segunda-feira, 16 de setembro de 2019

MEDITAÇÕES - Progride-se ou regride-se ?



Cada dia vemos mais sintomas de que as pessoas não lêem.

As editoras continuam a entregar livros para as livrarias, algumas desta edições podem ser “de autor”, ou dito de outra forma, com os custos a cargo do autor ou de alguma entidade que o patrocine. Por outro lado suspeitamos que as tiragens indicadas nas contracapas podem estar inflacionadas, uma vez que a permanência dos títulos nas exposições é, em geral, muito breve, sem que os índices de venda o justifiquem. Mesmo assim nota-se algumas tentativas para promoção da leitura, nomeadamente pelas referências de alguns títulos em jornais e revistas.

Apesar disso as editoras aceitam que os hipermercados utilizem os livros como chamariz promocional, sempre com a concessão de descontos sobre o preço de capa. Se a este valor em caixa lhe subtrairmos o preço especial que a loja exige para apresentar aquelas obras, nem é necessário fazer contas para concluir que o mercado da edição livre não está numa fase florescente.

No mercado do livro usado, apresentado em bancas de expositores independentes, ao dar um passeio visual, ou mesmo com a pré-disposição de adquirir alguns exemplares, notamos que, nos meses mais recentes, digamos até em dois anos, os valores pedidos, já não são por obra concreta, mas em global. Tem ido baixando de forma notável.

A estes sintomas juntam-se a outros, mais individualizados mas em simultaneidade, o que lhes confere um valor de âmbito geral. Os veteranos, aqueles que nos habituamos a ler livros, uns de conteúdo mais denso e outros mais leves, suspeitamos que as novas gerações estão condicionadas, sem darem conta disso, pela linguagem reduzida que usam, e abusam, nos meios de comunicação electrónica. As abreviaturas usadas constituem um código novo, com o propósito de eliminar caracteres. Pior do que no “antigo” telégrafo.

Sei, por experiência directa, que decidir entrar no âmago, e ir até o fim, de um artigo escrito com mais de 300 caracteres implica uma vocação, quase que de eremita, pois que tal implica o isolar-se do meio que nos rodeia.

Tenho uma experiência pessoal, directa mesmo, que me elucida sobre a dimensão de um texto que pode ser aceite como de interesse ou de ser rejeitado. Desde alguns anos atrás mantive (com alguns intervalos devidos ao desânimo) um espaço -blogue- que intitulei de Vivências de Virella. Ali editava capítulos de um pretenso romance. Textos sempre propositadamente curtos e com poucos parágrafos de divagação, ao contrário do que se entrega às tipografias para “encher chouriços”. Inicialmente tive alguns comentários (quase sempre após um incitamento pessoal, o que os invalida de imediato...) e também a contagem automática de visitas deu valores interessantes. Para tentar manter algum seguidor intercalei a ficção com uma nova rubrica: Meditações, nas que comentei, à minha maneira, situações do quotidiano. De pouco serviu. O interesse inicial, já de por si fraco, foi perdendo vapor até se sumir no nada. Caiu num dos muitos buracos negros “astrofagos” (desculpem este neologismo de produção caseira..)que enxame-iam as galáxias

E aqui surge uma curiosidade. Levado, por arrastamento, a visitar o espaço da quadrilhice e das tontices, além de possibilitar o serem conhecidos por desconhecidos, fui viajando pelo facebook. Aqui encontrei, cada vez com maior número, anedotas de texto, e alguma gráficas. Muitas escritas em português anormal. Muitas já muito batidas, velhinhas mesmo. Senti um impulso irresistível de fazer algum comentário e até de os qualificar com uma nota de exame. AH! SURPRESA MAIÚSCULA. Não há dia em que não me respondam e até me ofereçam “amizade”.

Se calhar devia estar satisfeito, deduzir que encontrei o meu nicho de mercado. Mas não, pelo contrário. Só serviu para certificar que as gentes, mesmo aqueles que ainda conseguem ler, não se interessam por temas sérios ou de ficção com mensagem sub-liminar.

E mais. Atrevo-me a conectar estes factos, de índole pessoal, com o inconcebível desinteresse que os cidadãos eleitores encaram as eleições que, em princípio, deveriam orientar o futuro de País e, por tabela, o da vida de todos nós.

E SE SURGISSE UM CAMPANHA PARA TENTAR INCENTIVAR A LEITURA ? Desconfio que não teria efeitos positivos!

domingo, 15 de setembro de 2019

MEDITAÇÕES - Um erro a evitar




Querem Concelhos e não Conselhos

É muito importante entender o que está implícito no cabeçalho. Por Concelhos, apesar de que nomeadamente correspondem a oferecer a presidência duma Câmara Municipal, deve-mos interpretar como uma das muitas benesses que se oferecem a colaboradores de terceira linha, e que se pretende ficarem satisfeitos com as possibilidades de agir (incorrectamente) que o posto lhes aufere mas, em contrapartida, estarem afastados dos corredores do poder nacional, e nem sequer terem entrada na ante-sala do Parlamento, naquele espaço que também se adjectiva como ser o corredor dos passos perdidos.

Na maior parte dos casos o beneficiado com esta mordomia nem sequer necessita de abanar a árvore para colher frutos. Serão outros os que lhe apresentaram as açafates cheias de apetitosos petiscos, habitualmente de imediato monetários ou com um potencial de serem rentáveis a longo prazo. Todavia há cidadãos que não se satisfazem com esta potencialmente eterna mercê. Julgam que foram ungidos, por um Deus qualquer, à escolha entre os muitos disponíveis, para singrar mais alto.

Os humanos, entre outras características, tem a de ser bi-polares, ou mesmo sem carecer de apoio psiquiátrico, passam por fases opostas, e com duração não equivalente, onde numas sentem-se derrotados sem remédio, consideram-se como inúteis, incapazes, incompetentes, e simplesmente sempre inadequado seja para o que for. Na faceta oposta sobre-valoriza-se, sente-se altivo, orgulhoso, vaidoso, em suma cai naquela famosa situação de que vaidade e água-benta, cada um toma a que quer. (isto já não é bem assim: a disponibilidade de água-benta foi severamente restringida)

Tanto os que se encontram num o noutro dos pólos que auto-qualificação, estão em risco de tombar por não se ajustar à realidade. Cada pessoa tem um potencial determinado, que raramente é ponderado correctamente pelo próprio.

Os que se auto-qualificam-se num nível, imaginário, que não coincide com aquele que decidiram os seus parceiros de equipa, e que o colocaram naquele posto de potencial não desprezável, não se percatam de que, os que o controlam de longe, os seus amigos que está tentando ultrapassar, tem à sua disponibilidade o tanto o de lhe poder abrir um caminho, que ele pensa ser o que merece, como também a alavanca do alçapão que o ata à corda que traz ao pescoço. Ou seja, tanto o podem encumbrar, se assim o entenderem lhes ser rentável, como o deixar cair em três tempos.

A mensagem que esta dissertação transmite é simples: o pior inimigo, aquele que nos pode dar a facada mortal (figuradamente, como é evidente) é aquele que nos declarou ser o seu eterno amigo, o que podia contar sempre como o apoio seguro. É da história!

E chegou ao momento de dissertar acerca de CONSELHOS.

Pouco há que dizer se formos sensatos. Quando alguém, eu ou você, por exemplo, num momento de extrema debilidade mental, caímos na tentação de dar um conselho a um amigo/a, sem que este nem sequer tenha insinuado que o pedia, arriscamos a errar. A ser banidos pela pessoa que queríamos ajudar, porque a sugerência de acção não coincide com aquilo que já tinha previamente decidido. Provavelmente, o nosso atrevimento, cheio de boas intenções, -que se diz terem enchido o inferno até transbordar, antes de este local de castigo ter sido desactivado por alguém capacitado para tal- não só terá um efeito oposto ao que, boamente, se pretendia, como pode conduzir ao afastamento irreversível daquele amigo/a.

Corolário: Antes de dar um conselho, mesmo que tendo sido requerido, pensar duas, três vezes. E depois ter uma saída tangencial para não ficar mal.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

MEDITAÇÕES - Vale a pena ir votar ?



Eles” são os culpados. Ou O AUMENTO DA ABSTENÇÃO


Caso se alterasse o esquema de adjudicação dos votos pelos diferentes concorrentes e fosse possível atribuir algum poder de decisão aos abstencionistas -que não é. do todo- deixaria de existir o estigma de considerar estes não-eleitores, por decisão pessoal, como uns descastados, uns não cidadãos, que se arvoaram como tendo direito a ser uns críticos agudos à governação, seja ela qual for, sem que sintam a necessidade, irresistível, de tentar alterar a situação que consideram sem crédito.

O facto de que, progressivamente, o volume de abstenção tem mostrado tendência a aumentar, é pertinente duvidar da má formação política destes membros transviados. Serão todos uns negacionistas, uns adeptos das ditaduras sejam de que sentido forem?

Não me parece que estes cidadãos se coloquem de fora deste esquema democrático por terem sido “catequizados” por uma central derrotista. O problema é sobejamente conhecido. É o descrédito em que se colocaram, por interesses muito terrenos, os partidos que em princípio deviam representar quem não entrou no esquema dos alevins de formação (1) dos partidos já radicados. Os compromissos grupais e pessoais, que posteriormente irão decidir os seus votos e opções caso cheguem a lugares com poder de decidir, raramente são coincidentes com as necessidades da população anónima, expressas nos meios de comunicação social existentes e nas poucas rodas de amigos que ainda persistem. Pois que são consideradas como as celebradas vozes de burro, que se diz não chegam ao céu.

Quando através da comunicação social se dá conhecimento à população de grandes abusos, desfalques, preferências, negociatas escuras, etc., o cidadão anónimo está de prevenção acerca da isenção dos meios de comunicação -admite que todos eles estão na mão de grupos de interesses, que se encarregam de delimitar o campo de notícias a editar- Então, com uma certa dose de inocência pueril, pode-se duvidar de que seja tanto assim; de que exista um nível poderoso de censura interna.

A explicação é simples. Estes grupos de poder, apesar de habitualmente terem conexões entre eles, funcionam, até certo ponto, como matilhas de cães vadios (a possível ofensa não é casual...) As administrações, lá no topo, admitem que um assunto que, em princípio, pode tornar-se perigoso em geral e daí dar azo a salpicar os seus próprios interesses. Ponderará os prós e contras, e até optar por decidir que dar umas “facadas” no colega, sempre escondendo a mão, pode ser benéfico para os seus próprios interesses.

Sendo assim, muitas das denúncias e processos podem ter uma dupla finalidade. Por um lado dar engodo ao povo, sem entregar as boas cartas do jogo. E por outro saber que os meios, subterrâneos, que se forjaram, não permitirão que alguém dos seus -mesmo que inimigo na competição corporativa- seja ajustiçado no Pelourinho.

Podemos afirmar que estes processos, raramente terminam com grandes sentenças e as poucas que se dão não se cumprem. Não passam de teatro. De fogo de vista para entreter o pagode.

E então? Como incitar os indecisos e abstencionistas, que com o seu virar de costas continuam a perpetuar esta nova ditadura “democrática”?

Ah! Se eu soubesse!... Seria equivalente à descoberta, ainda inédita, da pedra filosofal, da transmutação do chumbo em oiro. Mesmo que se desse uma improvável mudança radical na classe política, podemos desconfiar de não demoraria a criar-se uma nova plêiade de vendidos, onde se instalariam muitos dos que podiam ter sido banidos. A não ser que toda aquela malta fosse desterrada para a Antártida.

Do que não podemos duvidar é que, a estrutura existente, está mais podre do que as naus onde o Marquês embarcou os seus amados jesuítas.

(1) Os alevins, ou mais concretamente, os novos elementos que se captam para vir a integrar os blocos, são o que hoje conhecemos como os JJs. Nada de novo sob o céu. Salazar tinha a sua legião e os lusitos, mais a mocidade portuguesa, com camisas verdes. Hitler tinha os jovens lobos, e depois os SS, com camisa de farda militar. Mussolini criou os balilas, mais os camisas castanhas. Franco aproveitou a Falange e ali inscreveu os mais jovens, com as suas camisas azuis. Todos eles com fardas e fanfarras, desfiles com bandeiras e emblemas com pretensões históricas Hoje as tácticas são menos evidentes, mas igualmente eficazes. Já não interessa ter uma multidão de adeptos, mas um bom grupo, enquadrado, de fieis. Fidelidade que se consegue oferecendo lugares nos diferentes sectores da função pública. Incluída a possibilidade de ingressar no parlamento e daí dar mais uns saltos muito rentáveis.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

MEDITAÇÕES – No Vaticano insistem




OS CONSERVADORES NÃO ARREDAM

Ontem, nos noticiários. foi referido que, no seio da Igreja Católica Apostólica e Romana, e nomeadamente na sua sede vaticana, onde proliferam libertinos e pederastas, existe um movimento que luta para denunciar o actual Papa por ser excessivamente social, e até o qualificam de comunista. Curiosamente recordo ter ouvido e lido, em tempos pretéritos, alguns comunistas afamados e encartados, que afirmavam que Jesus da Nazaré foi o primeiro comunista.

Atendendo, limitando-nos à sociedade dita civil, existem velhacarias cometidas por ambos lados deste espectro, nomeadamente os ultra-conservadores e os ultra-revolucionários. Sucede, porém, e que este Papa, ao contrário dos anteriores, provêm da população do hemisfério Sul -e Central por estarem em condições sociais iguais, equivalente e até, em muitos casos piores-, não pode fechar os olhos aos abusos cometidos sob a protecção da Igreja. Muitos deles directamente por membros do clero, tanto secular como purpurado.

Devemos admitir que sendo este Papa, membro da Ordem dos Jesuítas, voluntariamente tomou o nome de cartaz de Francisco, por se sentir ligado à doutrina propagada e efectivada por São Francisco o tal que criou uma ordem mendicante e cujos membros deviam dedicar-se não só à oração -que se podia considerar um sacrifício de benefício directo-, mas, principalmente a ajudar os mais necessitados. Não foram os únicos, nem tampouco Francisco de Assis foi totalmente original. Mas a estrutura, anquilosada e extremamente conservadora da Igreja, sempre preferiu estar de mão dada com o poder factual e, por arrastamento, com o poder económico. Mesmo na Rússia comunista a igreja, ortodoxa, mas cristã, não se alheou totalmente do poder. “Sacrificaram-se ?”

Algumas coisas já se actualizaram no “espectáculo” que se instalou na Igreja. Entre outros capítulos importantes, que até poucos anos atrás eram basilares, já não se passeia o Papa sentado num andor carregado por fieis (ou contratados. Quem garante? Haverá.como nas procissões andaluzas, voluntários desejosos de conseguir a salvação e outros que necessitam do que lhes pagarem em numerário pelo trabalho. E é mesmo assim!) Mas as cedências de protocolo não se aceita que influenciem a noção de ética e pecado de que muitos dos seus membros aderiram e querem manter.

Não sendo eu crente, em nenhum credo, considero que as “religiões” que actualmente estão criando prosélitos aos magotes, além de se aproveitarem da ignorância das pessoas e do instinto, sempre presente, de acreditar num ente superior, invisível protector e simultâneamente com vocação de punir, tem à cabeça indivíduos bem inteligentes e desprovistos de respeito pelos outros, que se aproveitam do desfasamento actual da Igreja Católica.

Curiosamente não é a primeira vez na história do mundo ocidental em que o excesso de conservadorismo da Igreja Católica abriu portas para surgirem cismas, que além de se fixaram continuam crescendo e até gerando novos rebentos, mais ou menos abastardados.

MEDITAÇÕES - como nos situamos na vida



Nem tudo o que parece é.
Nem só quem é rico vive.
Nem tanto nem tão pouco.
Nem todas as verdades se dizem.
Nem tudo mel nem tudo fel.
Ninguém está bem com a vida que tem.
Ninguém perde o que não tem.
Não julgues da montada pelos arreios.
Julga-se o lobo sempre maior do que é.

Uma mania da qual não me liberto é a de procurar sinais de bem pensar, de sageza, no rifoneiro tradicional. São milhentas as máximas que, em geral, nos oferecem motivos de reflexão e de uma forma restrita. Mesmo com poucas palavras.

Apesar de ter oito décadas às costas nem por isso vejo com clareza, diáfanamente, que uma pessoa tenha os seus sentimentos orientados para um extremo da classificação “política” onde estamos navegando, ou nos satisfizermos com uma atitude mais estática e observadora. E apesar desta incerteza interior de cada um o mais habitual é que os outros, sejam de trato próximo ou afastado qualifiquem o terceiro sem estarem dentro da realidade e nem sequer saberem ponderar as aparências em função do que existe por baixo da epiderme verbal e comportamental.

Em princípio (meio e fim) sou da opinião de que devemos aceitar cada um pelo que é, pelo que deduzimos que efectivamente, no seu íntimo, lhe rege o pensamento e, nem sempre..., o comportamento. O ter uma abertura geral não obriga, como é evidente, a que nos tenhamos que sentir obrigados a conviver com pessoas que não partilham do mesmo sentimento de aceitação. Os há que são tão fechados nos seus ideários que se tornam indigestos, e por isso recomenda-se o afastamento preventivo.

Daí que, cingindo.nos ao espectro mais extremo da política, o que pode parecer fácil para uns, mesmo imediato, colocando este na coluna da direita e o outro no da esquerda, é uma temeridade, ou pelo menos um juízo arriscado, mais teórico do que real. Apesar disso algumas atitudes sociais evidenciam, quase que sem dúvidas, para que lado pende o sentimento profundo de muitos cidadãos. E, curiosamente, é raro que o já de ante-mão qualificado, se posto perante o julgamento “popular” raramente aceitará o veredicto de bom grado.

O exemplo mais actual desta pretensa ambiguidade está no propósito manifesto por todos os partidos actuais em se auto.qualificarem como sendo, sem dúvida nem hesitações, do campo da social democracia.

Seja como for os outros nos avaliam não só pelo que dizemos mas pelo comportamento que transcende para o exterior. Além disso quem criou, anteriormente, uma imagem fixa só com muita dificuldade se poderá ver livre deste estigma. É como as tatuagens!

Noutro apontamento, e não hoje, pretendo estudar, levianamente, aquilo que nos leva a ser qualificados com sendo da direita, da esquerda ou neutros. Para já adianto que uma coisa é o que sentimos interiormente e outra o que fazemos no exterior; podem ser díspares, opostos. Mesmo assim esta possível dualidade comportamental não é eticamente desculpável.









segunda-feira, 2 de setembro de 2019

MEDITAÇÕES – Justifica-se o medo?



Porque o PS quer afastar o BE e até prefere o PCP?

Não é uma pergunta difícil de responder. O actual líder do PS é astuto e manhoso. Soube preparar os partidos mais virados para a sua posição teórica (a esquerda para o PS actual é mais pragmática com a realidade e daí menos exigente na aplicação de um programa antigo) Mas, obviamente, não o pode manifestar claramente à cidadania que, tradicionalmente, ainda se mantêm fiel ao que as siglas históricas lhe dizem.

Costa mostrou ser ambicioso e não se deixar travar por amizades anteriores nem por sentimentalismos. Foi ministro com Sócrates mas quando este seu camarada, e chefe, caiu num processo por avidez e auto-confiança excessiva (a auto-confiança tem sempre um risco elevado), independentemente de ser culpado ou semi-inocente, ele, o seu ex-ministro entendeu que lhe era favorável ficar o mais afastado quanto possível deste processo. É possível que, como pertencentes à classe dos políticos, admitisse fazer algumas manobras de bastidores; mas e conseguindo ficar exposto.

A montagem de apoios que imaginou, sempre na mira de ele conseguir ser Chefe do Governo, como conseguiu dado que os parceiros se sujeitarem a ter voz no parlamento, e nas ruas, mas não terem poder efectivo em nenhum ministério, funcionou com bastante sucesso para o compositor.

Todos vimos (os que se dedicaram a pensar uns minutos) que o excelentes(?) resultados económicos sempre estavam apoiados em barro mole. Mas a habilidade em manobrar os noticiários, tanto na imprensa em papel como nas televisões, manteve o cenário dentro das linhas de contenção. Os números que se tornaram públicos, que nunca chegaram a ter uma contestação pública importante, lhe deram a noção, possivelmente errada, de que já merecia o apoio geral da cidadania e que, tinha chegado o momento de se ver livre das cangas que lhe carregavam os seus parceiros na tal geringonça. E daí que, no próximo futuro, já devia voar por conta própria.

E aqui encontramos o seu ponto fraco mais evidente. Costa desprezou a força do PCP, verdes e mais algum corpúsculo social sem grande peso, e centrou o BE como alvo a abater.

Não vou terçar armas a favor do BE, mas reconheço que é como um enxame de mosquitos, incómodo e insistente. Se os seus argumentos e pressões são pertinentes, nesta situação de debilidade económica (quase que histórica e permanente) de Portugal, é factual que as concessões que conseguiram os grupos comandados pelo BE conduziam a uma discriminação perante outros igualmente merecedores de compensação. Umas cedências que em pouco, ou nada, ajudam para melhorar a situação geral da economia nacional, é algo não só de nível discutível mas evidente.Continua a não ser por este caminho que Portugal avança.

O PS actual, que insisto em admitir estar numa linha de pragmatismo, sempre supeditada a ter que beneficiar os seus apoiantes directos quando tem o poder em exclusividade. Sabem que a sociedade civil portuguesa, apesar das diferenças que continuam a ser patentes com os restantes países nossos parceiros, foi mudando. Muitas pessoas deixaram de se sentir na extrema esquerda. Tornaram-se pequenos burgueses, mesmo muito mais pequenos do que eles sonham ser, e aquela anedota de “nas minhas galinhas ninguém toca!” tornou-se extensiva à compra (hipotecada) da residência, de uma viatura e de consumir em excesso, sem capacidade final de amealhar, para poder atender a imprevistos, coisa que era o habitual entre as classes mais desfavorecidas nas gerações anteriores.

Daí que o PCP não é considerado perigoso. Está velho e quase a estado caquéctico. O BE, pelo contrário, tem à frente gente jovem, com melhor formação intelectual; mais ambiciosos e conhecedores dos pontos débeis da governação. Digamos que fingem não saber das repercussões que os seus logros sempre causam no equilíbrio económico do País. Antes são seguidores da receita: Os fins é que justificam os meios.

domingo, 1 de setembro de 2019

MEDITAÇÕES - Gostos e hábitos




Quando se gera a nossa personalidade

É indubitável que, além do que através da placenta nos é transferido pela mãe, posto que está verificado que os temperos que ela absorve na sua alimentação são transferidos, nem, que seja parcialmente para o seu sangue, e daí passem para a circulação do feto, o nasciturno adquire hábitos e gostos com o concurso não só dos pais como também no entorno que o vai rodeando ao longo da infância e adolescência. Até aqui tudo o que deixei escrito é de uma obviedade cristalina e dispensável.

Todos sabemos que desde que agarrados ao mamilo da teta materna, já o instinto nos leva a exigir uma atenção exclusiva. Mais tarde os nossos horizontes vão-se alargando progressivamente e podemos captar e assimilar influências externas às do restrito círculo familiar. Daí que, depois de citar os factos dos primeiros, senti que era, igualmente importante, referir a influência do que mais adiante ao longo da nossa vida, nos deparamos, nomeadamente ao nos confrontar com hábitos e costume de pessoas com percursos diferentes dos nossos, e que, não raramente, nos podem levar a modificar costumes e hábitos que até então os considerávamos eternos e imutáveis.

Esta introdução veio a propósito de sentir como a nossa vida e costumes tem-se modificado, até profundamente, ao longo das derradeiras sete-oito décadas, que posso referir pelo facto de que as minhas memórias vividas, e observadas do que me envolveu, diferem actualmente bastante do que estava à nossa disposição quando entramos neste mundo.

Para já, e é um factor de peso, a literacia, mesmo que em muitas ocasiões se mantenha em níveis “abaixo de cão”, não podemos ignorar que evoluiu positivamente. A extensão do analfabetismo total já deixou de ser alarmante na nossa sociedade. E mais, que apesar de reconhecer que aquilo que nos é posto à disposição, neste campo da cultura, funciona, persiste a famosa imagem do cobertor pequeno, que deixa os pés de fora se o puxarmos para a cara e vice-versa. Ou seja, que nem tudo é cumulativo, e perdem-se valências válidas.

Quando o aglomerado familiar ainda estava na fase sedentária, em que num mesmo lar podiam conviver várias gerações e parentes com diferentes graus de conexão, muito do saber ancestral era transferido por via oral, normalmente pelas mães, os pais quando tinham tempo disponível e o cansaço do trabalho lhes permitia conviver com os descendentes, mas principalmente pelos avós e outros idosos que eventualmente estivessem sob o mesmo tecto.

Além das vivências pessoais que estes adultos, educadores voluntários, transferiam aos membros das gerações seguintes, existia um repositório bastante amplo de contos e lendas que eram ansiosamente esperados pelos infantes, sem que estivessem conscientes de que, na maioria dos casos, estes contos carregavam uma mensagem, mais ou menos evidente ou oculta, que contribuía à formação da personalidade. Daí que, especialmente nos meios rurais, antes de que se instalasse o poder da comunicação de massas, as famílias tinham uma importância basilar.

Primeiro foi com a imprensa, que possibilitou o repartir de forma mais ou menos extensiva cartazes e folhas soltas, pasquins, e jornais de distribuição limitada. Veio a escolaridade. Inicialmente tímida na sua extensão para a população em geral, como já sucedia nas sociedades clássicas de Grécia e Roma, entre outras. Mas paulatinamente a mesma sociedade, na sua evolução económica, foi tornando evidente a conveniência de incrementar o nível de conhecimentos dos seus elementos. Até chegarmos a definições bastante imprecisas (pelo muito que cabe nelas) como pode ser o tão referido “recursos humanos”, que tantas vezes é utilizado para despersonalizar o indivíduo e transforma-lo numa “coisa”.

Retomando o fio: O desmembramento actual do aglomerado familiar, que foi a base de apoio da humanidade, levou a que a experiência directa, ouvida pela voz de um avó ou equivalente, deixou de ser normal nas famílias. Com isto a formação da personalidade dos infantes foi transferida para uns “profissionais” que utilizam, muitos jogos, considerados didácticos, e novas versões dos contos e fábulas antigas, muitas vezes preparadas com o intuito de serem originais, e daí que as mensagens imediatas que se transmitiam de gerações a gerações, passaram a ser degradadas, pouco aptas para criar sedimentos mentais úteis.

Inicialmente o tema de hoje estava motivado pela necessidade que as pessoas sentem, ao longo da vida, de modificar os hábitos (por exemplo de higiene e saúde) com que conviveram nos seus primeiros anos. Creio que a maioria dos cidadãos já se adaptou às novas exigências e possibilidades de usufruir de uma higiene que não estava disponível para todas as camadas sociais. A instalação de redes de fornecimento de água potável com garantia de boa qualidade, e também de uma rede de esgotos , mais a evolução das habitações, tanto em espaço disponível como em qualidade ambiental (mesmo que ainda existam construções, alguma novas, onde o isolamento não seja eficaz) alteraram, em profundidade, as condições de saúde, longevidade e conhecimento.

Mesmo assim, e sem sermos exageradamente saudosistas, não deixa de se verificar o facto de que nem tudo é progresso garantido. Pelo caminho perdem-se valências que foram fundamentais para chegar ao ponto em que a nossa sociedade está. E, inevitavelmente, mais conceitos e costumes importantes se perderão, cada vez mais rapidamente.