quarta-feira, 3 de julho de 2019

MEDITANDO - Victor Jara



A Brigada Victor Jara (1)

Estive umas horas dedicado à jardinagem, sachando os canteiros, tirando as ervas não desejadas e, em consequência, o meu B.I., agora Cartão de Cidadão, fez-me ver que estava abusando das poucas forças que os '81 proporcionam. Suei como se tivesse frequentado um ginásio! Já sobre ginástica uma vivência pessoal, curta e engraçada.

Já estava eu nos quarenta e tal anos quando o grupo familiar directo fez-me ver que estava descuidando a atenção pelo meu corpo. Que faltava intervenção! como na polícia de choque. Mais concretamente, que devia inscrever-me num ginásio e melhorar a resistência física. Tive que seguir as suas recomendações, melhor dizendo exigências. Inscrevi-me num ginásio, no grupo dos enferrujados. Após duas sessões, o instrutor, que também, o era na Escola do Exército, vendo a minha fraca capacidade para seguir os exercícios, perguntou-me acerca de quanto tempo fazia que tinha deixado de fazer exercícios de ginástica. A resposta, pronta e verídica, foi: TODO O TEMPO, jamais fiz ginástica! O homem não cai redondo porque já devia esperar uma resposta equivalente, embora não tão drástica. Só me recomendou que continuasse, pois via que me esforçava. Mas com cuidado!

Ainda bem que me alertou, pois na segunda sessão depois deste aviso. ZÁS, uma hérnia inguinal! Que tratei que fosse operada o antes possível, sem esperar por hospital do estado, fosse civil ou militar. Estas coisas tem que se atacar logo, de caras, com coragem e bolsa preparada. Nem seria necessário referir que não voltei ao ginásio, ou melhor, que fui até lá só para me despedir. Practicamente aquele TODO O TEMPO, continuou vigente até hoje, mesmo com a jardinagem.

Inclusive a situação é mais parva, ou caricata, porque temos uma espécie de contrato com uma das muitas “empresas” de jardinagem e manutenção de jardins, que nos são oferecidas com cartões na caixa de correio. Escolhemos a que nos recomendou um vizinho. Nos visitam duas vezes por mês. Mas o tempo que nos dedicam para pouco mais chega do que cortar a relva, podar alguns excessos de crescimento na vedação e, quando é a época indicada, podar as árvores de fruta. Fica muito por fazer. Eu chamo a este grupo, de 2 a 4 elementos, como sendo a “brigada Victor Jara”, daí o cabeçalho, justificado por mais um pormenor, que explicarei.

Quando chegam, seja numa carrinha fechada, bastante grande, ou com uma camioneta de caixa aberta, descarregam muito equipamento “bélico”. Estão sumamente mecanizados. Tudo motorizado! Para poder despachar as tarefas em pouco tempo. É a fruta da época. No princípio de estar nesta casa, com jardim e relva, tivemos um jardineiro, já reformado e hoje falecido, que apesar de ter uma máquina de corte eléctrica disponível, por vezes trazia uma gadanha, como a Morte, e assim eu tive oportunidade de assistir a um espectáculo histórico. 

Estes de agora, os da brigada, nem varrer querem fazer. Trazem uns sopradores que levantam tanta poeirada que a dona da casa os interditou porque fica no ar tanta pó que mesmo com as janelas fechadas, quando depois de partirem as abrem, tudo fica com uma linda camada, onde se podem escrever quadras para-pulares.

Esta modernidade toda, que nos invade duas vezes por mês, ganhou a alcunha, por similitude, de “brigada Victor Jara”. Mais adiante, porém, passou, para mim, a ser uma espécie de filial de uma empresa de transporte de passageiros desta zona, com o nome de VIMECA. Por extenso é Viação Mecânica de Carnaxide. A empresa de jardinagem em causa, nitidamente mecânica, tem oficialmente outro nome, mas eu rebaptizei para JARMECO, obviamente evidente dado que a sua área de combate esta no Norte e na zona OESTE da Capital do Reino.


  1. Quem por ser novo, ou desinteressado pela política -o que é um erro total, por abandono do campo ao adversário- e por isso desconhecer quem era esta personagem do Séc. XX, poderá ilustrar-se sem dificuldade consultando um dos muitos apartados existentes no Google, seja na Wikeleaks ou noutra entrada qualquer. O acréscimo da “brigada” deve-se a um grupo de “músicos de intervenção”, como gostavam de ser conhecidos, e que adoptaram precisamente este nome “de guerra”, pelo propósito, desnatado, de se comparar com a acção revolucionária do mártir chileno.
    Victor Jara, homem do povo rural, foi professor, músico, compositor, e organizador de concertos para esclarecer o seu povo chileno. Também foi encenador de teatro e incomodou os direitistas do Chile. Com o golpe militar contra Salvador Allende, não tardaram horas em prender Victor Jara, torturar e fuzilar.
    Os nossos “revolucionários de salão” jamais foram sérios activistas. No máximo perigo foram corridos, presos por horas ou dias, levaram umas chapadas, mas o seu sangue não chegou à sarjeta.

terça-feira, 2 de julho de 2019

MEDITAÇÕES - Como sonhamos?



Os sonhos são só fantasia?

Depois de ter uma noite recheada de sonhos, quase todos bizarros, acordei com memória fresca de alguns temas, e senti o impulso, irresistível, de retomar o tema antes que esquecesse, o que a experiência me diz ser inevitável. Se os sonhos não tivessem um período de memória curto, e permanecessem remanescentes como autenticas memórias, a loucura seria inevitável.

Parqué esta minha obsessão com os sonhos? Pois simplesmente devido a que jamais me meti neste tema seriamente. Por uma questão de respeito e prudência. Sempre avaliei este tema como escorregadio, perigoso, a evitar. É uma das facetas da vida que embora me causasse bastante pressão mental, decidi só pesquisar ao de leve. Comprei alguns livros que anunciavam poder deixar tudo absolutamente claro, diáfano. Mas não me convenceram. Ficaram para pasto dos bichinhos prateados ou foram para o caminho que os levou à pasta de papel.

Reflectindo sobre o que ainda estava remanescente na minha mente depois de acordar, e que, como era de esperar, não diferia muito, ou nada, no seu esquema estrutural do que já tinha captado anteriormente, o que mais me espanta é que, normalmente, os sonhos que me ocorrem tem argumentos bastante fundamentados em ocorrências e personagens reais, vividas por mim, ou dos quais tive referências credíveis.

Mas aquilo que me atrai na tentativa de os fixar após acordar, é que a memória se encarrega de os eliminar pouco tempo depois. Muitas vezes tive o propósito de ter um bloco de anotações e uma caneta ou lápis, na mesa de cabeceira e assim poder escrever o que recordava enquanto estava fresco. Não vale a pena, pois o esquema de construção da falsa memória é sempre o mesmo, e esbate-se se o focarmos com uma atenção excessiva.

Ainda que dormido, mas por ser perto do momento em que vou acordar, desconheço com rigor o que a mente me oferece na fase do sono profundo, aquele que os estudiosos situam nas primeiras horas de sono. Mas sim que posso garantir, pelo menos no que passa pela minha máquina de pensar, é que sempre surgem algumas personagens conhecidas, que significaram alguma coisa na minha vida. Assim como, no meio das fantasias com que a mente abrilhanta as suas construções, aparecem locais conhecidos, misturados com outros imaginados ou com referências indirectas.

Entre umas aportações e outras o cérebro constrói, em cada tempo de sono, uma ou várias “obras de teatro”. Que raramente tem ligação entre si. Uma das características dos meus sonhos, e que admito deve ser comum à maioria das pessoas (1) é que mesmo quando a situação que nos descrevemos não coincide com uma realidade vivida, ali encontramos pormenores, frases de diálogo, cenários, que sem dúvida encaixam no argumento geral do sonho, mas que, sem dúvida, reconhecemos como “autentico”.

Posso estar certo ou errado, mas julgo que esta estrutura onírica deve ser equivalente à que um bom escritor/a de ficção, aquele que consegue captar a atenção do leitor, tem seguir para captar a atenção do leitor do início ao fim do seu trabalho. Partir, ou incluir ao longo do seu texto, alguns factos reais e depois, como se faz sonhando, juntar adereços, que podem ser apanhados de outras fontes, mesmo sem o propósito de plagiar, e oferecer ao ledor uma estrutura aceitável, mesmo que não absolutamente credível.

Habitualmente, sendo leitor assíduo de obras de ficção e de história (nas quais o “sério historiador” sempre termina metendo algumas maquinações pessoais) insisto em conceder uma dose de aceitação, por vezes magnânimo. Tem sido raros os livros que abandonei depois de ultrapassar o rubicão. Interessaram no início e depois foram perdendo a embalagem, até acabar oferecendo simplesmente tédio.


(1) e animais! Pois quem tem ou teve cães, por exemplo, verificou não ser anormal ver um cão, profundamente dormido rosnar e se mexer, mesmo que sem acordar, como se estivesse em litígio com outro da sua espécie.

domingo, 30 de junho de 2019

MEDITAÇÕES - Acerca da chucha, e outros erros.


O SÍNDROME DA CHUCHA

Por uma questão de sensatez, na minha família paterna e depois na que formei com a minha mulher, jamais se procurou viciar os bebés com a chucha. Nas duas gerações sucessivas a alimentação inicial foi fornecida pelas mães por meio das suas glândulas naturais. Admitimos, desde início, que o leite materno, sempre e tanto que a mãe não estivesse doente, era precioso para o filho, e acreditamos, piamente, de que ele contêm moléculas naturais benéficas, género de anti-corpos, ou outros compostos benéficos para a digestão e evolução do filho.

Não ficamos admirados quando todos eles rejeitaram o biberão como substituto da teta. Quando foi necessário complementar a aleitação natural optou-se, sempre, pelas papas dadas por meio de uma colher pequena. Foi sempre espectacular ver como se habituaram e abriam a boquinha esperando uma nova dose.

Curiosamente, em ocasiões de extremo desespero dos adultos, mesmo sabendo que aquele choro contínuo do bebé devia ser reflexo de alguma indisposição dolorosa, como o romper dos dentes, tentou-se a artimanha de comprar uma chucha na farmácia e com isso, tapar aquela boca que berrava. Nenhum dos filhos aceitou este treta, cuspiram-na, aquilo não equivalia ao mamilo materno.

Ao longo do crescimento houve, sempre, o cuidado de lhes evitar vícios. Por exemplo: mesmo que foi pertinente os ilustrar com jogos de mesa, fossem de cartas (inicialmente com figuras de animais ou flores) e depois com baralhos normais, ou no dominó, jogo da glória ou outros em que se pontua e ganha ou perde, nem a feijões se jogava. Pontuava-se num papel e chegava. Jamais com moedas de uso corrente, nem sequer as de menor valor.

Deste relato retira-se que os pais tem a obrigação de evitar, tanto quanto forem capazes e conscientes, de lhes abrir portas a vícios e hábitos que mais tarde será difícil eliminar.

Outros costumes, que tenho relutância em referir, são inculcados nas crianças sem que os adultos de preocupem de os explicar. Habitualmente os adultos que tal erro, ou abuso, cometem, tampouco são conhecedores, em profundidade, do que estão a impingir.

Explicitar, de forma coerente e perceptível, o que é correcto ou não no comportamento das pessoas não é fácil. E caso imaginarmos que é factível conseguir uma ajuda do exterior, estaremos redondamente enganados. Os bons costumes, os bons actos, o respeito pelos outros e todas as normas de bom comportamento social e humano não carecem, para ser adoptadas, de uma ajuda celestial. Tudo se torna mais normal e intenso se vier do seio das pessoas que se conhecem desde a mais tenra infância, tal como faz o bebé ao mamar, que não tire os olhos da cara da mãe e até é capaz de morder no mamilo se vir que a mãe não lhe dá aquela atenção, total, que ele exige, e só assim consegue mostrar.

sábado, 29 de junho de 2019

MEDITAÇÕES. Ou divagações


DA DESPENSA E DA COZINHA

Tenho a impressão, mal fundamentada dado que estou bastante isolado do convívio social, que a maioria da população, ou pelo menos aqueles que não estão comprometidos ou pendentes de benesses prometidas pessoalmente, não se interessam pela vida pública, apesar de que tudo aquilo que nos enfastia e desejamos que nos passe ao largo, sempre nos afecta directamente.

Será mesmo assim? Teremos que dedicar uns minutos -poucos que o tempo passa depressa- para meditar em alguns capítulos concretos. Um deles, muito importante, é o poder avaliar o que de facto existe na despensa nacional, mais concretamente no lugar onde se guarda, ou deveria estar, o carcanhol que faz mover a roda da nossa vida.

Tal como contam que aconteceu no século XX, quando o estado preocupante em que se encontrava o tesouro público, incitou a que se encomendasse a solução do problema a um provinciano, que nos conduziu pela vereda do estoicismo durante décadas, hoje temos um outro provinciano, desta feita algarvio, e se não vai calçado com botins ortopédicos pode identificar-se como personagem principal num anúncio de dentífrico, pois que, sempre sorridente, nos diz que as coisas andam melhor do que jamais. Ou pelo menos na década anterior à sua. Portugal, através del, ministro das finanças e dono da chave do cofre, é aplaudido, como exemplo a seguir, em toda a Europa e parte do exterior. A dúvida, pequena mas importante, é que já não sabemos o que mais se pode vender aos chineses.

A solução que nos é apresentada baseia-se em promessas para não se cumprirem, e nas “cativações” que cortam, de facto, os orçamentos prometidos. Mas o País ainda anda, manquejando, mas anda, devagar. O sintoma mais geral é aquele que a população manifesta quando se lhe pergunta “como vai?” e, invariavelmente responde “vou andando”. Um País de andarilhos! Mas sabem para onde andam?

Aproximam-se novas eleições e, como é habitual, surgem propostas e desejos que se devem cumprir graças à colaboração dos cidadãos eleitores, ou, sendo pragmático, se cumprirão como decidirem os que forem eleitos, sem contar com as vontades, mal expressas, do eleitorado. Nunca se viu um pastor perguntando, em assembleia magna, às ovelhas que traz a seu cuidado, para onde preferem ir pastar... E o Homem, comporta-se atávicamente como um animal. Afirmação que pode custar a digerir ou nem sequer se atenda a esta verdade.

Temos um PS que já está farto de ter que aturar uns sócios que, apesar de não terem nenhuma carteira ministerial, os incomodam da madrugada até a noite cerrada, pela insistência em provocar reclamações, greves e outras inconveniências que implicam mais promessas a não cumprir e, no fundo, umas despesas que o dentolas não autoriza. Por isso o actual Primeiro ministro clama e deu a palavra de ordem aos seus vozeiros, para que insistam em dar como indiscutível o chegar a uma maioria absoluta.

Ou, que se aceite, por trás da cortina, uma possível conexão com o partido mais próximo, embora com cheiro a direita. Isso sem se libertar dos compromissos factuais que o PS sempre tomou com a realidade económica. Já que, pragmaticamente, nunca se pode escapar da alçada do capital, direitista por génese.

Mas aquilo que sinto, desde o meu canto de eremita, é que existe um distanciamento notório no que se refere ao contacto directo das individualidades que orientam a opinião pública no sector Norte do País e os que cumprem a mesma missão junto da capital. Estes últimos, que estão na primeira linha em lugares cativos, circulam em meios muito restritos, practicamente só consentem em aparecer nos programas televisivos. Hoje a sua presença é mais recatada do que jamais foi, no seio da casa de cada um, pois já deixaram de aparecer nos, já esquecidos, filmes de actualidades que antes passavam nos cinemas. Pelo contrário, deduzo, com forte probabilidade de errar, que no Norte a presença física, cara-a-cara, das pessoas notáveis em cada burgo é mais habitual, e que (se isso assim for) possibilita diálogos sem registo magnético nem selfies para distribuir, ou cabazadas de beijinhos e abraços, estilo chi-coração, que o Presidente se encarrega de espalhar para dar uma imagem de proximidade inoperante.

Por se esta diferença de comportamento político-social não for suficiente para emperrar as pretensões do PS, temos que aceitar, por tanto se ter batido neste ferro frio, que existe uma incompatibilidade entre os dois cabeças de política partidária Norte-Sul. Isso nota-se mais pelos reflexos do que pelas manifestações directas dois dois indivíduos, que nos querem fazer crer que ambos desejam, ardentemente, entrar numa de beijos na boca, com línguas penetrantes, como se mostravam no tempo da Guerra Fria entre os chefões do Soviete Supremo.

Mas estes sonhos do PS podem não se concretizar caso os actuais sócios, sem comando ministerial mas activistas q.b., se sentirem mal tratados e daí decidirem aquecer, mais um pouco, a guerra surda das reivindicações, que inevitavelmente condicionariam muitos votos no sentido contrário aos desejos de António Costa.

Não tem sido anormal que, ao longo da história nacional e internacional, a ambiguidade conduza a resultados indesejados. As recomendações de Maquiavel -não confundam com Marcelo, apesar de ser este um decalque- podem não dar o resultado desejado ao PS.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

MEDITAÇÕES - Lavagem cerebral


Convencer de impossíveis não é difícil

Quando era rapaz e já seguia os noticiários e as revistas de informação o mundo “livre” estava pendente do que acontecia na Coreia, onde em teoria existia uma luta entre a população do norte desta península -que poucos anos antes esteve sob o domínio imperial do Japão- e que enquanto durou esta guerra, e ainda hoje, era uma zona satélite da China comunista e também da Rússia Soviética. Na zona a sul, ao pretender travar a expansão do comunismo, os Estados Unidos, o indiscutível paladino do “mundo livre” prontificou-se a dar uma assistência militar, practicamente a todo vapor, com forças militares e material de guerra. Mas tentando que não fosse vista a sua participação como um novo colonialismo. Para tratar de aliviar a real noção de que ali se confrontavam os EUA versus a China, mais a URSS, montou-se uma com-participação de alguns países comprometidos com os EUA e assim dar a entender, sem o conseguir totalmente, que quem apoiava o governo do Sul da Coreia era a ONU.

Esta longa introdução foi pensada para poder comentar o que a imprensa do mundo livre magnificou até o extremo de ser excessivo. O serviço de propaganda da Coreia do Norte, apresentava, em filmes, os depoimentos de militares americanos, normalmente pilotos de aviões abatidos, que de “livre vontade” declaravam o seu desgosto, ou repúdio, sobre as missões de agressão que lhes foram mandadas sobre populações civis indefesas no Norte.

Por sua vez os serviços de inteligência e contra-informação dos USA, em nome do tal mundo livre, afirmavam que aqueles testemunhos eram, nitidamente, conseguidos após serem aplicadas aos prisioneiros, técnicas sofisticadas de medo e convicção. Entre ameaças, promessas e lições de moral, ou fosse como fosse, afirmava-se que os coreanos do norte faziam intensas lavagens ao cérebro daqueles bons rapazes, americanos, que expunham a sua vida para salvação do referido mundo livre.

Pode ser que estas técnicas, já bem estruturadas. para conseguir as confissões desejadas nem sequer fossem originais. O mais provável é que fosse bem antiga, e que sempre se procurou tirar partido propagandista através dos “arrependidos” que se mudaram de bando. Sempre os houve. Para uns eram traidores e para outros uns patriotas que viram a luz da verdade. Mas para mim foi a primeira vez que a encontrei repetida vezes sem fim, e daí que entrasse no léxico de muitos que estavam na minha geração.

E, em consequência desta memória de juventude, perguntei-me sobre o que se faz (sem ser a cruel e atroz tortura física) para conseguir dar a volta ao miolo de uma pessoa e o levar não só a militar num bando que não era o seu, mas que até o faça com ardor, e se torne mais convencido do que o seu mentor, que em geral não deve acreditar muito na propaganda que transmite. Aquilo que se diz Ser mais papista que o Papa.

Cheguei à conclusão de que o medo é uma força poderosa para nos levar a comportamentos que, em estado de liberdade natural, rejeitaríamos sem excitar Mas o medo por si só não chega para conseguir uma colaboração plena. Ó processo implica oferecer, além do medo a represálias, uma recompensa difícil de conseguir fora daquela área de colaboração. E quanto mais misteriosa e indefinida for esta recompensa, que só se alcançará após uma colaboração total, mais desejada e indispensável se torna.

Neste momento quem leu e pensou -mesmo que pouco- já vislumbra por onde vão os tiros. Obviamente, todas as religiões, em todas as épocas, -pois que nascem espontâneamente na mente humana- usaram e usam a táctica do pau e a cenoura, A cenoura, para os inocentes (aqueles que mal não pensam) é, e sempre foi, algo de intangível; uma promessa para depois da morte. E como esta, seja natural ou matada, é inevitável, o prometer uma indescritível nova vida é normal que provoque no catequizado uma vontade louca, extrema, de agarrar esta possibilidade. E quanto mais penosa tiver sido a sua vida neste mundo, mais procurará cumprir as exigências que lhe forem apresentadas.


quinta-feira, 27 de junho de 2019

MEDITAÇÕES - Formatar a população



A formatação de um povo

Quando se refere a população em geral com o cognome de “povo”, já se sabe que aqueles que se consideram letrados q.b., quando lêem que este termo entendem que não se lhes aplica. Em consequência o termo “povo” ficou restrito à plebe mais abjecta, os desprezíveis, aqueles que estão ao nível da ralé. Todavia aqueles que “orientam” -ou pretendem orientar-, o pensamento da população em geral não se descaem a usar os termos desrespeitadores que eu coloquei propositadamente.

A experiência vivida obriga-me a não aceitar separações com base em preconceitos, capacidades económicas e menos o considerar que se nasce com um estigma, que se pode carregar até o fim dos dias, e até dar de herança aos descendentes. Felizmente a evolução rápida da sociedade nestas derradeiras décadas mostrou que é factível subir ou descer na escala social. Mesmo assim, o facto de que a educação se tenha distribuído quase que equitativamente, e surgissem novas oportunidades para singrar na vida sem cair no trabalho braçal e desgastante, é pertinente reconhecer que estamos bastante longe da igualdade.

Os acontecimentos da política no Reino Unido, que ainda não estão definitivamente concretizados, podem ser um caso de estudo para aqueles que pertencem, por nascimento e modelação, a países que tiveram uma fase de expansão e poder que, vistas de longe, se imagina ter sido melhor e mais proveitosa para a população do que foi de facto.

Muitos dos que se dedicaram a relatar o passado, glorioso, caem na tentação de esconder, ou não referir, as páginas negras, sumamente desagradáveis e desprestigiantes que, SEMPRE existiram ao longo de todas as colonizações. Sendo esta técnica quase que geral cabe ao cidadão que deseja ser devidamente sabedor, do bom e do mau, tentar e conseguir fugir da catequização que, desde os patamares mais conservadores (infelizmente os que assim se comportam, arrastados pela publicidade oficial e oficiosa, nem seque são conscientes de que colaboram na grande fraude)

Atrevo-me a supor que aquilo que se valoriza como ser o Amor à Pátria, corresponde a esconder para debaixo do tapete, e de um modo tácito, tudo aquilo que contrarie a beleza apregoada. Admito que aqueles que constituem a reduzida minoria de seguidores, sabem das tácticas usadas -até uma centena de anos atrás- pelas pessoas com posses económicas que lhes permitissem emular a realeza, para procurar esconder o mau cheiro corporal, fruto de uma quase geral falta de higiene, por meio de perfumes intensos.





sábado, 22 de junho de 2019

MEDITAÇÕES - Uma dica



UMA DICA PATERNA

Mais de seis décadas já passaram desde que o meu pai me disse, com a seriedade que lhe era habitual -mas nem por isso abdicava de gracejar de vez em quando- que na vida social (que não quer dizer em ambiente reservado), era sempre arriscado emitir opiniões, em especial quando estas opiniões podiam ser interpretadas como avaliar factos ou comportamentos que, com evidência, se podiam atribuir a alguém identificado. Habitualmente este género der ditos ou comentários, são vistos como criticas, e estas opiniões eram por sua vez qualificadas como sendo construtivas ou destrutivas.

A partir desta qualificação, sumária e aparentemente pouco explícita, deu-me a sua valorização pessoal acerca das duas hipóteses de comentários. Também quis ser extremista na valorização dos comentários, pois que são sempre as opiniões mais agudas aquelas que devemos ter em conta,

Dito de outra forma, as críticas construtivas, não passam de uma tentativa de não se comprometer, ou pior até, de aplaudir o visado no intuito de se colocar numa posição favorável para o que possa vir.

O seu conselho era de não ligar a esta forma de “dar graxa”, pois se naquilo que mereceu ser criticado erramos, -o que como se diz errar é humano- pode induzir-nos a cometer novamente o mesmo erro, e obviamente nada avançamos no sentido positivo. A não ser um incremento do nosso descrédito. E o motivador, através de oferecer aplausos imerecidos, fica na sombra.

Pelo contrário, o meu pai salientou, e insistiu em muitas ocasiões na sua vida, em que as únicas críticas válidas, efectivamente positivas, eram as eram as negativas, sempre que, de uma forma idónea e razoada, além de apontar o erro ou defeito, também especifica as razões que levaram a emitir aquele juízo de cariz destrutivo. Ou seja, quando o comentador, além de discordar, ao justificar a sua posição, ou mais correctamente a sua oposição, está colaborando num sentido positivo. Sem dúvida, o que aponta defeitos mostra ter uma ética mais merecedora de atenção.


Esta espécie de introdução surge, a frio -como arrancar um dente sem anestesia- após a semana passada ter apagado uns comentários que poucas horas antes tinha colocado sobre a minha avaliação, pessoal, de artigos ou colunas de opinião em dois periódicos nacionais. Posteriormente a serem editados considerei que não estou qualificado -vendo a carência de seguidores torna-se óbvio- nem remunerado para dar opiniões. Daí se deduz serem dispensáveis.

Seja como for, o que aconteceu hoje, sábado, é que continuei a comprar os dois periódicos em questão, admitindo, sem rebuço, a motivação de ler comentaristas “azedos”, duros de roer, cujos autores, sempre identificados, não se importam de criar anticorpos quando assinalam atitudes e decisões que afectam a generalidade da cidadania. E que nitidamente não se encaixam no organigrama de acções que seriam mais convenientes para o bem da maioria “silenciosa”, e sofredora.

Estou convicto de que o meu pai, -também ele bastante solitário- tinha toda a razão ao me avisar do valor nulo das críticas positivas, em especial quando “cheiram” a pretender um retorno, e que os únicos vectores que nos podem ajudar na toma de decisões válidas, está nos comentários azedos. E desta vez não darei pistas concretas acerca de quem aprecio ler.

Infelizmente, esta ponderação dos sinais da agulha de marear não são atendidos da mesma forma pelos leitores, que consentem em desviar os olhos da realidade para seguir os seus compromissos, em geral de índole egoísta e compensadores. Cada um é livre de abdicar de uma característica que, internamente considere correcta, mas que a descarta por não lhe ser agradável, nem não prevê lhe traga benefícios.