quinta-feira, 25 de junho de 2020

MEDITAÇÕES – Amigos



Uma tentativa de os classificar

  • Amigos herdados A partir do dia em que nascemos é provável que fiquemos em contacto, ou até rodeados, por pessoas que se devem classificar como familiares, seja do lado materno ou paterno, amigos destes e simplesmente conhecidos, na situação de se poder transformar em fixos ou de se sumirem no nevoeiro dos dias.
  • Mais adiante chega-se a decidir que os amigos herdados não resistem em competição com aqueles que fomos encontrando.
  • Amigos da infância Logo que as pernas nos permitem orientar os nossos curtos percursos e encontrar outros infantes com idade semelhante à nossa, seja num jardim de infância, numa escola ou, em épocas e locais onde tal seja aceitável, com outras criaturas nossas vizinhas. Esta “selecção natural” de amigos, caso a família em que estamos integrados se mantiver fixa na zona onde continuamos a crescer, podem constituir uma reserva valiosa para o futuro social de cada um.
  • Amigos da escola A fase escolar, tanto no grau da primária como na secundária, e para aqueles que seguiram estudos nalgum curso, seja de grau médio ou superior, nos colocará na situação de fazer uma selecção, muitas vezes instintiva e noutras reflexo de acontecimentos e desencontros, que separará os que valorizamos como sérios possíveis amigos para o resto da vida. Uma visão bastante utópica, mas que naquela fase nos é convincente. Infelizmente aqueles que crescem com mudanças continuas de residência, de vila ou cidade, e até de País, denotam para todo o sempre a falta dos amigos de infância.
  • Início da ponderação sexual Mesmo que já nos anos da aprendizagem inicial já começamos a perceber das características físicas e comportamentais que diferem entre meninas e meninos, e mais acentuadamente quando se atinge a puberdade, já rapazes e raparigas, é natural que mesmo antes de ter uma dezena de anos no nosso haver, desabrochem as primeiras paixonetas. Dizem que existem casos em que estes amores de infância conseguem perdurar até o fim da vida. Umas vezes na memória e noutras no casamento. Uma faceta comportamental que nem sempre se valoriza como merece, mas que pode determinar muitas das nossas acções neste campo.
    - A fase de adulto, entendendo como tal quando se consegue ter alguma independência económica e um início de residência própria, mesmo que sem companheiro/a definido. Entra-se numa fase nova, favorável para a criação de novas amizades. Reconhecemos que, em casos concretos. Permanecer na casa paterna pode comportar uma espécie de prisão social, e até conduzir a sentir-se um indivíduo/a estranho naquele lar que foi seu. Passou a ser partilhado. Uma situação mental que pode induzir a que depois de passar pela porta aja como outra pessoa. Com algum exagero, pode acontecer a coexistência de duas pessoas muito diferentes dentro do mesmo corpo.
  • É a fase em que terá mais encontros interessantes, seja no trabalho ou no ambiente social que passará a partilhar e onde encontrará muitas pessoas até então desconhecidas. Habitualmente as definirá seguindo o seu instinto, que se mostrará errado ou certo se continuarem a se encontrar, falar em assuntos cada vez mais sérios.
  • Aqui terá alegrias e desgostos. Pessoas com as quais sentiu que podia congeniar, mas que posteriormente teve que afastar por serem incompatíveis. Ou o contrário: ter um mau início e com o andar da carruagem sentirem-se como gêmeos univitelinos (exagero de linguagem...).


CONTINUARÁ NOUTRO FASCÍCULO

segunda-feira, 22 de junho de 2020

MEDITAÇÕES – Aderir a sugestões



Uma reclamação e as exigências sociais

Pelos vistos e baseando não só no que nos tem sido apontado ao longo dos anos, os membros do género masculino tem as tendência de aliviar a bexiga estando erguidos e apontando o canudo de saída deste líquido amarelado, e por vezes com aroma desagradável, para uma distância considerada como prudente. O local mais desejado é o campo aberto, e com um certo recato, pois que toda esta área corporal do baixo ventre é considerada como reservada, pelo menos nas situações cívicas. A falta de um terreno livre e disponível, há quem recorra a encobrir-se com uma árvore, um poste, um muro ou mesmo um carro estacionado sem um ocupante que nos observe. Conseguido o vazamento do líquido que nos pressionava, com uma sacudidela e recolocar o canudo no seu lugar nas vestes e garantir que esta zona retoma a sua blindagem normal, o caso fica ressolvido.

É no lar, doce-lar, que a porca torce o rabo. Periodicamente nos chegam “denúncias” em que se referem as porcarias que os machos tem por hábito deixar nas sanitas depois de urinar. Pouco tempo atrás encontrei um curto vídeo onde se mostravam as tentativas de educação e higiene que uma mãe, só com descendentes do tipo masculino, para que não emporcalhassem o trono e a sua envolvente, incluindo não só a tampa como o anel que serve para pousar as nádegas. A senhora colava papeis, com legendas de aviso, tanto na sanita como no piso adjacente, paredes e sem esquecer o assento tipo bolo-rei gigante mas a sua tampa.

Não conseguiu o resultado pretendido. Em vista da impossibilidade de alterar, educando, os instintos masculinos, decidiu mandar erguer, no jardim, uma pequena “secreta” com porta, fechadura e chave, para seu uso exclusivo. E que os porcalhões da família chafurdassem a seu bel-prazer naquela imundice.

A opção a que as damas chegam, quando não tem a mão a possibilidade de conseguir um canto exclusivo, é a de pressionar, até conseguir, que a tropa com canudo siga a técnica feminina. Ou seja, que não se limite a abrir a braguilha e retirar o canudo, mas que desça calças e cuecas, se sente, descarregue, abra o fluxo de água de limpeza, e coloque a tampa no seu lugar.

Temos que concordar que a opção menos “degradante” seria a de que cada um, após não controlar o fluxo de saída do seu líquido molesto e verificar que esguichou para onde não estava previsto, se encarregasse, sem falhar, em limpar tudo como as normas de higiene familiar aconselham.

Fazendo um balanço rápido, que evitarei discriminar, recordo que são vários os actos naturais que as boas maneiras, ou a educação quando se está em companhia, nos estão interditos. Ou que, pelo menos, estão mal vistos se os libertarmos socialmente. E, em geral, nos esforçamos para cumprir estas regras.

Conclusão: Se não formos capazes de mijar sem acertar no alvo, fica o recurso de imitar as damas.

NOTA EXCULPATÓRIA – Segundo me consta, apoiado em testemunhas fidedignas, as damas quando utilizam sanitários públicos não evidenciam o respeito às normas de higienize que exigem no seu lar.

domingo, 21 de junho de 2020

MEDITAÇÕES - Violência racial



A difusão de eventos negativos

Embora todos partilhamos na qualificação imediata das pessoas com que nos cruzamos em função de factores congénitos, aos que, por pressão atávica lhes atribuímos características de rejeição, reconhecemos, quando pensamos analiticamente, que esta adversão nem sempre está justificada.

Julgo, eu, que são muitos os cidadãos que, instintivamente, receamos do comportamento daqueles que avaliamos, num primeiro olhar, como diferentes e daí com possibilidades de serem perigosos. Uma situação que por ser de reacção impensada só se pode anular por meio do raciocino.

Por um daqueles azares que acontecem na sociedade, com bastante frequência, a sociedade global está hoje submetida a duas situações de calamidade potencial, e que, sem dúvida, a difusão dada pelos meios de comunicação, tanto os clássicos (em declínio) como os mais recentes (em expansão) colaboram negativamente na geração e propagação de incitações para comportamentos errados.

Se no que corresponde ao alarme e cuidados, nem sempre cumpridos para nos tentar afastar dos perigos de contágio pelo vírus actual, é de admitir que quase todos estamos sabedores das recomendações que nos são enviadas. Que o comportamento oficial nem sempre nos parece ser coerente com as recomendações é outra faceta desta situação.

Mas sente-se no ar, precisamente pelo perigo de contágio ou de imitação do que nos é noticiado, que aquele convívio pluriracial (1), de que tanto nos orgulhávamos, está em risco de se quebrar. Um orgulho excessivo e até irreal, pois com esta fantasia de convivência aberta e total escondíamos as rejeições instintivas, efectivas, que sempre existiram nas sociedades humanas.

Admite-se que o aumento da cultura geral -Que verificamos não coincidir exactamente com o caracter “enciclopédico” que se lhe atribuía antes da invasão da informática, sempre mais selectiva- é o caminho a trilhar com melhores possibilidades de possibilitar uma progressiva integração dos sectores tradicionalmente marginalizados. Até agora admite-se ser débil percentagem de indivíduos que conseguem subir degraus na escala social. Mesmo assim acontece com mais frequência. Ou aconteceu até a pandemia, que promete vir a levar ao desemprego mais gente do que já era habitual.

Mas, dentro deste capítulo dos sectores marginalizados, surge o perigo da imitação aos motins de tipo racial que se tem espalhado no mundo, tradicionalmente denominado como ocidental. Começando pelos EUA, que por razões históricas tem no seu seio um volumoso sector de descendentes de escravos, hoje com nacionalidade equivalente, em principio, com a dos descendentes dos brancos, igualmente invasores daquele enorme território. Mas com a característica negativa de que entre os afro-americanos o índice de pobreza e incultura é muito elevado.

Esta situação, inegável e com uma magnitude que ultrapassa as capacidades económicas dos EUA para a poder alterar, sempre esteve em risco de explodir em revolta incontrolável por algum acontecimento nada inusual, mas sempre reprovável. O inusitado que nos deparamos é que os protestos, sejam simplesmente manifestações pacíficas ou violentas, com assaltos, agressões e roubos, já alastraram para a Europa, apesar de que as sociedade locais não seguiram os mesmos trilhos de comportamento do que as dois estados sulistas dos EUA. E, curiosamente, o facto de nestas manifestações de protesto, sempre predisposto à violência, se incorporem indivíduos de pele clara, contestatários do sistema e apoiantes dos revoltados, em nada alteraram o sentimento de agressividade reinante entre os afro-descendentes.

O perigo de imitação, de incitação a confrontos de massas, não é de temer hoje em Portugal. Mas existe latente em muitos bairros “marginais” e em muitas mentes de indivíduos que, por razões ou sem elas, se consideram mal tratados pelos naturais dos países onde se introduziram. No dia menos esperado podemos ver nascer a sua intifada.

Não creio que esta possível, mas indesejada, revolução social se possa neutralizar antes de acontecer. Pelo menos não acredito que os bons argumentos e atitudes conciliadoras possam anular os azedumes já existentes.

(1) ainda não nos habituamos a retirar da linguagem os termos que derivam das pretensas raças humanas. Lá chegaremos. Espero.


quinta-feira, 18 de junho de 2020

MEDITAÇÕES – Outra pandemia



Nem oito nem oitenta

Numa reacção extensiva perante o enésimo crime racista acontecido nos USA, vimos como já afectou uma data de países em mais do que um só continente. Até o momento as manifestações de repúdio não conduziram a mais vítimas. Desatou-se sim uma extensiva protesta com marchas de multidões onde participaram indivíduos de tipologias diferentes.

A contestação derivou da alegação de segregacionismo e maus tratos às pessoas com cor da pele diferente do que se chama de “raça branca”. O protesto chegou a ter como alvo certas pessoas, em geral já falecidas, que foram homenageadas por serem recordados por acções louváveis, por vezes com placas ou estátuas colocadas em locais públicos. Os activistas alegando que na biografia de certos próceres se eliminaram acções (hoje) reprováveis, mas correntes enquanto vivos, tomaram a iniciativa de derrubar ou emporcalhar estes símbolos, que durante anos mereceram ser respeitados.

Não podemos aplaudir as irreverências e desmandos, mas tampouco é correcto fechar os olhos quanto a acções deploráveis, não só pelos que mesmo na época em que aconteceram e eram consentidos legalmente, foram denunciados, mesmo que por um número reduzido de cidadãos Pessoas que podemos considerar além de precursoras na promoção da igualdade de direitos e deveres de TODOS os humanos, e até, extensivamente, a animais quando maltratados abusivamente por energúmenos que se julgam pessoas “de bem”.

Como céptico militante surgiram-me na memória as barbaridades que, mesmo neste cantinho da Europa, se fizeram sobre cidadãos cujas faltas, muitas vezes difamatórias sem fundamento e, quase sempre incitadas por uma visão extremista da doutrina religiosa, inclusive permitia, ocultamente, propósitos políticos ou vinganças pessoais por parte dos decisores das penas. As últimas execuções públicas foram “ontem” já no reinado de D. João V e do Ministro Sebastião e Melo.

O derrubar uma estátua, mesmo que os argumentos correspondam a comportamentos hoje inaceitáveis mas, na época em que se deram, eram usuais, pode ser comparado aos réus que, já mortos eram tirados das suas sepulturas para serem queimados na praça pública, para diversão não só da populaça mas também da corte e seus afins. Para encobrir o desrespeito humano chamavam ao “festejo” AUTO DE FÉ.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

MEDITAÇÕES – Um tema recorrente



Espelho meu, que é mais belo ela ou eu?

Tenho observado, ao longo de décadas, uma confusão entre o que se avalia sob o restrito olhar zoológico, não só com os animais mamíferos como em quase todas as espécies, acerca da vistosidade, quase que universal, dos machos relativamente às fêmeas da sua mesma espécie. E mais observamos, as fêmeas, que detêm, inequivocamente, o poder de decisão na escolha do macho que as deve inseminar, mostram um grau de inapetência muito evidente, quase que depreciativo, embora o galanteio habitual, misturando o afastamento com a provocação, seja indubitável.

Esta dupla provocação galante (ligação óbvia entre o termo galante-galanteador e galo) na natureza animal é fortemente potenciada com as vestes que habitualmente enfeitam os machos, sejam penas, escamas, pele, canto ou até dança. Sem hesitação podemos afirmar que o macho se apresenta muito mais vistoso do que a modesta fêmea. E, no entanto, o papel mais importante da manutenção da espécie fica -salvo excepções conhecidas- a cargo das fêmeas.

A conclusão imediata, mesmo que não geral, é que a selecção da componente genética, mesmo que dependente da escolha da fêmea, está fortemente condicionada pela capacidade de atracção do macho, e da sua força para afastar os interessados concorrentes. Daí o “macho dominante ou macho alfa” E como funciona entre os humanos?

Nos grupos ainda pouco “civilizados” -Os que permanecem isolados do que nós entendemos como progresso- os homens enfeitam-se mais do que as mulheres. E com a evolução social, especialmente entre a classe dominante e os mais abastados, os homens mantiveram a motivação de se vestirem de um modo ostentoso, aparatoso, com rendas e folhos que hoje nos parecem ridículos ou efeminados: chapéus aparatosos, que mais tarde foram relegados às damas; calções com folhos, meias arrendadas, sapatos com salto (excepto o Sarkozi)

Que o corpo das mulheres, nem que seja para ser visualizado, sempre mereceu o apreço do homem, que sem dúvida detestava a roupagem que ocultava a formosura corporal daquele ser que desejava como complemento, é denotado pela escultura e pintura, que nunca descuidaram a beleza das mulheres.

A mulher desde cedo teve a noção de que podia e devia aproveitar e melhorar, tanto quanto pudesse e soubesse, o seu atractivo visual. Deste conhecimento resultou que tanto as roupas como penteados e maquilhagem com que podia realçar a sua seducção, fosse eclipsando a imagem dos homens. Sendo historicamente correcto temos que reconhecer que desde as sociedades egípcia, helénica e romana, as mulheres já sabiam e aplicavam cosméticos e roupagens vistosas e insinuantes, muitas vezes translucidas.

Recuando. Sem que renegue do agrado que podemos sentir ao ver uma das nossas companheiras (genericamente falando...), seja menina ou madura, quando bem “preparada”, fica esclarecido o aparente enigma do porque os humanos optaram por uma decisão anormal entre os mamíferos (e não só estes) que nos acompanham.

Um pormenor discordante: da cintura para cima os homens, quando se enfarpelam usam enchumaços, postiços, nos ombros, imitando as palas onde os militares colocam as suas divisas. É para parecer mais musculados? Mas as mesmas pessoas, quando se vestem informalmente, raramente usam estes postiços.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

MEDITAÇÕES - Pobreza e Estabilidade. Consequências



Qualificar e desqualificar sem ponderar

Escrever opiniões sobre a população, ou mais directamente acerca dos sentimentos e opções políticas, e obviamente sociais, atribuindo qualificações a certos grupos, muitas vezes só imaginados, sem que se tenha efectuado uma ponderação correcta e ampla sobre os factores que incidiram sobre aqueles que, levianamente qualificamos, é um erro muito frequente.

E mais ainda quando se está sob alguma pressão social que não é devida, concretamente, ao comportamento “político” dos seus membros. Ou, precisamente, se são estes medos que disparam os alarmes sem ponderar a pressão que existe na situação sanitária actual.

Causa-me um grande desconforto ver como irreflectidamente se dá como indiscutível que os que sentem, com maior ou menor intensidade, uma rejeição social ao sector onde estão agarrados, são tão “irrecuperáveis” como eliminar a melamina da pele. Coisa que só se sabe conseguiu um tal Michael Jacson. E sabemos que não é assim que a segregação económica-social funciona. Propositadamente não referimos, constantemente, os principais factores que conduzem a uma “incompatibilidade” entre os desprezados e os soberbos.

Qualquer sociólogo que consultemos acerca deste problema sectorial nos dirá que são a pobreza e a ignorância que mantém muitas pessoas na chamada “mó de baixo”. E mais, que é muito difícil e carece de esforços invulgares o poder sair do nível onde se nasceu, criou ou, por infelicidade, se viu atirado.

Não é por casualidade, nem por tentativas de cumprir devidamente a lei de Deus, que muitos dos que se dedicaram a meditar sobre este problema apresentaram projectos de acção onde eram fundamentais os esforços do estado no incremento cultural do povo baixo, juntamente com um esforço sério na implementação dos cuidados de saúde e, paralelamente, melhorar a salubridade dos locais onde existiam aglomerados com notórios sintomas de pobreza.

Não demorou a percepção de que estas metas eram difíceis de alcançar caso não se instalassem perto destas áreas de carência endémica, unidades fabris produtivas que dessem a possibilidade de trabalho remunerado, e até de ganharem com algum excesso, para o seu sustento e necessidades básicas. Infelizmente os capitalistas que tinham a capacidade e os conhecimentos para dar trabalho aos marginalizados se depararam com o dilema de que, em geral, aqueles indivíduos que se pretendia ajudar tinham um nível de conhecimentos muito primário, e que mais depressa entraram no que era doce do que se habilitaram para trabalhos fabris com certas exigências. A evolução, apesar de real, não foi suficiente para igualar. Cinicamente para muitos era rentável contratar, por baixo preço, a gente rude e ignorante.

Quando estes cidadãos atingem um nível primário de literacia, mesmo que ainda pouco versados nas ratoeiras que os demagogos lhes apresentavam, foi, como era de prever, um campo lavrado onde os políticos com o espírito subversivo tiveram, e tem, a possibilidade de criar adictos. E aqui chegamos aos tais da esquerda activa e provocadora. Que como nos alerta a Física elementar, gera uma reacção.

Virando para o outro sector, o da direita “bem pensante e falsamente humanista”. Aqui se juntam pessoas já com alguma cultura, muitos com noções deturpadas da “luta de classes”. Os mais astutos e capazes de manipular o seu sector chegam a capitalistas, atropelando pelo caminho aqueles que se lhe opõem, mas respeitando com receio os que podem vir a ser seus inimigos “dentro de casa”.

O que lhes mostra ser mais rentável é o explorar, directamente os membros mais débeis da sociedade, ou indirectamente sonegando os fundos que são do País, especialmente dos que trabalham mas não conseguem sair do seu nível e crescer para o estatuto de incipiente predador. Para este fim, desde sempre, o capital manteve os governantes debaixo dos seus interesses e propósitos.

Este sector social que manipula na sombra, sem alaridos nem desfiles -que reservam para a ocasião em que já tem uma maioria domesticada e fiel- é pouco numeroso e exclusivo no topo. Alguns, que não todos, fazem publicamente alarde da sua rica vida, das suas propriedades e das suas festas sociais. Os outros, os que denotam a esquerda baixa limitam-se a aplaudir os do topo e a entrar na sopa dos pobres, com o que as suas leves críticas internas ficam neutralizadas. Sem jamais avançarem para a realidade factual do problema.

Resumindo: o mundo é velho e tem problemas quase que irresolúveis porque mesmo nos grupos de população mais isolados, onde os bens são da comunidade, é que a desigualdade é mais notória. Até aqui chega a distinção pelo poder, nem que seja eleito pelo povo. Chefes, seus próximos e adivinhos ou bruxos, não tardam em se distinguir e comandar, indirectamente tendo o chefe como intermediário.

Entrar numa adesão “convicta” para separar a cidadania entre “esquerdalha e direitalha”, desprezando os que preferem não alinhar, é uma consequência do dinheiro e da imaginação de cada um, que só vê no espelho aquilo que deseja encontrar.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

MEDITAÇÕES – Não podemos acreditar em tudo.


As generalizações são perigosas e falaciosas

Os tempos ou os ventos que temos que enfrentar, com calma e uma boa dose de confiança e sorte em que nem todos sofrerão com as temidas sequelas da pandemia, conduzem a que As mentes se tornem induzidas a fraquejar, e daí a que se possa cair num imaginário buraco negro do qual pode ser muito difícil sair. Aqueles que tem a possibilidade de comunicar, mesmo que seja a um número reduzido de seguidores, cabe não incitar aos extremismos e recordar o que sempre ouvimos: entre mortos e feridos alguém vai escapar.

Antes de me decidir a escrever e levado por uma assinatura que desconhecia, e pelo cabeçalho pensei ser dum comentarista individual sério, entrei num artigo que, como descobri a partir das primeiras linhas de texto, era um exemplo acabado do que não se deve difundir.

Não demorei a entender que aquele excerto tinha sido admitido e editado no espaço OBSERVADOR. Que, como deve ser avaliado, por aqueles que não comungam com a sua orientação editorial, é exageradamente capcioso, incitador a extremismos. Muitos dos seus editores incitam à separação irreversível da sociedade portuguesa em dois bandos totalmente opostos. Não posso opinar sobre tudo o que se edita neste OBSERVADOR, mas neste artigo em vez de tentar encontrar um equilíbrio favorável para conseguir viver em sociedade, incita à luta de forma indirecta, insinuadora.

Quem o redigiu, além de se definir como tendo sido espoliado quando o governo português abandonou as “suas províncias ultramarinas” (de uma forma extremamente irresponsável, que sob a visão humanista foi imperdoável), encontrou-se na sua desconhecida metrópole, que estava, como sabemos, num estado caótico, com uma degradação acentuada no que respeita à consideração que se deveria manter entre as pessoas, conhecidas ou desconhecidas, mas “passageiros de um mesmo espaço físico”.

Não vou dissertar nem sequer inventariar as razões que para cada pessoa, singular, as motivou para se colocar em sectores, digamos que ideologicamente, opostos. Mas admito que nem todos os habitantes deste País, ou de outro qualquer, se sentem nitidamente situados convictamente nos extremos mais belicosos.

Aos adictos ao extremismo lhes convêm, por que criam ambiente favorável para a difusão das suas proclamas, que só se possam admitir como cidadãos completos os da “esquerdalha” furibunda, os seguidores do anarquismo e comunismo puro e duro, e do outro lado da barricada, como acontece com o oscilar do pêndulo, estarão os da “direitalha” mais conservadora e avessa a qualquer diálogo conciliador. Os que, sem dúvida, julgam-se com direito a instaurar uma ditadura feroz.

Confesso que só li o longo escrito pela diagonal, sem que esta técnica limitasse a compreensão das mensagens que nele estão insistentemente apresentadas. Como exemplo retirei um parágrafo que transcrevo exactamente como apareceu no “artigo”.

. O principio estabelecido: todas as pessoas de esquerda são sociocidas. (um neologismo que desconhecia)

Não existe um único sujeito de esquerda que não se enquadre na categoria considerada, a dos sociocidas instigadores de males colectivos como a miséria ou a violência. E quem disse que estas pessoas más, como as demais, não tem direito à vida e à dignidade? Tem que se corrigir. Obrigação delas. Mas também dever das demais não fecharem os olhos à maldade humana. (fim da citação)

Possivelmente a correcção dos menos perigosos teria que ser conseguida em campos de concentração, devidamente guardados e sem acesso de familiares ou estranhos.

Recordei um anúncio que passava nos cinemas e na TV incipiente, lá pelos anos 1950/60, em que para salientar as excelentes qualidades de uma pasta dentífrica, por acaso nacional, um artista agarrava uma cadeira com os dentes e a fazia girar no ar com velocidade alarmante. No fim uma voz em off dizia qualquer coisa como PALAVRAS PARA QUE? É UM ARTISTA PORTUGUÊS!.

Eu também opino que estar a dar corda ao longo discurso que referi é tempo perdido. Mas mesmo assim avalio como vergonhoso e muito próximo do temido fascismo.