VIVÊNCIA DE VIRELLA
Meditações – A restauração em Portugal
Deixando para outro capítulo os restaurantes especializados, com fama consolidada durante décadas, o sector da restauração no território nacional, foi sempre valorizada por nacionais e estrangeiros como farta, saudável e até, em muitos casos, de execução primorosa. Entrando pela fronteira terrestres e exceptuando alguns pratos típicos regionais da zona espanhola, era aqui que os comensais se sentiam satisfeitos e bem servidos, normalmente atendidos com educação e prontidão, com vinhos de qualidade média ou até superior.
Actualmente, e penso que devido à tentativa de criar uma nova classe profissional “privilegiada”, entraram em cena os novos cozinheiros “chefs de cuisine”, cuja preocupação mais geral é a de preparar pratos com aspecto requintado. Decorados cuidadosamente e com pouco que comer. Lutam por conseguir notoriedade e multiplicam-se como as minhocas num terreno húmido. Sem fazer um inquérito para me basear, e só por convicção pessoal, admito que a maioria das pessoas sensatas já preferem voltar a receber uma travessa bem recheada e da qual se possam servir, para o seu prato, as quantidades e bocados que mais lhe agradam.
Já vi, fotografias na TV, do que serviram como “feijoada” ou “caldeirada” em pratos practicamente vazios, alguns de diâmetro normal mas com uma cova minúscula no centro, onde colocam uma amostra do que se desejava. Mas sempre com uma conta desproporcionada, que se pretendia justificar pelo facto de terem como orientador e executor (parcial ?) um indivíduo, em geral do sexo masculino -sem dispensar liminarmente as senhoras-, que ostenta o título de “cheff” dado num estabelecimento de ensino normalmente financiado pelo estado ou por fundos europeus.
A vaidade e o desejo de ser visto por pares do seu estrato social, estes locais de restauração (?), que proliferaram acentuadamente, já foram desconsiderados para as suas refeições pelos amantes da boa mesa. Mantém-se pela esnobice de certos clientes.
Qualquer dia teremos a possibilidade de encontrar, afixada na fachada exterior do restaurante, uma placa que garanta, com um texto apropriado e legalizado, que aquele estabelecimento não comporta um chefe de cozinha “diplomado”, ou melhor, que o seu responsável segue as receitas e técnicas da cozinha tradicional portuguesa com o máximo rigor e usando os produtos da época e “a casa” mantêm a decisão de que o cliente se levante saciado e satisfeito.
Neste espaço pretendo colocar relatos de experiência próprias e algumas elucubrações mais ou menos disparatadas.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2021
VIVÊNCIA DE VIRELLA - Ganhamos ou perdemos?
terça-feira, 12 de janeiro de 2021
MEDITAÇÕES - Engolir com cuidado
VIVÊNCIAS DE VIRELLA
Cuidado com a religião. Recomenda-se lidar com mini-doses
Muitos de nós temos a noção de que alguns elementos químicos ou ou compostos onde estivessem incorporados foram usados, e alguns ainda se usem como medicação entrem na sua composição, ou foram posteriormente banidos. Mas desde cedo se verificou que em muitos casos concretos só era pertinente utilizar em doses mínimas, sob pena de o remédio se converter em veneno.
No repositório da sabedoria popular conhecemos, todos, o aviso de que tudo o que é demais é moléstia. Razoado que tanto se pode e deve aplicar no tema dos produtos que se ingerem, incluindo os alimentos, como ao excessivo trabalho, a exposição ao sol em solários ou praia, e a outras actividades, inclusive desportivas, que, sem os cuidados pertinentes, passam de ser benéficas a serem perniciosas.
Esta introdução surgiu-me ao meditar sobre os benefícios e malefícios que podem resultar de uma catequização intensiva e aceite pela pessoa crente. Em princípio, sem entrar em pormenores, pode-se admitir que todas as religiões contêm preceitos e normas formativas , inicialmente positivas sob o ponto de vista sociológico. Pessoalmente recomendo que limitemos a nossa adesão aos princípios mais elementares.
Onde as doutrinas descarrilam é quando fomentam o entrar em conflito com aqueles que não pertencem ao seu grupo.
Sem ter estudado a religião onde me catequizaram (sem grande sucesso) e cingindo-me aos dez mandamentos que se diz o Deus dos hebreus entregou a Moisés, se retirar os dois primeiros -que são exclusivos- o resto constituem um repositório de preceitos de comportamento com indiscutível valor e pertinência. Assim fossem aplicados ciosamente pelos membros dos diferentes ramos do cristianismo.
Nos tempos que correm ficamos indignados, perturbados quando nos referem ataques terroristas que os responsáveis, os autores imediatos, pretendem justificar alegando que são castigos a infiéis (do seu credo) que, directa ou indirectamente ofenderam a sua doutrina. Na maior parte das vezes são aliciados para cometer tais actos por indivíduos que se assumem como enviados ou escolhidos pelo seu profeta.
Em chegando a este ponto, e sem aprovar os actos cometidos por fanáticos, sejam religiosos ou políticos, surge a lembrança do quão curta e selectiva é a memória da maioria das pessoas. Esquecem, ou ignoram, as atrocidades, as chacinas, que os cristãos, e entre eles não só os católicos, cometeram contra civis indefesos. O massacre dos cátaros, as perseguições a judeus, aos indígenas de territórios conquistados -com a argumentação de que eram idolatras- e, entre nós, mais recentemente, no séc XVIII, quando reinava D. José e o Marquês de Pombal ainda era Primeiro Ministro a “Santa” Inquisição fez um multitudinário auto de fé, com mortes pelo fogo, ou em efígie, sob diversas argumentações, hoje inaceitáveis.
Tudo no Terreiro do Paço para gáudio e aviso para a população, sempre sedenta de sangue. Devemos valorizar que isto aconteceu anteontem!
Sem pretender uma exculpação dos terroristas islâmicos, ou de outra facção belicosa, creio que é pertinente considerar que nós, os cristãos, e principalmente os católicos de cuja doutrina somos participes activos ou dormentes, não temos as mãos sem mácula. Antes estão bastante sujas de sangue seco.
quinta-feira, 7 de janeiro de 2021
MEDITAÇÕES - Sobre o peso dos dogmas
VIVENCIAS DE VIRELLA
Os exageros nas doutrinas
Uma das notícias que surgiram nos últimos dias referiu que, em alguns países com predomínio social da religião muçulmana, estão na linha de interditar a aplicação de algumas vacinas contra o Covis-19 alegando a suspeita, não confirmada, de que na sua preparação entra a gordura de porco, banha, baseando-se de que um dos preceitos e proibições do islão é consumir carne de porco e seus derivados.
Desde muitos anos atrás tive a convicção de que tal proibição de consumo de suínos tinha como propósito o travar, ou mesmo evitar, a difusão do parasita causador da triquinose. Numa visão de medicina preventiva, mas aceite por dogma, pode-se comparar com a recomendação de não ingerir certos na época da desova destes, pois podem estar inquinados de compostos perniciosos para a saúde humana.
Não quero fazer comentários que impliquem invasão dos preceitos religiosos por respeito aos crentes que, a meu entender, são excessivamente dogmáticos.
terça-feira, 5 de janeiro de 2021
MEDITAÇÕES - O Rei do Fado
Antes de começar com o assunto que trago engasgado quero pedir a benevolência dos meus, poucos, leitores por meter foice em seara alheia. Pode ser uma intromissão grave, como o afirmar que a vaidade de ter uma palavra exclusiva do idioma nacional: saudade, é um exagero de patriotismo e desconhecimento de outras línguas, pois que com ela se pretende, e consegue, retratar um sentimento que é universal.
Desde ontem que me sinto desnorteado pelas loas que se estão a dar ao falecido Carlos do Carmo, como ter sido o expoente máximo da interpretação do fado. Tenho 82 anos, dos quais 70 vividos em Portugal, país que me agrada e que justificou o pedir a nacionalidade portuguesa. Por isso posso afirmar que ouvi muitos intérpretes do fado, entre os quais, e sempre identificando este género de canto como de génese popular, até de nível plebeu, tal não impediu a que, progressivamente, fosse “reinventado” para ser aceite como apto a ser cantado e ouvido em locais mais “finos” do que as tascas onde nasceu.
Todavia, a meu entender, o seu a seu dono. Não podemos deixar nas trevas o ALFREDO MARCENEIRO, que sempre se manteve fiel ao ambiente onde nasceu e cresceu. Também recordo o CARLOS RAMOS, com o seu porte mais cosmopolita mas com uma técnica muito própria e adequada ao fado já em evolução. Para meu juízo, ambos mereciam, em paralelo, o terem subido ao pódio de uma competição hoje abastardada na sua evolução ambígua.
Poderia, e devia, referir outros intérpretes masculinos merecedores de ser recordados. Sem esquecer nem tirar méritos às intérpretes femininas que se dedicaram a este género de música, muitas adaptando-se, com êxito, às novas exigências do mundo do espectáculo.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2020
MEDITAÇÕES – A estrutura esquelética
A evolução das espécies
UM AXIOMA. A Mãe Natureza quando encontra uma solução que considera ser a melhor, quase perfeita, adopta para todo o sempre.
Tenho a ideia, possivelmente errada, que quando olhamos para um animal qualquer mais cedo ou mais tarde procuramos alguns pormenores que sejam compatíveis com os humanos. Eles existem, e não só entre os classificados como primatas , e por extensão aos mamíferos, como a muitos outros animais com quatro membros, digamos genericamente pernas, pois que braços com mãos e dedos existem, além dos humanos, como acontece com os répteis com pernas e até as aves.
Pois acontece que a estrutura óssea dos membros locomotores de locomoção, é em tudo semelhante à das pessoas. Se fosse adicto da criação divina consideraria que, tendo encontrado uma solução funcional, só foi necessário adapta a cada nova espécie.
A observação é simples e muito curiosa. Tomando o nosso corpo como base de comparação vemos que os membros anteriores, ou seja os braços, deslocam-se do corpo começando pelo braço, que se adianta do tronco e depois prolonga-se com o braço e mão. O fulcro, que funciona como uma dobradiça, está no cotovelo. O quando dobrado, fica, normalmente recuado em relação ao ombro, que á a primeira junção móvel.
Inversamente os membros inferiores, ou traseiros nos quadrúpedes, dobram ao contrário. O conjunto ósseo que está ligado ao esqueleto fixo, mesmo que flexível através dos vértebras e uniões elásticas, avança primeiro para trás, dobra num joelho ao contrário do cotovelo, permitindo que a perna avance e possibilite a nova implantação do pé no solo.
O mais interessante é que esta disparidade de articulação entre os membros anteriores e posteriores encontra-se já nos mais antigos fósseis de vertebrados. De onde se pode concluir que a natureza, quando encontrou uma solução funcional para a deslocação dos animais terrestres manteve, sem alterações, o mesmo esquema de articulações. Tanto serviu para os dinossauros mais volumosos como para os minúsculos precursores dos mamíferos. E também com os répteis, cujos descendentes mais actuais são as diferentes famílias de crocodilos, jacarés e até nas tartarugas (Quelónios), cujo esqueleto complementar ao dos membros está incluído na carapaça.
Nos animais marinhos encontramos mamíferos que sob um corpo adaptado à natação trazem os esquemas ósseos dos animais terrestres. E, mais no reino dos peixes, encontrou-se, ainda vivo, um peixe com membros atrofiados equivalentes a braços e pernas. O primeiro exemplar que, em 1938, chegou aos zoólogos investigadores a notícia de que na zona do Oceano Índico entre Moçambique e Madagáscar, era frequente que os os pescadores locais apanhassem um peixe, esquisito, com umas patas incipientes. Pela descrição correspondia a um fóssil que se suponha extinto desde uns 65 milhões de anos. Um elo perdido da cadeia evolutiva, e que fora baptizado de Celacanto. Deslocaram-se até a comunidade piscatória e, desde então, conseguiram-se vários exemplares deste “fóssil” vivo.
Muitos outros peixes conservam rudimentos dos membros dianteiros e posteriores nas barbatanas peitorais e ventrais. E nos mangais do Índico encontram-se peixes, que se deslocam sobre as barbatanas como se fossem pernas e até conseguem respirar o ar.
Ou seja, que olhando para as características de uma espécie nos podemos deparar com detalhes inesperados, por serem comuns a outras mais definidas.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2020
MEDITAÇÕES – Nem nos damos conta
A evolução das espécies é notável
Creio, e posso estar totalmente errado, que há muitos pormenores no que nos rodeia, e até em nós mesmos, que levamos um tempo demasiado longo em advertir. E são muito importantes!
Um exemplo que temos sempre disponível é o facto de que o arco dentário da maxila inferior tem um raio notavelmente maior do que o arco superior. De imediato verificamos que um deles, o superior, é fixo, e está condicionado pelo crânio. O inferior, é móvel, não só num eixo vertical (sobre e desce) como tem um importante movimento lateral.
Conhecemos a nomenclatura com que se identificam os dentes, em relação com a sua função. Os centrais, frontais, são conhecidos por incisivos, e a sua função é a de cortar, logo a seguir, de um lado e outro, aparecem os caninos de forma bicuda, que nos são comuns aos felinos e outros animais carnívoros, seguem-se os pré-molares, que se utilizam para um primeiro esmagamento dos alimentos. Os últimos da série são os molares, cuja função é a de ultimar a preparação fina da papa que iremos engolir.
Cada sector da dentição tem a sua função e aqui reside a importância do movimento lateral da maxila inferior, Para “moer” não basta esmagar, pressionado sempre sobre as mesmas partículas. Até no processo de corte, é frequente que, além de apertar os incisivos de ambas maxilas, sintamos a necessidade de as deslocar para encontrar outra possibilidade de corte.
Seguindo com a tarefa de preparação do alimento, e com o auxílio, muito importante e automático, da língua, a massa de alimento vai mudando de lugar e assim possibilita o conseguir um esmagamento, uma mastigação, perfeita.
É um erro, que se paga com digestões demoradas e molestas. É, pois recomendável mastigar até sentir que a pasta de alimento é uniforme e leve, ou seja: não engolir apressadamente, como um alarve.
Se ao arco dentário da maxila inferior fosse exactamente coincidente com a dentição superior, não mastigaríamos de forma conveniente. Que o digam os ruminantes, nomeadamente as vacas, que mastigam continuadamente sem ingerir nova quantidade de alimento.
Na próxima entrada penso referir a coincidência das articulações dos membros da maioria dos animais terrestres.
Na seguinte entrada penso falar nas articulações dos vertebrados.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2020
MEDITAÇÕES - Leituras sérias
ACERCA DO MARQUÊS DE POMBAL
Nestes dias de recolhimento deu-me para ler alguns dos livros que tenho sobre a vida e andanças de JOSÉ SEBASTIÃO E MELO, que primeiro foi Conde Oeiras, grau que não lhe concedeu nenhum respeito entre a fidalguia portuguesa de então, notáveis pela sua nenhuma vocação para o trabalho, fosse ele qual fosse, mas gozando da vida o mais que pudessem.
Bastante mais tarde Sebastião e Melo foi agraciado com o título de Marquês de Pombal, que deveria abrir-lhe as portas dos velhos fidalgos, mas que, pelo contrário ainda mais os acirrou contra ele, incitados pelos membros da confraria dos fardetas, ou seja, dos jesuítas.
Com algum masoquismo e incitado por leituras anteriores, fui procurar na estante um “pequeno” volume, nada assimilável a um livro de bolso. Mais propriamente um livro de mochila, pois que mede 21x30 na capa e 8 cm de grossura; pesa dois quilos!
Na lombada figura O MARQUEZ DE POMBAL e foi editado em1885, numa edição de 50 exemplares numerados na Imprensa Nacional de Lisboa, por encargo do CLUBE DE REGATAS GUANABARENSE. Por ocasião do centenário da sua morte. No prefácio figuram os nomes das entidades e pessoas a quem se distribuíram os exemplares, figurando à cabeça Sua Mageftade Dom Pedro II, Imperador dop Brasil. E entre os colaboradores encontram-se nomes de brasileiros famosos. Toda a edição segue o acordo ortográfico da época.
Está nas minhas mãos desde décadas e encontrei sinais de já ter lido algumas páginas. Mas não recordo como fiquei dono deste volume. Pode ser que o localizasse num alfarrabista na rua nova da Trindade, quase ao lado da antiga Cervejaria Portugal. E que eu frequentava procurando, e por vezes encontrando outras preciosidades bibliográficas.
Não vos vou maçar com referências da vida do Marquês, que, apesar da contrainformação, foi um homem excepcional. Pelo menos nas suas iniciativas para fazer evoluir o País. É difícil resistir ao impulso de recordar algumas das suas iniciativas, tanto industriais como legislativas. E o meu retraimento deve-se ao sentimento de que são os portugueses “de gema e clara, mais a casca castanha (tudo efeitos de manipulação bioquímica nos alimentos que se dão às galinhas poedeiras) que devem, sentir-se incitados para estudar, com alguma profundidade o percurso e os feitos deste grande homem público.