quinta-feira, 26 de março de 2020

MEDITAÇÕES – do Albert Virella II - Inflacção


A INFLACÇÃO JÁ CÁ CANTA

Bom dia (termo que nos deixaram de herança os muçulmanos)Bom dia oxalá -herança dos muçulmanos- seja melhor do que os anteriores. Mas lamento opinar que será pouco provável.

Ao dar uma olhadela pelas capas dos jornais do dia, aproveitando o serviço que nos oferece a Google, vi um cabeçalho que confirmava a suspeita de que teria que aparecer mais dia menos dia. A breve dizia, mais coisa menos coisa, que os hospitais e clínicas privadas (e eu acrescento, por minha conta, os fornecedores de material e equipamentos para os hospitais) reclamam, com uma ameaça velada, que para colaborarem com as necessidades que lhes querem impor, exigem que se lhes paguem as contas congeladas.

De imediato, sendo eu um reconhecido adepto dos anexins, veio-me à mente aquele que diz: Cria o corvo, tirar-te-à os olhos. (1)

E se avançarmos nesta estrada que, sem opção, temos pela frente, se aparecerem mais exigências, justas e documentadas, para que o estado abra os cordões da bolsa, sendo que a entrada limpa de impostos tem que diminuir inevitavelmente, e se as ajudas do exterior -leia-se da UE- forem escassas e demoradas a pressão para por a impressora de notas a todo gás -a nove como nos eléctricos- será quase impossível de travar. E, sendo pessimista de nascença, a conclusão que tiro e lamento é:

A inflação está à porta !

Aliás, como argumento da escassez por parte dos fornecedores e importadores, já subiram, bastante, alguns preços de venda ao público, nomeadamente as carnes frescas, e, vergonhosamente, alguns artigos de protecção pessoal como o álcool e desinfectantes. Pessoalmente raro é que tenha que fazer as compras de reabastecimento de comestíveis, mas não me custa a imaginar que já existam mais subidas nos preços. Digamos que é fatal que tal aconteça, pois sempre foi assim e desta vez existem razões que cheguem para se aproveitar.

Hoje não vos maço mais. (por enquanto...)

(1) Pelo pouco que sabemos, as PPP, entre elas as dedicadas à saúde, tem nos seus quadros superiores pessoas que estão, directamente ou historicamente, ligadas aos governantes que facilitaram a sua introdução. E mais não digo...

quarta-feira, 25 de março de 2020

MEDITAÇÕES – Será desta?



CONFIAR NA SENSATEZ É ARRISCADO

Se desta pandemia podemos encontrar alguma coisa válida é que ela prova quão prejudicial se mostrou ser o TURISMO DE MASSAS, e os seus efeitos imediatos. SERÁ QUE OS CIDADÃOS E AS AUTORIDADES NÃO ENTENDERAM QUE ESTE CAMINHAR LEVA A UM BECO SEM SAÍDA?

Não pretendo fazer uma listagem exaustiva dos capítulos sociais que, pela avidez da economia instantânea, tem levado o globo a uma prejudicial distribuição de problemas.

Ao longo da história a humanidade teve que se defrontar com epidemias terríveis, que chegaram a despovoar regiões inteiras, e que para recuperar a sua população demoraram quase um século. E todas estas epidemias sabemos que foram disseminadas, transmitidas, não pelo vento ou as águas em exclusividade, mas, principalmente, pela deslocação dos já infectados, que foram cair em zonas ainda não contaminadas e assim espalhar a doença progressivamente.

Mas se dermos o valor que merecem os ditados populares, aceitamos a mensagem de que o homem é o único animal que tropeça duas vezes (se não mais) na mesma pedra.

Imediatamente temos que discorrer quantos inconvenientes e perigos comporta a loucura (comercialmente proporcionada com fúria constante) para que as pessoas sintam a “absoluta e incontrolável necessidade” de viajar, quanto mais longe melhor, sem importar se destas viagens vão conseguir aumentar a sua cultura real, que é bastante superior á considerada “cultura geral”.

Sem referir o magno problema, ao nível de desastre global, que as deslocações de massas provocam, são demasiados os capítulos em que devemos sentir que esta ânsia de ser visto com o um cidadão de primeira pelo facto de ter viajado de um lado para outro, é equivalente ao que compra livros a metro, ou até só as lombadas sem conteúdo, para encher as prateleiras de uma falsa biblioteca.

Num computo dos malefícios que o excesso de voos e deslocações sem necessidade, assim como a terrível pegada ecológica que deixam os enormes navios-cidade de cruzeiro, coloco, em primeiro e destacado lugar, o que neste momento aflige a humanidade. A disseminação de doenças. A anterior praga foi a disseminação da AIDS, ou SIDA, também facilitada pelas viagens de baixo custo.

Deixou de ser importante descobrir o foco inicial desta pandemia, assim como o deplorável apetite para comer, e até criar em cativeiro, animais exóticos. Outros focos de novas epidemias surgirão neste mundo, tal como aconteceram anteriormente.

O mais notório, neste momento, é que a disseminação foi facilitada, e até promovida por incúria e ambição de rendimentos económicos imediatos, pela massificação do turismo.

A primeira “cidade mártir, reconhecida oficialmente como tal foi Veneza. Que a publicidade turística envenenou e destruiu, sem atender a que, alguns anos, poucos, antes de vir a fechar as portas, já Murano teve que encerrar a sua famosa industria artesanal dos vidros coloridos e peças merecedoras, durante séculos, de apreço, derrotada pela importação de cópias imitações vindas do Oriente, a preços impossíveis de adoptar pelos artífices locais. Foram os retalhistas e armazenistas que, ao provocarem a massificação de compradores (incultos) colaboraram em matar a sua galinha com ovos de oiro.

Lisboa, famosa por ser velha e simultaneamente menina e moça, vai a caminho, acelerado, para ser também uma múmia repintada, caricata e abandonada como uma velhota que se mascara de pretensa rapariga. E DEPOIS?

terça-feira, 24 de março de 2020

VIVÊNCIAS – Nunca passamos por isto




O VÍRUS QUE NOS RECLUI

Não tenho referências, próprias nem através de testemunhas e relatos, de que uma ordem de recolher nas suas residências, por um período indeterminado, e em tempo de paz, fosse seguido com tanta aceitação e obediência pela maior parte da população, ou quase a totalidade. Causa admiração ou mesmo pasmo, tanta obediência.

Confesso que, como possivelmente acontece com muitas outras pessoas, estava convencido de que a fama de que os latinos, e até os tais lusitanos incapazes de se governar ou ser governados, eram pouco obedientes, desrespeitadores e rebeldes se as circunstâncias lhes fossem favoráveis, conduziriam a que uma parte notável da população não obedecesse as regras. Pelo menos enquanto não lhes fossem aplicadas penalidades. Aceito, porém, que estes desvios devem-se tão só por birra, por vontade de faltar, de provocar, sem que desejem derrubar o estatuto ou não julguem, serem válidas e correctas as normas apresentadas.

A situação de perigo que conduziu às normas inusuais justificam-se plenamente pelo facto de se estar perante um inimigo invisível e inaudível. Muito diferente seria o comportamento da população caso tivéssemos que enfrentar uma guerra com bombardeamentos, tiros, prisioneiros sem garantia de regresso, fuzilamentos, casas destruídas, vias de comunicação e transporte inoperacionais. O sermos afectados por vírus é algo normal, usual e perigoso. O que torna anormal este surto foi a rapidez e extensão global com que se instalou em pouco tempo. Isso é o que nunca tinha sucedido até hoje. 

Além disso, se pretendermos encontrar uma similitude a uma guerra mundial nos deparamos com uma diferença inusitada. É um ataque biológico extensivo!. Desta vez somos obrigados a recear os efeitos catastróficos restritos às pessoas e não a bens, com a agravante de se prever que venha a ter como consequência acrescentada uma crise económica e social de magnitude temível.

É imperioso que se respeite, tema e se ponham todos os meios científicos e sanitários para controlar e eliminar este inimigo invisível, mas muito perigoso. E durante uns tempos que se prevêem poder ser difíceis.

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Por razões de logística tive que sair “a campo descoberto”, ou seja para a rua, em duas ocasiões. Sempre com destino certo e com percursos definidos. Practicamente cruzei-me com poucas pessoas, uma de cada vez, máximo duas ou uma com cão (1). E nenhuma autoridade apareceu para nos inquirir acerca do motivo, ou desculpa por assim dizer, que nos levou a desobedecer o “recolher obrigatório” que nos foi imposto, ou requerido. Foi com satisfação e até muita estranheza, pelo raro, que poucas viaturas passaram por as vias normalmente concorridas.

A memória individual sabemos que é curta no tempo e também falsa no distorcer da realidade. Por isso o conhecimento que temos sobre as grandes epidemias, mesmo as mais recentes como foram a gripe espanhola, a tuberculose, as sezões, o tifo, a poliomelite ou a AIDS, sem referir outras mais anteriores como foram a peste bubônica, a peste negra, a febre amarela, o cólera e outras, que dizimaram populações. Mas de muitas só restam as memórias escritas.

Falta ver o que acontecerá no futuro imediato. Não se prevê um fim súbito desta ameaça. Antes pelo contrário. Admite-se que teremos, pelo menos, mais umas longas semanas de risco e recolhimento. Os alimentos necessários e as possibilidades de pagamento estarão disponíveis para toda a população?

(1) como pilheria li que alguém ansioso de sair para ar livre, e temeroso de ser punido pediu o cão do vizinho emprestado para o levar a passear, mais propriamente fazer as suas necessidades biológicas. Terá apanhado os cócós?

segunda-feira, 23 de março de 2020

UMA COLABORAÇÃO

Nestes dias em que o recolhimento é obrigatório restam-nos, para não estar totalmente isolados neste mundo tão povoado, as conexões via electrónica. normalmente limitadas às pessoas de família e algúm amigo mais decidido à partilha. São pouquíssimos !

Mas sempre surgem excepções. Felizmente. Mas ao partilhar situações e dificuldades sentimo-nos menos isolados.

De pessoa amiga recebí um relato RELATIVAMENTE LONGO (e sou consciênte de que cada dia que passa as pessoas se tornam mais avessos a longas leituras; preferem falar, falar, falar e  só raramente a escutar) . Atrevam-se a ler o que fui autorizado a editar, pois que é um exemplo de comportamento a seguir e valorizar.


Infectada ou nem por isso

Começo como sinto: trago o SNS debaixo da pele, como sucede com as pessoas que amamos. Posto isto, passo a narrar o meu episódio Covid 19 e a experiência, em primeira mão, do terreno. Um caso é um caso, não faz escola, mas coleccionemos testemunhos e o retrato será possível.
Há duas semanas, estava ainda a trabalhar em pleno, desenvolvi uma infecção na garganta, que se revelou chatinha e pouco habitual. Como reza a história doméstica “a mãe nunca fica doente”, retorquindo eu, mau feitio, “há pessoas que não podem ficar doentes”... confiei que a maleita não perduraria além das 24 horas e... deixei andar. Três dias depois continuava aflita e muito congestionada. E comecei a tossir. Cansa enormemente, a tosse. Sexta-feita 13 já não fui ao Museu. Tinha passado a semana a maldizer o (des)governo que fechava equipamentos, mas permitia que milhares de pessoas continuassem a usar diariamente os transportes públicos, apinhados à hora de ponta, e a entregar o passe à mão ao revisor. Também já não deixei os rapazes irem à escola, pese o (des)governo de, apenas no dia anterior, ter sido decidido não a(s) fechar. E fui tossindo, tossindo. Na 2a feira passada, a tosse estava tão pegada, dia e noite, que me resolvi ao único xarope que sobrava em casa, o Atarax. Impus-me uma dose mínima e sim, não falei com ninguém, tudo auto-recriação, de resto as coisas à volta tomavam o rumo que conhecemos e não tive nenhuma esperança de que o médico de família me atendesse. 
Esta 4a feira acordei muito bem disposta por ter finalmente gozado uma noite de sono completa — vantagens do Atarax... — mas, 5a feira, tudo piorou outra vez. E tinha agora a família em peso convencida de que estaria infectada e a exigir que fosse observada. Assim, ontem, às 4 da tarde, iniciei o périplo. Na verdade, estava convencida de coisas inexistentes, por exemplo, achava que existiriam postos de rastreio/despiste ao Covid 19. Que o centro de saúde atenderia a minha chamada. Que o meu médico de família responderia ao e-mail a pedir conselho. Não tinha dado importância nenhuma a uma certa sms que, na forma e no conteúdo, parecia coisa oficial. Quando liguei, fui atendida pelo Laboratório Joaquim Chaves e sim, tinham um posto onde realizavam o teste e sim, era particular. Fossem dar uma volta. Enquanto lutava com um mar de mensagens e dúvidas, liguei para o SNS 24. Sabia que cumpriria todos os protocolos definidos, não acredito que as coisas possam ou devam funcionar noutros termos. Abreviando, foram necessárias três chamadas esgotantes: por causa dos questionários, por causa das longuíssimas esperas, porque as chamadas caem e, se isso acontece, é preciso repetir o processo todo de novo. E aconteceu. Para terem uma ideia, e é chique, a última chamada venceu o Spartacus, que desafiara o Lou a ver, pela primeira vez. O belo Kirk Douglas penava na cruz e eu penava com ele e mais penei além do genérico. Deitei-me, já sem Kirk, mas com a música e a vozinha irritante que debitava, ritmicamente, qualquer coisa sobre devermos inscrever-nos no portal da saúde. Para pessoas que estão doentes, agrava os nervos já em franja. Era meia-noite quando, finalmente, um último rastreio e uma última enfermeira simpática e paciente definiram os passos seguintes: confirmava-se que devia ser observada, “aceita que seja no Centro de Saúde?”. Naturalmente, melhor era impossível, hospital ao longe. Mas afinal, não. A brilhantíssima, que o é, Unidade de Saúde Familiar Delta está fechada ao Sábado. Pior, em Oeiras inteira não havia um Centro de Saúde aberto ao Sábado. Com uma pandemia declarada. Pareceu-me que ela estava perplexa. Se me importava de ir então a uma Urgência. Pois lá teria de ser ou poderia aguardar por 2a feira? Não, não poderia, qual o hospital...? São Francisco Xavier, definitivamente. Nisto, a chamada cai. E eu caio. Em desespero. Penso em tudo, mas foco. Okay, três horas volvidas vou ter de reiniciar tudo. E reinicio. Mas ela liga de volta. Embora no 2o telefonema, apesar de ficarem com todos os nossos dados, me terem assegurado de que não estavam a ligar de volta, ela liga. E eu abraço-a. Virtualmente, pois claro, à moda dos tempos. Diz que já me encaminhara para o hospital, se posso ir de seguida. Aí a experiência fala mais alto e sou peremptória, embora com recurso a um álibi infalível: tenho dois menores em casa e estou sozinha, só posso ir de manhã. Ela anui e deseja-me boa sorte, coisa que agradeço e devolvo, para ela também, muita sorte e energia. Um risinho e desliga. Qual. Imagina, de madrugada, para o São Francisco, para as urgências maravilhosas que conheço de gingeira. Uma coisa aprendi, fruto dos internamentos por que fui passando. Se as coisas corressem pior e se, por motivo de força maior acabasse internada, ia querer saborear a memória do último pequeno-almoço em casa. Já sei disso. Nunca conhecemos com certeza a maré e o barco, pelo que iria acordar cedinho, beber o meu pote de meio litro de café acompanhado da minha torrada de pão de Rio Maior com manteiga fresca. Daria festas à Mia. E iria passear o cão. Os filhos, já estavam avisados desde madrugada. Sem pânico algum. Apesar de tudo, há que fazer por ter mão nas catástrofes.
O dia acordou lindo, lindo e a temível bateria do meu velhote estacionado há muitos dias respondeu simpática ao rodar da chave. Num instante, corria uma marginal quase vazia, o mar e as areias batidos pela luz da manhã. Pura magia, 46 anos volvidos sobre a mesma volta. Estacionei sem problemas 10 minutos mais tarde e pensei que, sem máscara, havia o risco de ser linchada. Improvisei com um lenço de papel, pois se não há máscaras no mercado.... dei entrada de seguida, algo espantada com a facilidade de tudo aquilo. E quase vivalma. Logo no rastreio, não gostam de mim e a senhora que me deu entrada ouve uma descasca das antigas — porque é que não me tinham dado imediatamente uma máscara? Enfim, não é nada verdade que não gostam de mim, só não gostam claramente do que conto, mas sobretudo do que tusso. Mantêm boa distância e, num instante, conduzem-me ao pavilhão pré-fabricado que está a fazer as vezes de tenda de campanha de isolamento. Asseguram que terei um cadeirão só para mim e que será sempre só para mim ao longo das horas seguintes. Verdade. 
A partir deste momento não sou mais eu, mas a soldada que conhece os cantos à casa e sabe bem demais como tudo pode correr sobre rodas se soubermos agir em conformidade. De contrário, podemos estar a comprar o inferno. Sei que acabaram os melindres, as estranhezas, a surpresa perante a diferença e perante o Outro, seja ele um companheiro de infortúnio, um auxiliar, um enfermeiro, um médico, um segurança. As instalações ou a falta delas. Ter presente: aquele pessoal está a trabalhar há muitas horas, horas demais, já viu e ouviu de tudo, estão, eles sim, com a paciência testada ao limite e, claramente, não têm meios. Escolho a poltrona certeira, num ápice: ao lado do vidro, só tenho companheiros para a direita, controlo a porta, o exterior e uma parte dos amigos. Tenho duas filas para trás, pelo que terei de usar o ouvido. Curiosamente, são os mais tranquilos, os alunos da fila de trás que aproveitam para uma soneca. Verifico que há gel e toalhetes, mais não preciso. A poltrona é fantástica, tipo as de dentista. Apesar dos comparsas ficarem a direito, escolho quase deitar-me. Se puder passar pelas brasas, é o que farei. A temperatura é quente, óptima para quem nasceu nas Áfricas; a televisão está a (des)funcionar, a imagem desfocada é a inevitável, até ali: gente vária debita variedades a respeito do Covid 19. Um dos auxiliares há-de esmerar-se por melhorar a imagem, passa a ser possível ler vagamente os números da exaustão. É cedo, há sete pessoas na sala. Presumivelmente, as casas de banho terão sido lavadas há pouco, opto por inspeccionar e não guardar xixis. Ninguém fala, o atmosfera só não é tensa porque há espaço, as pessoas estão bem instaladas, os vidros com cortinas descidas permitem, ainda assim, experimentar o dia bonito. Toda a gente tosse, mais, menos, alguns ataques pontuais. Sei que, se acaso não estivesse infectada, sairei dali infectada. Mas tudo bem, nunca achei que pudesse escapar, o que andamos é a querer evitar que calhe a todos ao mesmo tempo. Ao longo das horas, cerca de seis horas, serei chamada a fazer análises ao sangue, um RX, medições e questionários. Gosto sempre de fazer perguntas, mas percebo que não me vão dar folga. Penso que deverão ter orientações nesse sentido. De resto, topa-se o desconforto imenso daquelas fardas um quê de nada pouco credíveis. Máscara, óculos, touca, avental, luvas nas mãos e pés. Não é que não estejam protegidos, só me atrevo a pensar que o material parece frágil e mole. Nos intermezzos vou dedicar-me a consultar as redes, a pescar leituras aqui e ali, a ousar um desenho, mas, sobretudo, a observar em redor. Só vou guardar memória de quatro personagens: o velhote ao meu lado, que deita amiúde o olho na minha direcção, mas creio que com alguma curiosidade pelos rabiscos que vou imprimindo no bloco e um certo desconcerto pelas posições de pernas que vou variando, à medida do meu conforto e não de alguma ética de sala de espera hospitalar. Penso “amigo, habitua-te, vamos estar horas nisto, descontrai” e ele até que descontrai. Tanto que, já próximo do final daquela saga, terei tido direito a vê-lo em mangas de camisa, o braço fino exposto à seringa e depois ao soro, a conhecer a música do seu telemóvel que me lembrou os novos-velhos Modern Talking, a vê-lo comer sem gosto, a ir à casa de banho fazer xixi para um frasquinho plástico diminuto e a ficar de pé, no meio da sala, sem saber onde pousá-lo. Essa altura há-de coincidir com a minha desgustação de uma pêra cozida e tudo bem, fluidos são fluidos. Claramente, parece ser um dos pacientes que mais oferece cuidados. Mas é tranquilo, os Modern Talking é que é pior, é com certeza surdo. Depois há uma jovem com ar ligeiramente empertigado. A minha impressão irá conferir com o primeiro entendimento que fiz da sua postura, tendo pensado “estás tramada”. Aguenta hora e meia em pé, junto à porta que ora abre e fecha, sempre com a cabeça virada para fora. Vê-se que não é como as outras senhoras do povo lá para trás, mas, outra vez, “estás tramada”... acaba por ceder a um cadeirão, por acaso um que estivera ocupado e ainda não tinha sido desinfectado, penso que não ouviu o que explicaram de início; a menina experimentará três cadeirões pois, de cada vez que regressa de um dos exames, senta-se como se pela primeira vez. Está visivelmente incomodada connosco, que tossimos. Ela, de facto, não tosse, mas parece que terá tido febre. Reage mal quando vêm tirar-lhe sangue “aqui, neste sítio?”... a enfermeira “este sítio?” e procede como se ela não tivesse falado. Teve sorte, a menina, ainda pensei que lhe calhasse uma picada dolorosa. E depois, teve azar. Como estava “distraída” não percebeu que acabou sentada ao lado da mulher que está em piores condições, não tem sossego e acaba por ser a personagem mais perturbadora na sala... arrasta os pés e anda curvada embora seja alta e não tenha peso a mais. Bufa, diz “ai, Jesus” e passa gel nas mãos e puxa dos toalhetes do tabuleiro do pessoal de enfermagem e auxiliar. É a única que parece ter dificuldade respiratória, mas não estou segura porque percebo que é também uma grande fiteira. Acabam por pô-la a soro. Está sempre a deixar cair coisas ao chão, que depois apanha. Vai olhar-me de esguelha quando os seus reflexos de sobrevivência falharem: só depois das duas da tarde trazem alguma coisa que se coma (já me tinha levantado e perguntado se podia ir comer a algum lado, na brincadeira)... sopas, um prato principal e sobremesa. De início, quase ninguém quer nada; eu quero tudo. Só há quatro doses principais e eu aceito sem saber do que se trata. Quem quis ficar a par do menu e das escolhas, como se as houvesse, perdeu o lugar. Fui a única que saboreou a sopa de legumes aguada e insossa, o peixe e legumes congelados e duros e a pêra mergulhada num líquido sem espessura ou cor de cozedura como se tivesse ido ao Tavares Rico. Limpei tudinho e despertei olhares, vamos lá, interrogatórios. “Queridos”, pensei, “... o dia ainda vai a meio e podemos sair daqui à meia-noite ou até não sair.” Fim-de-semana, mudanças de turno, possíveis falhas no abastecimento às cozinhas, cuidem-se e não sejais esquisitos. Sempre achei que meio caminho para a cura passa pela alimentação. Quanto à qualidade da cozinha, reduzo-a a uma questão mental. E a verdade é que me soube tão bem que me achei no direito de pedir prognósticos temporais... coisa que eu sei irritar soberanamente quem está a trabalhar há 12 horas e, com jeitinho, prepara-se para trabalhar mais 12. Aludo à questão dos filhos e é verdade. No limite tenho de saber como orientá-los. Creio que comecei a ser uma chata dispensável. Pelas três e picos fui chamada e ouvi sem perplexidade, mas dúvida que julgo credível relativamente à contenção desta crise:
Não, as análises não incluem nenhum teste ao Covid 19, não há kits suficientes, não estamos na Coreia do Sul. Aproveito para sacar a confirmação de que nem sequer há kits para os médicos. É claro que nos casos objectivamente graves, fazem o teste, mas apenas nesses. As minhas análises estão óptimas, o RX limpo qb, é certo que a sintomatologia cansa, mas é tratar como se fosse uma gripe. Mas, então, não sei se estou infectada? Assumimos que está, sim, pelo que deverá ficar em quarentena e se agravar os sintomas, voltar. Voltar? Passando pelo SNS 24? Sim, de preferência. Caramba! Que iludida estava, primeiro achei que existiam pontos de rastreio, depois entendi que ao menos no hospital... a soldado que há em mim sacudiu os ombros, perguntou se podia levar o cão à rua, agradeceu muito a simpatia, a disponibilidade e a eficácia e rodou nos calcanhares dali para fora. Só arriscou se não lhe arranjavam mais uma máscara? Peça ao enfermeiro, boa sorte. O enfermeiro apressou-se a levar-me para a rua, desapareceu no edifício e regressou com duas mascarilhas de atilhos. Melhor que nada. Melhor, mesmo, é impossível. Porque se pertence ao corpo médico e hospitalar tratar e, desejavelmente, curar a doença, definitivamente não lhes cabe o milagre da multiplicação das máscaras e dos testes ao Covid 19. 
No regresso a casa através de uma marginal cheia de trânsito ecoa-me, na cabeça, o nome do rapaz muito negro sentado na linha do fundo da sala: Mamoud. Fico com a nota de poesia contida num nome assim, Mamoud.

Gisela Miravent, 21.03.2020

sábado, 21 de março de 2020

MEDITAÇÕES – Já era de prever



Chegou a sensatez

Deixando os bons pensamentos de lado e aceitando -com muita relutância- os preceitos extremamente egoístas -quando preferimos a opção de doirar a pílula (1)- que “por motivos de força maior” é necessário fazer opções, inclusive as mais cruéis, como o exemplo que todos conhecemos e aceitamos quando se relatam naufrágios, em que se dava a ordem de embarcar nos salva-vidas mulheres e crianças primeiro. Sem esquecer a mais terrível referência na atroz selecção entre autorização de mal-viver ou marchar direitos para as câmaras de gás nos campos de reclusão-extermínio nazis.

Começando de outra forma.

Poucos anos atrás vimos -os cinéfilos- um filme intitulado ESTE PAIS NÃO É PARA VELHOS, pois, meus parceiros etários, lamento ter que referir, sem adoçantes, que já nos encontramos mais perto da porta da morte do que insensatamente admitíamos. Ou, se não sabem ler as notícias -eu evito noticiários, mas mesmo assim...- ficam a saber que tanto na ITALIA como na ESPANHA já entrou em vigor a normativa, a seguir pelos serviços de saúde, de não gastar recursos humanos nem materiais a pessoas em fim de percurso, ou como dizem, com poucas possibilidade de viver mais.

De imediato os lares de idosos -armazéns pré-funerários- ficam de fora das atenções da medicina oficial, e, caso os residentes saibam da coisa, devem estar prestes a ter um enfarto de mija-calças. E também os que, como nos acontece ao casal de que formo parte, estamos sós, isolados, à espera de que o “iscalete com gadanha” toque à campainha.

Daí que, como dizia num escrito anterior, desta vez aplica-se o ditado de que Não há mal sem bem, cata para quem. Dito de outra forma: vai haver uma limpeza acentuada nos balanços etários das populações.

PENSAMENTO: A Natureza, além de sábia, não tapa os olhos como se diz da Justiça.

(1) Para quem desconheça: A referência a “doirar a pílula” tem a sua origem em tempos bem antigos, quando os médicos-farmacêuticos, quando tratavam de doentes acomodados (com a bolsa recheada) mascaravam as mezinhas mais desagradáveis cobrindo-as com uma fina película de pão-de-oiro.



quinta-feira, 19 de março de 2020

MEDITAÇÕES – Tempos anormais



PENSA MAL E ACERTARÁS

Tenho uma lembrança, muito antiga, que me recorda o ter ouvido, fosse de algum avô ou dos meus pais, um ditado ou conselho popular que dizia, mais ou menos, o seguinte: Pensa mal e acertarás, não porque a situação social neste momento nos indique que pode existir uma origem premeditada, malévola, humana, nesta epidemia que se estende a quase todo o globo, mas porque, casualmente, temos a noção (certa ou errada) de que o vírus em questão encontrou um terreno favorável, para que a Parca movimente a sua gadanha, entre os mais idosos, e até, por coincidência, encontra quase que coutadas de caça, sem necessidade de pagar licença, nos lares onde se “arrumam” os velhos que já não conseguem valer-se de por si.

Resumindo e dando a volta à panqueca, somos todos conscientes, pelo que nos chega de informação desde bastantes anos atrás, de que a estatística etária da população apresenta um progressivo aumento do número de idosos. Dito de outro modo: a população dos países em estado evoluído ou em vias de evolução está a envelhecer continuamente. E estes cidadãos não tão só não produzem como constituem uma despesa importante. Podemos dizer que os velhos -entre os quais me encontro- constituem um lastro, que evitamos referir -neste momento escrevo como se eu não fosse também um velhote a abater-.

CONCLUSÃO: feia e triste: Pode ser um mal que veio por bem. Ou, mais suavemente, uma evolução da natureza que pode ajudar a neutralizar, nem que seja parcialmente, o pesado desequilíbrio entre o número de habitantes em idade produtiva e a capacidade de os manter. Uma afirmação que escamoteia a realidade, pois não refere o facto de que o número de indivíduos necessários para manter o sector primário activo é cada dia menor.

Um pensamento que se pode tentar mitigar com outra máxima, entre as que se aceitam sem remorsos: Não há mal que por bem não venha. Até arrepia os pelos do cachaço pensar assim!


terça-feira, 17 de março de 2020

MEDITAÇÕES – Incongruências II



O PECADO ORIGINAL

Na publicação imediatamente anterior, deixei no fim da escrita o aviso de que hoje ia meter-me no campo das fantasias. Concretamente sexuais e eróticas.

Naquele espécie de prólogo referi as lições de catequese que me foram dadas ao longo da primária; deixei constância (que, como devem saber, fica à beira do Tejo) de que não prestava a atenção devida, aquela série, tão interessante, de relatos “históricos e formativos”. Mas muita coisa ficou bem gravada nesta mioleira desgastada. E entre estas noções bíblicas, logo após à informação, inquestionável, de tudo ter sido feito em sete dias (ou em três tempos, que vai dar ao mesmo), o capítulo que mais de impressionou, e certamente também aos outros infantes e infantas, foi a da modelação, com barro, de Adão, o primeiríssimo ser humano e como foi deixado à solta, em pelota, no Éden.

Deus, ou certamente que Jeová naquele então, já estava habituado a espreitar por aquele triângulo (precursor das fechaduras com buraco) viu que a sua obra prima, mesmo que de barro cru, (pois que ainda não existia a cerâmica) depois de correr e saltar, descobrir o transporte aéreo à Tarzan, e dormir enrolado como um macaco seu primo, tinha fases em que o seu canudo de descarga das urinas aumentava de tamanho, tanto em longitude como na grossura, e até se erguia como um mastro -sem saber que não se tinham inventado as bandeiras nem as velas para barcos. Tornava-se, inexplicavelmente, incómodo.

Adão ficava admirado com esta metamorfose corporal, e a atribuiu ao facto de ter comido alguma fruta de sabor muito picante. Mas não tardou em reparar que ao ver como os bodes se satisfaziam com as cabras e os macacos com as macacas, pensou, na sua ignorância congénita, que devia tentar fazer as mesmas artes com as fêmeas dos mamíferos, com tamanho similar ao seu.

Dito e feito. Foi o ver se te avias. Não houve cabra nem ovelha que, estando a mão de semear, escapasse de que Adão lhes desse umas massagens, por vezes violentas, com aquele instrumento que, pelo menos naqueles momentos, entrava em funções muito mais agradáveis do que o mijar.

Jeová, sempre espreitando desde as nuvens celestes pelo triângulo ocular, pensou, pensou, pensou, e batendo com a mão esquerda na sua testa (a direita estava atarefada...) exclamou: Mas fui um grande burro! Se para todos os bichos modelei macho e fêmea como coloquei Adão sozinho no Éden, sem companheira! Tenho que remediar isso. Fez uns passes de magia e Adão adormeceu como uma pedra. Vai Jeová e, sem anestesia nem desinfecção, à mão nua, arrancou-lhe uma costela, e a partir desta peça modelou uma capitosa fêmea (por sinal cabeluda, com dentes salientes e pouco mais grácil do que uma chimpanzé. Mas tinha tetas e vagina) para que Adão pudesse brincar, tal como via que faziam os cães, lobos, ovelhas, e até baleias.

E Jeová comprovou que Adão gostou tanto do truca-truca que não queria outra coisa, era comer, trucar, uma soneca, trucar e repenicar, e assim de dia e de noite. Nem havia cigarros! Adão e Eva seguiram, à letra, as indicações do Patrão no sentido de crescei e multiplicar-vos (isso no idioma de grunhidos que era o que vigorava na humanidade na altura. Ou seja entre Adão e Eva, e finito!. Jeová quando não queria usar o vozeirão de trovão, comunicava por mensagens mentais)

Jeová, que entre outras características, sempre positivas (pois era o Patrão), era um tudo-nada, ou um pouco, digamos mesmo muito, muitíssimo prepotente, e como não tinha parceira com a qual pudesse descarregar as suas frustrações, nem o sémen, quis travar aquela fornicação desmedida. Pura inveja! Mas não soube como, pois teria que contrariar as suas ordens, imperiosas, anteriores. E inclusive mais tarde esqueceu-se de dar uma ordem bem clara neste sentido quando chamou Moisés para lhe dar as tábuas das leis.

Foi preciso passarem uns séculos até que Santo Agostinho (que não me atrevo a imaginar que fosse eunuco, embora tivesse ideias de tal...) nos oferecesse uma série de regras e preceitos para restringir a fúria copulatória, tanto emissora como receptora. Deste Santo homem derivou o controle exaustivo que durante séculos os sacerdotes fizeram tanto aos solteiros(as) como aos casais, com a técnica da confissão e das penas e avisos de castigos post-morte para os que abusassem do líbido. Ou seja, do truca-truca e seus derivados.

Há ou não uma grave incongruência nesta história?