sábado, 11 de fevereiro de 2017

GENEALOGIA



Durante uns longos anos fiz a representação pictórica, fosse sobre tela ou sobre azulejos cozidos a alta temperatura, e sempre a pedido “de várias famílias” o esquema de famílias onde deviam figurar tanto os antepassados como os descendentes. A fim de ser mais vistosa esta representação tudo se organizava na copa de uma árvore, mais alta ou baixa, frondosa ou esquálida consoante os elementos de trabalho que me forneciam. Colocava o casal em activo, em lugar destacado, sempre no meio do tronco. Por vezes, quando as personagens que me indicavam eram poucas, e com o propósito de encher o espaço,  recorria a meter pássaros, animais e flores,  Assim melhorava o ramalhete, tal como as floristas fazem quando o/a cliente escolhe poucas flores.

Sempre tentei seguir a norma de que se albarde o dono à vontade do burro.

Mas, ainda hoje, depois de me deixar desta actividade tão concreta e directamente dirigida a uma série de indivíduos concretos, não estou convencido da primazia entre as duas soluções possíveis. Eu optava, quase sempre, pela que dava prioridade às raízes. A não ser que o cliente, se teimoso e insistente, preferisse a outra solução. Possivelmente influenciado pelo que via representado quando se organizavam as personagens de uma casa reinante. Ou seja,  o colocar os defuntos os que deixaram de estar no activo, no topo da pirâmide, E daí para baixo até chegar aos mais jovens, às crianças. Tudo flutuando no ar. Sem que pudesse, a meu entender, ter cabimento desenhar uma pretensa árvore de família Para mim era como começar a casa pelo telhado.

Apesar de saber, com desgosto meu, que os gostos não se discutem, insisto em que, por uma questão de cronologia biológica, já que da terra viemos e para a terra voltaremos, prefiro representar a chamada árvore de família precisamente bem presa ao chão, e sob a linha que delimita este e o espaço aéreo, colocar os ascendentes falecidos, em patamares tão profundos quanto recordem os que encomendaram o trabalho. Neste caso Iniciar pelas raízes.


Gostaria de referir situações curiosas, embora frequentes. Em geral eram o resultado de separações, divórcios, segundos casamentos, filhos fora do casamento, mas reconhecidos pela mãe e pela família dela; algumas vezes, poucas, inclusive pelo cônjuge actual ou pelo faltoso. Procurei resolver com bom senso alguns problemas bicudos que me colocaram. 

Um dos factores em que insisti foi o sentimento (meu) de que deviam ser bem tratados todos os casos já tão frequentes. Concretamente, a situação que uma criança poderia ficar quando, ao estar graficamente exposta aos comentários dos seus familiares coevos, estivesse destacado como não tendo pai(?).  Insistia com os adultos presentes que as crianças são sumamente cruéis e que não atendem aos silêncios respeitosos que a convivência exige, ou recomenda. Conseguí, quase sempre, que a família da mãe (os pais fogem com o cú à seringa, olimpicamente) cedesse nomeando como pai, putativo, aquele que mais desejavam ter sido o inseminador oculto. Conseguia que a família, atendendo às minhas explicações sobre a situação comparativa da criança, ficasse mais feliz do que quando iniciaram a nomeação das personagens.

O CHEIRO A TIGRE



É possível que entre os leitores (uns poucos já assíduos e os outros esporádicos) que conseguem escapar de tantas redes interessantes, ignorem esta frase com que as mulheres desinibidas e pouco receosas de que as classifiquem pela sua verbalidade, referem os homens que “cheiram intensamente a macho”. A sociedade actual, influenciada pela publicidade e pela noção das “boas maneiras” adere à negação da natureza humana, sempre ligada ao seu passado animal.

Sendo assim é imediato reconhecer que se tornou uma exigência social que a mulher cheire a perfumes sintéticos, ou elaborados a partir de algumas essências naturais após complicadas misturas, e que o homem emita uma aura de lavado; que não se fique pelo recurso a um sabão neutro, embora eficaz, mas que à volta dele se sinta um cheiro “másculo e dinâmico”, nem que seja através de uma loção de barba. Mas sempre com a garantia publicitária de uma marca que investiu bastante na sua difusão e promoção comercial.

Estes factos parece que não estão de acordo com os conselhos enviados, gratuitamente, pelos dermatologistas. Pelo menos dos que sendo conscientes da sua função no âmbito da saúde em geral, nos alertam de que banhos em excesso,com uma frequência que chega a ser obsessiva, retiram à nossa pele as secreções naturais com que o corpo se protege.

É evidente que quando nos sujamos, por qualquer motivo, é imprescindível uma lavagem higiénica. E que se transpirarmos intensamente, aliado a um cheiro tão forte que invada as narinas de quem estiver por perto, provocando uma rejeição instintiva, se torna recomendável agir para refrear a secreção. Os mesmos dermatologistas recomendam cuidado no uso de produtos, normalmente onde figuram sais de alumínio, que são tóxicos, que produzem o fecho dos poros por donde se expele o suor. Mas também se sabe que fumar é perigoso e raros são os e as que deixam de fumar!

Mas vamos ao famoso “cheiro a tigre”. Não é outra coisa do que o cheiro, a macho, que é comum a todos os mamíferos. E que se gera nas glandulas sudoríferas que existem no saco testicular. É uma secreção com um conteúdo muito importante de feromonas neste caso masculinas, com as quais os machos pretendem excitar, sexualmente, as fêmeas da sua espécie, como também mostrar a sua potência aos seus competidores.

As fêmeas, como sabemos, também emitem as suas feromonas femeninas, que nos mamíferos só aparecem na altura em que estão férteis. Nós, humanos, com tantos cheiros espalhados em nosso redor raramente detectamos esta fase do ciclo feminino. Se soubesemos instintivamente não haveriam tantos descendentes indesejados.

Pois bem, os mamíferos machos, assim como outros animais nossos companheiros na Terra, estão sempre preparados para tentar garantir a sua descendência. Os seus testículos, enquanto permanecem funcionais, produzem sêmen e feromonas constantemente, todos os dias e horas do ano. E esta é uma actividade que consome muita energia. E a energia degrada-se em calor. E o escroto necessita de poder expelir o excesso de calor para o ar. Por isso vemos como os machos, desde ratos, gatos, leões, toiros, elefantes e os outros todos, apresentam um saco bem destacado, em contacto total com o ar, excepto no reduzido pedúnculo que o liga ao corpo, incluído no aparelho reprodutor encarregado da penetração e ejaculação.

Daí que o sistema reprodutor externo dos homens, exuda, e emite cheiros. Como manda a natureza, que é muito mais sábia do que o homem pensante e manipulável. Os nossos antecessores mais antigos, e alguns que ainda existem no planeta, entre os quais os escoceses que gostam de manter a tradição da vestimenta masculina, e os soldados gregos que dão espectáculo em frente do parlamento em Atenas, recordam as saias que os “ignorantes” sabiam ser o que o corpo necessitava.

Hoje, as modas que oscilam e se repetem periodicamente, insistem em que devemos usar calças apertadas, que comprimam e restrinjam o bom funcionamento do aparelho reprodutor masculino.

E segue-se uma das consequências que se tornam inevitáveis, ou que implicam ter atenção para não “ferir susceptibilidades” daqueles que presumem de ser bem educados. Porque os homens, uns mais e outros menos, uns sem dar nas vistas e outros ostentosamente, coçam “as partes”? Simples e evidente se atenderem o que escrevi anteriormente: O escroto quando sua (sempre está nessa) além do líquido e as feromonas também exuda sais em solução, que quando o suor se evapora, mesmo que com dificuldade por estar fechado ao ar, deixa ficar cristais, que irritam a pele e dão coceira.

Desculpem os cultos que sabiam disso. E admito que, para não parecer mal, continuarão a usar calças (recomendo que sejam folgadas no entrepernas) e não optem pelas saias para garantir a sua saúde. É quase impossível, entre nós, escapar da pressão das modas.


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

cultura e CULTURA - 2


AS PEDRAS NOS ENSINAM MUITO

Assim as sabermos interpretar. Não falam, mas são um arquivo que diz muito mais do que os simples imaginam. Quando viajava, com certa frequência visitamos locais abandonados ou arruinados, que noutras épocas foram famosos, hoje testemunhos de civilizações importantes mas ultrapassadas, em mais de uma vez, algum dos presentes afirmar que “aquilo” não tinha um mínimo interesse. Já estou farto dever pedras! Obviamente não estava interessado em saber o que ali tinha existido.

Hoje as valências da informática possibilitam a recriação, bastante fiel, de muitos locais históricos. Inclusive com animação, que fornecem, sem esforço, uma leitura histórica muito valiosa. Todavia o modo como a sociedade aderiu ao facilitismo, ao mais imediato, ao que fornece diversão, em simultaneidade considerem, convictamente, que para se instruir sobre um qualquer tema lhes basta consultar aquilo que podem encontrar, sem grande esforço, no computador.

Paralelamente a esta modernice encontramos referências do esforço que algumas entidades, certamente que mais atentas ao que devemos valorizar, por ser património, ou mesmo Património Nacional, qualificado oficialmente como tal, que é pertinente agir, com urgência e ampla dedicação, para oferecer mais do que o batido binómio Sol e Praia. Incluem neste programa de valorização o insistir na cozinha tradicional portuguesa, pois para habilidades de mestres cozinheiros já encontram, practicamente iguais, em qualquer canto.

São cada vez mais as pessoas que viajam com intuito de verificar “in loco” aquilo que ao longo da sua vida atenta foram arquivando e entendem ser o momento de confirmar. Muitos destes visitantes, tanto efectivos como potenciais, são pessoas com mais de meio século de vida, que não desejam encontrar-se com multidões, barulhentas e com visíveis mostras de desprezar a cultura. Por outro lado não escatimam o retribuir, monetariamente, o cuidado que sentirem se teve para dar visibilidade ao carácter e história local.

Portugal, sem pretender competir em pé de igualdade com outros países onde o património arquitectónico, monumental, religioso ou civil é muito vasto e reconhecido internacionalmente, tem muitos locais que, por os ver com frequência, e por isso nos podem parecer como carentes de interesse, pode ser que, para quem nos visita com o propósito de poder avaliar quem somos, de onde viemos e até onde chegamos, podem ser muito interessantes.

Para contrariar os bons propósitos temos a realidade mais triste e vergonhosa, conduzida zelosamente por responsáveis, ou mais propriamente irresponsáveis. Por vezes alardeando de canudos que só eles valorizam. Insistem em conspurcar locais históricos com contínuas feiras, que descrevem como sendo temáticas, às quais se juntam ruas infestadas de vendilhões e outras iniciativas preparadas exclusivamente para incitar visitantes com uma visão primária, imediatista, e o lucro fácil de alguns. Mas afastando aqueles que detestan tanta populaça.

Quem tenha responsabilidades sobre locais históricos debe saber como os gerir para os visitantes que interessa cativar, pelo menos por conveniência nacional Na impossibilidade de poder acompanhar todos os que nos procuram, com guias capazes de responder ás mais variadas perguntas dos forasteiros, é pertinente esmiuçar todos os pontos e locais com potencial interesse histórico, não só de índole livresca mas também com ligações ao passado social da zona. É importante, fundamental até, colocar, em local bem visível, notícia explicativa do local e da sua história.

Neste capítulo pouca coisa há a descobrir. Tanto em Portugal como “lá fora” tem-se trabalhado bastante para oferecer a cultura e história local, sem problemas nem perigos (é de recordar e valorizar que são muitos os idosos que, esquecendo os seus problemas motores e de equilíbrio, não resistem a trepar no intuito de poder alcançar uma vista interessante). Não basta colocar avisos nem cartazes referindo o perigo. Viajaram para ver e pagaram para isso. Merecem que cuidemos da sua segurança, vencendo todos os preceitos inibidores.



cultura e CULTURA


Julgo, possivelmente mal, que nunca se falou tanto sobre a cultura como actualmente. Mas será que a cultura, vista e entendida como geral, sem atingir o estatuto de enciclopédica, aumentou de uma forma que se possa considerar como exponencial, entre a cidadania?

Utilizando uma imagem mental, mas que facilmente adquire uma visão gráfica, podemos apreciar o conceito de cultura como uma árvore centenária, frondosa, com ramos corpulentos, ligados ao tronco principal, e em que cada um destes ramos suporta uma ampla quantidade de derivações, por sua vez multiplicadas quase que até o infinito, apesar de reconhecer que o infinito é, em essência, inatingível.

Pois uma vez situados num ponto de observação que nos forneça uma visão, que consideramos ser geral sem o ser de facto, as motivações pessoais de cada cidadão o levarão a trepar por uma rama determinada, e ao mesmo tempo ou passado um período de indecisão, decidir saltitar, como se fosse um animal arborícola, como esquilos ou macacos, para zonas daquela mole de conhecimentos que à primeira vista não estão directamente ligadas à rama principal que elegeu. Aquilo que devemos entender é que é practicamente impossível, para um indivíduo isolado, dominar todas as ramificações do conhecimento.

Os preconceitos inerentes a ser velho, e que raramente são comuns a alguns membros da sociedade com menos décadas de vida, é que ao longo dos últimos 30 anos, ou mesmo menos, instalou-se na vida dos mais actualizados um ambiente, simultaneamente muito amplo e restritivo, que induz indivíduo, desde idades practicamente infantis, a serem limitados nas suas escolhas e interesses, sem se aperceberem que os manipulam. Para isso conta com a poderosa arma da pressão mediática, a que muitos aderem sem que sintam que o seu comportamento é equivalente, metafóricamente, ao dos capos dos campos de extermínio nazis, que eram escolhidos entre os mesmo prisioneiros e lhes davam a capacidade de serem cruéis com os seus irmãos: Sem enxergar que, mais tarde ou mais cedo, eles também seguiriam direitos para o forno, câmara de gás, fuzilamento ou a corda.

O que me incentivou a escrever, hoje, foi poder assistir a mais um episódio, repetido, das palestras com que o falecido professor Hermano Saraiva tentava dar a entender à população, quão importante era a história pátria, tanto no capítulo dos feitos dependentes das casas reinantes e das personagens que dependiam destes patamares de poder como, e sem descurar a importância que tiveram os cidadãos, mesmo aqueles que nunca conseguiram alcançar uma notoriedade perene.

Quando estes programas foram transmitidos pela primeira vez, em horário que sem ser “nobre”, os tornavam acessíveis à população em geral, foi com muito agrado que soube, por manifestações espontâneas e em primeira mão (ou ouvido), que o chamado povo (muitas vezes com um tom despectivo) era fervoroso espectador. Gostavam ver que podia aparecer a sua terra de origem, e igualmente apreciavam as referências de lugares nunca visitados e de citações históricas que o Professor apresentava, sempre em ligação com o local onde gravavam os programas.

Sem dúvida que foi um trabalho, longo e exaustivo, que deve ter conseguido influenciar, positivamente, um sector da população. E em especial promover a estima pelo País onde nasceram e se criaram, eles e os seus antecessores. Hoje repetem alguns destes programas, mas com um critério de horário que não se conjuga com as disponibilidades do espectador em idade activa. Resumindo: São catalogados como programas para idosos, elementos sociais sem valor económico mas que consomem verbas “que seriam mais úteis noutros sectores”. Uma programação que não pode competir com o lixo que invadiu os horários de todos os canais, chamados de generalistas.

Caso alguém, muito esperto e sabedor como se deve julgar a si mesmo, entende que não é pertinente, e muito menos necessário, dar conhecimento dos valores basilares do próprio país, e que com o futebol e as claques é mais do que suficiente, então afirmo que ficamos bem servidos.

Corto aqui, que já vai longo em excesso, como é meu hábito.


O PRÓXIMO ESCRITO, SOBRE O MESMO TEMA, E QUE JÁ ESTÁ PRONTO, TERÁ COMO CABEÇALHO: AS PEDRAS NOS ENSINAM MUITO, assim estivermos dispostos às interpretar. 

sábado, 4 de fevereiro de 2017

QUEM NÃO SE SENTE ...


Na sequência (mental) do escrito que editei sobre a memória que merece um nosso amigo falecido; que foi durante uns tempos autarca de Oeiras, um dos municípios mais importantes do País, fez com que viessem à flor da pele alguns pensamentos pessoais, ligados com aquilo que verifiquei e li acerca de como funcionam as autarquias locais, nomeadamente nesta época de “boa vida e progresso tecnológico”.

Imagino que os meus pontos de vista não serão exclusivos. A simples ideia dos milhões de cidadãos que existem em Portugal faz com que não me possa considerar como um exemplar único.

A minha relação com as autarquias, seus departamentos e até com alguns presidentes foi, sempre, da minha parte norteada pelo interesse em estabelecer uma colaboração sincera e biunívoca entre eleitores e eleitos. Sempre, ou quase sempre, pelo menos interiormente, mantive a ilusão de que a autarquia era eleita no intuito de servir a cidadania da melhor forma possível. Que devia ser transparente e isenta nas suas decisões. E que devia manter, constantemente, uma ligação directa com a população.

A realidade mostrou que os autarcas, ou alguns deles (será a maioria?) optam mais por agradar e servir os seus apoiantes e aqueles que lhes podem proporcionar alguma promoção mediática. Sem esquecer as suspeitas de que juntam o útil ao agradável quando também se podiam proporcionar benefícios pessoais de qualquer tipo.
actualidade
Este sentimento, que cada dia se vê ser mais geral entre a população, excepto, como é lógico, entre os seus companheiros de partido e mais todos aqueles que dependem da sua boa-vontade. Uma situação de índole humana, quase que inevitável ou difícil de aderir, mas que se incrementou com o advento da democracia parlamentar e a rotatividade dos principais partidos. A situação contemporânea da governação em nada altera a realidade dos factos. Importante é ter a noção de ter atingido uma situação calamitosa e abjecta.

Insistindo nas memórias do que vivi directamente, e mantendo-me na ilusão de que poderia coexistir com as minhas opções pessoais tentei, e até consegui colaborar, dentro das minhas capacidades, com as autarquias, sem que pretendesse ser objecto de algum tratamento de favor. Verifiquei não só que as sugestões desinteressadas não são bem recebidas, assim como também  que colidem com interesses criados, tal vez porque não prometiam benefícios pessoais aos que decidiam. Quem sabe? É uma hipótese sempre presente neste porco mundo.

Aquilo que mais profundamente atinge o cidadão é quando verifica ter sido enganado, preterido, espoliado por quem tinha a obrigação moral, social e contratual de ser absolutamente isento, e não ganancioso sob qualquer aspecto que prejudique a um cidadão sem poder. 

Mas será que os cidadãos não tem poder? Falso tem um poder muito importante se com ele pretende agir, e conseguir afastar, quem não serve honestamente os seus munícipes. É nas eleições democráticas que reside o poder da população.

Tentando retratar a realidade que nos rodeia sentimos que as eleições estão viciadas. Não porque se façam muitas chapeladas, mesmo que algumas existam, mas principalmente porque os adeptos do mandante em activo lhe permanecem fieis, sejam quais forem os seus motivos pessoais. Ultrapassam e desvalorizam todos os seus abusos. Por isso quem está no poder tem, à partida, um número certo de votos favoráveis. Acrescidos daqueles que estão garantidos pela filiação partidária. 

Quanto à oposição verifica-se que, quase sempre, tem menor capacidade de penetração no eleitorado do que aquele que tudo pode. Finalmente, como todos sabem, existe o mal endémico dos que não querem saber, dos abstencionistas, que após o escrutínio retomam as suas críticas inócuas.


Quem lê os meus escritos sabe que aprecio muitos dos anexins que nos guiaram ao longo de muitas gerações. Um deles diz qualquer coisa como: Ninguém escarmenta com o castigo alheio. Pode parecer uma afirmação inquestionável. Só que a justiça codificada não aceita esta simpleza. Por entender que o que pensa transgredir pode refrear a sua vontade quando via açoitar as costas dum que fora apanhado nas malhas da justiça, dava força à decisão de utilizar o pelourinho. Ainda hoje a reclusão dos condenados não tem como propósito exclusivo castigar o faltoso, mas indirectamente desmotivar alguns faltosos, sejam potenciais ou activos.

DIÁLOGOS 3



. Então, como vais?

. Sem intenção de contrariar, não vou. Fico, como uma lapa.

. Uma chapada? Ou uma galheta?

. Atendendo a um dos significados podemos entender que somos parceiros inseparáveis, como a garrafinha do azeite e a do vinagre.

. É uma possibilidade. Porém tenho a ideia de que estes dois líquidos, apesar de andarem da braço dado, são incompatíveis.

. Incompatível é lucrar, por baixo da mesa, com negócios privados quando a decisão de fazer despesas com fundos privados ou públicos dependem da sua idoneidade moral, mais ilusória do que real.

. Não me venhas com moralidades, estando como estamos nos mínimos no que se refere a honestidade.

. Estes valores difíceis de mensurar, mas que sentimos que podem afectar, perniciosamente, as nossas vidas, mesmo no âmbito geral, já estão tão maculados no quotidiano que não nos causam o impacto que mereciam. Aceitamos toda a sem-vergonha como masoquistas sociais irrecuperáveis. Nem sequer lhes damos importância.

. É precisamente esta apatia geral que fornece a impunidade que, nos momentos de lucidez ou de paroxismo nos leva a praguejar.

. Aceito que estás certo. Totalmente. Mas existe um pequeno pormenor que anula esta vontade indómita de arranjar tudo, possivelmente a mal, pois que a bem nada se consegue.

. Entendi. Referes-te a que este momento de revolta imensa passa mais depressa do que a chama de um fósforo.

. E tudo volta a estar na mesma Como a lesma.

. Precisamente uma noite destas meditava sobre lesmas e caracóis.

. Não me digas que encaras estas duas espécies de gastrópodes com a visão simplista de que são a mesma coisa. Só que um deles saiu da casca e o outro ainda consegue fechar-se na sua casinha.

. Por acaso vi, algures, referências às antigas casinhas que, poucas décadas atrás, permitiam que o “caracol” se fechasse lá dentro a fim de verter águas ou largar o calhau.

. Só os mais velhos recordam esta experiência. Alguém, já falecido, me contava que num destes lugares de recolhimento activo, tinha tido a ocasião de saber factos que ignorava.

. Como assim? Não creio que aquelas guaritas, acanhadas e pouco arejadas, eram fontes de saber, Uma coisa parecida a algumas das Universidades Privadas que por aí proliferaram.

. Sim e não. O conhecimento que lá se podia adquirir era muito mais normal e evidente se tentares situar-te no ambiente, fedorento como um gato, que lá podia encontrar o esforçado estudioso.

. A minha idade não me fornece a necessária experiência para acompanhar o teu enevoado discurso. Explica-te, se não te causa um excessivo esforço.

. Simples e imediato. Habitualmente no interior da cabine das necessidades havia, cravados num prego, pedaços de jornal, bem cortados e com dimensão practicamente homogénea. Era nos momentos de esforços, ou relaxamento se o fedor não incomodasse, que se podiam encontrar partes de notícias que, mesmo com a censura que existia na época, davam pistas para ler nas entrelinhas,

. Entendi. Fica uma dúvida: se as folhas de jornal já vinham cortadas aos quadrados, mais ou menos certos, é possível que o texto que tanto interessava ao leitor secretário, pois que estava sentado na secreta, ficasse interrompido na altura mais dramática. Era assim?

. Era mesmo como dizes. Em vernáculo e em conformidade com o local, estas interrupções dos textos eram uma verdadeira merda. Apesar disso, incitava o interessado a procurar informações complementares, perguntando aqui e ali, sempre com cuidado para não levantar a lebre dado que existiam ouvidos bufos, que eram os machos das bufas. E, graças ao treino que estes interessados tinham adquirido, ficavam a saber bastante mais do que estava escarrapachado no jornal.

. O seja, naquele então o jornal era utilitário em diferentes aspectos, E a sua função social terminava colaborando na limpeza do final do aparelho digestivo.


. Mesmo que não queiras admitir, ao longo destas conversas disparatadas acabas por aprender alguma coisa.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

IN MEMORIAM


Sinto ser minha obrigação, como humano, dar fé do nosso profundo pesar pelo falecimento de um grande e fiel AMIGO, JOÃO ANTÓNIO PINA DA SILVA RAMOS.

Foi uma pessoa culta, engenheiro civil pelo IST, e com uma dedicação intensa em electrónica e comunicações. Desde muito novo segui a carreira militar, atingindo o grau de Coronel. Após o 25 de Abril de 1974, e durante a derradeira parte da fase mais conturbada, conhecida como o verão quente”, -que teve sequelas no outono, inverno e primaveras seguintes- foi Presidente da Câmara Municipal de Oeiras, eleito pelo então AD coligação entre o CDS e PSD.

Conheci o meu colega Engenheiro, mas na qualidade de Presidente eleito, por casualidade, estando eu entre o público numa sessão da Câmara. Não havia nada de pessoal na minha presença e só passados um par de anos nos conhecemos frontalmente, por sua iniciativa.

Gerou-se, entre os dois casais uma forte amizade, profunda, sincera e activa por ambas partes. A esposa, ALDA, faleceu um par de anos atrás, quando eu estava imobilizado por ter sofrido uma operação na coluna vertebral. Não pude acompanhar a família em tão penoso transe; mas nunca esquecí o não me ter despedido como nereciam.

PAZ ÀS SUAS ALMAS, E A SUA MEMÓRIA NOS SERÁ PRESENTE ATÉ O DIA EM QUE OS ACOMPANHAREMOS NO FATAL DESFECHO.


Augusta e Albert Virella