quinta-feira, 12 de abril de 2018

CRÓNICAS DO VALE . Cap. 32



- Este toque que nos interrompeu era do Medeiros, ou seja o Presidente da Junta. De entrada me informou que a seu ver uma adiafa não serve de justificação para convidar entidades. BOA NOTÍCIA! E por isso o meu receio de provocar melindres fica arrumado na cave. Também me disse que ele mesmo escolheu, no máximo, de três a quatro elementos para o acompanharem, o capitão dos bombeiros, o mestre da banda e dois membros do seu “estafe”. MAIS BOAS NOTÍCIAS. A coisa começa a compor-se, e hoje vejo quanto estávamos a exagerar.

Mas outras notícias são incomodas, por assim dizer. Disseram-lhe que andou pelo Vau, e até pela Vila, um sujeito bem falante mas com maneiras tão educadas que se tornavam esquisitas, que perguntava sobre o que se sabia, entre a população, do cadáver da mata. Não quis aprofundar nisso, mas cheirou-lhe a que seja um membro do clube dos gays. Recomendou-me que, caso me procurassem, não lhes desse muita conversa.

- Eu? Esteja tranquilo, Amigo Medeiros, sou especialista, quando quero, em mandar bolas fora. Não tenho nada que me ligue a este clube. Só lhes desejo, de boca calada, que vivam a sua vida com sossego e que não incomodem nem sejam incomodados.

- Pois eu também creio que está à altura de voltar ao princípio, com alguma sensatez. Se não te parecer mal adiamos a reunião com primos e filhos para um almoço em família, sossegados quanto baste. Assim como é sensato que nos deixemos de acções de cariz política-social, pois não creio que com esta iniciativa, tão descabida e isolada, conseguíssemos mudar nada de nada. Importante é que O QUANTITATIVO DE PRESENÇAS VAI-SE REDUZINDO !

Tens que falar com o feitor Ernesto e dizer que tens uma certa urgência em saber com quantos ele entende que devemos contar, sempre que ligados ao trabalho da mata. Em princípio desde próximo sábado a oito dias.

De qualquer modo creio que podia ser interessante conseguir que os teus advogados-amigos, e até o notário (que pode ser útil mais adiante) venham para nos acompanhar e fazer núcleo com o grupo da Junta. Veremos o que te dizem de Coimbra acercada disponibilidade do Inspector (até pode ele pensar que a possibilidade de falar, de certo modo abertamente, com a malta da terra lhe pode dar alguma pista. Nem que seja o de lhe contarem da tal visita inquiridora não oficial) Penso que não perdes nada em referir este alarme que corre pelo lugar do Vale e que eles podem deixar cair como quem não quer. Mesmo que ele tenha bufos por aí, é bom mostrar que andas a par.

- Já mandei recado para que o Ernesto venha falar comigo. E entretanto ligarei agora mesmo aos meus amigos de Coimbra. Parece-te mal que eles tragam dois ou três colegas conhecidos? Sabes que a malta de Coimbra sempre está desejosa, como Jesus e os seus companheiros, a participar em comezainas bem regadas.
- Por minha parte tudo nos conformes. Só peço, em troca, Ah! Ah! Ah! Que esta tarde possa ir até a Vila e convidar as duas, ou quiçá quatro, senhoras do meu negócio. Lhes direi que devem vir vistosas, sem exagerar “demasiado”, para deixar os parolos de boca aberta, mesmo sabendo, por ter visto, que as damas do campo, dos lugares e Vilas, quando se dirigem para casamentos e baptizados mascaram-se com exagero. Chegam a ser ridículas, elas em especial. Mas são sintomas de evolução social, pelo menos a nível mental, ou pelo propósito de imitar as farpelas dos migras, que vem propositadamente nestas ocasiões, muito “bem arreados”.

- Creio que destas presenças já estávamos de acordo. Venham elas. São as tuas damas da corte. Quanto ao teu irmão gostaria que se sentasse na mesa com os meus filhos. Tem que ser bem recebido. Não tem culpa nenhuma de ser só meio irmão teu. Gostaria que se integrasse e tratarei da falar com ele em privado.

- Até aqui já avançamos alguma coisa daquela lista. Mas temos que nos sentar, com calma e “picar” os capítulos que cada um de nós encontrou. Eu já fiz um esboço. Quando te aparecer o feitor Ernesto será oportuno abrirem a adega e ver o que é preciso fazer para a tornar minimamente aceitável. Se por lá encontrares alfaias antigas e máquinas de lavoura, manda que as limpem e abrilhantem com óleo de motor e as coloquem à vista, sem impedirem a circulação. Está na moda expor estas velharias, e quem não as tem compra-as! Não te esqueças de, quanto antes, tratar dum electricista capaz. Nestas alturas andam bastante atarefados com compromissos anteriores. Lança um cabo ao Medeiros, que ele pode saber com quem poderemos confiar. Toma nota de tudo!

Eu vou dizer à Idalina que, depois de almoçar, se prepare para irmos juntas ás compras na Vila. E por lá tratarei de saber com que empresas é hábito contratarem para as festas de casório. Se calhar não é necessário ir até Aveiro nem a Coimbra. Mas não contratarei nada disso.


quarta-feira, 11 de abril de 2018

CRÓNICAS DO VALE – Cap. 31




Isabel, estou cansado e não tenho cabeça para continuar esta conversa. Cada vez vejo a bola de neve maior e isso não é práctico. Creio que o mais prudente e até funcional será tomar um duche quente, caminha e dormir sem mais e amanhã tentaremos distribuir as tarefas de que sentirmos ser capazes, e ver quem poderá encarregar-se das outras. Para já, amanhã será um dia de telefonemas e decisões,ou de preparar o terreno para poder chegar a decisões favoráveis. Boa noite, querida Isabel.


- Só poso concordar com esta demonstração de sensatez. Vou-te deixar ir ao duche em primeiro lugar, pois eu,com os cuidados de pele e cabelo necessito mais tempo. Aposto que quando eu entre na cama já estarás ferrado no primeiro sono. E por isso deixo-te com um até amanhã, meu  comandante. Vamos a uma beijoca!


- Bom dia, Ninfa do Mondego -era a marca de um tónico capilar que o meu pai usava, mas que já não se encontra no mercado- Estive esperando que acordasses para tomar o mata-bicho em conjunto, mas estou a cair de fraqueza. Para aproveitar o tempo, e porque aqui nesta casa não chegam os jornais, estive escrevendo os pontos de que me lembrei. Ou seja, aquilo que colocaste como assuntos a tratar e decidir. O mais provável é que tenha esquecido alguns dos mais importantes. Mas conto contigo para recordares e completar a lista.


- A Idalina já nos ouviu. Não tarda a bater à porta com o pequeno almoço, que eu lhe disse tomaríamos nesta mesinha, tal como fazia a minha mãe, antes de se enfiar no seu espartilho, que ela chamava de cinta elástica, como de facto era.


- Bom dia meus senhores. Dormiram - Como anjinhos. Obrigada. E como cheira bem este café! O leite é caseiro? Pela nata que está à tona já sei que é da vaca de estábulo. E este pão mais os bolinhos de padaria emitem um aroma que não se encontra nas cidades. Mesmo na Vila, nem todas as padarias, e há quatro fornos em funcionamento, trabalham com farinhas de fábrica, algumas já com adição de fermentos e químicos para tornar o pão mais cheio de buracos de que uma estrada rural. Só uma padaria usa  farinhas de confiança, amassa com máquina mas junta massa da véspera para fermento; deixa levedar com sossego e coze com lenha ou gás, procurando seguir as regras dos seus pais e avós.


- Pois os vilões, que são os naturais da Vila, bem podem mimar esta padaria, que não pode vender a sua produção ao preço dos outros, que fabricam a martelo e as massas levedam à força de químicos. Mesmo assim arrisca-se a perder dinheiro em todas as fornadas. Terminará por claudicar, aceitando a pressão de entrar numa espécie de cooperativa que fabricará tudo por igual. Venderão todos a mesma coisa e passarão a ser balcões de venda. É a sina dos pequenos industriais e pequenos comerciantes.


- Quando os clientes acordem será tarde,pois os artífices de outrora terão falecido ou já não estarão para grandes trabalhos e responsabilidades. A possível solução para este padeiro conservador será a de se dedicar, quase que exclusivamente, a pães especiais e bolos tradicionais. Mas carecerá de ganhar nomeada para atrair clientes de outras zonas. E mesmo assim não garanto um êxito repentino.


- É como diz o menino José (desculpe este vício de o sentir como um rapazinho...) Os donos das três vendas de mercearias que existem no Vale estão desanimados, direi mesmo desesperados, com a quebra que em poucos anos se deu na procura dos seus artigos. Quase que só os procuram para os fiados no role, como quando eu era garota. A malta, que tanto se queixa do custo da vida, tem todos um carro e fazem as compras por junto nalgum super ou hiper da Vila.


Alguns, vaidosos, chegam a gastar gasolina até Aveiro para depois se gabarem das ofertas e de quanto compraram e pouparam! Quando de facto gastaram muito mais do que lhes custaria aviar-se numa das nossas vendas. É só vaidade e cagança! Desculpem o palavrão, mas fiquei nervosa! Voltarei para recolher o tabuleiro. Com licença.


- Já viste como a Idalina, cujos estudos devem ter ficado na terceira ou quarta classe, pois quando ela era criança as famílias dos lugares não podiam manter filhas a estudar. Precisavam da sua ajuda. Hoje pode dar aulas de social a muitos palermas que andam por aí com capa e batina.


- Dizer que o povo não presta é sinal de ignorância e soberba de quem profere tal cretinize. E mais, a responsabilidade de certo atraso é daqueles que estando em patamares superiores quanto a conhecimentos e saber, mantêm-se afastados da base da população.


- Zé. Nisto que estás a dizer é pertinente aplicar a receita de nem tanto ao mar nem tanto à terra.


- Conseguir audiência entre os habitantes dos lugares e os citadinos nem sempre é fácil. Sem ofensa intuo que. em certa maneira, se assemelha a ensinar um índio da Amazónia. O rural está historicamente escaldado, por séculos de ser dominado por uma elite, ficou visceralmente desconfiado, custa-lhe acreditar, de olhos fechados e mente blindada, quanto dos bons propósitos do “senhor”.


- Do seu lado estes carregam outros preconceitos difíceis de apagar quanto à capacidade mental dos aldeões. Falam duas linguagens diferentes e arrastam receios, justificados, de não muitos anos atrás. Digamos que não só os do tempo da monarquia como até das duas repúblicas. As guerras do Ultramar, que foram uma sangria económica e humana, sem visão de futuro, é que abriram as primeiras janelas entre letrados e rústicos, ao comerem e sofrerem juntos mal puseram os pés no terreno. E na dor e na miséria humana que se criam laços. Ver gemer e até chorar, sofrer e morrer um elemento da classe dominante o faz descer ao seu real nível de pessoa, igual ao dos outros.


Mesmo assim, quase que curadas as feridas da guerra e da ditadura, os dois lados da barricada social continuam a se sentir diferentes dos do outro lado, desconfiam e não se entendem por completo. E este atavismo só com o alargamento do acesso ao ensino é que se vai neutralizando. Até o dia em que se chegue a esbater. Ou quase. Espero que não demore muito tempo. Hoje as mudanças sociais ocorrem numa velocidade nunca vista.


- Isabel, sinto que estás carregada de bom senso e que isoladamente não se conseguem mudar os hábitos e os tais preconceitos. Mas é forçoso e até podemos apostar em que este muro, mental, que os separa vai ser derrubado mais depressa do que podemos imaginar. E com estes arrazoados comemos e bebemos tudo o que a Idalina nos trouxe, e quase que perdemos um tempo que teremos que recuperar sem devaneios.


Continuará. Quase certo..Já consegui arrumar como queria.

terça-feira, 10 de abril de 2018

CRÓNICAS DO VALE - Cap 30



Pensando no bico de obra em que se meteram
    - José, pelo que fui ouvindo, e sem contar com que a adiafa em que te meteste vai transformar-se num almoço de casamento (o nosso, que não houve? Engraçado!) implica muita azáfama e preparo. Assim, de repente, e não conhecendo a vossa casa por dentro, sinto que será pertinente ter preparadas tantas camas quanto for possível. Haverá mobiliário em condições? E as roupas de cama e banho? Ou será necessário comprar reforços?

Não falaste em convidar os primos, capitaneados pelo ALMEIDA E SOUSA de santo Tirso. Caso venham, tens ideia de os acomodar na noite? Assim como nem te lembraste de que posso ter os meus compromissos, que, em princípio se centram nas pessoas que deposito mais confiança nos dois salões, e que, ultimamente ficaram sob a sua orientação.

- E tu sabes donde para o teu irmão Óscar? Tens o seu número de telelé? E será que vive acompanhado de fixo, mesmo que sem passar pela igreja ou no cartório. Tens que entrar em contacto com ele, quanto antes.

- Retomemos a organização. Não fujas. Desta vez não podes tratar só desde longe.

Reforços para limpeza geral serão mesmo necessários, e logo de manhã tenho, ou temos, que falar com a Dona Idalina a fim de que trate de conseguir ajuda de confiança e ela se encarregue de as orientar. E estou a falar só da casa, sem entrar na adega!

Temos que fazer contas com esta senhora, que já deve ter gasto as reservas que deixaste, e não chegam, nem de perto, para comprar mais cera, detergentes, lixívia, sabão, panos, esfregonas, e tudo o mais que fará falta, como seja sabonetes e champu para as casas de banho, e até algumas escovas de dentes e pasta para quem não vier prevenido. Sem falar em muito papel higiénico. O melhor será que acompanhe a Idalina nas compras para que não se acanhe e se sinta mais apoiada.

E que equipa de cozinha teremos? Aquela malta espera comer muito mas não quer sopas de couves nem carapaus grelhados. Temos que pensar nisso, seja na Vila, de preferência, ou numa agência idónea. Tampouco podemos armar em ricos nem em pobretanas, os dois extremos seriam ofensivos e criticados.

Quando tivermos a lista de presenças pronta, contando com os da mata, que te indicará o Ernesto, que os conhece a todos, incluído o homem da máquina, temos que ver o espaço que necessitamos; as mesas e cadeiras. As empresas de festas de casamento encarregam-se de alugar e trazer mobiliário, toalhas e roupa de mesa, vestir as cadeiras e trazer alguns empregados de mesa. Podemos tratar destes contactos via Internet.

Se decidires ocupar a adega, coisa na qual estou de acordo contigo, será necessário desimpedir do que lá houver e sem dúvida carece de uma limpeza de vigas, teias de aranha, paredes e chão. Tens que dar uma olhadela e decidir, também com a ajuda do Ernesto, se é aconselhável dar uma caiação. E a instalação eléctrica? Terá potência suficiente para iluminar as mesas, as pessoas e a comida.´mais uma instalação de música ambiental, escolhida criteriosamente (nada de pimba) e em surdina. O mais certo é que tenhas que contratar um eletricista encartado para verificar e, se for caso disso, reforçar a rede.

Se o a quantidade de presenças for alarmante, e ´se o teu Amigo Medeiros-Presidente se puser a jeito, quiçá a solução seja de facto o salão do clube. Mas, a meu ver, só em última hipótese. 

 Há mais coisas a prever, como pode ser o alugar umas arcas de frio para ter garrafas frescas. E uma instalação de som, mesmo que mínima.

Estou vendo um volume de trabalho e de responsabilidades em que não me sinto capacitada para conduzir. Excede as nossas experiências. O mais ajuizado, já que não de preocupas com a despesa, é tratar de contratar uma empresa de catering bem organizada e com referências de bem servir e agir. Eu estou ao pé, de corpo e alma, e armada de experiências diversas, para ajudar nesta empreitada, mas tu é que és o dono da casa e deves dizer da tua sentença. Não tens muito tempo para pensar.

- Caso penses aproveitar este "invento" para publicitar indirectamente a tua atitude social, pergunta ao Medeiros se pode dar um lamiré, com direito a cadeira e prato, a algum jornalista esfomeado daregião. Há sempre quem faça reportagens por um "prato de cozido".

- Está tudo pensado. Enquanto falavas vi que esta adiafa se tornou um monstro, ou que nunca imaginei que se passasse de umas galinhas em fricassé, uns lombos de porco assados e muitos doces caseiros. Minha querida esposa, estou nas tuas mãos. Faz como entenderes ser melhor e eu estarei sempre ao teu lado; só escaparei para fazer as minhas necessidades.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

CRÓNICAS DO VALE . Cap. 29




- Bem chegado Amigo Medeiros, também Presidente, mesmo que em certas ocasiões prefira deixar o estatuto de lado. É possível que, nem que fosse de vista ou de falatório, já conhecesse a minha actual esposa, depois de tantos anos de viuvez. Chama-se ISABEL Figueiredo, filha de um dos primeiros mortos no Ultramar do século XX, concretamente em Timor. Empresária e agora esposa.

Para ir até o restaurante que me disse recomendar podemos marchar a pé ou é melhor entrar num carro?

- Esta Vila não é das maiores e o local fica aqui no centro, de forma que andaremos e pelo caminho, que será curto, poderemos falar. Se não estou enganado a Dona Isabel tem um Salão de Beleza aqui na Vila, onde a minha mulher é cliente, com total agrado, segundo afirma (desta vez não se trata do Pereira) e que me deu as melhores referências tanto no trato pessoal como nos cuidados profissionais. Hoje não me acompanhou porque lhe insinuei que o jantar era quase que oficial, mas, precavida e desconfiada como são todas as mulheres, especialmente as esposas, deve ter cheirado que a Dona Isabel estaria presente. Não me pareceu melindrada, e até me encarregou de que, em caso de se confirmar esta companhia, lhe transmitisse os seus mais amáveis cumprimentos.

- Senhor Presidente, cá a Luísa pede que desculpe, Senhor Medeiros -ainda não me compenetrei de que devo prescindir, em privado evidentemente, do tratamento oficial- Mas quero deixar constância de que estou totalmente inocente deste crime, pois que afastar a sua esposa de um jantar entre amigos é mesmo um crime. Quando chegar a casa vai levar tau-tau! E já agora, se não se importa, qual é o seu nome caseiro, o de iniciar a assinatura?

- Óscar, um nome histórico, que o meu pai foi buscar ao tio que o meteu no seminário, de onde se escapou enquanto viu uma porta aberta. E a porta foi ter deitado o olho à minha futura mãe. E segundo ela mesma me contou, ao ver alto e bonitão, mesmo com as vestes do seminário, que eram as mesmas dos agora estudantes de Coimbra, decidiu que merecia um sorriso de incitamento. E cá estou eu para confirmar.

E já chegamos ao cantinho donde gosto de petiscar. Façam o favor de entrar.

- Pois eu, que também tenho almoçado aqui, e até jantado, não tenho memória de ter coincidido consigo. A partir de hoje já não poderei dizer que não partilhamos nada. Não me olhe desconfiado. é uma piadinha do mais angelical. Nem os tais seminaristas perdiam tempo com uma graçola destas, sem graça como é evidente.

Já que entramos e viemos para jantar, atendendo a que nós, os homens, não somos crianças e as digestões pesadas se pagam caras, com azia e insónias, sugiro que escolhemos pratos simples, frugais ou por aí perto. Veremos o que nos sugere a Cozinheira e Dona, que se recordo chama-se Gertrudes.

- Boa noite Dona Isabel e estimados senhores acompanhantes. Aparecem com muito apetite ou preferem alguma especialidade caseira que não lhes tire o sono?

- A Gertrudes adivinhou exactamente aquilo que os três comentavamos agora mesmo. Nem vale a pena ler a ementa do dia, caso fosse válida para o jantar-ceia. Diga o que nos propõe, se faz a fineza de nos orientar.

- Pois bem. Tenho umas trutas de rio bravo, que com uns grelos cozidos levemente, mas tenros como bebés, dão uma boa entrada. Depois posso preparar uns pratinhos, estilo tapas espanholas, mas bem servidas, com pipís bem temperados, lascas de lombo de porco preto grelhadas e com rodelas de batata doce, carapaus frescos em escabeche, e até uns ovos mexidos com espargos bravios. Creio que é bastante onde escolher, de modo que se há alguma coisa que não apetece ou querem sugerir algum prato que sabem eu faço bem, peço que, em confiança, digam.

- Da minha parte, e sem saber o que preferem os outros, dispensava os pipís e trocava por umas lascas de bacalhau, do alto, bem desalgado e temperado com vinagre de maçã, colorau doce e pimenta preta. Mas o quê dizem os membros do recente casal, já de papel passado? Isabel, pronuncie-se, s.f.f.

- Pois até estou em acordo com o deixar os pipís para uma petisqueira de vinho tinto, com caracóis e búzios, que são primos direitos uns dos outros. E se posso opinar, além de água fresca sem gás, uma garrafa de verde branco, do nosso ribeiro de Monção, creio que daria o complemento correcto.

- E não conseguem entrar com uma malga pequena de caldo verde, enquanto esperam? Foi feito agora mesmo; não são sobras do almoço.

- Tá certo, a Dona Gertrudes é que sabe. Ah! E pode servir os pratos consoante ficarem prontos, pois cá daremos conta de tudo.

CONTINUARÁ, se me decidir a isso...


domingo, 8 de abril de 2018

CRÓNICAS DO VALE - Cap. 28

DEDICATÓRIA

Este capítulo, assim como o e os que eventualmente podem seguir-se  (caso a vergonha não me atacar) dedico-os aos meus 4 a 6 seguidores NÃO IDENTIFICADOS, mas que além de merecerem a minha estima mostram uma dose de massoquismo deveras elevada. Abraços electrónicos.

O casal reúne-se

- Isabel, onde estás? Eu já terminei as minhas conversas com O Victor Moreira e o sócio Raul Reis. Nada de novo que se possa contar pelo telefone. Podemos encontrar-nos onde te calhar melhor, seja em Aveiro ou na Vila. Espero a tua resposta para poder decidir.

- Cheguei há momentos ao salão da Vila, e tenho alguns assuntos para ver e decidir. O melhor é esperar por ti aqui, e consoante a hora em decidimos para donde e como avançar. Mas pode demorar coisa de mais de uma hora a partir de agora. Beijinho.

- Senhor Presidente? Boa tarde. Sou o José Maragato, ou , Maravilhas se preferir e estou a caminho da Vila, ou do Vale se as coisas se arrumarem. É que me lembrei de caso não tenha o serão muito ocupado podíamos jantar juntos, mais a minha esposa, pois que casamos três ou quatro dias atrás. O que me diz sobre este convite inesperado?

- Boa tarde amigo Maragato, é um prazer falar consigo depois de uns dias de ausência. E dentro e uma hora, pouco mais ou menos, posso dispor do meu tempo livre para poder conversar e cumprimentar a sua recente esposa. Se não lhe parece mal penso que seria preferível jantar, com sossego, num local da Vila. Conheço um restaurante, pequeno mas de bom tamanho, onde a cozinheira é asseada e confere bons paladares aos pratos que servem. Pode ser? Ah, já me esquecia, peço que em privado não me trate por Presidente, sou, para si, simplesmente Medeiros.

- Sendo assim, fica tudo combinado, e agradeço a sua disponibilidade, Amigo Sr. Macário. Nos encontraremos no largo da Câmara Municipal.

- Isabel. Vou encontrar-me contigo na Vila, deixarei o carro no largo da Cãmara. E jantaremos num local que devo conhecer, mas que o nosso convidado pretende indicar. Não te admires de meter companhia na mesa, mas já te tinha dito que tinha que conversar com o Presidente da Junta de freguesia do Vale, e um encontro num lugar mais ou menos neutro pode ser menos protocolar, como sei que entendes. Teremos tempo para por os nossos assuntos privados em dia quando chegarmos a casa. Ainda vou telefonar a Dona Idalina.

- Dona Idalina? Boa tarde. É para lhe dizer que vamos passar a noite na mansão, mas jantaremos na Vila. Como está frescote e a cama deve estar gelada seria bom que já de noite ponha um saco de água quente a meio da cama. Eu ligarei da Vila quando estivermos para nos meter em caminho. Tenha, também, qualquer coisa para o pequeno almoço. É tudo, obrigado e desculpe ser tão em cima da hora.

- Não tem que pedir desculpa menino José, que ainda o vejo com calções brincando no jardim, tentando apanhar os pardais.
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Já na Vila

- Boa tarde. Como está a menina Sofia? Que está bem vejo eu. Se não ficasse feio eu dizer isso dispararia que está mesmo apetitosa. Mas, cuidado, não fui eu que me atrevi a tanto, foi o diabo que carrego. Pode avisar à Dona do salão, minha conhecida Isabel, que já cheguei?

- Vou já dizer a Dona Isabel que está aqui. E grata pelo seu piropo. Os seus ditos não são daqueles de denunciar na esquadra.

- Eu não entro porque, se não estou errado, deve estar em reunião com a encarregada, e não é bom atrapalhar reuniões. Vou-me entreter com esta literatura, muito séria, que tem à disposição do excelentíssimo mulherame que procura embelezar-se, ainda mais do que a natureza lhes facilitou, neste salão que as cuida com esmero. Diga lá dentro que não tenho pressa. Espero o tempo que for preciso para poder ser atendido.

- José. És um brincalhão incorrigível, e deixas o pessoal baralhado com as tuas graças. Espero que desta feita não tenhas sido excessivamente atrevido, pelo menos não tanto como é o teu habitual. 

Vou só dar um retoque e vestir um agasalho para poder acompanhar este cavalheiro, antes de que chegue o meu marido, que disse que vinha cá ter. Oxalá que não nos apanhe. 

Não és só tu que sabes desconversar !

Então, não tens novidades?

- Algumas, mas pouco importantes. Para começar os amigos do peito -a pagar, quando se entra no campo profissional como é óbvio-  informaram-me que, por enquanto não lhes chegou mais nenhum pormenor acerca do morto. 

Para a Judiciária ainda deve ser coisa fresca; nem sequer está no segredo do sumário, pois diz-se que o primeiro relatório não foi entregue. As previsões mantém-se na mesma. Que aquilo deve ter começado naquela festa de rebaldaria. Na qual certamente meteram-se no terceiro ou quarto grau. Tudo bêbado ou quase, se não drogados com picas, fumo e pó branco. Já sabemos o que a casa gasta nestes encontros, onde misturam gente bem, endinheirados e de posição, com membros da ralé, eles, elas e ambiguos como o travesti em questão. Habitualmente são nojentamente usados e. se for entendido como necessário, deitados fora, o que equivale a os fazer desaparecer do mapa. Nada que não tivéssemos comentado entre nós.

Daquela minha ideia de transferir o meu escritório “fantasma” da Vila para Coimbra, nem sequer falei, pois que, friamente, entendi que no que está bem não se deve mexer. E a situação que mantive até agora cumpriu, a gosto, a necessidade de recato. Sabes, ou ouviste dizer, que o segredo é a alma do negócio. E os negócios dos Maragato sempre se trataram com muito cuidado, sigilo e à distância. Recorda aquele provérbio que te disse na viagem de comboio: Uma mão convêm que não saiba o que faz a outra. Portanto não leves a mal que nalguns temas te cheire que escondo cartas na manga. É para nosso resguardo, meu e teu.

Do que sim tratei foi de os convidar para o almoço no Vale. Só precisam de saber a data, e se for num sábado ou domingo, dias em que não há julgamentos, em princípio estarão disponíveis e agradados em nos poder acompanhar. O sondarem o inspector da Judiciária não sabem se é boa ideia. Tudo depende de se fazerem encontrados e ver que face lhes mostra. Já nos informarão. Quem sabe se o homem se põe a jeito.

Olha, já chegou o homem da Junta de Freguesia.


sexta-feira, 6 de abril de 2018

CRÓNICAS DO VALE - Cap. 27


Já perto da Lusa Atenas 

- Passado Pombal chegar a Coimbra é o salto de uma cobra. Vamos recopilar o que tínhamos combinado, ou mesmo sem estar totalmente definido. Da minha parte tenho que entrar em contacto com os meus advogados de estimação, com os quais quero, entre outras coisas pendentes, lhes expor uma ideia que me buliu nestes dias últimos. Coisa simples.

- Pensei que em vez de ter um escritório na Vila, quase perpétuamente fechado e com contacto pelo gravador e com aquela placa junto à entrada com osdizeres de José Mragato CONSULTOR, que não sendo uma actividade reconhecida oficialmente lhe aufere um ar algo ocultista, que confesso me agrada muito, se calhar era interessante transferir a "sede" para Coimbra. Não está decidido, mas já germinou. 

- Também lhes quero perguntar se aceitam ser convidados, e, data não marcada por enquanto, para atal almoçarada que prometí oferecer no Vale do Pito. E, se não lhes parecer um atrevimento descabido, convidarem em nosso nome, o inspector da Judiciária que tem sido, pelo menos até agora, simpático e atento. Claro que o convite seria a título pessoal, como pessoa civil merecedora de respeito e não seria apresentado ao povo como inspector. Embora alguns o devem ter visto no local e passarão a notícia aos restantes.

- Irei ligando para ti a fim de acertar as agulhas, e quando estiver pronto a partir veremos o que fazemos. Mas se puder ainda convinha que me encontrasse com o Presidente da Junta.

-  Pois eu tenho pressa para passar pelo salão de Aveiro e depois com o do Vale. Também eu meditei neste intervalo nas Lisboas. Pode ser uma ideia maluca, mas que opinas de que amplie o local de Aveiro e passe a ser um salão unisexo? De preferência, para não alarmar as clientes mais conservadoras e retrógradas, com uma separação subtil entre as cadeiras de homens e senhoras. Mais complexa seria o fornecer tratamentos de pele e massagens, que, normalmente, são feitos com as damas em trajos menores, ou mesmo sem roupa se forem depilações à brasileira.

- Parece-me uma ideia actualizada, e que até pode chegar um pouco tarde. Mas o meu conselho é que deves avançar. Isto implica um local com bastantes metros quadrados, uma decoração cativante, moderna, séria, mas luminosa, e um mobiliário que devemos procurar em boas casas que conheçam e forneçam o material necessário.

- E apliquei o plural não por descuido, mas porque esta iniciativa, que suponho ainda não tentaste orçamentar, deve carecer de um bom fundo, ou de um empréstimo bancário. Esta segunda hipótese vamos descarta-la de imediato, mas, para resguardar de problemas, teremos que tratar de pagamentos faseados no tempo, dando a ideia de que se pensa pagar tudo com o pelo do mesmo cão.

Agora ficamos em que cada um vai para o seu lado. Tens o carro guardado longe da estação, ou está perto? 

- Aqui mesmo ao virar da esquina. Vou direita a Aveiro e alí almoçarei, acompanhada pelas empregadas que estejam livre, tal como me tens mostrado que se deve fazer para as manter agradadas, ou um bocado,pois quem recebe ordenado, mais gorjetas, o habitual é que o patrão/patroa seja visto como um inimigo. Felizmente há excepções, mas poucas e andam nas nuvens. Falaremos. Beijoca!

.......

- Bom dia. Algum dos doutores está no seu gabinete?

- Tem sorte, Senhor Doutor, estão ambos e sem estarem acompanhados.

- Então agradeço que os avise,dizendo que os venho buscar para irmos a almoçar. Isso se não tiverem algum compromisso que lhes impedir de aceitar a minha companhia.

- Claro que aceitamos, caro amigo Zé. Dá cá um abraço. Dois, que eu também o quero cumprimentar.

- Querem um local académico, para este saudoso, ou um restaurante chiquérrimo, com nova cozinha?Vens provocador! Eu, que sou teu convidado, em companhia do 3F, vamos conduzir-te a um velho local, que esteve mal afamado durante uns tempos, mas que renasceu das cinzas como um Fénix da restauração. Cuidado, que até pode ser que o dono seja, de facto,monárquico e por isso sonhe, acordado, com a possibilidade de entronizar a Dom Duarte Nuno, mais a sua Hereida que, por sorte ou por criação jamais se disse que tenha cometido as gaffes da nova rainha das Espanhas. 

- Chegamos. Zé, recordas-te deste poiso de quando eras republicano? Esteve fechado, quase numa ruína, durante uns dois longos anos até que este lançado e benemérito cidadão, merecedor de garfos e colheres outorgados pela empresa “Michelinho” dos pneus. Verás que aqui se podem degustar os pratos típicos de Coimbra e arredores, mas com absoluta confiança, pois o dono vai todos os dias ao mercado seleccionar o que entende estar fresco e com possibilidades de ser tratado na cozinha com todos os requisitos. 

- Estes requisitos justificam plenamente, para os entendidos, a não existência de uma ementa impressa, daquelas que nunca mudam ao longo dos meses. 
O dono, preparado com o avental, impoluto, de cozinheiro da pousada do século XIX, tem por hábito chegar-se aos que pedem mesa e, depois de os acomodar, dizer de viva voz os pratos que eleborou. Se os clientes se mostram surdos ou respeitadores das normas actuais, ele mostra uma ementa escrita manualmente e fica à disposição para poder descrever os diferentes pratos.

- Pode ser que hoje tenha lampreia à bordalesa, prato que os apreciadores lhe tem dado, sempre, a nota máxima, de excelência A acreditar nos comentários ouvidos por nós mesmos. Ou seja que não emprenhamos de ouvido. 

- Eu é que não posso opinar, pois ver aquele molho de sangue impede-me de o submeter à prova do paladar. Aliás todos os pratos com sangue no molho, rejeito-os de imediato. Deve ser uma embirração gerada quando criança, pois recordo que o meu pai tinha a mesma mania. Entre outras. Isto herda-se.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

CRÓNICAS DO VALE - Cap. 26



- Quem toca a estas horas?

- Fui eu que marquei que nos acordassem cedo, pois temos que apanhar o comboio para Coimbra logo que chegarmos à estação. Daí que, menina e moça, toca a levantar fazer uma toilette sumária, quase à gato, fechar o saco a descer. Eu já estou pronto, e logo que veja que estás em andamento vou para a recepção fazer contas e pedir um taxi. Tá tudo entendido?

- Certo, Senhor Coronel. E para matar o bicho, quê? Sabes que esta pequena refeição está incluída no preço.

- Só podemos aviar de corrida, practicamente em pé. Tinha pensado tratar disso na estação ou no comboio em andamento. Mas, atendendo ao que necessitas, desço já e pedirei ao consierge que veja a que horas parte o comboio que nos interessa. Espero por ti no lobby ou na sala de pequeno almoço; depende do que me informem.

- Bom dia. Queria fechar contas, mas antes necessitava de um favor da sua parte. Pode ver nos horários da CP quando passa pela Gare do Oriente o próximo comboio para Coimbra?

- É um instante, Senhor Doutor. Creio que como já partiu o primeiro ainda terão tempo de tomar o nosso pequeno almoço com um certo sossego.

- Afinal estarei à tua espera, a não ser que desças primeiro, na sala de pequeno-almoço.

- Aceitarei o seu conselho e necessito de mais uma atenção da sua parte. Caso não venha um táxi por decisão própria até a porta do hotel, seria tão amável que daqui a uns 15-20 minutos peça um carro, com indicação de que será directo para a Gare do Oriente? É que não quero dar de cara com um esperto que me leve a passear até Montes Claros ou os Jerónimos.
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- Bem, tudo encaixou. Já temos os bilhetes e o rápido, Intercidades ou seja como lhe chamarem, deve estar a chegar. Se viemos até esta estação, que nem sequer é da minha preferência, foi para fugir ao transito que a esta hora se dirige à baixa. Assim conseguimos perder menos tempo.
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- Estes lugares são cómodos e espero que seja possível conversar com alguma intimidade, pois nenhum dos dois gosta de transferir e terceiros, e para mais desconhecidos, os temas das nossas conversas. E recordas que antes de adormecer prometeste iniciar-me, com as devidas cautelas, nos mistérios da vida dos Maragatos. Sim, porque tenho o palpite de que muito do que decidas contar, que certamente não será tudo, remonta a um passado muito interessante.

- Se queres que eu desbobine terás que aceitar as meias palavras e as metáforas com que tente camuflar pormenores sigilosos. De qualquer forma já te contei que tudo começou com o meu avô. Um militar espanhol que fugiu para a Guarda depois de uma intentona, pifiada, de golpe de estado. 

Não sendo parva deves saber que os militares, quando não andam aos tiros, tem pouco ou nada que fazer. Passam os dias massacrando os magalas, conversando na messe ou nos cafés. Naquela época os milicos andavam pelas ruas fardados, e se eram novos, e mais até se alunos da escola do exército, faziam os possíveis para galar as meninas casadoiras, que enxameavam as casas de chá e os passeios públicos.

O avô, não sendo militar no exército português, sabia dos hábitos dos milicos. E de como os bolsos dos oficiais estavam, em geral, magros, carentes de fundos. Ele, habituado à galhardia de convidar dos espanhóis e como já tinha proventos especiais, por assim dizer, depressa se tornou popular entre as autoridades militares, civis e até religiosas, da cidade fria, feia e farta. 

Devia ter, nos seus bons tempos, uma figura interessante, um bigode à maneira e à sua volta uma núvem de fulanos ansiosos de comer e beber às suas custas. Digamos que o avô começou a semear numa seara que não era da sua propriedade, pelo menos então, pois com o tempo tornou-se um proprietário de bens imóveis e terrenos tanto de cultivo como de provável interesse urbanístico futuro. Teve olho nestas formas de amealhar.

Concretizando: O avô a partir dos contactos que já tinha em Portugal, deu outro impulso ligando os conhecimentos em Espanha, principalmente entre os militares e o comércio de armamento, e o que foi descobrindo, com o seu feitio nada acanhado, mas sempre prudente. Do contrabando de artigos de consumo, ao se abrir o conflito da guerra civil, ou melhor da rebelião militar de índole fascista foi pertinente atender outro tipo de solicitações. Mais ou menos as mesmas que se ampliaram quando rebentou a segunda guerra mundial. As possibilidades de negócio em Portugal cresceram exponencialmente. Nesta altura também o meu pai entrou no esquema.

Não podes imaginar a lista, enorme, de artigos que, por estarem em bloqueio, e com Portugal neutral, nos pediam, sem descanso, e que os Maragatos, pelo seu próprio interesse conseguíam contrabandear. Havia tantos a lucrar que era impossível manter segredo. Ou seja, todos sabiam das artimanhas, quase sempre infantis, que se usavam para enviar para os franquistas e depois para o eixo. Havia mãos estendidas por repartições, estradas e fronteiras. Tudo comeu à farta. Enquanto os desgraçados passavam agruras e nos países em guerra morriam ou ficavam estropiados. Até papel se enviava para além de Elvas

Era um mundo insuspeitado onde poder fazer negócio, ganhando dinheiro, ouro, diamantes, tudo o que tivesse valor e com o qual podiam pagar as contas. Desde o volfrâmio, passando aos combustíveis, conservas e todos os bens alimentares, metais em barra e trabalhados, como fio de cobre. Cortiça para isolamento. Medicamentos passados dos aliados para o eixo, em especial a penicilina. A lista era longa e cada dia era actualizada.

Na casa paterna o dinheiro fresco entrava aos sacos. O avô e o meu pai aplicaram fortunas em bancos, dentro e fora, em propriedades, etc. Os rendimentos foram de tal ordem que, se assim desejássemos, não tínhamos necessidade de mexer numa palha no resto das nossas vidas.

- Então vives dos rendimentos! É isso?

- Podia ser, mas tendo uma estrutura omnipresente seria uma burrice se a deixasse morrer. Mas este é outro capítulo. Fica para outro dia.