segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

MEDITAÇÕES - Sonhos e Rebanadas



QUANDO UM SONHO SE PROLONGA EM VIGÍLIA

Esta madrugada acordei, repentinamente. Mas desta feita recordava o argumento que bulia no meu subconsciente, ou consciênte quase no seu 90 %. O impacto mental que se tinha instalado era de tal calibre que, propositadamente, mantive-me estático, sem forçar a marcha do acordar e, excepcionalmente, pude continuar o raciocínio que tinha enquanto dormido. O que ainda não descobri foi o facto real, ou a vivência como digo habitualmente, que me deixou tamanha “ansiedade”.

Recordo que a cena começava numa minha visita a uma escola secundária, sem que destaque de onde era e se havia uma motivação concreta. Bati à porta de uma sala de aula, que estava em actividade e com a professora (doutora possivelmente) expondo a lição do dia. Pedi se me permitia estar presente, a fim de comparar a minha experiência de 65 anos atrás com o que actualmente acontecia numa aula numa escola oficial. Prometi estar calado, como atento observador, sem deixar de aceitar que este meu pedido não devia ser normal, nem sequer aceite. Mas confesso que nem sonhando cumpri a minha promessa.

Já meio acordado lembro que, progressivamente, ia ficando confuso perante o ambiente que reinava na sala. Pelos vistos aquilo era normal ou habitual. Deduzi, com boa vontade, que os tempos eram outros, bastante diferentes, e que a disciplina, quase que espartana, que eu tinha vivido já nada tinha que se comparasse ao comportamento, digamos que “democrático e descontraído” com que os alunos falavam entre eles e até do modo como interpelavam a professora. Por fortuna não “assisti” (no sonho) a cenas de agressão verbal ou física entre discentes e docente. Mas aquilo que vi chegou para me acordar com um peso social na mente gasta de um velho.

Não foi a primeira vez que meditei, e até comentei com amigos, o quanto se modificou a vida das pessoas em menos de uma centúria. Do trabalho infantil, (que era imprescindível por necessidade económica de muitas famílias, levou ao ditado popular que afirmava Quando nasce um filho traz um pão debaixo do braço) Passamos a uma realidade totalmente diferente. Que chega a ser absurda por exagerada. Os filhos tornaram-se, de facto, réis e em muitas ocasiões verdadeiros ditadores dos adultos.

O que se tornou normal, desde infantários a apoios nas deslocações, instalações das escolas e na multiplicidade de professores e auxiliares que se exigem, multiplicaram os custos da passagem de criança a adulto por um factor que ninguém se atreve a quantificar, pela noção prévia de que deve ser espantoso. Tudo é pago, ou fica na dívida pública, a preço de oiro do Brasil, com a agravante de que esta “obra” nunca fica acabada. Pior, ano após ano, a despesa cresce.

Progrediu-se socialmente? Pois com certeza que sim. Mas a que custo? Como exemplo de mudança temos que a esperança “de vida” (quantas vezes os últimos anos de estadia neste mundo não se podem valorizar com sendo, de facto, vida) passou de 60 para mais de 80 anos. E cada vez são menos as famílias que conservam os seus velhos no seio da casa. Tornou-se habitual os despachar para um “lar” onde aguardem pela morte, e não carreguem a família com trabalhos nem sempre agradáveis.

Ao arrumar os avós num buraco, mais ou menos infecto, globalmente tem-se que, entre reformas e custos de “manutenção”, nomeadamente alimentação, asseio, cuidados de saúde, consultas e medicamentos, os velhos são uma carga de despesas gerais considerável. Friamente e com mais adoçante do que açúcar esta situação empurra para a moralmente não aceitável eutanásia. Esconder esta situação e o consequente desfecho é comparável à falsa ideia de que a avestruz esconde-se enterrando a cabeça e deixando o corpanzil de fora. (*)

Voltando ao princípio: do nascimento até a vida laboral activa, ou seja quando já produz e não está à espera de uma ocupação que lhe permita a sobrevivência, ou seja o período produtivo do homem/mulher, digamos com salário ou objectos de produção pessoal comercializáveis, e o atingir o limite oficial de deixar de trabalhar, recebendo uma quantia variável, a que chamamos reforma, arbitrariamente podemos considerar que dos 70/80 anos de presença neste mundo, só contribuímos para a despesa geral (incluindo a nossa própria), durante uns 45 anos. Isso sem descontar férias e baixas por doença, mortalidade prematura e catástrofes. E chegamos à conclusão de que: Na média geral somos culpados de consumismo improdutivo durante quase metade da nossa vida.

E nesta excessivamente simples contabilidade não referimos os esbulhos, roubos, desfalque e erros que são apanágio das sociedades. NÃO ME PARECE QUE SE CONSIGA EQUILIBRAR O ORÇAMENTO GERAL, sem recorrer a truques contabilísticos e varrer para debaixo do tapete.

(*) Eu, pessoalmente, digo com convicção que já estou mais “fora de prazo” do que um iogurte fabricado em 1950.

sábado, 4 de janeiro de 2020

MEDITAÇÕES - Fazer futurologia



BRINCAR A VIDENTE

Tentar adivinhar o futuro, tanto se carregarmos uma forte dose de pessimismo ou, pelo contrário, nos esforçamos para ser optimistas, é uma tarefa inútil e sujeita a ter que dar a mão à palmatória. Daí que se optarmos pelo mais provável, sem pretender agradar a uns ou outros, pois a ambos é muito difícil, e pior se querermos iludir-nos, fica a opção mais sensata. Um máxima ligada ao “desporto-rei” mas que não deixa de ser válida em muitas situações: Prognósticos, só depois de terminado o jogo.

Seja qual for a janela de visão futurista em que nos debrucemos, num retraimento pessoal e sem nos atrever a avançar no campo da adivinhação, creio que qualquer cidadão (muito ou pouco pensante) traz consigo uma mistura de ilusão, desejos e realismo que, bem misturados, apesar de quase sempre antagónicos, conduz a uma montagem futurista que, ajuizadamente, nem sequer escrevemos. Mais direi, procuramos esquecer, não fixar, pois a veterania nos alerta que ter ilusões sobre aquilo que ainda não aconteceu é meio caminho andado para cair numa frustração, numa quebra de ilusão que se pode tornar obsessiva.

Até aqui só debitei palavras vás, ocas, sem sentido por não caberem no pragmatismo que deve reger o nosso comportamento. Mas será que ninguém conseguiu passar a sua vida -enquanto vivo evidentemente- sem desejar ardentemente, em silencio mental, que o futuro próximo fosse melhor do que o passado recente? É difícil pois que existe a frase, correcta, de que de ilusão também se vive, mas não diz o que inefávelmente vai a seguir: que ao verificar que nada melhorou, ou que ainda se chegou a uma situação pior, o “astral” que nos alenta ou nos abate passa por uma fase mais triste do que estaria se não tivéssemos criado ilusões.

In extremis temos que aceitar que aqueles que pouco, ou nada, pensam, ou pelo menos não fazem congeminações sem bases credíveis, podem passar os dias, semanas, meses e anos, com menos problemas mentais dos que afectam aos meditabundos. Além disso se diz que A pensar morreu um burro, e Quem pensa não dorme. Para nos consolar O que for soará. Ou para os crentes resignados : Será o que Deus quiser

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

MEDITAÇÕES – Acerca do bode


NEM TODOS OS BODES SÃO QUADRÚPEDES

NOTA PRÉVIA: Muito antes de vos oferecer uma situação real, que merece ser referida, vou impingir uma lição de culturazinha dispensável. Tenham paciência. E esperem.

Se nos limitarmos ao que se sabe, e se diz a respeito do bode, além de se associar a uma barragem e um castelo, também traz agarrado o estigma de que o seu sinónimo cabrão está, infame-mente desprestigiado por causa de que algumas esposas se afirma serem sexualmente infiéis aos seus maridos. Numa abusiva imagem metafórica se atribui o aparecimento, invisível a olho nu, de um formoso par de cornos, hastes, chifres, antenas, chavelhos,... com só uma haste à direita e outra à esquerda, caso o adultério é simples, ou com múltiplas ramificações, como um cérvido se a esposa infiel é de espírito mais magnânimo do que habitualmente se admite como quase aceitável, e opta pela distribuição dos seus tesouros e habilidades amatórias sem restrições e, além disso, gratuitamente, a mais do que um interessado.

Estes casos de vários condóminos para um mesmo bem, sem respeitar um mínimo do compromisso de unicidade conjugal supomos que, mesmo sem ter feito um inquérito social que o aval, não devem ser assim tantos. De não ser assim já a atribuição da cabronice deixa de ter um sentido biológico, restrito ao cabeça (enfeitada) do casal. A sociedade mantêm o adjectivo qualificativo para o desrespeitado, mas também qualifica a infiel e badalhoca esposa, que passa a ser valorizada como cabra.

Por outro lado, mas continuando na biologia, o macho cabrio, tal como sucede com muitas outras espécies, nomeadamente entre os mamíferos, dista muito de ser monógamo. A sua capacidade e vontade reprodutora o leva a ser insaciável e não monógamo. Luta denodadamente para conseguir a exclusividade de acasalar com um farto rebanho de fêmeas, e garantir-lhes uma descendência em conformidade com as suas capacidades reprodutoras e lutadoras. Por esta razão o bode ocupou, desde os inícios da domesticação dos animais, ser símbolo do libido e da intensa capacidade reprodutora.

Nas mitologias egípcia e grega, sempre com base na fonte inicial Mesopotâmica, o bode representava a timidez, introversão, criatividade e domínio, sem nunca esquecer o seu potencial reprodutivo. Concretamente, na mitologia grega era um dos deuses da natureza, sob a alçada de Dionísio. Numa versão simpática era identificado com o Deus Pan, entre outras capacidades, tinha a de se transformar em homem e poder retomar a forma de bode.

Uma figura polifacética, que ainda nos reserva mais capacidades: Os hebreus, novamente por transferência de mitos da zona do Paraíso de Adão e Eva, ou seja entre os rios Tigris e Eufrates, incorporaram na sua lista de personagens célebres a figura do bode expiatório, que ainda hoje é atribuído a alguém que, tendo culpa ou não, lhe são atribuídas todas a responsabilidade de uma malfeitoria que afecta a sociedade em geral. Eles. Judeus, sacrificavam o bode expiatório em vez de uma pessoa determinada. O pobre do macho cabrio era o recipiente final de uma culpabilidade mal atribuída, mas penosa para a sociedade. Esta cerimónia de lavagem por interposta figura é uma das celebrações do Yom-kippur.

Finalmente devo referir que com a chegada do cristianismo, ao bode lhe foi adjudicada a figura do demo, de Satanás, do mal em geral. Na idade média o bode foi associado à bruxaria, a nigromância e missas negras. As reuniões de feiticeiros e bruxas contavam, sempre, com a presença de um bode que se supunha encarnar o diabo, e que, diz-se devia copular com as bruxas. Consta, sem garantia de ser assim, que o bode também entra em certos rituais de lojas maçónicas. Com a óbvia negação dos membros que se reconhecem como tal.

E agora a história verídica:

Numa segunda feira que não fixei, mas era dia de trabalho, ao iniciar as actividades na oficina de cerâmica, deparei-me com um alegre convívio entre as raparigas. Muita risota e alegria. Senti curiosidade por saber o motivo de tanta galhofa. Uma das moças tomou a palavra e disse que tudo se devia à sua irmã, que casara na véspera, e no seu bode. Que era prenda da sua mãe. Não entendi nada. Mas decidiu completar o relato.

Dizia que o recém casado, quando viu a noiva já quase descascada, mas com aquele conjunto completo de roupa íntima, além de siderado, começou a manusear com a intenção de eliminar aquele formoso obstáculo, sem acertar na chave de segredo. A noiva, já esposa, divertidissima lhe indicou os colchetes do entre-pernas. Ele não sabia nada a respeito disso dos bodys, nem sequer elas usavam o nome correcto, mas deturpavam à popularucha. Era tanta a alegria quanto grande era a minha desorientação. Só no fim é que me percatei que ali havia uma degradação fonética instalada a pedra e cal entre elas .

Daí que sempre que vejo uma destas obras de arte íntima numa montra recordo o “bode” e rebento a rir (por dentro, em surdina...)

TENHAM UM BOM ANO 2020, os que leram pacientemente. Os outros, não sabem de nada.


quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

MEDITAÇÕES - Uns são gordos e outros esguios


MEDITAÇÕES – Uns são gordos e outros esguios

MAIS UMA VEZ SOBRE OS DRAGÕES

Em todas as épocas e lugares do globo, o homem tem-se debatido, mentalmente, com os dragões, se entendermos como tais os seres imaginários que são responsabilizados de acções que nos ultrapassam. Se estivermos dispostos a ter uma visão abrangente de todos os seres míticos que a humanidade tem adorado ou temido, que são duas faces da mesma moeda, sempre, mas sempre sem falhar, encontraremos na base destes mitos a Natureza, e os seus “fenómenos” que, por obedecerem a forças que nos ultrapassam, o homem sempre procurou explicar com elucubrações difusas, notoriamente incríveis a mentes que se pretendem esclarecidas.

Já não recordo qual foi a faisca que me incitou a entrar, positivamente a saque, no tema do mítico dragão e de tudo aquilo que fui encontrando, nem sempre evidente, mas que deram azo a credulidades de génese ignota mas perdurável. Actualmente o assunto, no que me atinge pessoalmente, está arquivado, em pousio. Mas paulatinamente vão surgindo comentários e assuntos que levam a recordar o que mantenho compilado, copiado, desenhado, gravado e escrito, e próximo a decidir a editar em livro.

Uma conversa entre amigos fez emergir, das profundezas do arquivo, a dicotomia entre o dragão oriental e o ocidental. Ao primeiro lhe é atribuído um corpo longo, ondulante, serpentina e voador, enquanto que o dragão europeu ocidental permaneceu, durante muitos séculos, como um ente perigoso, difícil de visualizar, com corpo compacto, rechonchudo e habitualmente residente em grutas, fragas ou florestas com densidade impenetrável. Logicamente, dado que o homem pretende explicar tudo o que o rodeia, deve existir alguma razão para que as duas etnias draconianas, oriental e ocidental, sejam tão diferentes e até de como são definidos os seus caracteres.

Para entender a divergente imagem do dragão entre Oriente e Ocidente temos que recuar muitos séculos, e analisar os elementos de representação iconográfica que encontramos hoje. Sem dúvida que as representações orientais são muito anteriores às ocidentais, o que coincide com a reconhecida decalagem cultural que existiu entre estes dois sectores do continente euro-asiático. O que ainda hoje nos pode causar admiração é a insistência em representações de dragões que se mantêm viva no Oriente, sendo corrente o uso decorativo em porcelana, escultura, talha, pintura e gravura. Mas sempre com ar feroz e indutor de temor.

Perdoem a insistência, mas é curioso observar como o dragão chinês, e dos países seus colimitantes, tem sempre uma face agressiva e uma garras armadas de poderosas unhas. Ambos sinalizando um evidente e potencial perigo. E, apesar disso, nos é referido que, para as pessoas da zona, o dragão pode ser um entre protector perante perigos que não está no poder do homem conseguir neutralizar. Por isso encontramos dragões no topo dos telhados dos templos e palácios, nas esquinas das casas e em muitas entradas de respeito, numa posição equivalente à dos leões que guardam museus, e outros edifícios de respeitabilidade no ocidente.

Recuemos mais, até os primórdios da cultura asiática. O mito tem o seu início nas luzes mutáveis e alongadas, com aparência de cobras, que circulam pelos ares (em determinadas ocasiões). Não se sabia a que era devido, qual era a sua origem, mas sabia-se que podia ser o presságio de graves alterações atmosféricas, de ventos fortíssimos acompanhados de chuvas torrenciais e até de inflamação por raios. Tardou tempo em se descobrir que aquelas serpentes coloridas nos céus eram auroras boreais, causadas pela atracção magnética dos pólos terrestres para os ventos solares, carregados de energia, ionizavam a atmosfera. O que sim encontraram foi uma relação entre as cobras celestes, multi-coloridas, e as temíveis tempestades.

Até aqui o respeito aos fenómenos atmosféricos, eléctricos ou luminosos, foi motivo de atenção e culto por todos os povos de Terra. A forma de tentar neutralizar o perigo é que foi diferente para os orientais, mais meditadores e simbolistas do que os primários ocidentais. E o que no Oriente decidiram foi que deviam procurar, com insistência, ter uma relação de amizade com o dragão, sem esquecer que ele tem poderes inatingivel para os humanos. Que o deviam satisfazer e adular, sem deixar de o temer.

É muito interessante saber como e quando a decisão de procurar fazer amizade com o mítico dragão, passou do Oriente para Ocidente. Já os exércitos de Alexandre se depararam com tribos indígenas estruturados em exércitos, que em altos galhardetes desfraldavam longas tiras com representações de dragões, que ondulando com o vento, imitavam as auroras boreais. Provavelmente só os portadores destes estandartes conheciam o seu significado. Mas foram adaptados, pelos exércitos gregos e romanos como método de gerar terror ao adversário. Mais tarde nos exércitos modernos, nomeadamente em certos esquadrões de cavalaria, adoptaram o nome “dragões” . Mas o simbolismo da serpente voadora foi-se esbatendo.

O dragão ocidental passou a ser um ente terrestre, com propriedades mágicas, entre elas as de se poder deslocar pelos ares para justificar a sua ubiquidade, ou seja a presença em lugares muito distantes entre si. Só muito recentemente, com o auge dos filmes de animação, os “nossos” dragões voadores passaram a ser representados com asas de grande envergadura, sem todavia obedecer às relações de potência e envergadura que são, naturalmente, seguidas por aves e morcegos.

(*) mas, pragmaticamente, não me decidi a fazer a despesa de editar para desfazer em pasta reciclada.











MEDITAÇÕES - Obsessões parvas


PAIXÕES IMAGINADAS

Especular, sem ter uma base sólida onde me apoiar, é um atrevimento que pode dar resultados desagradáveis, ou pelo menos errados. Mas adiante! Atrevo-me a dizer que em muitas cabeças, consideradas como relativamente sensatas, ou pelo menos loucas à solta, sejam de homens ou de senhoras, devem existir, no canto da vassoura e da esfregona, uma pessoa pela qual se suspirou durante bastante tempo e que, anos mais tarde de ter o seu início, ainda constitui uma espécie de cume inalcançável e indestrutível.

As únicas referências que consegui recordar onde aparecem paixões imaginadas, estão todas do mundo da fantasia, ou descendo um pouco à terra, na literatura, incluída a poesia, e nas artes plásticas. O que é mesmo difícil é aceitar que alguém estava atacado pelo vírus mental responsável por tal obsessão. A razão desta rejeição em admitir uma situação que, a meu ver, deve estar muito estendida pela humanidade é porque aquilo que surge, mentalmente, não casa com a realidade vivida.

Muitas das personagens que nos obcecam sentimentalmente é pouco provável que tenham estado num nível de proximidade que justifique o impacto que se admite causou. Ou seja sente que não tem um fundamento plausível. Daí que se pode diagnosticar como uma falsa memória, implicando alguém que, sem razão, a mente decidiu que nos deixou o testemunho de uma “paixão não transmitida ou não correspondida” .

Este tipo de obsessões profundamente enraizadas são referidas com bastante frequência na poesia, literatura, pintura e artes plásticas. Alguns casos tornaram-se paradigmáticos, não só porque existem dúvidas de qualquer deles ter chegado a vias de facto, mas porque se tem quase a certeza de que tudo não passou de uma miragem obsessiva., unidireccional.

O mais famoso, ou pelo menos aquele que levou a ter muitos comentadores e especuladores, corresponde ao quadro da Gioconda, com o seu ambíguo sorriso, pintado pelo mestre Leonardo de Vinci. Aliás os quadros, pois existe mais do que uma versão, sem contar as cópias identificadas como tais e as falsificações. Muito se escreveu a propósito deste amor, que supomos ter sido mais platónico do que carnal, entre o grande Mestre e a dama que foi o seu modelo. Até porque consta o Mestre Leonardo ter outro tipo de paixões carnais mais acentuadas e, embora usuais, não aceites. E, caso o mundo civilizado não termine de repente, é muito provável que esta obra continue a chamar a atenção e a fomentar especulações.

No âmbito da pintura há outros exemplos de obcecações do artista para o seu modelo. Teria que dar uma volta pelas monografias da pintura e descartar aqueles casos em que o pintor se admite, ou se sabe, que conseguiu os favores, ou o prazer da carne, como se diz numa tentativa de esclarecer sem ser vulgar.

Já dentro do período de tempo em que me tem calhado estar presente, o que leva a palma de fauno-mor foi o malaguenho Picasso, e aquele que deu muita tela à sua dama, o seu coetâneo Dali, mais a sua “esposa” Gala, apesar deste ser um reconhecido homossexual.

No campo da literatura podemos recuar até Dante, com o seu amor mental, reservado mas evidenciado entre nevoeiros de fantasia, para Beatriz. Ainda mais sonhado, até ao nível da obsessão, é o que Cervantes insistentemente refere da sua criatura, nitidamente lunático, Dom Quixote, ou a personagem “real” que o autor colocou na visão terrena do sonhador com o nome de Alonso Quijano, um nobre arruinado e totalmente fora da época em que decorre a acção. A musa, o amor obcecado de Cavaleiro louco era a imaginada Dulcineia del Toboso, uma mistificação da rústica Aldonça Lourenço, não mais do que empregada numa albergaria de caminhantes e comerciantes de passagem.

E deveria entrar directamente na literatura portuguesa, onde não faltam os amores não correspondidos, imaginados ou proibidos, Mas este tema já foi exaustivamente debatido e publicado no seio da meio nacional.

Onde eu queria chegar é à possível existência em muitas mentes, ainda hoje em estado latente, de obsessões amorosas que jamais foram correspondidas, ou nem sequer tentadas. Que ficaram nas mentes delas ou deles como enquistadas e que, periódicamente afloram para ensombrar a razão, ou seja a mente, do afectado/a.

Uma situação que se tornou recalcada, e resguardada no tal canto escuro e esconso dos artigos de limpeza caseira, e que a pessoa que a sofre, ou a vive mentalmente, não tem a mais mínima satisfacção, Mais até, pode causar uma adversão, por ser consciente de que não tem qualquer razão de existir. Que é uma especulação dos neurónios, baseada em detalhes quiméricos, sem importância real, só virtuais. Dizendo de outra forma: Estas obsessões “amorosas”, normalmente não estão ligadas a visões, imaginadas, no campo do erotismo, nem passivo e menos activo. É esta sedimentação mental na zona do mais respeitoso amar que as torna mais duras de roer e duráveis.

Se as imagens mentais se completassem com visões de índole sexual, ou mesmo pornográfico, não permaneceriam durante décadas. Seriam substituídas por outras ainda mais cruas. É a imaginada possibilidade de terem tido alguma oportunidade, que não existiu, que as tornou perenes.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

MEDITAÇÕES – A culpa é sempre de outro



SITUAÇÃO ETERNAMENTE CÍCLICA

Portugal é um pequeno país, belo, interessante e povoado de gente boa, maioritariamente mesmo boa gente, educada familiarmente e prestável para ajudar a quem lhes surja pela frente, sempre e tanto que este desconhecido seja, por sua vez, respeitador e ofereça sinais claros de que pretende cumprir, nem que seja minimamente, as regras sociais que se tornaram como código de conduta nacional. Um decálogo não escrito nem avalado por alguma Assembleia Política.

Mas (sempre existe um ou mais MAS...) reconhecer a boa qualidade da maioria das pessoas do País não nos pode esconder o hábito, em excesso de uso, de atribuir as nossas desgraças, em geral cometidas por uns poucos mas que afectam à totalidade da população, que sem dúvida corresponde ao descalabro, esbulho e rapinagem a que, quase que permanentemente, são sujeitos os bens públicos. Se todos os que se aproveitam, desmedidamente, dos fundos públicos, andassem pelas ruas com mascarilha, como os Irmãos Metralha da banda desenhada, tínhamos uma densidade de máscaras inesperada.

E, sintomáticamente, os mesmos que são, de facto, os culpados da pobreza endémica deste agradável País, se encarregam de propalar aos quatro ventos a imposição de normas de conduta económica, por parte daqueles a quem pedimos ajuda para não nos afogar nas águas alterosas dos nossos heróis do passado, que, segundo afirmam os nossos concidadãos falantes, são as responsáveis do perda de capacidade económica própria e daí a constante queda ao abismo, em vez de poder tratar de tu-a-tu os nossos “parceiros” credores. Em verdade, os ignotos e habitualmente desconhecidos irresponsáveis da eterna desgraça, não necessitam de se colocar à janela dos Paços do Concelho para denunciar o “dragão” que nos devora. Há sempre uns mandaretes que se encarregam disso.

Para a tarefa de “elucidar” a população, mais ou menos crédula, sempre encontram papagaios que, a troca de um punhado de "limpaduras" sem préstimo, se encarregam de catequizar o cidadãos com os mesmos argumentos de sempre. E assim o ciclo mantém-se em perpétuo movimento.

Já devemos estar mais do que saturados, fartos até o vomito mental, de ver e ouvir que muitas das nossas penalidades foram ocasionadas pelas “condições draconianas” que nos impuseram aqueles a quem fomos pedir ajuda. Os desqualificamos como serem uns carrascos que impuseram a troika que nos subjugou. Sem nunca, ou só raramente, confessar que foram as nossas manias de grandeza, os desvarios de imaginar sermos capazes de novas Mafras e do conseguir um renascimento imperial, sem os alicerces de suporte indispensáveis, que nos empurraram para projectos que, desde o papel já se via terem um peso excessivo para as nossas forças.

Os sucessivos mega projectos, desde o Centro Cultural de Belém, -que nunca se terminou e se entregou de mão beijada a um especulador atrevido- e depois nas sucessivas maravilhas que nos deviam encumbrar ao topo da fama, como foi a Expo. Nada se aprendeu nas costas alheias, mesmo aqui ao lado, com a Expo de Sevilha e a espampanante Nova Valência. Não senhor, nós tínhamos estofo (sem dinheiro...) para muito mais, e em simultâneamente encher os bolsos dos urubus que incitavam as decisões que os iriam beneficiar.

Ou seja, periódicamente nos libertamos do síndrome de honradez que carregava Egas Moniz, e os seus familiares, quando vestidos de burel foram prostrar-se perante quem os podia ajudar. Não se quer voltar a este passado. Agora a soberba da ignorância cristalizada na modernidade, que nos passará ao largo, como tem acontecido habitualmente, já nos iluminou com a Web Summit, seja lá o que isto for. Novos projectos, novas profissões, novos horizontes radiosos se ergueram perante os olhos maravilhados. Entretanto organizam-se novos fogareus, novos espectáculos para encandear a população, e, mesmo que existam os alertas, insistentes, sobre o facto de que as contas públicas não passam de uma manta de retalhos, sempre mais curta do que a cama, a população não sabe como reagir.

A cidadania está totalmente condicionada pelo consumismo induzido e pelo “desporto rei”. As dificuldades económicas de muitíssimas famílias não encontram um prego a arder onde se possam agarrar. Os que dizem estar dispostos a ser seus defensores, os que denunciam constantemente, não mostram a coragem nem a credibilidade que os torne paladinos do população adormecida.

Por sua vez, a personagem omnipresente que tem o dom da ubiquidade, dos sorrisos, dos abraços e falinhas confortáveis, pertence ao restrito grupo dos dominadores. E por mais teatro que faça não passa de mais uma personagem de revista, e como tal, de efectividade nula, efémera, mesmo que permanentemente presente. Desculpam-no com frases do género das que se usam para disfarçar o mau comportamento dos meninos traquinas: Já sabem que “ele” é assim.

No fundo o máximo representante da cidadania em pouco difere da que fazia o falecido Almirante, também pessoa educada e membro do clâ. E assim estamos. Sem rei nem roque que tente dar uma reviravolta neste eterno desvario que comanda um País de sonhos. Não admira, portanto, que existam muitos cidadãos que, esquecendo as singularidades que o tornaram detestável, sonham com o regresso do novo Dom Sebastião, hoje imaginado, qual fantasma, pelo desaparecido ditador Salazar.

Não podemos culpabilizar a insensatez dos que desejam regressar a passados já mais do que gastos e irreais nesta actualidade que nos rodeia. Os estômagos vazios -metafóricamente escrevendo- sempre geram sonhos de mesas Pantagruelicas, que, fatalmente se esfumam quando tratamos de as concretizar.

Resumindo: FALTA UMA PERSONAGEM, CREDÍVEL, QUE NOS APONTE PARA O CALVÁRIO QUE TEMOS QUE SUBIR, mas com a promessa solene, de que tudo fará para travar a inevitável matilha de hienas e urubus que estão ansiosos de devorar o pouco que resta.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

MEDITAÇÕES- Treinar o maquivaelismo




OS JOGOS DE MESA COMPETITIVOS

Tanto aconteceu com os filhos como mais tarde com as netas, que para os entreter e ao mesmo tempo os treinar para o futuro, mesmo que indirectamente e com a aparência primária de serem actividades inocentes, os introduzi nos aparentemente simples jogos de mesa, sejam de tabuleiro, com cartas de baralho iguais às dos adultos, figuras ou peças móveis.

Numa visão cândida classificaria estes jogos “de entreter” em dois tipos. Uns são condicionados pelo acaso, seja o que chamamos sorte ou azar -como pode ser o caso da lotaria, sem batota- pois a decisão da jogada está muito condicionada pelo valor (se jogar com dados) ou pela figura que lhe sai em sorte. No outro grupo temos aqueles jogos competitivos onde, desde o primeiro movimento tenta-se estruturar a vitória e derrota do oponente. Podemos qualifica-los como “jogos de guerra

São estes jogos, do segundo grupo, que, passados anos em que os aceitei como sendo simples jogos, terminei por os considerar, sem dúvida, como maquiavelismo. O xadrez é, para a maioria das pessoas, o jogo mais complexo e propício a meditar e estudar tácticas a curto ou médio prazo -tudo depende da experiência, saber e categoria pensante dos dois jogadores- Sem dúvida é um desafio que não está totalmente na dependência da sorte, a não ser, quando existe um equilíbrio entre os dois jogadores, na escolha da primeira jogada. 


Desde criança me alertaram sobre ser indispensável, para vencer em muitos jogos competitivos, seguir e tentar prever não só as jogadas que podem surgir mas, e de suma importância, ter sempre em mente, desde o início da partida, a necessidade em ter um inventário actualizado das peças que já foram jogadas, mais as peças que tem em seu poder, e daí poder deduzir o que está para sair do monte e, principalmente, o que pode ser que o oponente disponha na sua mão coberta..

Sei e admito sem argumentos que possam contrariar, que esta técnica de jogo é que deve ser seguida, se pretender vencer -sempre no caso dos competitivos, nem que seja a feijões- Com ela pretende-se contrariar, ou mesmo eliminar, o  factor sorte ou azar. Ou seja, dos que não podem ser muito influenciados pela capacidade cognitiva, memoristica e calculista do jogador. De facto os jogos competitivos são uma preparação para a vida real, pois incitam e preparam para a previsão, assim como nos podem dar possibilidades para colocar o adversário num beco sem saída, derrotando-o. É a cínica regra social, claramente maquiavelista, que se deve ter presente para não ser destinado, sem apelo, à mó de baixo.

Há quem defina esta situação, real, da vida em sociedade, com a afirmação de que o homem vive sempre numa selva, em perigo de esmagamento, de morte. Só escapam, sacrificando-se eles próprios, aqueles que optam pelo eremitério de facto-nem que seja figuradamente- num alheamento quase total. Escolherem o ostracismo. O que equivale a renegar de uma vida em sociedade aberta.