terça-feira, 5 de maio de 2020

MEDITAÇÕES – Salta o alarme



Diz a caldeira à sertã: Sai para lá e não me enfarrusques

Não sei por que cargas de água -mesmo hoje que a água carrega-se em garrafões DE PLÁSTICO! - surgiu-me à frente este rifão popular. Suponho que deve ser consequência de verificar, mais uma vez, que neste espectro de políticos, governantes e oposicionistas, a ética e a limpeza, ou higiene comportamental, não brilham, por estarem ausentes em demasia. Ou, com mais senso se pode afirmar que estão postas muito de lado. Se não totalmente.

Ainda ontem, quando ia procurar repouso corporal, ouvi uma voz, notoriamente alarmada, que me dizia qualquer coisa como : afirmava, com convicção: O nosso primeiro ministro, o tal Costa que ocupa este lugar de destaque, deve estar muito atrapalhado com tantas negas e confirmações dos seus adjuntos, e dele próprio, neste lamaçal que, desde os primeiros dias, se via estar no seio do famoso e misterioso roubo num paiol militar em Tancos.

Não gravei nem passei a papel com auxílio da estenografia, por duas razões, e não três como o anão mais alto do circo. Em primeiro lugar porque o gravador portátil que utilizava, e os seus companheiros eletrónicos leitores de cassetes áudio e de imagem, foram retirados da circulação, e, em segundo lugar, porque a minha insistente ideia de andar sempre com um bloco de apontamentos disponível, ou seja a mão de semear (fosse trigo ou fosse joio), nunca chegou a criar raízes, A decisão é solene no instante em que a tomo. Mas depressa se esbateu sempre. O máximo que consegui é o ter num bolso algum resguardo ou factura disponível para apontar alguma ideia. E já é muito!

Mas, recuando e deixando estas divagações inúteis de lado, o que era apresentado como alarmante correspondia as afirmações e negativas que ontem, e na véspera, se ouviram e leram a propósito da trapalhada e mentirolas, mais próprias de escolares da primária do que de indivíduos crescidos e que estão colocados em postos que implicam seriedade e respeito. Naquele momento quem me alertou sentia-se, verdadeiramente como se Portugal, ou os seus cidadãos, estivéssemos à beira de um abismo.

Fiquei atónito com esta dedução tão alarmista. Será que já se esqueceram que, neste jardim de que tanto gostamos, as trovoadas não são devastadoras? Que tudo passa em poucas horas e voltamos a ter um sol radioso para nos alegrar? É que terramotos como o de 1755 não acontecem todos os dias. Felizmente. E que não são consequência de comportamentos errados de personalidades.

O pessoal normal, ou anormal consoante o ponto neutro esteja mais ou menos deslocado em relação ao fiel da balança, esquece tudo tal como o hipnotizado acorda, instantaneamente, quando o artista faz estalar os dedos polegar e indicador. Nem nos tempos mais austeros a que assisti, já em “plena democracia”, quando os padeiros decidiram não trabalhar de noite e deixamos de ter pão fresco de manhã, e o leite escasseava, o que obrigava a fazer fila de espera às portas do local onde se vendiam sacos de plástico da UCAL (urina com algum leite, afirmavam as más línguas) e não forneciam mais do que um saco por cabeça, sem atender a quantas pessoas de família representava aquele sofredor cidadão que não fazia fila por desporto. Pois nem isso fez com que o “maralhal” se revoltasse com paus e pedras. Ou seja, a noção de que O POVO ESTÁ SERENO um facto sobradamente comprovado. E, mais uma vez, se confirmou que os alarmes não duram mais do que a chama de um fósforo.

Se alguma coisa nos deveria fazer cair a cara de vergonha é que não é necessário o respeitar, cegamente, a autoridade de um líder eleito, -nem que o tenha conseguido com alguma biscambilha- mas que qualquer sujeito que se coloque sobre um tijolo, como se fosse um pedestal, é respeitado, mesmo que mereça ser apupado, assobiado, enxotado, como se fosse um rato.

NOTAR – Este conceito de o respeitinho é muito bonito, ou conveniente, não está a ser seguido, ou melhor dizendo honrado, por alguns sectores enquistados no seio da bondade social lusitana.


MEDITAÇÕES – Positivo e Negativo



TUDO O QUE É DEMAIS …

Continuamos numa de isolamento compulsivo, que nos é imposto na convicção de que assim nos protegemos. Não se atrevem a afirmar que com esta, e outras protecções, se fique totalmente resguardados, totalmente, pois estes cuidados, que se assemelham a redomas virtuais, nunca com garantia total de efectividade. Raramente nos alertam, com seriedade, que os excessos de prevenção podem causar, e causam, problemas sociais graves, cujas que consequências a posteriori serão de neutralização custosa e demorada. Não se trata de alarmismo sem fundamento, e já se alertou acerca disso.

De entrada creio que é bom recordar que bactérias, micróbios, vírus e outros espécimes nefastos que nos podem atacar, existem no globo terrestre desde muito antes de os humanos terem evoluído até o que hoje vemos no espelho. Nos dois séculos mais recentes, e no que agora percorremos, a investigação médico-sanitária tem tentado, com algum êxito, lutar e precaver contra os males que, na saúde humana, e não só, estes seres invisíveis aos nossos olhos, tem causado.

Estudaram-se e conseguiram preparar vacinas e terapêuticas para contrariar a disseminação de muitos flagelos que causaram mortandades entre os humanos. E como se já se sabe que muitos destes micro-organismos sofrem, espontaneamente, mutações nem todas as vacinas e tratamentos mantêm a sua efectividade ao longo do tempo -breve comparativamente com as pretensões- e por isso os investigadores que se dedicam à epidemiologia não podem descansar tranquilos. Como se proclamava numas palavras de ordem: a luta continua.

Para mal da humanidade, alguns, membros da sociedade, deram azo a que obedecendo à sua vocação rebelde -estive tentado a escrever incrédula, mas abandonei a ideia por aceitar que entre eles podem existir bastantes adictos a religiões mais ou menos esotéricas e místicas- decidiram não aceitar que seus filhos fossem vacinados e assim, mesmo que involuntariamente, darem entrada a infecções que practicamente já estavam irradicadas no Ocidente.

Apesar desta reflexão, pessimista, existem mecanismos de protecção, conhecidos mas por vezes esquecidos, que nos informaram de como é possível, na infância, ir criando uma série de anticorpos -alguns que não todos os que carecemos- sem necessidade de vacinas. Deste raciocínio emergiu a noção de que era muito favorável, em relação à sua maturação e mais para a sua própria imunidade, que as crianças brincassem no terreno, que se enchessem de pó e terra, que fizessem papinhas, e a ser possível em pequenos grupos em vez de isoladamente, para dar a possibilidade da transferência de anticorpos dum modo natural. E depois um bom banho, com sabão adequado, enxugar, alimentar e descansar.

O que se aceitou como opção válida, e não é, de colocar as crianças em creches e infantários sem contacto com a natureza, confiando em que o isolamento do mundo, apesar de estarem em contacto com outros seres humanos de idades diferente, já que companheiros e cuidadores não estão no mesmo patamar etário, mas sem terra ou areia, considerada porca e suja, mas natural -se houver cuidado em evitar ou não permitir que animais, mais ou menos domésticos, ali depositem seus dejectos-, é um erro que se deve neutralizar acompanhando as crianças a locais de brincadeira ao ar livre e sem estarem pavimentados.

Para a prevenção das possíveis infecções exteriores não existe pior regra do que o isolamento absoluto. Aderir à tática da campânula e não deixar que a natureza nos proteja, mesmo que parcialmente, é o mesmo que, numa competição de corrida pedestre, só partir após os outros participantes já terem um avanço considerável.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

MEDITAÇÕES - Base de Beja. Uma versão pessoal




Sobre a Base Aérea de Beja


A minha opinião sobre a base aérea, abandonada, de Beja, advirto de entrada que não é a mais correcta, e muito menos simpática, agradável para quem se sinta patriota de olhos fechados. Mesmo assim entendo eu que de boas maneiras e tretas já devíamos estar todos mais do que fartos

A história da Base, se me permitem a fantasia, começa muito tempo antes de existirem aviões com motor de jacto. Sendo eu um crítico desbragado, ou se preferirem dissoluto, atrevo-me a idealizar que as origens estão, pelo menos, em D. João V e nas suas ideias de grandeza com que mandou construir o convento de Mafra (e que deixou uma herança perdurável no "intelecto" nacional, como é o exemplo mais recente do Centro Comercial de Belém, que ficou, felizmente, num terço do projecto). D. João, que tinha as suas manias e paixões, abriu a porta ao frade Bartolomeu de Gusmão, o qual estava disposto a apresentar, nos salões do palácio, como voando livremente, um seu invento, que chamava de passarola. Era um notável precursor dos drones recentemente disseminados e utilizados. Dadas as possibilidades de então a força motriz de que se dispunha na época.

Não sendo possível colocar naquela naveta uns condenados às galés, pequeninos, minúsculos, pois que ainda não se tinha publicado as Viagens de Gulliver para que soprassem na vela, optou, com sageza, por um balão de ar quente, mantido pela queima de uma vela de cera ou uma lamparina. Apesar do risco de propagar um incêndio que parasse a magna obra. Por sorte, e boa previsão, mais as muitas rezas e promessas. não aconteceu nada de grave. Mas, pelo menos, serviu para colocar mais um importante marco histórico na venerável memória nacional

E agora vamos até Beja, terra plana e com sol pesado sobre as cabeças dos seus habitantes. Os que não se deslocaram para outras paragens para ganhar a vida e deixar de estar sujeitos à escolha diária na praça pública.

Os alemães, nossos "amigos e protectores", depois de jejuar umas horas, que não dias a fio, após perderem a magna guerra com que devastaram a Europa, e parte do estrangeiro, venderam as suas empresas e os seus investigadores de topo ao capital que os venceu. Como todos os castigos, se podem negociar e esquecer, a restrição absoluta de voltar a ter umas forças armadas, foi esquecida em face de que a URSS se mantinha ameaçadora, logo atrás do famoso "muro de Berlim, e não só" Estava-se no auge da famosa “Guerra Fria” Os americanos, em nome dos seus avós europeus, que desprezavam por serem fracos, tomaram as rédeas e deram o seu aval, vendendo aviões fabricados nos USA, para que a República Federal Alemã pudesse reconstruir uma força aérea militar, sob a sua vigilância (?).

Conseguida esta permissão era necessário preparar, construir, bases aéreas exclusivamente para fins militares e com as longas pistas indispensáveis, mais as instalações de apoio sem as quais não seria funcional. Ah! Mas dadas as normas de governo federal existentes, era absolutamente necessária a aprovação popular para poder levar avante o projecto. E os alemães (leia-se o povo, a população que labuta, mas não os elementos das grandes fortunas, que sempre ganharam com os militarismos), que ainda se ressentiam das agruras passadas com o nazismo, VETARAM O PROJECTODE TER BASES AÉREAS NO SEU TERRITÓRIO.

E agora? Temos que procurar uns "saloios" carentes de tesouraria, e que nós vamos acabar de subjugar com a fantasia do Mercado Comum Europeu, para que nos cedam, com as condições que NÒS alemães, impusermos ou fingimos que aceitamos com simpatia, uma boa extensão de terreno, sem grandes montanhas que estorvem o treino dos pilotos. E com a garantia de que as autoridades farão ouvidos moucos quando "o povo", que ainda restar por ali, refilar do barulho, de dia e de noite.

Além disso, as autoridades alemãs, que terão absoluto comando e regras próprias na base a construir e liberdade de regulamentar os contactos com os fornecedores e mão de obra contratada, se comprometem a dar emprego a um "bom número" dos desempregados que por ali existem. Isso com boas palavras, e movimentos bancários discretos, ou envelopes entregues em mão, sempre se pode garantir. Embora construir a base!

Passaram alguns anos, alguns, não muitíssimos, e o mundo continuou a rodar. Até choveu algumas vezes, poucas em Beja e arredores. Mas o importante é que a política da Alemanha Federal arranjou maneira de ter os seus aviões em “solo pátrio” e dispensar a Base de Beja. Generosamente deixaram tudo, sem facturar, ao poder nacional e local, com a anuência dos mandantes (?) da casa, e com sementes humanas dos teutões entre a população local. Muitos destes descendentes devem ter sido legalizados e até alguns acompanharam os seus progenitores, casados segundo as leis, até uma nova pátria.

O aeródromo ficou como mais um Elefante Branco, pois o não existir uma via férrea de alta velocidade que ligasse Beja a Lisboa, que sempre foi e será o principal destino de quem nos visita, não se conseguiu aproveitar aquelas instalações para ser uma alternativa viável. Pelo menos de uma forma rentável


domingo, 3 de maio de 2020

MEDITAÇÕES – Não são todos iguais



Cómicos, Humoristas, Palhaços, Mimos

Acordei no meio de um sonho, um pouco bizarro mas que senti estar em conformidade com a minha forma de estar neste mundo: Assistia a uma discussão acesa, mas só de palavras, entre um humorista em serviço, agarrado a um microfone, e um outro que se encontrava simplesmente como espectador no meio do público.

Existia uma discordância sobre o que se podia, ou devia, ou merecia ser considerado espirituoso, e portanto aceite socialmente, ou aquilo que se tornava ofensivo, agressivo. Não conseguiram chegar a um acordo “de cavalheiros” pois o defensor de uma visão mais abrangente reconhecia que, com frequência, o humorista exagerava nas suas caricaturas a fim de acentuar o que pretendia gozar. Que se podia consentir um certo acentuar de alguma característica só pelo propósito de tornar mais evidente a crítica que estava implícita. O outro retorquía que se esta atitude implicava o denunciar ou ofender o visado, ele não podia aceitar. Seria um abuso condenável.

Já acordado e não sendo obrigatório abandonar o leito conjugal, não só por ser domingo e não ir assistir à missa, com a desculpa do recolher obrigatório, para não participar em aglomerações e apertos, mas também porque, precisamente sendo obediente das ordens superiores, não tinha que me apresentar a um serviço produtivo, nem hoje nem amanhã e trampouco nos seguintes dias.

Dispondo de tempo livre e inútil comecei a magicar sobre o que de facto entendemos e se faz dentro do campo humorístico. E recordei os tempos passados.

Em criança levaram-me por diversas vezes ao circo, como espectador. E como creio seria comum aos outros infantes presentes (então não era habitual a presença de elefantes) o número que mais aguardava era o dos palhaços, que quando em grupo repetiam sempre o mesmo esquema: havia o palhaço rico, o esperto, enfarinhado, com uma sobrancelha pintada exageradamente grande, um chapéu cónico e muitas lentejoulas na fatiota, e uns calções muito largueirões ate a cintura. Esta personagem orientava a actuação dos restantes elementos -um ou dois, dependia da Companhia- e, para meu desencanto, ainda tocava acordeão ou saxofone (era um dos músicos do pequena conjunto musical) Completava o grupo um ou dois palhaços propriamente ditos, os tontos ou trapalhões, que eram os favoritos da pequenada.

O humor, como se pode imaginar era a coisa mais inofensiva que se podia apresentar ao público, incluindo, por vezes, o fingir que se atirava com a água de um balde sobre os espetadores da primeira fila, e que dali só saia uma chuva de papelinhos coloridos. Ou o rasgar das vestes do palhaço pobre, que ficava em roupa interior.

Já para os adultos podia acontecer que aquela companhia tivesse um palhaço, vestido a condizer do seu trabalho, que sem pronunciar palavra se bastava com a mímica para transmitir as suas paródias. Os mais salientes tornaram-se estrelas de primeira ordem, actuando isoladamente.

E precisamente esta referencia nos leva à importância da mímica nos teatros, desde os alvores da comunicação à distância. Quando se inventou a projecção de imagens sem som, concretamente com o cinema mudo, os bons cómicos tiveram uma época de auge. Todos já vimos, em retrospectiva, alguns filmes do Charlot e do Pamplinas, entre outros. E aqui nos deparamos com o dilema de como avaliar o comportamento das personagem sob o ponto de vista da aceite moral social.

Sem dúvida Chaplin, que se diz ter sido o argumentista dos seus filmes, era intrinsecamente desrespeitador, mesmo mau e agressivo. M provocava o riso a pequenos e graúdos. Só no fim de maltratar os outros ele cedia a um gesto simpático. Quando no fim do seu percurso no cinema quis fazer uma fita “séria” o seu público não a acolheu como ele imaginava. Era outra coisa. Já não ”era Chaplin”

Pelo contrário Buster Keaton, também ele argumentista e produtor dos seus filmes mudos, dava vida a uma personagem com cara de pau, atrevido, arrojado, atlético, rejeitando duplos. E sempre um sério respeitador da moral vigente.

Esta dicotomia comportamental manteve-se ao longo do tempo, e não só nos espectáculos de cinema e teatro como nas actuações a solo. Aquilo que podemos considerar como abusivo, desagradável mas espontaneamente aplaudido pelo público anónimo, surge quando o comediante, dirigindo-se a um cidadão, não contratado, para servir de contraponto e alvo de galhofa, o achincalha sem respeito nem a mínima razão.

No meu sonho confrontavam-se um “cómico” da nova vaga com um veterano, que estava sentado no meio do público, fazendo parte do anonimato para quem não o identificasse. Este não lhe dava troco, apesar da insistência do provocador, que teve que desistir.

Ao longo de décadas, entre '50 e '70 tivemos em Portugal uma boa coleção de artistas cómicos, divertidos mas respeitadores, não só quanto aos temas de política interna como também só insinuando com finura as suas críticas sociais. Hoje, e dando a minha opinião pessoal, deixei de prestar atenção aos novos cómicos, não por desgostar dos seus ditos, mas por extrapolação do fastio que me faz ver aquele que esteve no topo durante anos, pela sua insistência no travestismo.

UMA PRENDA A QUEM LER: Contavam em casa que sendo eu muito pequeno o barbeiro que me atendia, perto de casa, referiu ao meu pai que teve um fartote de riso quando ele (curioso como todos os do ramo do cabelo e barba) me perguntou “o que faz o teu pai?” e lhe respondi que trabalha com as cómicas, quando confundi químicas com as artistas de cabaret.

sábado, 2 de maio de 2020

MEDITAÇÕES - A Base das Lages. Mudar a orientação



Alguém o deve ter avisado

Recuando alguns meses, ou até algo mais do que um ano, verificou-se que a política exterior dos EUA estava derivando, rapidamente, para o Oceano Pacífico, abjurando das indiscutíveis ligações históricas e humanas que tem com a Europa. Aquela febre de participar na economia de recuperação da Europa Ocidental após o terminar da Segunda Guerra Mundial, em que os capitalistas americanos, além de se instalar no comando de muitas empresas importantes da Alemanha, também aproveitaram para actualizar, tecnológica e produtivamente as suas próprias indústrias, tanto as pesadas metalo-mecânicas como as transformadoras, e até o incremento da incipiente mecanização da sua agricultura. Entraram com decisão e espírito de “serem compensadas” nos despojos que ficaram após intensos bombardeamentos, mas com uma actuação benfeitora organizada com o Plano Marshall.

Ao logo desta fase de recuperação não só se introduziram na indústria alemã -serve de exemplo a Ford- como não demoraram com as suas propostas de transferência para os USA de muitos técnicos valiosos, não só com promessas de se incorporarem ao alto nível de investigação e programação, como com promessas de apagar do seu curriculum a colaboração -fosse voluntária ou inevitável- com o nazismo. Recordemos o estudo da energia nuclear e da preparação da bomba atómica. Sem esquecer a aeronáutica e a tecnologia base da corrida espacial.

Simultaneamente, e por interesse especial e “benemérito” dos USA, criaram a NATO, como estrutura de defesa e ameaça perante a pressão da URSS. A terra continuou a girar e veio a Perestroika, a queda da URSS, a fuga para não sabiam onde podiam chegar dos países satélites criados quando se ergueu a cortina de ferro, o famoso Muro de Berlim, e outros acontecimentos importantes.

Entretanto a economia, que não tem preceitos nem outro propósito do que lucrar cada dia mais do que na véspera, descobriu a mina que estava à sua espera caso transferissem -como foi feito- a produção dos artigos manufacturados, especialmente aqueles em que o custo da mão de obra era mais elevado, para “sub-sidiárias no Japão e daí para outros países da orla ocidental do Pacífico. Terminando por se concentrar, como era inevitável, na China, que tinha e continua a ter, um enorme e interminável potencial humano para ser adestrado e utilizado, que, com táctica meritória, transferiu parte das encomendas para suas subsidiárias nos países vizinhos. Assim ficaram sossegados.

Os capitalistas americanos -mesmo aceitando sem amor algum, que descendem de europeus- rejeitaram a Europa. Deixaram-na como um dos muitos cantos do globo donde podem passear em férias ou ir caçar talentos. O que estava a dar era o Pacífico; e só estavam no início! Daí que decidissem abandonar a NATO, porque, alegaram eles, não tinham obrigação alguma para sacrificar os seus homens para defender uma zona do globo que, para eles, estava condenada a morrer.

Vai daí que os chineses, que são um povo milenar, e que historicamente e sob alguns aspectos tiveram um avanço cultural importante comparativamente com os europeus ocidentais, não ficaram parados. São relativamente calmos, lentos, meditados, mas persistentes. Sem alarido invadiram inicialmente o pequeno comércio, depois o fabrico de equipamentos especializados e outros de venda sazonal como no ramos do têxtil-de início com marca ocidental, mas de imediato produzindo e comercializando cópias a preço imbatível- A China, com fábricas no seu território ou instaladas em países vizinhos, dominam muita economia.

Todavia os políticos americanos, sempre comandados pelos seus capitalistas e promotores, tem estado obcecados com o que pode acontecer no Oceano Pacífico. Não lhes passava pela cabeça que, fora algumas escaramuças sem importância, nada de grave levaria a um confronto entre os USA e a China comunista, cuja ditadura de partido único deixou de incomodar os ocidentais. Até um dia...

Retomando o referido mais atrás, quando os USA optaram por não se comprometer com a NATO, e entenderam que aquela base atlântica que tinham nas Lages deixara de ser importante, comunicaram para Lisboa que iam desmantelar a base e voltavam para sua casa, indemnizando como entendessem aos ilhéus que lá trabalhavam. Boa tarde e aqui vos deixamos o pastel!

Entretanto um dos organismos internos da União Europeia distribuiu o Atlântico em função das costas que cada um dos seus membros tinham com estas águas. Portugal com os arquipélagos da Madeira e Açores viu-se contemplado com uma enorme área de mar que devia controlar, mas sem capacidade material para impor a sua soberania.

A China já tinha previsto esta situação, e não desvalorizava a importância estratégica e económica que poderiam conseguir caso lhes fosse dada entrada nas Lages. Após ser avaliada a conjuntura encontraram uma fórmula “pacífica” para se instalar no Atlântico.

Com a argumentação de fazerem estudos oceanográficos, dos ventos, das correntes marinhas, marés, da orografia submarina, das fissuras tectónicas e seus vulcões, das espécies biológicas e da poluição, etc. Tarefas para as quais estão sobradamente equipados e preparados. Necessitavam “como pão para a boca” de uma base aérea e um porto, além de uma povoação, de habitantes que “domesticar”. E como as Lages estava sem uso, a China podia arrendar generosamente e com imensa amizade (?)

Recentemente surgiram sinais, que podem ser certos ou falsos, de que alguns pensadores do Pentágono ficaram sumamente alarmados com esta situação e o que poderiam prever. Em consequência, se decidiram alertar o executivo para que agisse “rapidamente e em força” (como fez Salazar com o Ultramar) para evitar que a China, com quem insistem em comercializar e ficar subtil mas efectivamente dependentes, lhes possa cortar a erva debaixo dos seus pés.

Creio que sobre a Base das Lages e de quem a utilizará no futuro próximo podemos ter algumas surpresas, ou confirmar algumas previsões.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

MEDITAÇÕES – SWIFT E ORWELL



Tempos mortos dedicados à leitura

Com ordens “severas” de ficar enclausurado e numa época em que os noticiários são maçadores por repetitivos, e os programas de entretenimento estão maioritariamente orientados para crianças ou, em alternativa, aparecem comentadores que estamos fartos de ver e ouvir. Resta a repetição de séries já batidas. E no fim o recurso à leitura.

Mas como o comércio de livros ficou fechado e os jornais já os tinha deixado por desinteresse e cheirarem a excessiva orientação do dono, não houve outra solução à mão do que dar a volta as estantes onde dormem centenas de livros. E ali procurar um título e um autor que me de ideia de me oferecer algo de interesse. Uma rota de selecção que, como verifico quase sempre, bate nos remanescentes da memória e daí que passadas algumas páginas acende-se uma luz, cá dentro, que me alerta do facto de que aquela história já foi lida.

Nada de extraordinário, pois os volumes que guardo foram, na sua maioria, quase na totalidade, comprados por mim. E, por outra razão, o que me fez escolher o livro, nesta segunda tentativa, terá sido a mesma intuitição que me levou a adquiri-lo. Algumas vezes não me importo de voltar a ler, mas noutras regresso ao ponto de partida, como no Jogo da Glória.

Hoje não aconteceu exactamente o mesmo. Mas perto. Encontrei, quase que esquecida numa estante de dormidos, uma versão integral das Viagens de Gulliver, que Jonathan SWIFT escreveu em 1726, ou seja que em pleno século XVIII, como uma sátira social dedicada a adultos, e precisamente a leitores ilustrados. Com o evoluir da escolaridade e aumentar o número de potenciais leitores, assim como a idade precoce em que as crianças eram sujeitas a ler e interpretar, fizeram-se versões simples, deixando as profundas mensagens sociais para “mais adiante”. O resultado foi previsível. Quando já adultos associaram a o título da obra como sendo “aquele livro de aventuras” e como tal impróprio de ser lido na obra completa. Por isso é que raramente, quando já adultos, surgisse a oportunidade de ler a obra completa e ponderar acerca do seu conteúdo.

As aventuras e peripécias que SWIFT urdiu, colocando a personagem principal, GULLIVER, em confronto com sociedades humanas fora do habitual, onde ficava em vantagem ou desvantagem em relação aos grupos com quem partilhava o momento. A análise das situações era subtil, e carecia de predisposição para tal.

Viagens de Gulliver fez-me recordar outro escritor, analista social que causou um forte impacto na sua geração: GEORGE ORWELL, com a sua obra mais relevante Animal Farm, editada em 1944, época em que estava efervescente a competição entre fascismo e comunismo, mais o sector democrático, que levava pancada pelas duas faces. Também esta obra foi usada, e abusada, para a transformar numa versão inócua para infantes. Com o consequente desprestígio para quem não tivesse, previamente, uma noção acerca do substrato pesado que nela existe.

Tentar discorrer com o devido cuidado as duas obras, tão separadas pelo seu tempo respectivo -mas muito próximas pela mensagem- seria uma tarefa própria de uma tese de mestrado. Eu não estou habilitado para tal. Nem sequer presumo de anos de vida para o conseguir. E mais: o espaço disponível e a paciência para ler dos imaginários seguidores, poucos e apressados, não me incitam a tal.

Mesmo assim recomendo, como exercício de sociologia, que leiam as duas obras citadas. Mas só se tiverem acesso às edições completas. As dedicadas ao público adulto . Vale a pena.

MEDITAÇÕES – Uma voz do além




Escrevo especialmente para si (como o batom tangi)

Os poucos que ainda estavam com pachorra para ler as minhas parvoíces -que dada a etimologia da palavra, iniciada em párvulo, que em latim corresponde a criança, e por extensão a idiota, falto de inteligência, pateta) sumiram-se não na sua totalidade, pois, segundo reza o contador, ainda resta um sofredor! Não identificado, a quem agradeço, com todo o meu sentimento sentimental e qual, mas recomendo que fuja quanto antes.

A hipótese mais triste que me podia sossegar perante este desinteresse de nível catastrófico (mas com um tempo de aviso já muito prolongado) seria o de julgar que obedeceu às recomendações sanitárias de recolhimento e de limitação absoluta com fontes de possível contaminação vírica.

Sempre preocupado pelo bom estado de saúde, e nomeadamente da mental, dos meus imaginários seguidores, posso notificar que, quando trato de escrever e editar no meu blogue alguma tontice, calço luvas de borracha cirúrgicas e coloco a máscara especial , daquelas que tem uma espécie de tampa de garrafa com rosca. E tanto antes como depois de terminar o uso do computador desinfecto todo o aparelho, incluindo a pilha, o ecrâ, a tampa e o teclado, sem deixar de higienizar as teclas que raramente são usadas.

Ou seja, mesmo que os temas e as palavras usadas possam ser desagradáveis ou mesmo rejeitáveis, o que só se pode culpara a este vosso e atento escribidor, não pensem que nem por um instante, do mais instantâneo que possam imaginar, eu deixe de pensar e esteja preocupado pela vossa estimada saúde.

A Bem da Nação (como no tempo do tal homem de Santa Comba) e a Mal dos Chinocas e o falso loiro com cabelo repuxado para a frente que nos quer matar a todos com shots de hipoclorito sódico, vos deixa, triste e isolado, o vosso desconhecido amigo de Peniche, sempre olhando para as Berlengas.