem dado cuidados de maior.
- O Doutor Maragato sempre tão amável. Mas garanto que em mim também pesam os anos. Por enquanto não sofro de grandes desgastes, mas sei olhar para o futuro observando as pessoas com quem habitualmente convivo. Mas diga. O que é que o traz por cá, e tão bem acompanhado...
- Desculpe o meu descuido, Dona Isaura. Devia ter começado por lhe apresentar a minha esposa, de seu nome Luísa Maragato depois de papel passado. Um apelido que não soa muito bem,mas é aquele que herdei de família.
Ao
que íamos, ou viemos. Pensamos em aproveitar umas semanas de sossego
antes dos calores estivais para dar um passeio pela Europa. Num
esquema meio de grupo e meio por conta própria. Nós ainda não
definimos grande coisa. Por exemplo: gostaríamos de passar uns três
dias em Paris, incluindo um passeio pelos castelos do Loira (que não são como os nossos castelos, antes grandes mansões apalaçadas). Depois
saltar para Bruxelas, outros três dias. E depois Berlim, outra
paragem. Daí saltar para Viena, dois dias ou três. O percurso pelo
Danúbio, que é tão afamado, a mim, pessoalmente, não me
entusiasma, pelo menos se for longo; com uma escala e passar para
terra já ficaria satisfeito. Mas com um bom livro e umas bebidas sou
capaz de aguentar sem me atirar à agua. Visitar Budapeste é
fundamental.
Aconselho a não se prender demasiado com estas minhas etapes. A partir destas linhas, que se podem alterar com pareceres
fundamentados ou outras vontades da Luísa, eu vos deixo. A Dona
Isaura se tiver paciência dé uma ajuda e carregue a esposa de
folhetos. Depois, em casa ela fará a sua análise, que discutiremos
(sem pelejar). E nos próximos dias voltaremos para formalizar a
encomenda. Agora eu tenho que visitar um amigo na Polícia
Judiciária, que penso estarem instalados ai perto. Até já. Não me
demorarei, espero bem.
- Boa tarde, Aqui está o meu Cartão de Cidadão para me identificar. Será possível saber se o Dr. Sílvio Cardoso se encontra no serviço, e caso afirmativo poderia perguntar, se fizer este favor, se me pode atender um momento?
O
Dr. diz que o pode atender de imediato. Eu o guiarei pois sinto que
não conhece o interior desta casa. Faça o favor de me acompanhar.
- Dr. Cardoso, desculpe o importunar no seu trabalho, mas surgiu um tema que, não estando ligado directamente com o processo que nos levou a ser partes integrantes, de lados diferentes mas não opostos, segundo eu avalio. Pois bem, como ficamos mais tranquilos quanto à evolução oficial do inquérito, pensamos, a Luísa e eu, se poderia ser aceite que tomássemos umas férias antes dos calores estivais, e viajássemos pela Europa durante umas três semanas. Sei que, por enquanto, não estamos qualificados como arguidos, mas não queria “desaparecer” sem dizer aquilo do água vai! Daí que antes de avançar com o plano de viagem quis saber se existia algum impedimento oficial. O que me diz o Dr. ?
- Vão descansados e desfrutem. Todavia e na previsão de qualquer imprevisto que os possa implicar, se o Amigo Maragato, quando tiverem o plano de viagem definido, com dias e estadias marcadas em hotéis com telefone e o resto da modernidade, seria bem visto que nos deixasse uma cópia. Se bem que hoje basta saber o indicativo do País onde se encontrem para que com o telemóvel os poderia contactar.
- Obrigado Dr., E recordo uma sua pergunta que, por estar pendente de outro assunto, deixei passar sem resposta. Estranhou o nosso apelido de família Maragato. É o mesmo esquema do que acontece com aqueles que carregam, oficialmente, com o apelido Algarvio, Alentejano e outros. Sem ser uma cristianização de judeus ou se calhar até teve a sua origem nestas conversões forçosas, o nosso Maragato vem apenso ao facto de que a origem da família estava na Maragateria, uma região espanhola de cariz rural. E todos os que dali se deslocavam para outras regiões, eram apelidados de maragatos, como aqui os bimbos, por exemplo.
Segue no capítulo LXI
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