sexta-feira, 13 de setembro de 2019

MEDITAÇÕES - Vale a pena ir votar ?



Eles” são os culpados. Ou O AUMENTO DA ABSTENÇÃO


Caso se alterasse o esquema de adjudicação dos votos pelos diferentes concorrentes e fosse possível atribuir algum poder de decisão aos abstencionistas -que não é. do todo- deixaria de existir o estigma de considerar estes não-eleitores, por decisão pessoal, como uns descastados, uns não cidadãos, que se arvoaram como tendo direito a ser uns críticos agudos à governação, seja ela qual for, sem que sintam a necessidade, irresistível, de tentar alterar a situação que consideram sem crédito.

O facto de que, progressivamente, o volume de abstenção tem mostrado tendência a aumentar, é pertinente duvidar da má formação política destes membros transviados. Serão todos uns negacionistas, uns adeptos das ditaduras sejam de que sentido forem?

Não me parece que estes cidadãos se coloquem de fora deste esquema democrático por terem sido “catequizados” por uma central derrotista. O problema é sobejamente conhecido. É o descrédito em que se colocaram, por interesses muito terrenos, os partidos que em princípio deviam representar quem não entrou no esquema dos alevins de formação (1) dos partidos já radicados. Os compromissos grupais e pessoais, que posteriormente irão decidir os seus votos e opções caso cheguem a lugares com poder de decidir, raramente são coincidentes com as necessidades da população anónima, expressas nos meios de comunicação social existentes e nas poucas rodas de amigos que ainda persistem. Pois que são consideradas como as celebradas vozes de burro, que se diz não chegam ao céu.

Quando através da comunicação social se dá conhecimento à população de grandes abusos, desfalques, preferências, negociatas escuras, etc., o cidadão anónimo está de prevenção acerca da isenção dos meios de comunicação -admite que todos eles estão na mão de grupos de interesses, que se encarregam de delimitar o campo de notícias a editar- Então, com uma certa dose de inocência pueril, pode-se duvidar de que seja tanto assim; de que exista um nível poderoso de censura interna.

A explicação é simples. Estes grupos de poder, apesar de habitualmente terem conexões entre eles, funcionam, até certo ponto, como matilhas de cães vadios (a possível ofensa não é casual...) As administrações, lá no topo, admitem que um assunto que, em princípio, pode tornar-se perigoso em geral e daí dar azo a salpicar os seus próprios interesses. Ponderará os prós e contras, e até optar por decidir que dar umas “facadas” no colega, sempre escondendo a mão, pode ser benéfico para os seus próprios interesses.

Sendo assim, muitas das denúncias e processos podem ter uma dupla finalidade. Por um lado dar engodo ao povo, sem entregar as boas cartas do jogo. E por outro saber que os meios, subterrâneos, que se forjaram, não permitirão que alguém dos seus -mesmo que inimigo na competição corporativa- seja ajustiçado no Pelourinho.

Podemos afirmar que estes processos, raramente terminam com grandes sentenças e as poucas que se dão não se cumprem. Não passam de teatro. De fogo de vista para entreter o pagode.

E então? Como incitar os indecisos e abstencionistas, que com o seu virar de costas continuam a perpetuar esta nova ditadura “democrática”?

Ah! Se eu soubesse!... Seria equivalente à descoberta, ainda inédita, da pedra filosofal, da transmutação do chumbo em oiro. Mesmo que se desse uma improvável mudança radical na classe política, podemos desconfiar de não demoraria a criar-se uma nova plêiade de vendidos, onde se instalariam muitos dos que podiam ter sido banidos. A não ser que toda aquela malta fosse desterrada para a Antártida.

Do que não podemos duvidar é que, a estrutura existente, está mais podre do que as naus onde o Marquês embarcou os seus amados jesuítas.

(1) Os alevins, ou mais concretamente, os novos elementos que se captam para vir a integrar os blocos, são o que hoje conhecemos como os JJs. Nada de novo sob o céu. Salazar tinha a sua legião e os lusitos, mais a mocidade portuguesa, com camisas verdes. Hitler tinha os jovens lobos, e depois os SS, com camisa de farda militar. Mussolini criou os balilas, mais os camisas castanhas. Franco aproveitou a Falange e ali inscreveu os mais jovens, com as suas camisas azuis. Todos eles com fardas e fanfarras, desfiles com bandeiras e emblemas com pretensões históricas Hoje as tácticas são menos evidentes, mas igualmente eficazes. Já não interessa ter uma multidão de adeptos, mas um bom grupo, enquadrado, de fieis. Fidelidade que se consegue oferecendo lugares nos diferentes sectores da função pública. Incluída a possibilidade de ingressar no parlamento e daí dar mais uns saltos muito rentáveis.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

MEDITAÇÕES – No Vaticano insistem




OS CONSERVADORES NÃO ARREDAM

Ontem, nos noticiários. foi referido que, no seio da Igreja Católica Apostólica e Romana, e nomeadamente na sua sede vaticana, onde proliferam libertinos e pederastas, existe um movimento que luta para denunciar o actual Papa por ser excessivamente social, e até o qualificam de comunista. Curiosamente recordo ter ouvido e lido, em tempos pretéritos, alguns comunistas afamados e encartados, que afirmavam que Jesus da Nazaré foi o primeiro comunista.

Atendendo, limitando-nos à sociedade dita civil, existem velhacarias cometidas por ambos lados deste espectro, nomeadamente os ultra-conservadores e os ultra-revolucionários. Sucede, porém, e que este Papa, ao contrário dos anteriores, provêm da população do hemisfério Sul -e Central por estarem em condições sociais iguais, equivalente e até, em muitos casos piores-, não pode fechar os olhos aos abusos cometidos sob a protecção da Igreja. Muitos deles directamente por membros do clero, tanto secular como purpurado.

Devemos admitir que sendo este Papa, membro da Ordem dos Jesuítas, voluntariamente tomou o nome de cartaz de Francisco, por se sentir ligado à doutrina propagada e efectivada por São Francisco o tal que criou uma ordem mendicante e cujos membros deviam dedicar-se não só à oração -que se podia considerar um sacrifício de benefício directo-, mas, principalmente a ajudar os mais necessitados. Não foram os únicos, nem tampouco Francisco de Assis foi totalmente original. Mas a estrutura, anquilosada e extremamente conservadora da Igreja, sempre preferiu estar de mão dada com o poder factual e, por arrastamento, com o poder económico. Mesmo na Rússia comunista a igreja, ortodoxa, mas cristã, não se alheou totalmente do poder. “Sacrificaram-se ?”

Algumas coisas já se actualizaram no “espectáculo” que se instalou na Igreja. Entre outros capítulos importantes, que até poucos anos atrás eram basilares, já não se passeia o Papa sentado num andor carregado por fieis (ou contratados. Quem garante? Haverá.como nas procissões andaluzas, voluntários desejosos de conseguir a salvação e outros que necessitam do que lhes pagarem em numerário pelo trabalho. E é mesmo assim!) Mas as cedências de protocolo não se aceita que influenciem a noção de ética e pecado de que muitos dos seus membros aderiram e querem manter.

Não sendo eu crente, em nenhum credo, considero que as “religiões” que actualmente estão criando prosélitos aos magotes, além de se aproveitarem da ignorância das pessoas e do instinto, sempre presente, de acreditar num ente superior, invisível protector e simultâneamente com vocação de punir, tem à cabeça indivíduos bem inteligentes e desprovistos de respeito pelos outros, que se aproveitam do desfasamento actual da Igreja Católica.

Curiosamente não é a primeira vez na história do mundo ocidental em que o excesso de conservadorismo da Igreja Católica abriu portas para surgirem cismas, que além de se fixaram continuam crescendo e até gerando novos rebentos, mais ou menos abastardados.

MEDITAÇÕES - como nos situamos na vida



Nem tudo o que parece é.
Nem só quem é rico vive.
Nem tanto nem tão pouco.
Nem todas as verdades se dizem.
Nem tudo mel nem tudo fel.
Ninguém está bem com a vida que tem.
Ninguém perde o que não tem.
Não julgues da montada pelos arreios.
Julga-se o lobo sempre maior do que é.

Uma mania da qual não me liberto é a de procurar sinais de bem pensar, de sageza, no rifoneiro tradicional. São milhentas as máximas que, em geral, nos oferecem motivos de reflexão e de uma forma restrita. Mesmo com poucas palavras.

Apesar de ter oito décadas às costas nem por isso vejo com clareza, diáfanamente, que uma pessoa tenha os seus sentimentos orientados para um extremo da classificação “política” onde estamos navegando, ou nos satisfizermos com uma atitude mais estática e observadora. E apesar desta incerteza interior de cada um o mais habitual é que os outros, sejam de trato próximo ou afastado qualifiquem o terceiro sem estarem dentro da realidade e nem sequer saberem ponderar as aparências em função do que existe por baixo da epiderme verbal e comportamental.

Em princípio (meio e fim) sou da opinião de que devemos aceitar cada um pelo que é, pelo que deduzimos que efectivamente, no seu íntimo, lhe rege o pensamento e, nem sempre..., o comportamento. O ter uma abertura geral não obriga, como é evidente, a que nos tenhamos que sentir obrigados a conviver com pessoas que não partilham do mesmo sentimento de aceitação. Os há que são tão fechados nos seus ideários que se tornam indigestos, e por isso recomenda-se o afastamento preventivo.

Daí que, cingindo.nos ao espectro mais extremo da política, o que pode parecer fácil para uns, mesmo imediato, colocando este na coluna da direita e o outro no da esquerda, é uma temeridade, ou pelo menos um juízo arriscado, mais teórico do que real. Apesar disso algumas atitudes sociais evidenciam, quase que sem dúvidas, para que lado pende o sentimento profundo de muitos cidadãos. E, curiosamente, é raro que o já de ante-mão qualificado, se posto perante o julgamento “popular” raramente aceitará o veredicto de bom grado.

O exemplo mais actual desta pretensa ambiguidade está no propósito manifesto por todos os partidos actuais em se auto.qualificarem como sendo, sem dúvida nem hesitações, do campo da social democracia.

Seja como for os outros nos avaliam não só pelo que dizemos mas pelo comportamento que transcende para o exterior. Além disso quem criou, anteriormente, uma imagem fixa só com muita dificuldade se poderá ver livre deste estigma. É como as tatuagens!

Noutro apontamento, e não hoje, pretendo estudar, levianamente, aquilo que nos leva a ser qualificados com sendo da direita, da esquerda ou neutros. Para já adianto que uma coisa é o que sentimos interiormente e outra o que fazemos no exterior; podem ser díspares, opostos. Mesmo assim esta possível dualidade comportamental não é eticamente desculpável.









segunda-feira, 2 de setembro de 2019

MEDITAÇÕES – Justifica-se o medo?



Porque o PS quer afastar o BE e até prefere o PCP?

Não é uma pergunta difícil de responder. O actual líder do PS é astuto e manhoso. Soube preparar os partidos mais virados para a sua posição teórica (a esquerda para o PS actual é mais pragmática com a realidade e daí menos exigente na aplicação de um programa antigo) Mas, obviamente, não o pode manifestar claramente à cidadania que, tradicionalmente, ainda se mantêm fiel ao que as siglas históricas lhe dizem.

Costa mostrou ser ambicioso e não se deixar travar por amizades anteriores nem por sentimentalismos. Foi ministro com Sócrates mas quando este seu camarada, e chefe, caiu num processo por avidez e auto-confiança excessiva (a auto-confiança tem sempre um risco elevado), independentemente de ser culpado ou semi-inocente, ele, o seu ex-ministro entendeu que lhe era favorável ficar o mais afastado quanto possível deste processo. É possível que, como pertencentes à classe dos políticos, admitisse fazer algumas manobras de bastidores; mas e conseguindo ficar exposto.

A montagem de apoios que imaginou, sempre na mira de ele conseguir ser Chefe do Governo, como conseguiu dado que os parceiros se sujeitarem a ter voz no parlamento, e nas ruas, mas não terem poder efectivo em nenhum ministério, funcionou com bastante sucesso para o compositor.

Todos vimos (os que se dedicaram a pensar uns minutos) que o excelentes(?) resultados económicos sempre estavam apoiados em barro mole. Mas a habilidade em manobrar os noticiários, tanto na imprensa em papel como nas televisões, manteve o cenário dentro das linhas de contenção. Os números que se tornaram públicos, que nunca chegaram a ter uma contestação pública importante, lhe deram a noção, possivelmente errada, de que já merecia o apoio geral da cidadania e que, tinha chegado o momento de se ver livre das cangas que lhe carregavam os seus parceiros na tal geringonça. E daí que, no próximo futuro, já devia voar por conta própria.

E aqui encontramos o seu ponto fraco mais evidente. Costa desprezou a força do PCP, verdes e mais algum corpúsculo social sem grande peso, e centrou o BE como alvo a abater.

Não vou terçar armas a favor do BE, mas reconheço que é como um enxame de mosquitos, incómodo e insistente. Se os seus argumentos e pressões são pertinentes, nesta situação de debilidade económica (quase que histórica e permanente) de Portugal, é factual que as concessões que conseguiram os grupos comandados pelo BE conduziam a uma discriminação perante outros igualmente merecedores de compensação. Umas cedências que em pouco, ou nada, ajudam para melhorar a situação geral da economia nacional, é algo não só de nível discutível mas evidente.Continua a não ser por este caminho que Portugal avança.

O PS actual, que insisto em admitir estar numa linha de pragmatismo, sempre supeditada a ter que beneficiar os seus apoiantes directos quando tem o poder em exclusividade. Sabem que a sociedade civil portuguesa, apesar das diferenças que continuam a ser patentes com os restantes países nossos parceiros, foi mudando. Muitas pessoas deixaram de se sentir na extrema esquerda. Tornaram-se pequenos burgueses, mesmo muito mais pequenos do que eles sonham ser, e aquela anedota de “nas minhas galinhas ninguém toca!” tornou-se extensiva à compra (hipotecada) da residência, de uma viatura e de consumir em excesso, sem capacidade final de amealhar, para poder atender a imprevistos, coisa que era o habitual entre as classes mais desfavorecidas nas gerações anteriores.

Daí que o PCP não é considerado perigoso. Está velho e quase a estado caquéctico. O BE, pelo contrário, tem à frente gente jovem, com melhor formação intelectual; mais ambiciosos e conhecedores dos pontos débeis da governação. Digamos que fingem não saber das repercussões que os seus logros sempre causam no equilíbrio económico do País. Antes são seguidores da receita: Os fins é que justificam os meios.

domingo, 1 de setembro de 2019

MEDITAÇÕES - Gostos e hábitos




Quando se gera a nossa personalidade

É indubitável que, além do que através da placenta nos é transferido pela mãe, posto que está verificado que os temperos que ela absorve na sua alimentação são transferidos, nem, que seja parcialmente para o seu sangue, e daí passem para a circulação do feto, o nasciturno adquire hábitos e gostos com o concurso não só dos pais como também no entorno que o vai rodeando ao longo da infância e adolescência. Até aqui tudo o que deixei escrito é de uma obviedade cristalina e dispensável.

Todos sabemos que desde que agarrados ao mamilo da teta materna, já o instinto nos leva a exigir uma atenção exclusiva. Mais tarde os nossos horizontes vão-se alargando progressivamente e podemos captar e assimilar influências externas às do restrito círculo familiar. Daí que, depois de citar os factos dos primeiros, senti que era, igualmente importante, referir a influência do que mais adiante ao longo da nossa vida, nos deparamos, nomeadamente ao nos confrontar com hábitos e costume de pessoas com percursos diferentes dos nossos, e que, não raramente, nos podem levar a modificar costumes e hábitos que até então os considerávamos eternos e imutáveis.

Esta introdução veio a propósito de sentir como a nossa vida e costumes tem-se modificado, até profundamente, ao longo das derradeiras sete-oito décadas, que posso referir pelo facto de que as minhas memórias vividas, e observadas do que me envolveu, diferem actualmente bastante do que estava à nossa disposição quando entramos neste mundo.

Para já, e é um factor de peso, a literacia, mesmo que em muitas ocasiões se mantenha em níveis “abaixo de cão”, não podemos ignorar que evoluiu positivamente. A extensão do analfabetismo total já deixou de ser alarmante na nossa sociedade. E mais, que apesar de reconhecer que aquilo que nos é posto à disposição, neste campo da cultura, funciona, persiste a famosa imagem do cobertor pequeno, que deixa os pés de fora se o puxarmos para a cara e vice-versa. Ou seja, que nem tudo é cumulativo, e perdem-se valências válidas.

Quando o aglomerado familiar ainda estava na fase sedentária, em que num mesmo lar podiam conviver várias gerações e parentes com diferentes graus de conexão, muito do saber ancestral era transferido por via oral, normalmente pelas mães, os pais quando tinham tempo disponível e o cansaço do trabalho lhes permitia conviver com os descendentes, mas principalmente pelos avós e outros idosos que eventualmente estivessem sob o mesmo tecto.

Além das vivências pessoais que estes adultos, educadores voluntários, transferiam aos membros das gerações seguintes, existia um repositório bastante amplo de contos e lendas que eram ansiosamente esperados pelos infantes, sem que estivessem conscientes de que, na maioria dos casos, estes contos carregavam uma mensagem, mais ou menos evidente ou oculta, que contribuía à formação da personalidade. Daí que, especialmente nos meios rurais, antes de que se instalasse o poder da comunicação de massas, as famílias tinham uma importância basilar.

Primeiro foi com a imprensa, que possibilitou o repartir de forma mais ou menos extensiva cartazes e folhas soltas, pasquins, e jornais de distribuição limitada. Veio a escolaridade. Inicialmente tímida na sua extensão para a população em geral, como já sucedia nas sociedades clássicas de Grécia e Roma, entre outras. Mas paulatinamente a mesma sociedade, na sua evolução económica, foi tornando evidente a conveniência de incrementar o nível de conhecimentos dos seus elementos. Até chegarmos a definições bastante imprecisas (pelo muito que cabe nelas) como pode ser o tão referido “recursos humanos”, que tantas vezes é utilizado para despersonalizar o indivíduo e transforma-lo numa “coisa”.

Retomando o fio: O desmembramento actual do aglomerado familiar, que foi a base de apoio da humanidade, levou a que a experiência directa, ouvida pela voz de um avó ou equivalente, deixou de ser normal nas famílias. Com isto a formação da personalidade dos infantes foi transferida para uns “profissionais” que utilizam, muitos jogos, considerados didácticos, e novas versões dos contos e fábulas antigas, muitas vezes preparadas com o intuito de serem originais, e daí que as mensagens imediatas que se transmitiam de gerações a gerações, passaram a ser degradadas, pouco aptas para criar sedimentos mentais úteis.

Inicialmente o tema de hoje estava motivado pela necessidade que as pessoas sentem, ao longo da vida, de modificar os hábitos (por exemplo de higiene e saúde) com que conviveram nos seus primeiros anos. Creio que a maioria dos cidadãos já se adaptou às novas exigências e possibilidades de usufruir de uma higiene que não estava disponível para todas as camadas sociais. A instalação de redes de fornecimento de água potável com garantia de boa qualidade, e também de uma rede de esgotos , mais a evolução das habitações, tanto em espaço disponível como em qualidade ambiental (mesmo que ainda existam construções, alguma novas, onde o isolamento não seja eficaz) alteraram, em profundidade, as condições de saúde, longevidade e conhecimento.

Mesmo assim, e sem sermos exageradamente saudosistas, não deixa de se verificar o facto de que nem tudo é progresso garantido. Pelo caminho perdem-se valências que foram fundamentais para chegar ao ponto em que a nossa sociedade está. E, inevitavelmente, mais conceitos e costumes importantes se perderão, cada vez mais rapidamente.


terça-feira, 27 de agosto de 2019

MEDITAÇÕES - VEM AÍ ELEIÇÕES LEGISLATIVAS



E avisos, pedidos, insinuações e temores

O nosso actual primeiro ministro, que conseguiu o lugar através dos acordos com partidos mais esquerdistas do que o seu PS, cujo comportamento identitário é mais de centro do que centro-esquerda, anda nervoso receando que os votos perdidos pela direita -ou centro-direita porque neste campeonato os “sensatos” fogem dos extremos-em vez de se recolherem -a falta de melhor- no seu palácio do Rato, derivem para os outros sócios da actual “geringonça”.

E, curiosamente, o que António Costa teme é que aumente o peso do BE, por isso chega a insinuar, muito claramente, que se não votarem nele votem no PCP, que, segundo lhe parece, já tem poucos dentes. Ou seja, que ladra mas não morde, especialmente porque está em acção um desmembramento da Intersindical.

E tem razão. Disso não há quem possa duvidar. As consecutivas cedências que tem dado para satisfazer -assim assim- os sucessivos grevistas, foram feitas para não se incompatibilizar com os sócios de esquerda, concretamente com o BE. Uma formação contestatária que, sintomáticamente, tem as senhoras como vozes cantantes. E no PCP e AD também quiseram aproveitar a verbe feminina para cabeças de cartaz.

E as feministas ainda não estão satisfeitas! Sempre mandaram nas casas e agora já mandam nos aerópagos.

As consequências económicas para o País são sobejamente conhecidas e podem resumir-se naquela frase lapidar que avisa NÃO SE PODEM FAZER OMELETES SEM OVOS. Traduzida em linguagem de carcanhóis explica como qualquer cedência monetária que se faça, dentro do programa de austeridade que o rejeitado Centeno exige, leva a mais dívida externa, mais deficit e mais impostos, directos e indirectos.

Todos verificamos que o que se da a uns é tirado do bolso de outros. Não existe outra aritmética que não esta; sempre foi assim e sempre será enquanto não subir a produção nacional e as exportações de bens produzidos em empresas realmente nacionais. E este caminho está esburacado desde bastantes anos. Deve ser uma sina que os deuses do Olimpo nos impuseram.

É possível que nos inventários dos governos ainda possam existir alguns bens nacionais para vender a chineses ou a outros investidores que, não nos iludimos, são os novos colonialistas. Todos pretendem amortizar rapidamente o seu investimento -e as gratificações que tiveram que distribuir para conseguir tomar conta das empresas- recorrendo aos salários mais baixos da Europa ocidental. Ou seja: pagar com o pêlo do mesmo cão e depois sangrar enquanto não morre.

Já nem sequer existe o receio de que a direita nacional possa recuperar os seus domínios. O receio entre os políticos actuais é que a falsa estabilidade social possa estoirar, nem que seja por reflexo do que já acontece nos países mais adiantados. Uma reacção social que está travada tanto pela apatia que se apoderou da cidadania como pela habitual decalagem com que os acontecimentos no centro da Europa chegam até este famoso Jardim. E quase sempre já “fora de tempo”.

É curioso que um sintoma importante do que está sucedendo em Portugal nos seja evidenciado pelos migrantes que nos são distribuídos. Mesmo numa década atrás, quando ainda não se tornara um facto noticioso o recolher migrantes no Mediterrâneo, apareceram por cá umas levas de ucranianos. Muitos deles com formatura universitária, ou profissionais reputados. Mas não se negaram a trabalhar nas colheitas de fruta e outros afazeres abaixo das suas capacidades. E, subitamente, passados uns anos, não muitos, desapareceram. Não foram para os EUA ou se ficaram na França ou Alemanha, muitos regressaram ao seu país de origem, pois viram que aqui as condições de salário-habitação e subsistência não lhes eram favoráveis.

Recentemente lemos notícias de que alguns dos actuais migrantes que Portugal aceita acolher, apesar de se lhes darem apoios que não são extensivos aos cidadãos nacionais mais desfavorecidos, não tardam em deixar os andares vazios e rumarem para o centro da Europa. Já que deixaram a sua terra tem que procurar o melhor poiso.

Situação parecida é a que se verifica com muitos operários especializados nacionais, nomeadamente em tarefas hospitalares, e licenciados em cursos superiores que aqui não conseguem ocupação que corresponda ao horizonte que lhes foi sugerido. É uma sangria de profissionais que foram preparados pelo estado, com os impostos pagos por todos, e que depois não são utilizados em tarefas que derem o retorno pertinente.

Entre uns sintomas e outros, e sem desviar para situações específicas que nos levam a desacreditar totalmente na classe política que se governa às costas do erário público, não é difícil chegar à conclusão de que, tal como no tempo de Júlio César, não somos capazes de nos governar de uma forma correcta, sensata e produtiva para a comunidade.

Não me cabe o papel de insinuar ou até invocar para donde devem colocar o vosso voto. MAS É MUITO IMPORTANTE VOTAR. DESTA VEZ MAIS DO QUE EM NENHUMA CONVOCATÓRIA ANTERIOR. ABSTENÇÃO E VOTOS NULOS EQUIVALEM A ACEITAR O PAPEL DE CARNEIROS EM DIRECÇÃO AO AÇOUGUE. E SEM DAR UMAS BOAS MARRADAS PELO CAMINHO, QUE PARA ISSO OS CARNEIROS TEM CORNOS.

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

MEDITAÇÕES - Das opções e decisões



Quando vemos que acertamos ou erramos.

Se decidimos do rumo da nossa vida o mais usual é que não só modificamos o nosso percurso pessoal como, por arrastamento a nossa atitude vai condicionar, mesmo que seja durante um período de tempo, a vida de outras pessoas, nomeadamente de algumas com as quais existam ligações familiares.

Este é um tema que, quando a idade nos torna mais meditados e daí propensos a fazer balanços do passado, nos pode ocupar algumas horas mortas, aquelas que a insónia, nos oferece e que, não raramente, nos induz à auto-recriminação, sem necessidade de abrir a boca nem tampouco incitar a nos inculpar desde a janela para a rua, numa espécie de penitência. Mesmo que o orgulho nos trave o impulso de nos flagelar publicamente, o mais normal é que o ego com cariz de penitente não consiga vencer o retraimento soberbo. Ou seja, mesmo nestes momentos de introspecção é difícil que vença a personalidade extra, a descontente, a que não consegue apoiar-nos sem contraditório. Esta luta desigual está magistralmente retratada no grilo que quer corrigir os erros de Pinóquio.

Quem tenha lido, nem que seja por simples curiosidade, algumas biografias de personagens ilustres citadas como exemplo por terem sentido a tal “luz da verdade” e por sua influência passaram a ser o oposto daquilo que foi o seu comportamento anterior, pode acontecer que sinta algum cepticismo perante esta alteração da polaridade e desconfia da autenticidade de tais mudanças. E daí não se sinta com a mesma predisposição para mudar nas suas convicções e comportamento. 

Nem mesmo os vestígios geológicos de que o nosso planeta já mudou de polaridade em mais de uma vez não nos convencem de que as pessoas, em geral, tenham uma propensão frequente para sentir um chamamento súbito que os induza para mudar drasticamente. Imaginamos, de boa fé, que o indivíduo assim converso deve ter passado por uma fase anterior que o empurrasse para a mudança drástica, que a alteração deve ter sido progressiva e não súbita.

Claro que “neste mundo cruel” tudo pode acontecer, e até nos oferecem, gratuitamente, relatos de santificação de indivíduos que, anteriormente, eram uns verdadeiros facínoras, indesejáveis.

Ao longo da minha vida e já com capacidade para decidir, tomei demasiadas decisões e opções, que posteriormente se mostrou terem sido mal ponderadas. Agir impulsivamente, com a mente sob “o sangue quente” como se diz coloquialmente, é muito propício a seguir o caminho errado. Uma situação anímica que, tendo chegado a uma idade provecta, em que já é impossível refazer o caminho, nos pode desmoralizar em grado superlativo.

Quem, neste momento, esteja afiando a faca por pressentir que vou fazer um relato pessoal das decisões que, desde anos atrás, considerei terem sido erradas, pode dormir descansado. Não vou abrir o meu coração, ou a minha alma se preferirem, para gozo dos curiosos. Para me penalizar basta reconhecer alguns dos meus erros. Certamente que não todos, pois habitualmente as pessoas somos adeptas a não se martirizarem agudamente. E se tal sentido de conservação não funcionar, pode-se chegar à decisão final, que pode ser o suicídio.