segunda-feira, 22 de junho de 2020

MEDITAÇÕES – Aderir a sugestões



Uma reclamação e as exigências sociais

Pelos vistos e baseando não só no que nos tem sido apontado ao longo dos anos, os membros do género masculino tem as tendência de aliviar a bexiga estando erguidos e apontando o canudo de saída deste líquido amarelado, e por vezes com aroma desagradável, para uma distância considerada como prudente. O local mais desejado é o campo aberto, e com um certo recato, pois que toda esta área corporal do baixo ventre é considerada como reservada, pelo menos nas situações cívicas. A falta de um terreno livre e disponível, há quem recorra a encobrir-se com uma árvore, um poste, um muro ou mesmo um carro estacionado sem um ocupante que nos observe. Conseguido o vazamento do líquido que nos pressionava, com uma sacudidela e recolocar o canudo no seu lugar nas vestes e garantir que esta zona retoma a sua blindagem normal, o caso fica ressolvido.

É no lar, doce-lar, que a porca torce o rabo. Periodicamente nos chegam “denúncias” em que se referem as porcarias que os machos tem por hábito deixar nas sanitas depois de urinar. Pouco tempo atrás encontrei um curto vídeo onde se mostravam as tentativas de educação e higiene que uma mãe, só com descendentes do tipo masculino, para que não emporcalhassem o trono e a sua envolvente, incluindo não só a tampa como o anel que serve para pousar as nádegas. A senhora colava papeis, com legendas de aviso, tanto na sanita como no piso adjacente, paredes e sem esquecer o assento tipo bolo-rei gigante mas a sua tampa.

Não conseguiu o resultado pretendido. Em vista da impossibilidade de alterar, educando, os instintos masculinos, decidiu mandar erguer, no jardim, uma pequena “secreta” com porta, fechadura e chave, para seu uso exclusivo. E que os porcalhões da família chafurdassem a seu bel-prazer naquela imundice.

A opção a que as damas chegam, quando não tem a mão a possibilidade de conseguir um canto exclusivo, é a de pressionar, até conseguir, que a tropa com canudo siga a técnica feminina. Ou seja, que não se limite a abrir a braguilha e retirar o canudo, mas que desça calças e cuecas, se sente, descarregue, abra o fluxo de água de limpeza, e coloque a tampa no seu lugar.

Temos que concordar que a opção menos “degradante” seria a de que cada um, após não controlar o fluxo de saída do seu líquido molesto e verificar que esguichou para onde não estava previsto, se encarregasse, sem falhar, em limpar tudo como as normas de higiene familiar aconselham.

Fazendo um balanço rápido, que evitarei discriminar, recordo que são vários os actos naturais que as boas maneiras, ou a educação quando se está em companhia, nos estão interditos. Ou que, pelo menos, estão mal vistos se os libertarmos socialmente. E, em geral, nos esforçamos para cumprir estas regras.

Conclusão: Se não formos capazes de mijar sem acertar no alvo, fica o recurso de imitar as damas.

NOTA EXCULPATÓRIA – Segundo me consta, apoiado em testemunhas fidedignas, as damas quando utilizam sanitários públicos não evidenciam o respeito às normas de higienize que exigem no seu lar.

domingo, 21 de junho de 2020

MEDITAÇÕES - Violência racial



A difusão de eventos negativos

Embora todos partilhamos na qualificação imediata das pessoas com que nos cruzamos em função de factores congénitos, aos que, por pressão atávica lhes atribuímos características de rejeição, reconhecemos, quando pensamos analiticamente, que esta adversão nem sempre está justificada.

Julgo, eu, que são muitos os cidadãos que, instintivamente, receamos do comportamento daqueles que avaliamos, num primeiro olhar, como diferentes e daí com possibilidades de serem perigosos. Uma situação que por ser de reacção impensada só se pode anular por meio do raciocino.

Por um daqueles azares que acontecem na sociedade, com bastante frequência, a sociedade global está hoje submetida a duas situações de calamidade potencial, e que, sem dúvida, a difusão dada pelos meios de comunicação, tanto os clássicos (em declínio) como os mais recentes (em expansão) colaboram negativamente na geração e propagação de incitações para comportamentos errados.

Se no que corresponde ao alarme e cuidados, nem sempre cumpridos para nos tentar afastar dos perigos de contágio pelo vírus actual, é de admitir que quase todos estamos sabedores das recomendações que nos são enviadas. Que o comportamento oficial nem sempre nos parece ser coerente com as recomendações é outra faceta desta situação.

Mas sente-se no ar, precisamente pelo perigo de contágio ou de imitação do que nos é noticiado, que aquele convívio pluriracial (1), de que tanto nos orgulhávamos, está em risco de se quebrar. Um orgulho excessivo e até irreal, pois com esta fantasia de convivência aberta e total escondíamos as rejeições instintivas, efectivas, que sempre existiram nas sociedades humanas.

Admite-se que o aumento da cultura geral -Que verificamos não coincidir exactamente com o caracter “enciclopédico” que se lhe atribuía antes da invasão da informática, sempre mais selectiva- é o caminho a trilhar com melhores possibilidades de possibilitar uma progressiva integração dos sectores tradicionalmente marginalizados. Até agora admite-se ser débil percentagem de indivíduos que conseguem subir degraus na escala social. Mesmo assim acontece com mais frequência. Ou aconteceu até a pandemia, que promete vir a levar ao desemprego mais gente do que já era habitual.

Mas, dentro deste capítulo dos sectores marginalizados, surge o perigo da imitação aos motins de tipo racial que se tem espalhado no mundo, tradicionalmente denominado como ocidental. Começando pelos EUA, que por razões históricas tem no seu seio um volumoso sector de descendentes de escravos, hoje com nacionalidade equivalente, em principio, com a dos descendentes dos brancos, igualmente invasores daquele enorme território. Mas com a característica negativa de que entre os afro-americanos o índice de pobreza e incultura é muito elevado.

Esta situação, inegável e com uma magnitude que ultrapassa as capacidades económicas dos EUA para a poder alterar, sempre esteve em risco de explodir em revolta incontrolável por algum acontecimento nada inusual, mas sempre reprovável. O inusitado que nos deparamos é que os protestos, sejam simplesmente manifestações pacíficas ou violentas, com assaltos, agressões e roubos, já alastraram para a Europa, apesar de que as sociedade locais não seguiram os mesmos trilhos de comportamento do que as dois estados sulistas dos EUA. E, curiosamente, o facto de nestas manifestações de protesto, sempre predisposto à violência, se incorporem indivíduos de pele clara, contestatários do sistema e apoiantes dos revoltados, em nada alteraram o sentimento de agressividade reinante entre os afro-descendentes.

O perigo de imitação, de incitação a confrontos de massas, não é de temer hoje em Portugal. Mas existe latente em muitos bairros “marginais” e em muitas mentes de indivíduos que, por razões ou sem elas, se consideram mal tratados pelos naturais dos países onde se introduziram. No dia menos esperado podemos ver nascer a sua intifada.

Não creio que esta possível, mas indesejada, revolução social se possa neutralizar antes de acontecer. Pelo menos não acredito que os bons argumentos e atitudes conciliadoras possam anular os azedumes já existentes.

(1) ainda não nos habituamos a retirar da linguagem os termos que derivam das pretensas raças humanas. Lá chegaremos. Espero.


quinta-feira, 18 de junho de 2020

MEDITAÇÕES – Outra pandemia



Nem oito nem oitenta

Numa reacção extensiva perante o enésimo crime racista acontecido nos USA, vimos como já afectou uma data de países em mais do que um só continente. Até o momento as manifestações de repúdio não conduziram a mais vítimas. Desatou-se sim uma extensiva protesta com marchas de multidões onde participaram indivíduos de tipologias diferentes.

A contestação derivou da alegação de segregacionismo e maus tratos às pessoas com cor da pele diferente do que se chama de “raça branca”. O protesto chegou a ter como alvo certas pessoas, em geral já falecidas, que foram homenageadas por serem recordados por acções louváveis, por vezes com placas ou estátuas colocadas em locais públicos. Os activistas alegando que na biografia de certos próceres se eliminaram acções (hoje) reprováveis, mas correntes enquanto vivos, tomaram a iniciativa de derrubar ou emporcalhar estes símbolos, que durante anos mereceram ser respeitados.

Não podemos aplaudir as irreverências e desmandos, mas tampouco é correcto fechar os olhos quanto a acções deploráveis, não só pelos que mesmo na época em que aconteceram e eram consentidos legalmente, foram denunciados, mesmo que por um número reduzido de cidadãos Pessoas que podemos considerar além de precursoras na promoção da igualdade de direitos e deveres de TODOS os humanos, e até, extensivamente, a animais quando maltratados abusivamente por energúmenos que se julgam pessoas “de bem”.

Como céptico militante surgiram-me na memória as barbaridades que, mesmo neste cantinho da Europa, se fizeram sobre cidadãos cujas faltas, muitas vezes difamatórias sem fundamento e, quase sempre incitadas por uma visão extremista da doutrina religiosa, inclusive permitia, ocultamente, propósitos políticos ou vinganças pessoais por parte dos decisores das penas. As últimas execuções públicas foram “ontem” já no reinado de D. João V e do Ministro Sebastião e Melo.

O derrubar uma estátua, mesmo que os argumentos correspondam a comportamentos hoje inaceitáveis mas, na época em que se deram, eram usuais, pode ser comparado aos réus que, já mortos eram tirados das suas sepulturas para serem queimados na praça pública, para diversão não só da populaça mas também da corte e seus afins. Para encobrir o desrespeito humano chamavam ao “festejo” AUTO DE FÉ.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

MEDITAÇÕES – Um tema recorrente



Espelho meu, que é mais belo ela ou eu?

Tenho observado, ao longo de décadas, uma confusão entre o que se avalia sob o restrito olhar zoológico, não só com os animais mamíferos como em quase todas as espécies, acerca da vistosidade, quase que universal, dos machos relativamente às fêmeas da sua mesma espécie. E mais observamos, as fêmeas, que detêm, inequivocamente, o poder de decisão na escolha do macho que as deve inseminar, mostram um grau de inapetência muito evidente, quase que depreciativo, embora o galanteio habitual, misturando o afastamento com a provocação, seja indubitável.

Esta dupla provocação galante (ligação óbvia entre o termo galante-galanteador e galo) na natureza animal é fortemente potenciada com as vestes que habitualmente enfeitam os machos, sejam penas, escamas, pele, canto ou até dança. Sem hesitação podemos afirmar que o macho se apresenta muito mais vistoso do que a modesta fêmea. E, no entanto, o papel mais importante da manutenção da espécie fica -salvo excepções conhecidas- a cargo das fêmeas.

A conclusão imediata, mesmo que não geral, é que a selecção da componente genética, mesmo que dependente da escolha da fêmea, está fortemente condicionada pela capacidade de atracção do macho, e da sua força para afastar os interessados concorrentes. Daí o “macho dominante ou macho alfa” E como funciona entre os humanos?

Nos grupos ainda pouco “civilizados” -Os que permanecem isolados do que nós entendemos como progresso- os homens enfeitam-se mais do que as mulheres. E com a evolução social, especialmente entre a classe dominante e os mais abastados, os homens mantiveram a motivação de se vestirem de um modo ostentoso, aparatoso, com rendas e folhos que hoje nos parecem ridículos ou efeminados: chapéus aparatosos, que mais tarde foram relegados às damas; calções com folhos, meias arrendadas, sapatos com salto (excepto o Sarkozi)

Que o corpo das mulheres, nem que seja para ser visualizado, sempre mereceu o apreço do homem, que sem dúvida detestava a roupagem que ocultava a formosura corporal daquele ser que desejava como complemento, é denotado pela escultura e pintura, que nunca descuidaram a beleza das mulheres.

A mulher desde cedo teve a noção de que podia e devia aproveitar e melhorar, tanto quanto pudesse e soubesse, o seu atractivo visual. Deste conhecimento resultou que tanto as roupas como penteados e maquilhagem com que podia realçar a sua seducção, fosse eclipsando a imagem dos homens. Sendo historicamente correcto temos que reconhecer que desde as sociedades egípcia, helénica e romana, as mulheres já sabiam e aplicavam cosméticos e roupagens vistosas e insinuantes, muitas vezes translucidas.

Recuando. Sem que renegue do agrado que podemos sentir ao ver uma das nossas companheiras (genericamente falando...), seja menina ou madura, quando bem “preparada”, fica esclarecido o aparente enigma do porque os humanos optaram por uma decisão anormal entre os mamíferos (e não só estes) que nos acompanham.

Um pormenor discordante: da cintura para cima os homens, quando se enfarpelam usam enchumaços, postiços, nos ombros, imitando as palas onde os militares colocam as suas divisas. É para parecer mais musculados? Mas as mesmas pessoas, quando se vestem informalmente, raramente usam estes postiços.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

MEDITAÇÕES - Pobreza e Estabilidade. Consequências



Qualificar e desqualificar sem ponderar

Escrever opiniões sobre a população, ou mais directamente acerca dos sentimentos e opções políticas, e obviamente sociais, atribuindo qualificações a certos grupos, muitas vezes só imaginados, sem que se tenha efectuado uma ponderação correcta e ampla sobre os factores que incidiram sobre aqueles que, levianamente qualificamos, é um erro muito frequente.

E mais ainda quando se está sob alguma pressão social que não é devida, concretamente, ao comportamento “político” dos seus membros. Ou, precisamente, se são estes medos que disparam os alarmes sem ponderar a pressão que existe na situação sanitária actual.

Causa-me um grande desconforto ver como irreflectidamente se dá como indiscutível que os que sentem, com maior ou menor intensidade, uma rejeição social ao sector onde estão agarrados, são tão “irrecuperáveis” como eliminar a melamina da pele. Coisa que só se sabe conseguiu um tal Michael Jacson. E sabemos que não é assim que a segregação económica-social funciona. Propositadamente não referimos, constantemente, os principais factores que conduzem a uma “incompatibilidade” entre os desprezados e os soberbos.

Qualquer sociólogo que consultemos acerca deste problema sectorial nos dirá que são a pobreza e a ignorância que mantém muitas pessoas na chamada “mó de baixo”. E mais, que é muito difícil e carece de esforços invulgares o poder sair do nível onde se nasceu, criou ou, por infelicidade, se viu atirado.

Não é por casualidade, nem por tentativas de cumprir devidamente a lei de Deus, que muitos dos que se dedicaram a meditar sobre este problema apresentaram projectos de acção onde eram fundamentais os esforços do estado no incremento cultural do povo baixo, juntamente com um esforço sério na implementação dos cuidados de saúde e, paralelamente, melhorar a salubridade dos locais onde existiam aglomerados com notórios sintomas de pobreza.

Não demorou a percepção de que estas metas eram difíceis de alcançar caso não se instalassem perto destas áreas de carência endémica, unidades fabris produtivas que dessem a possibilidade de trabalho remunerado, e até de ganharem com algum excesso, para o seu sustento e necessidades básicas. Infelizmente os capitalistas que tinham a capacidade e os conhecimentos para dar trabalho aos marginalizados se depararam com o dilema de que, em geral, aqueles indivíduos que se pretendia ajudar tinham um nível de conhecimentos muito primário, e que mais depressa entraram no que era doce do que se habilitaram para trabalhos fabris com certas exigências. A evolução, apesar de real, não foi suficiente para igualar. Cinicamente para muitos era rentável contratar, por baixo preço, a gente rude e ignorante.

Quando estes cidadãos atingem um nível primário de literacia, mesmo que ainda pouco versados nas ratoeiras que os demagogos lhes apresentavam, foi, como era de prever, um campo lavrado onde os políticos com o espírito subversivo tiveram, e tem, a possibilidade de criar adictos. E aqui chegamos aos tais da esquerda activa e provocadora. Que como nos alerta a Física elementar, gera uma reacção.

Virando para o outro sector, o da direita “bem pensante e falsamente humanista”. Aqui se juntam pessoas já com alguma cultura, muitos com noções deturpadas da “luta de classes”. Os mais astutos e capazes de manipular o seu sector chegam a capitalistas, atropelando pelo caminho aqueles que se lhe opõem, mas respeitando com receio os que podem vir a ser seus inimigos “dentro de casa”.

O que lhes mostra ser mais rentável é o explorar, directamente os membros mais débeis da sociedade, ou indirectamente sonegando os fundos que são do País, especialmente dos que trabalham mas não conseguem sair do seu nível e crescer para o estatuto de incipiente predador. Para este fim, desde sempre, o capital manteve os governantes debaixo dos seus interesses e propósitos.

Este sector social que manipula na sombra, sem alaridos nem desfiles -que reservam para a ocasião em que já tem uma maioria domesticada e fiel- é pouco numeroso e exclusivo no topo. Alguns, que não todos, fazem publicamente alarde da sua rica vida, das suas propriedades e das suas festas sociais. Os outros, os que denotam a esquerda baixa limitam-se a aplaudir os do topo e a entrar na sopa dos pobres, com o que as suas leves críticas internas ficam neutralizadas. Sem jamais avançarem para a realidade factual do problema.

Resumindo: o mundo é velho e tem problemas quase que irresolúveis porque mesmo nos grupos de população mais isolados, onde os bens são da comunidade, é que a desigualdade é mais notória. Até aqui chega a distinção pelo poder, nem que seja eleito pelo povo. Chefes, seus próximos e adivinhos ou bruxos, não tardam em se distinguir e comandar, indirectamente tendo o chefe como intermediário.

Entrar numa adesão “convicta” para separar a cidadania entre “esquerdalha e direitalha”, desprezando os que preferem não alinhar, é uma consequência do dinheiro e da imaginação de cada um, que só vê no espelho aquilo que deseja encontrar.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

MEDITAÇÕES – Não podemos acreditar em tudo.


As generalizações são perigosas e falaciosas

Os tempos ou os ventos que temos que enfrentar, com calma e uma boa dose de confiança e sorte em que nem todos sofrerão com as temidas sequelas da pandemia, conduzem a que As mentes se tornem induzidas a fraquejar, e daí a que se possa cair num imaginário buraco negro do qual pode ser muito difícil sair. Aqueles que tem a possibilidade de comunicar, mesmo que seja a um número reduzido de seguidores, cabe não incitar aos extremismos e recordar o que sempre ouvimos: entre mortos e feridos alguém vai escapar.

Antes de me decidir a escrever e levado por uma assinatura que desconhecia, e pelo cabeçalho pensei ser dum comentarista individual sério, entrei num artigo que, como descobri a partir das primeiras linhas de texto, era um exemplo acabado do que não se deve difundir.

Não demorei a entender que aquele excerto tinha sido admitido e editado no espaço OBSERVADOR. Que, como deve ser avaliado, por aqueles que não comungam com a sua orientação editorial, é exageradamente capcioso, incitador a extremismos. Muitos dos seus editores incitam à separação irreversível da sociedade portuguesa em dois bandos totalmente opostos. Não posso opinar sobre tudo o que se edita neste OBSERVADOR, mas neste artigo em vez de tentar encontrar um equilíbrio favorável para conseguir viver em sociedade, incita à luta de forma indirecta, insinuadora.

Quem o redigiu, além de se definir como tendo sido espoliado quando o governo português abandonou as “suas províncias ultramarinas” (de uma forma extremamente irresponsável, que sob a visão humanista foi imperdoável), encontrou-se na sua desconhecida metrópole, que estava, como sabemos, num estado caótico, com uma degradação acentuada no que respeita à consideração que se deveria manter entre as pessoas, conhecidas ou desconhecidas, mas “passageiros de um mesmo espaço físico”.

Não vou dissertar nem sequer inventariar as razões que para cada pessoa, singular, as motivou para se colocar em sectores, digamos que ideologicamente, opostos. Mas admito que nem todos os habitantes deste País, ou de outro qualquer, se sentem nitidamente situados convictamente nos extremos mais belicosos.

Aos adictos ao extremismo lhes convêm, por que criam ambiente favorável para a difusão das suas proclamas, que só se possam admitir como cidadãos completos os da “esquerdalha” furibunda, os seguidores do anarquismo e comunismo puro e duro, e do outro lado da barricada, como acontece com o oscilar do pêndulo, estarão os da “direitalha” mais conservadora e avessa a qualquer diálogo conciliador. Os que, sem dúvida, julgam-se com direito a instaurar uma ditadura feroz.

Confesso que só li o longo escrito pela diagonal, sem que esta técnica limitasse a compreensão das mensagens que nele estão insistentemente apresentadas. Como exemplo retirei um parágrafo que transcrevo exactamente como apareceu no “artigo”.

. O principio estabelecido: todas as pessoas de esquerda são sociocidas. (um neologismo que desconhecia)

Não existe um único sujeito de esquerda que não se enquadre na categoria considerada, a dos sociocidas instigadores de males colectivos como a miséria ou a violência. E quem disse que estas pessoas más, como as demais, não tem direito à vida e à dignidade? Tem que se corrigir. Obrigação delas. Mas também dever das demais não fecharem os olhos à maldade humana. (fim da citação)

Possivelmente a correcção dos menos perigosos teria que ser conseguida em campos de concentração, devidamente guardados e sem acesso de familiares ou estranhos.

Recordei um anúncio que passava nos cinemas e na TV incipiente, lá pelos anos 1950/60, em que para salientar as excelentes qualidades de uma pasta dentífrica, por acaso nacional, um artista agarrava uma cadeira com os dentes e a fazia girar no ar com velocidade alarmante. No fim uma voz em off dizia qualquer coisa como PALAVRAS PARA QUE? É UM ARTISTA PORTUGUÊS!.

Eu também opino que estar a dar corda ao longo discurso que referi é tempo perdido. Mas mesmo assim avalio como vergonhoso e muito próximo do temido fascismo.



quarta-feira, 10 de junho de 2020

MEDITAÇÕES – Uma situação previsível




A tentação de ver a marcha passar

Poucos minutos atrás comentava sobre o nosso futuro, preocupado e pesaroso. Pensando mais nos que se manterão vivos do que nos que fecharão os olhos (ou lhos fecharão com uma pesada moeda...) em função da inexorável término da vida.

São bastantes aqueles que ponderam com bastante receio o que nos espera quando se ultrapassar esta pandemia. Mesmo que sonhemos com a possibilidade de que a vida recupere a mesma despreocupação e leviandade no comportamento individual, coisa pouco provável apesar de desejável. O que não podemos esquecer é o peso que a economia nacional terá sobre a economia pessoal de muitos cidadãos, mesmo que seja imperioso reconhecer que serão bastantes aqueles que conseguirão fazer boas pescarias em águas turvas e mar alteroso.

A dívida pública aumenta de hora em hora, sem um horizonte de recuperação, nem sequer de uma possível ajuda importante vinda de parceiros ou de alguma economia boiante -a não ser que a China se ofereça para comprar Portugal por atacado. Figas, canhoto!!- O desemprego será notável, e os subsídios pessoais perderão, paulatinamente, parte do seu valor em função da inevitável inflação. Há quem defina o futuro, com bases históricas e actualizadas, como uma bancarrota iminente.

Virando a página, e repetindo o que deixei escrito no Fb, o campo da política ficará quase totalmente disponível para toda a espécie de demagogos extremistas. Que sempre derivaram para os tristemente conhecidos anarquistas-comunistas ou conservadores-fascistas. Não importa o nome que hoje tomarem, por livre baptismo, o que se deve temer é a deriva fatal que os conduz para comportamentos não democráticos.

O que mais lamento nesta futurologia é que os culpados para esta via extremista são sempre as pessoas comuns, os que preferem ver passar os desfiles e as multidões ululantes, nem que seja atrás dos vidros e com cortinas translucidas que não os identifiquem. Somos (e claramente me defino como tal) a base da sociedade respeitadora, os que sustentam a convivência e a solidariedade. Os que não aceitam, mas fecham-se no resguardo das suas quatro paredes, quando viram que alguém, fosse familiar, amigo, conhecido o desconhecido, era preso por não comungar com os que tomaram o poder discriminatório e sem dúvida ditatorial.

Pode parecer uma situação, mesmo que hipotética mas já verificada em demasiadas ocasiões, fácil de neutralizar logo de início, e até sem ter que agir com derrame de sangue.

Portugal, cuja população se qualifica como ser de “gente tranquila e respeitadora”, recordamos que esteve a poucos passos de participar na luta entre os dois sistemas de poder vigentes na altura, concretamente entre capitalismo e comunismo. Aquela fuga para o ocidente pareceu que foi conseguida quase que “por obra e graça do Espírito Santo”. Não foi assim. Os EUA enviaram para aqui um embaixador Carlucci, sabedor das artes e manhas do jogo subterrâneo que, com manobras hoje não totalmente conhecidas pela população em geral (que não quer saber, nem se interessa...) conseguiu, não sabemos com que cedências em troca (pois a política sempre comportou uma boa dose de negócio mundano) assegurar a colaboração mútua com o partido socialista português, já em vias de ficar desnatadado (diz-se que metendo o socialismo na gaveta) como compensação, para que fosse aceite como parceiro, com este a neutralização dos extremistas da bandeira vermelha.

Curiosamente muitas vezes é esquecida a importância que os conservadores a norte do famoso sistema orográfico de Montejunto-Estrela. Sempre acompanhados pela Igreja Católica que nesta zona mantinha uma notável influência sobre a população. E que ainda mantêm, em menos grau.

Na fase actual, em que os sectores contestatários não se identificam propriamente com o PCP e seus derivados, a demagogia cativante está num aparente questionar acerrimamente a governação, ambígua por não ser totalmente esquerdista (felizmente) nem se negar ao capitalismo de que depende para sobreviver.

Uma zona de caça social que foi bem utilizada, com êxito incontestável, por Mussolini primeiro e depois por Hitler. Salazar sempre se notabilizou por saber nadar e guardar a roupa (sem nunca entrar nas águas frias e alterosas. Agora se noticiou que foi numa banheira que derrapou e quebrou a cabeça...) Franco, um imitador sem preconceitos de seguir as regras alheias, utilizou o fascismo quando lhe convinha, manteve a sua ditadura militar e pessoal até morrer, mas, além de ter o braço mumificado de Teresa Cepeda no sue leito de agonia, teve que beijar a mão dos EUA.

Retomando o fio da conversa: Como admito que entre os cidadãos sérios e respeitáveis alguns cairão na conversa dos demagogos, o resto nada fará, por medo ou acanhamento, para tentar evitar um renascer de ditadura. Ver veremos, como se diz que disse o cego.