quinta-feira, 14 de novembro de 2019

MEDITAÇÕES – É difícil manter-se estático




ENTRAR NO METRO EM HORA DE PONTA

Mesmo que consideremos que mantemos intactas as nossas premissas pessoais, que não mudamos de opinião e nos colocamos tranquilamente nas antípodas do que defendíamos horas antes, ou no dia anterior, dando fé de ser um insuportável volúvel, a vida nos alerta da insensatez que seria o pretender afirmar que, apesar de maiormente nos manter no mesmo sector de pensamento, não tivemos alterações notáveis.

Para disfarçar pode-se afirmar que estas alterações não são importantes, tal como ao andar vamos mudando o pé que suporta o nosso peso. Mas andamos! E até podemos verificar que, na nova localização a que chegamos, o ambiente é diferente daquele que respirávamos anteriormente.

Gastei muita tinta”, demasiadas palavras e circunlóquios para tentar explicar uma coisa tão simples como é definida pela máxima Nunca passa duas vezes a mesma água sob a ponte. Ou seja, queiramos ou não, ao longo dos dias, meses ou anos, vamos mudando paulatinamente. O que não obsta a que, por razões de peso, as mudanças podem ser extremamente rápidas. E mal vistas.

Quando escrevi o cabeçalho tinha uma imagem bem clara do que desejava referir. Depois, como viram, perdi o fio da meada. Fiz mal, desviei do fixo e meti-me no lodo. A ideia era de referir que se entrarmos no metro em hora de ponta, e não encontrarmos lugar vago para nos sentar ou um ponto fixo onde nos agarrar, será muito difícil vencer a inércia do conjunto quando a composição muda de velocidade, ou oscila devido ao traçado da via. Se o número de pessoas por metro quadrado for do género compacto, como as sardinhas enlatadas, o mais sensato é deixar que o nosso corpo acompanhe as deslocações dos vizinhos. Mas sempre procurando não provocar susceptibilidades por contactos indesejados.

Avançando para outro aspecto da vida quotidiana, aquilo que ontem nos parecia indiscutível pode ter mudado notoriamente. Tanto por vectores externos como por mudanças de ânimo pessoal. Daí que as nossas opiniões, que gostaríamos poder afirmar que eram sempre as mesmas, podem ir ganhando matizes que não aceitávamos pouco tempo antes.

O encarregado de manter o rumo de um navio ou um avião, e que para tal conta com a sua acção sobre o leme, sabe que não se pode distrair na sua responsabilidade, e por isso, mesmo que existam automatismos que ajudem a seguir uma rota, não pode afastar-se muito dos comandos.

Depois de tão profunda reflexão sinto que devemos aceitar que somos muito mais volúveis do que pretendemos dar a entender. Que o qualificativo de vira-casacas, ou cata-vento não nos agrada? Pelo menos se nos for atribuído. Então chegamos a uma situação bastante indefinida: as nossas “oscilações de pensamento e comportamento poder ser toleráveis, pelo observador que nos avalia, dentro de uns limites socialmente aceitáveis? E quais os graus de desvio permitidos?

Na linguagem social, enquanto não incida intensamente nos campos da política, somos especialistas em diminuir uma situação desagradável. Por exemplo: quando a comida nos é servida excessivamente quente. Quando levamos a primeira colherada à boca, pode dar-nos a sensação de que arde, que aquilo é pior do que as brasas do inferno; mas se dermos com o olhar preocupado da anfitriã, disfarçaremos tanto quanto formos capazes, e, em vez de soltar uma barbaridade, afivelamos um sorriso de complacência, iniciando uma conversa banal para dar tempo a que o manjar perca algumas calorias.

Dado que as calorias que referi não são, precisamente, as tais que se indicam nas dietas para não engordar, um dia pode ser que me decida a tentar explicar porque existe esta confusão calórica. A experiência diz-me que não devo aguardar um incitamento por parte dos hipotéticos leitores.



sábado, 9 de novembro de 2019

MEDITAÇÕES - Os mitómanos são imputáveis ?



Como reage a sociedade e como os trata a lei?

Ao longo da vida e desde a infância, nos deparamos com sujeitos que são capazes de afirmar factos tão inverossímeis e numa continuidade tal que não tardamos em os qualificar como mentirosos compulsivos. A nossa reacção, defensiva, é de fazer ouvidos moucos, pois que se sabe não valer a pena argumentar com estas personagens. Estão tão treinados que escorrem como enguias. Saltam para outro tema e não tentam defender o que até o momento anterior davam como certo e seguro.

Mais difíceis de lidar são aqueles mentirosos, de capacidade inventiva e convincentes em excesso, que, sem nos encarar pessoalmente, nem por isso deixam de nos afectar. Entre estes indivíduos os com maior peso para prejudicar colectivamente os simples cidadãos, que além de não estarem preparados para enfrentar, individualmente os bem colocados, sentem-se moralmente perdidos e indefesos, vítimas a imolar e com os olhos abertos são os que sabemos serem poderosos, uns por herança cromossómica ou de capital e outros porque nasceram com a capacidade de se aproveitar dos incautos.

Estou referindo -como já devem ter captado- e de um modo geral, sem puntualizar, aos que, genericamente, os qualificamos de “peixes graúdos”, sejam eles políticos ou blindados por grandes negócios, fortunas, compadrios e influências. Não é por mania que se admite o preceito de que Deus os cria e eles agrupam-se. O estarmos conscientes de que é practicamente impossível lutar contra este tipo de gente, não obsta a que o simples cidadão não se sinta vítima, revoltada, das manobras que certos mitómanos practicam impunemente. Nomeadamente quando se verifica, sem dificuldade, que a indignação é resultado de verificar que com estas fantasias se arrebatam parcelas consideráveis dos fundos públicos, que por não existir em excesso, reflectem-se em carências que afectam à maioria dos cidadãos contribuintes e carenciados.

Ao longo duma série de anos as pessoas tem assistido, estoicamente, a estas impunidades. Mas ao mesmo tempo esperam que as sentenças legais sejam de molde a nos satisfazer. Ou seja chegar, pelo menos, ao consolador “ganhar moralmente”. E este sonho, quase uma daquelas fantásticas miragens de água na estrada com o calor, seja o corolário de algumas das sentenças já proferidas nos derradeiros tempos. Tememos que este sonho não passe de um pesadelo, que nos defraude sem mostrar que a histórica e inamovível impunidade de grupo já está a ter algumas gretas.

Sabemos, os simples cidadãos, que não podemos pensar em dar sentenças sem uma base jurídica forte. Mas os portugueses já se sentem por demais defraudados por argumentações que nem uma criança de teta poderia admitir como correctas. Há notícias de jornais e de noticiários que, para o cidadão comum, até são insultuosas, tal é a alacridade argumental que apresentam.

Como, sensatamente, não aceitamos que o marchar a pé até um santuário, rezar o terço ou outras orações estereotipadas, acender velas devotamente, ou até oferecer uma fracção do capital que tanto custou a amealhar sejam métodos eficazes para conseguir uma justiça justa (e valha o pleonasmo, que certamente entenderam) não nos resta um caminho credível para onde solicitar ajuda. Saber que podemos esperar bons resultados na actuação da justiça, correcta e célere, seria o mais produtivo para o País.

O incorrigível pessimismo não nos garante, nem um pouco, que o vento sopre de feição para corrigir alguns males, que são endémicos, pois já duram por longas gerações.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

MEDITAÇÕES – O tempo passa...



E A CARAVANA LADRA !

E uma visita ao Convento de Odivelas
  
Esta famosa sentença, não aparece no catecismo dos dominicanos. Um falhanço, e espectacular ou especular se for olhado com aquele aparelho que serve para espreitar os interiores de dentro, que por acaso não coincidem com os interiores de fora, pelo simples facto de que estes nem sequer existem.

Difícil de observar e de entender é o interior da crusta terrestre, embora se considere provado que logo abaixo da camada onde nos, animais mamíferos, e outros parceiros nesta Arca, podemos conviver com outras espécies e plantas, -que sem dúvida são seres vivos- existe um mundo que não nos é acessível, onde as temperaturas atingem o ponto de fusão de todos os minerais e rochas. Por profundas que sejam as grutas onde os espeleólogos andam, nunca nenhum deles abriu a porta do magma. Ou se a abriu não conseguiu voltar para o  contar no convívio com os vivos. A acontecer deve ter ficado mais esturricado do que o São Lourenço, ou os modernos cadáveres deste ocidente que, à semelhança dos hindus da península indostânica, são cremados e assim reduzidos aos componentes iniciais. 

Concretamente está-se actualizando aquela máxima indiscutível de que do pó viemos (ou do barro moldável segundo reza o Antigo Testamento) e para o pó voltaremos. Esta dose de "lixo" que as funerárias entregam aos familiares, o mais normal é que algum deles se encarregue de despejar nalgum lugar  considerado "idóneo", num local onde for permitido (?), no mar, num rio, clandestinamente ou num contentor para reciclar (que seria o mais lógico, mas pouco charmoso) No norte da Itália é fácil voltar ao Pó; basta aproximar-se do dito cujo Rio e ala!, que se faz tarde. Vai navegar meu querido/a!

E assim, como quem diz sem dar por isso, já chegamos à alarmante previsão de que as águas vão subir de nível e certamente de preço, tanto as do cano e contador como as engarrafadas. Mas são as dos Oceanos, Mares, Lagos, Portimões, Taviras, Aveiros, Lagoas e adjacentes que nos preocupam, por subirem de nível e deixarem os terráqueos com menos área útil para estragar por decisão própria. Não está certo! A Natureza decidiu competir com a mais evoluída criatura moldada por Deus. 

E a seguir? Ficaremos, uns poucos, ao Deus Dará, recordando que este nosso Deus, que nos oferece pão quotidianamente, é famoso por dar com uma mão e tirar com a outra. A sorte nossa é que Deus não seja um cefalópode, pois com muitos braços e com muitas mãos não nos safávamos. Toda a costa vai ficar debaixo da água. Em compensação terão entrada, perpetua, na divisão de honra, no pólo aquático e natação artística sincronizada. 

Ignoro qual o vento que me soprou da urgência de referir a  famosa HONRA DO CONVENTO.  E só me ocorreu que o convento em questão deveria tratar-se, sem dúvida, do Convento de Odivelas. (**) Famoso em Portugal e parte do estrangeiro de fora pelo facto de que ali o Rei D. João V, tinha o seu Couto Real de caça às vaginas,(***) todas sempre de boas famílias, dedicadas, em princípio, a casarem em regime de poligamia com o Deus Filho (sim porque os Deus pai já não está para estas aventuras, devido a problemas com a próspera. Mas mantém um interesse científico sobre estes temas da procriação e variantes. Gosta de espreitar por um triângulo as actividades eróticas das suas criaturas humanas)

Regressando a Odivelas e seu convento de retiro monárquico, o Rei D. João V, famoso mulherengo e simultâneamente religioso, -tanto assim foi que só aceitava a freiras como suas amantes- Junto com os seus compinchas fidalgos que iam molhar a sopa, ou o seu gregório* com as freiras devotas, descalças de pé e perna ou com sandálias, fossem elas novas estreadas ou adultas em bom estado, mas nunca excessivamente velhas (pois não se faziam plásticas de rejuvenescimento naquele então) Todavia sabe-se que aquele grupo de linhagem impoluto escolhia, de preferência as noviças, com a ressalva de que estas rolas só se podiam degustar depois de servirem as primicias ao monarca, e sempre sob o estrito controle da abadessa ou madre superiora, que era a patroa daquele lupanar real.

A Madre Superiora do Convento de Odivelas, de nome Paula Teresa da Silva e Almeida, deu frutos bastardos a D. João V: D. António, D. Gaspar e D. José, para os quais mandou construir o Palácio dos Meninos da Palhava (hoje ocupado pela residência do Embaixador de Espanha). À Madre Paula concedeu uma trança anual de 210 mil réis anuais, pagos em duas prestações, por São João e no Natal. Também o pai, Adrião de Almeida, neto de um soldado alemão, e ourives de profissão, recebeu alguns dotes e prebendas, entre elas um hábito religioso honorífico (por ser pai da amante real)

O negócio do Brasil dava para tudo, mas não para todos... Sempre foi e será assim.



* Gregório: sinónimo de pénis
** Quem estiver interessado em mais pormenores sobre este tema pode procurar no Google MOSTEIRO DE ODIVELAS

***  O outro couto real de caça estava anexo ao Mosteiro de Mafra, que D. João V mandou construir como promessa de ter um filho macho da Rainha. Hoje A TAPADA DE MAFRA.

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

MEDITAÇÕES .- Entrar em polémicas




Sem desejar terminamos caindo

Escrever é como coçar. O pior é começar. Depois só para se nos esforçarmos, mentalmente, por esquecer a comichão. No tema de hoje; ou seja das polémicas, é o impulso de responder a quem nos increpa, mesmo que não se mostre uma identificação concreta do alvo, é que nos pode incitar a entrar no debate, em geral estéril. Neste espaço, porém, tenho a sorte (?) de que ninguém está interessado em apoiar ou rebater. Nem sequer para pedir um esclarecimento. Portanto tentar criar aqui uma polémica é tempo perdido. Termino “falando para o boneco”, que é uma situação muito desmoralizadora, ou, mais seriamente, deixando o teclado sossegado durante uns tempos

Em chegando a este ponto salta a pergunta: E porque sentimos que estamos falando para o boneco? Ou o seu equivalente mais representativo, de que se deve inculpar o orador quando percebe que ninguém naquela sala, ou num dos meios de difusão actuais, não lhe está prestando um mínimo de atenção? O culpado é ele, por não ser capaz de interessar uma audiência. Se chegar a esta conclusão só tem um caminho: enrolar a trouxa e recolher a penates (1) Uma pequena história que ouvia referir ao meu pai dizia”o sinal mais potente de que deves terminar de falar é quando alguém à tua frente não só olha o relógio como até o sacuda (para ver se funciona!)

No meu caso concreto -que em português chamamos de betão- o estar ciente de que não tenho quórum é um facto comprovado desde inicio, ou quase, e se eu tivesse um mínimo de respeito por mim próprio já me tinha decidido a fechar a matraca. Todavia, quando nos entra na pele uma coceira...

E, quase que por casualidade, encontrei um poço, sem fundo, onde são muitos aqueles que não resistem a lançar a sua pedra. Ou menos violentamente será dizer: dar a sua opinião, em geral rebatendo a do outro. E se os ânimos estiverem exaltados ou a educação do indígena for fraca, então inclusive podem chegar a ser insultantes. Já estamos fartos de saber que o anonimato favorece, e muito, a predisposição de denegrir, insultar, desacreditar, aquele que por vezes não se identificou, mas que, mesmo assim, pode dar muita satisfacção derrubar. Ou pelo menos tentar prostrar, sempre e tanto que seja factível atingir este efeito recorrendo ao anonimato ou ao seu equivalente pseudónimo.

Regressando ao início: Se coçar e comer são duas actividades que consideramos anímicamente gratificantes, o polemizar deve-se juntar, sem dúvida alguma. Quantas pessoas procuram criar uma polémica geral e uma vez acesa se retiram para a zona dos espectadores anónimos para ali poder desfrutar da luta de galos, e até lançar bocas de incitamento?

Um dos campos onde facilmente se pode iniciar uma polémica, ou meter um pé dentro se já está em cartaz, é o da política nacional. É ali onde se podem referir e comentar os problemas que atingem a cada um de nós, ou pelo menos aqueles temas que se sabe de antemão que podem incitar outros tontos sem nada melhor para fazer. Mas, este campo de temático torna-se sumamente tedioso quando se volta no dia seguinte. Chega-se à conclusão, imediata, que equivale ao discutir o sexo dos anjos. Situação que não se esclareceu totalmente quando os artistas imaginaram estes seres com um tímido pirilau, no caso de pretenderem representar anjos do sexo masculino, pois que as “anjas” com o corte característico, mesmo que cuidadosamente depilado, não deviam ser aceites pelo cliente quando chegava o momento de receber os honorários da encomenda. Voltavam a surgir aqueles panos esvoaçantes, que não se descobre onde se seguravam, mas que censuravam os anseios dos mirones.


(1) Penates corresponde ao lar paterno, a casa. Também se diria “fechar a loja”

sábado, 2 de novembro de 2019

MEDITAÇÕES - Vamos andando


E OUTRAS FRASES IMPRECISAS

Tantas vezes me apontaram que era um sujeito, essencialmente e persistentemente, embirrante, que não tive outra solução do que aceitar o facto. Este caminho, que obviamente, abdica de uma tentativa credível de emenda é algo que posso considerar irreparável. Corresponde ao dilema do lacrau quando montava sobre a rã, que gentilmente e parvamente, aceitou o pedido de o levar para outra margem, acreditando na palavra do insecto peçonhento em como, desta vez, não o picaria.

Outra história com igual mensagem é aquela em que se conta da saturação de um marido em relação com a sua amada esposa. Esta, sem atender a que a cabeça do esposo tinha menos cabelo do que uma bola de bilhar, passava o dia insultando-o de ser piolhoso. O homem, por mais que tentasse resistir a este contínuo vexame, estava tão saturado, farto, nervoso e mesmo furioso que um dia, ao atravessarem um rio, aproveitando uma ponte que lá estava para este fim, virou-se para a sua querida (?) companheira, que não parava com a lenga lenga de “piolhoso-piolhoso-piolhoso”, com um valente empurrão a enviou para as águas turbulentas. Enquanto ela caia não parou de vociferar, e mesmo depois de já practicamente submersa tinha as duas mãos à superfície e fazia com as unhas dos polegares como se esmagasse e matasse assim os obcecantes parasitas.

Pois, recordei que noutro escrito “memorável”, destes que ofereço gratuitamente aos leitores ausentes, referi o costume, actualmente em vigor -como o leite em pacote- de quando nos perguntam pela saúde, em vez de referir toda lista de achaques e problemas corporais, beatíficamente nos limitamos a dizer “vamos andando”. Daí o pessoalmente tirar a conclusão de que Portugal está cheio de andarilhos incansáveis, sempre andando, nem que seja a manquejar.

Sendo eu novo, coisa que fica lá muito para trás, lembro que se dizia que os europeus continentais, entre eles os da Lusitânia de Viriato (que chegava até Toledo e grande parte da Estremadura e Andaluzia actualmente espanhola) eram propensos a relatar as suas maleitas, fossem reais ou imaginárias. Enquanto isso os naturais do Reino Unido desviavam pela tangente, convictos que o relatar doenças e achaques era de mau tom, coisa a evitar. Conclusão: parece que a educação britânica ganhou força e nos incitou a andar, com benefícios para a circulação pedonal e sanguínea.

A meditação não pode terminar aqui, atendendo à admitida vocação para ser embirrante. São várias as frases habituais que dizem uma coisa mas pretendem dizer outra bastante diferente. Uma delas é frequente quando pretendemos pagar com numerário -situação cada dia menos habitual- Como raramente a conta a saldar inclui, exclusivamente, unidades certas da moeda em vigor, digamos que aparecem uns restos, em cêntimos, que devem mudar de proprietário. Uma das frases habituais que nos dizem é: Pode arranjar 37 cêntimos? (Ou outra importância que corresponda à soma a liquidar).

Sendo eu, como confesso, um embirrante, quando não resisto digo: de me as moedas estragadas que tentarei arranjar! Se a pessoa à minha frente não ficar espumando pela boca, esclareço: É que esta é umas das frases em que aquilo que se diz não corresponde, literalmente, ao que se pretende dizer. Nesta ocasião a pergunta deveria ser: terá, por acaso, essas moedas para fechar a conta? Ou outra equivalente.

Retrocedendo na idade, mais uma vez, recordo que dei muitas gargalhadas quando via uma vinheta ilustrando um homem caído na rua e com um facalhão espetado no peito. Um passante perguntava-lhe, muito compungido: Isto dói-lhe? E o visado respondia, invariavelmente, “só quando rio”. E esta fraca anedota, gráfica, aparecia com frequência. A conhecia de cor. Mas mesmo assim reagia como se fosse a primeira vez.

Dias atrás, andando confiado no piso que tinha pela frente, coisa que nem sempre podemos valorizar assim dadas as características da muito famosa e estimada calçada portuguesa, dei de pantanas no chão. Bati com a cabeça, com a testa propriamente dita, fazendo um barulho notável (dado que estava oca, não admira..) Prontamente surgiram seis ou mais pessoas, algumas com telemóveis prontas a tirar testemunhos gráficos, e perguntavam (em coro desafinado) dói muito? Por acaso não sangrava nem apresentava um "galo" e por isso limitei-me a responder, erguendo-me (com ajuda),NEM POR ISSO, SEMPRE TIVE A CABEÇA MUITO DURA... E é verdade!

E fui andando... como pertence responder e agir.

Saúde e boas castanhas, é o meu desejo.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

MEDITAÇÕES - Sobre a Gaguez





GAGOS NA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA

Um problema da fala que é tão incómodo para quem o padece e sofre como para quem o ouve. E por ser relativamente frequente -até dizem pode ser congénito- encontrasse referenciado nos clássicos ocidentais. Gregos e Latinos tentaram resolver esta situação, em especial quando afectava a personagens que destacavam pelas suas opiniões e por isso mesmo eram procurados a fim de os ouvir. O remédio, de sucesso duvidoso, que nos surge na memória era o de proporem ao discursante que colocasse uns pequenos seixos na boca já antes de iniciar a sua palestra.

Entre nós o tema voltou às páginas e comentários após a eleição de uma deputada que, quando se enerva, não consegue debitar o seu pensamento de uma forma contínua, ou seja, que gagueja, tal como lhes acontece normalmente a quem padece deste problema.

Por muitas recomendações, do tipo social, que se façam entre aqueles que, por reflexo, também se enervam, se sentem incomodados, quando sujeitos a ouvir e interpretar alguém que “fala às prestações” (e dizem que deve cantar “a pronto”) o instinto animal, que insiste em surgir de vez em quando, nos pressiona a rejeitar esta pessoa. A fazer ouvidos moucos ou a virar-lhe as costas o mais discretamente que for possível. Obviamente esta não é uma solução eficaz para o problema pessoal de quem o sofre.

E haverá uma terapêutica da fala que consiga eliminar esta sintomatologia? Parece que existem algumas técnicas, não invasivas, que podem ser eficazes. Para quem esta situação, problemática, o preocupar, mesmo que não a sofra pessoalmente, sugerimos que procure documentar-se com paciência e tentativas persistentes. Há bastantes textos disponíveis, e um deles, que encontrei após vários fracassos, é:

SANDRA MADALENA ESTEVES DE LIMA
Gaguez: estudo de caso.

Monografia apresentada na Universidade Fernando Pessoa, para tese de licenciatura.

Porto 2009


segunda-feira, 28 de outubro de 2019

MEDITAÇÕES - Ainda sobre religiões



O Catolicismo é monoteísta ?

Imagino, com convicção, que bastou este cabeçalho para “inflamar” muitos espíritos. Que só pela sua apresentação constitui uma blasfémia, de tal magnitude que se o tribunal da Santa Inquisição (melhor seria SANTÍSSIMA) estivesse com poder vigente, eu, nesta mesma hora, estaria não só a ferros como pendurado na polé aguardando o dia em que deveria participar, como artista, numa cremação na praça pública.

Outros leitores, mais tranquilos, devem-se inquirir porque motivo, um descrente, ateu convicto, passa tanto tempo entretido com estes assuntos. A única resposta plausível que eu mesmo encontro é que, queiramos ou não, a inércia da religião no nosso modo de vida, no ambiente onde convivemos, é tão forte e influenciável do que gostaríamos. Ou mereceria, para alguns como eu.

Para dar algum seguimento à pergunta inicial é pertinente fazer um esforço para imaginar um recuo até os primórdios da sociedade dos humanos. TODOS reconhecemos que os primeiros bípedes pensantes, merecedores, por mérito próprio, de serem considerados como humanos, não podiam ficar como simples objectos, impávidos, perante os fenómenos atmosféricos, climatológicos, temporais e repetitivos com as estações, que ainda hoje e apesar de tanto (?) conhecimento acumulado, nos podem fazer sentir como simples e indefesos espectadores, sem a mínima capacidade de interagir com a natureza violenta e indomável.

Não é possível negar que, ainda hoje, o homem procure justificações, a ser possível segundo o in completo conhecimento científico ao alcance do cidadão nos tenta ajudar na interpretação do desconhecido. E sempre surgiu a mesma possível resposta: alguma entidade, indefinida, invisível, com a qual não é possível dialogar, mas que, como defesa, se imaginou que era pertinente respeitar e tentar agradar. Estas múltiplas entidades foram adquirindo o estatuto de deuses. Que de imediato se procurou materializar, fosse numa montanha, num rochedo especial, numa nascente, num animal perigoso, ou até um vento dominante, entre outras muitas possibilidades. Foi a génese do animismo. Esta tentativa de encontrar respostas a perguntas impossíveis de obter uma resposta na fase mais primária da cultura humana, deve ser vista como a proto-religião.

A mente humana, que sempre complicou a sua vida tentando descobrir o desconhecido, se encarregou de ampliar e humanizar o modo de tentar invocar e respeitar as forças ocultas. Ultrapassar a veneração de uma montanha ou outro símbolo de visão imediata, não deve ter tardado a ser complementado com a invenção de figuras, fossem humanas ou compostas, ao estilo das famosas esfinges, sereias, centauros, e a hiper quimera. E não se pode deixar de referir a sua conexão com o culto de espíritos, sejam de humanos já falecidos ou de entidades totalmente míticas. Daí ao idolatria.

Passar para o Politeísmo, é uma simples evolução, mas que sempre surgiu acompanhada da estruturação de uma hierarquia à que os muitos deuses “menores” deviam sujeitar-se. Todas as religiões antigas, já estruturadas, seleccionaram uma entidade suprema. Assim aconteceu com o politeísmo egípcio, onde Ra, ou Amon, era o ente magno. A partir destas figuras míticas sempre se criou uma corte celestial com graus mais ou menos bem definidos. Uma hierarquia semelhante à dos exércitos que se criaram com a aglomeração de povos anteriormente isolados e independentes entre si, e que actualmente persiste na cúria católica.

Como a evolução não se consegue parar, do Politeísmo teve que se voltar ao Monoteísmo inicial. Que levado ao extremo rigor implicaria a degradação e esquecimento de todos os deuses menores, o que só é possível se lhes forem retirados todos os seus imaginados poderes, que o homem gosta e teima em invocar pedindo ajuda incorpórea.

No mundo ocidental em que nos movemos, os grupos de crentes que, de facto, são adeptos do monoteísmo, são o Judaísmo e o Islão, que sendo primos entre si, como certos números, se guerreiam para se auto-justificar como herdeiros e seguidores fieis das Sagradas Escrituras, concretamente do Antigo Testamento. Ambas religiões são fieis dos profetas e outros homens merecedores de serem recordados, mas o poder total, absoluto, está no seu Jeová ou Alá, que obviamente são ambas a mesma entidade.(1)

Dentro da evolução das teologias temos o Cristianismo, com uma doutrina e umas regras que todos os ocidentais “cristãos” seguimos, uns mais rigorosamente e outros só quando lhes calha a jeito. E dentro deste grande grupo de gentes surgiu o Protestantismo de Martinho Lutero, cuja principal diferença com os Católico Apostólico Romanos é a de não obedecer o Papa de Roma como autoridade gestora e orientadora. Noutro patamar está o de reduzirem o número de entes merecedores de ser referentes.

O protestantismo abdicou de uma longa série de personagens de referência, muitas vezes totalmente míticas, mas que os fieis invocam tal como os romanos faziam com os seus deuses, num politeísmo fundamentalmente idêntico, até porque a muitos Santos, Santas e Santinhos, Beatos, Anjos, Arcanjos, e outros em ininterrupta incorporação, a todos eles lhes são atribuídas capacidades de nos favorecer, seja directamente (?) ou como intermediários (?) para outras entidades em degraus mais elevados no poder celestial.

E assim chegamos ao ponto em que cada um, se teve a paciência de ler o que já sabia, pode, com a mão sobre onde se aloja o coração, opinar se somos, apreciados em conjunto, monoteístas, politeístas ou mesmo idolatras.

Porque insisto em meditar sobre este assunto, que para mim não passa de ser como a famosa lana caprina? Sinceramente não sei, parece uma obsessão. Mas não há dia em que, seja em livros, jornais ou programas da TV não me surja uma incitação para remoer numa coisa que não vale a pena perder tempo e menos de aquecer a mioleira. E a forma de descarregar é escrevendo...

(1) Friamente, neste século XXI, não nos parece absurdo, inconcebível, inaceitável, que duas concepções de religião com os mesmo alicerces sejam a base de uma incompatibilidade a nível factual, universal?