quinta-feira, 9 de março de 2017

OPINIÃO PESSOAL



Já são bastantes os pensadores habilitados, que desde que explodiu a crise financeira-mercado aberto-desindustrialização-migração e mais outros reflexos que estas brilhantes iniciativas afectaram o espaço da UE, e não só, entenderam que era a altura de apresentar, publicamente, os seus pensamentos e deduções. Nem sempre originais.

Hoje acordei com a cisma de que se outros, mesmo que admitindo serem mais sabedores e melhores analistas, se atreviam a pontificar, não havia a mínima razão para que me inibisse. O asneirar é livre e democrático. Por isso... cá vou eu!

Tentando ser breve, coisa que me é difícil, opino que o problema só reside em que os organizadores desta ideia de formar um bloco europeu que, ilusoriamente, conseguisse, em pouco tempo, não só tornar efectivo o sonho da França e poder travar a Alemanha, além de competir, com vantagem, com o colosso americano, verificou-se, ao fim de pouco tempo, que o tiro saiu pela culatra.

Imaginar que se poderia unificar a Europa, como aparentemente existe nos EUA é esquecer que as múltiplas nacionalidades, e sub-nações, da velha Europa carregam uma longa história de conflitos, guerras, massacres e incompatibilidades que, caso se pretendesse esquecer, careceria de um dilatado tempo de adaptação e mudança.

Resumindo: Todos os problemas de base, desde a moeda única e a tentativa de construir uma governação sobreposta e com mandato a ser obedecido, padecem, de entrada e seguimento, de não ter dado tempo a que as modificações sedimentasem.

Além de, com uma visão popular, se apreciar que colocaram a carroça à frente dos bois, também se confirmou a dificuldade existente para igualizar, normalizar à força, à pressão, zonas geográficas e as suas populações que, entre outros factores, estavam moldados por climas e terrenos muito diferentes.

Imaginar que por intuição, quase que divina (e passe a irreverência) podiam equiparar-se os habitantes e as condições a que cada um deles estava sujeito, desde muitas gerações atrás, e conduzir esta mistura do mesmo modo tranquilo com que um pastor pode orientar um rebanho mixto de cabras e ovelhas, foi um disparate caro, não só em custos quantificáveis em dinheiro mas também porque, como já citei mais atrás, nem tudo e nem todos são compatíveis.


A União Europeia não só foi incapaz de “digerir” os membros iniciais como, pela gulodice e ambição, mais a ignorância quanto a forma de conduzir uma manada tão complexa, ainda meteu mais gente no barco. O sinal do naufrágio previsível já o deu a Inglaterra, sempre ciosa da sua insularidade, separada do continente.

quarta-feira, 8 de março de 2017

O MASCARILHA


Tal como outros coetâneos, durante a minha juventude fui devorador de livros e de banda desenhada. Dos livros recordo muitos com Tarzan no papel de herói, outros com Robinson Crusoe e imitadores, sem esquecer os ingleses de Walther Scott e as suas aventuras medievais, com o Robin Hood e as personagens que completavam o elenco. Foram tantos os livros que consumí avidamente que dar uma lista seria fastidioso.

Como referí, também fui assíduo leitor de Banda Desenhada, se bem que depressa me aborreci com as publicações, ao estilo do Cavaleiro Andante, que para fidelizar os compradores desdobravam as aventuras publicando só uma  ou duas páginas por semana. Já então era avesso a tais truques. Preferia, e os meus dois irmãos seguiram a mesmo opção, os livrinhos com “aventuras” completas, que vinham editadas nas colecções Mundo de Aventuras e Condor. Numa caixa adormecida, por carência de gente jovem, ainda guardo uns quilos destas publicações.

Eram várias as personagens que eram frequentes nos sucessivos números da colecção. Entre eles recordo, entre outros, Mandrake, o Fantasma, o Príncipe Valente e o Mascarilha. Este último herói de ficção, que nem por isso era um dos meus preferidos, motivou ser hoje tema de vivência. E a razão é totalmente lateral.

O mascarilha, também conhecido como Lone Ranger na edição original, andava sempre acompanhado por um índio apache “assimilado”. Ou seja, era um indígena renegado que se passou para o convívio com os brancos invasores e, sem dissimulo, seus carrascos.

Este índio era chamado de Tonto. E verifiquei que não fui só eu que não entendia a razão de ser conhecido com este nome, notoriamente insultante e denigrante. Consultei aquilo que aceitamos substituir as abandonadas enciclopédias e até as bibliotecas, e encontrei que todas as referências a esta dupla apresentavam o mesmo desconhecimento da razão de porque o índio, já meio assimilado, foi sempre chamado de Tonto.

Mas, sendo honesto, antes de procurar apoio de outras fontes, casualmente, já tinha dado com a explicação. E caiu-me nas mãos de forma totalmente inesperada. Sucede que tenho estado a ler, em pequenas doses, um livro, demasiado maçador e repetitivo, que não consta das listas de obras célebres. O título original, em inglês dos USA é Blood Meridian of the Evening Redness in the West, que na (má, mesmo muito má), tradução para portugues ficou em MERIDIANO DE SANGUE, sendo o autor CORMAC MCCARTHY.

O livro em si é uma ficção histórica muito pesada, e que só não deixei nas primeiras páginas, ou a meio, porque detesto não dar uma oportunidade a quem escreve. Refere as andanças de grupos de aventureiros americanos, e esporadicamente com inclusão de mexicanos e outros, que dedicavam-se à caça de indígenas, fossem das tribos índias que ainda resistiam aos invasores europeus como também caçavam mexicanos. A motivação era somente económica, pois recebiam um pagamento por cada escalpe que levavam até algum dos fortes do exército americano. E “caçavam” porfiadamente. 

Em princípio o alvo que lhes fora indicado eram os Apaches, que naquele cenário equivaliam aos turras, nossos conhecidos inimigos nos territórios ultramarinos, caso nos cause desconforto os chamar de colónias, como eram de facto.

O tema confirma uma das razões, ou um dos métodos, que os invasores anglófonos utilizaram para eliminar os indígenas. Estes bandoleiros contratavam índios “renegados” para os servirem de pisteiros, batedores e até de tradutores,. Todavia já existia uma língua franca europeia, o castelhano, em practicamente todas as tribos sitas a oeste do Mississippi, ou dito de outra forma, nos territorios hoje conhecidos como Estados da União mas que conservam nomes castellanos. Estes indígenas tinham tido intenso contacto com missionários espanhóis, que além da fé católica os iniciaram no castelhano.

Pois chegamos ao porque do nome dado ao companheiro do mascarilha. A páginas tantas refere-se que os apaches chamavam, genéricamente, tontos aos indígenas que serviam com as tropas americanas, fossem regulares ou irregulares, e sempre como batedores, pisteiros e interpretes.

Um assunto que não deve interessar a ninguêm, mas que me esclareceu uma dúvida que permaneceu sem explicação durante muitas décadas.


NADA DE BOM NOS EXTREMOS



É muito provável que o caso do Jaime Nogueira Pinto seja mantido ao lume durante uns dias. Pelo menos até que surja outra notícia que os jornais possam travestir de bombástica. Vivemos nesta utilização de temas, muitos deles banais, para encher os olhos dos que desejam o derramamento de sangue, mesmo que de modo virtual.

O que é sugerido pelo cabeçalho deste escrito é que não existem grandes diferenças no comportamento factual dos elementos que se prontificam a agir, ou promover acções reprováveis, sob qualquer ponto de vista, sem prevalecer a sensatez e o bom relacionamento com quem não comunga exactamente com as nossas preferências.

Infelizmente existe um número de pessoas, cujo comportamento, público ou privado, não é bem aceite pela maioria dos cidadãos. Apesar disso eles, os activistas e provocadores, sabem que lhes é fácil conseguir um grupo de seguidores que, sem grandes convicções ou simplesmente por arrastamento, se encarreguem de dar força aos seus disparates e abusos. Para as pessoas que nem sequer apreciam assistir a estes espectáculos deve-lhes custar aceitar que tais indivíduos mereçam, dado seu comportamento, ser qualificados como pessoas de primeira água.

Tentando separar a palha do grão quanto a génese desta interdição de conferência, com a nada subtil ameaça de activistas que discordavam da sua efectivação, encontramos que ela foi promovida por um grupo de alunos cujo “nome de guerra” nos indica que eram o mais chegados à personalidade e feitos do orador.

Podemos imaginar, sem vontade de ofender, que os organizadores estavam no extremo oposto do leque das simpatias políticas dos grupos de universitários. Sempre foi assim. E oxalá continuem a defender absurdos, enquanto que os sensatos mantêm-se ao largo sem atender a que os neutros, donde, por decisão própria, se encontram, podem ser as vítimas inocentes caso surja um confito violento.

Transformar a indesculpável acção, que provocou a anulação da tal conferência, num sintoma evidente de que estamos às portas de se criar uma ditadura de extrema esquerda é, além de pouco previsível, o modus faciendi que mais convêm aos promotores, nada subterrâneos, da extrema direita. Não podemos nem aceitemos cair nesta dicotomia provocadora.

Os discordantes ao discurso de Jaime Nogueira Pinto podiam ter escolhido outras formas, menos espectaculares mas igualmente inócuas, para expressar a sua oposição. Bastava ocuparem o espaço da sala com os seus partidários e, no instante em que o orador se dispusesse a iniciar o seu discurso, levantarem-se e deixar a sala vazia. Provavelmente o número destes descontentes não seria suficiente para dar azo ao desplante. Se foi este o balanço prévio, como suspeito, estamos felizes e contentes. Mas não teriam evitado o tão almejado discurso. E chegamos à pergunta do milhão: Valia a pena travar esta conferência?

O que me motivou a escrever não foi um reflexo de simpatia ou antipatia pessoal sobre o discursante que não discursou. Aliás, o Professor Doutor tem esta palestra gravada na ponta da língua e está disposto para apresentar os seus pensamentos quanto antes. E já se viu que não era propriamente inédita. Por isso, quem estiver ansioso para ouvir os seus pareceres terá, e teve, mais oportunidades.

Importante é que a cidadania normal, a que não se mete em conflitos, entenda que existem elementos indesejáveis, agressivos, adeptos a fazer mal aos outros, sejam ou não opositores declarados em ambos extremos partidários. Para mostrarem a sua força preferem agir sobre os passivos. Estes, os que com cordura e sensatez optam pelo centro efectivo, sempre foram e serão os alvos procurados pelos activistas.

Mas -o eterno condicional- a atitude contemplativa ou passiva favoreceu, sempre, a que os grupos extremistas, inicialmente sempre pouco numerosos, cresçam com a incorporação de levas sucessivas de indesejáveis, e possam ocupar o poder.

Solução? NÃO EXISTE.

Só uma intensa educação cívica, desde a pré-primária nos pode conduzir a uma convivência pacífica. E isto não interessa a muita gente, como se pode apreciar com o comportamento das claques de muitos clubes ditos desportivos. Que são tudo menos adeptos fieis e seguros do desporto.

terça-feira, 7 de março de 2017

O PASSEIO PÚBLICO



Nos inícios do século XIX, após se ter arrancado com a magna tarefa, pelo menos dados os meios para conseguir enfrentar os trabalhos, mais dependentes da força humana do que de equipamentos mecânicos, rasgou-se a projectada Avenida da Liberdade, naquele então conhecida como PASSEIO PÚBLICO.

Deveria ser absolutamente pertinente, especialmente para quem decide efectuar intervenções no tecido urbano, e com o intuito de entender quais foram e são as necessidades e comportamentos dos habitantes da cidade estudar, com sossego e olhos de ver. E por, o passado e o presente, atendendo sempre a que o passado nunca mais volta exactamente como foi, pois que o entorno mudou.

Por estranho que possa parecer, surgem dúvidas acerca de se foram efectuados estes estudos prévios. Pelo contrário surge a noção, fundamentada pelo que se pode observar e pelas denúncias consequentes, que decidem e agem por instinto, por capricho ou para cumprir compromissos, sempre tidos como activos, com as empresas construtoras.

Deixando, prudentemente, de lado estas insinuações, o que queria recordar é que a necessidade de passear por ruas e avenidas de traçado e urbanismo agradável, nomeadamente pelo Passeio Público, estava tácitamente reservado às famílias do topo na escala social. As fotografias da época mostram carruagens abertas circulando, a paso lento, acima e abaixo, assim como damas com longas vestimentas, guarnecidas de capelinas e sombrinhas. Tudo muito bem, tentando oferecer uma visão, lusitana, dos campos elíseos parisinos.

E o povo? os trabalhadores braçais, os amanuenses e toda a restante camada dos pouco endinheirados? Estes não tinham vagar nem cabimento nestes vistosos passeios. Não foram construídos para eles.

A evolução gerada já em XIX e continuada no XX foi abrindo as cancelas à segregação entre camadas sociais. Passear, deambular sem rumo fixo, tornou-se hábito entre remediados e até de membros com menores recursos, ou que conseguiam fugir, nem que fosse esporadicamente, da pressão de ganhar o seu sustento e manter as suas famílias.

Esta incipiente democratização da sociedade, que pouco tinha a ver com as autoridades da altura, fossem mais condescendentes ou ditatoriais, era fatal que conduzisse a um abandono das passeatas na via pública daqueles que não gostavam de se “misturar com o povo”. O convívio entre os membros do topo foi transferido para os salões, que nunca estiveram abertos à plebe, a não ser como serviçais, e a zonas geográficas afastadas, muito ou pouco, mas cuja entrada estava já, tácitamente, acondicionada.

Quando se legislou, para os trabalhadores assalariados, a concessão do descanso semanal e, mais adiante, o direito a poder auferir de um periodo de férias remuneradas, e, dada a evolução, mesmo que lenta, das vias de comunicação e meios disponíveis para as aproveitar, o pessoal arrancou para fora dos seus locais de residência, em geral acanhados e pouco agradáveis, ou mesmo insalubres. Começou-se a valorizar o espaço aberto, o campo e, principalmente, as praias, fossem adeptos aos banhos nas águas gélidas ou simplesmente sentir-se livres das suas vestimentas habituais e imaginar que, uma vez despidos, ou quase, todos eramos iguais. Uma ilusão, como sabemos.

Saltemos para a actualidade

Muitos dos autarcas, eleitos pela população, MAS NÃO TODOS, parece que não entendem as normas, não escritas, que regem os cidadãos. Daí que, nem que seja para proporcionar negócios aos seus amigos empresários, alteram, sem atender às necessidades e desejos dos residentes, o entorno que, melhor ou pior, cumpria o que necessitavam.

Baldeiam, revolvem, atrapalham a vida dos habitantes da cidade sem entender que aquele espaço, a estrutura que os serve, é, e deveria continuar a ser, concebida para eles, para os residentes anónimos ou também para os que labutam longas horas naquela zona.

Proceder como se fosse plausível repetir o antigo passeio público, mesmo que colocando uma multiplicidade de esplanadas para ocupar, comercialmente, os espaços que estiveram planeados para servir as funções próprias de época, é um abuso imperdoável. A rua, seja avenida ou um beco, é, antes de ser propriedade estatutária da edilidade, pertença tácita dos seus utentes, sejam residentes ou que se servem dela para se deslocar de um lado para outro. E tem sido assim desde tempos imemoriais, como nos mostram registos escritos e estudos arqueológicos.

Reconhecemos que o adágio que refere serem as conversas como as cerejas, tem todo o sentido. E por isso, este texto, excessivamente longo para os adeptos ao VENI, VIDI, VICI não se mostram com pachorra para o ler. Mesmo assim, sinto ser meu dever o alertar contra o conformismo, a apatia, o deixar correr, dada a propensão existente para sonhar e imaginar que “somos os melhores” e, por isso, não pensar nos consequentes problemas. Não queremos valorizar e tirar ensinamentos com o que já aconteceu em casa alheia.

Gostaria de dissertar sobre o erro, crasso, de vender a alma ao diabo, no sentido de nos ofuscar como sendo, o turismo, a solução económica do País. O ímpetu que se criou para mudar tudo o que nos era útil, para ficar de braços (e pernas?) abertos para o turismo. Vamos tornar Portugal uma má réplica de Bali? Ou das zonas de verão, ou dos desportos de neve, que fora da época alta estão desertas? Ou voltará a lucidez de tratar da nossa casa, para nós e com a colaboração de todos? NÃO ACREDITO NESTE SONHO HIPOTÉTICO.


E a desgraça tende a alastrar, ou já alastrou, a muitos outros núcleos urbanos, inclusive em pequenas vilas, practicamente desabitadas, que se “venderam” para as transformar naquilo que não deveriam ser jamais.

domingo, 5 de março de 2017

O SÍMBOLO DA SABEDORIA


Na mitologia grega, a sabedoria mereceu o galardão de ter um Deus em exclusividade, neste caso uma deusa. Possivelmente porque já então se valorizava a sagacidade da mulher comparativamente com a força e ímpetu guerreiro dos homens, uma homenagem que é provável fosse herdada de civilizações anteriores, de estirpe mesopotâmica. Esta deusa era conhecida pelo nome de Atena. Sim, como a capital da nação grega.

Na complexa genealogia dos deuses gregos, explícita na sua mitologia, esta deusa Atena era filha de Zeus, o Deus máximo, e da deusa Métis. Quando os romanos se interessaram pela cativante mitologia grega, adaptaram as personagens a uma nomenclatura sua, e daí que Atenas foi rebaptizada com o nome de Minerva.

Antes de prosseguir com a explicitação do símbolo de Atena, e em consequência da sabedoria, dando como certo de que todos os que aprenderam a ler, e fazem uso desta capacidade, sabem a quem foi atribuído ser símbolo desta qualidade (sabedoria) mais rara e menos frequente do que aprioristicamente se julga, vou recordar um curto conto, mais do calibre de uma anedota infantil do que de teor ofensivo ou desrespeitador.

Um sujeito, pressionado por un capricho da esposa, foi dar uma volta pelas lojas de animais tentando comprar um papagaio. Ficou perplexo ao ver que estes pássaros falantes tinham desaparecido do mercado. Disseram-lhe que esta carencia era devida ás rusgas que as autoridades, zelosas com esta coisa da preservação da natureza, faziam ás lojas, onde além de recolher os animais que figuravam nas listas de não passíveis de ser comercializados, ainda impunham pesadas coimas aos comerciantes que apanhassem em falta.

O homem, desesperado, pedia, insistia, para que o orientassem para poder satisfazer o desejo da esposa. Respondiam que só na candonga. No mercado clandestino. Existe mas não o podemos orientar, como pode entender.

Regressando para o seu lar, cabisbaixo e sem ter argumentos que o justificassem perante a esposa, da sua ineficacia para lhe comprar o papagaio que tanto desejava, passou por uma rua onde não circulava desde muitos anos antes. E ali deu de caras com mais uma loja de animais de companhia. Sentindo ser a sua última oportunidade perguntou por um papagaio. O dono, que não devia ter feito bom negócio naquele dia, viu que tinha chegado a possibilidade de ganhar o dia.

Pois o senhor acertou com esta loja. Tenho cá um papagaio da Indonésia, muito raro, que em Portugal, que eu saiba, não é usual as pessoas terem. Só tem o defeito de que ainda não tive tempo para o ensinar, pois trouxeram-no esta manha. Mas afirmaram que com paciência ele pode aprender. Sai uma bocado carote, mas atendendo a que o senhor o procura para satisfazer a esposa, posso fazer-lhe um bom preço, sem ganhar nada.

O cliente levou o passaroco para casa e explicou a aventura à esposa, que já estranhava tanta tardança em chegar a casa. Mas ao ver aquela ave, que lhe disseram ser exótica, deu-se por satisfeita. Lástima que tinha umas penas pouco atractivas. Mas, dadas as dificuldades com que se deparou o marido, contentou-se.

Passadas umas semanas, practicamente um mês, o cliente voltou à loja com a ave. A mulher estava desesperada, abatida e até zangada com a vida, pois não conseguira ensinar nem uma só palavra à ave. A única qualidade que lhe encontrara é que olhava fixamente, que se interessava, e até movia a cabeça de um modo estranho, como se quisesse justificar a sua incapacidade. Com maus modos e gritaria colocou o bicho, mais marido, fora de casa, com ordens de o devolver na loja.

O lojista, quando o viu entrar, não sabia onde se meter, nem sabia se devia ficar de semblante sério ou compungido. Optou por aceitar a devolução, restituir a importância paga e apresentar um veemente pedido de desculpas. Depois do infeliz marido se ter ido embora, desmanchou-se a rir pela partida que tinha feito àquele crédulo. O passaroco não era de facto um papagaio, mas sim um mocho real, por sinal também ave protegida.



Um breve parágrafo pera justificar a escolha da coruja, ou o mocho, como é normal que confundam aqueles pouco versados em ornitologia. O facto de estarem com os olhos bem abertos, interessados pelo que sucede à sua volta e com a capacidade de, sem mexer o corpo, poderem girar a cabeça para cobrir 360 graus, lhe proporcionaram ser considerados como sábios, E daí a sua imagem equivaler a representar tanto Atena como Minerva. 

sábado, 4 de março de 2017

QUEREM MOLHO ?

Aqueles que apreciam polémicas, das abrangentes, das que tocam em "monstros sagrados", ou que ajudam a descobrir os pés de barro, podem visitar, no facebook ou clicando directamente na janela da abertura do Google a

Os Truques da Imprensa Portuguesa

Além do mais, os editores deste espaço gostam de dicas, caso estejam bem fundamentadas, e, pelos vistos, dispostos a aprofundar as denuncias,se bem que com correcção.

Quem abrir o espaço que indico acima, é provável que fique admirado por encontrar tantos comentários, identificados e mostrando que não se justificam tantos medos e temores.

sexta-feira, 3 de março de 2017

VENI, VIDE, VINCI


Cheguei, vi, venci

Esta frase célebre proferida por Júlio César, quando se apresentou perante o senado de Roma, como início do seu relato de como conseguiu a pacificação da Gália “em três tempos”, pode aplicar-se em geral a todos os cidadãos que circulam por aí. Todos, salvo raras excepções, já estão vocacionados às coisas rápidas, ao estilo das cápsulas de café.

Uma das consequências de evolução rapidíssima da vida é que os quilómetros e outras medidas que desde que há memória se foram utilizando para nos elucidar sobre a distancia entre dois lugares, também implicavam a noção do tempo necessário para a deslocação. Havia, portanto, uma ligação directa entre distância e tempo.

Com a melhoria das vias de circulação, da se terem construído estradas que não atravessam populações e que permitem aproveitar quase continuadamente as capacidades dos veículos que temos a nosso dispor, esta situação sofreu uma alteração notável, que mentalmente nos induz a dar menos importância aos quilómetros. Como se agora fossem, simultâneamente mais longos e mais curtos, do que estávamos habituados. É uma avaliação mental, consequência de comparar os percursos com o tempo necessário para os completar, antes e depois da modernização.

Infelizmente este progresso não se deu na maioria dos percursos ferroviários, o que teve como consequência a perda de utentes e, mais drasticamente, o fecho de muitas linhas e ramais que, a partir do século XVIII constituíram a sistema circulatório de Portugal, tal como a rede de veias e artérias alimenta o nosso corpo. Hoje a rede ferroviária secundária está tolhida, anquilosada. Quando nos vemos metidos num comboio que circula por alguma das linhas decimonónicas, o que sentimos equivale a uma paragem do tempo. Ficamos com a sensação de que os relógios andam a menos de meio gás. E esta lentidão já ninguêm a aceita.

Recordo com certa saudade o tempo em que para fazer um percurso por estradas antigas, que demorava mais do que o dobro do tempo do que hoje se necessita para chegar ao mesmo destino, aquela quase aventura rendia paragens intermédias para abastecer de combustível, descansar, esticar as pernas, e mesmo a sentar-se para uma refeição completa. Já se conheciam alguns um locais donde apreciar a boa cozinha, e até ter uns dedos de conversa com o dono ou dona. Tudo isso desapareceu. Hoje para-se numa estação de serviço e engole-se qualquer coisa, sempre delimitados a uma escolha entre reduzidas opções. E sempre com a pressa em cima de nós. Nem sequer o motor do carro chega a arrefecer.

Longe está o tempo em que ao programar um passeio, mesmo com uma distancia que hoje avaliamos como de virar a esquina, já se contava com um intervalo de refeição sem urgência; com uma visita a locais, monumentos, museus, paisagens, e pontos de interesse, sem ser a mata-cavalos. Inclusive podia acontecer fazer pernoita, fosse em casa de familiares ou amigos, ou num estabelecimento hoteleiro, que hoje já não existe ou foi modernizado sem manter nada do que era, e muito menos a amabilidade natural de quem não tinha sido formatado numa escola de hotelaria.


A modernidade empurra-nos para o domínio do imediatismo. Desde a comida pré-cozinhada até as diversões de carregar pela boca, que substituíram as feiras tradicionais, mais abrangentes e variadas nos conteúdos. Mas, sem dúvida, menos capitosas. (embriagador, estonteante)