terça-feira, 21 de abril de 2020

MEDITAÇÕES – Capacidades e limitações II



As limitações podem ser diversas

Na minha “epístola” (a um desconhecido) de ontem deixei no ar, mas não no tinteiro como se afirmava um século atrás, mas sim na mente deste escriba, a ideia de que as limitações que cada um mostra, mesmo que sem o pretender, nem sempre podem ser atribuídas a uma cultura deficiente ou de que, efectivamente, não se tem unhas para tocar guitarra nem viola, ou mesmo o cavaquinho, que, se não estou errado, toca-se mais com palheta do que com a unha. Aliás nos dois instrumentos de corda antes citados, também se encontram intérpretes adeptos da palheta. E não refiro, exclusivamente,à sua capacidade de palrar e levar o ouvinte à certa.

Retomando o tema, suponho que a maioria dos seguidores, -10-12 quando muito- sabem que são muito frequentes as situações em que nos sentimos forçados, com pouca ou nenhuma escapatória, a travar o nosso discurso, nomeadamente quando desconhecemos até onde se pode chegar, e se todos os -pouco prováveis- leitores entenderão que não se pretende molestar ninguém em concreto.

Resumindo: muito do que não manifestamos abertamente não se deve a que seja consequência imediata da ignorância supina. Em muitas situações é uma questão de respeito que nos trava, dado que em comunicação falada sempre se conta com a noção de que “as palavras as leva o vento” ou argumentar que não foi bem entendido. Para este subterfúgio convêm ter em mente uma boa dose de sinónimos e de palavras com sonorização semelhante, mas significados diferentes.

Muitos dos travões que o viver em sociedade nos são tacitamente impostos, reconhecemos que nos castram a verve. Aquele que admita ser o seu pensamento o mais correcto, e não aceite abdicar do seu julgamento pessoal, pode deparar-se, de repente, como se estivesse num beco sem saída.

Então, cegado a um ponto crítico, tem duas opções: ou deixa de ser ele mesmo, por não se sentir livre de expressar o que e como pensa sobre os assuntos que o incitam, e aceita a auto-censura, ou, como opção única, que toma com muita tristeza, abdica de escrever ou de conversar. Enclausura-se ou, mais prosaicamente: fecha-se em copas.

A situação mais habitual entre os cidadãos é a de, em público ou em grupos que não considera ser de pessoas confiáveis, passe a ter a posição da “voz do dono”. Seja verbalmente ou gestualmente aceita o parecer dominante. Abdica. Ou, se não gostamos desta qualificação, até certo ponto ofensiva, por ser verdadeira, optar por falar ou escrever o menos possível. Uma solução que corresponde a não ter confiança em si próprio, além de não confiar de olhos fechados nos possíveis seguidores.

Podemos deduzir, sem grande receio de errar, que a desconfiança para poder manifestar as suas ideias e convicções sem apreensão, pode justificar a génese de sociedades secretas, ou restritas a companheiros confiáveis, comprometidos por meio de cerimónias mais ou menos esotéricas e muito reservadas.

Deixei, propositadamente para o fim, o debater o tema das capacidades de cada pessoa. Não só porque é, de entrada, um assunto melindroso, mas porque raramente o próprio se dispõe a admitir que a sua cabeça só está apta para atingir até um certo patamar de conhecimento. A vida “vivida” nos mostrou que nem tudo se pode cingir à cultura escolar ou académica, e descurar liminarmente a importância do quanto se pode adquirir pela observação e análise de muitas tarefas que, por vaidade, se foram desprezando nas últimas décadas.

Entramos, sem nos aperceber, no campo da ”ciência infusa”. Do que se aprendeu sem ser escolásticamente, da que temos tido exemplos ao ver como um operário experiente, actua de um modo inesperado. Que nos pode parecer errado, por não se adaptar aos conceitos que se encontram nos livros. Mas que, depois, se viu darem um bom resultado. Nestes casos, mais correntes do que se admite, a tarefa do ilustrado é a de encontrar a explicação científica para aquele proceder inesperado.

Mas aquilo onde queria chegar é muito mais simples e, ao mesmo tempo, mais penoso. Raros são os indivíduos que, sob um critério u outro, se auto-qualificam como ineptos, inferiores. Mas, estas mesmas pessoas, quando entram numa conversa descontraída, aceitam a realidade de que, mesmo entre aqueles que se criaram ao seu lado, uns captam as ideias mais rapidamente, e conseguem ligar com aparente facilidade temas aparentemente opostos. Dirão que fulano chega mais longe do que os outros, ou que, de facto, é muito esperto. Mas que tal capacidade individual não implica, sem nuances, que os outros sejam burros.

Até porque ao burrico, animal desprestigiado, se lhe admitem capacidades cognitivas superiores às de um cavalo. Por exemplo: um burro sabe escolher o melhor caminho a seguir, aquele que tem um piso mais favorável, mesmo que nunca o tenha palmilhado. E por esta razão quando se usava uma récua para tracção situava-se um burro ágil à frente e cavalos ou mulas possantes; além de que com o andar miúdo e rápido do burro, fazia avançar o conjunto mais depressa do que sem ele.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

MEDITAÇÕES - Capacidades e limitações I



CADA UM É COMO CADA QUAL

Admito que com os anos de vida cada um de nós, mas uns mais intensamente e mais cedo do que outros, admitimos, que estamos a ocupar um lugar que não merecemos (ou quiçá sim!) e em consequência temos que aproveitar no máximo aquilo que temos à nossa disposição. Tal como a famosa “estupidez natural”.

Podemos referir, como exemplo e justificação, que não temos preparação, interesse, capacidade, ou outra característica negativa, para entrar no selecto clube dos “sábios atómicos”, nem sentir uma curiosidade intensa para penetrar no campo dos altos estudos matemáticos, onde campeiam os quantos, as cordas, os nós, e, entre outros, os recentemente comentados buracos negros, que definem como uns sorvedouros siderais de tudo aquilo que lhes passa perto. São uma descoberta que justifica aquela zona que referida nalguns contos infantis, onde irás e não voltarás.

Ao me surgir esta citação, dos buracos negros, encontrei duas referências mais ao nosso nível -de ignorância- que nos podem dar uma imagem visual mais acessível:

  • Uma corresponde ao campo da zoologia, mais concretamente nos insectos. Existe uma formiga, denominada como formiga leão, nitidamente caçadora e devoradora, que para facilitar a sua alimentação faz um cone invertido no chão para que funcione como armadilha para os insectos que se atreverem a iniciar a descida; nunca conseguirão sair da cilada, e acabam os seus dias nas maxilas da formiga, e “aospois” no seu aparelho digestivo. É assim a vida...
  • A segunda referência está no nosso corpo. Concretamente no ponto onde esteve a ligação com a placenta materna: o umbigo. A penugem, ou pilosidade se for mais notória, que cobre o abdómen numa área, relativamente reduzida, está orientada em espiral e dados os movimentos, involuntários mas sempre activos -enquanto vivos!- levam as pequenas fibras que se soltam da roupa até o poço receptor que é o umbigo, sempre e tanto que este seja fundo e não saliente. Nestes casos os pelos orientadores existem, convergem para uma cova, mais semelhante à da formiga leão do que o “buraco negro” sideral. E o que ali se acumula será, tarde ou cedo, retirado durante o banho.
E por referir o remoinho da nossa pança, podemos citar que na zona onde se fazia a tonsura na cabeça dos clérigos, existe outro centro natural de orientação da pilosidade craniana. E já vi quem não tenha só um centro de orientação capilar, mas dois! Como se houvessem dois “buracos negros” vizinhos. E mantendo-nos na astronomia refiro aqueles sistemas em que duas nebulosas dançam a par. Sem saber se terminarão num só complexo planetário. Uma dúvida horrível!

O que desconheço, e só agora me surgiu a questão, é a razão ou o como se chegou à decisão de retirar o cabelo da cabeça dos sacerdotes naquela área concreta. Será pela crença de que por ali se devia facilitar a entrada da chama divina na cabeça da pessoa merecedora? Algum leitor deve conhecer a resposta, mas não creio que se decida a me esclarecer esta dúvida.

Já me perdi nesta curta caminhada. Bem dizem que com o Divagar se vai ao longe, Não esqueci totalmente o esquema mental que pretendia expor hoje. Mas a astronomia, que não astrologia, é muito cativante! Desde os tempos dos astrólogos mesopotâmicos e indostânicos os homens (alguns, sendo correcto) dedicaram-se a perscrutar os céus e deslindar os movimentos dos corpos celestes. Uma curiosidade irresistível que hoje já levou à invasão do espaço sideral com artefactos que, com uma certa leviandade e com a argumentação de aumentar o nosso conhecimento (?) não sabemos se poderão repercutir, desfavoravelmente, sobre a vida desta bola transumante que nos acolhe, e que tão pouco, e mal, respeitamos.

Recuando até o cabeçalho desta espécie de crónica, e para me aliviar um pouco da muita pena que sinto por não ter um conhecimento enciclopédico, considero que, por muita capacidade cerebral que nos dizem não aproveitamos, é possível que exista um limite de “carga útil”, para cada um de nós. Semelhante ao que se calcula e autoriza para cada veículo, seja de transito terrestre, aéreo ou marítimo. Nem todos podemos “saber tudo”. E resta a dúvida se de facto alguém teve a capacidade de carregar dentro de si todo o saber da humanidade.

Eu atrevo-me, e fico pessoalmente mais tranquilo, que tal não é plausível. Mas que deveria saber muito mais, isso tenho a certeza; falta mensurar a capacidade! Ou seja, se a minha massa cinzenta não dava para mais.

Tenho que recuperar o esquema inicial, que se diluiu sem atingir uma meta definida. É uma promessa devida, ou mais propriamente “de vidro”, porque sabemos que as promessas são propensas a serem quebradas, como os copos e outros objectos de vidro (e pergunto: porque se partem os vidros, e alguns em muitos bocados? A Física nos explica isso!)

domingo, 19 de abril de 2020

MEDITAÇÕES - Obcecados e Incultos




Portugal está socialmente atrasado

E, mesmo com graduações, podemos verificar com excessiva frequência que o extremismo é uma característica muito comum, demasiado até, nos países do sul da Europa, e não só, pois que as épocas em que surgem problemas incitam a que as mentes do pessoal se desloquem para os extremos do espectro político-social.

Resumindo, de um modo cru, muita gente não ultrapassou a convicção de que ESTÁS COMIGO OU ESTÁS CONTRA MIM, é um preceito a seguir e a condicionar aqueles que não partilhem.

Observando com o propósito de isenção que penso ser pertinente, não posso aceitar, sem me sentir lesado, as posições extremistas que se estão tomando a propósito das pretendidas celebrações das datas de cariz político que se aproximam.

Em verdade, e seguindo o mesmo propósito de precaução sanitária, evitando as aglomerações que se receiam poder facilitar a transmissão vírica, não se autorizaram marchas políticas. Assim como as autoridades eclesiásticas sentiram que deviam travar a participação dos seus fieis nas aglomerações de cariz religioso, tanto dentro como fora dos templos. Tudo bem, dentro da situação actual que aconselha não perder o que se tinha conseguido.

Todavia, e por um excesso de zelo político, não se protelaram as sessões habituais na Assembleia Nacional. Mas... que se saiba, não se declarou ser obrigatória a presença naquelas sessões. Ou seja, quem não gosta, não vai; não aplaude nem vocifera. Tudo bem, educadinho como pertence a um povo educado (?)

E é aqui onde a minha meditação tropeça. As sucessivas autoridades de Portugal, centrando-nos neste rectângulo, durante séculos fizeram tudo o que imaginaram, inclusive com muita vigilância e repressão, para evitar que a sua população adquirisse uma ampla e alargada educação política.

É fácil comprovar que desde a monarquia, incluída a fase constitucional, as pessoas que tentaram introduzir os conceitos mais abrangentes da democracia partidária, foram muito poucas, e a sua influência reduzida a um sector muito minoritário. Com a primeira república e a acção da “nefasta” maçonaria -que por não partilhar abertamente com a Igreja católica foi considerada um grupo a abater- apesar de que algumas personagens do topo da Igreja se filiaram nesta “seita”, se iniciou a escolarização das crianças num ensino civil, não religioso, mas com preceitos democráticos e sociais.

Houve, na referida fase da primeira república -demasiado curta dadas as pressões militares conservadoras- uma acção de promoção cultural, dirigida concretamente para a incipiente classe dos operários fabris, que não se pode esquecer. Foi sol de pouca dura.

O trio fascismo+capital+igreja tiveram o campo totalmente livre para “educar” a população. E as forças policiais se encarregaram de fechar as portas das prisões para aqueles atrevidos que se atreviam a abrir as mentes enclausuradas de séculos. O resultado inevitável, e conseguido, foi o de que a população aceitou tacitamente, como se não existisse outra opção, a norma de estás ao meu lado ou contra mim. Inclusive bastantes elementos da faixa mais ilustrada!

E, apesar de que numa sociedade que está aprendendo a viver em democracia, não nos parecer possível, ou desejável, existe uma fração, ruidosa e azeda, que mantém e propaga uma relutância congénita em aceitar as diversas opções possíveis para quem não deseje ficar num dos dois extremos. E, para mal do País, continua a ter muitos prosélitos. São, precisamente estes elementos ultra-conservadores que propõem as listas de adesão para contrariar temas que não merecem tanta atenção. São gente (serão mesmo?) que não admitem o simples preceito de vive e deixa viver.


sábado, 18 de abril de 2020

MEDITAÇÕES- Animais que também são gente.



Sem chegar ao quando os animais falavam

Não trago in pectore dissertar sobre a fantasia, própria dos contos para infantes -os elefantes não devem entender estas doideiras. Tem a sua própria cultura- de que os animais podem comunicar verbalmente entre si e até com os humanos. Todavia este capítulo da humanização da bicharada tem estado presente, desde séculos, no imaginário humano, tanto popular como erudito.

Desde muitos anos atrás fui ficando convencido de que aqueles companheiros de viagem planetária, ou seja na Terra, e que, sem dúvida nem disfarce, tratamos tão mal, dado que "são considerados como irracionais" apesar de ser um erro crasso, só se salvam alguns. Aqueles que induzimos a partilhar a nossa “caverna”, são muito sábios e deles é possível, e até mesmo recomendável, aprender algumas coisas. Outros limitam-se a ser animais "domésticos" ou criados para a nossa alimentação dita omnívora.

Sendo observador, mesmo que não preparado em biologia e antropologia comparadas, reparei que entre os animais que nos acompanham de livre vontade, sem fugir quando não estão presos, e cujo exemplo mais evidente é o gato “inteiro”, quase que vadio, ou mesmo sem o quase, eles nos ensinam um código de sinais, inclusive sem miar, como sucede com o que nos visita várias vezes por dia- já tentei, sem sucesso, ensina-lo a miar, mas ele olha para mim uns instantes e depois abandona a sala de aula- Em reciprocidade nós o educamos, até os limites que ele aceitou, nas regras que decidimos para o comportamento em comunidade aberta.

Estes felinos caseiros, mesmo aqueles aos que se lhes permite partilhar o nosso habitáculo, sempre reservam uma boa parte da sua independência. São o que podemos qualificar de "senhores do seu nariz". Todos nós tivemos exemplos de tarecos com um nítido egoísmo, ou egocentrismo, com o qual nos alertam de que aceitam submissão, mas até certo ponto. Reconhecer estas característica não impedem a verificação de situações onde se observe a dedicação, até mesmo de afabilidade, com uns seres tão diferentes deles como somos os humanos.

Os cães são um caso aparte. Consideramos serem os primeiros animais de companhia que aceitaram ser nossos parceiros, mesmo em condições duras e abusivas. Admitiram que inclusive podiam ser ensinados em tarefas concretas. Um exemplo, duplo até, é o dos cães de guarda e os de pastor, ambos importantes para quem se auxilia deles. Sem esquecer, os cães de tracção de trenós. Mesmo que jamais os tenha visto agir no seu meio habitual.

Também encontramos, entre os animais de penas exemplos de comportamentos que parecem ser copiados dos nossos, ou viceversa. Melros, corvos, papagaios, catatuas e outras pênsis, conseguem imitar a voz humana e aprendem, muitas vezes de por si, habilidades que nos admiram.

Resumindo: se nos pararmos a observar e meditar, depressa se chega à convicção de que os seus cérebros não se ficam pelo que o instinto adquirido pela espécie lhes oriente, mas que aprendem mesmo sem serem ensinados. Podemos aceitar, de boa fé, que eles são capazes de iniciativas não aprendidas e mesmo de resolver dificuldades que os motivam para as ultrapassar.

Cheguei à segunda parte desta meditação, e que se resume em poucas palavras: os animais, quando estão num ambiente de partilha-livre, com humanos, nos dão orientações acerca do que lhes agrada e desejam. Eles têm uma mímica própria. Cada espécie a sua. Melros e rolas bravas nos mostram como somos observados sem os vermos, e como e quando decidem aproximar-se de algum alimento que tivermos deixado ao ar livre, sem armadilhas, fosse em principio para mamíferos mas que eles, voadores e ovíparos, também apreciem. 

Quando a já pouca passarada que circula por perto entende que não constituímos um perigo, cada vez se mostram mais amigáveis. O extremo mais simpático e, até certo ponto inusitado, da confiança entre aves e pessoas o encontramos em alguns parques onde os pássaros e até aves de maior porte decidem que podem comer da mão da pessoa que consideram merecer tal confiança.

Dentro dos peixes, e descontando aqueles que foram treinados para espectáculo, também os há que se aproximam de nós para conseguir algum petisco do seu agrado. Os pescadores de cana e carreto sabem disso a potes; por isso engodam previamente o pesqueiro de onde pretendem apanhar os peixes que procuram.


quinta-feira, 16 de abril de 2020

MEDITAÇÕES – Começam as questões




Muitos devem estar ficando bastante nervosos

Por não ter arrumado as ideias como devia ter feito, sucede que ainda não sei como vou desenvolver o tema que me barrunta* pela mioleira. Como desculpa inaceitável atrevo-me a dizer que o impasse é consequência de não ter tido contacto verbal prévio com pessoas que considere estarem na disposição de tentar analisar a situação em que estamos. As únicas fontes de consulta foram alguns jornais -poucos; dois por semana- seguir, apesar de serem excessivamente reiterativos e pouco claros, alguns noticiários nas Televisões, e uns passeios pela “net”.

De qualquer forma sinto -e admito estar errado- que muitos cidadãos já admitem que a situação actual é muito diferente da que se viveu na crise económica anterior, e noutras mais precursoras. Desta vez o caso é geral, daí o chamarem-lhe de pandemia. Um surto epidémico que espalhado pelo globo está flagelando tanto os países ricos como os “pobres” -que são ricos comparativamente com os que realmente estão paupérrimos- Quanto aos bem situados na economia e que se pensava poderiam ajudar os que temem “ir pelo cano abaixo”, ninguém se atreve a pensar que terão salvavidas para todos os que naufragarem.

O problema não está só na quebra económica que comporta a paragem da economia produtiva, sem que as sociedades deixem de consumir, nem que seja nos bens de subsistência, mas na consciência de que não existe a certeza, nem sequer uma hipótese fidedigna, de existir uma data para o fim da situação. Implicaria ter-se encontrado uma vacina e um antídoto, ou tratamento rápido e eficaz para salvar os afectados.

Às mortes em números que se, por sorte, não atingem os valores terríveis nos massacres acontecidos em conflitos bélicos recentes, junta-se a estagnação, practicamente total, das estruturas produtivas assim como o comércio global, que é o sangue circulante da economia actual.

Todos os vectores que influenciam a situação vigente convergem para um progressivo e ameaçador deficit financeiro, que não se sabe como travar e ainda menos como recuperar.

É uma “guerra” de cariz bíblico. E como tal estamos à beira de surgirem pregadores da catástrofe, que ponham a humanidade em estado de histeria colectiva. Por sorte o tempo dos profetas já passou. Mas reconhecemos a existência de seitas que, com discursos tenebrosos, anunciam o fim do mundo, e conseguem cativar adeptos convictos. Quem ler isto pensará, com razão, que não estamos na idade média. Pois não estamos. Mas sempre existiram e existirão mentes crédulas.

Aquilo que nos preocupa é que não se considera factível manter as populações paradas, enclausuradas, com o comércio practicamente estagnado e com a consequênte sangria dos tesouros nacionais em contínua perca. Todos devem estar conscientes de que o toque de reabilitar o trabalho e a transferência de produtos tem que ser dado em simultâneo. Nenhum país, na época em que estamos, pode decidir a recuperação do seu parque produtivo sem a certeza de poder receber as matérias primas e componentes que habitualmente adquiria do exterior, e tampouco poderá permitir-se a fantasia de produzir, seja o que for, para encher armazéns.

Tentar restabelecer um país, isoladamente, dando a ideia de que estamos chegando a uma normalidade é, além de temerário um erro de possível não-retorno. E quem será que pode tomar a batuta neste reinício do concerto?

Alguém se decidirá, sem esperar que o fim da pandemia seja evidente. O mundo ocidental sabe que não conseguiria sobreviver a uma paragem total. Como se uma catástrofe planetária nos colocasse numa situação semelhante, pelos efeitos, à extinção dos grandes répteis.

Mas, admitindo que mesmo mal-parados, vamos sair desta situação, há problemas identificados, resultado da incúria dos humanos, e de cujos efeitos todos somos culpados, e que se não se encaram seriamente a pandemia actual será uma brincadeira, comparado com a possível, e prevista, destruição do meio ambiente.


-barruntar: desconfiar, pressentir, suspeitar

terça-feira, 14 de abril de 2020

MEDITAÇÕES - A disjuntiva bate à porta


 A disjuntiva bate à porta

O dilema está no financiamento

Os governos ibéricos, e possivelmente outros mais, estão indecisos acerca de continuar com as medidas de isolamento, não pelos que já habitualmente estavam quase sempre entre as quatro paredes da residência respectiva, mas por outros cujo trabalho produtivo afecta a economia do País sem que exista um retorno equivalente por outras vias.

Ou seja, a decisão de recolher obrigatório, dada pelos governos no intuito de reduzir o fluxo de pacientes no sector de tratamentos intensivos, fosse por carência de meios de equipamento ou humanos, terá, forçosamente, que se reduzir, por efeito do trabalho conjunto entre fornecedores, técnicos de saúde, e a supervisão profissional dos responsáveis pelas finanças públicas. Esta equipa, multidisciplinar vai encontrar-se, se não o tem já à sua frente, com o dilema de manter as restrições de âmbito geral ou ir abrindo a porta, mesmo que cautelosamente.

Não desejaria estar no lugar de quem se sinta entre as espadas (são mais do que uma...) e a parede. O que não me impede de vaticinar que a situação actual não se pode manter durante semanas ou meses, como se chegou a insinuar.

Assim como, para ajudar a estragara festa, ainda podemos aceitar a possibilidade de que este vírus nos venha a oferecer mais uma vaga, ou mesmo duas, se acontecerem mutações que não sejam neutralizadas pela vacina que se aguarda ansiosamente

domingo, 12 de abril de 2020

MEDITAÇÕES -É possível, ou não?



A China nos vai absorver?

O aderir à tentação de considerar como real, e actual, potencialmente muito perigosa teoria da conspiração, de que a China é a responsável evidente da pandemia que nos está assediando. Dada a convicção de que já não se satisfaz com o controle de uma grande parte do continente asiático e que além de avanços tecnológicos, conseguidos a partir de descobertas no ocidente, atingiu una capacidade económica importante e com potencial dominante, graças a poder usar, sem restrições, a enorme quantidade de mão de obra de que dispõe.

Além de que se reconhece ainda serem os seus custos com o seu operariado muito inferiores aos que se praticam no mundo ocidental. inclusive hoje com o abuso do trabalho sem garantias, ou com contratos a prazo certo, muitas vezes com a duração de um dia ou dois, e mercê da legislação autista que se tornou habitual para poder satisfazer os poucos empresários que resistiram à fuga de fabrico no oriente.

São demasiados os sectores fabris europeus, de onde se lançaram ao mercado a imensa maioria dos artigos que, os mesmos fabricantes originais, passaram a ser produzidos, inicialmente com contratos, no Oriente. Esta deslocação industrial colocou a economia ocidental num terreno instável, já não com a subcontratação aparentemente rentável mas, nesta fase actual, totalmente dependente das regras que são decididas e impostas pelos anteriormente colaboradores.

O aderir à convicção, reflexo de algumas denuncias, que alguns consideram ser fundamentadas, onde acusam, a actual pandemia, de ser disseminada, propositadamente, por decisão das autoridades chinesas. E até avisam da possibilidade de outras epidemias, igualmente fatais podem flagelar o mundo sem ser espontâneas. Pode ser um erro, ou uma falta de credibilidade na honradez dos humanos, em geral. Mas descartar esta possibilidade pode ser uma ingenuidade fatal, nem que seja só pelo facto de reconhecermos que a ambição de manter e até alargar um império é tradicional na história da humanidade.

Toda esta introdução teve como propósito o “deixar arrefecer o ferro que já está em brasa”. São muitos os comentários que se mostram convictos de que o novo Império Chinês, seja ainda comunista ferrenho ou simplesmente uma ditadura expansionista, nos está comendo a erva debaixo dos pés. Esta crença induz, e com razões convincentes, a recomendar que não se negoceiem, NÃO SE VENDAM, mais empresas ou quaisquer negócios a chineses, e se faça uma restrição apertada à impoprtação de material de baixo preço e inferior. Isso apesar de que se espera uma forte crise económica no Ocidente e, se admite, que as arcas do tesouro chinês ainda devem ter grandes reservas.

Se recuperarmos a racionalidade e ponderar com calma a situação, será imediata a noção de que o desastre vai ficar delimitado às mortes inesperadas, e daí a uma quebra na população dos países, e que o maior desafio vai estar no ultrapassar da crise económica do sector mais débil da população e, em simultâneo, a recuperação da nossa economia, e a ser possível manter e incrementar a independência do exterior -Aqui uma chamada a fortalecer a União Europeia. TODOS SABEM, e não podem esquecer, QUE A UNIÃO FAZ A FORÇA)

Para nos animar é factual que não temos os problemas habituais do fim de um conflito bélico. O parque habitacional está praticamente igual ao que existia seis meses atrás; as vias de comunicação permanecem na mesma (mesmo que algumas na obsolescência), e a população recupera-se em poucas décadas. As quebras na economia são mais fruto de uma publicidade interesseira do que o reflexo de uma pobreza repentina. As pessoas habituaram-se a comprar sem raciocinar.

Onde o Mundo Ocidental, na sua globalidade, falhou foi no desleixo que se deu à própria indústria, vendendo a baixo preço, os avanços tecnológicos que se tornaram um engodo irrecusável para a população em geral. É o sector produtivo, tecnológico, seja das velhas tecnologias -que sempre estarão na base e atrás do cenário mirífico que a publicidade se encarrega de difundir- ou das que surgem como moscas à sombra da informática.

Se eu tivesse uma porta que me permitisse aconselhar os governos recomendaria que se taxasse, além do máximo considerado como admissível, a publicidade para novos produtos e, em especial, aqueles que, de facto, não passam de ser exactamente iguais aos anteriores mas com outra roupagem, mais vistosa e apelativa. Um truque habitual entre os comerciantes de equídeos nas feiras, e que se incorporou extensivamente nos produtos de consumo.

SERIA MUITO IMPORTANTE, PELOS RESULTADOS QUE PODIA CONSEGUIR, UMA INTENSA LUTA CONTRA AS DESPESAS SUPÉRFLUAS.

Que, foram, sem dúvida, a principal causa da rotura económica e produtiva do Ocidente.