segunda-feira, 3 de julho de 2017

CRÓNICAS DO VALE cap 6

(este capítulo já foi revisto e corrigido)

UM ENCONTRO CASUAL

Quando já o ar estava numa temperatura aceitável, José Maragato dirigiu-se, calmamente, até o café da Casa do Povo na ideia de beber uma cerveja fresca e ter uns dedos de conversa com os paroquianos habituais. Bem vindo Zé!, clamaram em uníssono. E logo arrancaram lamentando-se, quase que com lágrimas nos olhos, de que o prometido festival da chuva doirada não se realizasse. Olhem, tem que pedir responsabilidades do vosso desânimo aos beatos e beatas, vossos vizinhos e amigos, que fizeram queixinhas, afirmando que havia quem pretendesse fazer desta aldeia uma nova Sodoma ou Gomorra.

Os desocupados que estavam amarrados ao balcão ou sentados nas cadeiras que, em conjunto com seis mesinhas, enfeitavam a sala, olharam-se interrogativos, mas mudos, até que o Pedro se atreveu a perguntar: o que é isso de Sodoma e Gomorra? É uma história da Bíblia, do Antigo Testamento, uma das muitas em que se refere que o Deus Pai não tinha, jamais, dó nem piedade para quem não alinhasse com as suas ideias. Não cumprir com as suas manias era a garantia de morte súbita e cruel, com requintes de malvadez, tal como aqueles que morrem de gozo quando ejaculam a nove, espasmódicamente. Podem morrer de gozo, mas morrem e só lhes fica o triste consolo de ver, desde os ares como um drone, as lágrimas de crocodilo de quem o tinha enfiado entre as suas pernas bem abertas.

Pedro não se deu por vencido: As pessoas com coração fraco deviam saber que não podem entrar em desportos violentos. Mas o Zé acabou de referir uma situação que já ouvi noutras ocasiões, mas que ainda não entendi. O que querem dizem com isto de andar a nove? É coisa de Lisboa e das cidades que tinham carros eléctricos. Quando o condutor pedia a máxima velocidade ao veículo, colocava o manípulo do reóstato no ponto 9. Equivale ao termo que deve ser mais vosso conhecido de “correr na ponta da unha” Mais uma que ouvi em muitas ocasiões e cujo significado me escapa. Tenho pena, companheiro Pedro, neste caso, que atribuo a ser pouco observador daquilo que os seus olhos veem, mas que a cabeça não analisa. A frase refere que quando uma montada, preferentemente um cavalo, corre desalmadamente, deixa no chão só a marca da ponta do casco, pois é ali onde se apoia e faz força para impulsar o corpo, só deixa marca do casco completo quando anda devagar.

Manuel quis entrar na conversa dizendo que não era de admirar que os beatos dessem as novidades, infelizmente não realizadas, ainda mal tinham sido pronunciadas na sala. Ora, amigo Zé, aqui sabe-se tudo no momento. Só se desconhecem os cornos da própria cabeça. O que acontece, com os temas que metem pintelhos, é tentar que fiquem guardados em cada casa, menos quando os encontros se dão num palheiro, no meio do campo ou, modernamente, no interior dos carros. E nas carrinhas e “fragonetes”! ajuntou o Ernesto. Sei de um que dentro da caixa fechada traz um colchão de espuma, bem enrolado, cortado à medida para ali poder fornicar valentemente sem ficar com dores nas costas.

Se eu tivesse uma nota de cinquenta “aéreos” por cada foda extra e alguma outra nota para quem recebeu na cara a mija da sua namorada, mulher ou amante casada com outro, já não me choraria da miserável reforma, que sei a quem devo agradecer. Aos socialistas que nunca votamos, acrescentou o João moleiro, cujo moinho está parado desde décadas. Não votamos porque o cura nos mete medo com os esquerdistas, dizendo que eles nos tirariam as terras. Para quê quereriam eles estes ermos? Disse em sentença o André ruço. E acrescentou, ele que era de poucas falas: o presidente da junta nos contou da sua nova proposta de festejos, desta vez no ramos das comidas, ou gastronomia como dizem os mais educados. A novidade é que, aproveitando mais uma vez o nome deste lugar, excitou a malandrice com umas palavras de ordem. È assim que se diz, amigo Zé? Perfeito. O André surpreendeu-me, pois sempre o vi entrar mudo e sair calado, ou vice-versa.

O que eu gostaria é que o Zé Maragato -uma vez que já não nos atrevemos a dizer Maravilhas, que foi uma alcunha ganha com mérito dadas as histórias sempre interessantes que nos foi contando ao longo dos anos- nos desse mais pormenores da sua ideia, pois, mesmo que não se venha a realizar, que é o mais certo, sempre nos alegrará nestes dias de pasmaceira. Faça a fineza de nos explicar tudo de forma que nós entendamos, sem o interromper.

Senhor André. E dirijo-me a si em particular porque foi quem me desafiou. Se bem imagino que o André falou em representação de vós todos. O que não impede a que, uma vez que já expliquei a táctica imaginada ao vosso presidente da junta, que seja ele, que vos conhece melhor do que eu, quem vos de notícia com um vocabulário que não vos deixe desorientados. E olhem quem entra agora!

Boa tarde, Senhor Presidente, estávamos agora mesmo a falar na sua pessoa. Mal, com certeza. Nada disso, antes pelo contrário. Acontece que eu tenho que vos deixar devido a um compromisso já marcado com antecedência. Tenho à minha espera um potencial cliente, interessado em comprar uma residência de campo, precisamente neste vale do Pito. Antes de vos deixar gostaria que o Senhor Presidente, aqui presente, vos desse alguns pormenores acerca da minha proposta de instaurar uma semana gastronómica centrada no excelente paladar do frango criado no campo, à antiga, mesmo que já hajam poucas bostas de boi pelos caminhos e terrenos onde possam debicar, afoitamente, os galináceos.

Meus estimados companheiros. Vos deixo bem entregues ao vosso Presidente eleito

Próximo capítulo, séptimo

José Maragato vai vender a sua casa e abandonar o Vale do Pito



domingo, 2 de julho de 2017

CRÓNICAS DO VALE- cap. 5

(Este episódio já foi revisto e corrigido)
 
QUEM É JOSÉ MARAGATO

Fazer a biografia desta personagem, pois que, de facto é uma pessoa notável não só na terra onde reside, Vale do Pito, como na Vila, na sede de concelho e até na capital de distrito, não é tarefa fácil. Não se pode despachar com três palhetadas. Podemos dizer que, sempre adepto de não dar nas vistas, fomos sabendo que tinha longos tentáculos. Muitos herdados e outros de criação própria.

Para tentar entender é pertinente recuar algumas gerações.

O seu avô, paterno, conhecido como Don Paco Maragato, era espanhol de origem e criação. Natural de Astorga, capital da Maragateria burgalesa, tinha orgulho na alcunha de maragato, tanto assim que lhe deu o estatuto de apelido quando se inscreveu em Portugal, quando acompanhou o seu filho Ricardo ao ter que este teve que fugir para cá, exiladando-se. Ricardo, com habilidade e manhas por baixo da mesa, consegui tornar-se num abastado comerciante em grosso, abastecedor de quartéis,  hospitais, e outros organismos onde lhe fosse permitido ser fornecedor de tudo e mais alguma coisa. Ganhou um estatuto que lhe possibilitou, apesar de ter estado na lista dos indesejáveis na esfera militar espanhola (tudo muda nesta vida. O que está em cima passa para baixo, e volta a repetir o baile) mantinha contactosjá em altos postos nos quarteis, e com ajudas conseguiu inscrever o filho Ricardo (futuro pai do José Maragato) na escola militar de Toledo, de onde saiu com o grau de tenente de artilharia. Foi destacado à guarnição fronteiriça de Ciudad Rodrigo.

Estando a fronteira estável, tranquila, Ricardo tinha muito tempo livre, que aproveitou para conhecer e expandir a rede de contactos que o seu pai já tinha a ambos lados da fronteira. Digamos que um dos seus muitos negócios figurava o contrabando. O que implica ter bons conhecimentos, de confiança e em quantos mais centros de poder, melhor. 

Mas a vida ociosa dos quartéis sempre foi propensa para a montagem de golpes militares. E Ricardo entrou numa destas aventuras, com reservas; mas estava na lista dos golpistas. Não tiveram sucesso. E antes de que fosse metido numa prisão militar, não se imaginando engaiolado, desterrou-se voluntariamente em Portugal, radicando-se na Guarda, onde já tinha uma casa alugada para as sua aventuras de saias e negócios. Mal chegou a Guarda tratou de entrar nas boas graças dos governadores civil e militar, com aquele jeito, inato, que os espanhóis têm de fazer amigos instantâneos. O que ele queria, e conseguiu, era o poder ter a nacionalidade portuguêsa, dando assim início à presença do clã maragato no País.

Desde a Guarda, o Ricardo, governava, sem dar nas vistas, uma extensa rede de contrabando, com a qual ao longo da segunda guerra mundial foi intermediário, oculto, da passagem clandestina de volfrâmio. Além deste minério comercializou muitos mais artigos, uns para um lado e outros para o outro. Sempre ilegalmente, mas sempre com apoios informais, mas poderosos, pois que embora a moeda fosse diferente o dinheiro compra amizades e favores, em toda a parte. Só é preciso ter espírito aberto para fintar as leis e descobrir o ponto mais adequado para conseguir o que se pretende. Com isto conseguiu amealhar uma grande fortuna. Que herdou o seu filho José, fruto do casamento civil com uma senhora sem fortuna pessoal, mas bela quanto bastava, de nome Sofia.

José, que desde criança acompanhou o seu pai, Senhor Ricardo Maragato nos seus negócios e inclusive nos seus encontros clandestinos ou reservados, onde era visto como uma criança inocente, sem captarem que tinha os ouvidos e olhos muito atentos ao que ia acontecendo. Uma vez a sós, o pai Ricardo lhe pedia que contasse tudo o que tinha visto e ouvido.

Noutro capítulo da vida refiro que José Maragato iniciou o seu percurso académico na Guarda, onde terminou o liceu e lhe permitiu inscrever-se na Universidade de Coimbra. Instalou-se numa Real-República. Primeiro “estudou” Filosofia e Letras, onde conheceu a Constança, que veio a ser sua futura esposa. Depressa se fartou da filosofia, quando deduziu que aquele caminho não abria portas que rendessem bom dinheiro. Por isso fez a transferência para Economia e Finanças. Não tardou a se enjoar neste tema, tão afastado do que trilhou inicialmente, Daí que mais uma vez desistiu. Não queria ser um lente na faculdade; concorrer a um posto na administração pública ou vir a ser um lacaio de um conselho de administração. Nenhuma destas possibilidades não lhe enchia as medidas. Queria ficar a conhecer, com os pormenores da vida real, aquilo que lhe poderia facilitar o saber herdado do pai, daí que desceu para o nível da Contabilidade Comercial e Fiscal, vulgarmente conhecido como como jogar, procurando ganhar, com os Impostos.

O namoro com Constança permaneceu activo. Foi apresentado aos pais da menina, nomeadamente ao comendador Serafim de Sousa, que ganhou a comenda depois de regressar do Brasil com algumas arcas recheadas, e com elas financiar a construção de um hospital e lar de recolha na sede do concelho. Ali, quase paredes meias mandou erguer um casarão onde colocou o recém desenhado brasão que, a força de dinheiro, conseguiu que acompanhasse o grau de comendador bem-feitor. Teve três filhos legais em Portugal, e deixou uma fila de bastardos no Brasil. Constança era a mais nova da família.

Quando casou com o José Maragato levou com ela, no dote, a bela casa de férias da família do comendador na aldeia de Vale do Pito, que por ser fresca no verão, só visitavam quando fugiam do calor. No inverno sempre foi sumamente gélida. Mesmo a instalação de uma caldeira e uma rede de radiadores para aquecimento central não evitava o andarem agasalhados quase como exploradores árticos.

Zé Maragato, que enviuvou no terceiro parto de Dona Constança, vive practicamente só neste casão “de estilo revivalista português, mas senhorial quanto baste”. Os dois filhos vivos, pois que o terceiro acompanhou a mãe ao nascer já morto, moram na capital e raramente viajam até a mansão paterna. E, imaginando-se senhores do seu nariz, não querem saber de pormenores dos negócios do pai, Zé Maravilhas. Sem respeitar que é destas negociatas que comem e desfrutam.

E chegamos à pessoa em causa. Homem conversador, aparentemente aberto, raramente diz nada de carácter pessoal ou profissional. O que soubemos para preparar esta biografia deu muito trabalho de pesquisa e dialogar com as pessoas que conheceram a sua família.

Popular entre os residentes em Vale do Pito, é a ele que recorrem quando necessitam de um parecer sobre impostos, alguma cunha ou mediação em negócios, em especial na transacção de propriedades, de onde colhe, legalmente, alguns proventos. Consta, sem provas, que manteve em actividade a rede de contrabando transfronteiriça, pelo menos até a eliminação das barreiras alfandegárias. O que pode não impedir, totalmente, o transito clandestino e certos produtos que, prudentemente, não identifico.

Viúvo sem que se decidisse a mudar de estado, não consta que tenha uma vida monacal. Os boatos indicam que mantêm uma ligação, já de longa data, na sede do concelho, com a dona do salão de beleza Lizzi, Isabel no B.I. Não sendo uma menina nova pode-se dizer que está em muito boa forma, bom corpo e notável aparência. Além de sempre mostrar um“fino trato” pois foi educada nos bons costumes e estudo até o séptimo ano do liceu. Não se conhecem, de um e outro, filhos ilegítimos.

José Maragato desloca-se diariamente à sede do concelho, e com certa frequência à capital do distrito. Nas horas que ele entende permanece no seu escritório, na mesma rua do salão de estética. Na fachada mandou colocar uma placa de latão polido com os dizeres José Maragato CONSULTOR (não se sabe de que temas, mas o termo a pouco compromete, menos do que mediador. O homem tem bastante subtileza) Só abre as portas após identificar e aceitar o visitante.


sábado, 1 de julho de 2017

CRÓNICAS DO VALE cap. 4

(já revisto e corrigido)

Da conversa amena

Pois, amigo Maragato, vamos então para este intervalo mediático de café falado ou dialogado, pois que estou curioso para saber o que me quer referir, e que suponho deve estar ligado à sua ideia de criar, neste canto ignorado, um evento bastante inusitado e que levantou alguma poeira.

Se não se importa, Senhor Presidente, recordo que existe a ideia, emanada das altas esferas, de que entre o povo tudo anda sobre esferas, no melhor deste mundo. E sabemos que a realidade não é bem esta. Que se aproveitam dos horizontes limitados destas gentes. Cidadãos que só são procurados e afagados quando se deseja o seu voto nas urnas. Após a contagem voltam a ser vistos e considerados como a carneirada.

Já estamos a entrar em temas que não se podem comentar em via aberta, expostos à coscuvilhice local. Por isso era conveniente nos situar num local recatado. Eu até sugeri o seu gabinete. Não ali as paredes tem muitos ouvidos. Não se pode soltar um traque sem que de imediato seja do conhecimento de toda a aldeia. Temos que encontrar um sitio, sendo possível em terreno neutro onde, sem estar escondidos, fiquemos longe das orelhas curiosas.

Óptimo. Por mim estou de acordo, se bem que nada do que pretendia conversar, a nível de amizade ou fraternidade, como preferir, é desconhecido pelos que andam neste mundo sem exclusivamente pastar. E se nos instalássemos no topo da reduzida bancada que se levantou num dos laterais do campo “poli-desportivo”? Certo. Não creio que possa ter escolhido melhor localização. E a estas horas fica à sombra dos altos eucaliptos. Diga da sua sentença, Senhor Maragato.

Antes de mais testemunhar que, com os poucos meios económicos e humanos de que dispõe. o nosso Presidente da Junta, tem procurado elevar o nível cultural e ambiental da aldeia, com o bizarro nome de Vale do Pito. Não vou fazer um inventário ao estilo das campanhas de promoção nas eleições, mas quero destacar a sua decisão de nos oferecer uma rede de accesso à internet, gratuita para o utente mas certamente que com custos para a Junta.

Obrigado Amigo. Esta iniciativa foi tomada, como disse nas entrelinhas, com o propósito de, paulatinamente, abrir as janelas do mundo actual, e futuro, aos residentes. Sei que os efeitos positivos, ultrapassando a fase badalhoca e da irresistível exposição pessoal desmedida, terminará por dar frutos. E para que tal aconteça confio nas novas gerações, que quase instantaneamente sabem tirar proveito das capacidades deste sistema e dos outros que correm paralelamente.

Antes de que, ao bater palmas, nos esqueçamos do importante, pelo menos a meu entender, é retirar conclusões depois do aborto da tal escandalosa proposta de um Festival da Chuva Dourada. Tinha a noção de que, entre os mais crescidos, ou adultos, para não lhes chamar idosos ou velhos, que hoje tem um carácter quase ofensivo, eram muitos os que ignoravam esta, digamos variante, faceta do erotismo “selvagem”. Pelo menos ao propor esta fantasia dei uma pedrada no charco.

E que pedrada Maragato! As ondas de choque chegaram longe. Até se diz, e não acredito, que depois de bater à porta do Patriarcado, as apresentaram na Santa Se!

Ora, já estamos na onda. Para já, de entrada, e admitindo a realidade de que a proposta não tinha cabimento nesta aldeia, é bom referir que certames bem mais escandalosos já se tornaram habituais, pelo menos numa periodicidade anual, em Lisboa e Porto, sem que a Cúria, tão zeladora dos bons costumes, tenha conseguido travar esta evolução.

Entre nós, e não sendo eu propriamente um timorato e saiba que Em toda a casa há roupa suja, entendo que uma dose de boas maneiras não causam dano algum. E, caso não reparasse, no meu discurso não referi, por ser sumamente abjecta, ofensiva e humilhante para as mulheres, que devemos respeitar uma vez que todos fomos engendrados num corpo feminino, é a da variante na tal chuva dourada em que o homem despeja a sua bexiga no corpo, e preferentemente na boca, de uma dama, seja ela nova, crescida ou já socialmente degradada.

Mas, se me for permitido, e voltando ao tema, esta diferença de trato entre as duas capitais de Portugal e as restantes cidades, vilas e aldeias, ficou bem explícita nas pressões que lhe foram transmitidas e que o empurraram a agir obedecendo aos superiores designios. Como se tal reacção fosse necessária, uma vez que aquilo não passava de ser uma provocação que deu seus frutos. Um deles foi ver como estes mandantes engoliram o anzol, com fio, cana e carrete, tal como os aldeões que eles desprezam. Esta é mais uma prova, que parece não ter importância, mas que a tem subjectivamente, de como os poderosos querem manter, a todo o custo, o povo sem capacidade de agir nem protestar. Como nos entendemos e coincidimos, Amigo Maragato!

Não quero deixar de referir o cinismo e duplicidade de comportamento da Igreja, pelo menos de demasiados membros da sua tropa, em todos os seus graus estatutários, sem esquecer os desmandos sexuais de muitos Papas e Cardeais que a história nos mostrou não respeitarem o seu celibato, que sempre insistiram em que deve ser respeitado pelos outros. Alguns cometeram inclusive incesto com suas filhas ou irmãs, sem serem as da caridade, que estas merecem outro estudo. Sabe, Senhor Presidente, que esta aldeia nunca teve um padre residente. Sempre foi servida por um a tempo partilhado, quase que um itinerante, e mais recentemente com a ajuda de algum diácono, que depois de uma preparação ao estilo das tais novas profissões, ficou encartado para poder exercer alguns, que não todos -por enquanto- os mesteres da “profissão”. Pois tal carência de uma presença física permanente não impediu a que as almas que se arvoram em defensoras da fé e dos bons costumes denunciassem, sem esperar o que é que aquilo (não) podia dar.



sexta-feira, 30 de junho de 2017

CRÓNICAS DO VALE cap 3

(este capítulo já foi corrigido)

Onde se referem os arrazoados de uma convocatória

Ainda não eram dez horas da manhã e o funcionário da Junta andava pela aldeia à procura do Zé Maravilhas. Trazia na mão um papelinho, dobrado e metido num envelope de cor amarelo velho, que o Senhor Presidente lhe incumbiu que entregasse, pessoalmente, em mão própria, a quem estava endereçado.

Localizou o indagado na sua horta, já finalizando a rega recomendada para refrescar as hortaliças que sempre cuidou com esmero. Ao abrir o sobrescrito viu que só continha uma linha de texto: Solicita-se ao Senhor JOSÉ SOUSA MARAGATO para se apresentar, logo que possível, no gabinete do Senhor Presidente da Junta de Freguesia. Nada mais.

Vendo que, desde que o Zé tem memória, o ser referido pelo seu nome oficial raramente, por não dizer nunca, era corrente na aldeia, pensou, sem hesitar, que já tinha rebentado a bomba que tão detalhadamente preparara. Uma daquelas premonições que os que gastam mentes pensantes recebem, como se enviadas pelo Santíssimo. Salvo seja!

Este encontro, que certamente não será para me pedir em casamento pois que as mais recentes modas levam décadas a chegar nestes lugares recônditos do Portugalito profundo, e eu não estou afim de me juntar a um macho. Dando o benefício da dúvida à masculinidade de presidente, a falta de sintomas que me levassem a duvidar. Entendo que me devo fardar com requintes de malvadez. Não sendo eu membro de nada que implique ter uma vestimenta oficial, seja pelo menos de bombeiro ou músico da banda, vou envergar o fato dos enterros. Nada mais indicado, pois prevejo um funeral mandado, como os bailes mandados.

Posso entrar? Estava à sua espera, senhor Maragato. Se me permite, o seu cuidado para desta vez não se me dirigir pela alcunha com que sempre me tratou, e procurar o nome na minha ficha, que sendo um apelido nada frequênte, antes muito estranho, por estes lados, sinto-me incitado a lhe esclarecer que não passa, tal como o adquirido de Maravilhas, de ser também uma alcunha, herdada do meu avô Paco, com o meu pai Ricardo de intermediário. O meu avô chegou a Portugal já crescido, viajando desde o Reino de Leão das Espanhas (uma classificação de Reino que só fica nalguns documentos oficiais e nos livros de história). Mas, ainda hoje, existe uma zona que se chama de Maragateria e os seus naturais são, todos, maragatos.

Peço desculpa por esta intromissão mixta de história e linguagem, e que difícilmente lhe pode interessar. Não resisti! « Então, Senhor Presidente, qual é a novidade tão urgente?

De entrada digo que gostei de saber de onde vem o seu apelido, coisa que desconhecia por completo (não admira, sendo ele burro encartado!). Tenho o propósito, a partir de hoje, de esquecer a merecida alcunha de Maravilhas, apesar de reconhecer que da sua voz surgem, com frequência, mostras de conhecimento que não são habituais entre esta gente pacata e laboriosa (o homem quer ficar de boa imagem com estes louvores gerais aos seus rústicos súbditos) Mas ontem, já noite cerrada, quase coincidindo com as badaladas da meia, chamou para casa o Presidente da Câmara (agora deveria acrescentar: Que Deus o guarde de saúde por muitos anos) com nervosismo evidente, ordenando que travasse de imediato o seu projecto, irreverente, ignominioso e provocador, ofensivo dos bons costumes. 

Deu a entender que teve pressões desde a cúpula partidária, eclesiástica, com o secretário do Bispo da diocese incluído, que referiu o insulto ter chegado ao Patriarcado! E até do comando provincial da GNR. Todos eles em consonância no sentido de matar esta iniciativa antes que se tornasse conhecida nos tabloides que educam, no melhor e no pior, a nossa fiel população.

Pode acreditar, Senhor Maragato, que eu estava encantado com a sua proposta, apesar de que encontrei a minha senhora estava feita uma fera, quando eu cheguei a casa depois da última reunião na junta. Não sei como ela soube tão depressa. Ali ouve bufos. Eu não! (pois não, seu velhaco. Imagino que mal nos viste sair pela porta fora fostes meter tudo no cu do Presidente da Câmara. Quem não te conheça, que te compre!) Mas juro que lamento ter que lhe transmitir estas ordens superiores. (tu o que sonhavas era em poder ver muitas vaginas e poder saborear alguma chuva doirada! Ficaste com as ganas! Ou pensavas que aquilo ia pelo sério?)

Senhor Presidente, não se apoquente, pois eu de si sei que não tenho razões de queixa e que ouviu atentamente aquilo que ia expondo, e até vi que ia tomando apontamentos (Toma e engole, pensavas que, estando eu virado para a assistência, não reparei? Eram para fazer o relatóri que enviastes aos teus chefes e apoiantes. Tu, que és o bufo maior desta terrinha de caca, graças ao teu empenho em nos manter no fim da fila) Agora, que já cumpriu com as ordens emanadas lá de cima, se tiver tempo para me ouvir, gostaria de fazer uns comentários à situação. Mas mesmo que tenha que ser um diálogo reservado, de preferência neste seu gabinete, penso que seria pertinente que os dois, sem ser de braço dado pois não é coisa para exageros, fossemos tomar um café ali no bar em frente e dar azo a que a clientela veja, e depois distribua, que não andamos à pancada. O que lhe parece, Senhor Presidente? 

Estou perfeitamente de acordo com a sua proposta, Senhor Maragato. Vou deixar recado, pelo telefone interno, à secretaria de que estarei ausente por um bocado e que não me demoro. Vamos? (podes ser, e és, velhaco, mas sou mais astuto do que tu. É mais fácil dar-te a volta do que ao meu neto que mal sabe falar. A minha filha diz que quem sai aos seus não é de Genebra!)


Continuará? Só o bracarense é que deu ânimos.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

CRÓNICAS DO VALE Cap. 2

(texto corrigido e com tentativa de eliminar gralhas)

Sendo eu o Presidente da Assembleia Municipal fui forçado, por pressões de âmbito reservado, vindas oralmente de residentes na aldeia, para convocar esta sessão, de cariz extraordinário, destinada a dar seguimento ao tema do FESTIVAL DA CHUVA doirada. Admitindo que nenhum dos presentes se vai opor, entrego a palavra ao companheiro e amigo Zé Maravilhas, com o qual, antes de abrir a sessão, combinamos que manterá via de diálogo aberto com qualquer um dos presentes, esteja de acordo ou se oponha, com argumentos ponderáveis Vos deixo entregues ao Zé.

Amigos e vizinhos. Ao longo destas horas pude meditar, interrompido em diversas ocasiões, por amigos que desejavam esclarecimentos sobre a estrutura e funcionamento deste Festival da chuva doirada. Por enquanto estamos na fase de gestação, só existem apontamentos soltos, que devem ser ponderados e ordenados. Mas o que me foi dado avaliar é que existe um número, já numeroso, de conterrâneos interessados em que algo de novo, e espectacular pela originalidade mediática, tenha lugar neste canto de Portugal. Também chegaram até os meus ouvidos zun-zuns de que o assunto em causa criou um certo mal estar, nomeadamente entre os mais castos. Castos, e respeitadores dos preceitos emanados do púlpito, mas só apariência. De facto são tão devassos na intimidade quanto possam ser os que aderiram fervorasamente à ideia. Sem esquecer que inclusive aqueles retraídos que não se atreveram a dar rédea solta aos seus instintos certamente que pecaram em pensamento. E na doutrina me ensinaram que pode-se pecar tanto em pensamento como em obra.

De entrada posso afirmar que na sessão anterior não me sentia minimamente motivado. Mas quando um dos presentes propôs umas festas invocatórias de chuva senti que uma coisa se disparou na minha mente. É provável que, inconscientemente, fizesse uma ligação entre a proposta e o nome da nossa aldeia.

Sempre antevi a influência de alguma picardia neste Vale do Pito, e tentei descobrir como e quando se gerou tal nome. Uma das hipóteses que me coloquei foi que se devesse às comunicações entre os pastores que acompanhavam os rebanhos de uma e outra escarpa que limitam o vale, com o recurso a apitos ou assobios modulados. Outra hipótese, com ligame ao que insinuou o anónimo bracarense, e que as duas ladeiras do vale e mais as filas de estratos verticais que se observam entre as águas da ribeira, podem dar a ideia de uma vagina, zona da anatomia feminina que a norte do Mondego é denominada, popularmente, como sendo o pito.

O que é certo e sabido é que os nortenhos, quando lhes dizemos o nome da nossa aldeia, abrem um sorriso maroto e um olhar sumamente malandro. Nunca me aborreci com isso, uma vez que fui engendrado sem artifícios de modernice e vim a este mundo sem negar o nome do Vale.

Confesso, sem vergonha, que a velocidade com que esta ideia se instalou entre nós, não me facilitou conseguir um esquema correcto e aceitável para o certame. Especialmente porque, sendo patrocinado (como espero que assim seja) pela edilidade, teremos que ser muito cuidadosos na forma em que se dê a conhecer, sem ofender os espíritos mais timoratos -esta vai para a minha lista- mas tampouco podemos escamotear um tema que deve ser do conhecimento de todos os adultos, e hoje até de alguns adolescentes.

O festival, a ser, será dependente da colaboração das senhoras, sejam elas residentes entre nós, coisa que sinto ser difícil numa primeira edição, ou de pessoas mais descontraídas, ou até profissionais nas artes da nudez exposta.

Com uma mão alçada um dos presente pergunta; E poderemos ver, ao natural e mesmo que sem tocar, mas de perto, todas estas espectaculares novidades, velhas como o mundo? Como? Pagando certamente. Haverá descontos para os idosos? Eles merecem!. Durará muitos dias? Os da terra terão direito a entrar primeiro ou terão que aguardar na fila? Quem entrar na sala só poderá ficar uns minutos contados? Tenho tantas perguntas!

Caro conterrâneo, são muitas perguntas, que ainda não posso responder, mas que proporcionam pistas de importantes pormenores que, espero, serão tratados com ponderação. Tenha, tenham, paciência e ajudem a organizar este dito “invento”.

Restringindo-nos exclusivamente à chuva doirada propriamente dita, existem vários factores a ponderar, e até a proporcionar classificações entre as concorrentes. Assim, e num balanço repentino e por isso mesmo não exaustivo, referiria em primeiro lugar, e aproveitando a colaboração do anónimo bracarense, ser merecedor de valorização a fonte donde mana a chuva. Aí temos muitas possibilidades, desde uma bica no meio de um matagal, normalmente escuro como nos contos de bruxas, mas também ser possível aparecerem selvas loiras, ruivas ou pintadas com alguma das cores psicadélicas que vemos nalgumas cabeças. Terão as pilosidades em cores a condizer? Não esquecemos a existência de montes de Vénus totalmente desprovidos de pelos, seja de seu natural ou por depilação, total ou parcial, pois de tudo podemos encontrar “na vinha do Senhor”. Recordo que a minha avó dizia, com certa frequência, que o pudor e vergonha era só mania, pois quando somos batizados fica todo o nosso corpo com isenção de pecado.

Abordando o fluxo de chuva também aqui teremos variantes, que não necessito especificar pois dou por certo que todos conhecem o que vou dizer , e que concordarão merecem ser atendidos, com o pormenor correspondente.Temos a cor da urina, desde o trnsparente e límpido, passando aos diferentes tons de amarelo doirado, até chegar a uma tonalidade mais escura; O fluxo, abundante, tumultuoso, frouxo, efémero ou, persistente. definido ou em dispersão. O aroma ou cheiro, que pode ser agradável como perfume, com fragância cativante ou odor repulsivo.

E o simpático barulho?, pergunta um dos presentes.

Tem razão, ainda podemos e devemos qualificar, dada a sua importância para quem tem o privilégio de estar presente, o som que acompanha o fluxo, que tanto pode ser pouco intenso como atingir a intensidade de um assobio. Pessoalmente aprecio uma descarga veloz, impetuosa, longa, e ruidosa.


Até aqui temos pano para mangas para dar classificações idóneas.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

CRÓNICAS DO VALE cap 1º

(este capítulo já foi revisto, corrigido e completado)

A última reunião da Junta de Freguesia de Vale de Pito foi excepcional por longa e animada. Após os temas do dia, que eram de pura rotina e por isso pouca luta provocaram, em verdade nenhuma, surgiu, por boca do presidente um assunto que era falado pelos residentes desde faz mais de um ano, sem que se tivesse atingido o tal ponto de não retorno, entendendo por isso que era necessário agir sem mais delongas.

Disse o Presidente que a nossa aldeia, com tão espectaculares paisagens, bons produtos de horta; vinhos que vendem toda a produção, e mais se venderiam se as vinhas fosses maiores; lindas raparigas, esposas esbeltas, simpáticas, asseadas, sempre com bom humor e apetitosas, para benefício de quem a tal se habilita seguindo as regras sociais; casas limpas e repletas de flores; ruas pavimentadas; fontanários; internet gratuita em todo o perímetro urbano, e mais que sabem. E mesmo assim estamos esquecidos pelo mundo em geral. Não temos imagem de marca.

Por isso, meus estimados conterrâneos, aceito e proponho que lutemos pela ideia de criar um festival que nos coloque nas primeiras páginas dos tabloides e da televisão generalista. -Bem se nota que o presidente está à par de tudo o que educa no Correio e na Bola!-

Admito que é difícil avançar desde zero nesta temática que está gasta em tantos festivais que por aí se geraram. Apontei neste papel as ideias que me surgiram e me foram sugeridas por alguns de vós. E lamento que algumas, a maioria sendo franco, não sejam exequíveis -eu não disse que o homem é culto?- Não temos castelo, nem muralhas ou templos românicos que nos possibilitem o armar ao pingarelho de festas medievais. Não temos salas para fazer um festival de cinema. Quanto à doçaria tradicional. Fora das argolas, arroz doce, arrufadas, pasteis de grão ou de feijão, e fritos, que se encontram em qualquer lado, tampouco me parece que por aí possamos ir longe. Uma eleição de miss Vale do Pito, temos poucas moças capazes e dispostas a desfilar de tanga Penso que  não encheriamos uma plateia, nem sequer a da casa do povo.

Uma mão se levanta propondo um Festival da chuva! , que tanta falta nos faz nestes meses de extrema canícula -outro letrado!- Poderíamos organizar procissões rogativas de manhã, à tarde e à noite, acompanhadas de charanga -o nível vai bom!-, aproveitando os que tocam instrumentos de sopro na banda e nos bombeiros municipais.

Como Presidente sinto ter que rebater o interesse que os forasteiros pudessem devotar a estas procissões. É coisa ultrapassada. A tropa acredita mais, ou menos, no boletim meteorológico da televisão do que nas ajudas de santos ou mesmo do trio Deus Pai-Filho-Espírito Santo. Muitos o avaliam como uma geringonça desactualizada. A não ser que nestes cortejos, além de rezas e andores incorporássemos uns flagelantes -vamos ter que criar uma academia de linguistas!- e outros penitentes que carreguem cruzes e outros artigos de tortura.

O Zé Maravilhas levanta o braço e pede a palavra: Pois eu vejo grandes possibilidades num FESTIVAL DA CHUVA, sempre e tanto que se entre na variante da chuva doirada! -este visita a página dos anúncios com foto no Correio!-

Óh homem, por donde nos quer meter? Isto que propõe implica cavalarias altas! Nem vale a pena imaginar esta proposta. Não temos capacidade para lutar num terreiro destes. Disse o Presidente da Junta de Freguesia.

Tudo depende de como se encarar a coisa, Tem que ser com tacto e malandrice q.b. Enquanto ouvia a discursata anterior já fui montando o esquema, que poderei discriminar, caso o pedirem.

De entrada, e para não espantar a caça, embora todos estejam interessados no que a proposta induz, referiria que o adjectivo “dourado-dourada” é usado correntemente. Desde vinhas douradas, vinho dourado, fatias doradas, pasteis dourados, e tudo o mais que não recordo agora. Mas um festival da verdadeira chuva doirada, se preparado com sageza -toma! Faltava este!- teria uma procura que tomariam os das festas e mercados medievais. Eu, Senhor Presidente, até propunha que registássemos este nome antes de que os vivaços nos copiem. E tenho outra possibilidade na manga, que não adianto!

Um expontâneo interrompeu perguntando se na animação de rua não se poderia incluir uma imitação da dança da chuva dos peles vermelhas americanos, seguindo aquilo que os cineastas apresentaram em diversos filmes antigos, mesmo que aquilo fosse inventado nos miolos da cabeça dos argumentistas e produtores. O Zé Maravilhas retorquiu que lhe parecia muito oportuno e aproveitável. Era questão de trabalhar afincadamente para organizar o "invento", até disse ter a certeza de que ao longo da preparação irião aparecer capítulos interessantes. Entre o Coreeio e a Internet podem tirar o curso de espectáculos eróticos sem grandes dificuldades.


Zé Maravilhas insiste na sua: Pensem nas possibilidades! Aqui viriam stripers, acompanhadas dos seus empresários, ou chulos se preferirem, mais os comerciantes de artigos eróticos; montariam pavilhões no campo de futebol e terrenos adjacentes. Os visitantes, nacionais e estrangeiros ficariam loucos para alugar quartos por noite ou por períodos curtos... Teriamos que habilitar um espaço para campistas, de preferência ao pé do nosso ribeiro, que por enquanto não está demasiado poluído, mas que aproveito o momento de atenção para pedir que, entre todos, retiremos os plásticos, garrafas, embalagens e lixo em geral que os zelosos cidadãos, "respeitadores da natureza" largam por todo lado na maior das descontracções.

Resumindo e terminando, um festival deste género pode trazer um sem fim de possibilidades de negócio, incluídos aqueles considerados como honestos.

terça-feira, 27 de junho de 2017

SE AS PESSOAS NÃO TEM JUÍZO ...



O tema das interferências com os espaços reservados à aviação por parte de drones, potenciais causadores de uma tragédia evitável, é algo de muito grave, e que tem passado como sendo uma banalidade sem importância. Recordemos os danos que uma simples ave de médio porte, seja um pombo, uma gaivota, ou outra qualquer, já causaram ao embater num avião. Pois estes aparelhos, de uso pessoal, são mais pesados e mais perigosos do que uma ave, além de que estão sob o comando de um ser racional (coisa de que me permito duvidar)

Aquilo que começou no domínio militar directo dos governos ao preparar aviões que podem ser comandados, via rádio e comunicações por satélite, numa eficiência que nos dizem ser equivalente, ou melhor, à de ter um piloto humano, e bem treinado, aos comandos, sofreu um processo de banalização que desceu até colocar no comércio livre, aparelhos voadores cada vez mais potentes e capazes de executar tarefas que excedem a simples brincadeira de crianças.

Ao longo deste mês de Junho foram noticiados, entre nós e limitando-se ao espaço aéreo nacional, pelo menos sete ocorrências com potencial perigo de colisão, e daí o alarme pertinente. Dizem que existe legislação que restringe a altitude e as zonas donde se pode brincar com estes aparelhos. Mas o facto de terem surgido, repetidamente, muito perto das trajectórias de aeronaves comerciais, repletas de passageiros, aparelhos do tipo que genericamente se denominam como “drones”, nos alerta de que a inobservância destas regras, ou mesmo leis, portarias, diplomas ou seja la o que for, não é obedecida por aqueles que os utilizam.

Não basta dizer que são uns irresponsáveis, e potenciais criminosos. Devemos entender que estes “brinquedos” não podem ser entregues a qualquer um que tenha capacidade económica, e falta de bom senso, para os adquirir. Se analizarmos o tema com atenção, os tais drones, capazes de atingir alturas superiores a umas poucas dezenas de metros, são, de facto, equivalentes a armas de fogo, dado que podem causar a morte a inocentes. Sem referir a capacidade bem reconhecida de poderem devassar a privacidade.

Os governantes, tão ciosos de se defenderem entre si, tem a obrigação de regular e proibir, com confisco e pesadas multas, a quem comercialize, compre e utilize estes aparelhos de média e alta capacidade, sem a devida autorização e registo por parte das autoridades competentes. O mais recomendável seria banir, em absoluto, a comercialização destas perigosas aeronaves miniaturizadas.


Deixar estes aparelhos nas mãos de incompetentes é ainda mais grave do que o criar cães de luta, ou comercializar armas de fogo sem respeito às possíveis consequências a terceiros, sempre inocentes.