sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

MEDITAÇÕES – Acerca do bode


NEM TODOS OS BODES SÃO QUADRÚPEDES

NOTA PRÉVIA: Muito antes de vos oferecer uma situação real, que merece ser referida, vou impingir uma lição de culturazinha dispensável. Tenham paciência. E esperem.

Se nos limitarmos ao que se sabe, e se diz a respeito do bode, além de se associar a uma barragem e um castelo, também traz agarrado o estigma de que o seu sinónimo cabrão está, infame-mente desprestigiado por causa de que algumas esposas se afirma serem sexualmente infiéis aos seus maridos. Numa abusiva imagem metafórica se atribui o aparecimento, invisível a olho nu, de um formoso par de cornos, hastes, chifres, antenas, chavelhos,... com só uma haste à direita e outra à esquerda, caso o adultério é simples, ou com múltiplas ramificações, como um cérvido se a esposa infiel é de espírito mais magnânimo do que habitualmente se admite como quase aceitável, e opta pela distribuição dos seus tesouros e habilidades amatórias sem restrições e, além disso, gratuitamente, a mais do que um interessado.

Estes casos de vários condóminos para um mesmo bem, sem respeitar um mínimo do compromisso de unicidade conjugal supomos que, mesmo sem ter feito um inquérito social que o aval, não devem ser assim tantos. De não ser assim já a atribuição da cabronice deixa de ter um sentido biológico, restrito ao cabeça (enfeitada) do casal. A sociedade mantêm o adjectivo qualificativo para o desrespeitado, mas também qualifica a infiel e badalhoca esposa, que passa a ser valorizada como cabra.

Por outro lado, mas continuando na biologia, o macho cabrio, tal como sucede com muitas outras espécies, nomeadamente entre os mamíferos, dista muito de ser monógamo. A sua capacidade e vontade reprodutora o leva a ser insaciável e não monógamo. Luta denodadamente para conseguir a exclusividade de acasalar com um farto rebanho de fêmeas, e garantir-lhes uma descendência em conformidade com as suas capacidades reprodutoras e lutadoras. Por esta razão o bode ocupou, desde os inícios da domesticação dos animais, ser símbolo do libido e da intensa capacidade reprodutora.

Nas mitologias egípcia e grega, sempre com base na fonte inicial Mesopotâmica, o bode representava a timidez, introversão, criatividade e domínio, sem nunca esquecer o seu potencial reprodutivo. Concretamente, na mitologia grega era um dos deuses da natureza, sob a alçada de Dionísio. Numa versão simpática era identificado com o Deus Pan, entre outras capacidades, tinha a de se transformar em homem e poder retomar a forma de bode.

Uma figura polifacética, que ainda nos reserva mais capacidades: Os hebreus, novamente por transferência de mitos da zona do Paraíso de Adão e Eva, ou seja entre os rios Tigris e Eufrates, incorporaram na sua lista de personagens célebres a figura do bode expiatório, que ainda hoje é atribuído a alguém que, tendo culpa ou não, lhe são atribuídas todas a responsabilidade de uma malfeitoria que afecta a sociedade em geral. Eles. Judeus, sacrificavam o bode expiatório em vez de uma pessoa determinada. O pobre do macho cabrio era o recipiente final de uma culpabilidade mal atribuída, mas penosa para a sociedade. Esta cerimónia de lavagem por interposta figura é uma das celebrações do Yom-kippur.

Finalmente devo referir que com a chegada do cristianismo, ao bode lhe foi adjudicada a figura do demo, de Satanás, do mal em geral. Na idade média o bode foi associado à bruxaria, a nigromância e missas negras. As reuniões de feiticeiros e bruxas contavam, sempre, com a presença de um bode que se supunha encarnar o diabo, e que, diz-se devia copular com as bruxas. Consta, sem garantia de ser assim, que o bode também entra em certos rituais de lojas maçónicas. Com a óbvia negação dos membros que se reconhecem como tal.

E agora a história verídica:

Numa segunda feira que não fixei, mas era dia de trabalho, ao iniciar as actividades na oficina de cerâmica, deparei-me com um alegre convívio entre as raparigas. Muita risota e alegria. Senti curiosidade por saber o motivo de tanta galhofa. Uma das moças tomou a palavra e disse que tudo se devia à sua irmã, que casara na véspera, e no seu bode. Que era prenda da sua mãe. Não entendi nada. Mas decidiu completar o relato.

Dizia que o recém casado, quando viu a noiva já quase descascada, mas com aquele conjunto completo de roupa íntima, além de siderado, começou a manusear com a intenção de eliminar aquele formoso obstáculo, sem acertar na chave de segredo. A noiva, já esposa, divertidissima lhe indicou os colchetes do entre-pernas. Ele não sabia nada a respeito disso dos bodys, nem sequer elas usavam o nome correcto, mas deturpavam à popularucha. Era tanta a alegria quanto grande era a minha desorientação. Só no fim é que me percatei que ali havia uma degradação fonética instalada a pedra e cal entre elas .

Daí que sempre que vejo uma destas obras de arte íntima numa montra recordo o “bode” e rebento a rir (por dentro, em surdina...)

TENHAM UM BOM ANO 2020, os que leram pacientemente. Os outros, não sabem de nada.


quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

MEDITAÇÕES - Uns são gordos e outros esguios


MEDITAÇÕES – Uns são gordos e outros esguios

MAIS UMA VEZ SOBRE OS DRAGÕES

Em todas as épocas e lugares do globo, o homem tem-se debatido, mentalmente, com os dragões, se entendermos como tais os seres imaginários que são responsabilizados de acções que nos ultrapassam. Se estivermos dispostos a ter uma visão abrangente de todos os seres míticos que a humanidade tem adorado ou temido, que são duas faces da mesma moeda, sempre, mas sempre sem falhar, encontraremos na base destes mitos a Natureza, e os seus “fenómenos” que, por obedecerem a forças que nos ultrapassam, o homem sempre procurou explicar com elucubrações difusas, notoriamente incríveis a mentes que se pretendem esclarecidas.

Já não recordo qual foi a faisca que me incitou a entrar, positivamente a saque, no tema do mítico dragão e de tudo aquilo que fui encontrando, nem sempre evidente, mas que deram azo a credulidades de génese ignota mas perdurável. Actualmente o assunto, no que me atinge pessoalmente, está arquivado, em pousio. Mas paulatinamente vão surgindo comentários e assuntos que levam a recordar o que mantenho compilado, copiado, desenhado, gravado e escrito, e próximo a decidir a editar em livro.

Uma conversa entre amigos fez emergir, das profundezas do arquivo, a dicotomia entre o dragão oriental e o ocidental. Ao primeiro lhe é atribuído um corpo longo, ondulante, serpentina e voador, enquanto que o dragão europeu ocidental permaneceu, durante muitos séculos, como um ente perigoso, difícil de visualizar, com corpo compacto, rechonchudo e habitualmente residente em grutas, fragas ou florestas com densidade impenetrável. Logicamente, dado que o homem pretende explicar tudo o que o rodeia, deve existir alguma razão para que as duas etnias draconianas, oriental e ocidental, sejam tão diferentes e até de como são definidos os seus caracteres.

Para entender a divergente imagem do dragão entre Oriente e Ocidente temos que recuar muitos séculos, e analisar os elementos de representação iconográfica que encontramos hoje. Sem dúvida que as representações orientais são muito anteriores às ocidentais, o que coincide com a reconhecida decalagem cultural que existiu entre estes dois sectores do continente euro-asiático. O que ainda hoje nos pode causar admiração é a insistência em representações de dragões que se mantêm viva no Oriente, sendo corrente o uso decorativo em porcelana, escultura, talha, pintura e gravura. Mas sempre com ar feroz e indutor de temor.

Perdoem a insistência, mas é curioso observar como o dragão chinês, e dos países seus colimitantes, tem sempre uma face agressiva e uma garras armadas de poderosas unhas. Ambos sinalizando um evidente e potencial perigo. E, apesar disso, nos é referido que, para as pessoas da zona, o dragão pode ser um entre protector perante perigos que não está no poder do homem conseguir neutralizar. Por isso encontramos dragões no topo dos telhados dos templos e palácios, nas esquinas das casas e em muitas entradas de respeito, numa posição equivalente à dos leões que guardam museus, e outros edifícios de respeitabilidade no ocidente.

Recuemos mais, até os primórdios da cultura asiática. O mito tem o seu início nas luzes mutáveis e alongadas, com aparência de cobras, que circulam pelos ares (em determinadas ocasiões). Não se sabia a que era devido, qual era a sua origem, mas sabia-se que podia ser o presságio de graves alterações atmosféricas, de ventos fortíssimos acompanhados de chuvas torrenciais e até de inflamação por raios. Tardou tempo em se descobrir que aquelas serpentes coloridas nos céus eram auroras boreais, causadas pela atracção magnética dos pólos terrestres para os ventos solares, carregados de energia, ionizavam a atmosfera. O que sim encontraram foi uma relação entre as cobras celestes, multi-coloridas, e as temíveis tempestades.

Até aqui o respeito aos fenómenos atmosféricos, eléctricos ou luminosos, foi motivo de atenção e culto por todos os povos de Terra. A forma de tentar neutralizar o perigo é que foi diferente para os orientais, mais meditadores e simbolistas do que os primários ocidentais. E o que no Oriente decidiram foi que deviam procurar, com insistência, ter uma relação de amizade com o dragão, sem esquecer que ele tem poderes inatingivel para os humanos. Que o deviam satisfazer e adular, sem deixar de o temer.

É muito interessante saber como e quando a decisão de procurar fazer amizade com o mítico dragão, passou do Oriente para Ocidente. Já os exércitos de Alexandre se depararam com tribos indígenas estruturados em exércitos, que em altos galhardetes desfraldavam longas tiras com representações de dragões, que ondulando com o vento, imitavam as auroras boreais. Provavelmente só os portadores destes estandartes conheciam o seu significado. Mas foram adaptados, pelos exércitos gregos e romanos como método de gerar terror ao adversário. Mais tarde nos exércitos modernos, nomeadamente em certos esquadrões de cavalaria, adoptaram o nome “dragões” . Mas o simbolismo da serpente voadora foi-se esbatendo.

O dragão ocidental passou a ser um ente terrestre, com propriedades mágicas, entre elas as de se poder deslocar pelos ares para justificar a sua ubiquidade, ou seja a presença em lugares muito distantes entre si. Só muito recentemente, com o auge dos filmes de animação, os “nossos” dragões voadores passaram a ser representados com asas de grande envergadura, sem todavia obedecer às relações de potência e envergadura que são, naturalmente, seguidas por aves e morcegos.

(*) mas, pragmaticamente, não me decidi a fazer a despesa de editar para desfazer em pasta reciclada.











MEDITAÇÕES - Obsessões parvas


PAIXÕES IMAGINADAS

Especular, sem ter uma base sólida onde me apoiar, é um atrevimento que pode dar resultados desagradáveis, ou pelo menos errados. Mas adiante! Atrevo-me a dizer que em muitas cabeças, consideradas como relativamente sensatas, ou pelo menos loucas à solta, sejam de homens ou de senhoras, devem existir, no canto da vassoura e da esfregona, uma pessoa pela qual se suspirou durante bastante tempo e que, anos mais tarde de ter o seu início, ainda constitui uma espécie de cume inalcançável e indestrutível.

As únicas referências que consegui recordar onde aparecem paixões imaginadas, estão todas do mundo da fantasia, ou descendo um pouco à terra, na literatura, incluída a poesia, e nas artes plásticas. O que é mesmo difícil é aceitar que alguém estava atacado pelo vírus mental responsável por tal obsessão. A razão desta rejeição em admitir uma situação que, a meu ver, deve estar muito estendida pela humanidade é porque aquilo que surge, mentalmente, não casa com a realidade vivida.

Muitas das personagens que nos obcecam sentimentalmente é pouco provável que tenham estado num nível de proximidade que justifique o impacto que se admite causou. Ou seja sente que não tem um fundamento plausível. Daí que se pode diagnosticar como uma falsa memória, implicando alguém que, sem razão, a mente decidiu que nos deixou o testemunho de uma “paixão não transmitida ou não correspondida” .

Este tipo de obsessões profundamente enraizadas são referidas com bastante frequência na poesia, literatura, pintura e artes plásticas. Alguns casos tornaram-se paradigmáticos, não só porque existem dúvidas de qualquer deles ter chegado a vias de facto, mas porque se tem quase a certeza de que tudo não passou de uma miragem obsessiva., unidireccional.

O mais famoso, ou pelo menos aquele que levou a ter muitos comentadores e especuladores, corresponde ao quadro da Gioconda, com o seu ambíguo sorriso, pintado pelo mestre Leonardo de Vinci. Aliás os quadros, pois existe mais do que uma versão, sem contar as cópias identificadas como tais e as falsificações. Muito se escreveu a propósito deste amor, que supomos ter sido mais platónico do que carnal, entre o grande Mestre e a dama que foi o seu modelo. Até porque consta o Mestre Leonardo ter outro tipo de paixões carnais mais acentuadas e, embora usuais, não aceites. E, caso o mundo civilizado não termine de repente, é muito provável que esta obra continue a chamar a atenção e a fomentar especulações.

No âmbito da pintura há outros exemplos de obcecações do artista para o seu modelo. Teria que dar uma volta pelas monografias da pintura e descartar aqueles casos em que o pintor se admite, ou se sabe, que conseguiu os favores, ou o prazer da carne, como se diz numa tentativa de esclarecer sem ser vulgar.

Já dentro do período de tempo em que me tem calhado estar presente, o que leva a palma de fauno-mor foi o malaguenho Picasso, e aquele que deu muita tela à sua dama, o seu coetâneo Dali, mais a sua “esposa” Gala, apesar deste ser um reconhecido homossexual.

No campo da literatura podemos recuar até Dante, com o seu amor mental, reservado mas evidenciado entre nevoeiros de fantasia, para Beatriz. Ainda mais sonhado, até ao nível da obsessão, é o que Cervantes insistentemente refere da sua criatura, nitidamente lunático, Dom Quixote, ou a personagem “real” que o autor colocou na visão terrena do sonhador com o nome de Alonso Quijano, um nobre arruinado e totalmente fora da época em que decorre a acção. A musa, o amor obcecado de Cavaleiro louco era a imaginada Dulcineia del Toboso, uma mistificação da rústica Aldonça Lourenço, não mais do que empregada numa albergaria de caminhantes e comerciantes de passagem.

E deveria entrar directamente na literatura portuguesa, onde não faltam os amores não correspondidos, imaginados ou proibidos, Mas este tema já foi exaustivamente debatido e publicado no seio da meio nacional.

Onde eu queria chegar é à possível existência em muitas mentes, ainda hoje em estado latente, de obsessões amorosas que jamais foram correspondidas, ou nem sequer tentadas. Que ficaram nas mentes delas ou deles como enquistadas e que, periódicamente afloram para ensombrar a razão, ou seja a mente, do afectado/a.

Uma situação que se tornou recalcada, e resguardada no tal canto escuro e esconso dos artigos de limpeza caseira, e que a pessoa que a sofre, ou a vive mentalmente, não tem a mais mínima satisfacção, Mais até, pode causar uma adversão, por ser consciente de que não tem qualquer razão de existir. Que é uma especulação dos neurónios, baseada em detalhes quiméricos, sem importância real, só virtuais. Dizendo de outra forma: Estas obsessões “amorosas”, normalmente não estão ligadas a visões, imaginadas, no campo do erotismo, nem passivo e menos activo. É esta sedimentação mental na zona do mais respeitoso amar que as torna mais duras de roer e duráveis.

Se as imagens mentais se completassem com visões de índole sexual, ou mesmo pornográfico, não permaneceriam durante décadas. Seriam substituídas por outras ainda mais cruas. É a imaginada possibilidade de terem tido alguma oportunidade, que não existiu, que as tornou perenes.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

MEDITAÇÕES – A culpa é sempre de outro



SITUAÇÃO ETERNAMENTE CÍCLICA

Portugal é um pequeno país, belo, interessante e povoado de gente boa, maioritariamente mesmo boa gente, educada familiarmente e prestável para ajudar a quem lhes surja pela frente, sempre e tanto que este desconhecido seja, por sua vez, respeitador e ofereça sinais claros de que pretende cumprir, nem que seja minimamente, as regras sociais que se tornaram como código de conduta nacional. Um decálogo não escrito nem avalado por alguma Assembleia Política.

Mas (sempre existe um ou mais MAS...) reconhecer a boa qualidade da maioria das pessoas do País não nos pode esconder o hábito, em excesso de uso, de atribuir as nossas desgraças, em geral cometidas por uns poucos mas que afectam à totalidade da população, que sem dúvida corresponde ao descalabro, esbulho e rapinagem a que, quase que permanentemente, são sujeitos os bens públicos. Se todos os que se aproveitam, desmedidamente, dos fundos públicos, andassem pelas ruas com mascarilha, como os Irmãos Metralha da banda desenhada, tínhamos uma densidade de máscaras inesperada.

E, sintomáticamente, os mesmos que são, de facto, os culpados da pobreza endémica deste agradável País, se encarregam de propalar aos quatro ventos a imposição de normas de conduta económica, por parte daqueles a quem pedimos ajuda para não nos afogar nas águas alterosas dos nossos heróis do passado, que, segundo afirmam os nossos concidadãos falantes, são as responsáveis do perda de capacidade económica própria e daí a constante queda ao abismo, em vez de poder tratar de tu-a-tu os nossos “parceiros” credores. Em verdade, os ignotos e habitualmente desconhecidos irresponsáveis da eterna desgraça, não necessitam de se colocar à janela dos Paços do Concelho para denunciar o “dragão” que nos devora. Há sempre uns mandaretes que se encarregam disso.

Para a tarefa de “elucidar” a população, mais ou menos crédula, sempre encontram papagaios que, a troca de um punhado de "limpaduras" sem préstimo, se encarregam de catequizar o cidadãos com os mesmos argumentos de sempre. E assim o ciclo mantém-se em perpétuo movimento.

Já devemos estar mais do que saturados, fartos até o vomito mental, de ver e ouvir que muitas das nossas penalidades foram ocasionadas pelas “condições draconianas” que nos impuseram aqueles a quem fomos pedir ajuda. Os desqualificamos como serem uns carrascos que impuseram a troika que nos subjugou. Sem nunca, ou só raramente, confessar que foram as nossas manias de grandeza, os desvarios de imaginar sermos capazes de novas Mafras e do conseguir um renascimento imperial, sem os alicerces de suporte indispensáveis, que nos empurraram para projectos que, desde o papel já se via terem um peso excessivo para as nossas forças.

Os sucessivos mega projectos, desde o Centro Cultural de Belém, -que nunca se terminou e se entregou de mão beijada a um especulador atrevido- e depois nas sucessivas maravilhas que nos deviam encumbrar ao topo da fama, como foi a Expo. Nada se aprendeu nas costas alheias, mesmo aqui ao lado, com a Expo de Sevilha e a espampanante Nova Valência. Não senhor, nós tínhamos estofo (sem dinheiro...) para muito mais, e em simultâneamente encher os bolsos dos urubus que incitavam as decisões que os iriam beneficiar.

Ou seja, periódicamente nos libertamos do síndrome de honradez que carregava Egas Moniz, e os seus familiares, quando vestidos de burel foram prostrar-se perante quem os podia ajudar. Não se quer voltar a este passado. Agora a soberba da ignorância cristalizada na modernidade, que nos passará ao largo, como tem acontecido habitualmente, já nos iluminou com a Web Summit, seja lá o que isto for. Novos projectos, novas profissões, novos horizontes radiosos se ergueram perante os olhos maravilhados. Entretanto organizam-se novos fogareus, novos espectáculos para encandear a população, e, mesmo que existam os alertas, insistentes, sobre o facto de que as contas públicas não passam de uma manta de retalhos, sempre mais curta do que a cama, a população não sabe como reagir.

A cidadania está totalmente condicionada pelo consumismo induzido e pelo “desporto rei”. As dificuldades económicas de muitíssimas famílias não encontram um prego a arder onde se possam agarrar. Os que dizem estar dispostos a ser seus defensores, os que denunciam constantemente, não mostram a coragem nem a credibilidade que os torne paladinos do população adormecida.

Por sua vez, a personagem omnipresente que tem o dom da ubiquidade, dos sorrisos, dos abraços e falinhas confortáveis, pertence ao restrito grupo dos dominadores. E por mais teatro que faça não passa de mais uma personagem de revista, e como tal, de efectividade nula, efémera, mesmo que permanentemente presente. Desculpam-no com frases do género das que se usam para disfarçar o mau comportamento dos meninos traquinas: Já sabem que “ele” é assim.

No fundo o máximo representante da cidadania em pouco difere da que fazia o falecido Almirante, também pessoa educada e membro do clâ. E assim estamos. Sem rei nem roque que tente dar uma reviravolta neste eterno desvario que comanda um País de sonhos. Não admira, portanto, que existam muitos cidadãos que, esquecendo as singularidades que o tornaram detestável, sonham com o regresso do novo Dom Sebastião, hoje imaginado, qual fantasma, pelo desaparecido ditador Salazar.

Não podemos culpabilizar a insensatez dos que desejam regressar a passados já mais do que gastos e irreais nesta actualidade que nos rodeia. Os estômagos vazios -metafóricamente escrevendo- sempre geram sonhos de mesas Pantagruelicas, que, fatalmente se esfumam quando tratamos de as concretizar.

Resumindo: FALTA UMA PERSONAGEM, CREDÍVEL, QUE NOS APONTE PARA O CALVÁRIO QUE TEMOS QUE SUBIR, mas com a promessa solene, de que tudo fará para travar a inevitável matilha de hienas e urubus que estão ansiosos de devorar o pouco que resta.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

MEDITAÇÕES- Treinar o maquivaelismo




OS JOGOS DE MESA COMPETITIVOS

Tanto aconteceu com os filhos como mais tarde com as netas, que para os entreter e ao mesmo tempo os treinar para o futuro, mesmo que indirectamente e com a aparência primária de serem actividades inocentes, os introduzi nos aparentemente simples jogos de mesa, sejam de tabuleiro, com cartas de baralho iguais às dos adultos, figuras ou peças móveis.

Numa visão cândida classificaria estes jogos “de entreter” em dois tipos. Uns são condicionados pelo acaso, seja o que chamamos sorte ou azar -como pode ser o caso da lotaria, sem batota- pois a decisão da jogada está muito condicionada pelo valor (se jogar com dados) ou pela figura que lhe sai em sorte. No outro grupo temos aqueles jogos competitivos onde, desde o primeiro movimento tenta-se estruturar a vitória e derrota do oponente. Podemos qualifica-los como “jogos de guerra

São estes jogos, do segundo grupo, que, passados anos em que os aceitei como sendo simples jogos, terminei por os considerar, sem dúvida, como maquiavelismo. O xadrez é, para a maioria das pessoas, o jogo mais complexo e propício a meditar e estudar tácticas a curto ou médio prazo -tudo depende da experiência, saber e categoria pensante dos dois jogadores- Sem dúvida é um desafio que não está totalmente na dependência da sorte, a não ser, quando existe um equilíbrio entre os dois jogadores, na escolha da primeira jogada. 


Desde criança me alertaram sobre ser indispensável, para vencer em muitos jogos competitivos, seguir e tentar prever não só as jogadas que podem surgir mas, e de suma importância, ter sempre em mente, desde o início da partida, a necessidade em ter um inventário actualizado das peças que já foram jogadas, mais as peças que tem em seu poder, e daí poder deduzir o que está para sair do monte e, principalmente, o que pode ser que o oponente disponha na sua mão coberta..

Sei e admito sem argumentos que possam contrariar, que esta técnica de jogo é que deve ser seguida, se pretender vencer -sempre no caso dos competitivos, nem que seja a feijões- Com ela pretende-se contrariar, ou mesmo eliminar, o  factor sorte ou azar. Ou seja, dos que não podem ser muito influenciados pela capacidade cognitiva, memoristica e calculista do jogador. De facto os jogos competitivos são uma preparação para a vida real, pois incitam e preparam para a previsão, assim como nos podem dar possibilidades para colocar o adversário num beco sem saída, derrotando-o. É a cínica regra social, claramente maquiavelista, que se deve ter presente para não ser destinado, sem apelo, à mó de baixo.

Há quem defina esta situação, real, da vida em sociedade, com a afirmação de que o homem vive sempre numa selva, em perigo de esmagamento, de morte. Só escapam, sacrificando-se eles próprios, aqueles que optam pelo eremitério de facto-nem que seja figuradamente- num alheamento quase total. Escolherem o ostracismo. O que equivale a renegar de uma vida em sociedade aberta.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

MEDITAÇÕES - Preocupações



Inês de Castro voltou triste

De súbito Inês ficou calada, mesmo sorumbática, e não disse nem mais uma palavra até chegarem a Alcobaça. Quando já alcançaram a porta do mosteiro, e sem cavalgar da sua montada, Inês perguntou a Dom Pedro se não podiam prolongar a jornada, numa decisão não prevista e fora do normal, e seguir até o Real de Óbidos, que sendo já uma Vila da Rainha, ficava fora dos territórios dados, e alguns usurpados, dos frades cistercienses, donos absolutos dos Coutos de Alcobaça.

Pedro ficou assombrado, não só porque esta proposta era totalmente fora do projectado como porque, dada a hora, teriam que viajar de noite. Ele, pessoalmente, acompanhado por um par de homens de armas, não tinha problemas e a distância nem sequer era de muitas léguas, mas não estava afim de sujeitar Inês aos imprevistos que uma noite cerrada, e em terrenos pouco ou nada frequentados após o sol posto, pelo menos por pessoas de bem.

Eu, Inês, não posso exigir nem mandar nada. Neste assunto privado em que nos metemos eu só tenho más cartas na mão. Não passo de ser uma concubina, uma amante, que não respeitei a minha Dona Constança, com a qual casaste em Évora, mesmo que sem a tua presença, por procuração. Só posso perder, e tu ficas pronto para outra, pois não me parece que te queiras inscrever como monge num convento.

Aconteceu que após ouvir aquelas jovens freiras de Cós fiquei sem vontade de conviver com os frades, por muito cultos que eles sejam, e falantes em latim, português, provençal e sei lá mais que, além do francês. Quando entrarmos no Mosteiro de Santa Maria peço-te que anuncies que cheguei muito cansada e mesmo indisposta e que desejo recolher-me, de imediato, à minha estância. Agradeço que dês indicação para me enviarem uma ceia leve, um caldo e pouco mais. A minha porta estará sem trinco, como sempre, e se te apetecer podes-me visitar. Mas hoje não estou para festas. Estou mesmo aborrecida

- Assim farei. E quando todos se retirarem vou ver se esclareço o porque estás assim desgostosa.
... intervalo musical, com o som de alaúdes como música de fundo; profundo e negro de ambiente. Podem aproveitar para aliviar a bexiga.

- Truc, Truk (não é truca-truca!) Incomodo? meu amor, minha luz, minha estrela matutina e vespertina, ou seja Vénus! Das licença a este teu namorado para entrar nos teus aposentos?

Pedro. Não venhas com salamaleques. Estou aborrecida, mas não contigo, e por isso recomendo que não esgravates nos meus sentimentos nesta altura. Se ficares caladinho e sossegado vou tentar explicar as razões do desconsolo que sinto na alma.

Já sabes que estive um longo tempo em paleio com as irmãs do convento de Cós. Elas, todas sem excepção, foram muito gentis e trataram-me muito bem. Não se lamentaram de nada, pelo menos abertamente, nem se queixaram do tratamento que lhes era dado, a não ser por parte de alguns fidalgotes, que entendiam que elas eram pouco menos que prostitutas às suas ordens e caprichos. Mas, coitadas, admitiam que esta era a sua sina e por isso a aceitavam quase como um penitência de pecados que não cometeram. Pelo menos na grande maioria das vezes. Sempre ocorrem excepções...

O que me entristeceu foi confirmar o que já conhecia que acontecia nas terras de onde vim a muitas donzelas que, sem uma vocação pessoal, eram atiradas -e o termo correcto é esse mesmo- para conventos para professarem e ficarem presas de por vida sem terem culpa de serem mulheres e terem sido nascidas neste mundo cruel.

Eu sabia, sem a mais mínima dúvida, que freiras com vocação de se sacrificarem para o Divino foram sempre uma reduzida minoria. Mas o ver a alegria daqueles rostos -frescos uns e não tanto outros- por se sentiram ouvidas e atendidas sem restrições, com uma liberdade de expressão que só entre elas, e sempre com sigilo, podiam ter, foi como se, por um bocado, lhes fosse aberta a porta da gaiola.

Ou seja, que apesar de saber como funciona a nossa sociedade, o ter aquele testemunho, mesmo que cauteloso, durante quase duas horas, abriu-me uma ferida no pensar, metafóricamente claro... Não posso admitir, nem tampouco lutar contra, e logo eu..., esta decisão de enviar as filhas que não tem um “bom pretendente” por perto, a ser reclusas num prostibulo disfarçado. Eu, num caso destes, matava-me ou me matariam. A saída que a família Pires de Castro, pseudo fidalga, me deu ao me “inscrever” como Dama da Corte da Constança, pouco melhor é, sem dúvida, do que o terem-me metido num convento. Estas freiras, pelo menos, gostem ou não, tem cobertura frequente e variada.

- Não quero, nem posso, argumentar com arrazoados que contrariem as tuas sérias palavras. Só posso concordar, referindo que nestes dos países, irmãos mas desavindos por serem tão familiares e próximos, existem demasiadas famílias que se consideram donos da plebe. Ou seja, acreditam ser fidalgos de sangue, coisa a que teria muito que objectar. São gente que, para viver, sem grandes luxos, dependem do trabalho, practicamente escravo, dos seus servos, dos que, como sabes, são donos absolutos, inclusive da sua vida miserável. Tens razão, e sabes que, por enquanto sou um simples Infante, sem poder efectivo algum, e que o Senhor meu Pai, o Rei Afonso IV é que, sempre dando a mão à Santa Igreja Católica, é que manda, ou pensa que manda...

sábado, 14 de dezembro de 2019

MEDITAÇÕES – Coisas de mulheres


Mexericos conventuais

Eu sempre atento ao bater das horas no relógio da torre, e mesmo que a distância do Convento de Cós aos aposentos reais que tinha no Mosteiro de Alcobaça, era como dois tiros de besta mecânica, mesmo assim fazia o possível para chegar cedo, pelo menos antes do toque de vésperas.

Já sobre as montadas, Inês quis contar alguns dos mexericos que as já suas amigas freiras de Cós lhe foram relatando enquanto lhe serviam alguns dos seus famosos doces e uma sequência de cálices da famigerada ginjinha conventual. Eu a tinha deixado com as ditas freiras enquanto tratava de alguns assuntos o Paço com a madre superiora e o Padre que estava ao cuidado das almas do convento, E que sei bem que molhava o seu aspersório tanto quanto podia, mas sempre vigiado pela madre superiora, que era muito ciumenta.

Pela voz encaramelada de Inês já dei conta de que as irmãs, seguramente que seguindo a pés juntos as indicações da receita , repetiram a quantidade de aguardente recomendada. (*) Ou então serviram-lhe demasiados cálices, admitindo que vindo ela de terras galegas estava treinada nas bebidas fortes.
Mas vamos ao que interessa. Parece que as mais novas sentaram-se à volta de Inês, gabando-lhe as suas loiras tranças e o seu empinado busto. As mais veteranas também se encostaram, mas não se decidiram a participar. De cabeça baixa, e ouvidos bem sintonizados, fingiam-se absortas nas rezas do rosário. Não do terço, pois ali rezava-se o rosário completo. Automaticamente, sem prestar atenção às ladainhas, que não duvido que, todas elas, estavam fartas de as dizer e ouvir.

Referiam, as mais atrevidas e com caras de quase virgens, digamos que com poucas léguas de rodagem, que entre os cavalheiros que as visitavam os melhores, e de longe ganhavam, os mais educados e sabedores das artes amatórias, eram os frades do Cister de Alcobaça. Elas os lembravam como frades do clister e eu (Inês) perguntei a que se devia este trocadilho. Rindo em coro, disseram que estes cavalheiros, que falavam um francês aportuguesado, ou um português afrancesado, como os migras na França, lhes disseram, muito sensatamente, que engravidarem e trazer anjinhos ao mundo não tinha valor nenhum. Que nem sequer era coisa que elas deviam consentir.

Mais acrescentaram:que, com muita boa vontade, depois do prazer que lhes dávamos, nos facilitariam umas ervas especiais que, tomadas como chá, depois de um dia de falta, quatro ou cinco vezes por dia, sem necessidade de rezas nem sacrifícios, e isso durante três ou quatro dias seguidos, era “remédio santo”. E pode crer, Dona Inês, aquilo dá um resultadão. Mas tem que se começar a tomar antes de ter a certeza de que a coisa pegou! Para os casos em que o descuido fosse mais antigo eles sabiam de outras ervas medicinais que depois de secas e esmagadas, sempre na mistura de quatro ervas diferentes, seleccionadas pelo frade farmacêutico, fervidas durante duas horas, a bom ferver, coadas e deixadas arrefecer até estar morna -provar com um dedo, mas nunca na boca, porque tinham muita fortaleza- e aplicadas com um aparelho que eles trouxeram, e que lhe chamavam de clister, que trazia um canudinho de cana com uma tripa de borrego que ligava o aparelho ao canudinho, e este devia enfiar-se no pipi (eles, que são sérios mas descarados, lhe chamavam kon, que é quase igual ao nome entre nos, e que não digo para não pecar) com duas ou três lavagens daquele caldo, dadas em intervalos de doze horas, era garantido que o intruso, qual diabo, sairia de onde não devia estar. Mas tudo isto referido com amor e boas maneiras.

Aqueles franceses devem trazer muito mundo às costas. Sabem mais do que o Senhor Bispo, e podemos afirmar que ele é o diabo de saias. Os ditos frades de Alcobaça sabem tantas histórias picantes e tem tanta habilidade para as contar, mesmo com aquelas falas atrapalhadas, que por nossa vontade, mesmo até da Madre Superiora, que algumas vezes até se mijou pelas pernas abaixo de tanto rir, nunca ficamos contentes por se irem embora, de regresso a Alcobaça. Se lhe dizermos que muitas das rezas que fazemos ao longo dos dias as dedicamos a pedir que voltem quanto antes... Olhe, a irmã Anunciada diz que gostava muito de ter um anjinho vindo daquele frade loiro. E quem não? Mas não podemos orientar a vida por aí.

A irmã Rosarinho quis entrar na conversa dizendo que, em comparação com aqueles fidalgos de merda (desculpe Dona Inês, mas é que eles são mesmo isso) o frades do Clister são mais do que nobres, e trazem salsichas das grandes, sem ser de lata. Eles dizem qualquer coisa como sausison.

E com esta palestra chegamos às portas do palácio. Ali nos separamos, mesmo sabendo que até cães, gatos e ratos, sabiam do nosso caso.

(*) nunca entendi como se podem fazer bem as coisas com os pés juntos. Só se for saltando à corda. Até aos animais, de burros a cavalos, para que não saiam para longe, se lhes atam as patas com umas manilhas.