sexta-feira, 12 de maio de 2017

HÁ DIAS E DIAS



Assim como ainda existem “mulheres a dias”, a horas ou ajudantes técnicas para limpezas em tempo parcial. Isso sem referir as muitas damas, e “carvalhelhos” (?) que prestam os seus corpos para actividades naturais mas, falsamente, mal vistas pelos cidadãos, que se auto-qualificam como normais e cumpridores.

Muitas destas considerações sociais foram alteradas quando se deu o estatuto legal de que existem as variantes, que sempre estiveram presentes e activas, mas tacitamente toleradas enquanto se fingia que não se dava por elas. Hoje saltaram para a ribalta sem inibição, mesmo com descaramento, inclusive provocatório. É uma das frutas do tempo, incluída no rol das grandes bananas da chiquita, incongruência que nos leva a pensar que esta marca devia ser exclusiva das produzidas na Madeira do Ronaldo. E não quero referir a denúncia da má língua, sempre disposta a difamar, acerca do tamanho do pedúnculo do busto. Haja respeito e pudor.

Pois bem, indo ao que íamos.

Tal como deve acontecer a muitos mortais em certos dias, mesmo ao acordar de uma noite que deveria ter sido repousante, sentimos que estamos virados do avesso, o mau humor, a falta de paciência, o rejeitar manter uma atitude onde prevaleça a falsidade do politicamente correcto, e outras atitudes que se encaixam em nos dar uma vida social e comunitária ilusória, dissimulada e mais alguns sinónimos. São dias em que o instinto nos pressiona a partir a loiça, e nem sequer nos oferecemos a possibilidade, posterior, de poder começar de novo. Admito que uma estado anímico deste género deve estar, quase sempre, presente nos que, coerentes, decidem optar pelo suicídio. No que me atange não estou, por enquanto, nesta fase.

Todavia, complementarmente ao que imagino pode passar pela mente do suicida, penso que o cidadão em questão deve ter muita coragem, ter os tomates bem carregados, a transbordar. Não sei qual o órgão equivalente nas mulheres, pois que se fossem os ovários não haveria suicidas depois da menopausa. Portanto esta noção de dar uma importância máxima aos testículos não passa de um sintoma do egoísmo exacerbado dos machos.

De qualquer modo e mesmo sabendo as causas que me conduziram, cumulativamente, à crispação mental que se apoderou do meu espírito, certamente que maligno e detestável, sinto um grande alívio pelo facto de me libertar da necessidade “social” de ter que fingir que não avalio, como de facto avalio, o comportamento de certas e determinadas pessoas. Sentir que a minha vontade para dedicar amizade, com a predisposição de esquecer as incompatibilidades, é arrasada uma e outra vez, numa continuidade difícil de observar e até de desculpar.

Desculpar as ideias de cada um, sempre e tanto que as reservem para si mesmos e se inibam de as vociferar provocatóriamente aos quatro ventos, com uma agressividade intolerável entre pessoas que se admite serem educadas (há educação boa, má e péssima, além da falta absoluta) é uma obrigação que todos temos. Obrigação imposta pelo facto de estar no seio da sociedade onde temos que caber todos. Quem não quiser modular o seu comportamento deveria isolar-se no topo de um monte e tornar-se eremita convicto, e ali moer o seu fígado sem estragar o dos outros.


É evidente que além das circunstâncias pessoais, que nos podem conduzir a um estado de ânimo de quase desespero, podíamos tentar fazer uma compilação de factores, sem ligação imediata entre si, e chegar a uma espécie de relatório, com alíneas e títulos intermédios destacáveis. Não me sinto com capacidade nem vontade para estudar o que outros já destrinçaram anteriormente. Basta-me, com pesar, o declarar que estou virado do avesso.

terça-feira, 9 de maio de 2017

NÃO ERA UM DILEMA



Como se verificou após a contagem dos votos da segunda volta das eleições presidenciais francesas, aquilo que para os menos dispostos a meditar era apresentado como uma escolha entre mau e pior, não tinha cabimento.

Para já o facto de terem ficado como finalistas, após a primeira volta, um partido sem história e personificado por um jovem, considerado como sem experiência de governação, e para mais formado no seio do grande capital, e daí que visto como sendo o representante do capitalismo tão odiado por um importante sector da sociedade francesa, é valorizar as coisas de uma forma excessivamente simplista. Além de que foi a população que, no uso das suas prerrogativas democráticas, dispersaram os votos de uma forma que só poderia beneficiar a tal Frente Nacional, proto-fascista.

Aqueles cidadãos que, como mal menor, optaram pelo voto em branco ou nulo, por rejeitar a abstenção, mas que não se viam como adeptos a nenhum dos finalistas, pertencem ao universo geral dos seguidores do consumismo -que igualmente criticam da boca para fora- se bem que procuram justificar a sua atitude de adesão pelo facto de não existir uma opção válida. Complementarmente deveriam meditar no facto de que, seja qual for o governo que se forme após as eleições parlamentares, fatalmente terão que se apoiar com as entidades que dispõem dos meios económicos de que carecem. Ou seja, queiram ou não, o capitalismo estará presente e decidirá.

Sabem, ou deveriam saber, que a opção da Frente Nacional, criada e orientada pela família Le Pen, assumidamente vocacionada para os extremismos que foram a base dos fascismos europeus do século passado, não teria capacidade para alterar, positivamente, os factores que atualmente condicionam a vida económica e de trabalho de uma fracção considerável da população.

A hipótese que a FN apresentou reiteradamente de sair da Comunidade Europeia, da Globalização e da moeda única, implicaria dificuldades de tal magnitude que só seria factível após um cataclismo, uma guerra destrutiva que afectasse não só as pessoas como os bens imóveis e de produção. É o sonho destes regimes: poder começar de novo. Hipótese que não se pode considerar como interessante depois das décadas de paz que gozou o Ocidente.

Com problemas sociais semelhantes aos da actualidade é que os demagogos dos partidos de extrema direita conseguiram convencer as populações, em situação de desespero, não só a aderir ás suas doutrinas como a lhes darem todos os poderes para preparar conflitos bélicos, entrarem neles com convicção de sarem vencedores, e destruir o que existia para instalar a sua nova ordem. Só que, como recordamos, apesar de estarem apoiados pelo grande capital, estes mesmos “sócios” eram, igualmente, a base económica dos opositores. Podemos dizer que o capitalismo ganhou nos dois lados do tabuleiro. Quem perdeu foi a maioria da população,os que se viram imersos nos conflitos sem hipóteses de agir.


O que se decidia nas eleições francesas é simples. Entregar o poder a representantes do capitalismo, sempre presente, ou optar pelo partido que pertencia, ideologicamente, aos que destruíram a Europa a partir dos anos '30. A escolha, quase que inevitável, tem a vantagem de que, passado o período de vigência do eleito, sempre seria possível, pelo recurso a novo processo eleitoral, não só mudar as caras como, mais importante, conseguir uma modulação positiva das políticas. Pelo contrário, entregar o poder a um partido da extrema direita, ou esquerda pois que neste aspecto são iguais, tem o perigo de ambos estarem vocacionados, e fatalmente activos, no sentido de alterar toda a legislação democrática a fim de perpetuarem o seu poder.

domingo, 7 de maio de 2017

SOMOS SEMELHANTES



Antes que se façam as contagens, e escrevo quando já estão activas as assembleias de voto francesas, aproveitei o período de vigília pré-matutino para tentar colocar em ordem as impressões que, ao longo de semanas, e especialmente depois da primeira volta, fui ouvindo e lendo. Arquivei mentalmente, sem tomar notas escritas, e tentei fazer extrapolações com a nossa sociedade.

É evidente que existem facetas próprias nas que diferimos com maior ou menor distância. Isso não impede que se sinta uma notável distância social entre os citadinos e os residentes nos meios rurais. O distanciamento social entre estes dois grandes grupos sociais não fica restrito às capitais nacionais, mas também se foi instalando nas cidades de província, onde na maioria delas se verificou um crescimento demográfico inusitado. Consequência da sedução das urbes, por nelas existirem possibilidades de trabalho ou negócio, principalmente no sector terciário, que deixaram de ser interessantes nos pequenos núcleos urbanos.

São elucidativos e merecedores de reflexão, os mapas onde se apresentam a distribuição dos votos, não só pelos partidos que escolhem mas, também e com uma importância a não descurar, os quadros que mostram estas escolhas agrupando os votantes em faixas etárias, nível de estudos alcançado ou, com a ligação evidente, com as remunerações conseguidas.

São todos estes elementos estatísticos, complementares às estatísticas gerais sobre a população, que fornecem dados muito importantes para entender as razões que separam as crenças, preferências e comportamento entre citadinos e provincianos. Dois sectores francamente em posições diametralmente opostas. Parece que não andam no mesmo mundo.

Lá, como cá, o comportamento das pessoas ligadas ao campo, é notoriamente menos actualizado para a época em que nos encontramos. Numa visão simplista podemos considerar que é menos racional. Afirmação errada, ou defeituosa por não sentir as justificações próprias que os comandam.

Numa tentativa de simplificar pode-se abordar esta disparidade social com a distância que existe entre proprietários e assalariados, ou a velha classificação de uns estarem no sector primário e os outros no terciário. Cada um destes sectores abrange estatutos diferentes, mas o que os une é que uns consomem, na mesa de refeição, produtos que vieram do outro sector, incluídos aqueles que sofreram processos industrias antes de chegar ao consumidor final.

A luta histórica entre os latifundiários e os mini-proprietários foi-se esbatendo quando por um lado se iniciou o êxodo dos familiares que excediam a capacidade de subsistir “condignamente” nas pequenas parcelas de terreno de que dispunham, pressionados pelo nível de ilustração que as novas gerações foram conseguindo. E também porque algumas grandes propriedades foram sendo retalhadas por motivações diversas. Mas existem pontos, importantes, em que grandes e pequenos estão sintonizados.

A xenofobia que é explorada pelos representantes da direita mais extrema tem como base fundamental, nunca referenciada, a atávica noção de que só querem ter accesso a uma bolsa de mão de obra quando seja estritamente imprescindível. No seu foro íntimo continuam a ver estas pessoas como ganhões, servos sem ligação certa e sempre afastados do seu núcleo familiar.

Podem aceitar forasteiros, residentes, quando estes se encarregam de tarefas manuais que deixaram de ser interessantes para os naturais. Estes, enquanto cumprirem o seu trabalho de modo satisfatório para quem lhes paga, podem ir ganhando o estatuto de assimilados. Mas, os da velha guarda, os proprietários “de toda a vida” continuam a ser muito ciosos da sua importância. Daí que sempre votam para os conservadores, e, como sucederá hoje e se verificou na primeira volta, desejarão colocar no topo da hierarquia aquele que lhes prometa, ou insinue, que não acolherá forasteiros “ás nossas custas”, e que expulsará os faltosos, sem delongas.

Os citadinos, habituados a conviver, nem que seja só visualmente e nas ruas, com gentes originárias de todo o globo, ou quase, aceitam a presença de estranhos. A sua luta diária está restrita ás capacidades e possibilidades de progredir economicamente e socialmente no meio em que se movem. As suas opções partidárias são mais dispersas, pelo menos quando se lhe apresenta um amplo leque onde poder escolher. Mesmo aqueles que, não sendo anímicamente uns obcecados pelas doutrinas extremistas, concretamente da direita xenófoba e agressiva, podem estar descontentes pela presença de estrangeiros incómodos ou mesmo potencialmente perigosos.

Resumindo: nas zonas eminentemente rurais as doutrinas socialistas tem pouca receptabilidade, excepto quando ali se instalou um núcleo industrial que dé trabalho a um número considerável de cidadãos.


Outro factor de peso que contribui ao conservadorismo provinciano, e no qual propositadamente não vou entrar, é o da religiosidade convicta, ou de hábito, versus a tendência ao ateísmo ou a uma menor dependência das normas da Igreja. Situação que se notou estar em aumento entre a população das cidades. A invasão de muçulmanos pode ocasionar uma modificação desta evolução “libertária”.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

OLHAMOS E NÃO VEMOS


Mais vergonhoso até, pois olhamos, ouvimos, sabemos e desviamos a atenção enquanto assobiamos, nem que seja metafóricamente. Com estas atitudes, desprezando os reiterados avisos que nos são dados acerca da destruição do ambiente em que no sentimos tão agradados, mesmo satisfeitos, com as benesses envenenadas que nos proporciona, obviamente pagando, a brilhante sociedade de consumo.

Hoje apareceu noticiado nalguns dos jornais diários, com uma unanimidade pouco habitual dada a seriedade da denúncia, a notícia, de agência, que diz em resumo: Foram analisadas várias amostras de sal de cozinha com o propósito de verificar se as inevitáveis impurezas detectadas eram, potencialmente, prejudiciais para a nossa saúde. Viram que em quase todas as havia partículas de matérias plásticas.

Ou seja, não nos basta saber que os animais confundem os plásticos que invadem o seu ambiente, e os ingerem, com consequências fatais. E que inclusive aquelas embalagens que nos anunciam ser biodegradáveis nunca ultrapassam de ficar reduzidos a partículas mais ou menos grosseiras, sem que a estrutura sintética desapareça totalmente.

Até aqui podem ter lido como mais um aviso de um lunático que teima em prever o futuro tenebroso, o maremoto, a subida do nível das águas do mar, o aquecimento global, o degelo das calotes polares, etc. Já ouvimos tantas vezes estes alarmes que, tal como sucede na história do Pedro e o Lobo, não ligamos nada.

PIOR DO QUE NÃO LIGAR É O COLABORAR.

Na nossa casa, onde residimos dois velhos, sem grandes necessidades nem excessiva vocação para cair no consumismo, que confesso ser muito difícil resistir, encarrego-me de separar as embalagens de plástico, num grande saco que, semanalmente, vou descarregar no contentor existente num espaço escolhido pela entidade que decide e que implica percorrer uns 500 metros com três sacas: uma com as embalagens, outra com papel e cartão e ainda outra com frascos e garrafas de vidro. É notável o volume e peso que dois velhos conseguem acumular em poucos dias!

Pensar que com esta recolha e entrega estamos livres de responsabilidades é uma ilusão sem fundamento. Induzida pelos que comandam o consumo. Sabe-se que, as centrais de tratamento de lixo, não conseguem seleccionar e empacotar todo o material que lhes chega. O excedente vai, sem problemas de consciência ecológica, com destino a ser incinerado, a um dos chamados aterros sanitários (que equivale a esconder o lixo para debaixo do tapete), ser enviado para países onde, pagando, aceitam acolher o lixo dos outros, ou outra não solução de deitar tudo para o mar, como se a água salgada fosse o esgoto onde tudo pode ser lançado. Também existe a solução, pessoal e incívica de largar as embalagens em qualquer lado, seja na cidade ou no campo e praia.

Dar uma volta num super ou hiper nos dá a ideia de como somos manipulados, não só para consumir como para aderir, satisfeitos, à distribuição de tudo aquilo que, anteriormente, se comprava a granel agora “devidamente embalado” em recipientes estudados por desenhadores, sempre tentando ser originais com o que eu chamo de “variações à guitarra”. Já não existem taras a devolver, reutilizáveis. Mesmo os produtos vegetais, hortícolas ou frutícolas, quando não estão previamente doseados e marcados com o seu preço, nos são entregues em sacos de plástico, que quase sempre irão para para o lixo doméstico.

A solução, mais aparente do que efectiva, de nos venderem umas modernas alcofas, de plástico, a fim de evitar os sacos, sempre com a publicidade da casa, onde se reuniam as peças depois de passar pela caixa, não resolve minimamente o problema. E os cidadãos estão tão viciados no esquema imposto que nem sequer pensam numa possível alternativa.

Apesar de saber que o comprador final: nós todos, é quem paga as embalagens que deitamos fora, os governantes, caso tenham um mínimo de consciência ambiental, deveriam penalizar, fortemente, as vendas com embalagens não recuperáveis, logo no produtor, armazenista ou embalador. Cada embalagem deveria ser fortemente taxada em origem. O cliente final, que sempre pagaria este aumento de custos, clamaria aos céus, e exigiria aumentos de salários para poder continuar no seu ritmo de compras. Mas poderia repercutir num decréscimo do consumismo. Nesta altura não parece ser factível, a não ser indirectamente, ao estilo do “poluidor pagador”.


As únicas embalagens, não aceites na devolução, que admito ter um reciclado importante são as garrafas de vidro e as latas de alumínio, porque ambas são novas matérias primas valorizáveis. Mas, por exemplo, aqueles simpáticos pacotes de leite, que destino podem ter, além de serem triturados, queimados ou enterrados?

quarta-feira, 3 de maio de 2017

A INFANCIA NOS MARCA



Damos como certo que as primeiras impressões que recebemos, depois de nascer, mesmo que hoje também se admita que muito se fixa enquanto permanecemos no ventre materno, atribuímos as memórias de infância a factos que damos como vividos pessoalmente. É muito provável que uma parcela importante destas memórias foram moldadas pelo que, ao longo da convivência com os familiares, fomos ouvindo e acrescentando.

No que me respeita as memórias da infância cada vez surgem com mais intensidade. Deve ser coisa clássica nos que chegam à velhice e ainda conseguem comunicar sem se babar e ter a cabeça de lado. FIGAS CANHOTO.

Uma das situações que recordo, com suma tristeza e congoxa, é a longa fase que a população vencida passou, depois da vitória das forças multi-mixtas sob a bandeira da cruzada contra o comunismo. A população desprotegida, entendendo como tal as pessoas que não constavam nas listas dos aceites como partidários do governo que se impôs pela força das armas enquanto durou a contenda e depois com a repressão despiedada. Faltava a água nas torneiras. As horas com que se podia usar a energia eléctrica eram poucas e incertas. Socorrer-se de velas era um problema,pois o que estava à venda não tinham estearina e muito menos cera; eram de um sebo que deitava fumo e mau cheiro. Era preferível a luz de chama de carbureto, libertava gás acetileno com chama viva e fortemente luminosa. Recordo, ou imagino recordar, o seu cheiro adocicado, para mim agradável

À falta de liberdade sobrepuseram a escassez de bens essenciais, principalmente na alimentação mais básica. Organizaram um racionamento, sumamente escasso e que proporcionava, sem uma possível previsão e muito menos a garantia de servir os mínimos, alimentos de ínfima categoria. Grassaram todas as doenças derivadas da carência alimentar e higiénica, principalmente a tuberculose, a sarna e outras doenças da pele.

Poucos anos atrás uma escritora, por acaso da Catalunha, escreveu um romance-denúncia do negro passado, com o título, bem explícito Molta roba i poc sabó (muita roupa e pouco sabão). Quem viveu aquele período sendo adulto, e principalmente se dona de casa, recorda que havia escassez de sabão e quando surgia a possibilidade de o adquirir com a caderneta na mão, era, pelo que ouvia da minha mãe, uma coisa pastosa escura, quase negra, que mais sujava do que lavava. Feita com uma gordura desconhecida, possivelmente sebos que nunca se utilizaram na indústria de sabão, e sem o álcali que garantisse a saponificação.

Toda a lista de produtos que se punham à venda, em quantidades estipuladas e inamovíveis, seguiam o mesmo critério: o pão, quando havia, era negro, como se feito com barreduras e farinha de alfarrobas ou cereais inhabituais; o azeite era também um líquido negro, infecto. Arroz e legumes, nomeadamente grão de bico, implicava uma tarefa de escolha que dava trabalho a todos os que estavam na casa; as pedras e grãos a rejeitar deixavam a porção que entregavam reduzida a quase a metade.

Em compensação não era raro que incluíssem proteínas animais, caso não se importassem de comer os gorgulhos. Feijão era coisa rara e só uma importação de uns feijões pequenos, amarelos enviados da Argentina, podiam dar um ar de comer leguminosas.

Apesar deste panorama “oficial” existia o sistema “oficioso” onde não faltava nada. Aquilo que por cá se chamou de candonga, ou mercado paralelo e escondido, ali era conhecido por estraperlo, e muitos dos fornecedores “clandestinos” eram familiares dos guardas que se encarregavam de confiscar os bens que os transportavam desde o ponto de origem até a zona que se propunham abastecer.

Uma situação penosa que não afligia a quem tinha poder e dinheiro. Estes não tinham falta de nada. Como assim?

O cerne do problema não estava na agricultura, pois os camponeses, com esforço e seus braços ou algum animal que tivesse escapado com vida, produziam aquilo que poderia ser suficiente para abastecer a população espanhola de então. Mas... o vencedor tinha uma enorme dívida de guerra com a Alemanha e Itália, e logo que as tropas franquistas iam conquistando terreno requisitavam a produção agrícola para a enviar aos que estavam metidos na segunda guerra mundial; possivelmente dando melhor e maior atenção às necessidades do exército alemão. De onde se entende que aquilo que restava para a população, culpada de perder a guerra, nem sequer era próprio para alimentar animais.


Detalhes sem importância, mas que ressurgem com nitidez na memória de um velho.

terça-feira, 2 de maio de 2017

SEMPRE BONS OU SEMPRE MAUS


Admitimos que para um cidadão normal existe uma dualidade comportamental. Que nem sempre é apreciada pelo próprio, pelo menos de imediato. Se bem que é possível que decorrido um tempo sobre os factos, onde teve uma acção preponderante, faça uma avaliação acurada, positiva ou negativa. Daí que, a posteriori, pode sentir-se culpado ou bater palmas a ele próprio.

Dito de outra forma, aquilo que podemos considerar como normal, é que o comportamento do indivíduo raramente segue o mesmo rumo, em permanência. Os desvios e escorregadelas são sempre possíveis. Esta ambiguidade comportamental é uma característica tão geral que inclusive adquiriu o estatuto de uma verdade insofismável, e que está gravada na linguagem comum ao afirmar que jamais se pode agradar a todos ao mesmo tempo.

No catecismo católico, pelo menos naquele que me transmitiram quando era um infante, referia-se que estávamos acompanhados por um anjo bom e, em simultâneo, por um anjo mau, mais propriamente um diabinho, que tentava influenciar para um mau comportamento. Ou seja, a entidade que tomou a seu cargo orientar para a bondade indiscutível a humanidade em geral, ou os seus crentes em particular, reconhece que não é um dado adquirido ter conseguido levar todo o rebanho no bom caminho. A culpa deste falhanço está no supremo Criador quando decidiu, por decisão própria, dar ao homem a capacidade da livre escolha, ou opção. Naquele dia aziago abriu todos os caminhos para pecar. Em compensação montou o inferno para castigar, eternamente, aqueles que escolheram o mau caminho. Como não tenho receio de pecar opino que este comportamento divino é uma velhacaria imperdoável.

Aliás, esta pressão em sentidos opostos é comum a muitas culturas, mesmo naquelas em que a qualificação das acções humanas não é uniforme. Um exemplo na literatura ocidental, conhecido por todos, sejam crianças ou adultos, -inclusive os adúlteros,que são uma classe aparte, mas com muitos adeptos- é a história do boneco Pinóquio, onde o autor Carlo Collodi em 1883, incluiu as duas personagens influentes no boneco animado, um bom e outro mau, materializados num grilo falante (como a famosa picareta falante) cheio de bons conselhos mas sem poder de convicção, e um raposo esperto e malandro.

Recordei que na linguagem coloquial os indivíduos que se esforçam, com denodo, a ser sempre notavelmente bons, e assim auferirem dum estatuto de santo sem altar, nem sempre são apreciados pela malta no grau excelso que eles pretendem. Esta desconformidade é fruto de que, a cidadania em geral, tem as suas reservas quanto a ser possível manter tanta bondade em permanência. Daí que os qualifica como santos de gesso ou de pau carunchoso o que equivale a lhes dar um voto de desconfiança.

Já com aqueles que deram sobejadas provas de má índole, vemos que também estes não são vistos sob o mesmo prisma por todos os cidadãos que os conhecem. Se optarmos pelos que o desprezam são vários, e de grau de agressividade diferente, os epítetos que lhes são dedicados. desde velhaco a falso, patife, biltre,canalha, burlão, traste, devasso, tratante, intrujão, ladrão, bandido e suas múltiplas variantes.


P.S. O que escrevi está bastante longe do esquema mental que trazia preparado. Era bastante mais ácido. Preferi não arriscar na quase certa possibilidade de molestar os mais respeitosos (cumprimentos)

AS ELEIÇÕES FRANCESAS


Escrever sobre este assunto, que indubitavelmente é de interesse europeu, é quase que uma prova de tontice quando quem se mete nele não está por dentro da sociedade francesa e do ambiente político e social que por lá inflama a mente de muitos eleitores.

Mesmo assim, e estando as opções reduzidas a duas possibilidades, ao estilo de atirar uma moeda ao ar e decidir sem raciocinar, é fatal que neste cantinho da Europa, um “cul de sac”, cheguem as ondas de choque, fatalmente prejudiciais para a nossa, já de por si, fraca sociedade civil.

Só quero recordar que uma possível entrega do poder às forças, nitidamente vocacionadas para o extremismo ditatorial fascista, que tanto Mussolini como Hitler atingiram o poder democraticamente, por uma maioria nas urnas, dada por seus apoiantes e por muitos ingénuos que acreditaram nas suas canções do bandido.

Ambos tomaram posse vestidos com cuidado, sem fardas militares, com casaca e chapéu alto, mas não tardaram nada em dar ordens ás suas milícias para-militares, que com os seus métodos intimidatórios, perseguições, agressões e até assassinatos, impuseram regimes que nada tinham em comum com a democracia que lhes abriu as portas.

Para quem dedicou algum tempo lendo atentamente o comportamento da sociedade civil francesa a partir dos anos '30 do século passado, reconhece que sempre existiu um forte sentimento anti-semita, e que muitos colaboraram com os nazis alemães durante a ocupação. Uns descaradamente e outros com fingida neutralidade com o marechal Petain no papel de fantoche convicto. Daí que não nos podemos admirar que a Le Pen venha a conseguir uma votação alarmante, não só conseguida pelos seus aderentes de sempre mas daqueles que julgam poder dar um voto de castigo aos governos anteriores.

Não discutimos a justeza do sentimento de frustração dos cidadãos democratas franceses. Aqui também deve existir, mas em menor percentagem dada a pouca participação na política de um importante sector, pelo menos numericamente, da nossa sociedade. Uma abstenção que só serve para favorecer a continuação dos abusadores e gananciosos. O difícil, para os visionários do futuro que pode cair sobre a França, é conseguir ilustrar os votantes que reagem por impulso, sem dar valor ao que lhes pode cair em cima.


Mesmo que as tropas de choque da Frente Nacional não entrem em actividade de imediato, a história nos mostra que uma maioria, quando recai em pessoas “iluminadas” ou obcecadas, propícia a que decida impor as suas ideias pela força. Daí para o desastre é só o tal salto de uma cobra.