quarta-feira, 14 de agosto de 2019

MEDITAÇÕES – Evolução deficiente



Após 60 anos de casa

Muitos dos actuais habitantes de Portugal não têm uma experiência de vida no rectângulo que se possa comparar à minha. Outros, com uma dose razoável de sorte e boa saúde me acompanham ou mesmo ultrapassam esta fasquia.

A conjuntura actual em que nos deparamos com uma greve que é tratada de uma forma prepotente e desrespeitadora dos direitos da população em geral, não só pelos sectores directamente atingidos e comprometidos como também pela maioria dos meios de comunicação social, que sempre estão ansiosos de poder referir notícias ao estilo da famosa «homem que mordeu um cão». Em consequência, a população em geral é incitada a se precaver com um exagero que raia na loucura, sem pensarem que esta é uma situação passageira. Uma vez alertados com receios exagerados e já com os nervos à flor da pele, tomam as já clássicas atitudes de açambarcamento injustificado.

Pensando com um propósito de alargar os horizontes para além de saber onde podemos reabastecer, nem que seja limitadamente, a primeira conclusão que nos surge é a de que, podemos apostar sabendo que ganharíamos, muitos dos carros a que atestaram os depósitos, e ainda encheram recipientes para garantir uma reserva, tinham passado longos meses sem ver os seus depósitos cheios até o tubo de entrada. É uma situação clássica após o anuncio de faltar qualquer coisa, especialmente de bens essenciais. O impulso tem mais força do que o frio raciocínio.

Chegando a este ponto, de carácter sociológico, sou levado a meditar acerca da carência de evolução social que a população portuguesa «na que estou incluído, voluntariamente e com gosto». O tempo que já decorreu desde o golpe militar que pretendia, e conseguiu, terminar com o conflito nas colónias africanas, e que por tabela, derrubou uma longa ditadura «menos dura e cruel do que outras suas contemporâneas e posteriores». Depois veio uma fase de perigo em que se ameaçava converter Portugal numa segunda Cuba no extremo da Europa. Com a ajuda dos EUA e do já falecido Mário Soares, a sociedade passou a fase da rubéola, do sarampo e das papeiras e, entrou na idade adulta.«mais ou menos, ou em via estreita»

Avançando: Apesar das tentativas de progresso iniciadas nos últimos governos da Monarquia Constitucional, e depois com a República, a pressão dos poderes fácticos, seja da “nobreza” antiga e recentemente comprada, mais o intenso domínio do sector mais retro da Igreja Católica, a população de Portugal manteve-se excessivamente rural e ignorante, sem conseguir acompanhar a evolução de conhecimentos que, na Europa, se tinha iniciado, com bastante vigor, na Revolução Francesa.

O comportamento da cidadania actual, se visto sem paixão nem animosidade, reflecte um atraso congénito. Não se atingiu, excepto nalgumas zonas da metade norte do País, uma evolução para a burguesia, dependente da indústria e da necessidade imediata de promover a literacia e educação em geral da população. Os nomes que são citados como terem sido destacáveis estudiosos e alguns até difusores das novas ideias de como organizar a sociedade, sempre foram poucos e mal conhecidos pela população em geral.

Se dermos uma olhadela à imprensa menos popular, e até nesta em certas ocasiões, e nos noticiários e páginas culturais e políticas das emissoras de televisão, e tivermos em arquivo mental os nomes das famílias que já na monarquia eram poderosas, podemos ver que a “importância” que se concede a certas pessoas da actualidade já a herdaram junto com os pergaminhos familiares. Por outro lado, tendo, tal como os italianos, uma obsessão em identificar as personagens com um título nobiliário ou académico, este costume leva a que aqueles que conseguem um canudo (por vezes este logro não passa de ser isso mesmo: um logro, uma falsidade) querem passar, de imediato, para o outro lado da rua. Um atavismo nefasto que, muito directamente, conduz a separar a “gentinha” da “gente bem”.

Este atraso social ou melhor sociológico faz com que seja practicamente impossível conseguir uma adesão geral a qualquer movimento de contestação. Nem sequer aqueles que estão directamente prejudicados pela decisão que se pretende neutralizar se decidem a engrossar as colunas de reclamantes. Não admira, pois, que aqui não medrem os movimentos ao estilo dos coletes amarelos. Existe, agarrada na mente de muitíssima gente, um misto de medo e de falta de solidariedade com eles mesmos.

E hoje temos um exemplo vultuoso de como a demagogia e o desprezo pelos prejudicados inocentes, no sentido de que a imensa maioria dos afectados não tem o menos poder para alterar a situação. Nem sequer entendem que as sucessivas cedências que o governo tem feito, pressionado pelos seus “sócios na geringonça” vão afectar, sem compensação, outros sectores também com razões de exigir melhorias económicas.

Toda uma cobra que morde a cauda, um uroboro, pois que a economia de um País, e também a de Portugal na sua globalidade, reflecte uma variedade de vectores, que não são conseguidos através de greves e exigências salariais. Antes pelo contrário, e como todos os políticos conscientes (que devem ser minoria) sabem a instabilidade impossível de satisfazer não induz ao investimento produtivo. No máximo a abrir o cofre para avançar com projectos públicos que, cada dia que passa, são cobiçados por empresas estrangeiras, mais poderosas económica e tecnicamente do que as nacionais. E, que dada a evolução tecnológica cada vez dão trabalho a menos pessoas.

Finalmente numa sociedade que ainda não recuperou do seu atraso, o pensar que a informática e as novas profissões nos irá colocar na linha da frente é uma miragem sem realismo. Deveríamos ver a listagem de empresas iniciadas por portugueses que, nesta fase em que estamos, já são de multinacionais e que são geridas segundo os seus próprios interesses.


segunda-feira, 12 de agosto de 2019

MEDITAÇÕES – Reacções imediatas




INSTINTOS CONDICIONADOS

O que vou deixar aqui será, em princípio e desejo, da minha própria lavra. Ou seja, opiniões pessoais, que apesar de ter lido e ouvido muita coisa, penso que ficaram condicionadas por preconceitos próprios, sem me fundamentar em documentação de outrem. Não é devido a um excesso de egocentrismo ou por me de me considerar “superior”, (tristemente aceito estar num patamar bastante baixo) mas porque não gosto de me deixar influenciar por outros opinantes, mesmo de reconhecido saber.

Recentemente fui alvo de um comentário, emitido numa janela com pouca credibilidade, no qual me apontavam -levianamente a meu entender- como um racista. Neste fim de semana, no Expresso, li as respostas da actual ministra da justiça, Francisca Van Dunem, que, sem fintas, refere que o racismo ainda existe na nossa sociedade. Eu acrescento que a identificação imediata de uma pessoa pelas suas características corporais existe em todas as sociedades e imaginar que deixará de existir é uma utopia. Podemos esforçar a que os comportamentos sociais deixem de ser agressivos, mas daí a tentar enganar os olhos...

O que pode fazer diferença é a intensidade com que a percepção das diferenças entre humanos pode situar o comportamento de uns e outros entre os dois polos opostos, desde a aceitação e convivência pacífica, até à rejeição violenta e irracional. E os instintos nem sempre são racionais!

Por muito bonzinhos e respeitosos que desejarmos ser e nos comportar, é pertinente aceitar que quando dois indivíduos, que não se conhecem anteriormente, se encontram num mesmo espaço, a nossa visão nos transmite uma mensagem, não meditada, mas de arquivo, que pode condicionar o modo como iremos reagir, no aspecto social, perante aquela presença inesperada.

Adaptar o impacto instintivo a uma visão mais meditada, mesmo que também quase imediata, mas posterior à instintiva, já necessita de uma abordagem sem preconceitos. Coisa mais difícil do que nos pode parecer. Ver alguém com uma cor de pele escura, no meio de um conglomerado maioritariamente claro, “dispara” a atenção e o qualifica, sem que o instinto implique, sempre, um desinteresse ou a vontade de afastamento. É a experiência de vida, mais a educação cívica e social, que se carregam de orientar, por decisão meditada, para um comportamento determinado.

Proponho que ultrapassemos a análise puramente epidérmica da pessoa que temos perto. É mais difícil de explicar o facto de que, sempre com pessoas que vemos pela primeira vez. Algo na sua face, na sua compostura corporal, pode induzir a que nos sentir atraídos, com vontade de conviver, de falar. Digamos que à primeira vista uns nos parecem simpáticos e outros, pelo contrário, o instinto rejeita-os. O que não impede de que, caso se der a possibilidade de ter um trato mais próximo, verbal, o juízo que a visão nos deu seja alterado para o sentido oposto. QUEM VÊ CARAS NÃO VÊ CORAÇÕES.

Portanto, não é pelo facto de que os nossos olhos nos darem a identificação de uma pessoa como preto, chinês ou esquimó, que isso nos pode caracterizar como segregacionista. É o nosso comportamento visceral, sem condicionamento social positivo, que se poderá sobrepor às mensagens automáticas da vista para o cérebro. A partir daí surgem as considerações racionais, e são estas que caracterizam a pessoa. Sem desvalorizar os efeitos do estado de espírito naquele momento, da influência do ambiente e até de alguns preconceitos políticos que se sobrepõem à racionalidade.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

MEDITAÇÕES - Pratos típicos




AS ESTIMADAS SARDINHAS ASSADAS!!!!

Cada povo traz sedimentos na sua mente de uma série de preferências que, em muitos casos, não conseguem manter a sua simpatia ou opção instintiva quando confrontadas com os factos que, as mesmas opções pessoais, possam ser “desqualificadas” por quem apresenta argumentos que as conduzem a ser rejeitadas.

Neste apontamento de hoje sofre dos condicionamentos que hoje me afectaram, circunstâncias que não interessa especificar. O tema fica circunscrito à culinária tradicional, que por ser característica da população de uma determinada área e influenciada, desde muitos anos atrás, pela acessibilidade de certos alimentos, e das técnicas de cozinha que estavam disponíveis. Tentar fazer um apanhado extensivo sobre os pratos regionais mais afamados seria uma tarefa gigantesca. E quando se pretendesse valorizar, segundo os critérios da cozinha normal entre nós, sem subir aos píncaros da alta cozinha e cozinha “de autor”, nos depararíamos com a necessidade que os nossos antepassados, mesmo recentes, tinham para se abastecer e conseguir que na cozinha se preparassem alimentos que hoje quase ficaram esquecidos.

Parece óbvio que não citaremos extremos tais como o prazer que certos povos tem comendo larvas de insectos, ou mastigando alguns no estado adulto mas após serem assados ou cozinhados segundo as suas técnicas. Se rejeitarmos a sugestão de comer escaravelhos, baratas ou gafanhotos, devíamos recordar que estes animais são parentes próximos dos camarões que apreciamos, sejam cozidos ou crus, para acompanhar uma bebida alcoólica fresca.

De modo semelhante temos a noção de que, caso sejamos carnívoros, é recomendável cozinhar e comer a carne quanto mais recentemente morta. Fugir das carnes em processo de decomposição. Mas quem viveu no ambiente rural recorda, e sabe por ter visto, que também se recomenda deixar a carne repousar algumas horas, ou mesmo um dia inteiro, após a matança e antes de a desmembrar. Hoje creio que não se liga muito a este preceito. Mas... se fizer uma leitura atenta a certas reportagens de culinária “de topo”, pode encontrar referências a comercialização, a preços altos, de carne de animais abatidos até 30 dias antes! E vinda de origens bem longínquas, como pode ser o Japão.

Regressando ao rectângulo, os urbanitas actuais dificilmente aceitariam como petisco a magra refeição que muitos ganhões e pastores, longe da sua casa, comiam no seu descanso da jorna. Não raramente dispunham de um naco de pão, raramente da véspera, e um bocado de toucinho salgado. E já em casa, como lanche. Poder untar o pão da semana com unto de porco temperado com pimentão, como se fosse manteiga fresca, era um petisco que muitos velhos recordarão com saudade.

Do que antecede podemos concluir que são os hábitos recentes que condicionam o nosso paladar e as preferências. E não deixamos de lado os limites de opção que nos são marcados pelos custos monetários. Nem tudo o que sonhamos poder ter no prato nos é dado conseguir.

Mesmo assim há “iguarias” que estão tão fixas no ideário gastronómico nacional que não resistem a uma analise de prós e contras. E a mais penosa e generalizada é o impulso de comer sardinhas assadas. Poucos alimentos dos humanos devem possuir um nível de incómodo como o fedor do assar peixe, e mais se forem sardinhas. E se ao comer este peixe seja grelhado ou frito, nos sentíssemos com a boca aguada de prazer, extasiados até, então já nos devemos considerar uns sibaritas.

É sintomático, e mostra não respeitar as adversões dos não tradicionalistas extremos, que nesta época ainda se chamem parentes e amigos para uma “sardinhada”. Esta situação social é um dos atavismos que insistimos em valorizar, sem que tenha outro mérito do que o juntar pessoas num fingido agradável convívio. Nunca fui convidado para partilhar uma almoçarada de açorda de bacalhau! Felizmente.

E para que conste. Não sinto um ódio extremo em relação às sardinhas. Só ao  cheiro, intenso e agressivo. Quando devidamente enlatadas são agradáveis!

Muito mais se podia escrever sobre alguns dos pratos que se consideram como 
 sendo o identificador culinário de uma zona determinada, atribuindo-lhe uma identidade reconhecível, na maior parte das vezes  partilhada sem saber.



urbanita  - pessoa que habita numa grande cidade
sibarita  - pessoa dada ao luxo e aos prazeres da vida








quinta-feira, 1 de agosto de 2019

VIVÊNCIAS DE VIRELLA


TOUPEIROS

Alguns anos atrás estive radicado em Óbidos, acompanhado pela minha esposa, nascida precisamente a pouca distância da casa onde ficamos. em casa própria sita dentro da cidadela, ou seja intramuros. E devido a um excesso de credulidade, ou vaidade injustificada, decidi dedicar-me a uma ilusão de criador e replicante de artes plásticas, inicialmente de cariz histórico, imaginando que aquele burgo levasse os visitantes a aderir a um ambiente de outros tempos. Foi uma fase experimental que não levou a nada de valor, a não ser o ter mantido uma actividade manual e mental sem pressões externas, por decisão própria, e respeitando à história.

Em simultaneidade houve diversas iniciativas e “inventos” sob a égide do município e seus colaboradores. Entre outras ideias de propósito promocional fiquei a saber, através de grupos de adolescentes correndo de um lado para outro, agarrados a um papel, que devia ser um roteiro, no qual os incitava a seguirem um percurso previamente fixado e “descobrirem” as respostas pertinentes. Situação que os levava a importunar os residentes da Vila com perguntas mais ou menos descabidas., o que me levava a pensar que não foram previamente elucidados acerca do que iriam ver ou que, caso algum professor acompanhante, tivesse tido esta iniciativa os elementos da “viagem de estudo” não prestaram grande atenção.

Uma das perguntas que constavam do percurso era o descobrir a razão porque, os habitantes tinham a alcunha geral de toupeiros. Se, aqueles inocentes e visivelmente ignorantes se atreviam a me perguntar acerca desta alcunha, sem saberem previamente e de utilidade para a sua vida futura, que em geral não há quem aprecie o ser visto e identificado por uma alcunha, a minha resposta era, sempre, qual de vocês sabe o que é uma toupeira e quais são os seus hábitos?.

Nunca algum destes passeantes sabia a resposta, e muito menos que estes pequenos mamíferos habitavam debaixo da camada superficial dos terrenos de lavoura, e que se ficava a saber que estavam minando pelos montículos de terra que deixavam espaçadamente ao longo das suas galerias. Que estas toupeiras, quando empurravam a terra para fora da galeria, era muito raro que as pessoas as vissem, pois ao ouvirem a vibração provocada no chão pela pessoa ao andar, desciam para a galeria, seu habitáculo, e só pelos tais montinhos de terra remexida (como também fazem as formigas) é que se sabia quem estragava as suas hortaliças.

Como seja que nas horas de trabalho nas casas da vila só restassem idosos, e que muitos se distraiam vendo quem passava pelas ruas, mas sem vontade de serem vistas ou inquiridas por estranhos, diz-se que habitualmente espreitavam por uma nesga das janelas, e que se alguém se aproximava demasiado a pessoa fechava a abertura e deixava de ser visível. Como uma toupeira. Daí a alcunha.

Sempre me pareceu uma curiosidade, mas que devia ser vista quase ao nível do ditado que preconiza Jamais falar em cordas numa casa de enforcado. E por esta visão de respeito não concordava com que se utilizasse esta alcunha, nada simpática, com os habitantes do burgo, precisamente num roteiro preparado e distribuído por um serviço da Câmara Municipal, a jovens em estado de formação de personalidade.

Só numa ocasião (e possivelmente não deve ter sido única. Assim desejaria) vi que o grupo de adolescentes, escolares, em vez de correrem desalmadamente como numa gincana desportiva, estavam acompanhados por um adulto que lhes explicava o que estava indicado no roteiro, e assim tirar algum proveito da visita.

Mas ouvi tantas idiotices e mostras de falta de raciocínio entre os jovens, e muitos adultos!, ao longo de anos, que deixei de ter paciência para lhes explicar alguma coisa. Já vinham com falsas ideias na cabeça. Cheguei à conclusão de que aquele ambiente histórico era exclusivamente aproveitado para negócio. Até o dia em que desisti e fechamos a porta.

quinta-feira, 25 de julho de 2019

NEM SEMPRE A RECEITA SERVE




ALGUMAS SÃO DE USO RESTRITO, ou condicionado.

Vimos nestes últimos dias como, após duas eleições consecutivas na vizinha Espanha, com mais partidos concorrendo do que era habitual, mesmo que alguns se entenda que era filias de outros mais veteranos, não se contabilizou um vencedor com maioria suficiente para formar governo. Parece que os do PSOE julgavam que, a posteriori, poderiam repetir a “geringonça” portuguesa, que tão bons resultados deu ao PS de António Costa. Os partidos minoritários, indispensáveis para conseguir a investidura, mostraram-se desinteressados e sumamente exigentes. Não coalhou.

Os ambientes, as pessoas e as condições, sem esquecer as exigências e convicções de cada grupo são bastante diferentes das de aqui, Portugal. Pensar que o PSOE podia conseguir a ajuda, mais ou menos tranquila, e sem exigências prévias que estivessem “preto no branco”, não funcionou. E mantém-se um impasse ao qual, contrariamente ao que já aconteceu na Itália, o País não está habituado. Mesmo por cá já se passou por governações sem orçamento aprovado e funcionando, quase que na mesma, por duodécimos.

São alguns, e de peso importante, os pontos que diferenciam os dois países ibéricos. A pretensa unidade territorial dos espanhóis é mais de governo do que dos seus habitantes. As características regionais não desapareceram, nem sequer com a pressão política da ditadura franquista.

Aliás, ao contrário do que sucede em Portugal, todos os outros países europeus, começando pela França, Bélgica, Itália, Alemanha e também mais a leste, tem regionalismos fáceis de inflamar. Com as suas exigências próprias, aguentam ou até aceitam o poder central sempre e tanto que tenham algum trato de favor como compensação. Esta é uma das razões, difíceis ou impossíveis de anular, que causam um descrédito popular perante as regras e normas da U.E. Só baixam de intensidade quando apagam o fogo com mais subsídios dirigidos aos sectores que, no momento, se mostram mais avessos a manter uma adesão calma.

Portugal, felizmente!, não está penalizado por incompatibilidades de peso entre regiões. Ficam delimitadas a algumas anedotas populares e as disputas “desportivas”, que servem para que os exaltados descarreguem as suas bílis sem problemas de maior

O que está a suceder na Espanha actual, que parece ser uma derivação associada a surgirem mais partidos, embora alguns são como os mesmos cães com coleiras diferentes, é consequência de uma péssima tentativa política, mal pensada e obcecada pelo fim que pretendiam (o ilibar o antigo Presidente da Generalitat, e do seu filho, por abusos de poder, nepotismo e suborno). Acenderam uma fogueira de palha com o argumento de proclamar uma república de cariz independentista, sem nenhuma base nem capacidade para a levar por diante. Possivelmente apostaram numa redução das exigência esperando que o PSOE recuperasse a antiga bandeira do federalismo. Só que a temperatura do forno já não aconselhava esta deriva. E os utópicos independentistas totais, ficaram pendurados quase que no Pelourinho.

Esta intentona, que nem sequer teve o nível das de Repúblicas Bananeiras, deu como principal consequência o renascer das cinzas da ditadura franquista, ainda quentes. Uma leva de partidos fantasma, que além de desnortear os cidadãos, desviaram muitos votos, dos que restavam depois da crescente abstenção. Os imprudentes catalães conseguiram inculcar e muitos espanhóis (de outras regiões) a noção de ter um inimigo interno que era premente anular. As cartas que tinham na mão eram fracas e o bluff foi pífio.

segunda-feira, 22 de julho de 2019

O DIVO NACIONAL


IL DIVO

Já não recordo a razão que nos ofereceu, na semana precedente, nos oferecessem, com algum destaque, e que na internet também foi possível completar, a recordação enfática do filme de PAULO SORRENTINO, intitulado IL DIVO, onde se retratam aspectos da vida, obra e a longa presença política de GIULIO ANDREOTTI em primeiro plano da política italiana.

Sem que possamos colocar o nosso actual Presidente da República como um decalque do italiano DIVO, encontramos pontos comuns ou pelo menos semelhantes, entre as duas personagens.

A faceta mais destacada na actividade pública do actual Presidente da República é, sem dúvida, a forte e continuada, mesmo insistente, exposição pública, quase que exclusivamente no sentido afectivo, e de lançar uns “bitates”, mas sempre insistindo na sua promoção pessoal no domínio da popularidade, aparentemente inocente. Parece que possua o dom da ubiquidade. Tão depressa aparece num sitio como noutro bem distante. Faz lembrar a referência dos coelhos na sua cópula, com a frase batida de Vai ser tão bom, não foi?

Os percursos pessoais e políticos de Andreotti e de Marcelo Rebelo de Sousa tampouco são idênticos, longe disso, mas tem características coincidentes. Ambos, indiscutivelmente pertencem à direita mais conservadora e com períodos de vida ligados à autoridade em partidos de carácter induvitávelmente conservadores, mesmo que se intitulassem com adjectivos menos claros (1).

Ambos pessoas de tempera católica. Mais acentuada no caso de Andreotti, que era devoto de missa diária e colaborador efectivo com a zona mais conservadora e ligada à economia italiana, mais concretamente vaticana, fosse de modo evidente ou subterrâneo. O actual Presidente de Portugal não é tão transparente, por excesso, como Andreotti. Mas não deixa de insistir na sua decisão, esforçada, de ganhar o estatuto de Divo nacional. Mantendo um contacto respeitoso e convincente com a Igreja Católica. Com a sua táctica, que mantêm insistentemente, conseguiu esbater o estigma de pertencer a uma casta nitidamente conservadora e unida ao ideário do Estado Novo de Salazar. 

A característica nacional dos portugueses é a de não serem obcecadamente rancorosos. Isso facilita a convivência entre sectores com convicções diferentes. Facto que, sem dúvida, contribui para a noção de que este é um povo intrinsecamente pacífico e que, se não decide perdoar, pelo menos aceita as opiniões dos outros, mesmo que não as partilhe, a fim de ter uma vida social mais tranquila.

Esta característica dos portugueses, que além dos Pirenéus, nos dá o direito a ser vistos como “pobretes mas alegretes”. Se o ouvimos em boca de forasteiros nos soa a ofensa, ou a que é uma qualificação muito perto do despeito, provocado maldosamente ao nos apontar de ser Portugal um País pobre. E ninguém gosta que lhe sejam publicitadas doenças ou sintomas de diminuição em alguma escala comparativa de valores.

É mais do que suficiente saber “o que a casa gasta”. E mais triste o não sermos capazes de encontrar mais justificações, aceitáveis, para aceitar o nosso atraso na Europa. Bem tentam, os pretensos promotores do orgulho nacional, enaltecer feitos históricos, quase sempre adoçados, e as victórias em desportos, muitas vezes individuais, mas com direito sem contestação, a bandeira e hino nacional. Mas todos sabemos, mas engolimos, que nada disto compensa a imagem real que temos perante o exterior, e muito menos aliviar as dificuldades do orçamento familiar.

Aquilo que nos mantêm na cauda é, como todos sabem, o conluio existente, embora com algumas mudanças nas personagens, entre o poder estatal e os bem situados na economia nacional. Uma classe social nova, herdeira da burguesia do século XVIII, e que constitui o substituto evolutivo da anterior nobreza.

E a cidadania que vegeta nas camadas com menor poder de compra como reage? Descartando um reduzido sector de imaginários activistas, o pessoal com o futebol e algum circo, lá se vai aguentando. Pelo menos tentam manter a cabeça à tona da água, nem que para isso tenham que viver de fiado. Como aliás acontece com a economia nacional. Daí que não consigamos escapar de sermos apontados como pobretes mas alegretes.

E o nosso Divo ajuda, e até promove a festa, nomeadamente quando deixa que alguém, na desgraça e com pouco brio pessoal, se encoste ao seu ombro para se lamentar, e se deixe fotografar para aparecer na Tv e nalgum jornal colaborador do capital, por este ser o dono.

(1) Todos os partidos ditatoriais na Europa do séc XX, tinham uma nomenclatura onde incluíam termos como Social, Socialista e Popular, e  até Democrata.

terça-feira, 16 de julho de 2019

PAIXÕES IMAGINADAS


Especulando sem ter uma base sólida onde me apoiar, é um atrevimento que pode dar resultados desagradáveis, ou pelo menos errados. Mas adiante! Atrevo-me a dizer que em muitas cabeças, consideradas como relativamente sensatas, ou pelo menos loucas à solta, sejam de homens ou de senhoras, devem existir, no canto da vassoura e da esfregona, uma pessoa pela qual se suspirou durante bastante tempo e que, anos mais tarde de ter o seu início, ainda constitui uma espécie de cume inalcançável e indestrutível.

As únicas referências que consegui recordar onde aparecem paixões imaginadas, estão todas do mundo da fantasia, ou descendo um pouco à terra, na literatura, incluída a poesia, e nas artes plásticas. O que é mesmo difícil é aceitar que se esta atacado por este vírus mental. A razão desta rejeição em admitir uma situação que, a meu ver, deve estar muito estendida pela humanidade é porque aquilo que surge, mentalmente, não casa com a realidade vivida.

Muitas das personagens que nos obcecam sentimentalmente é pouco provável que tenham estado num nível de proximidade que justifique o impacto que se sente, que não tem fundamento. O que se pode diagnosticar como uma falsa memória, implicando alguém que, sem razão, a mente decidiu que nos deixou o testemunho de uma “paixão não transmitida ou não correspondida” .

Este tipo de obsessões profundamente enraizadas são referidas com bastante frequência na poesia, literatura, pintura e artes plásticas. Alguns casos tornaram-se paradigmáticos, não só porque existem dúvidas de qualquer deles ter chegado a vias de facto, mas porque se tem quase a certeza de que tudo não passou de uma miragem obsessiva., unidireccional.

O mais famoso, ou pelo menos aquele que levou a ter muitos comentadores e especuladores, corresponde ao quadro da Gioconda, com o seu ambíguo sorriso, pintado pelo mestre Leonardo de Vinci. Aliás os quadros, pois existe mais do que uma versão, sem contar as cópias identificadas como tais e as falsificações. Muito se escreveu a propósito deste amor, que supomos ter sido mais platónico do que carnal, entre o grande Mestre e a dama que foi o seu modelo. E, caso o mundo civilizado não termine de repente, é muito provável que esta obra continue a chamar a atenção e a fomentar especulações.

No âmbito da pintura há outros exemplos de obcecações do artista para o seu modelo. Teria que dar uma volta pelas monografias da pintura e descartar aqueles casos em que o pintor se admite, ou se sabe, que conseguiu os favores, ou o prazer da carne, como se diz numa tentativa de esclarecer sem ser vulgar.

Já dentro do período de tempo em que me tem calhado estar presente, o que leva a palma de fauno-mor foi o malaguenho Picasso. E aquele que deu muita tela à sua dama, sendo ele um reconhecido homossexual, o seu coetâneo Dali, mais a sua “esposa” Gala.

No campo da literatura podemos recuar até Dante, com o seu amor mental, reservado mas evidenciado entre nevoeiros de fantasia, para Beatriz. Anda mais sonhado, até ao nível da obsessão, é o que Cervantes insistentemente retrata do lunático Dom Quixote, ou a personagem “real” que o autor colocou na visão terrena do sonhador com o nome de Alonso Quijano, um nobre arruinado e totalmente fora da época em que decorre a acção. A musa, o amor obcecado de Cavaleiro louco era a imaginada Dulcineia del Toboso, uma mistificação da rústica Aldonça Lourenço (também personagem imaginada)

E deveria entrar directamente na literatura portuguesa, onde não faltam os amores não correspondidos, imaginados ou proibidos, Mas este tema já foi exaustivamente debatido e publicado no meio erudito nacional.

Onde eu queria chegar é à possível existência em muitas mentes, ainda hoje em activo, de obsessões amorosas que jamais foram correspondidas, ou nem sequer tentadas. Que ficaram nas mentes delas ou deles como enquistadas e que, periódicamente afloram para ensombrar a razão, ou seja a mente, do afectado/a.

Uma situação que se tornou recalcada, e resguardada no tal canto escuro e esconso dos artigos de limpeza caseira, e que a pessoa que a sofre, ou a vive mentalmente, não tem a mais mínima satisfacção, Mais até, pode causar uma adversão, por ser consciente de que não tem qualquer razão de existir. Que é uma especulação dos neurónios, baseada em detalhes mínimos, sem importância real, só virtuais. Dizendo de outra forma: Estas obsessões “amorosas”, normalmente não estão ligadas a visões, imaginadas, no campo do erotismo, nem passivo e menos activo. É esta sedimentação mental na zona do mais respeitoso amar que as torna mais duras de roer e duráveis.

Se as imagens mentais se completassem com visões de índole sexual, ou pornográfico, não permaneceriam durante décadas. Seriam substituídas por outras ainda mais irreais. É a imaginada possibilidade de terem tido alguma oportunidade, que não existiu, que as tornou perenes.