quinta-feira, 25 de julho de 2019

NEM SEMPRE A RECEITA SERVE




ALGUMAS SÃO DE USO RESTRITO, ou condicionado.

Vimos nestes últimos dias como, após duas eleições consecutivas na vizinha Espanha, com mais partidos concorrendo do que era habitual, mesmo que alguns se entenda que era filias de outros mais veteranos, não se contabilizou um vencedor com maioria suficiente para formar governo. Parece que os do PSOE julgavam que, a posteriori, poderiam repetir a “geringonça” portuguesa, que tão bons resultados deu ao PS de António Costa. Os partidos minoritários, indispensáveis para conseguir a investidura, mostraram-se desinteressados e sumamente exigentes. Não coalhou.

Os ambientes, as pessoas e as condições, sem esquecer as exigências e convicções de cada grupo são bastante diferentes das de aqui, Portugal. Pensar que o PSOE podia conseguir a ajuda, mais ou menos tranquila, e sem exigências prévias que estivessem “preto no branco”, não funcionou. E mantém-se um impasse ao qual, contrariamente ao que já aconteceu na Itália, o País não está habituado. Mesmo por cá já se passou por governações sem orçamento aprovado e funcionando, quase que na mesma, por duodécimos.

São alguns, e de peso importante, os pontos que diferenciam os dois países ibéricos. A pretensa unidade territorial dos espanhóis é mais de governo do que dos seus habitantes. As características regionais não desapareceram, nem sequer com a pressão política da ditadura franquista.

Aliás, ao contrário do que sucede em Portugal, todos os outros países europeus, começando pela França, Bélgica, Itália, Alemanha e também mais a leste, tem regionalismos fáceis de inflamar. Com as suas exigências próprias, aguentam ou até aceitam o poder central sempre e tanto que tenham algum trato de favor como compensação. Esta é uma das razões, difíceis ou impossíveis de anular, que causam um descrédito popular perante as regras e normas da U.E. Só baixam de intensidade quando apagam o fogo com mais subsídios dirigidos aos sectores que, no momento, se mostram mais avessos a manter uma adesão calma.

Portugal, felizmente!, não está penalizado por incompatibilidades de peso entre regiões. Ficam delimitadas a algumas anedotas populares e as disputas “desportivas”, que servem para que os exaltados descarreguem as suas bílis sem problemas de maior

O que está a suceder na Espanha actual, que parece ser uma derivação associada a surgirem mais partidos, embora alguns são como os mesmos cães com coleiras diferentes, é consequência de uma péssima tentativa política, mal pensada e obcecada pelo fim que pretendiam (o ilibar o antigo Presidente da Generalitat, e do seu filho, por abusos de poder, nepotismo e suborno). Acenderam uma fogueira de palha com o argumento de proclamar uma república de cariz independentista, sem nenhuma base nem capacidade para a levar por diante. Possivelmente apostaram numa redução das exigência esperando que o PSOE recuperasse a antiga bandeira do federalismo. Só que a temperatura do forno já não aconselhava esta deriva. E os utópicos independentistas totais, ficaram pendurados quase que no Pelourinho.

Esta intentona, que nem sequer teve o nível das de Repúblicas Bananeiras, deu como principal consequência o renascer das cinzas da ditadura franquista, ainda quentes. Uma leva de partidos fantasma, que além de desnortear os cidadãos, desviaram muitos votos, dos que restavam depois da crescente abstenção. Os imprudentes catalães conseguiram inculcar e muitos espanhóis (de outras regiões) a noção de ter um inimigo interno que era premente anular. As cartas que tinham na mão eram fracas e o bluff foi pífio.

segunda-feira, 22 de julho de 2019

O DIVO NACIONAL


IL DIVO

Já não recordo a razão que nos ofereceu, na semana precedente, nos oferecessem, com algum destaque, e que na internet também foi possível completar, a recordação enfática do filme de PAULO SORRENTINO, intitulado IL DIVO, onde se retratam aspectos da vida, obra e a longa presença política de GIULIO ANDREOTTI em primeiro plano da política italiana.

Sem que possamos colocar o nosso actual Presidente da República como um decalque do italiano DIVO, encontramos pontos comuns ou pelo menos semelhantes, entre as duas personagens.

A faceta mais destacada na actividade pública do actual Presidente da República é, sem dúvida, a forte e continuada, mesmo insistente, exposição pública, quase que exclusivamente no sentido afectivo, e de lançar uns “bitates”, mas sempre insistindo na sua promoção pessoal no domínio da popularidade, aparentemente inocente. Parece que possua o dom da ubiquidade. Tão depressa aparece num sitio como noutro bem distante. Faz lembrar a referência dos coelhos na sua cópula, com a frase batida de Vai ser tão bom, não foi?

Os percursos pessoais e políticos de Andreotti e de Marcelo Rebelo de Sousa tampouco são idênticos, longe disso, mas tem características coincidentes. Ambos, indiscutivelmente pertencem à direita mais conservadora e com períodos de vida ligados à autoridade em partidos de carácter induvitávelmente conservadores, mesmo que se intitulassem com adjectivos menos claros (1).

Ambos pessoas de tempera católica. Mais acentuada no caso de Andreotti, que era devoto de missa diária e colaborador efectivo com a zona mais conservadora e ligada à economia italiana, mais concretamente vaticana, fosse de modo evidente ou subterrâneo. O actual Presidente de Portugal não é tão transparente, por excesso, como Andreotti. Mas não deixa de insistir na sua decisão, esforçada, de ganhar o estatuto de Divo nacional. Mantendo um contacto respeitoso e convincente com a Igreja Católica. Com a sua táctica, que mantêm insistentemente, conseguiu esbater o estigma de pertencer a uma casta nitidamente conservadora e unida ao ideário do Estado Novo de Salazar. 

A característica nacional dos portugueses é a de não serem obcecadamente rancorosos. Isso facilita a convivência entre sectores com convicções diferentes. Facto que, sem dúvida, contribui para a noção de que este é um povo intrinsecamente pacífico e que, se não decide perdoar, pelo menos aceita as opiniões dos outros, mesmo que não as partilhe, a fim de ter uma vida social mais tranquila.

Esta característica dos portugueses, que além dos Pirenéus, nos dá o direito a ser vistos como “pobretes mas alegretes”. Se o ouvimos em boca de forasteiros nos soa a ofensa, ou a que é uma qualificação muito perto do despeito, provocado maldosamente ao nos apontar de ser Portugal um País pobre. E ninguém gosta que lhe sejam publicitadas doenças ou sintomas de diminuição em alguma escala comparativa de valores.

É mais do que suficiente saber “o que a casa gasta”. E mais triste o não sermos capazes de encontrar mais justificações, aceitáveis, para aceitar o nosso atraso na Europa. Bem tentam, os pretensos promotores do orgulho nacional, enaltecer feitos históricos, quase sempre adoçados, e as victórias em desportos, muitas vezes individuais, mas com direito sem contestação, a bandeira e hino nacional. Mas todos sabemos, mas engolimos, que nada disto compensa a imagem real que temos perante o exterior, e muito menos aliviar as dificuldades do orçamento familiar.

Aquilo que nos mantêm na cauda é, como todos sabem, o conluio existente, embora com algumas mudanças nas personagens, entre o poder estatal e os bem situados na economia nacional. Uma classe social nova, herdeira da burguesia do século XVIII, e que constitui o substituto evolutivo da anterior nobreza.

E a cidadania que vegeta nas camadas com menor poder de compra como reage? Descartando um reduzido sector de imaginários activistas, o pessoal com o futebol e algum circo, lá se vai aguentando. Pelo menos tentam manter a cabeça à tona da água, nem que para isso tenham que viver de fiado. Como aliás acontece com a economia nacional. Daí que não consigamos escapar de sermos apontados como pobretes mas alegretes.

E o nosso Divo ajuda, e até promove a festa, nomeadamente quando deixa que alguém, na desgraça e com pouco brio pessoal, se encoste ao seu ombro para se lamentar, e se deixe fotografar para aparecer na Tv e nalgum jornal colaborador do capital, por este ser o dono.

(1) Todos os partidos ditatoriais na Europa do séc XX, tinham uma nomenclatura onde incluíam termos como Social, Socialista e Popular, e  até Democrata.

terça-feira, 16 de julho de 2019

PAIXÕES IMAGINADAS


Especulando sem ter uma base sólida onde me apoiar, é um atrevimento que pode dar resultados desagradáveis, ou pelo menos errados. Mas adiante! Atrevo-me a dizer que em muitas cabeças, consideradas como relativamente sensatas, ou pelo menos loucas à solta, sejam de homens ou de senhoras, devem existir, no canto da vassoura e da esfregona, uma pessoa pela qual se suspirou durante bastante tempo e que, anos mais tarde de ter o seu início, ainda constitui uma espécie de cume inalcançável e indestrutível.

As únicas referências que consegui recordar onde aparecem paixões imaginadas, estão todas do mundo da fantasia, ou descendo um pouco à terra, na literatura, incluída a poesia, e nas artes plásticas. O que é mesmo difícil é aceitar que se esta atacado por este vírus mental. A razão desta rejeição em admitir uma situação que, a meu ver, deve estar muito estendida pela humanidade é porque aquilo que surge, mentalmente, não casa com a realidade vivida.

Muitas das personagens que nos obcecam sentimentalmente é pouco provável que tenham estado num nível de proximidade que justifique o impacto que se sente, que não tem fundamento. O que se pode diagnosticar como uma falsa memória, implicando alguém que, sem razão, a mente decidiu que nos deixou o testemunho de uma “paixão não transmitida ou não correspondida” .

Este tipo de obsessões profundamente enraizadas são referidas com bastante frequência na poesia, literatura, pintura e artes plásticas. Alguns casos tornaram-se paradigmáticos, não só porque existem dúvidas de qualquer deles ter chegado a vias de facto, mas porque se tem quase a certeza de que tudo não passou de uma miragem obsessiva., unidireccional.

O mais famoso, ou pelo menos aquele que levou a ter muitos comentadores e especuladores, corresponde ao quadro da Gioconda, com o seu ambíguo sorriso, pintado pelo mestre Leonardo de Vinci. Aliás os quadros, pois existe mais do que uma versão, sem contar as cópias identificadas como tais e as falsificações. Muito se escreveu a propósito deste amor, que supomos ter sido mais platónico do que carnal, entre o grande Mestre e a dama que foi o seu modelo. E, caso o mundo civilizado não termine de repente, é muito provável que esta obra continue a chamar a atenção e a fomentar especulações.

No âmbito da pintura há outros exemplos de obcecações do artista para o seu modelo. Teria que dar uma volta pelas monografias da pintura e descartar aqueles casos em que o pintor se admite, ou se sabe, que conseguiu os favores, ou o prazer da carne, como se diz numa tentativa de esclarecer sem ser vulgar.

Já dentro do período de tempo em que me tem calhado estar presente, o que leva a palma de fauno-mor foi o malaguenho Picasso. E aquele que deu muita tela à sua dama, sendo ele um reconhecido homossexual, o seu coetâneo Dali, mais a sua “esposa” Gala.

No campo da literatura podemos recuar até Dante, com o seu amor mental, reservado mas evidenciado entre nevoeiros de fantasia, para Beatriz. Anda mais sonhado, até ao nível da obsessão, é o que Cervantes insistentemente retrata do lunático Dom Quixote, ou a personagem “real” que o autor colocou na visão terrena do sonhador com o nome de Alonso Quijano, um nobre arruinado e totalmente fora da época em que decorre a acção. A musa, o amor obcecado de Cavaleiro louco era a imaginada Dulcineia del Toboso, uma mistificação da rústica Aldonça Lourenço (também personagem imaginada)

E deveria entrar directamente na literatura portuguesa, onde não faltam os amores não correspondidos, imaginados ou proibidos, Mas este tema já foi exaustivamente debatido e publicado no meio erudito nacional.

Onde eu queria chegar é à possível existência em muitas mentes, ainda hoje em activo, de obsessões amorosas que jamais foram correspondidas, ou nem sequer tentadas. Que ficaram nas mentes delas ou deles como enquistadas e que, periódicamente afloram para ensombrar a razão, ou seja a mente, do afectado/a.

Uma situação que se tornou recalcada, e resguardada no tal canto escuro e esconso dos artigos de limpeza caseira, e que a pessoa que a sofre, ou a vive mentalmente, não tem a mais mínima satisfacção, Mais até, pode causar uma adversão, por ser consciente de que não tem qualquer razão de existir. Que é uma especulação dos neurónios, baseada em detalhes mínimos, sem importância real, só virtuais. Dizendo de outra forma: Estas obsessões “amorosas”, normalmente não estão ligadas a visões, imaginadas, no campo do erotismo, nem passivo e menos activo. É esta sedimentação mental na zona do mais respeitoso amar que as torna mais duras de roer e duráveis.

Se as imagens mentais se completassem com visões de índole sexual, ou pornográfico, não permaneceriam durante décadas. Seriam substituídas por outras ainda mais irreais. É a imaginada possibilidade de terem tido alguma oportunidade, que não existiu, que as tornou perenes.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

OFENSAS HISTÓRICAS



Cordas e suicidas

Uma má experiência me elucidou, ou confirmou aquilo que implicitamente já sabia, de que é pertinente ter muito cuidado com aquilo que se diz e escreve, nomeadamente quando, apesar de estar convicto de que não ultrapassamos os limites do aceitável. E eu sou pecador penitente desta falta de travão no verbo.

Quando esquecemos que ninguém gosta que lhe apontem ter um chicalho no olho, já devemos recordar que está na mira de lhe ser apontada a trave que traz na sua vista. Dito de outro modo. É muito imprudente, inadequado, ofensivo e imperdoável por quem se sinta visado, o lhe referir qualquer defeito, mesmo que leve e considerado sem importância. Mesmo que se faça com boas intenções. Esquecer a prudência, especialmente com pessoa que temos como amigo “do peito”. Arrisca-se a perder o amigo, e com muitas probabilidades de ser um desencontro eterno.

Este preâmbulo pretende preparar o desconhecido leitor para um assunto que não me atrevo a apresentar a ninguém, especialmente a pessoas que penso podiam ser conhecedores de um facto consumado, verificável historicamente, ou que, pelo contrário, é uma memória de uma mentira espalhada com o propósito de denegrir. Coisa que não podemos considerar como impossível.

O assunto vem a propósito de um toponímico local. Num município com que estou ligado por matrimónio, existe um cemitério bastante antigo, que por carência de espaço disponível, foi decidido anexar uma área, situada a umas centenas de metros, onde se consagrou um novo campo-santo.

O antigo cemitério, ainda funcional para os recém falecidos cujas famílias sejam possuidoras de campas privadas, tem uma igreja, consagrada creio que a Santo António, mas que não trem paróquia, e que durante décadas, ou centenas de anos, serviu de Câmara Mortuária onde velar os mortos antes de serem entregues para o repouso “eterno”. Mais propriamente durante um período de tempo, anos, estipulado por leis e costumes. Com a introdução do espírito de promoção turística, sempre disposto a tudo sacrificar para atrair visitantes de poucas horas, esta igreja foi desactivada das suas funções tradicionais e dedicada a ser mais um espaço museológico, pouco visitado. Tudo bem. Aceite sem problemas pela população ainda existente.

Já dentro do recinto murado que constitui o campo santo, e situado ao lado direito da referida Igreja, existe um pequeno espaço, recatado, que é conhecido, pela população autóctone, como ser reservado ao enterramento dos leprosos, e também dos ajustiçados ou suicidas.

E aqui tropeço com a inibição de me atrever a perguntar: Havia leprosos nesta área?, fosse o concelho actual ou bastante maior, abrangendo mais população? E existia um “hospital” para acolher estes doentes, ou seja, utilizando a nomenclatura clássica , uma gafaria? E donde estava situada?

Já tive uma muito má experiência com este tema, embora noutra terra. Referir este facto, e outros semelhantes, hoje, pode ser visto como uma ofensa pessoal, imperdoável. Tentar esclarecer que as condições de salubridade existentes cem anos atrás, e até mais recentes, eram muito diferentes das de hoje é insistir nas ofensas. Que os campos alagados, fossem arrozais ou pantanosos, eram focos de febres palúdicas, de sezões, e que a inexistência de redes de esgotos, mais o aproveitamento das águas fecais para regar e adubar terrenos onde se cultivavam vegetais de consumo humano era uma fonte de transmissão e perpetuação doenças, hoje custa a admitir, mas não se pode negar, por ser conhecido e óbvio.

Referir que, se conheceu, indirectamente, mas por via confiável, que, além da tuberculose, endémica, a sarna e outras doenças de pele, ainda existiam núcleos de lepra nas primeiras décadas do século XX é visto como uma ofensa de primeiro grau.

Daí que não me atrevo a consultar nenhum cidadão, natural do concelho em questão, sobre o “talhão dos leprosos”. Existe um anexim, bem antigo, que alerta para : nunca falar em cordas em casa dum enforcado.

E anexins que nos afastam da verdade os há às dúzias:

- Mal me querem as comadres, porque lhes digo as verdades.

  • Quem não me crê, verdade me não diz.
  • A verdade não quer enfeites.
  • Vai-se a língua à verdade.
  • Amigo que fala verdade, e espelho são, diz o que é.
  • A verdade é amarga, a mentira é doce.

terça-feira, 9 de julho de 2019

VIVÊNCIAS - Coisas velhas



Ou “Alembraduras”

Nas mais recentes passagens por salas de cinema, verificamos que, a classificação etária dos filmes, não é taxativa. Principalmente pelos pais ou acompanhantes de crianças, que são levadas a assistir a projecção de filmes sob a observação criteriosa de adultos que os acompanham. Nós já no patamar de avós, discordamos mas calamos. Ficamos com a noção de que, sob disfarce de serem contos fantásticos, podem não digo a induzir para a violência, pois que mesmo no berço as nossas indefesas criaturas já mostram ter pouco respeito pela dor que podem infligir a outrem, mas, pelo menos, a considerar acções que normalmente reprovamos como sendo aceitáveis, banais.

Claro que não se restila criar os nossos descendentes numa redoma de ignorância e que é preferível que os ajudemos a saber como se devem defender e evitar situações potencialmente desagradáveis. Aceitamos, sem a menor dúvida, que o mundo sempre foi perigoso, ou como se diz em italiano mondo cane. Mas desligar da nossa função educativa entregando esta responsabilidade a uma produtora de filmes, cujo propósito fundamental é conseguir um bom resultado económico do seu investimento, não me parece minimamente aceitável.

Esta dissertação, pretensamente moralista, recordou-me o que aconteceu com o meu irmão mais novo (15 anos de diferença) quando o levamos ao seu baptismo no cinema. Numa época em que as autoridades ou os funcionários da sala em sua representação, exigiam o mostrar a cédula ou o B.I., para garantir que o espectador que tinham pela frente, podia entrar sem infringir a lei. Neste caso a sala era particular, sem policiamento, e por isso a porta era bastante, ou totalmente, livre de controle.

Naquele então o programa normal compunha-se de uns “aperitivos”, filmes curtos, noticiários (da RKO, Pathé, Artur Rank ou do SNI, entre outros), desenhos animados ou documentários sérios. Naquele dia na fase inicial projectaram um filme cómico da série OS TRÊS ESTAROLAS. Proliferavam os gags à americana, com alguma violência mascarada de brincadeira. Numa das cenas apareceu a habitual batalha de tartes de creme, atiradas à cara de uns e outros. Era quase que indispensável numa fita cómica de Hollywood. O meu irmão, miúdo com uns três anos mal medidos, desatou a chorar e agitado negou-se a continuar na sala, dizendo, entre choros, baba e ranho: não gosto de ver homens dentro de bolos!

A mesma personagem, o irmão, e creio que numa idade mais recuada, mas em que já comia sozinho, sentado na mesa de família, estava pasmado, parado, em frente do prato de sopa, com a colher na mão direita, mas sem iniciar a sua ingestão. A mãe perguntou-lhe se não gostava da sopa, ou então porque não comia, se estava quente ou fria? Respondeu Não como esta sopa porque tem um bocadinho de mócala! Foi-se ver o que motivava esta nega e, de facto, nadava no prato uma mosca, minúscula, do género que acompanhava os cachos de uvas. Ele, como se entende, não discernia as moscas pelo tamanho e tipo. Aquele insecto só era, sob o seu critério, um bocadinho de mosca.

Todos temos uma quantidade de recordações das saídas de crianças, que surgem sem as procurar, em geral como reflexo de outra memória totalmente díspar. Para as outras pessoas são simples patetices que não vale a pena difundir, mas que para aqueles que as viveram continuam a estar carregadas de ternura.

Outra vivência curiosa, e da mesma época, ocorreu com uma senhora que morava a uns cem metros da nossa casa. Pessoa bastante robusta, que pesaria umas boas dezenas de quilos. Vimos que vinha andando, muito devagar, em nossa direcção. Avançava tão devagar, quase arrastando os pés, que julgamos que podia estar doente. Fomos ao seu encalço e verificamos que trazia, “para os meninos” um cágado, de tamanho razoável, atado pelo pescoço com um cordel, e andando pelos seus pés, dado que têm quatro patas, como qualquer quelónio que se preze.

Foi um esforço “sobre-o-mano” não nos rirmos à gargalhada, ficar só com uns sorrisos educados para agradecer a sua lembrança à Dona Margarida. Recolher o bicho encascado e tirar-lhe a rédea. Não recordo o tempo que durou a estadia do cágado no quintal, ou no tanque de rega. Mas suponho que desapareceu em poucas semanas. E dois cágados passamos às tartarugas.

Muitos anos mais tarde, quando o nosso filho mais velho já estava na Embaixada em Rabat, fomos até Marrocos para o visitar. Num passeio pelo interior paramos num mercado a céu aberto, popular, indígena. Ficamos, os que não conhecíamos os costumes locais, admirados em primeiro lugar por terem à venda verduras que aqui ainda não tinham chegado a ser vulgares: aipo, pimentos de diferentes formas e cores, beringela, alcachofras e legumes que em Portugal já não se encontravam à venda, entre eles os chicharos e variedades de feijão e feijoca muito diversas. Muitas bancas de comida pronta, tanto de grelhados como de guisado de carneiro, ou tagide, no seu tacho de barro e a tampa cónica.

Mas o que me acendeu o interesse foi um rapaz que tinha uma caixa cheia de tartarugas de terra, as de casca alta. O moço vendo a possibilidade de vender perguntou, em francês, se estava interessado. Depende do preço... Um preço ridículo para mim. E qual escolhe, perguntou? Eu quero uma casal, macho e fêmea. Sorridente e com malandrice, ele apontou para a caixa dizendo que podia escolher. Depois de manusear os animais que me agradavam, dei-lhe as duas tartarugas que escolhera. Muito bem, são tantos dirhams, mas como sabia quais escolher? Pois da mesma maneira como você as conhece ! E como? Dando-lhes a volta: os machos tem a barriga lisa ou um pouco convexa, enquanto as fêmeas tem uma cova perto da cauda, para possibilitar a tarefa do macho para a fecundação. UM GRANDE SORRISO e um duplo aperto de mão, pois o rapaz não dava como certo que eu, como turista, conhecesse este importante pormenor.

Pouco tempo depois de estarem à solta pelo jardim de casa, um dia ouvimos um matraquear estranho, insólito, que não correspondia a nenhum ruído conhecido. São as tartarugas na sua brincadeira amorosa, esclareci sabichão. Uns dias depois encontrei dois ovos de forma alongada mas de volume semelhante ao dos pombos. Como já estávamos no fim de Setembro, e o tempo não era o de Marrocos, decidi colocar os dois ovos numa caixinha com areia seca e a deixar perto do forno de cerâmica, a fim de lhes garantir uma temperatura mais apropriada. Nunca apareceram as desejadas tartarugas ninja. Entretanto as duas adultas, cheias de saudade, iam com muita frequência até o portão, batiam com a cabeça para o abrir, e devem ter encontrado o portão aberto e partiram rumo ao Atlas. O jardineiro que cá fazia serviço era useiro em deixar o portão aberto, por mais que eu lhe recomendasse que devia estar sempre fechado, prevendo que as tartarugas queriam fugir. E, em dias diferentes, ambas se escaparam. Alguém que não a Dona Margarida as encontrou e as levou, uma de cada vez, possivelmente.



domingo, 7 de julho de 2019

MEDITAÇÕES – Como se pode aceitar?



Na primeira página, e com destaque

O Expresso deste último sábado, que ainda não li -está a marinar...- noticia, com tinta em rosa velho -para evitar o vermelho- que JUSTIÇA ARQUIVA 94% DOS CASOS DE CORRUPÇÃO. E deixando um espaço de sossego, acrescenta que investigadores culpam falta de meios.

Desconheço o como reagiram os outros compradores deste semanário. Mas se de facto muitos pertencem aos estratos mais elevados da nossa sociedade, somos livres de poder imaginar que se já estavam sossegados agora ainda estarão mais tranquilos, e com uma incrementada boa disposição para passar umas “merecidas férias” sem ânsias, Viagens de sonho e temporada de praia, de preferência em zonas onde não se sintam pressionados para conviver com elementos da plebe.

Como seja que muitos de nós -depois de não fazer nenhuma sondagem para me apoiar- já suspeitam que os processos mais mediáticos, aqueles que encheram muitas páginas dos tablóides e até proporcionaram entrevistas nas Tvs, é muito provável (pois até já foi pré-anunciado) que terminarão em águas de bacalhau, sem se ralar pelo desejo de justiça que a população pagante desejava. E, sendo realistas, o povo de facto não exigia, pois que a população nem sequer pensa em exigir nada sério.

A Justiça, sempre fundamentada pelas leis vigentes, se dermos alguma credibilidade ao que encontramos na imprensa “livre”, temos a noção de reconhecer que, precisamente as leis que deviam ser rigorosas, estão minadas com mais vias de água do que a nau onde o Marquês mandou embarcar os jesuítas a caminho de Roma. E que se consta que estas leis, tão favoráveis ao escamoteio, são elaboradas em gabinetes de advogados privados que facturam este trabalho ao Estado. E até consta que, casualmente, também podem representar alguns dos encausados, nomeadamente os mais pesados, e ainda outros menos importantes mas sabedores de muitas coisas, e que convém que se mantenham calados.

Portantos”, mesmo antes de ler o artigo que segue ao cabeçalho já me atrevo a dizer como vão acabar estes filmes, os da corrupção. Pelo menos arquivados, e até com possibilidades de que o erário público tenha a obrigação de indemnizar os que, por excesso de zelo de algum juiz impulsivo e imprudente, ou por ceder a impulsos sem fundamento legal, determinaram que alguns dos encausados -não todos, evidentemente- fossem sujeitos a coimas, ou até a reclusão temporal.

sábado, 6 de julho de 2019

MEDITAÇÕES - lamentos vergonhosos


OS LAMENTOS – dos apáticos

Como admito que entre os meus reduzidos seguidores os há que, apesar disso, não são incapazes de pensar, embora sejam incapazes de reagir, creio que depois de ler o escrito anterior e ver o cabeçalho deste já imaginam o teor do que trago in mente.

Para já tenho uma forte relutância em escrever o que sinto, até porque nem sequer posso alardear de ter uma postura reactiva, merecedora de destaque. Ou seja, sou tão dócil, consentidor, apático como o mais desprezado marido que consente, sabendo, que a sua mulher faz sexo com outros homens, mas que, dado ele ser sabedor, nem sequer se pode qualificar de marido enganado. O nosso comportamento, visto já com uma importante dose de bondade e compreensão, é indigno daquele HOMEM, que é a base da humanidade. Admito que a beatitude, que gostariamos de fosse o ambiente geral, deixa muito que desejar.

E, tristemente, olhando a iconoigrafia histórica, mesmo que não corresponda exactamente à realidade, chega-se à conclusão de que o homem-macho, que presume de machão quando bate na mulher, encolhe-se caso ela decida mostrar que também sabe defender-se e atacar. Sem ser exclusivamente de lingua -pois que neste campo da linguagem agressiva elas não tem rival- perdeu, tácitamente e com evidência não passada pelo notário, até ao nível de desqualificação efectiva e de só se decidir a saltar para a arena quando é empurrado por uma “Maria da fonte”, seja caseira, do bairro ou da aldeia.

Este sair da casca, das mulheres neste novo século, já se tornou um facto descarado, impossível de esconder, especialmente no campo da política. Ao colectivo dos homens, e nomedamanete dos maridos, teóricamente “cabeças de casal” (1) nos devia empurrar no sentido de que se atingiu, e não simbóilicamente, o tempo das amazonas, o tal que se debatia já na mitologia grega -e não só- Está practicamente entre nós, e com uma pujança evidente. Curiosamente por cedências timoratas dos homens que, apesar de terem tido o poder ao longo de milénios, hoje preferem ceder, practicamente abdicar Uma alteração social que merecia ser escalpelizada por sociólogos de nível elevado.

(1) – Não podemos olhar para o lado e assobiar entre dentes tentando não reconhecer que cada dia são mais os casais onde o marido ficou desempregado, sejam quais forem os motivos e razões invocados para o colocvar na rua, e fica a esposa como único sustento (salarial) naquele lar. Quantas vezes vimos, e veremos mais, homens sós, passeando o filho num carrinho, sem a presença da mãe; e nas horas de expediente! E homens fazendo as compras da alimentação sem o auxílio -mais correctamente: a decisão presencial- da esposa?