sexta-feira, 1 de maio de 2020

MEDITAÇÕES – SWIFT E ORWELL



Tempos mortos dedicados à leitura

Com ordens “severas” de ficar enclausurado e numa época em que os noticiários são maçadores por repetitivos, e os programas de entretenimento estão maioritariamente orientados para crianças ou, em alternativa, aparecem comentadores que estamos fartos de ver e ouvir. Resta a repetição de séries já batidas. E no fim o recurso à leitura.

Mas como o comércio de livros ficou fechado e os jornais já os tinha deixado por desinteresse e cheirarem a excessiva orientação do dono, não houve outra solução à mão do que dar a volta as estantes onde dormem centenas de livros. E ali procurar um título e um autor que me de ideia de me oferecer algo de interesse. Uma rota de selecção que, como verifico quase sempre, bate nos remanescentes da memória e daí que passadas algumas páginas acende-se uma luz, cá dentro, que me alerta do facto de que aquela história já foi lida.

Nada de extraordinário, pois os volumes que guardo foram, na sua maioria, quase na totalidade, comprados por mim. E, por outra razão, o que me fez escolher o livro, nesta segunda tentativa, terá sido a mesma intuitição que me levou a adquiri-lo. Algumas vezes não me importo de voltar a ler, mas noutras regresso ao ponto de partida, como no Jogo da Glória.

Hoje não aconteceu exactamente o mesmo. Mas perto. Encontrei, quase que esquecida numa estante de dormidos, uma versão integral das Viagens de Gulliver, que Jonathan SWIFT escreveu em 1726, ou seja que em pleno século XVIII, como uma sátira social dedicada a adultos, e precisamente a leitores ilustrados. Com o evoluir da escolaridade e aumentar o número de potenciais leitores, assim como a idade precoce em que as crianças eram sujeitas a ler e interpretar, fizeram-se versões simples, deixando as profundas mensagens sociais para “mais adiante”. O resultado foi previsível. Quando já adultos associaram a o título da obra como sendo “aquele livro de aventuras” e como tal impróprio de ser lido na obra completa. Por isso é que raramente, quando já adultos, surgisse a oportunidade de ler a obra completa e ponderar acerca do seu conteúdo.

As aventuras e peripécias que SWIFT urdiu, colocando a personagem principal, GULLIVER, em confronto com sociedades humanas fora do habitual, onde ficava em vantagem ou desvantagem em relação aos grupos com quem partilhava o momento. A análise das situações era subtil, e carecia de predisposição para tal.

Viagens de Gulliver fez-me recordar outro escritor, analista social que causou um forte impacto na sua geração: GEORGE ORWELL, com a sua obra mais relevante Animal Farm, editada em 1944, época em que estava efervescente a competição entre fascismo e comunismo, mais o sector democrático, que levava pancada pelas duas faces. Também esta obra foi usada, e abusada, para a transformar numa versão inócua para infantes. Com o consequente desprestígio para quem não tivesse, previamente, uma noção acerca do substrato pesado que nela existe.

Tentar discorrer com o devido cuidado as duas obras, tão separadas pelo seu tempo respectivo -mas muito próximas pela mensagem- seria uma tarefa própria de uma tese de mestrado. Eu não estou habilitado para tal. Nem sequer presumo de anos de vida para o conseguir. E mais: o espaço disponível e a paciência para ler dos imaginários seguidores, poucos e apressados, não me incitam a tal.

Mesmo assim recomendo, como exercício de sociologia, que leiam as duas obras citadas. Mas só se tiverem acesso às edições completas. As dedicadas ao público adulto . Vale a pena.

MEDITAÇÕES – Uma voz do além




Escrevo especialmente para si (como o batom tangi)

Os poucos que ainda estavam com pachorra para ler as minhas parvoíces -que dada a etimologia da palavra, iniciada em párvulo, que em latim corresponde a criança, e por extensão a idiota, falto de inteligência, pateta) sumiram-se não na sua totalidade, pois, segundo reza o contador, ainda resta um sofredor! Não identificado, a quem agradeço, com todo o meu sentimento sentimental e qual, mas recomendo que fuja quanto antes.

A hipótese mais triste que me podia sossegar perante este desinteresse de nível catastrófico (mas com um tempo de aviso já muito prolongado) seria o de julgar que obedeceu às recomendações sanitárias de recolhimento e de limitação absoluta com fontes de possível contaminação vírica.

Sempre preocupado pelo bom estado de saúde, e nomeadamente da mental, dos meus imaginários seguidores, posso notificar que, quando trato de escrever e editar no meu blogue alguma tontice, calço luvas de borracha cirúrgicas e coloco a máscara especial , daquelas que tem uma espécie de tampa de garrafa com rosca. E tanto antes como depois de terminar o uso do computador desinfecto todo o aparelho, incluindo a pilha, o ecrâ, a tampa e o teclado, sem deixar de higienizar as teclas que raramente são usadas.

Ou seja, mesmo que os temas e as palavras usadas possam ser desagradáveis ou mesmo rejeitáveis, o que só se pode culpara a este vosso e atento escribidor, não pensem que nem por um instante, do mais instantâneo que possam imaginar, eu deixe de pensar e esteja preocupado pela vossa estimada saúde.

A Bem da Nação (como no tempo do tal homem de Santa Comba) e a Mal dos Chinocas e o falso loiro com cabelo repuxado para a frente que nos quer matar a todos com shots de hipoclorito sódico, vos deixa, triste e isolado, o vosso desconhecido amigo de Peniche, sempre olhando para as Berlengas.

terça-feira, 28 de abril de 2020

MEDITAÇÕES – A vantagem




Ter o poder editorial na mão é a maior vantagem que me oferece este espaço. Estou num meio aberto mas não obrigatório, sem assinaturas nem pressões. Excepto o que eu mesmo observo e decido corrigir.

Pode ser que algum seguidor, perdido, desorientado, sem um propósito especial para entrar, note que apaguei alguns escritos. Houve razões, ou subtis avisos de adversão, que me induziram a recordar o quão poderosas e selectivas são as normas de conduta e expressão que se enquistaram nos membros das classes letradas em Portugal, nem que sejam com um nível de conhecimentos bastante rudimentares. Característica que não é comum aos outros povos latinos, inclusive naqueles onde nos parece ter sido, e continuar a ser, muito poderosa a pressão castradora da Igreja.

Fui criado numa sociedade que, sem alarde especial, teve desde muitas gerações atrás, uma liberdade de expressão menos reservada, mais evidente,menos escondida, do que em Portugal. Aqui, para bem ou para mal, ficou estabelecido que o conceito de “o respeitinho é muito bonito” só podia ser esquecido entre as bases populares, digamos concretamente, pela “ralé”, ou os que estando ébrios, ou nitidamente fora de si, sem conseguirem conter a língua, se atreviam a deitar pela boca fora aqueles termos, socialmente proibidos, que tanto homens como mulheres conhecem desde a mais tenra idade.

É assim, e pelos vistos passam anos, décadas, de apregoada liberdade, mas sem que os preconceitos sobre o que é aceitável, ou liminarmente banido, na linguagem falada ou escrita deixassem de continuar imutáveis, de “pedra e cal”. Só alguns “fulanos” que ganharam o estatuto de loucos mas engraçados, como é o caso de Bocage, ou o Ari, entre um reduzido grupo de faltosos, foram tacitamente aceites.

Curioso e conhecido é a permanente e imediata pesquisa das palavras “proibidas” no primeiro dicionário que pode ser aberto pelo neófito escolar, sem controle dos maiores. Eles/elas sabem o que procuram. Mas nunca encontram naquele volume. O que sabem e querem confirmar só mais tarde poderão encontrar impresso.

Uma característica, entre outras que dispenso de descrever, que ajuda a manter a ideia (falsa porque é imposta contra natura) das boas maneiras e boa educação.

MEDITAÇÕES - São hábitos seculares


ONDE ESTÁ A ADMIRAÇÃO ? 


Quando começamos a receber notícias acerca da epidemia, que se transformou em pandemia quando se espalhou para todo o globo “e parte do estrangeiro”, imagino, por não ter dados estatísticos próprios mas só por fazer especulações a partir dos noticiários, que houve uma parte importante da população ocidental que se espantou ao saber que na China, e não só, havia um comércio de animais exóticos, em princípio não domesticados, embora se ficasse a saber que alguns eram criados em cercados, propositadamente para abate e alimentação da população.

A estes espantados podemos avisar de algumas observações a nãp descurar.

Em primeiro lugar sabe-se, sem fantasiar, que os nossos ancestrais, dos quais ficaram restos e sinais do seu comportamento e alimentação, inicialmente eram recolectores e caçadores, e nómadas, seguindo as migrações dos animais e a maturação dos vegetais e seus frutos.

Mais tarde evoluíram. Tornaram-se sedentários e foram descobrindo os primeiros princípios da agricultura. De de imediato conseguiram domesticar algumas espécies de animais a fim de, através deles, poder usufruir de proteínas, peles e também lâ para se resguardarem do frio. Além de que alguns deste animais domésticos foram treinados para serem uma força “de carne” que os ajudasse no trabalho e nas suas deslocações. Nunca mais pararam de aproveitar as possibilidades que o solo e a vida natural lhes ofereciam, fosse directamente ou após transformações.

Quando caçavam, actividade que ainda hoje é procurada e praticada (por indivíduos que se auto-qualificam de educados, evoluídos e pode ser que com excessiva auto-valorização se considerem ser respeitadores da natureza, incluindo a fauna silvestre) a regra era de que tudo aquilo que voava, nadasse, corresse ou reptasse, caso o conseguissem apanhar, era uma fonte de proteínas a não desprezar. E assim estamos, desprezando os animais que são utilizados abusivamente, sem atender e menos respeitar mínimamente às suas necessidades naturais. Todos terminamos fechando os olhos, por muitas denuncias que nos cheguem.

Aceitando que, apesar de tudo o que se viveu e evoluiu, as necessidades proteicas dos que não se devotam às normas “vegan” são normais, e que nem sequer as civilizações milenárias, como é a chinesa, podem garantir a ingestão de proteínas obtidas “legalmente” a partir da criação de gado, pesca e inclusive de plantas que fornecem proteínas, para a totalidade das suas populações, é fácil entender que ali se comam gatos, cães, ratos, morcegos, pangolins, cagados, lagartos, insectos, larvas e peixes de todas as espécies. Não esqueço que existiu nos super-mercados nacionais se encontravam à venda filetes de crocodilo ou jacaré, ou seja de répteis que não era tradição actual comermos.

Regressando à China, é de recordar que nem todos os animais selvagens que comercializam o são para satisfazer as necessidades alimentares, pelas suas proteínas. Partes destes animais são consideradas como medicamentos valiosos na sua medicina tradicional. Tampouco não podemos ficar admirados do que hoje são valorizadas como bruxarias e mistelas potencialmente perniciosas.

Finalmente acredito, e quase posso garantir, que qualquer oriental que compre uma perna de cão para assar e comer, caso lhe dessem um bom bife da vazia para troca, de imediato rejeitava o petisco local.

Como vivência pessoal, embora indirectamente, refiro que durante anos frequentávamos um restaurante chinês,que considerávamos de confiança e que nos satisfazia. Ficamos conhecidos pelo casal que explorava o local. Conversávamos ao entrar, durante o repasto e no fim. Um dia o dono, João na nossa língua, nos avisou de que ás quartas não nos podia atender. Não estava ali. Juntava-se com outros patrícios seus e iam almoçar juntos. E dizendo que sempre comiam o mesmo! Se adivinhávamos qual era o seu prato português que todos eles apreciavam? Cozido !!!!!

Passados una anos, depois de termos estado fora de Portugal por razoes profissionais minhas, soubemos que o casal tinha trespassado o restaurante. Reformaram-se. E os encontramos inesperadamente em alguns locais. Uma alegria! Beijos, abraços e uns minutos de cavaqueira de saudade, perguntar pelos filhos respectivos, da evolução destes, e saber que estavam felizes em Portugal.

sábado, 25 de abril de 2020

MEDITAÇÕES - Personagens




De boas intenções está o Inferno cheio

Com uma certa frequência nos são postas à frente do nariz – até com a máscara anti vírus (?) colocada- imagens, isoladas ou com comentários alusivos a uma acção da pessoa retratada, mas sempre altruísta, manifestando bons propósitos, habitualmente correctos na sua essência e que se podem valorizar mais pelas evidentes dedicações a causas abrangentes. Tão importante é a sua passagem por este mundo cruel que mereceram sendas estátuas para memorizar a sua passagem entre humanos.

Algumas destas magníficas e bem consideradas, pessoas já históricas, respeitadas pelos que se auto-qualificam de “pessoas de bem”, já faleceram, e daí que a sua “santificação” já seja tacitamente adjudicada e as suas acções menos respeitáveis se tenham varrido para debaixo dos tapetes onde se escondem as misérias humanas. Que todos temos, inclusive as que ainda não conseguiram atingir, nem é provável que jamais o atinjam, o estatuto de personagem inesquecível.

Entre as muitas celebridades, surgem-me, numa pesquisa nada exaustiva:

Mahatama Ghandi Foi famoso pela sua luta, pessoal, para impulsar a libertação da Índia, (ele era nascido na Actual África do Sul, de família de indianos emigrantes de casta superior) do domínio colonial inglês. Paralelamente, mas em surdina, propunha terminarem com o regime discriminatório, e lamentavelmente mantido como herança intocável. Esta iniciativa morreu prematuramente. Está tudo na mesma, ou pior. A imagem de Ghandi, embrulhado numa veste branca, impoluta, não se pode esquecer.

Teresa de Calcutá Europeia que se transferiu para os “países pobres” e vestiu de hábito monacal, sem pertencer a nenhuma ordem religiosa.«, que posteriormente organizou a seu gosto e vontade. Criou uma imagem de benemérita, cuidadora dos mais desfavorecidos, mas que foi repetidamente denunciada pelos profissionais de medicina como fraudulenta, falsa benemérita, mais interessada na sua imagem futura do que na higiene dos seus “recolhidos”. Creio que os ignorantes obcecados já a conseguiram beatificar. Se o que se escreveu for verídico, ela “ajudou” a morrer mais gente desgraçada do que o Menguele de má memória.

Dalai Lama Uma personagem escolhida entre a população mundial (?) ou, pelo menos, sem que a selecção estiver estar restrita aos adeptos da complexa doutrina budista e que, obedecendo, tanto quanto possível, às regras de misticismo e meditação, nos surge no seio dos noticiários como um importante advogado das boas causas. Já o reconhecemos coma sua figura, embrulhada em panos amarelos, com sorriso beatífico, e pregando pela paz mundial e salvação dos pobres. Quando falecer o actual, escolherão a outro para o mesmo papel.

António GUTERRES Actual Secretário-geral das Nações Unidas. O “nosso” inútil máximo; Exímio viajante e discursador de bons propósitos. Jamais conseguiu deixar uma obra meritória de recordação eterna. Mas falou muito, muito, MUITO, e continuará a botar muitos mais discursos ”positivos”. Sempre choramingando e mostrando uma extrema dedicação altruísta. É o exemplo acabado do que se pode atingir com o famoso Princípio de Peters. Devia ter seguido outro caminho que não o de engenharia. Teria dado um excelente pregador itinerante, ao estilo do que era usual encontrar entre os século XV e XIX.

Termino com estes exemplos, mas aguardo, ansiosamente, as aportações enviadas pelos meus selectos seguidores, que permitam alongar a lista de referências.

terça-feira, 21 de abril de 2020

MEDITAÇÕES – Capacidades e limitações II



As limitações podem ser diversas

Na minha “epístola” (a um desconhecido) de ontem deixei no ar, mas não no tinteiro como se afirmava um século atrás, mas sim na mente deste escriba, a ideia de que as limitações que cada um mostra, mesmo que sem o pretender, nem sempre podem ser atribuídas a uma cultura deficiente ou de que, efectivamente, não se tem unhas para tocar guitarra nem viola, ou mesmo o cavaquinho, que, se não estou errado, toca-se mais com palheta do que com a unha. Aliás nos dois instrumentos de corda antes citados, também se encontram intérpretes adeptos da palheta. E não refiro, exclusivamente,à sua capacidade de palrar e levar o ouvinte à certa.

Retomando o tema, suponho que a maioria dos seguidores, -10-12 quando muito- sabem que são muito frequentes as situações em que nos sentimos forçados, com pouca ou nenhuma escapatória, a travar o nosso discurso, nomeadamente quando desconhecemos até onde se pode chegar, e se todos os -pouco prováveis- leitores entenderão que não se pretende molestar ninguém em concreto.

Resumindo: muito do que não manifestamos abertamente não se deve a que seja consequência imediata da ignorância supina. Em muitas situações é uma questão de respeito que nos trava, dado que em comunicação falada sempre se conta com a noção de que “as palavras as leva o vento” ou argumentar que não foi bem entendido. Para este subterfúgio convêm ter em mente uma boa dose de sinónimos e de palavras com sonorização semelhante, mas significados diferentes.

Muitos dos travões que o viver em sociedade nos são tacitamente impostos, reconhecemos que nos castram a verve. Aquele que admita ser o seu pensamento o mais correcto, e não aceite abdicar do seu julgamento pessoal, pode deparar-se, de repente, como se estivesse num beco sem saída.

Então, cegado a um ponto crítico, tem duas opções: ou deixa de ser ele mesmo, por não se sentir livre de expressar o que e como pensa sobre os assuntos que o incitam, e aceita a auto-censura, ou, como opção única, que toma com muita tristeza, abdica de escrever ou de conversar. Enclausura-se ou, mais prosaicamente: fecha-se em copas.

A situação mais habitual entre os cidadãos é a de, em público ou em grupos que não considera ser de pessoas confiáveis, passe a ter a posição da “voz do dono”. Seja verbalmente ou gestualmente aceita o parecer dominante. Abdica. Ou, se não gostamos desta qualificação, até certo ponto ofensiva, por ser verdadeira, optar por falar ou escrever o menos possível. Uma solução que corresponde a não ter confiança em si próprio, além de não confiar de olhos fechados nos possíveis seguidores.

Podemos deduzir, sem grande receio de errar, que a desconfiança para poder manifestar as suas ideias e convicções sem apreensão, pode justificar a génese de sociedades secretas, ou restritas a companheiros confiáveis, comprometidos por meio de cerimónias mais ou menos esotéricas e muito reservadas.

Deixei, propositadamente para o fim, o debater o tema das capacidades de cada pessoa. Não só porque é, de entrada, um assunto melindroso, mas porque raramente o próprio se dispõe a admitir que a sua cabeça só está apta para atingir até um certo patamar de conhecimento. A vida “vivida” nos mostrou que nem tudo se pode cingir à cultura escolar ou académica, e descurar liminarmente a importância do quanto se pode adquirir pela observação e análise de muitas tarefas que, por vaidade, se foram desprezando nas últimas décadas.

Entramos, sem nos aperceber, no campo da ”ciência infusa”. Do que se aprendeu sem ser escolásticamente, da que temos tido exemplos ao ver como um operário experiente, actua de um modo inesperado. Que nos pode parecer errado, por não se adaptar aos conceitos que se encontram nos livros. Mas que, depois, se viu darem um bom resultado. Nestes casos, mais correntes do que se admite, a tarefa do ilustrado é a de encontrar a explicação científica para aquele proceder inesperado.

Mas aquilo onde queria chegar é muito mais simples e, ao mesmo tempo, mais penoso. Raros são os indivíduos que, sob um critério u outro, se auto-qualificam como ineptos, inferiores. Mas, estas mesmas pessoas, quando entram numa conversa descontraída, aceitam a realidade de que, mesmo entre aqueles que se criaram ao seu lado, uns captam as ideias mais rapidamente, e conseguem ligar com aparente facilidade temas aparentemente opostos. Dirão que fulano chega mais longe do que os outros, ou que, de facto, é muito esperto. Mas que tal capacidade individual não implica, sem nuances, que os outros sejam burros.

Até porque ao burrico, animal desprestigiado, se lhe admitem capacidades cognitivas superiores às de um cavalo. Por exemplo: um burro sabe escolher o melhor caminho a seguir, aquele que tem um piso mais favorável, mesmo que nunca o tenha palmilhado. E por esta razão quando se usava uma récua para tracção situava-se um burro ágil à frente e cavalos ou mulas possantes; além de que com o andar miúdo e rápido do burro, fazia avançar o conjunto mais depressa do que sem ele.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

MEDITAÇÕES - Capacidades e limitações I



CADA UM É COMO CADA QUAL

Admito que com os anos de vida cada um de nós, mas uns mais intensamente e mais cedo do que outros, admitimos, que estamos a ocupar um lugar que não merecemos (ou quiçá sim!) e em consequência temos que aproveitar no máximo aquilo que temos à nossa disposição. Tal como a famosa “estupidez natural”.

Podemos referir, como exemplo e justificação, que não temos preparação, interesse, capacidade, ou outra característica negativa, para entrar no selecto clube dos “sábios atómicos”, nem sentir uma curiosidade intensa para penetrar no campo dos altos estudos matemáticos, onde campeiam os quantos, as cordas, os nós, e, entre outros, os recentemente comentados buracos negros, que definem como uns sorvedouros siderais de tudo aquilo que lhes passa perto. São uma descoberta que justifica aquela zona que referida nalguns contos infantis, onde irás e não voltarás.

Ao me surgir esta citação, dos buracos negros, encontrei duas referências mais ao nosso nível -de ignorância- que nos podem dar uma imagem visual mais acessível:

  • Uma corresponde ao campo da zoologia, mais concretamente nos insectos. Existe uma formiga, denominada como formiga leão, nitidamente caçadora e devoradora, que para facilitar a sua alimentação faz um cone invertido no chão para que funcione como armadilha para os insectos que se atreverem a iniciar a descida; nunca conseguirão sair da cilada, e acabam os seus dias nas maxilas da formiga, e “aospois” no seu aparelho digestivo. É assim a vida...
  • A segunda referência está no nosso corpo. Concretamente no ponto onde esteve a ligação com a placenta materna: o umbigo. A penugem, ou pilosidade se for mais notória, que cobre o abdómen numa área, relativamente reduzida, está orientada em espiral e dados os movimentos, involuntários mas sempre activos -enquanto vivos!- levam as pequenas fibras que se soltam da roupa até o poço receptor que é o umbigo, sempre e tanto que este seja fundo e não saliente. Nestes casos os pelos orientadores existem, convergem para uma cova, mais semelhante à da formiga leão do que o “buraco negro” sideral. E o que ali se acumula será, tarde ou cedo, retirado durante o banho.
E por referir o remoinho da nossa pança, podemos citar que na zona onde se fazia a tonsura na cabeça dos clérigos, existe outro centro natural de orientação da pilosidade craniana. E já vi quem não tenha só um centro de orientação capilar, mas dois! Como se houvessem dois “buracos negros” vizinhos. E mantendo-nos na astronomia refiro aqueles sistemas em que duas nebulosas dançam a par. Sem saber se terminarão num só complexo planetário. Uma dúvida horrível!

O que desconheço, e só agora me surgiu a questão, é a razão ou o como se chegou à decisão de retirar o cabelo da cabeça dos sacerdotes naquela área concreta. Será pela crença de que por ali se devia facilitar a entrada da chama divina na cabeça da pessoa merecedora? Algum leitor deve conhecer a resposta, mas não creio que se decida a me esclarecer esta dúvida.

Já me perdi nesta curta caminhada. Bem dizem que com o Divagar se vai ao longe, Não esqueci totalmente o esquema mental que pretendia expor hoje. Mas a astronomia, que não astrologia, é muito cativante! Desde os tempos dos astrólogos mesopotâmicos e indostânicos os homens (alguns, sendo correcto) dedicaram-se a perscrutar os céus e deslindar os movimentos dos corpos celestes. Uma curiosidade irresistível que hoje já levou à invasão do espaço sideral com artefactos que, com uma certa leviandade e com a argumentação de aumentar o nosso conhecimento (?) não sabemos se poderão repercutir, desfavoravelmente, sobre a vida desta bola transumante que nos acolhe, e que tão pouco, e mal, respeitamos.

Recuando até o cabeçalho desta espécie de crónica, e para me aliviar um pouco da muita pena que sinto por não ter um conhecimento enciclopédico, considero que, por muita capacidade cerebral que nos dizem não aproveitamos, é possível que exista um limite de “carga útil”, para cada um de nós. Semelhante ao que se calcula e autoriza para cada veículo, seja de transito terrestre, aéreo ou marítimo. Nem todos podemos “saber tudo”. E resta a dúvida se de facto alguém teve a capacidade de carregar dentro de si todo o saber da humanidade.

Eu atrevo-me, e fico pessoalmente mais tranquilo, que tal não é plausível. Mas que deveria saber muito mais, isso tenho a certeza; falta mensurar a capacidade! Ou seja, se a minha massa cinzenta não dava para mais.

Tenho que recuperar o esquema inicial, que se diluiu sem atingir uma meta definida. É uma promessa devida, ou mais propriamente “de vidro”, porque sabemos que as promessas são propensas a serem quebradas, como os copos e outros objectos de vidro (e pergunto: porque se partem os vidros, e alguns em muitos bocados? A Física nos explica isso!)