domingo, 13 de outubro de 2019

MEDITAÇÕES - DEUS ERA ZAROLHO ? - segunda parte



Continuação do texto sobre o Olho de Deus


Afinal a chave estava muito perto

Quando editei (em 26 de Set.) a primeira parte em que tentava especular, seriamente e sem propósitos de incomodar a ninguém, sobre a origem da representação do olho de Deus dentro de um triângulo, que sabemos admite ser o símbolo de diversas tríades esotéricas, encalhei no porque se limitou a mostrar um olho (sempre o olho direito) da entidade que, em princípio o homem mortal não estava autorizado a representar, embora já se aceitasse como tal o senhor idoso de barbas brancas.

A negação em não me contentar com um indiferente encolher de ombros, e reconhecendo que tradições, lendas, mitos, rituais e qualquer tema de cuja génese ignoramos, não nos deve satisfazer a indefinida resposta de que aquilo ver desde a névoa dos tempos. Não podemos negar e até conseguir a origem destes “dogmas”, mas isso não nos deve impedir de recuar até onde for possível encontrar uma referencia, mesmo que não escrita, mas credível através de outras vias de estudo da antiguidade.

Sendo assim é pertinente admitir que o início e progresso do conhecimento, e daí da civilização, foi conseguido pela transmissão oral. Aceite esta premisa quando nos dispormos a pretender analisar um tema que pareça afectar o quotidiano, é pertinente recuar até às fontes mais afastadas que nos sejam acessíveis.

Ao longo do nosso percurso como membros da humanidade, reconhecemos que, mesmo sem darmos por isso, nos apoiamos em preconceitos de interpretação e de comportamento difíceis de justificar de um modo racional, mas que estão fixamente impressos nos nossos costumes. Um deles é a ligação, tacitamente aceite, mas de forma sub-reptícia, e até com uma saudável descrença pessoal, de que o lado esquerdo é aziago, enquanto que o lado bom da vida é aquele que nos surge, ou sugere, o lado direito. (1)

Daí o mal querer que existiu, durante milénios, em relação e que às pessoas em que o seu hemisfério cerebral que comanda a habilidade manual, está em oposição ao que é maioritário. Ou seja o oposto entre destros e canhotos. Situação muito evidente na tarefa de escrever. Reconhecemos que se nasce com esta distribuição de capacidades. Que se nasce canhoto. Muito sofreram os canhestros até época recente!

Reconhece-se, sem discussão, que desde a tal “noite dos tempos” as teologias, quando na fase inicial, pretenderam ser aceites pelos cidadãos que se pretendia cativar, era fundamental oferecer uma série de “deuses menores”, de segunda e terceira linha, que subsistissem os que até então eles adoravam ou “obedeciam” após a sabia interpretação dos sacerdotes habilitados para estas interpretações. Mesmo ao religiões que mais se apresentam como monoteístas, prepararam o seu santoral com entes que passaram a ter as mesmas capacidades e atributos do que os deuses da época paga anterior.

Quando referia este pictograma do olho “bisbilhoteiro” ou inquisidor incluído no triângulo, levava o tema para a brincadeira afirmando que quando Jeová adquiriu este costume de vigiar as suas criaturas, e por se terem inventado as fechaduras clássicas por onde espreitar, optaram pelo triângulo. Mas era fatal que chegasse o impulso para que me decidisse a pesquisar alguma tradição antiga que justificasse o símbolo do Deus vigilante, só com um olho, e se observarmos atentamente, caso o pictograma fosse feito com cuidado, o olho que se encontra dentro do triângulo é sempre o direito.

A identificação da origem desta representação do olho inquiridor nem sequer era difícil. Estava latente na memória pessoal, pois tive a oportunidade de verificar directamente nas colecções de objectos do Antigo Egipto, cuja complexa teocracia serviu de base para muitas religiões do próximo oriente, entre elas o judaísmo e posteriormente o cristianismo.

O OLHO DO DEUS HÓRUS

Os egípcios
 não tinham por hábito, nas suas representações pictóricas, mostrar as pessoas de frente. Habitualmente de perfil. Só na escultura é que se mostravam as duas faces simultâneamente. Tanto na representação de deuses -em geral uma composição mista de humano e animal- como dos faraós, só vemos um olho no pictograma, assim como nos baixo relevos.

Já então existia a imaginada relação entre o lado direito e o bem, a sorte, a felicidade e o esquerdo com o aziago, o mal, o sinistro (que é um sinónimo de esquerdo). O Deus Hórus, o grande chefe da complexa família de deuses, era representado, habitualmente por um corpo humano e cabeça de ave de rapina, seja falcão, milhafre ou águia. Tal escolha vinha de que este Hórus era o que tudo via, como acontecia com os falcões, que voando calmamente nas alturas eram capazes de ver uma pequena presa no solo (ter visão de falcão ou de águia).
Todavia a complexa mitologia egípcia refere que Hórus lutou com outro deus e, na refrega, lhe vazaram o olho esquerdo (aqui ficamos a saber que era de facto zarolho) e no seu lugar lhe colocaram uma prótese de vidro (2) O facto de ter só um olho útil não lhe diminuía a sua capacidade de observação, que além disso se considerava benéfica. Pelo contrário, o olho esquerdo, apesar de cego, já era aceite ser aziago.


REPRESENTAÇÃO DO OLHO DE HÓRUS NUM PAPIRO EGÍPCIO

(1) O triângulo sempre representou uma tríade importante; seja terra.mar e ar; luz, trevas e fogo; ou três deidades específicas. A simbologia da maçonaria não dispensa deste símbolo. Que encontra-se, sempre, nas notas de banco dos EUA. E em muitos mais lugares.

(2) É aquele amuleto de vidro azul, com uma pupila e centro preto de visão, que se vende em qualquer lado, nos bazares tanto no Egipto como em todo o próximo oriente.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

MEDITAÇÕES - Greta Thunberg



Aplausos e críticas

Tal como devem ter feito muitos cidadãos, fui seguindo, com alguma atenção, mas não lhe dando a primazia, os ecos da presença desta adolescente no principal areópago internacional, concretamente na Assembleia Geral da ONU em Nova York. Ali e numa só apresentação pública, a Greta condicionou a atenção geral, e as suas palavras tiveram reflexos de cabeçalho em todos os noticiários do mundo. Foi ouvida com mais atenção e expectativa do que vários outros oradores Entre esta plêiade de preocupados denunciantes devemos referir o “nosso” Engenheiro Guterres, que anda pelo globo predicando com muita convicção e prosápia mas, infelizmente, com pouco efeito positivo.

Confesso que não ouvi nem li nada sobre esta rapariga com aquele cuidado e posterior meditação que o tema do seu discurso merecia. Admito que, tendo-se gerado uma atenção alarmista sobre a evolução do ambiente terrestre, que é o nosso suporte de vida, poucos devem ser os que, com alguma convicção, não se sintam preocupados com os sintomas de efeitos perniciosos que a humanidade tem causado sobre o clima, atmosfera, mares e problemas do incremento acelerado que a economia e o “progresso” está carregando sobre o que se prevé pode vir a ser o nosso futuro. Ou pelo menos dos nossos descendentes.

Entremeando com os aplausos e os silêncios comprometidos dos comentadores, sugiram alguns derrotistas, que mesmo com alguma crueldade dispensável, atacaram a referida Greta, com argumentos que, no seu ambiente caseiro certamente não utilizam se tivessem que comentar as ideias verbalizadas pelos seus familiares na faixa etária de Greta.

Na fase da evolução social acelerada em que nos encontramos, com a influência da informática na educação e evolução do cabaz de conhecimentos que hoje está disponível de qualquer jovem, nem sequer muito ilustrado, não deveria espantar, aos da geração anterior, ou seja aos pais em geral, que a Greta se lançasse, com ímpeto inesperado, a uma acusação generalizada de incompetência e desleixo perante a realidade, dos adultos que lhes deviam garantir a sua sobrevivência e lhes deixar de herança um planeta em melhores condições do quer as actuais, e até das previsíveis se continuarmos a seguir o mesmo percurso suicida.

É curioso, interessante mesmo, ver que uma adolescente, nervosa e exaltada, conseguiu ter um nível de atenção superior ao de outros comentadores anteriores, alguns, como Al Gore, com o apoio de gráficos, vídeos e documentários reais de como os desastres já estão em progressão. Os mais cépticos afirmam que grupos de interesses não definidos se encarregaram da promoção desta rapariga, insinuando que por trás das más novas denunciadas e das previstas existem na sombra, ou mesmo mal camuflados, poderosos preparados para se beneficiar da situação prevista. Para não sermos tildados de ingénuos até podemos aceitar que tais denúncias de caminhar, cegamente, para um abismo quiçá irrecuperável, podem ter cabimento.

Se Greta foi usada com propósitos positivos, dado que os sinais de alarme já não são simples apitos ou sirenes e que esta acção foi, criada atempadamente com a colaboração de um conhecedor da psicologia dos cidadãos em geral, e que tudo não passou de una encenação típica de promoção. Então deveríamos concluir que nesta luta da informação e desinformação não se pode entrar com as mãos limpas, nuas. Seria absurdo respeitar as regras da correcção quando do lado contrário as esquecem.

Pessoalmente aceito a denúncia, e com a convicção de que muitos erros já cometidos serão de difícil correcção.

O que lamento, por não ser justo e porque entra no conceito de que só quem não tem telhados de vidro é que pode tirar pedras, se use, no intuito de denegrir, desacreditar, a denúncia de Greta com o argumento de que esta ainda adolescente sofre de sintomas de autismo. E quero referir que aquilo que se noticiou é que de facto lhe foi diagnosticado um estado leve deste problema. Muito mais extenso na sociedade, pois até é ignorada a sua incidência por não ser considerada como grave e impeditiva. 

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

MEDITAÇÕES – Investigar



É possível fazer investigação por conta própria? Quem paga?

Quando já ultrapassei todos os limites do possível e dei mais tombos na vida do que o desgraçado que foi atropelado num carrossel de feira, pensei fazer uma prospecção entre os meus colegas de curso. Mas tudo não passou de uma ideia nada brilhante. Não perguntei a ninguém! Pois, como deveria escrever se fosse coerente, tenho a noção de alguns dos meus estimados colegas, conseguiram chegar ao Paraíso dos químicos-engenheiros, que como sabem é o de poder investigar sem se preocupar por aquelas bagatelas de garantir o seu sustento e o da sua família, caso tivessem o desplante de se meter nesta sarilhada do colocar descendência neste mundo.

Para tentar entrar no campo das “descobertas”, magiquei que havia dois caminhos possíveis, de entrada o ter uma ficha de estudos pelo menos razoável. A seguir ser ciente de que o caminho com maior probabilidade de êxito, é o de entrar na tal “função pública”. E o mais indicado era iniciando o percurso no ensino no mesmo centro onde se formou. Obtido este trabalho, inicialmente não excessivamente bem remunerado mas garantido de por vida, terá que conjugar a tarefa de colaborar na ilustração de sucessivas levas de alunos com os trabalhos de laboratório e “investigação”.

A corrida deve arrancar com a tarefa de procurar tudo o que estiver publicado sobre o tema que pensa abordar, sem descurar a tentativa de utilizar os meios de experimentação existentes no mesmo centro onde lecciona. O local é muito favorável para a pesquisa bibliográfica, nomeadamente através dos artigos publicados nas revistas da especialidade. Sempre mais actuais do que os livros. 

Mas sei que houve uma quantidade, não desprezível, de companheiros de ofício que enveredaram pela indústria transformadora nacional. Não digo que com o propósito altruísta de dar o seu melhor para o progresso económico do País mas, mais pragmaticamente, para garantir o seu sustento e também aos custos implícitos ao decidir criar uma família.

É normal que aqueles que se inscreveram na indústria química, fosse qual fosse o nível hierárquico que conseguissem, tinham a noção de que a sua primeira função na empresa que o decidiu contratar, era a de procurar alcançar bons resultados económicos, tanto no produto final como no rendimento dos equipamentos e do pessoal de quem passou a ser responsável.

Mas como a prudência avisa, não se podiam arriscar em excesso, nem lançar foguetes no ar antes de ser oportuno. O julgamento da sua colaboração (remunerada) seria sempre vista sob os resultados do balanço global. Daí que, experimentações atrevidas quando se conta , com o capital alheio, sempre foram perigosas. A indústria, como outros campos, é um terreno escorregadio e os argumentos de um técnico pesam menos do que os números do balanço.

No meu caso pessoal, e já próximo do fim do curso, e sendo consciênte, já então, de que não me podia considerar como tendo sido um aluno destacado, apesar de conseguir uma nota de curso razoável. Tive a veleidade de tentar fazer um pequeno laboratório, pessoal, privado, numa parte do edifício onde morava com os meus pais. Então verifiquei que o sonho de fazer experiências por conta própria (sem ter as costas quentes por rendimentos pessoais tranquilizadores, como tinham alguns dos reputados sábios e inventores) era uma utopia irrealizável. Um reduzido inventário do equipamento e reagentes que considerei necessário para começar “a brincar” deu com a ideia no canto do impossível, não tinha cabimento. Daí que a já anterior noção que esta via profissional só era viável contando com a tesouraria do “papá estado”, ficou definitivamente definida. E a porta de entrada estava, quase sempre, na possibilidade de conseguir entrar como auxiliar nalguma cadeira.



sexta-feira, 27 de setembro de 2019

MEDITAÇÕES - Havia razões para tal



Porque Judeus e Cristãos não se entendem

Ao reler o que editei ontem surgiu-me uma dedução que considero ser importante e que explica um certo número de atitudes entre dois dos ramos das três RELIGIÕES DO LIVRO, que recordamos se trata do Antigo Testamento, o Livro por antonomâsia.

Adiantando a conclusão pessoal a que cheguei, é coisa simples e que foi entendida já séculos atrás quando num sínodo ou concílio de que não tenho referência. Ali foi decidido, entre as autoridades máximas da Igreja Católica, que o leitura do Antigo Testamento, na sua totalidade de textos, não era aconselhável para a maioria da população, pois que, como se torna evidente de imediato, o carácter que nos é dado do Deus revelado é a antítese do que Jesus dizia.

Na minha experiência vivida recordo como, desde o tempo da primária, nos eram contadas, mas devidamente seleccionadas, alguma passagens do Antigo Testamento, como exemplo de bondade o fim da pena de morte para o filho de Isaac. Uma verdadeira bondade de Jeová, após ter massacrado, sadicamente, a mente de um pai excessivamente obediente da autoridade máxima. De qualquer forma nos estavam vedados os textos originais e completos do A.T, estes livros estavam reservados. Não se podiam consultar.

Precisamente esta interdição dos textos “completos” do Antigo Testamento foi uma das decisões contrárias que tomou Lutero, e seus seguidores, quando se separou como Igreja Protestante. Aqueles que não ingressamos nalguma das muitas ramas de Protestantes que existem actualmente, temos referências, indirectas, de que as cerimónias litúrgicas nestes credos iniciam-se, quase sempre, pela leitura e posterior comentário de algumas passagens do Antigo Testamento. Podemos deduzir que as sementes para agir com crueldade estão lançadas. Só falta aplicar as receitas quando entenderem ser oportuno.

Igualmente, os judeus, e em especial os mais ortodoxos, conservadores, só aceitam, como livros sagrados, a seguir e obedecer, precisamente o que antecedeu à passagem de Jesus como enviado por Deus Pai como sendo seu filho, dado que, ainda hoje, estão aguardando a chegada do Novo Messias, uma vez que não aceitam ter sido Jesus da Nazaré. Há sentenças para todos os gostos.

Será esta negação do Novo Testamento, em oposição ao que se descreve no Antigo Testamento assim tão importante? É evidente que sim. No texto anterior já deixei explícito que o Deus da Bíblia, no A.T. é um ente extremamente rigoroso, pouco adicto a exercer perdão e, pelo contrário, preferir as soluções mais drásticas, doam a quem doerem. Aqui está a máxima disparidade entre o A.T. e a doutrina de Jesus.

O modo de encarar esta diferença, sem contudo a mostrar abertamente, é diferente entre católicos e protestantes, embora temos que reconhecer que dentro da bondade circunspecta do catolicismo, a cúria utilizou as torturas e castigos extremos quando entendeu, sem que isso os desviasse da imagem amável que se desejava manter. Os mais ortodoxos, sejam eles judeus ou cristãos, fazem as suas interpretações na forma que lhes convêm em cada momento. Por isso não nos deve admirar saber que muitos “cristãos” colaboraram convictamente com os nazis ao longo do holocausto.

Semelhantes devem ser as interpretações dos muçulmanos, que, em princípio, constituem a terceira rama dos denominados povos do livro. Nestas coisas encontram-se sempre justificações para os maiores atropelos e atrocidades, e sempre baseados em argumentos de fé e salvação das almas. Das suas evidentemente.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

MEDITAÇÕES - O “nosso” DEUS É ZAROLHO ?


OS CICLOPES

O facto de ser excessivamente céptico, ou descrente em relação a conceitos que se aceitam sem discussão, como se se tratassem de dogmas de fé, e portanto temas sobre os quais não estamos “autorizados” a ter dúvidas e muito menos a ser alvo de polémicas, não me impede, antes pelo contrário, os observar com curiosidade e isenção. E com uma irresistível vontade de tentar descobrir as origens de algumas lendas e costumes, mais ou menos fantásticos.

O facto de não termos outra hipótese, factível, de admitir que a nossa permanência neste mundo, como ente individual, tem um período de validade relativamente curto e que, devido a esta consciência estruturou-se a memória por meio da transmissão oral de factos pretéritos, e, mais credível quando se dispõe de textos ou qualquer espécie de transcrição por símbolos que se possam considerar como documentos (apesar do reconhecer a quase inevitável manipulação, voluntária ou involuntária, que pode ter sido introduzida pelo relator) faz com que a pesquisa e interpretação de testemunhos de tempos passados seja uma actividade apreciada e divulgada.

Mercê aos muitos estudiosos da antiguidade, tanto arqueólogos, criptógrafos e os seus estudos comparativos de documentos de várias épocas, nos tenham possibilitado saber que muitas das nossas crenças tradicionais tiveram a sua origem em culturas que já desapareceram, mas que deixaram rastros que ainda perduram, apesar de que ao longo dos tempos sofreram adaptações para acompanhar a evolução da sociedade.

A nossa cultura “ocidental”, que normalmente nos limitamos a considerar herança de latinos, gregos, egípcios e semitas, tem a sua génese em alicerces em áreas geográficas relativamente próximas. Nomeadamente naquela zona que, genericamente, identificamos como sendo o Oriente Médio. Todo o Antigo Testamento, que em muitos capítulos é uma compilação de antigos relatos,está centrado nesta zona, à volta dos rios Tigris e Eufrates.

Damos pois como certo, indiscutível, que as culturas mediterrâneas mais próximas, semítica, grega e latina, se basearam nas mitologias mesopotâmicas, que por sua vez se inspiraram nas mitologias de sumérios, arcádios, assírios e babilónicos. Nas inscrições que se encontraram e se conseguiram interpretar, apesar do sempre existente hermetismo das religiões, encontraram-se relatos de grandes inundações, catastróficas, e outras manifestações telúricas, que as escavações confirmam, depois de analisadas criteriosamente, com as relatadas nas mitologias. 

Foram sendo adoptadas e adaptadas, sucessivamente por sucessivas mitologias e que, na actualidade estas grandes inundações, converteram-se nos dilúvios “universais”. Também se admitem os desaparecimentos, repentinos à nossa escala temporal humana, de cidades por terramotos, vulcões, deslizamento de terrenos e outras manifestações de instabilidade da crusta terrestre.

Os deuses de umas civilizações em declínio foram sendo incorporados às novas (?) mitologias, adaptando aos novos costumes, mas quase sempre mantendo os mesmos atributos ou poderes, até chegar às personagens de culto actuais, classificadas em diferentes estatutos, tal como acontecia séculos, ou milénios atrás. Nada de novo neste domínio. Só adaptações à vontade de quem está no comando em dada fase da evolução. O facto de que uma minoria social, com alguma erudição, saiba que tal personagem de culto actual é um decalque de outra, com os mesmos preceitos e capacidades, muito antes de que os semitas já as adoptassem, não nos deve afectar.

E assim cheguei ao ponto que me incentivou a procurar -e não encontrei de forma convincente- de onde surgiu, já na mitologia semita, a representação de um Deus Pai, que alem de ser o responsável da criação, nos é mostrado que nos observa, vigia, omnipresente, através de uma “janela” triangular (a tríade é uma simbologia muito corrente nas mitologias). Aquele único olho, perscrutador, vigilante, que parece que faz pontaria ou que a personagem correspondente é possuidor de um só olho, no meio da testa, como um ciclope, não me satisfaz, não chega para claudicar de uma explicação mais antiga com argumentos convincentes, mesmo que imaginários. Duvido que fosse engendrado pelos semitas ancestros dos judeus e daí transferido para o cristianismo, sempre com o propósito de reciclar o que ainda era de utilidade.

Insistindo na pesquisa recordei as referências a seres mitológicos denominados de ciclopes. A importância histórica dos ciclopes nas mitologias mediterrâneas, e também na Ásia, não se pode esquecer. É quase uma versão mitológica do princípio da conservação da energia. As coisas podem mudar de forma, de denominação, mas no fundo continuam a existir dentro de um novo molde.

Este olho sem o correspondente par simétrico não está ali por ter sido resultado de uma inspiração repentina. A evolução das mitologias mostra que sempre se respeitaram as crenças anteriores, apesar de as adaptarem com o propósito de encaixarem num contexto mais abrangente, e além disso lhes proporcionar um carácter exclusivo.

A personagem que melhor se encaixa com os ciclopes é POLIFEMO. da antiga mitologia grega, já da segunda geração dos ciclopes. Este Polifemo é descrito na Odisseia como um ente sumamente cruel, devorador de homens, entre outras "qualidades" que, numa primeira análise se conjuga com o Deus dos israelitas, o do Antigo Testamento, mas não encaixa na imagem divina proposta pela doutrina de Jesus, o cristianismo. Todavia se nalguma coisa se destaca o Deus do Antigo Testamento, seja Jeová ou outro heterónimo qualquer, é que era impiedoso nos seus julgamentos e sentenças. 

Neste aspecto podemos entender que aquele olho inquisidor, que nos é apresentado no interior do famoso triângulo (símbolo esotérico) é uma simplificação da máscara semi-humana com que os gregos da sua época clássica, representavam o POLIFEMO, entidade, inquiridora e de notório mau carácter, e pior feitio, além de feio e repulsivo.



Máscara antiga representando o ciclope POLIFEMO

Esta descrição de temperamento divino traz-me à memória uma quadra que ouvi em muitas ocasiões quando era criança, e não tinha um espírito crítico desenvolvido. Foi-me sempre referida em castelhano, mas a versão em português diz. SABES QUE DEUS TE ESTÁ A VER, SABES QUE ESTÁ OLHANDO PARA TI, E SABES QUE TENS QUE MORRER, MAS NÃO SABES QUANDO. Um texto que implicitamente alerta para a pouca benevolência que podemos esperar de Deus Pai quando nos julgar. Pelo menos se for correcto o critério de quem inventou a quadra


domingo, 22 de setembro de 2019

MEDITAÇÕES - Um escrito com mensagem



ESTIGMAS

Alguns sinónimos, mesmo que com matizes próprios: MANCHA, SINAL, FERRETE, MAZELA

Com excessiva frequência, ou quase sempre, aquela pessoa que sofre duma marcação que lhe ficou gravada desde muito cedo; por vezes já herdada de algum progenitor, consegue adaptar-se a ser conhecido, por vizinhos e conterrâneos, como se de uma inofensiva alcunha se tratasse. De facto, muitos dos cognomes ou apelidos que constam dos registos de identidade tem a sua origem numa alcunha, seja de índole pessoal, corporal ou de personalidade, mas também podem estar associados a uma origem geográfica.

Os ferretes mais penosos e indeléveis são aqueles ofensivos, que se herdaram e dos quais a pessoa “favorecida” não tem possibilidade de escapar, pelo menos facilmente. É como ter um sinal de nascença na pele. Além disso, todos aqueles que identificam a pessoa pela sua alcunha herdada, evitam e conseguem, jamais dar a saber à vítima que, por mais anos que passem e o seu comportamento não mereça aquela qualificação, é este qualificativo que, perpétuamente, lhe surge na memória.

Creio que todos nós temos, no arquivo humorístico, as vergonhas que passamos, enquanto éramos menos sabedores e imprudentes, se nos dirigíamos a alguém pela alcunha que, invariavelmente acompanhava a pessoa que nos aparecia pela frente. Nesta característica de educação transmitida, que além de errada é usada sem pensar na maldade que causa, são mesmo muitos os adultos irresponsáveis.

Um exemplo vivido. Estaríamos no início da década de '50, -na fase mais negra do após guerra consequência do golpe de estado do exército fascista espanhol- quando, sendo eu um garoto inexperto, a minha mãe me incumbiu de ir até um sapateiro de remendos (naquela época mandavam-se colocar meias solas e saltos com bastante frequência, não só pelo desgaste causado pelos infantes como também pela má qualidade dos materiais de recurso disponíveis) para ver se os meus sapatos já estavam remendados. Eu sabia onde morava e sapateiro, e ao me darem as indicações foi referido, como sempre, pelo sobrenome, não-oficial, de “sabatonas”. Fui lá ter, sem dificuldade.

O homem exercia o seu mister numa divisão que dava para a rua, com a janela quase sempre aberta. Dirigi-me a ele, e a falta da melhor, inquiri se era ali onde trabalhava o senhor “sabatonas”. Nem é necessário dizer que o homem, mais do que sabedor desta alcunha, ao ver que eu era um garoto incapaz de retorquir, deu-me o que hoje creio que devia ser uma pequena descompostura. Em concreto deve ter dito que se chamava ... (não recordo) e que era feio dar alcunhas. Mas levei os sapatos para casa.

Ao chegar, ainda com o recado fresco nos meus ouvidos, contei o sucedido. A galhofa familiar foi extensiva a todos os presentes, sem se punirem pela falta de aviso que deviam ter tido antes de eu sair.

Lamentavelmente, na Catalunha onde morava, e também na ruralidade portuguesa, era sintomático, geral e sem excepção, conhecer as pessoas pelas alcunhas e não pelos nomes. E, sem conseguir recuperar retratos correctos de outras vivências pessoais desta época, onde as alcunhas eram as personagens, e dado que sendo eu o mais velho dos filhos e não existir outra pessoa disponível para fazer recados, a situação repetiu-se em mais de uma e de duas ocasiões.

Conclusão: São hábitos populares que estão enquistados na linguagem quotidiana, e que com excessiva frequência implicam uma noção pejorativa. É factual que as alcunhas passam de geração a geração, tanto pelos utilizadores, useiros e vezeiros, como para os alvos desta forma ignóbil de ser identificados, tem uma “longa vida social” A única técnica que imagino se pode aplicar para terminar com o epíteto que mortifica, é o colocar terra de per meio. Ou dito de outra maneira, ir para longe, onde não existam pessoas que nos conheçam pelo mote de família.

Mas atenção! Podemos escapar das alcunhas anteriores, mas os já residentes, os veteranos do lugar, os que carregam as suas alcunhas “de família” não demorarão em nos atribuir uma identidade específica, que esperamos não nos cause tanto trauma como aquela da qual não se sente a mínima responsabilidade.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

MEDITAÇÕES – O escrever e o coçar



É SÓ COMEÇAR...

Uns cem anos atrás, nesta península ibérica, incluído o nosso jardim rectangular, ainda havia, infelizmente, muita gente incapaz de ler e escrever. Dependiam de outrem para que os ajudasse a decifrar aqueles símbolos confusos, e mais até quando agrupados de uma forma que ele, pesaroso e envergonhado, não entendia.

Hoje ainda se escreve muito. Mas vinte anos atrás escrevia-se muito mais; sem comparação. A dúvida subjacente é a de saber se existem, ainda, leitores assíduos para tanta letra impressa. Para facilitar a fixação de um discurso, com a mesma rapidez com que o emissor o debitava, inventaram-se vários esquemas de simplificação, sendo a estenografia aquele que se considerava mais idóneo e possível de interpretar, digamos traduzir, por outra pessoa que não aquela que gatafunhou. Nos dias de hoje, especialmente entre os mais jovens, que vivem agarrados aos aparelhos portáteis de comunicação, dizem, os que sabem, que foram evoluindo numa espécie de linguagem cifrada, com abreviaturas e signos que lhes permitem “escrever” quase tão depressa como se falassem, e com a vantagem acrescida de que por não emitirem sons, podem passar desapercebidos no meio de outras pessoas.

Já antes da actualidade, em especial após a segunda guerra mundial, os amigos da literatura se escandalizaram pela invasão das imagens desenhadas, acompanhadas de mini-textos, fossem em rodapé ou de buchas em nuvem, com as quais inclusive se banalizaram obras clássicas. Com uma simplificação tão acentuada, que lhes tirava a maior parte, se não toda, da mensagem social e humana que se pretendia oferecer na obra original. De facto, não só pela transformação de textos nitidamente literários em folhetos descartáveis, como também a apropriação da indústria cinematográfica, o que se tornou evidente foi que o número de fieis leitores de clássicos diminuiu drasticamente. Mesmo depois de adultos muitos cidadãos preferiram atender às versões resumidas, onde o pensamento fica de fora em prol da acção.

Durante séculos o saber foi sendo acumulado e disseminado através dos documentos escritos, que com a difusão da imprensa, foi magnificado exponencialmente. Criaram-se magnas bibliotecas, mesmo antes de existirem livros como hoje os conhecemos, A prova mais evidente de como a leitura livresca deixou de ser a base do saber e a fonte de conhecimento geral, é que o esforço magno que conseguiram os enciclopedistas, que surgiram coetâneamente com a Revolução Francesa, e que Dinis Diderot e Jean-Baptiste
d'Alambert ficaram como pais em partilha, já perdeu toda a força de penetração. Já não andam estudantes de porta em porta tentando ganhar algum propondo às famílias a compra de uma magna enciclopédia.

Quem ainda tem uma série de volumes deste tipo de compilação, mesmo que não chegue ao nível da Enciclopédia Britânica, já poucas vezes se decide a consultar. Aqueles grossos livros estão dormentes, expostos aos peixinhos de prata que os comerão gulosamente. Em sua substituição existem versões, nem sempre merecedoras de crédito, nas “páginas electrónicas” de vários “servidores”.

São muitos, e sempre de lastimar, os sintomas que nos referem o facto, já insofismável, de que cada dia se dedica menos tempo útil a ler o que está sobre papel. Desta constatação há quem deduza que a cidadania em geral está avançando, rapidamente, para a ignorância funcional, mesmo que se admita que existem os que, nas suas especialidades ou interesses pessoais, tenham níveis de conhecimento muitíssimo superiores aos da população em geral.

Máximas e Rifões

  • Eruditos sem obras e nuvem sem chuva.
  • Ler sem entender é caçar sem colher.
  • De nada duvida quem nada sabe.
  • Muito falar, pouco saber.