terça-feira, 10 de abril de 2018

CRÓNICAS DO VALE - Cap 30



Pensando no bico de obra em que se meteram
    - José, pelo que fui ouvindo, e sem contar com que a adiafa em que te meteste vai transformar-se num almoço de casamento (o nosso, que não houve? Engraçado!) implica muita azáfama e preparo. Assim, de repente, e não conhecendo a vossa casa por dentro, sinto que será pertinente ter preparadas tantas camas quanto for possível. Haverá mobiliário em condições? E as roupas de cama e banho? Ou será necessário comprar reforços?

Não falaste em convidar os primos, capitaneados pelo ALMEIDA E SOUSA de santo Tirso. Caso venham, tens ideia de os acomodar na noite? Assim como nem te lembraste de que posso ter os meus compromissos, que, em princípio se centram nas pessoas que deposito mais confiança nos dois salões, e que, ultimamente ficaram sob a sua orientação.

- E tu sabes donde para o teu irmão Óscar? Tens o seu número de telelé? E será que vive acompanhado de fixo, mesmo que sem passar pela igreja ou no cartório. Tens que entrar em contacto com ele, quanto antes.

- Retomemos a organização. Não fujas. Desta vez não podes tratar só desde longe.

Reforços para limpeza geral serão mesmo necessários, e logo de manhã tenho, ou temos, que falar com a Dona Idalina a fim de que trate de conseguir ajuda de confiança e ela se encarregue de as orientar. E estou a falar só da casa, sem entrar na adega!

Temos que fazer contas com esta senhora, que já deve ter gasto as reservas que deixaste, e não chegam, nem de perto, para comprar mais cera, detergentes, lixívia, sabão, panos, esfregonas, e tudo o mais que fará falta, como seja sabonetes e champu para as casas de banho, e até algumas escovas de dentes e pasta para quem não vier prevenido. Sem falar em muito papel higiénico. O melhor será que acompanhe a Idalina nas compras para que não se acanhe e se sinta mais apoiada.

E que equipa de cozinha teremos? Aquela malta espera comer muito mas não quer sopas de couves nem carapaus grelhados. Temos que pensar nisso, seja na Vila, de preferência, ou numa agência idónea. Tampouco podemos armar em ricos nem em pobretanas, os dois extremos seriam ofensivos e criticados.

Quando tivermos a lista de presenças pronta, contando com os da mata, que te indicará o Ernesto, que os conhece a todos, incluído o homem da máquina, temos que ver o espaço que necessitamos; as mesas e cadeiras. As empresas de festas de casamento encarregam-se de alugar e trazer mobiliário, toalhas e roupa de mesa, vestir as cadeiras e trazer alguns empregados de mesa. Podemos tratar destes contactos via Internet.

Se decidires ocupar a adega, coisa na qual estou de acordo contigo, será necessário desimpedir do que lá houver e sem dúvida carece de uma limpeza de vigas, teias de aranha, paredes e chão. Tens que dar uma olhadela e decidir, também com a ajuda do Ernesto, se é aconselhável dar uma caiação. E a instalação eléctrica? Terá potência suficiente para iluminar as mesas, as pessoas e a comida.´mais uma instalação de música ambiental, escolhida criteriosamente (nada de pimba) e em surdina. O mais certo é que tenhas que contratar um eletricista encartado para verificar e, se for caso disso, reforçar a rede.

Se o a quantidade de presenças for alarmante, e ´se o teu Amigo Medeiros-Presidente se puser a jeito, quiçá a solução seja de facto o salão do clube. Mas, a meu ver, só em última hipótese. 

 Há mais coisas a prever, como pode ser o alugar umas arcas de frio para ter garrafas frescas. E uma instalação de som, mesmo que mínima.

Estou vendo um volume de trabalho e de responsabilidades em que não me sinto capacitada para conduzir. Excede as nossas experiências. O mais ajuizado, já que não de preocupas com a despesa, é tratar de contratar uma empresa de catering bem organizada e com referências de bem servir e agir. Eu estou ao pé, de corpo e alma, e armada de experiências diversas, para ajudar nesta empreitada, mas tu é que és o dono da casa e deves dizer da tua sentença. Não tens muito tempo para pensar.

- Caso penses aproveitar este "invento" para publicitar indirectamente a tua atitude social, pergunta ao Medeiros se pode dar um lamiré, com direito a cadeira e prato, a algum jornalista esfomeado daregião. Há sempre quem faça reportagens por um "prato de cozido".

- Está tudo pensado. Enquanto falavas vi que esta adiafa se tornou um monstro, ou que nunca imaginei que se passasse de umas galinhas em fricassé, uns lombos de porco assados e muitos doces caseiros. Minha querida esposa, estou nas tuas mãos. Faz como entenderes ser melhor e eu estarei sempre ao teu lado; só escaparei para fazer as minhas necessidades.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

CRÓNICAS DO VALE . Cap. 29




- Bem chegado Amigo Medeiros, também Presidente, mesmo que em certas ocasiões prefira deixar o estatuto de lado. É possível que, nem que fosse de vista ou de falatório, já conhecesse a minha actual esposa, depois de tantos anos de viuvez. Chama-se ISABEL Figueiredo, filha de um dos primeiros mortos no Ultramar do século XX, concretamente em Timor. Empresária e agora esposa.

Para ir até o restaurante que me disse recomendar podemos marchar a pé ou é melhor entrar num carro?

- Esta Vila não é das maiores e o local fica aqui no centro, de forma que andaremos e pelo caminho, que será curto, poderemos falar. Se não estou enganado a Dona Isabel tem um Salão de Beleza aqui na Vila, onde a minha mulher é cliente, com total agrado, segundo afirma (desta vez não se trata do Pereira) e que me deu as melhores referências tanto no trato pessoal como nos cuidados profissionais. Hoje não me acompanhou porque lhe insinuei que o jantar era quase que oficial, mas, precavida e desconfiada como são todas as mulheres, especialmente as esposas, deve ter cheirado que a Dona Isabel estaria presente. Não me pareceu melindrada, e até me encarregou de que, em caso de se confirmar esta companhia, lhe transmitisse os seus mais amáveis cumprimentos.

- Senhor Presidente, cá a Luísa pede que desculpe, Senhor Medeiros -ainda não me compenetrei de que devo prescindir, em privado evidentemente, do tratamento oficial- Mas quero deixar constância de que estou totalmente inocente deste crime, pois que afastar a sua esposa de um jantar entre amigos é mesmo um crime. Quando chegar a casa vai levar tau-tau! E já agora, se não se importa, qual é o seu nome caseiro, o de iniciar a assinatura?

- Óscar, um nome histórico, que o meu pai foi buscar ao tio que o meteu no seminário, de onde se escapou enquanto viu uma porta aberta. E a porta foi ter deitado o olho à minha futura mãe. E segundo ela mesma me contou, ao ver alto e bonitão, mesmo com as vestes do seminário, que eram as mesmas dos agora estudantes de Coimbra, decidiu que merecia um sorriso de incitamento. E cá estou eu para confirmar.

E já chegamos ao cantinho donde gosto de petiscar. Façam o favor de entrar.

- Pois eu, que também tenho almoçado aqui, e até jantado, não tenho memória de ter coincidido consigo. A partir de hoje já não poderei dizer que não partilhamos nada. Não me olhe desconfiado. é uma piadinha do mais angelical. Nem os tais seminaristas perdiam tempo com uma graçola destas, sem graça como é evidente.

Já que entramos e viemos para jantar, atendendo a que nós, os homens, não somos crianças e as digestões pesadas se pagam caras, com azia e insónias, sugiro que escolhemos pratos simples, frugais ou por aí perto. Veremos o que nos sugere a Cozinheira e Dona, que se recordo chama-se Gertrudes.

- Boa noite Dona Isabel e estimados senhores acompanhantes. Aparecem com muito apetite ou preferem alguma especialidade caseira que não lhes tire o sono?

- A Gertrudes adivinhou exactamente aquilo que os três comentavamos agora mesmo. Nem vale a pena ler a ementa do dia, caso fosse válida para o jantar-ceia. Diga o que nos propõe, se faz a fineza de nos orientar.

- Pois bem. Tenho umas trutas de rio bravo, que com uns grelos cozidos levemente, mas tenros como bebés, dão uma boa entrada. Depois posso preparar uns pratinhos, estilo tapas espanholas, mas bem servidas, com pipís bem temperados, lascas de lombo de porco preto grelhadas e com rodelas de batata doce, carapaus frescos em escabeche, e até uns ovos mexidos com espargos bravios. Creio que é bastante onde escolher, de modo que se há alguma coisa que não apetece ou querem sugerir algum prato que sabem eu faço bem, peço que, em confiança, digam.

- Da minha parte, e sem saber o que preferem os outros, dispensava os pipís e trocava por umas lascas de bacalhau, do alto, bem desalgado e temperado com vinagre de maçã, colorau doce e pimenta preta. Mas o quê dizem os membros do recente casal, já de papel passado? Isabel, pronuncie-se, s.f.f.

- Pois até estou em acordo com o deixar os pipís para uma petisqueira de vinho tinto, com caracóis e búzios, que são primos direitos uns dos outros. E se posso opinar, além de água fresca sem gás, uma garrafa de verde branco, do nosso ribeiro de Monção, creio que daria o complemento correcto.

- E não conseguem entrar com uma malga pequena de caldo verde, enquanto esperam? Foi feito agora mesmo; não são sobras do almoço.

- Tá certo, a Dona Gertrudes é que sabe. Ah! E pode servir os pratos consoante ficarem prontos, pois cá daremos conta de tudo.

CONTINUARÁ, se me decidir a isso...


domingo, 8 de abril de 2018

CRÓNICAS DO VALE - Cap. 28

DEDICATÓRIA

Este capítulo, assim como o e os que eventualmente podem seguir-se  (caso a vergonha não me atacar) dedico-os aos meus 4 a 6 seguidores NÃO IDENTIFICADOS, mas que além de merecerem a minha estima mostram uma dose de massoquismo deveras elevada. Abraços electrónicos.

O casal reúne-se

- Isabel, onde estás? Eu já terminei as minhas conversas com O Victor Moreira e o sócio Raul Reis. Nada de novo que se possa contar pelo telefone. Podemos encontrar-nos onde te calhar melhor, seja em Aveiro ou na Vila. Espero a tua resposta para poder decidir.

- Cheguei há momentos ao salão da Vila, e tenho alguns assuntos para ver e decidir. O melhor é esperar por ti aqui, e consoante a hora em decidimos para donde e como avançar. Mas pode demorar coisa de mais de uma hora a partir de agora. Beijinho.

- Senhor Presidente? Boa tarde. Sou o José Maragato, ou , Maravilhas se preferir e estou a caminho da Vila, ou do Vale se as coisas se arrumarem. É que me lembrei de caso não tenha o serão muito ocupado podíamos jantar juntos, mais a minha esposa, pois que casamos três ou quatro dias atrás. O que me diz sobre este convite inesperado?

- Boa tarde amigo Maragato, é um prazer falar consigo depois de uns dias de ausência. E dentro e uma hora, pouco mais ou menos, posso dispor do meu tempo livre para poder conversar e cumprimentar a sua recente esposa. Se não lhe parece mal penso que seria preferível jantar, com sossego, num local da Vila. Conheço um restaurante, pequeno mas de bom tamanho, onde a cozinheira é asseada e confere bons paladares aos pratos que servem. Pode ser? Ah, já me esquecia, peço que em privado não me trate por Presidente, sou, para si, simplesmente Medeiros.

- Sendo assim, fica tudo combinado, e agradeço a sua disponibilidade, Amigo Sr. Macário. Nos encontraremos no largo da Câmara Municipal.

- Isabel. Vou encontrar-me contigo na Vila, deixarei o carro no largo da Cãmara. E jantaremos num local que devo conhecer, mas que o nosso convidado pretende indicar. Não te admires de meter companhia na mesa, mas já te tinha dito que tinha que conversar com o Presidente da Junta de freguesia do Vale, e um encontro num lugar mais ou menos neutro pode ser menos protocolar, como sei que entendes. Teremos tempo para por os nossos assuntos privados em dia quando chegarmos a casa. Ainda vou telefonar a Dona Idalina.

- Dona Idalina? Boa tarde. É para lhe dizer que vamos passar a noite na mansão, mas jantaremos na Vila. Como está frescote e a cama deve estar gelada seria bom que já de noite ponha um saco de água quente a meio da cama. Eu ligarei da Vila quando estivermos para nos meter em caminho. Tenha, também, qualquer coisa para o pequeno almoço. É tudo, obrigado e desculpe ser tão em cima da hora.

- Não tem que pedir desculpa menino José, que ainda o vejo com calções brincando no jardim, tentando apanhar os pardais.
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Já na Vila

- Boa tarde. Como está a menina Sofia? Que está bem vejo eu. Se não ficasse feio eu dizer isso dispararia que está mesmo apetitosa. Mas, cuidado, não fui eu que me atrevi a tanto, foi o diabo que carrego. Pode avisar à Dona do salão, minha conhecida Isabel, que já cheguei?

- Vou já dizer a Dona Isabel que está aqui. E grata pelo seu piropo. Os seus ditos não são daqueles de denunciar na esquadra.

- Eu não entro porque, se não estou errado, deve estar em reunião com a encarregada, e não é bom atrapalhar reuniões. Vou-me entreter com esta literatura, muito séria, que tem à disposição do excelentíssimo mulherame que procura embelezar-se, ainda mais do que a natureza lhes facilitou, neste salão que as cuida com esmero. Diga lá dentro que não tenho pressa. Espero o tempo que for preciso para poder ser atendido.

- José. És um brincalhão incorrigível, e deixas o pessoal baralhado com as tuas graças. Espero que desta feita não tenhas sido excessivamente atrevido, pelo menos não tanto como é o teu habitual. 

Vou só dar um retoque e vestir um agasalho para poder acompanhar este cavalheiro, antes de que chegue o meu marido, que disse que vinha cá ter. Oxalá que não nos apanhe. 

Não és só tu que sabes desconversar !

Então, não tens novidades?

- Algumas, mas pouco importantes. Para começar os amigos do peito -a pagar, quando se entra no campo profissional como é óbvio-  informaram-me que, por enquanto não lhes chegou mais nenhum pormenor acerca do morto. 

Para a Judiciária ainda deve ser coisa fresca; nem sequer está no segredo do sumário, pois diz-se que o primeiro relatório não foi entregue. As previsões mantém-se na mesma. Que aquilo deve ter começado naquela festa de rebaldaria. Na qual certamente meteram-se no terceiro ou quarto grau. Tudo bêbado ou quase, se não drogados com picas, fumo e pó branco. Já sabemos o que a casa gasta nestes encontros, onde misturam gente bem, endinheirados e de posição, com membros da ralé, eles, elas e ambiguos como o travesti em questão. Habitualmente são nojentamente usados e. se for entendido como necessário, deitados fora, o que equivale a os fazer desaparecer do mapa. Nada que não tivéssemos comentado entre nós.

Daquela minha ideia de transferir o meu escritório “fantasma” da Vila para Coimbra, nem sequer falei, pois que, friamente, entendi que no que está bem não se deve mexer. E a situação que mantive até agora cumpriu, a gosto, a necessidade de recato. Sabes, ou ouviste dizer, que o segredo é a alma do negócio. E os negócios dos Maragato sempre se trataram com muito cuidado, sigilo e à distância. Recorda aquele provérbio que te disse na viagem de comboio: Uma mão convêm que não saiba o que faz a outra. Portanto não leves a mal que nalguns temas te cheire que escondo cartas na manga. É para nosso resguardo, meu e teu.

Do que sim tratei foi de os convidar para o almoço no Vale. Só precisam de saber a data, e se for num sábado ou domingo, dias em que não há julgamentos, em princípio estarão disponíveis e agradados em nos poder acompanhar. O sondarem o inspector da Judiciária não sabem se é boa ideia. Tudo depende de se fazerem encontrados e ver que face lhes mostra. Já nos informarão. Quem sabe se o homem se põe a jeito.

Olha, já chegou o homem da Junta de Freguesia.


sexta-feira, 6 de abril de 2018

CRÓNICAS DO VALE - Cap. 27


Já perto da Lusa Atenas 

- Passado Pombal chegar a Coimbra é o salto de uma cobra. Vamos recopilar o que tínhamos combinado, ou mesmo sem estar totalmente definido. Da minha parte tenho que entrar em contacto com os meus advogados de estimação, com os quais quero, entre outras coisas pendentes, lhes expor uma ideia que me buliu nestes dias últimos. Coisa simples.

- Pensei que em vez de ter um escritório na Vila, quase perpétuamente fechado e com contacto pelo gravador e com aquela placa junto à entrada com osdizeres de José Mragato CONSULTOR, que não sendo uma actividade reconhecida oficialmente lhe aufere um ar algo ocultista, que confesso me agrada muito, se calhar era interessante transferir a "sede" para Coimbra. Não está decidido, mas já germinou. 

- Também lhes quero perguntar se aceitam ser convidados, e, data não marcada por enquanto, para atal almoçarada que prometí oferecer no Vale do Pito. E, se não lhes parecer um atrevimento descabido, convidarem em nosso nome, o inspector da Judiciária que tem sido, pelo menos até agora, simpático e atento. Claro que o convite seria a título pessoal, como pessoa civil merecedora de respeito e não seria apresentado ao povo como inspector. Embora alguns o devem ter visto no local e passarão a notícia aos restantes.

- Irei ligando para ti a fim de acertar as agulhas, e quando estiver pronto a partir veremos o que fazemos. Mas se puder ainda convinha que me encontrasse com o Presidente da Junta.

-  Pois eu tenho pressa para passar pelo salão de Aveiro e depois com o do Vale. Também eu meditei neste intervalo nas Lisboas. Pode ser uma ideia maluca, mas que opinas de que amplie o local de Aveiro e passe a ser um salão unisexo? De preferência, para não alarmar as clientes mais conservadoras e retrógradas, com uma separação subtil entre as cadeiras de homens e senhoras. Mais complexa seria o fornecer tratamentos de pele e massagens, que, normalmente, são feitos com as damas em trajos menores, ou mesmo sem roupa se forem depilações à brasileira.

- Parece-me uma ideia actualizada, e que até pode chegar um pouco tarde. Mas o meu conselho é que deves avançar. Isto implica um local com bastantes metros quadrados, uma decoração cativante, moderna, séria, mas luminosa, e um mobiliário que devemos procurar em boas casas que conheçam e forneçam o material necessário.

- E apliquei o plural não por descuido, mas porque esta iniciativa, que suponho ainda não tentaste orçamentar, deve carecer de um bom fundo, ou de um empréstimo bancário. Esta segunda hipótese vamos descarta-la de imediato, mas, para resguardar de problemas, teremos que tratar de pagamentos faseados no tempo, dando a ideia de que se pensa pagar tudo com o pelo do mesmo cão.

Agora ficamos em que cada um vai para o seu lado. Tens o carro guardado longe da estação, ou está perto? 

- Aqui mesmo ao virar da esquina. Vou direita a Aveiro e alí almoçarei, acompanhada pelas empregadas que estejam livre, tal como me tens mostrado que se deve fazer para as manter agradadas, ou um bocado,pois quem recebe ordenado, mais gorjetas, o habitual é que o patrão/patroa seja visto como um inimigo. Felizmente há excepções, mas poucas e andam nas nuvens. Falaremos. Beijoca!

.......

- Bom dia. Algum dos doutores está no seu gabinete?

- Tem sorte, Senhor Doutor, estão ambos e sem estarem acompanhados.

- Então agradeço que os avise,dizendo que os venho buscar para irmos a almoçar. Isso se não tiverem algum compromisso que lhes impedir de aceitar a minha companhia.

- Claro que aceitamos, caro amigo Zé. Dá cá um abraço. Dois, que eu também o quero cumprimentar.

- Querem um local académico, para este saudoso, ou um restaurante chiquérrimo, com nova cozinha?Vens provocador! Eu, que sou teu convidado, em companhia do 3F, vamos conduzir-te a um velho local, que esteve mal afamado durante uns tempos, mas que renasceu das cinzas como um Fénix da restauração. Cuidado, que até pode ser que o dono seja, de facto,monárquico e por isso sonhe, acordado, com a possibilidade de entronizar a Dom Duarte Nuno, mais a sua Hereida que, por sorte ou por criação jamais se disse que tenha cometido as gaffes da nova rainha das Espanhas. 

- Chegamos. Zé, recordas-te deste poiso de quando eras republicano? Esteve fechado, quase numa ruína, durante uns dois longos anos até que este lançado e benemérito cidadão, merecedor de garfos e colheres outorgados pela empresa “Michelinho” dos pneus. Verás que aqui se podem degustar os pratos típicos de Coimbra e arredores, mas com absoluta confiança, pois o dono vai todos os dias ao mercado seleccionar o que entende estar fresco e com possibilidades de ser tratado na cozinha com todos os requisitos. 

- Estes requisitos justificam plenamente, para os entendidos, a não existência de uma ementa impressa, daquelas que nunca mudam ao longo dos meses. 
O dono, preparado com o avental, impoluto, de cozinheiro da pousada do século XIX, tem por hábito chegar-se aos que pedem mesa e, depois de os acomodar, dizer de viva voz os pratos que eleborou. Se os clientes se mostram surdos ou respeitadores das normas actuais, ele mostra uma ementa escrita manualmente e fica à disposição para poder descrever os diferentes pratos.

- Pode ser que hoje tenha lampreia à bordalesa, prato que os apreciadores lhe tem dado, sempre, a nota máxima, de excelência A acreditar nos comentários ouvidos por nós mesmos. Ou seja que não emprenhamos de ouvido. 

- Eu é que não posso opinar, pois ver aquele molho de sangue impede-me de o submeter à prova do paladar. Aliás todos os pratos com sangue no molho, rejeito-os de imediato. Deve ser uma embirração gerada quando criança, pois recordo que o meu pai tinha a mesma mania. Entre outras. Isto herda-se.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

CRÓNICAS DO VALE - Cap. 26



- Quem toca a estas horas?

- Fui eu que marquei que nos acordassem cedo, pois temos que apanhar o comboio para Coimbra logo que chegarmos à estação. Daí que, menina e moça, toca a levantar fazer uma toilette sumária, quase à gato, fechar o saco a descer. Eu já estou pronto, e logo que veja que estás em andamento vou para a recepção fazer contas e pedir um taxi. Tá tudo entendido?

- Certo, Senhor Coronel. E para matar o bicho, quê? Sabes que esta pequena refeição está incluída no preço.

- Só podemos aviar de corrida, practicamente em pé. Tinha pensado tratar disso na estação ou no comboio em andamento. Mas, atendendo ao que necessitas, desço já e pedirei ao consierge que veja a que horas parte o comboio que nos interessa. Espero por ti no lobby ou na sala de pequeno almoço; depende do que me informem.

- Bom dia. Queria fechar contas, mas antes necessitava de um favor da sua parte. Pode ver nos horários da CP quando passa pela Gare do Oriente o próximo comboio para Coimbra?

- É um instante, Senhor Doutor. Creio que como já partiu o primeiro ainda terão tempo de tomar o nosso pequeno almoço com um certo sossego.

- Afinal estarei à tua espera, a não ser que desças primeiro, na sala de pequeno-almoço.

- Aceitarei o seu conselho e necessito de mais uma atenção da sua parte. Caso não venha um táxi por decisão própria até a porta do hotel, seria tão amável que daqui a uns 15-20 minutos peça um carro, com indicação de que será directo para a Gare do Oriente? É que não quero dar de cara com um esperto que me leve a passear até Montes Claros ou os Jerónimos.
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- Bem, tudo encaixou. Já temos os bilhetes e o rápido, Intercidades ou seja como lhe chamarem, deve estar a chegar. Se viemos até esta estação, que nem sequer é da minha preferência, foi para fugir ao transito que a esta hora se dirige à baixa. Assim conseguimos perder menos tempo.
..
- Estes lugares são cómodos e espero que seja possível conversar com alguma intimidade, pois nenhum dos dois gosta de transferir e terceiros, e para mais desconhecidos, os temas das nossas conversas. E recordas que antes de adormecer prometeste iniciar-me, com as devidas cautelas, nos mistérios da vida dos Maragatos. Sim, porque tenho o palpite de que muito do que decidas contar, que certamente não será tudo, remonta a um passado muito interessante.

- Se queres que eu desbobine terás que aceitar as meias palavras e as metáforas com que tente camuflar pormenores sigilosos. De qualquer forma já te contei que tudo começou com o meu avô. Um militar espanhol que fugiu para a Guarda depois de uma intentona, pifiada, de golpe de estado. 

Não sendo parva deves saber que os militares, quando não andam aos tiros, tem pouco ou nada que fazer. Passam os dias massacrando os magalas, conversando na messe ou nos cafés. Naquela época os milicos andavam pelas ruas fardados, e se eram novos, e mais até se alunos da escola do exército, faziam os possíveis para galar as meninas casadoiras, que enxameavam as casas de chá e os passeios públicos.

O avô, não sendo militar no exército português, sabia dos hábitos dos milicos. E de como os bolsos dos oficiais estavam, em geral, magros, carentes de fundos. Ele, habituado à galhardia de convidar dos espanhóis e como já tinha proventos especiais, por assim dizer, depressa se tornou popular entre as autoridades militares, civis e até religiosas, da cidade fria, feia e farta. 

Devia ter, nos seus bons tempos, uma figura interessante, um bigode à maneira e à sua volta uma núvem de fulanos ansiosos de comer e beber às suas custas. Digamos que o avô começou a semear numa seara que não era da sua propriedade, pelo menos então, pois com o tempo tornou-se um proprietário de bens imóveis e terrenos tanto de cultivo como de provável interesse urbanístico futuro. Teve olho nestas formas de amealhar.

Concretizando: O avô a partir dos contactos que já tinha em Portugal, deu outro impulso ligando os conhecimentos em Espanha, principalmente entre os militares e o comércio de armamento, e o que foi descobrindo, com o seu feitio nada acanhado, mas sempre prudente. Do contrabando de artigos de consumo, ao se abrir o conflito da guerra civil, ou melhor da rebelião militar de índole fascista foi pertinente atender outro tipo de solicitações. Mais ou menos as mesmas que se ampliaram quando rebentou a segunda guerra mundial. As possibilidades de negócio em Portugal cresceram exponencialmente. Nesta altura também o meu pai entrou no esquema.

Não podes imaginar a lista, enorme, de artigos que, por estarem em bloqueio, e com Portugal neutral, nos pediam, sem descanso, e que os Maragatos, pelo seu próprio interesse conseguíam contrabandear. Havia tantos a lucrar que era impossível manter segredo. Ou seja, todos sabiam das artimanhas, quase sempre infantis, que se usavam para enviar para os franquistas e depois para o eixo. Havia mãos estendidas por repartições, estradas e fronteiras. Tudo comeu à farta. Enquanto os desgraçados passavam agruras e nos países em guerra morriam ou ficavam estropiados. Até papel se enviava para além de Elvas

Era um mundo insuspeitado onde poder fazer negócio, ganhando dinheiro, ouro, diamantes, tudo o que tivesse valor e com o qual podiam pagar as contas. Desde o volfrâmio, passando aos combustíveis, conservas e todos os bens alimentares, metais em barra e trabalhados, como fio de cobre. Cortiça para isolamento. Medicamentos passados dos aliados para o eixo, em especial a penicilina. A lista era longa e cada dia era actualizada.

Na casa paterna o dinheiro fresco entrava aos sacos. O avô e o meu pai aplicaram fortunas em bancos, dentro e fora, em propriedades, etc. Os rendimentos foram de tal ordem que, se assim desejássemos, não tínhamos necessidade de mexer numa palha no resto das nossas vidas.

- Então vives dos rendimentos! É isso?

- Podia ser, mas tendo uma estrutura omnipresente seria uma burrice se a deixasse morrer. Mas este é outro capítulo. Fica para outro dia.


quarta-feira, 4 de abril de 2018

CRÓNICAS DO VALE Cap. 25



Já deitados

Este banho foi revitalizador. Estava muito fatigada depois de um dia excessivamente carregado. Mas nem por isso os meus olhos pedem para fechar os estores. E tu, como te sentes?

Mais ou menos como tu dizes, se bem que a minha cabeça parece uma panela de “precisão”, assobiando e com a piruleta dançando sem parar. São demasiados os temas que, na minha cabeça, lutam entre si para ganharem protagonismo, e qualquer deles tem a sua importância. O que menos pesa corresponde à tentativa de apreciar os dois filmes da maratona de ontem.

Admito que escolhemos bem, mas estou baralhado, e nem sequer comentamos um com o outro acerca da impressão que nos deixaram. Os dois argumentos são tipicamente do teor dos USA, e mesmo que as pessoas tenham comportamentos similares, as características do meio em que se encontram condiciona muito a evolução dos mesmos.

-É assim que devem ser vistas as criações cinematográficas ou literárias. A experiência de vida de um europeu, e neste caso de um português, pressiona no sentido de tentar entender, com algum esforço mental, aquilo que no sua origem deve ser quase que banal. Se recordarmos, já com sossego, a história dos três cartazes, de imediato temos que sentir que a acção, denunciadora, daquela mãe, seria absolutamente impensável neste País, e a partir de aqui, mesmo que valorizemos os problemas sociais e mentais daquelas gentes, para nós é tão inverossímil como uma das aventuras do homem-aranha. Que por sinal nunca vi, nem tenho intenção de jamais ir ver.

- Inteiramente contigo. E sem ser idêntico também me senti fora do contexto no outro filme, a tal Lady Bird, que teve alguma nomeações e foi premiado nalguma categoria. Ali aparecem problemas de adaptação que são comuns no ambiente da adolescência. Alguns terminam muito mal enquanto que outros os superam e encaixam no ritmo da vida que se considera normal. Estava cansado nesta sessão e vi que tu também deixavas cair a cabeça, daí que não esperassemos pelo fim e deixamos os problemas para aquela menina, que nem sequer o trabalho dedicado da equipa de maquilhagem lhe conseguiram dar um ar de adolescente mínimamente credível na primeira parte. Enquanto me recordar não tenho intenção de voltar a fazer uma maratona como a de hoje. Nem que chovam picaretas. Isto podia fazer, sem problemas, quando andava pelas Coimbras. Mas agora ...

- Por enquanto coincidimos em gostos e decisões. E como entramos no mundo da fantasia, apareceu-me à tona do pensamento um tema que me intriga desde que te conheci. Ou quase. E que até hoje, apesar das intimidades que criamos e sem que atribua o atrevimento ao facto de sermos um casal com papel passado, tão de fresco que poderia ser considerado que em plena lua de mel, o momento de sossego em que estamos, deitados ao pé um do outro, sem montar nem ginasticar, incita a que me atreva a perguntar, e peço que não leves a mal.Estás disponível?

- Com certeza! Por quem é?

Ainda bem que levas as coisas a brincar. Pois, respondendo, eu sou pelos Galitos de Aveiro, mesmo que não valham grande coisa, e em segundo lugar pelo Benfica, como acontece a muitos lusitanos. Sei que a geografia que empurra para ser do Porto. VIVA O PORTO!, mas não posso com o Pinto da Costa, que está a mudar de amor, ou de vagina se preferires, cada duas por três, ou seja seis. Algumas delas, se não todas, são muito rodadas, se acreditar nas revistas que coloco nos salões e que as freguesas devoram com os olhos a saltarem das órbitas. Mas, pelos vistos, o Pinto da Costa prefere balizas bem abertas, experientes. Não sei como se amanha, mas ouvi cochicharem, as tais freguesas “da alta”, que ele deve ser habilidoso com os trabalhos de língua. Dizem até que deve ter um “linguaralho” de palmo e meio. Pelo menos fala muito e agressivo. São umas maldizentes do mais ordinário marche.

O que me empurra a ser atrevida, curiosa e intrometida, sem perdão, mas compreensível, é que sempre te vi sem problemas de dinheiro. Com notas frescas, sem estarem manuseadas e engelhadas, na carteira; com uma colecção de cartões de débito e crédito que fariam inveja a qualquer cigano da feira, e nunca jamais, em tempo algum (estava mortinha para meter este lugar comum) deixaste cair, nem uma dica nebulosa, que indiciasse de onde tiras os teus proventos. Que devem fluir mais do que o Douro. Ainda agora sinto que vais dar uma adiafa mutitudinária no Vale do Pito e nem tugiste nem mugiste. Parece que tens uma cornucópia de onde escorrem libras sem parar. 

- Já me admirava que não saltasse esta pergunta. Recorda que o Barba Azul tinha tudo preparado, naquele quarto fechado, para despachar as esposas curiosas, e que todas sem excepção terminaram mal. E eu tenho a barba bem cerrada. Obviamente este não será o nosso caso, mas o momento não é o mais adequado. Tomo nota e prometo ir te integrando neste mundo que desconheces. Só te direi que há dois preceitos a considerar. Um diz aquilo de que uma mão lava a outra, mas existe outro que contrapõe, muito sensatamente, que não deixes que a mão esquerda saiba o que faz a mão direita, e o vice-versa também é válido, em especial para os canhotos. Curiosamente, quando parti o braço direito em garoto, ao cair de uma figueira, aprendí a escrever e outras habilidades, com a mão esquerda. Sou, pois, ambíguo, ou melhor: ambidestro

- Vamos dar a conversa por terminada, não achas, querido José? Antes, porém, assinalo que te esqueceste de que a última mulher do Barba Azul ganhou a aposta e não foi morta. E, caso te interesse, tenho o campo bastante lubrificado, e sinto, pelo alto nos lençóis, que também o corpo te pede um aperitivo antes de dormir. Ou estou enganada?

-  Novamente estás acertada. Cá vou eu, a caminho de Viseu.

Sei de muitos nomes para o túnel do amor, mas o de Viseu é novidade. Aproveitaste o verso, e bem aproveitado. Vem aos meus braços, leão do Sporting!

- Eu do Sporting !? Nem louco. Sou da Académica e com muita honra e desgostos


segunda-feira, 2 de abril de 2018

CRÓNICAS DO VALE - Capítulo 24





- Agora é o momento de aplicar aquilo de cada macaco no seu galho. Os filhos fioram à vida, e nós? Entre ir no comboio até Coimbra, onde temos a viatura e o ficar na Capital do Desaparecido Império, eu escolheria esta segunda hipótese. E a tua opinião?

- Esta hipótese parece-me, em princípio, interessante. Mas gostaria de a ver mais detalhada. Ou seja, não ficaremos no meio da rua, como os sem abrigo ou os pintalgados fazendo de estátuas. Para já é pertinente encontrar um local onde pernoitar, e depois uma forma de aproveitar este tempo disponível sem estar feitos parvos a ver montras e deixarmos cativar por mais compras sem sentido.

- Se te parecer sensato apanhávamos um táxi até o Corte Inglês e sabendo que os dois gostamos de cinema, aquele lugar, mesmo esquecendo que é um empório onde gastar dinheiro em tantos andares, oferece uma data de salas. Podemos escolher algum dos filmes que raramente chegam a Coimbra, ou mesmo dois se não tivermos muita pressa para nos deitar. No mesmo andar dos cinemas há lugares donde se pode petiscar um jantar leve. E na Duque de Ávila, bem perto, há hotéis aceitáveis. Ao sair do táxi com meia dúzia de passos nos colocamos na recepção e deixamos o quarto marcado e nos livramos deste saco, para não andar carregando o enxoval de um lado para outro. O que opinas?

- José, a tua cabeça não descansa, e penso que a tua proposta merece ser atendida sem controvérsia. Já agora, que tenho a palavra, queria referir dois temas. Em primeiro lugar dizer que não me passou por alto que nas despedida te referisses ao estado já profissional dos teus filhos. Era um tema que eu ameacei inquirir, mas que depois, por prudência, e arrependimento de ter sido excessivamente intrometida, não voltei a tocar. Obrigado pela tua gentileza.

- O outro asunto, no qual penso que devo colaborar ou participar, dado meu estatuton actual de esposa, é o de te empurrar a cumprir a tua promessa de dar uma adiafa, não só ao pessoal que fez a limpeza e desmatação dos terrenos envolventes da mansão do Vale, como também sei que tinhas o propósito de incluir o Presidente da Junta de Freguesia e mais algumas pessoas com as que tiveste relações de amizade. Gostaria de, além de estar presente, poder ajudar em tudo que estiver ao meu alcance.

- Tens razão,  e estava na mente falar nisso. Aindabem que es tú a recordar a promessa e te ofereceres a mostrar como age a companheira oficial. O encontrarem aquele cadáver nos terrenos da casa veio atrapalhar o ambiente, e colocar a promessa num canto, quase esquecido. Mas sei que as pessoas do vale do Pito, sendo essencialmente rurais, sem demérito nem desprimor, mas antes merecedoras de estima e consideração, são bastante terra-a-terra e por isso não deixam de lado os assuntos que lhes interessam de perto.

Eu até penso que o mostrares uma faceta relaxada e até com vontade de manter as tuas ligações à população local, contribui a patentear,por assim dizer, que não tens receio de seres punido por um crime que não cometeste e que te sentes lesado por ter conspurcado o local e as pessoas da casa, e do Vale porque não, sem sentido nem razão. Daí que, entre outras razões entendo que é pertinente dares um andamento ao assunto. E avisares quanto antes aos que sabem ser convidados.

Mais uma vez aceito as tuas argumentações. Mas levar isto avante implica, previamente, tratar de pormenores importantes. Para já uma lista de quantas pessoas teremos que satisfazer, mesmo alguns que nada tiveram que ver com o trabalho em si mas que, certamente, se consideram merecedores de estar presentes. Depois disso combinar quem preparará e servirá o repasto. Não me parece justo que aceite a certamente proposta da veterana Ivone, mesmo que ela diga que tratará de encontrar ajudantes entre a população local. Sinceramente preferia que fosses tu a falar com ela, já amanha, e, procurando não a melindrar, sugerir que das profissionais de hotelaria e similares que conheces, podias angariar uns colaboradores que, “sob as suas ordens” fizessem muitas das tarefas indispensáveis. Até de contratar mesas e cadeiras como fazem nos casamentos.

- Parece-me sensato. Mas atrevo-me e lembrar que eu sou dona e responsável de dois estabelecimentos e que tenho em miras de alugar, ou comprar, um local em Aveiro para expandir o negócio. Por isso, ao chegar a Coimbra deixas-me onde arrumei o meu carro e tratarei das minhas coisas o mais rapidamente que puder, e depois rumarei para a casa do Vale. Entretanto tu podias falar, se assim entenderes, com o feitor Ernesto Carrapato e com o Presidente da Junta, sem comprometer uma data, que desconhecemos por agora.

Não te esqueças de falar com a Luísa e com o Bruno, deixando uma dica, sem compromisso, de que não nos importarmos que venham acompanhados com alguém do seu ambiente, seja amigo, amiga ou mais do que isso. Faz-lhes ver que esta companhia serviria tanto para eles não se sentirem perdidos no meio de gentes que falam noutro idioma como, também, para que os “indígenas” valorizassem que não eram totalmente segregados, por assim dizer, por pessoas que mal conheciam de longe e sempre em tempo de férias, em que vocês, precisamente, traziam quase sempre companhia da vossa criação. Usando uma definição corrente no campo.