quarta-feira, 13 de maio de 2020

MEDITAÇÕES – Opiniões sobre o Maio




Passeio por duas compilações de Rifões, Provérbios

Como poderão apreciar estas duas compilações, sendo orientadas para um público rural, insistem em apresentar as características dos meses sob o ponto de vista do campo.

Edição de 1780 

    Quem em Maio come sardinha, em Agosto lhe pica a espinha.
    Guarda pão para Maio e lenha para Abril.
    Uma água em Maio e três de Abril valem por mil.
    Maio couveiro não é vinhateiro.
    Maio come o trigo, e Agoste bebe o vinho.
    Primeiro de Maio corre o lobo e o veado.
    entre muitos outros
Editados em 1928 (138 anos mais tarde)

Água de Maio, pão para todo o ano.
A quem em Maio come sardinha, em Agosto lhe pica a espinha.
Chovam 30 Maios e não chova em Junho.
De Maio a Abril não há muito que rir.
Lavra de Maio e adubação de São João não dão pão.
Em Maio as cerejas leva uma a uma o Gaio; em Junho a cesto e a punho.
Em Maio come as cerejas ao borralho.
Em Maio nem à porta de casa saio.
Em Maio verás a água com que regarás.
Favas o Maio as dá, e o Maio as leva.
Guarda o melhor saio para Maio.
Guarda pão para Maio, lenha para Abril e o melhor tição para o S. João.
A erva o Maio a dá, e o Maio a leva.
Maio faz o pão e Agosto o milhão.
Maio frio, Junho quente, torna o lavrador valente.
Maio hortelão, muita palha e pouco pão.
Maio jardineiro enche o celeiro.
Maio pequenino, de flores enfeitadinho.
Maio pardo e ventoso, faz o ano formoso.
Maio que não der trovoada não dá coisa estimada.
Maio serôdio ou temporão, espiga no chão.
Peixe de Maio, a quem vo-lo pedir, dai-o.
Pela Ascensão coalha a amêndoa e nasce o pinhão.
Quando em Maio não troa (troveja) não é ano de broa.
Quando Maio chegar, quem não lavrou há-de chorar.
Quem em Maio não merenda, aos mortos se encomenda.
Quem quiser mal à vizinha, dê-lhe em Maio uma sardinha e em Agosto a vindima.
Touro, galo e barbo, todos tem sezão em Maio.
Trigo, quer serôdio quer temporão, fica em Maio em grão.


ACTUALIZAÇÃO - Este Maio de 2020 vai ser conhecido, durante uns tempos, pelas alterações na vida das pessoas que se regularam formalmente pelos receios do impacto que a pandemia actual, cuja principal característica reside na rapidez com que de instalou em toda a Terra.

Por enquanto, nesta cantinho europeu que se chama de Portugal, as perdas humanas não tem sido tão numerosas como se temia, apesar de todavia não se ter encontrado um tratamento de recuperação sempre eficaz, nem uma vacina preventiva.

Os maiores prejuízos já se considera que serão de ordem económica e social. Desemprego e pobreza, mais a incerteza de se, ou quando, se conseguirá recuperar a situação, mais de aparência do que real, de estabilidade. Ou seja, será conseguido um regresso ao passado recente? E quem nos vai ajudar nesta altura?

Mesmo que as investigações possam desviar a origem de uma origem maliciosa e propositada, a história do que sucedeu durante as grandes pestes anteriores e de como a recuperação teve que abrir novos caminhos, hoje o que mais tememos é que o descalabro humano e económico nos empurre para sermos, muitos europeus, um petisco a ser devorado por uma potência que, com outras armas e capacidades, repita a invasão dos bárbaros vindos do Oriente, de além dos Urais.

domingo, 10 de maio de 2020

MEDITAÇÕES – Arquipélagos III – Cabo Verde



Uns apontamentos sobre o tráfego de escravos.

Reconheço que desde os primórdios da civilização europeia, sem esquecer que a cultura nos veio por via terrestre desde o Oriente, o mocho se tomou como representação da deusa Atenas, e por extensão da sabedoria em geral. Não se sabe ao certo quem o escolheu, a par das corujas, como representante de uma fonte inesgotável do saber.

Procurando o tema, todos sabemos que no arquipélago de Cabo Verde já não ondeia, como sinal de poder, a bandeira portuguesa. Mas nem que seja pelo facto de muitos dos seus cidadãos estarem radicados em Portugal, e ainda que entre eles sejam bastantes os que usufruem da nacionalidade lusitana. Uns naturalizados e outros por nascimento.

A decisão de escrever acerca de Cabo Verde surgiu por tabela, reflexo de uma situação caseira sem maior importância. Quando nós tínhamos a oficina de cerâmica em funcionamento, a minha esposa prestava uma colaboração, preciosa e indispensável, atendendo os clientes. Tinha mais paciência e melhor trato do que eu, por efeito de ter sempre mais trabalho a meu cargo do que tempo disponível. Mas um dia aconteceu que o cliente viu que a empregada natural de Cabo Verde que se encarregava, por horas, da lida da casa, e só de relance disse à minha mulher que aquela senhora era da ilha de Santo Antão.

Surpreendida perguntou-lhe se por acaso a conhecia. Nunca a tinha visto, mas a sua estrutura corpórea denuncia de que ilha procede. Esta afirmação ficou gravada na minha memória e passados uns tempos decidi averiguar se, de facto, existia uma razão plausível para tanta certeza.

E, por indução, segui o rastro da escravatura, tema que já me despertara o interesse anteriormente. Para começar fiquei a saber que o nome correcto daquele arquipélago é o de As Ilhas de Cabo Verde, sendo este Cabo Verde a ponta mais avançada do que hoje conhecemos como Senegal, concretamente nos arredores de Dakar, e em direcção ao arquipélago. De facto aquelas ilhas, de origem vulcânica, como todas as atlânticas, são extremamente áridas e com pouca vegetação. O que implica que de cabos verdejantes... nada. Faltava a explicação para que fosse possível identificar os povoadores de uma ilha em relação com os das outras ilhas.

Decidi retomar o estudo da escravatura, que sempre existiu, desde os tempos mais recuados até a modernidade. Todos os povos se apropriaram de cativos de guerra, condenados ou vendidos pelos seus familiares para pagar dívidas, para serem servidores em regime de escravidão. Não existiu povo algum na história da humanidade que dispensasse a mão de obra escrava. Quando o mercado tinha escassez de oferta os negociantes de carne humana tinham que procurar mais “mercadoria” noutras zonas e mesmo noutros continentes. A situação geográfica do arquipélago em questão, perto da zona da África negra, onde os negreiros se abasteciam, o tornava interessante para ter uma base em terra firme onde instalar um entreposto.

Estes entrepostos eram não só uma base de acumulação dos cativos, como de ser o acolhimento até chegar o navio onde os embarcar para negociar. Não só eram um armazém de escravos como até de criação de novos elementos, sem necessidade de os ter que adquirir aos tratantes africanos. Os europeus negociavam as “peças” -como eles os denominavam- normalmente com africanos muçulmanos, fossem de origem magrebino ou negros islamizados.

Eram estes africanos os que caçavam, em conluio com os sovas locais, em terrenos practicamente delimitados como tendo, em exclusivo. Um coto privado de caça humana. Cada negociante, e transportador de escravos para as Américas, tinha os seus fornecedores certos, e por isso o mais normal é que as suas vítimas tivessem uma etnia identificável.

A seguir verificaram-se as evoluções conhecidas. Se uma escrava boçal, recém chegada do interior de África, ficasse grávida de um feitor branco ou mesmo que mulato, o filho/filha teria um valor comercial maior do que uma criança de origem. E, possivelmente, seria ilustrado na língua europeia vigente na feitoria onde nascera. -O mesmo acontecia já em posse dos donos nas Américas, onde estes mulatos podiam vir a ser alfabetizados e , se a sorte os acompanhasse, chegar a ser aforrados- Também convêm saber que as concessões de ancorar e povoar uma certa área da ilha não eram dadas exclusivamente aos negreiros portugueses. A procura era muita e o dinheiro sobre a mesa sempre foi valorizado mais do que a nacionalidade.

Apesar de que este tema é desagradável, o facto de ter sido o responsável de uma deslocação de milhares, mesmo mais de um milhão, de pessoas diferentes mas também seres humanos, e neste caso transferidos de um continente para outro no intuito de substituir os habitante indígenas locais, ser um tema desagradável, não é razão para o ignorar. Os efeitos ainda hoje estão visíveis.

VIVÊNCIAS – Da infância



Tempos de “inocência”

Quando criança, até os 12/13 anos, vivi e convivi com a família mais chegada e, como era habitual naquela época em que as crianças podiam circular com bastante liberdade, o grupo de coetâneos, mormente rapazes, que brincávamos em diferentes jogos. Muitos deles cativos de épocas não definidas, mas seguidas por indicação dos líderes. Jogar aos berlindes, ao pião, aos caroços de alperce, a saltar o eixo, a saltar sobre uma fila de agachados para ver se todos conseguiam manter-se montados ou escorregavam, ou até a colocar pregos sobre os carris do comboio para que ficassem esmagados e tentássemos afiar para conseguir umas faquinhas manhosas, sem grande préstimo.

Outra distracção “inocente” tinha uma época certa, concreta e curta. Bater nas portas da vizinhança para saber se tinham algum detrito de madeira que nos pudessem dar a fim de juntar ao que seria a nossa fogueira de São João. A resposta normal era que não. Mas tanto insistíamos que sempre terminavam dando uma caixa, uma cadeira sem concerto ou outro objecto passível de arder.

Existiam outras distracções que tinham uma época determinada. Por exemplo. Vivíamos numa sociedade fortemente pressionada pela Igreja, sem que isso conseguisse gerar uma unanimidade de convictos. Antes pelo contrário. Mas havia motivos de força maior para que os adultos não mostrassem, publicamente, a sua discordância. Com a garotada já se admitiam alguns desacatos “inocentes”. Assim sendo os grupos preparávamos cortejos procesionais na Semana Santa, por nossa iniciativa e com regras mais livres do que as que orientavam nas paróquias e confrarias. Abria o cortejo um pequeno grupo da imitava os soldados romanos,sem vestes apropriadas, mas cada um batendo no chão com uma vassoura velha, virada ao contrário, e seguindo o ritmo, alternando com os passo o bater à direita e à esquerda, tal como faziam nas procissões “sérias”. A seguir. E sem os trajos próprios, que não tínhamos, seguiam duas filas paralelas dos penitentes, o que fazia de Madalena e finalmente, de Jesus crucificado, que andava muito sério e compungido com os braços erguidos na horizontal. Este sofria de forma irresistível ao fim de pouco tempo, e por isso era substituído por outro voluntário. Curiosamente e apesar de ser uma evidente demostração de irreverência nunca se aproximou da malta um adulto para nos ralhar, ou mesmo um polícia municipal. Formava parte dos “abusos” consentidos desde épocas passadas.

Menos inocente, cívica mente ponderada, e que mais tarde vi também hábito entre as crianças de Lisboa, era o de tocar no batente, ou à campainha se houvesse, da porta e fugir de imediato. O risco estava em que a dona da casa, já farta de ser chamada para engano, nos despejasse um balde de água por cima. Para “refrescar as ideias”

No outono era o cair da folha, e na avenida onde morava havia, e ainda duas fileiras de plátanos, cuja sombra se agradecia nos meses de forte canícula. Estas árvores, quando já grandes, largam uma quantidade de folhas secas impressionante. O “grupo de malfeitores” se juntava e colocando-se em fila, perto uns dos outros, e arrastando os pés pelo pavimento avançávamos juntando um monte de folhas. Era a altura de encontrar uns bocados de papel e pedir um fósforo a um homem (as mulheres não fumavam em público) Normalmente, por saberem para que queríamos aquela fonte de chama, negavam-se, até alguns que marchavam com o cigarro aceso. Mas sempre aparecia um “benemérito” que nos oferecia a realização do propósito. Mais tarde deduzi que o simpático fumador não morava por perto, pois que a fumarada, mal cheirosa, que a queima das folhas produzia era um motivo de reclamação das mães, que vinham às janela ralhar aos berros. Com razão!

Uma nota. Enquanto que os fósforos em Portugal não se acendiam por fricção por serem feitos com fósforo amorfo, em Espanha, como nos cowboys de far-west, bastava raspar no chão e a chama aparecia, formosa e incendiária



sexta-feira, 8 de maio de 2020

MEDITAÇÕES - arquipélagos II - AÇORES


Como escrever  sem nada dizer 

Este compromisso regional-histórico-sociológico começou com o desafio de dar a minha versão -livre- da génese, vida e abandono da Base Aérea de Beja. Coincidindo com o que um simples cidadão, que só se pode documentar pelo que apanha nos jornais e nas emissões de televisão, e que, sinceramente, nunca nos atrevemos a por as mãos no lume para garantir a sua total veracidade, surgiu o “boato” de que o Governo dos EUA, ponderando a importância das diferentes áreas do globo, sob o ponto de vista dos seus próprios interesses, pós a possibilidade de desactivar e abandonar a base aérea que construiu e equipou na Ilha Terceira.

O tema foi tratado, resumidamente numa das minhas páginas editadas neste blogue, com o tema concreto da Base das Lages. Mais tarde tive a escorregadela de anunciar uns escritos monográficos sobre os arquipélagos portugueses no Atlântico.

Quando chegou o momento de cumprir a promessa fiquei desconcertado. Mesmo assim atrevi-me a dar uns toques de bola no reduzido arquipélago da Madeira. Não quis cair na armadilha de referir as costumeiras notas de cariz turístico ou de política local-nacional. São tópicos batidos com insistência pelos tais media. Não tenho unhas nem capacidade para tentar tocar em assuntos já esgotados. Ou não!

E já tocou o clarim no camarote do respeitável anunciando que vai sair do curro para a arena o seguinte toiro -com vossa licença e sem ofensa- AÇORES.

Recordando a anterior citação de um assunto restrito a um sector concreto e numa ilha, a Terceira, das sete que constituem o arquipélago, senti que, mesmo ficando na história recente, devia-se ter salientado que já início da segunda guerra mundial, a Inglaterra, e de imediato o Quartel General dos Aliados, não estavam satisfeitos com a posição de “neutralidade” que Portugal tomou neste conflito. Uma neutralidade que todos sabiam escondia os apoios que o Eixo tinha naquele arquipélago. A Inglaterra e depois os Aliados dependiam, em grau elevado, dos fornecimentos que lhes chegavam por via marítima, e que eram insistentemente flagelados pelas forças do Eixo, apoiadas em bases tácitas e não reconhecidas oficialmente no arquipélago dos Açores.

Inglaterra tentou, insistentemente, convencer o Governo de Portugal a que se juntasse à coligação. Salazar, fosse por prudência, por astúcia ou por temer uma acção beligerante do seu “colega” Francisco Franco, devedor aos importante apoios que lhe prestaram a Alemanha nazi e a Itália fascista, agisse, nem que fosse por compromisso, a invadir Portugal. Optou em resistir e jogar, sorrateiramente, nos dois tabuleiros até que Churchill lhe disse: Ou no facilita uma base ou teremos que a tomar pela força. E assim se instalaram os americanos na Terceira.

Quanto a dar uma visão geral do arquipélago, desisto. Prefiro ver o como evoluiu a sua população ao longo dos tempos. Eram ilhas desertas quando os portugueses ali chegaram. Embora já no séc XX se encontrassem vestígios da estadia de humanos, que partiram ou faleceram. Foi povoada por gente deslocada do Portugal continental, e com a inclusão, esporádica, de escravos para a lide caseira, particular, vindos de diferentes zonas de África. Uns de pele escura, pretos mesmo, e outros mais claros. Alguns acasalaram e até ganharam alforria dos os colonos europeus.

Todas as ilhas tem uma origem vulcânica, com reduzida capa de terra propícia para ser cultivada, salvo zonas muito delimitadas. O que se verificou é que a população foi aumentando progressivamente, sem que a agricultura e a pesca, junto com a escassez de empregos remunerados, tornou sempre difícil alimentar toda aquela gente. Em número sempre crescente! Daí que a emigração tenha sido asolução inevitável, desde séculos.

Geograficamente o arquipélago está perto do paralelo de Lisboa e a uma distância relativamente curta. Todavia o regime de ventos e correntes, que condicionam a navegação à vela, não eram muito favoráveis, tanto para sair como para entrar. A rota de entrada implicava descer ao longo da costa de África até poder apanhar a corrente do Brasil (a tal da “volta da mina”), subir pelas costas das Guianas até os arquipélagos do mar Caribe. Subir com a Corrente do Golfo, sempre procurando evitar as águas mortas do Mar dos Sargaços, e após as Bermudas virar à direita rumando para os Açores. Quase um presídio este Arquipélago durante a navegação à vela!

Apesar de todas as dificuldades muitos açorianos emigraram para as Américas, desde o Brasil e Venezuela até os EUA e Canadá. Estas condições de navegação tampouco foram apelativas para ali se instalarem grandes entrepostos de escravos.

A agricultura insular foi reduzida. Alguma vinha, nomeadamente no Pico, cana de açúcar, elaborando açúcar consumida quase que internamente e para fabricar rum, para abastecer os navios que ali aportavam. Alguma coisa fez alterar o isolamento deste arquipélago quando se vulgarizou a motorização das naves. Surgiram armazéns de carvão nos pontos onde existissem condições para ancorar e reabastecer.

Uma curiosidade de cariz vegetal se encontra na ilha de São Miguel, concretamente na Ribeira Grande, onde existe uma plantação de chã com vários hectares de terreno dedicados em exclusiva a esta planta. Ali tem instalações de manipulação, armazenamento, e venda, além de exportação, do famoso Chã da Gorreana.

Tenho uma vivência pessoal sobre esta plantação. Depois de visitar e comprar alguns pacotinhos desta erva aromática, digestiva e peitoral,
dei um passeio a pé -sempre isolado na retaguarda dos acompanhantes, como é meu hábito, e encontrei um senhor empoleirado num escadote que estava podando, com muito jeito, uma sebe. O efeito que conseguia era muito semelhante ao que ficava na plantação da Gorreana depois de recolherem os rebentos para comercializar.

Sem medir previamente as palavras, quis mostrar o meu agrado pelo seu trabalho fazendo notar que a sua sebe ficava tão bem, ou melhor, do que as plantas de Gonorreia. Em vez de ficar contente, o cidadão, desceu do escadote e enfrentou-me, de dedo em riste e na outra mão a tesoura grande. E mostrando-se ofendido -com razão para tal- afirmou: A plantação é Gorreana e o que você disse, Gonorreia, é uma doença transmissível, que eu tratei muitas vezes antes de me reformar, pois que era farmacêutico. TOMA E EMBRULHA!

Saiu-me o tiro pela culatra. Nunca imaginei que o residente apanhasse o trocadilho. Segui caminho com a cauda entre as pernas, figuradamente. Mais adiante o grupo entrou num mini-mercado local e tivemos a segunda surpresa: o mesmo pacote de chã que se pagou por X na origem, era bastante mais barato na loja de porta para a rua!


terça-feira, 5 de maio de 2020

MEDITAÇÕES - Arquipélagos I - MADEIRA




A Madeira

Quando nos deparamos com o termo ARQUIPÉLAGO de imediato nos vem à memória um aglomerado de ilhas, bastante próximas umas das outras e que, em geral, estão todas sob uma mesma bandeira. A Madeira é um caso especial, pois entre a ilha principal e a vizinha Porto Santo existe uma acentuada diferença dimensional. E nada se diga quanto ao conglomerado de ilhotas, que só estão povoadas por alguns vigilantes aí destacados e animais silvestres, maioritariamente mamíferos marinhos e aves pelágicas. Daí o nome de Ilhas Selvagens.

Mas a Madeira, que hoje tem uma importância primordial no campo do turismo, teve outros valores que lhe conferiram interesse a fim de manter a soberania portuguesa, Além de ser um ponto a ser descoberto, ou redescoberto, pelos ocidentais no seio das águas atlânticas “tenebrosas”, a sua situação geográfica er a muito importante para poder dar apoio aos navegantes condicionados pelo vento. Se estavam de regresso das suas viagens, ali encontravam a derradeiro posto de abastecimento antes de chegar às costas da Europa. Víveres, equipamentos em falta, e algumas mercadorias para comercializar, como era o açúcar, após o cultivo de cana sacarína, que mantinha um preço elevado mesmo competindo com aquele que chegava do Oriente, numa rota longa e sujeita a muitas portagens sucessivas.

Caso as rotas que partindo da Europa permitissem fazer escala na Madeira aquele porto era um armazém apropriado para completar a despensa de água, alimentos frescos, fossem frutas, legumes ou animais domésticos, além de carne seca e salgada, vinho e rum em , por ser este o “medicamento” mais usado nos navios de longo curso. Quando surgiram as primeiras caldeiras de vapor para a propulsão dos navios, na Madeira se instalou um entreposto de carvão, tal como nas outras ilhas oceânicas.

A aliada Inglaterra dominou, por baixo da mesa, a vida deste mini arquipélago. Muitas famílias se instalaram na Madeira e aqui criaram raízes. O nosso velho aliado não sentiu necessidade de fazer uma ocupação militar. Verificou ser preferível agir pelo domínio económico e deixar que fosse a bandeira portuguesa que se hasteasse no mastro.

Na primeira guerra mundial, o Funchal sofreu dois bombardeamentos por submarinos alemães. No primeiro deles, além de numerosas vítimas afundaram três embarcações, de diferentes tipos, que estavam ancoradas na baía, onde não havia, na época, qualquer cais de acostagem.

MEDITAÇÕES – Salta o alarme



Diz a caldeira à sertã: Sai para lá e não me enfarrusques

Não sei por que cargas de água -mesmo hoje que a água carrega-se em garrafões DE PLÁSTICO! - surgiu-me à frente este rifão popular. Suponho que deve ser consequência de verificar, mais uma vez, que neste espectro de políticos, governantes e oposicionistas, a ética e a limpeza, ou higiene comportamental, não brilham, por estarem ausentes em demasia. Ou, com mais senso se pode afirmar que estão postas muito de lado. Se não totalmente.

Ainda ontem, quando ia procurar repouso corporal, ouvi uma voz, notoriamente alarmada, que me dizia qualquer coisa como : afirmava, com convicção: O nosso primeiro ministro, o tal Costa que ocupa este lugar de destaque, deve estar muito atrapalhado com tantas negas e confirmações dos seus adjuntos, e dele próprio, neste lamaçal que, desde os primeiros dias, se via estar no seio do famoso e misterioso roubo num paiol militar em Tancos.

Não gravei nem passei a papel com auxílio da estenografia, por duas razões, e não três como o anão mais alto do circo. Em primeiro lugar porque o gravador portátil que utilizava, e os seus companheiros eletrónicos leitores de cassetes áudio e de imagem, foram retirados da circulação, e, em segundo lugar, porque a minha insistente ideia de andar sempre com um bloco de apontamentos disponível, ou seja a mão de semear (fosse trigo ou fosse joio), nunca chegou a criar raízes, A decisão é solene no instante em que a tomo. Mas depressa se esbateu sempre. O máximo que consegui é o ter num bolso algum resguardo ou factura disponível para apontar alguma ideia. E já é muito!

Mas, recuando e deixando estas divagações inúteis de lado, o que era apresentado como alarmante correspondia as afirmações e negativas que ontem, e na véspera, se ouviram e leram a propósito da trapalhada e mentirolas, mais próprias de escolares da primária do que de indivíduos crescidos e que estão colocados em postos que implicam seriedade e respeito. Naquele momento quem me alertou sentia-se, verdadeiramente como se Portugal, ou os seus cidadãos, estivéssemos à beira de um abismo.

Fiquei atónito com esta dedução tão alarmista. Será que já se esqueceram que, neste jardim de que tanto gostamos, as trovoadas não são devastadoras? Que tudo passa em poucas horas e voltamos a ter um sol radioso para nos alegrar? É que terramotos como o de 1755 não acontecem todos os dias. Felizmente. E que não são consequência de comportamentos errados de personalidades.

O pessoal normal, ou anormal consoante o ponto neutro esteja mais ou menos deslocado em relação ao fiel da balança, esquece tudo tal como o hipnotizado acorda, instantaneamente, quando o artista faz estalar os dedos polegar e indicador. Nem nos tempos mais austeros a que assisti, já em “plena democracia”, quando os padeiros decidiram não trabalhar de noite e deixamos de ter pão fresco de manhã, e o leite escasseava, o que obrigava a fazer fila de espera às portas do local onde se vendiam sacos de plástico da UCAL (urina com algum leite, afirmavam as más línguas) e não forneciam mais do que um saco por cabeça, sem atender a quantas pessoas de família representava aquele sofredor cidadão que não fazia fila por desporto. Pois nem isso fez com que o “maralhal” se revoltasse com paus e pedras. Ou seja, a noção de que O POVO ESTÁ SERENO um facto sobradamente comprovado. E, mais uma vez, se confirmou que os alarmes não duram mais do que a chama de um fósforo.

Se alguma coisa nos deveria fazer cair a cara de vergonha é que não é necessário o respeitar, cegamente, a autoridade de um líder eleito, -nem que o tenha conseguido com alguma biscambilha- mas que qualquer sujeito que se coloque sobre um tijolo, como se fosse um pedestal, é respeitado, mesmo que mereça ser apupado, assobiado, enxotado, como se fosse um rato.

NOTAR – Este conceito de o respeitinho é muito bonito, ou conveniente, não está a ser seguido, ou melhor dizendo honrado, por alguns sectores enquistados no seio da bondade social lusitana.


MEDITAÇÕES – Positivo e Negativo



TUDO O QUE É DEMAIS …

Continuamos numa de isolamento compulsivo, que nos é imposto na convicção de que assim nos protegemos. Não se atrevem a afirmar que com esta, e outras protecções, se fique totalmente resguardados, totalmente, pois estes cuidados, que se assemelham a redomas virtuais, nunca com garantia total de efectividade. Raramente nos alertam, com seriedade, que os excessos de prevenção podem causar, e causam, problemas sociais graves, cujas que consequências a posteriori serão de neutralização custosa e demorada. Não se trata de alarmismo sem fundamento, e já se alertou acerca disso.

De entrada creio que é bom recordar que bactérias, micróbios, vírus e outros espécimes nefastos que nos podem atacar, existem no globo terrestre desde muito antes de os humanos terem evoluído até o que hoje vemos no espelho. Nos dois séculos mais recentes, e no que agora percorremos, a investigação médico-sanitária tem tentado, com algum êxito, lutar e precaver contra os males que, na saúde humana, e não só, estes seres invisíveis aos nossos olhos, tem causado.

Estudaram-se e conseguiram preparar vacinas e terapêuticas para contrariar a disseminação de muitos flagelos que causaram mortandades entre os humanos. E como se já se sabe que muitos destes micro-organismos sofrem, espontaneamente, mutações nem todas as vacinas e tratamentos mantêm a sua efectividade ao longo do tempo -breve comparativamente com as pretensões- e por isso os investigadores que se dedicam à epidemiologia não podem descansar tranquilos. Como se proclamava numas palavras de ordem: a luta continua.

Para mal da humanidade, alguns, membros da sociedade, deram azo a que obedecendo à sua vocação rebelde -estive tentado a escrever incrédula, mas abandonei a ideia por aceitar que entre eles podem existir bastantes adictos a religiões mais ou menos esotéricas e místicas- decidiram não aceitar que seus filhos fossem vacinados e assim, mesmo que involuntariamente, darem entrada a infecções que practicamente já estavam irradicadas no Ocidente.

Apesar desta reflexão, pessimista, existem mecanismos de protecção, conhecidos mas por vezes esquecidos, que nos informaram de como é possível, na infância, ir criando uma série de anticorpos -alguns que não todos os que carecemos- sem necessidade de vacinas. Deste raciocínio emergiu a noção de que era muito favorável, em relação à sua maturação e mais para a sua própria imunidade, que as crianças brincassem no terreno, que se enchessem de pó e terra, que fizessem papinhas, e a ser possível em pequenos grupos em vez de isoladamente, para dar a possibilidade da transferência de anticorpos dum modo natural. E depois um bom banho, com sabão adequado, enxugar, alimentar e descansar.

O que se aceitou como opção válida, e não é, de colocar as crianças em creches e infantários sem contacto com a natureza, confiando em que o isolamento do mundo, apesar de estarem em contacto com outros seres humanos de idades diferente, já que companheiros e cuidadores não estão no mesmo patamar etário, mas sem terra ou areia, considerada porca e suja, mas natural -se houver cuidado em evitar ou não permitir que animais, mais ou menos domésticos, ali depositem seus dejectos-, é um erro que se deve neutralizar acompanhando as crianças a locais de brincadeira ao ar livre e sem estarem pavimentados.

Para a prevenção das possíveis infecções exteriores não existe pior regra do que o isolamento absoluto. Aderir à tática da campânula e não deixar que a natureza nos proteja, mesmo que parcialmente, é o mesmo que, numa competição de corrida pedestre, só partir após os outros participantes já terem um avanço considerável.