quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

MEDITAÇÕES – Ganhar e Perder



ASSIMILAÇÃO, MISCIGENAÇÃO, SEGREGAÇÃO

Um das situações sociais que acompanhou, desde os primeiros homens erectos, e certamente ainda antes, quando andávamos como os gorilas apoiando o corpo também com os membros anteriores, é o modo como convivemos com os que não são exactamente iguais a nós. O que não garante que com os iguais andemos sempre aos abraços e beijos... Andar à pancada, facadas, envenenar e outros devaneios de convivência e tão próprio dos humanos como o espirrar.

Os arqueólogos, em conluio com os geneticistas da actualidade e os restantes estudiosos da evolução, nos alertam paulatinamente de que encontram novos elos da nossa ancestral cadeia evolutiva. E nem sempre estas descobertas se encaixam na sequência anteriormente definida. Quando era um jovem e inexperiente estudante as referências de humanos pré-históricos resumiam-se aos Crómagnon e aos Neandertal, com o consequente diferendo de se estas duas ramas evolutivas eram compatíveis, miscíveis, ou se uma eliminou a outra. Hoje creio ter lido que nem uma coisa nem outra, pelo menos em absoluto, que do encontro entre membros (e membras) duns e outros também geraram mestiços. E isso sem fazer referência aos seres que apresentam sinais corporais de que não estão muito longe do homem das cavernas, ou tabernas para que não as visualize como grutas.

Como as ciências evoluem sem descanso, ao analisar, geneticamente, inclusive fósseis humanos, sempre incompletos e petrificados, já se conseguiram identificaram outras ramas de evolução de hominídeos, o que veio complicar ainda mais a nossa estimada árvore genealógica. Esta confusão está em linha com a actual fúria vandálica com que se abatem as árvores vetustas.  

Se entrarmos em linha de conta com as condições climatéricas e de alimentação, próprias das zonas onde viveram aqueles que hoje nos aparecem como fósseis, justificam-se muitas mudanças permanentes e transmissíveis na estatura, na cor da pele e dos olhos, além do cabelo e mais pilosidade corporal. Estas alterações corporais ao se tornarem hereditárias conduziram a uma verdadeira confusão visual, que em épocas anteriores, mas recentes,  se pretendeu arrumar com a noção de existirem diversas raças de humanos.

A educação e civismo, que muitas vezes ofuscam em vez de esclarecer, renegaram deste conceito, digamos que pelo menos classicista, por decidir classificar os indivíduos por raças, como se os humanos fossemos (e somos) equivalentes a animais domésticos de convívio habitual, sejam cavalos, cabras, ovelhas, ruminantes ou aves de capoeira. Coisa feia! Intolerável no séc XXI! FICOU DECIDIDO, NÃO HÁ RAÇAS HUMANAS!!! o que não elimina as diferenças entre um esquimó e um cafre, como exemplos claramente opostos.

Felizmente que nos dizem ter terminado a escravidão humana, mesmo que ainda exista e não pouca. Devia ser um sossego poder adquirir, no mercado livre, algum prisioneiro/a avaliado pelo corpo, a dentadura (como os equídeos), a idade presumível e, como a nossa Igreja nos garantia que estes seres não tinham alma, podiam ser tratados com o rigor que fosse compatível com a sua rentabilidade. Os cuidados e atenções que o dono dos seus escravos lhes proporcionava deviam ser, ressalvando as distâncias temporais e físicas, com os que se dão a um tractor, uma ceifeira-debulhadora ou uma camionete.

Com a vantagem de que se podiam vender quando não fossem indispensáveis, e inclusive negociar as suas crias, mesmo aquelas que que tinham algum dos patrões como co-progenitor. Um escravo “clarinho” era mais valorizado do que um retinto. Uma confusão que pode ser habitual é a de imaginar como escravos exclusivamente indivíduos de ascendência africana (isso de ter que fugir do termo pretos é uma seca...) desconhecendo que também os havia branquinhos pois que podia-se ser condenado à escravidão por alguns delitos que o justificassem (?). Estes brancos deviam estar bastante sujos por falta de asseio, Mas entre os escravos do mercado encontravam-se amarelos, asiáticos de diferentes etnias e indígenas das Américas. Podemos aceitar que tudo o que vinha à rede era peixe.

Só para recordar a quem não saiba: O senhor feudal, cá do sítio e de todos os quadrantes europeus, era não só amo e senhor das terras como também dono absoluto dos seus habitantes, com os quais podia entreter-se a fazer as velhacarias que quisesse, inclusive matar e esfolar ou vender como qualquer outro bem transaccional. Entre nós, -no Portugal, como dizem os migras- até poucos anos atrás havia quem se referisse aos trabalhadores braçais do campo como servos ou ganhões, com uns direitos cívicos um pouco inferiores aos já diminutos dos seus amos, caso estes não fossem da estirpe dos “grandes senhores”. O termo amo já nos revela muita coisa...

Mais abaixo deste escrito aparecem, destacados, uns termos que estava previsto incluir no meio dos textos, pois que, sem dúvida, estão em sintonia com o carácter ambíguo do que mal escrevi. Os deixo passar com a certeza de que o leitor, ou leitora, os podem arrumar convenientemente no lugar devido do contexto (esta do contexto é boa, podem guardar para as palavras cruzadas)


Assimilação Compenetrar-se de ideias ou sentimentos alheios. Tornar-se semelhante. O oposto da segregação. Não confundir com as gorduras corporais excessivas, fruto da assimilação dos excessos alimentares; mesmo nas pessoas que afirmam que até a água os engorda (?)

Miscigenação Assimilação por mestiçagem, sem pretender a igualdade. Nada de confusões! Nem todos podem vir a ser um Almada Negreiros, ou um presidente de governo. O a fadista Míssia, que não é carne nem peixe.

Pragmatismo Valorizar só o que nos seja útil. Pode-se utilizar, erradamente, como um falso sinónimo de cinismo.

Segregação Opor-se, até com violência, à mistura racial. Promove a separação, o isolamento, castigando os atrevimentos de convivência, excepto quando é o patrão que os procura. Os cidadãos de terceira que querem galgar para a primeira especial e reservada sabem que devem aguentar com atitudes segregacionistas por parte dos que não os aceitam como seus pares. Pelo menos enquanto não tenham amassado grandes fortunas, sem trabalhar, como é óbvio.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

MEDITAÇÕES – Como queremos o Exército Nacional.



Organizado com recrutas, profissionais ou voluntários?

Antes de avançar no tema de hoje, por razões que não são de interesse geral, entendo que é honesto referir que eu, pessoalmente, e por condições de isenção legal, não “fiz a tropa”. Portanto as minhas noções não estão baseadas num conhecimento em primeira mão. São mais o fruto de uma visão histórica e do que me foi possível deduzir do que vi, estudei e ouvi.

Tenho um conceito, empírico, de que na actualidade os jovens que atingem a idade em que habitualmente eram chamados a se incorporarem nas fileiras militares, no que se denominava de recruta, tal obrigação é vista, por muitos deles, como uma exigência abusiva e sem sentido. Estamos vivendo um longo período de paz na Europa Ocidental, anormal se olharmos para a história. Não há memória de um período sem conflitos armados entre vizinhos que se possa equiparar. Todavia reconhecemos que perto das fronteiras deste “pacífica” Europa continuamente deflagrem conflitos armados, e que em alguns deles inclusive se enviem militares de Portugal.

O que decidiu foi optar pelo voluntariado, tendo sido abolida a recruta obrigatória. Mas em compensação (?) abriram-se as portas dos quartéis para as raparigas. Já não exclusivamente para ocupar postos de não combate mas, pelo contrário, consideradas em igualdade de condições com os militares masculinos. Algumas mulheres já atingiram graduações e até postos de comando.

Esta versão pacifista que desobrigou a permanência, mesmo que temporal, nas forças armadas é practicamente geral em todos os países do ocidente europeu. Mas esta bondade decretada não garante nem descansa os que receiam a possibilidade de se iniciar um grave conflito armado. Não porque se respire um ar belicista que alerte sobre este ressurgimento, mas porque os especialistas entendem que as forças disponíveis actualmente para entrar em campo não se podem valorizar como suficientes se tiverem que enfrentar um inimigo forte e bem preparado.

A solução que se tomou, numa tentativa de equilibrar os efectivos por comparação com o estimado poder de um opositor, com recurso a voluntários-mercenários é a mesma que sempre existiu, e que foi uma das causas do declínio do Império Romano. Recordemos que a incorporação de tropas recrutadas nas colónias esteve vigente, com um peso numérico não desprezível, nos dois conflitos mundiais que ainda perduram na memória colectiva. A estabilidade e boa vida que os cidadãos romanos tinham na vida civil não os motivava para se oferecerem para incorporar as famosas legiões imperiais. Progressivamente foram admitidos, ou contratados, guerreiros que foram adversários temíveis na véspera e chegou o momento de que estar legiões, teoricamente sob as insígnias imperiais ou republicanas, deixaram de obedecer os seus comandantes romanos e ficaram leais aos seus conterrâneos “bárbaros”.

Recordemos que a incorporação de tropas recrutadas nas colónias esteve vigente, com um peso numérico não desprezível, nos dois conflitos mundiais Facto que por perdurar na memória colectiva, não é legítimo escamotear

Retomando a referência do Império Romano, reconhecemos que em todos os grandes conflitos se incorporaram mercenários, voluntários a soldo, mais fieis aos seus chefes de origem e às possibilidades de saque, do que à Roma dos togados. Ou seja, a parcela mental que pode incitar à luta para defesa dos símbolos da Pátria e, em consequência, o arriscar a vida para resguardar o que o soldado considera ser mais importante do que a possibilidade de ser ferido ou morto, não se pode esperar entre as tropas de voluntários estrangeiros, ou pior de mercenários. Nestes o travão para não desertar pode estar nas mãos dos oficiais que os controlam de pistola em punho, ou pelo medo que os do outro lado lhes imponham.

Os militares de carreira, que imagino não são muito estimados pela maioria dos cidadãos, por pertencerem a outra parcela da sociedade e com regras de comportamento próprias, não devem estar muito tranquilos com a situação actual neste ocidente europeu. Além de que não há memória de um tão longo período sem guerras, os estrategas não podem estar convictos de que esta “pax romana” possa ser eterna.

Há três factores, entre outros também importantes, que alertam os pessimistas: Um deles é o progressivo envelhecimento da população, com incremento dos não produtivos e a falta de nascimentos para compensar o deficit. Outro factor a ponderar é que a possibilidade de recuperar o montante populacional com elementos vindos do exterior e com características e religiões compatíveis com as dos autóctones europeus se verifica estar longe de ser geral; com a agravante de se verificar que a vontade de se integrarem na nossa sociedade não é evidente, antes pelo contrário. Os autóctones, em muitas zonas da Europa actual sentem-se em perigo de ser minoritários na sua terra.

O terceiro factor tem duas frentes diferentes. Por um lado o “sócio” poderoso que tinha a Europa na NATO com os EUA está derivando para um isolacionismo, pelo menos em relação aos problemas actuais e previsíveis da Europa Ocidental. Para completar o panorama teme-se, e com razão, a perda da hegemonia da Europa nos campos das tecnologias, produção de bens e serviços e capital disponível.

Não parece factível que estas nuvens negras se dissipassem devido a retomar a recruta obrigatória, nem que o treino de mais indivíduos já com valor antes de uma incorporação urgente, seja a solução. Nem sequer se pode avaliar como perto disso. Mas tampouco parece que confiar a nossa defesa do território e dos seus habitantes a voluntários, mais ou menos contratados como mercenários, nos possa dar uma garantia de segurança. Não deve haver Companhia de Seguros que se atreva a propor uma apólice neste problema.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

MEDITAÇÕES – Evitar os - ismos


MEDITAÇÕES – Evitar os -ismos

Todos os favoritismos são obsessivos e condicionantes.

É muito difícil escapar dos extremismos, que tarde ou cedo derivam para fanatismos que limitam a capacidade crítica das pessoas e, pior ainda, a isenção que nos é crucial para poder valorizar qualquer assunto. O cair num -ismo comporta ficar com a nossa visão mental reduzida a um espaço restrito e preconceito.

O lote de temas que nos podem incitar a desprezar a análise fria e tanto quanto possível livre de preconceitos é muito ampla. Abrange tal quantidade de assuntos que provavelmente são poucas as pessoas que estão cientes de quão limitada é a sua liberdade mental e até onde o seu comportamento e diálogo com os outros cidadãos está condicionado por ideias e conceitos pré-determinadas. Estas baias mentais tanto podem ter sido fruto de livre criação do mesmo indivíduo, como sucede em muitos casos, ou por transferências familiares ou de grupo. Seja qual for a génese das “verdades” inquestionáveis o que podemos afirmar, com conhecimento directo, é que podem ter ficado tão fixas na mente que só com um grande esforço de vontade é que nos podemos livrar.

Os temas propensos a se tornarem obsessões, e por isso adquirirem o estatuto de -ismos é amplo e variado. Sem ter a pretensão de um inventário exaustivo referirei os de índole religiosa ou para-religiosa; os que nos tornam obsessivos patriotas ou bairristas; os que renegam das pronúncias e terminologias locais ou regionais. Estes puristas obsessivos tem um poderoso aliado nas redes de televisão, que, em todos os países, induzem os seguidores a utilizar a dita “linguagem padrão”, sem captar que com esta uni-formatação linguística perde-se uma parte importante da riqueza cultural do povo.

Capítulo próprio são os fanatismos de cariz político e clubístico. Apesar de que a experiência nos mostra que são bastante numerosos aqueles que se deslocaram de um credo para outro; mesmo nas antípodas do precedente, temos que admitir que a fidelidade fanática no campo dos clubes desportivos é muito mais rígida do que nos da política, nomeadamente quando a mudança de partido pode implicar benefícios económicos ou estatutários.

É semelhante a dificuldade de isenção que se sente, pelo menos no reflexo do instintivo sobre o racional, no campo do racismo ou estratificação semelhante, como podem ser o classicismo, estirpe, casta, estatuto social ou económico, etc. Cada pessoa recebe indícios visuais sobre algumas características que, por serem exactamente as nossas, o pode impulsar para duas situações opostas. Por um lado é plausível que instintivamente nos afastemos ou qualifiquemos o outro com um termo que, sem dúvida, nos pode dar a noção de ser racista. E na margem oposta sentir a vontade de “saltar o muro” e poder integrar-se naquele sector social que nos estava vedado inicialmente.

sábado, 23 de novembro de 2019

MEDITAÇÕES – No topo da pirâmide




É DESEJÁVEL UMA CERTA RESERVA?

Seja qual for o cariz do governo vigente num país, ou mesmo num clube privado, sempre se encontra uma pessoa que fica colocada no tipo da pirâmide, não só representando o comando do grupo como, maiormente, de toda a população. Estar situado neste topo, num equilíbrio muitas vezes precário, mesmo numa monarquia fortemente sedimentada, implica que o ali instalado tenha um comportamento, uma atitude, que não inspire críticas desnecessárias. Dentro destes cuidados de imagem certamente que se deve ponderar evitar um excesso de exposição.

Se nas ditaduras, com um indivíduo no topo da hierarquia, a manutenção da imagem depende, essencialmente, da capacidade de propaganda do seu sistema de apoio, paralelamente com o cuidado extremo e fiel da censura e guarda-costas, mais a repressão política, a quem lhes está determinado que, por todos os meios disponíveis, procurem ter a seu “cabeça de cartaz” protegido, não só fisicamente como das opiniões que o pretendem desprestigiar e depois derrubar o esquema que aguenta o poder, já nos regimes democráticos esta pressão ou mais propriamente ameaça de repressão, tantas vezes efectiva e cruel, não é aceite.

Tomando o exemplo das notas de banco, seja qual for o seu valor e país onde circulam, as entidades que emitem este papel-moeda sabem que o manuseamento de certas cédulas (um termo mais usado no Brasil do que em Portugal) implica a sua degradação física. Que não é o mesmo do que a diminuição do seu poder de compra, por inflacção. Daí que mesmo que o valor real da moeda se mantenha quase que inalterável, a entidade emissora se encarrega de mandar recolher as notas deterioradas e as substituir por novas impressões. É assim que funciona, em todos os países.

A similitude que se pode encontrar entre um excesso de reserva ou, pelo contrário, uma ininterrupta exposição à população, pode levar a considerar que é pertinente manter uma dose de restrição. NEM OITO NEM OITENTA. Aceitar o meio termo é mais propício. Que todos os extremos podem ser prejudiciais.

Para exemplificar temos a referência histórica da clausura em que a casa imperial japonesa se mantinha até o desastre da segunda guerra mundial. Hoje já é mais frequente a exposição dos membros da realeza japonesa, não só entre os seus cidadãos como até fora do seu País. Mesmo assim, não imaginamos que um cidadão nipónico receie encontrar o seu imperador quando abre a porta de um armário, ou sentado na sua sanita. Pouco nos falta!

Aqui, onde vivemos, já começamos a duvidar do critério do Presidente da República em quando e donde se entende seria aconselhável aparecer, para receber o bafo da multidão, distribuir beijinhos protocolares (?) e aceitar ser fotografado face-a-face com ilustres desconhecidos, mesmo que cidadãos com todos os direitos que a constituição lhes garantem.

Algumas pessoas, e desconheço se são muitas ou poucas, entendem que o Presidente da República é uma figura a respeitar, sem necessidade de dar-lhe os famosos chi-coração da popularidade destravada, mais próprios para as estrelas cadentes da fama social.

Há quem opine que este comportamento, fingidamente tão aberto e popularucho é uma táctica, bem pensada e melhor seguida, para lavar o seu passado, comprometido com o regime ditatorial anterior. O evoluir da sociedade vai deslindar esta, e outras, dúvidas. Ou até pode ser que tudo se aceite com bonomia e desportivismo. Não daquele vergonhoso das claques de futebol. Que já se está espalhando noutras modalidades.

É tão fácil e atractivo tentar a popularidade desmedida...



quinta-feira, 21 de novembro de 2019

MEDITAÇÕES . Agradecimento




è devido agradecer, mesmo que anonimamente, a todos os que se dignaram enviar comentários aos meus mais recentes escritos. Este todos incluem não só aqueles que mostram apoio, por estarem mais ou menos de acordo, como aos que não só rebatem as minhas ideias como até insultam e denigram.
Tenham um bom-fim-de-semana, com castanhas sem bicho e bem assadas, acompanhadas não digo de agua-pé, que é uma mixórdia de outra época, mas de um bom moscatel.

Abraços- ou À braços, ao murro e ao pontapé, pois que na Vinha do Senhor cabe tudo, como diria o meu amigo Maximino.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

MEDITAÇÕES – Temos duas mãos



 A DIREITA MAIS A ESQUERDA COMPLEMENTAM-SE

Penso que só um doente mental, em estado crítico, pode sentir a infeliz ideia de amputar uma das suas mãos. Talvez por entender que uma delas não tem o seu agrado, e daí que mais vale a deitar fora. Como se faz, habitualmente, com os jornais depois de os ler. E por vezes mesmo antes de os abrir e folhear. Coisas... que acontecem.

Se atendermos às frases feitas que utilizamos com alguma frequência, uma delas nos valoriza a utilidade de ambas mãos, sem se parar em considerações sobre se o utente destes membros é destro ou canhoto. Quando dizemos que UMA MÃO LAVA A OUTRA, o mais normal é que a mensagem tenha um alcance muito mais ampla do que o simples valorizar das nossas próprias extremidades superiores.

E o incitamento para debater esta diferença entre as mãos direita e esquerda surgiu, como é de prever, quando estava lendo assuntos de política que implicavam exclusão ou obsessão. Uma situação em incremento em algumas fases da vida comunitária. Se no caso de atacar um quantitativo pouco representativo da sociedade não nos causa engulhos, o mesmo não se pode dizer quando os ânimos se inflamam e, por motivos tantas vezes sem grande importância, as discussões originam incompatibilidades que, caso não se deitar água na fervura, podem originar conflitos armados, locais, nacionais ou até entre países e zonas geográficas.

Um assunto que imagino não é considerado como potencialmente perigoso pela maioria dos cidadãos, mas que se deve observar com atenção é a proliferação dos movimentos de contestação violenta e, simultaneamente, o ressurgir dos partidos de direita com características de neo-fascismo. Curiosamente o sector de extrema esquerda não tem tido um crescimento equiparável. Reconhecem-se as razões deste declínio.

Podemos deduzir que, para a população que se auto considera a-política, ainda está mais condicionada pelos relatos em que denunciam barbaridades cometidas por governos de esquerda, desde socialistas, mais ou menos puros, até comunistas Estalinista ou Maoista, do que das memórias, já pouco expostas, dos crimes cometidos por governos de extrema direita.

Parece que a população ocidental, depois de aderir plenamente à chamada Sociedade de Consumo (por não ter outra solução factível) se acomodou numa visão de “paz e trabalho”, e que o resto vai-se vendo ao longo dos dias. É uma versão actualizada da histórica paz romana, identificada pela táctica de PÃO E CIRCO, que não é tão estável e satisfatória como se pode imaginar, porque não abrange, com as mesmas facilidades, todas as a camadas da sociedade. E daí que os há que se sentem discriminados, com razões de peso. São estes descontentes o alvo procurado pelos demagogos que desejam ver romper a sociedade actualmente sossegada, e ir aos conflitos sangrentos. Os mais astutos entre estes promotores sabem que, caso tiverem sucesso nos seus propósitos, nada lhes acontecerá pessoalmente, a não ser o conseguirem entrar em algum dos muitos negócios chorudos que sempre acompanham os problemas sociais de vulto.

Muitos de nós, admitindo que o meu modo de pensar tem alguma possibilidade de se igualar ao de um lote de cidadãos tranquilos, estamos descrentes de um reviver do comunismo, seja de tipo Marxista ou Maoista, não tememos, nem desejamos, este retorno. Mas deixamos de dar importância à insistência de espertar as chamas do fascismo. E os pirómanos existem, estão por aí! Desta feita agarram em temas de actualidade, manipulando as situações de modo a que se vejam perigos graves em factos que não são novos na história e que na maioria das vezes se resolveram por adaptação e assimilação.

Temos, como exemplo, a questão do declínio da população no ocidente da Europa, nomeadamente de a substituição dos mortos e reformados por novos elementos que entrem na vida produtiva. Não é a desejada, entre outras razões porque surgem mais empregos mal pagos enquanto que as novas gerações se sentem preparadas (estão de facto? Todos?) para escalões com remunerações mais elevadas.

Na maioria das nações europeias o deficit de activos humanos acentuou-se. A solução mais imediata, e que se utilizou em muitas fases da vida europeia, foi a de aceitar e integrar gentes vindas de outras zonas do globo. E nem sempre a assimilação dos forasteiros foi total, embora deixasse de preocupar nalguns casos. O exemplo mais imediato é o da chegada, já no séc XVIII de levas de ciganos, vindos inicialmente do industão, mas depois deslocados dos países europeus mais a leste onde se instalaram, alternando o seu ancestral nomadismo com o sedentarismo, enquanto os indígenas os aturassem sem os rejeitar.

Hoje, as migrações já não constituem novidade pois que após as duas guerras mundiais a Europa recebeu muitos indivíduos vindos de países vizinhos e outros de continentes afastados. O que utiliza a propagando de extrema-direita, sem ter que se esforçar muito, são os argumentos da cor da pele e de adeptos a religiões estruturadas não cristãs. São diferenças indissolúveis ou difíceis de mudar para conseguir uma assimilação. Estes dois conceitos são os argumentos de peso, apesar de raramente os referirem abertamente, para incitar os europeus a não aceitar as multidões de imigrantes que tentam, com riscos de vida não desprezíveis, chegar ao seu ilusionado Éden. Com esta bandeira de rejeição os movimentos de estrema-direita ganham, todos os dias, mais adeptos, e estes novos adeptos não sabem ou nem querem saber do problema onde se arriscam a meter.

Muitas vezes dizemos que NO MEIO ESTÁ A VIRTUDE, e eu acrescento: E A POUCA VERGONHA MAIS O DEBOCHE. Menos caricato mas muito mais sensato era o que o meu pai, falecido, me dizia: As pessoas que não querem entrar nos extremos levam tareia dos dois lados.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

MEDITAÇÕES – É muito complexo




ENTENDE-SE O QUE ACONTECE, AGORA, NAS ESPANHAS?

Penso que, para muitos portugueses, mesmo os ilustrados, seja difícil mergulhar na situação actual da política espanhola (leia-se de idioma castelhano) porque, a meu entender, seria necessário recuar mais de uma centena de anos na história vivida além da raia de Elvas/Badajoz, e das outras fronteiras terrestres com o território daquele (para mim) ofensivo dos nuestros hermanos.

Tentarei justificar esta referência despectiva que é usada com tanta frequência pelos escribas dos dois lados, mas com sentimento totalmente oposto, uns com soberba e senhoria e os outros com desprezo. Ambos estão errados.. Muito cedo, já com 12 anos, percebi que o “azar” que qualquer português sente em relação aos castelhanos, que eles mesmo teimam em procurar confundir com o genérico españoles, é de tal magnitude e presente na totalidade da população, que só um cego, imbuído da sua espanholidade ferrenha, não captaria  a primeira vez que ouvisse ou lesse -sempre entre comas- esta declaração de irmandade, o quão negativa é vista deste lado.

Para tentar entender o eterno, ou pelo menos já histórico, diferendo existente entre catalães a “espanhois=castelhanos” temos que recuar séculos e admitir a triste realidade de que os que são mais quantitativamente e agressivamente são os que procuram tirar aquilo que os perdedores consideram ser a sua individualidade. Neste caso concreto é a sua língua e, por arrastamento, o desejo de ser tratados de modo diferenciado, mas preferente, em relação aos povos que os rodeiam e “invadem”. Convêm tentar a similitude entre o sentir-se e ser português de alma e coração como um bem comum que não se quer perder, e que também existe entre os catalães de raiz. Que pela sua capacidade industrial e comercial destacam-se de outras regiões peninsulares em situação económica mais débil.

A zona de fala castelhana herdou, desde a expulsão dos muçulmanos, uma distribuição de terras “reconquistadas” muito medieval. Entregaram-se grandes espaços, mesmo enormes, aos chefes das forças, practicamente mercenárias, que lutaram contra os ocupantes. -Em muitas ocasiões tinham-se colocado, depois de ajustar o pagamento, do lado dos “infiéis” contra as tropas do Rei; mas isso são pequenos pormenores, com a sua importância relativa- Como a coroa sempre, lá e cá, estava com os cofres vazios e vivendo com empréstimos dos banqueiros judeus, para satisfazer os capitães a coroa lhes entregava a propriedade, em regime perpétuo, dos terrenos “recuperados”, incluindo a gleba que os devia trabalhar. Daí surgiram os latifundiários dos dois lados da fronteira.

E nestes latifúndios proliferaram os sem terra, os jornaleiros que eram seleccionados na praça da terra pelo Senhor ou seu representante. Enquanto persistiu o Império Espanhol nas Américas, este excedente de população, sem eira nem beira, embarcava para o novo mundo. Mas quando terminou, com a “libertação” de Cuba pelos amigos “desinteressados” dos Estados Unidos, o povo mal alimentado e pobre de pedir, teve que rumar para as zonas da península onde podia alugar os seus braços a outra espécie de exploradores.

Dado que a industrialização da dita Espanha foi muito lenta, comparativamente com a Europa ocidental, as zonas onde podiam contratar gente quase todos rústicos, mas com vontade de trabalhar, viver e criar família, estavam no Norte (Astúrias e País Vasco) e Nordeste (Catalunha).

E aqui se inicia o filme actual:

Carecendo de mão de obra intensiva em diversos sectores, entre eles a têxtil, mecânica, construção e obras públicas. O fluxo de migrantes internos foi notável, já desde início do século XIX. E como inicialmente chegaram mais homens do que mulheres, e os homens da Catalunha tinham sofrido importante desbastes das guerras de Marrocos e Cuba, havia excesso de mulheres. E começaram os matrimónios mitos -os híbridos ou mestiços como agora denominam os da VOX- Esta integração, lenta mas efectiva e tranquila, continuou até os dias de hoje. E, curiosamente, os rapazes solteiros catalães ficaram muito prendados pelas raparigas de raiz castelhana, andaluza, murciana, ou estremenha, que se mostravam mais desempoeiradas e vistosas do que as suas vizinhas. Daí que a miscigenação rumou para o outro sentido. Mas sempre entre os de origem catalã e os outros/as.

Esta convivência tácita, mesmo que não totalmente geral, foi contrariada, propositadamente ou impensadamente, pelas autoridades centralistas quando teimaram em tentar apagar a língua local (a exemplo do que fez a monarquia francesa obrigando a uma língua “franca” mas exclusiva, para todas as populações autóctones do hexágono) Só que os catalães, que nem por isso são propensos a brigas, mostraram ter um forte apego aos seus costumes e língua, incluído o direito civil que estava em vigor naquela área.

O mais que as sucessivas ditaduras ou governos centrais de índole monárquica conseguiram foi que a grande maioria da população da Catalunha se tornasses bi-lingue. EXCEPTO a classe dos burgueses endinheirados, que para garantir os clientes das zonas castelhanas, além das ex-colónias de ultramar, e criar ou incrementar os conhecimentos e laços com os decisores de Madrid, socializaram com todos, desde contínuos até ministros, e optaram por se castelhanizar, inclusive no seio das suas famílias, nas suas casas e escolas para descendentes.

Como o ter poder económico implica ser esperto, estes “castelhanos-novos”, tal como os judeus falsamente convertidos ao cristianismo ou catolicismo, mantinham, por trás do pano, contacto com os insubordinados catalanistas. Até hoje. Foram estes os geradores de uma quinta coluna que incitou a adversão e até ódio, dos autóctones não só para o poder central e as autoridades, sempre mais ou menos repressivas, que levaram para esta zona, mas genericamente para todos os “castelhanos”, Ah! Excepto daqueles seus conhecidos e já, em muitos casos, com laços de sangue. (Quem conviveu e convive com esta situação de calma efectiva entre co-cidadãos a qualifica, como mínimo, de curiosa e favorável)

E tão bem os burgueses manobraram e venderam o seu país natal que perduram, por trás do pano, até hoje. São eles que colocaram o Puigdemont, Torra, e anteriormente Pujol e Más, na Generalitat para “negociar” os interesses da Catalunya, misturando propositadamente e com todo o cinismo, com os seus interesses de grupo, incluídos industriais e banqueiros.

O povo, como sempre acontece, foi e continua a ser manipulado por quem sabe e tem os cordéis da comunicação social na mão. Antes eram os jornais e emissoras de radio, agora são as televisões e as redes sociais, que por se mostrarem anónimas não tira que sejam manipuladas.

E aqui deixo um excessivamente longo relato do que acontece em Espanha. Insisto em que é demasiado longo porque hoje ninguém está disposto a ler mais de seis linhas de texto sobre um tema sério.

Deixo para trás a posição ambígua dos socialistas do PSOE, que desde o pacto pós-Franco perderam o rumo histórico.