sábado, 22 de junho de 2019

MEDITAÇÕES - Uma dica



UMA DICA PATERNA

Mais de seis décadas já passaram desde que o meu pai me disse, com a seriedade que lhe era habitual -mas nem por isso abdicava de gracejar de vez em quando- que na vida social (que não quer dizer em ambiente reservado), era sempre arriscado emitir opiniões, em especial quando estas opiniões podiam ser interpretadas como avaliar factos ou comportamentos que, com evidência, se podiam atribuir a alguém identificado. Habitualmente este género der ditos ou comentários, são vistos como criticas, e estas opiniões eram por sua vez qualificadas como sendo construtivas ou destrutivas.

A partir desta qualificação, sumária e aparentemente pouco explícita, deu-me a sua valorização pessoal acerca das duas hipóteses de comentários. Também quis ser extremista na valorização dos comentários, pois que são sempre as opiniões mais agudas aquelas que devemos ter em conta,

Dito de outra forma, as críticas construtivas, não passam de uma tentativa de não se comprometer, ou pior até, de aplaudir o visado no intuito de se colocar numa posição favorável para o que possa vir.

O seu conselho era de não ligar a esta forma de “dar graxa”, pois se naquilo que mereceu ser criticado erramos, -o que como se diz errar é humano- pode induzir-nos a cometer novamente o mesmo erro, e obviamente nada avançamos no sentido positivo. A não ser um incremento do nosso descrédito. E o motivador, através de oferecer aplausos imerecidos, fica na sombra.

Pelo contrário, o meu pai salientou, e insistiu em muitas ocasiões na sua vida, em que as únicas críticas válidas, efectivamente positivas, eram as eram as negativas, sempre que, de uma forma idónea e razoada, além de apontar o erro ou defeito, também especifica as razões que levaram a emitir aquele juízo de cariz destrutivo. Ou seja, quando o comentador, além de discordar, ao justificar a sua posição, ou mais correctamente a sua oposição, está colaborando num sentido positivo. Sem dúvida, o que aponta defeitos mostra ter uma ética mais merecedora de atenção.


Esta espécie de introdução surge, a frio -como arrancar um dente sem anestesia- após a semana passada ter apagado uns comentários que poucas horas antes tinha colocado sobre a minha avaliação, pessoal, de artigos ou colunas de opinião em dois periódicos nacionais. Posteriormente a serem editados considerei que não estou qualificado -vendo a carência de seguidores torna-se óbvio- nem remunerado para dar opiniões. Daí se deduz serem dispensáveis.

Seja como for, o que aconteceu hoje, sábado, é que continuei a comprar os dois periódicos em questão, admitindo, sem rebuço, a motivação de ler comentaristas “azedos”, duros de roer, cujos autores, sempre identificados, não se importam de criar anticorpos quando assinalam atitudes e decisões que afectam a generalidade da cidadania. E que nitidamente não se encaixam no organigrama de acções que seriam mais convenientes para o bem da maioria “silenciosa”, e sofredora.

Estou convicto de que o meu pai, -também ele bastante solitário- tinha toda a razão ao me avisar do valor nulo das críticas positivas, em especial quando “cheiram” a pretender um retorno, e que os únicos vectores que nos podem ajudar na toma de decisões válidas, está nos comentários azedos. E desta vez não darei pistas concretas acerca de quem aprecio ler.

Infelizmente, esta ponderação dos sinais da agulha de marear não são atendidos da mesma forma pelos leitores, que consentem em desviar os olhos da realidade para seguir os seus compromissos, em geral de índole egoísta e compensadores. Cada um é livre de abdicar de uma característica que, internamente considere correcta, mas que a descarta por não lhe ser agradável, nem não prevê lhe traga benefícios.

quinta-feira, 20 de junho de 2019

UM APONTAMENTO

Com o qual não quero apontar nada nem a ninguém

Sem nenhum motivo "croqueto" decidi interromper por uns dias, ou semanas, os meus escritos neste espaço, de facto  uni-pessoal porque não há uma alma que se decida a juntar umas palavras, nem que seja para desancar.

A novela das CRÓNICAS DO VALE, mesmo que aceite poder esticar mais uns tempos, já perdeu o brio, se é que alguma vez  o teve.

As MEDITAÇÕES tinham por objectivo conseguir um eco que permitisse uma certa polémica, pois sou dos que entende que falar para o boneco é sumamente desmotivador. Falhei redondamente, apesar de que o contador de visitas mostra que teve umas dezenas, poucas, e possivelmente pouco mais de cinco unidades, de leitores.

Como podem imaginar eu continuo escrevendo, intercalando com leituras e jardinagem, que é uma das vantagens que tenho ao residir numa zona com moradias uni-familiares. Num quarto-esquerdo, a estas horas já teria saltado pela varanda.

Resumindo: Não declaro fecho total do meu espaço nem tampouco posso anunciar uma reabertura e em que moldes. Gostaria, e afirmo sem vergonha, de entrar em sintonia com um núcleo de seguidores, e para o conseguir sinto a falta de reacção, de conhecer os interesses, das pessoas que ainda abrem este espaço.

BOA NOITE A PASSEM BEM

quarta-feira, 12 de junho de 2019

MEDITAÇÕES - Votar? E em qual?




De um dilema passamos a um poliema

Inventei agora mesmo um neologismo. Mas não sabia como definir, de um  modo pseudo académico, a situação bicuda que coloquei como cabeçalho.

De entrada a pretensa solução de não votar de nem sequer estar presente no “magno direito democrático”, dado que a abstenção, além de poder envergonhar os que estão nas listas -coisa difícil de conseguir com os políticos profissionais- as regras que se estipularam para ponderar os resultados só afectam os considerados votos válidos. Nem sequer os votos nulos pesam no que se vai decidir após finalizar o escrutínio. E é correcto que assim seja. (1) Quanto aos votos que se candidataram a nulos, propositadamente, mesmo que com esta atitude se queira demonstrar descontentamento, ou até pensar serem insultantes, de facto não passam de um detalhe gratuito, sem significado. E analisando com frieza são um insulto à democracia, precisamente a mesma estrutura social que lhe permite insultar anonimamente.

Admitindo de que todos os assuntos podem ser apreciados com, pelo menos, dois pontos de vista bastante diferentes e razoáveis, mas opostos,  também a questão de votar ou não votar, ou abster-se, pode justificar-se pelo facto de que, com a expansão da informação, o acumular de notícias onde os abusos de muitos indivíduos com poder, ou ligados ao poder, tem feito sobre a cidadania em geral, e portanto sobre o País, deu como reflexo a descrença e até a repulsa para participar no que entendem ser uma distribuição exclusiva de gavetas para saquear. 

As pessoas, muitas ou poucas, mas bastantes a julgar pela soma de abstenções e votos nulos, estão descrentes dos benefícios que se poderiam usufruir de uma democracia, pelo menos comparativamente com uma ditadura, não encontram outra forma de manifestar o seu desencanto, ou desagrado, do que pela abstenção. O que, em realidade, dado que estes valores não os afectam, ainda se lhes dá mais campo aberto para abusar.

Mas se do já dito chegamos à conclusão de que, para tentar que o rumo da governação se ajuste à nossa concepção de conveniente para o País, sendo nós, os cidadãos o que constituímos o Pais e não simplesmente o território, entramos directamente naquilo que pode ser um problema, pelo menos pensando nas pessoas que não estão anímica ou económicamente comprometidas com uma candidatura determinada. Estes votantes, quase certos, não “flutuantes” são os que garantem uma base de partida para os partidos já tradicionais. A deslocação do voto individual de um partido para outro, possivelmente do mesmo grupo, podemos admitir que raramente será entregue a uma formação que se encontre no extremo oposto do arco da governação.

Nos últimos anos, fruto das denuncias e críticas que os meios de comunicação social e principalmente a força de penetração da televisão, emergiram novos corpúsculos com pretensões de conseguir um número mínimo de aderentes que lhes garantisse um lugar nos boletins dos comícios seguintes. Alguns destes novos partidos, por assim os qualificar, eram, de facto, de carácter uni-pessoal, e dada a fraca penetração no computo global da cidadania, tiveram pouca importância.

Mas, de facto, abriram a porta para romper o círculo dos já instalados, e em consequência nos dar a ideia de ter uma maior diversidade de opções. O facto mais notável é que com este maior número de opções, a abstenção ainda subiu. Permaneceram os votos mais fixos de cada partido, mas a degradação do interesse pela democracia foi notória.


(1) Entre muitos escolho este: Quem não aparece, esquece

MEDITAÇÕES - Tanto fedor !



Quando Shakespeare escreveu a peça de Hamlet (que não foi o inventor da omelete!) é possível que não adivinhasse que ali ficaria, como frase lapidar HÁ ALGO PODRE NO REINO DA DINAMARCA.

Uma citação que me veio à cabeça pensando no muito que se sabe acerca da podridão que nos comanda. Ou mais concretamente, nunca na história a população em geral teve accesso a tanta informação, e, curiosamente, a reacção não aparece. Nem sequer deve ser difícil de explicar o porque da apatia geral e aceitar que as coisas nos passem pela cara, ou pelo nariz, que chega primeiro, sem que o fedor nos moleste.

Dizem que as pessoas habituam-se aos cheiros dominantes, assim como a certos ruídos, e, em consequência só reage se um aroma, neste caso um fedor, for novo, desconhecido. Por saberem isso é que não se molestam em esconder as mal-feitorias, desvios, trapalhadas e desfalques que, sempre, mas sempre, sem falhar, caem nas costas dos mesmos. E, curiosamente estes “carregadores” involuntários, mas resignados e , por ventura, até contentes, de ser uma espécie de pagadores de promessas, continuam a pertencer a estratos sociais bem definidos, embora já ultrapassem o nível das camadas mais desfavorecidas e tenha invadido parte da considerada classe média.

Historicamente sempre as classes mais poderosas, fossem da nobreza=poder militar, ou possuidores de importante capital, souberam como manter a população distraída. Todos citamos a frase latina panem et circenses (proferida por Juvenal criticando a passividade do povo perante o declínio do império, em troca de pão e circo) Fossem ajustiçamentos na praça pública, autos de fé com queima de heréticos, procissões, casamentos, desfiles militares, festejos por motivos fúteis, romarias, expôs, concertos, desafios de futebol, etc., em cada época houve tretas criadas para entreter. Daí que convêm admitir que sempre o poder teve nas suas mãos as formas de distrair o povo e assim o levar a esquecer as agruras da sua vida.

É de pasmar o facto de que estando à disposição de qualquer pessoa o saber aquilo que, anteriormente só se sabia nos corredores de palácio, tudo se aceite sem reacção. O segredo absoluto já não existe. Foi sabiamente substituído pela saturação controlada. Quanta mais porcaria se ponha junto do ventilador e se distribua sem recato (Mas sempre guardando o Filet mignon,que a maralha nem sabe apreciar!?) menos dão por ela, já nem o cheiro incomoda.

Vejamos, assim ao passar sem aprofundar: submarinos, projectos não acabadas, nem saídos do papel, contratos ruinosos, desfalques, vendas de activos nacionais ao desbarato, dívida pública a subir sem recuperar os empréstimos nem os desvios evidentes. Seria uma lista longa que não nos levaria a outra conclusão de que a população deste País -que todos amamos- não sabe defender os seus interesses, nem mesmo punir aqueles que internamente abusam.

Consta que muitos habitantes de Portugal estão viciados com ansiolíticos, que dormem pouco por estarem agarrados a mais do que um emprego ou ao seu computador, brincando nas tais redes sociais. Mas será que somos conscientes de que, com a nossa atitude de “deixa andar...”, também somos culpados das nossas agruras?

terça-feira, 11 de junho de 2019

MEDITAÇÕES - Farto de ser arrastado


MEDITAÇÕES – Farto de ser arrastado

É um bocado tarde, mesmo muito tarde para mim, com 81 primaveras às costas. O sentir-me revoltado, com a atitude “rebelde”, mas totalmente de âmbito interno, de consumo caseiro, não me consola.

Dizem-nos que os meios de contacto via electrónica nos permitem criar um grupo de “activistas” ou contestatários, com toda a facilidade. Tenho que acreditar, já que são tantas as vozes, ou os escritos, que apregoam esta prontidão potencial para poder juntar acólitos, ou “almas gémeas” que, com um peso numérico crescente, nos permita reclamar e agir. E como se põe esta bola em andamento? “é ná sei!”

Não chega o ler que desde as mais profundas fossas abissais até os mais altos cumes do Himalaia, passando pelos peixes e outros alimentos que comemos, ou mesmo a água que bebemos, estão todos contaminados de micro-partículas de plásticos, cujos efeitos perniciosos podem causar na saúde humana, e dos seres vivos que nos acompanham neste planeta, ainda não conhecemos, mas não serão positivos, isso certamente. Que sendo o único lar possível para o género humano, nós, que nos auto-consideramos os réis da natureza, teimamos em destruir.

Admito, com vergonha, que não me basta colaborar com a separação e entrega dos resíduos, tanto de materiais plásticos como de papel, vidro ou matéria orgânica. Nem tampouco fico satisfeito pelo meu cuidado em fazer compostagem no meu jardim. Não basta. É mesmo ridículo quando vemos que tartarugas, baleias e aves, entre muitos outros animais, morrem por ter ingerido plásticos não digeríveis.

E pior me sinto ao saber que muito daquilo que separamos, guardamos e entregamos, na convicção de ser reciclado. DE FACTO NÃO É RECICLADO. Muito deste lixo irá a aterros ditos sanitários, que de sanitário não tem nada, pois limitam-se a amontoar e na melhor das hipóteses ser coberto com uma camada de terra. MAS O PLÁSTICO ESTÁ LÁ !

Ou então segue numa de duas alternativas. O é queimado e daí se possa recuperar alguma energia, ou é DEITADO AO MAR OU AOS RIOS, e que siga como Deus Quiser.

Entretanto, sempre que vamos comprar artigos necessários, sejam alimentos ou produtos consumíveis que se tornaram indispensáveis, a embalagem de plástico está sempre presente. Não se nota um eco positivo das campanhas que alertam e propõem terminar com estes artigos indestrutíveis.

E não falo na destruição da atmosfera, tanto por excessos de produtos poluentes gasosos libertos perto da superfície, como a confirmada diminuição da capa de ozono que nos protege das radiações ultravioletas. Cada voo a alta altitude colabora na sua destruição, além dos foguetões que partem rumo ao espaço exterior. Deixam a camada como uma meia esburacada, e quem é que hoje agarra num ovo, até de madeira, e dedica-se a cerzir? Vai para o lixo! E como pode estar feita, a meia, de material sintético ...

Os partidos políticos existentes, sejam eles quais forem, incluídas as filiais pintadas de verde ecológico, nada fazem de positivo. Tudo continua na mesma , ou pior.

Quando se comercializou a baquelite, o celulóide, e depois a viscosa e outras fibras sintéticas, as pessoas sentiram que se abria um mundo novo, belo, recheado de coisas úteis e a baixo custo. A realidade nos leva a recordar a lendária CAIXA DE PANDORA, ou o seu equivalente GÉNIO MALVADO QUE ESTAVA FECHADO NUMA GARRAFA. Um alerta de como depois de libertado o monstro era muito difícil o manter fechado novamente, ou mesmo impossível. Como vai acontecer com os milhões, trilhões e multilhões de micro-partículas que constantemente são lançadas na atmosfera, aos mares, na terra em fim.

Com a energia atómica aconteceu outro tanto. Os desastres ocorridos não surtiram o efeito da prudência total. O átomo depois de reactivo e radioactivo é tal como o tigre numa jaula, estará mais ou menos domesticado até o dia em que decida atacar o domador.

Mas o homem, que há muito tempo que foi definido como o único animal que tropeça duas vezes na mesma pedra, não aprende com os seus fracassos. Antes pelo contrário, procura os varrer sob o tapete, o enterrar como o médico, e partir à procura de outra utopia.

E aqueles que, como eu, se encontram inermes perante o desastre global, que podemos fazer? Chorar como crianças, que voltamos a ser?

COMENTÁRIO RECEBIDO DE PESSOA AMIGA, e colega.

Gostei de ler estas tuas meditações e venho dar o meu contributo, embora muito pequeno, para o que podemos fazer. 
Em 1º lugar temos de nos consciencializar dos problemas, se não estivermos já conscientes deles.
Depois diria como o Akio Morita (suponho que é assim que se escreve): «Os elefantes comem-se às dentadas»

É pouco o que podemos fazer (contribuir para a reutilização e reciclagem, procurar não desperdiçar água e energias não renováveis, usar mais os transportes públicos, mesmo com algum incómodo). No entanto, se formos muitos a fazer isto, os muitos poucos fazem muito, o elefante vai sendo comido, e, com alguma probabilidade irá aumentando o nº de pessoas com preocupações ecológicas que actuam como tal. Na realidade não consigo ter uma visão completamente pessimista da evolução humana e do mundo, e acredito que está nas nossas mãos melhorar um pouco tudo.

OUTRA OPINIÃO DE APOIO, de um amigo veterano

Até podem todos desistir ...que eu vou continuar "a tentar fazer a minha parte"...

Custa-me a acreditar que todo o trabalho a que se devotam os que "se preocupam" com a defesa do Ambiente, seja assim lançado "no monte" do lixo...como se nada "tivesse sido feito..."

Quero acreditar que isso "é desculpa" daqueles que nada querem fazer, sem colocar de lado a hipóteses de haver no circuito alguns irresponsáveis "que gozam" com o nosso esforço...

Vamos acreditar...

CRÓNICAS DO VALE - Cap. 96


CRÓNICAS DO VALE – Cap. 96

Com Rafael Ortega, e outros temas

- De facto já aqui estivemos, os dois, no princípio do nosso conhecimento. E tenho boas lembranças, tanto do local como do marisco e até da refeição que aqui nos prepararam. A única diferença é que naquele dia o Ortega, por precaução e por não me conhecer directamente -assim pensei eu- veio acompanhado por alguns moços da sua família, que se mantiveram atentos, mas sentados prudentemente afastados da nossa mesa. Expectantes, mas dando nas vistas, dada a pouca clientela que havia no local.
- Boa memória, sim senhor. E se tudo correu bem aquele dia hoje não correrá pior. Para já e dada a hora proponho que tomemos umas leves entradas, digamos uns percebes e uns camarões quase crus, e um vinho leve, fresquinho, que depois pode continuar na mesa para ajudar a passar um robalo, com sangue na guelra e olhos vivos; que eu vi na cozinha quando entrei para lavar as mãos. Pode ser?

- Óptimo. Nada a contrariar. Mas antes de entrar em coisas sérias, sem desmerecer do assunto que pretendia expor, gostaria de saber, por curiosidade mas também por interesse pessoal entre amigos, como terminou aquele problema do casamento negado pela noiva descontente. Recordo que, depois de conversas sérias entre as duas famílias, decidiram afastar o noivo até a Andaluzia, creio que referiu Málaga como lugar de afastamento, e que ali certamente seguiria outro caminho, e não tardaria em se acasalar, a gosto, com uma da mesma etnia, ou não, mas de fala andaluza, que não é exactamente igual à de Castela, apesar de serem da mesma família linguística.

- E assim se fez. Para mal, ou bem, dos meus pecados. Para aliviar o ambiente, quando nos reunimos os representantes das duas famílias acertou-se em viajar uma comitiva bastante representativa, onde se inscreveram, massivamente, as raparigas mais novas. Mas também jovens e adultos. Aquilo parecia uma romaria à Virgem do Rocio, mas exclusiva de familiares dos Ortega, e anexos. Foi uma festa, os malaguenhos se prontificaram a nos dar um espectáculo equivalente, ou quase, ao de um casamento. E se todos se divertiram, os nossos jovens abriram os olhos como pratos de sopa, e absorveram todas as novidades que já estavam fixas entre aqueles parentes calés, mais concretamente espanhóis.

E na viagem de regresso é que se apreciaram os efeitos. Que ultrapassaram bastante ao do tema de um casamento não aceite pela noiva. A influência foi muito mais profundo e rápida. Na época em que nos encontramos, nós que já somos vistos como velhos jarreta. Tudo muda a uma velocidade equivalente à dois novos modelos de telemóveis, que quase já não se usam para falar entre familiares e amigos. Só lhes falta, por enquanto, poder estrelar ovos sobre o seu ecrã. Por isso não me admiro do facto de que o amigo Maragato, e outros da cidadania não calé, verifiquem que ao roupa preta, as barbas cerradas e os chapéus de vampiro, estão desaparecendo. Pelo que me contam os sabedores, nem os decretos dos séculos XVII a XIX conseguiram uma mudança tão notória na nossa imagem pública como a que está em andamento agora. E, sabe? Tudo isso é efeito da educação geral, da inclusão e adaptação à escola oficial. Já temos gente nas universidades, e entre eles uma percentagem notável de raparigas. Muita coisa está a mudar, também entre os calés.

- Não sei se lhe vou dar os parabéns ou os “sentimentos”, mas, de facto, não é só no seio da sociedade dos paios que as mudanças ocorrem. Imaginamos que tendemos a igualar. Mas com a minha idade desconfio que esta igualdade será, como sempre foi, parecida a dos dedos das mãos, são igualmente nomeados como dedos, mas se existe um grupo de quatro mais parecidos entre si, apesar de terem tamanhos diferentes, o quinto dedo, o oposto, é notavelmente diferente. Vistos os homens, e mulheres, em grupo, mantemos em acordo com aquela máxima que alerta: Todos somos iguais, mas uns mais iguais do que outros.
E agora lhe queria dar a palavra para que me esclarecesse o porquê o Ortega sentia que queria falar comigo.

- A sua gentileza em me dar uma entrada de tipo pessoal ao meu discurso foi bem recebida por mim. E até me está a causar um certo retraimento em relação ao assunto que me mantinha em alerta.

Não é credível que nenhum dos que se viram mais ou menos afectados com aquela inesperada “partida” que lhe fizeram, usando os seus terrenos como se fosse um vazadouro clandestino de cadáveres não propriamente mortos mas sim matados.

Alguns dos meus companheiros que colaboraram na vigilância daquela sede da maldade e da sem vergonha, ainda mantiveram o hábito, mesmo que esporádico, de irem dar uma volta por aquela zona, e espreitar o que estava acontecendo depois de uns meses de aparente abandono. E do que viram, perguntaram e ouviram se fez uma nova visão de renascença para aquele casarão. Até agora não consegui organizar de uma forma evidente as diferentes observações que me foram apresentadas. Mas conhecendo como as pessoas são e como se comportam, especialmente sobre o pouco que se muda quando se apanha um vício, não me induz a que se possa antever nada de bom, e muito menos limpo, da evolução que ali se está a preparar.

Primeiro pensei que não era plausível que no futuro se avançasse com as mesmas, ou parecidas, actividades que levaram ao seu encerramento. Tentei imaginar que tivesse sido comprada, a propriedade, por alguma igreja baptista, onde muitos ciganos estão inclusos como fiéis. Sebe que nós, os desta etnia, apesar de pragmáticos e pouco patriotas, ou ligados à sociedade onde nos radicamos, sentimos a necessidade de nos apoiar num credo, quanto mais extravagante melhor.

Mas o que me contaram da divisão do edifício em três blocos totalmente independentes. Sendo um deles o das caves, ou subterrâneo, embora que muito modificado e com pé direito normal e fachada aberta nas traseiras, com instalações sanitárias e ventilação, além de alguma iluminação natural, especialmente pelas traseiras, senti que, mesmo com diferenças notórias, ali também se deveriam albergar pessoas e não somente grades de cerveja e caixas de bebidas espirituosas. Ou as agora desmanteladas salas de castigo e tortura que lhe deram fama.

Por tudo isso e desconhecendo o que virá a seguir, queria alertar o Doutor sobre a reencarnação daquele edifício, de má memória.

- Desculpe amigo Ortega. Tenho que atender uma chamada da minha mulher.

- Estou, o que me traz de novo a querida esposa Isabel?

- Pois que estive esperando que me chamasses, e nada! Já te esqueceste de que existo. E como não te localizei já estou almoçando com as duas encarregadas das lojas. E tu, por onde andas?

- E comigo sucede que encaminhei-me para Aveiro e, inesperadamente, me dei de caras com o Amigo Ortega, que está ao meu lado. Se o visses não o conhecerias. Está com outro look totalmente diferente. Só lhe falta cortar mais um bocado a cabeleira e pintar o cabelo de ruivo ou loiro. Então é que ninguém o identificaria. Até diria que está mais magro, mais elegante. Tinha vontade de o ver, especialmente para saber como evoluiu aquele casamento desfeito. E o Ortega também me disse que estava pensando em me chamar, para contar algumas bisbilhotices. Já te darei pormenores em casa.

Mas pensas continuar até Aveiro e nos encontrarmos na Veneza portuguesa, ou vais direita para o Vale?

- Quase que preferia passar o serão contigo, mas em Aveiro. Procura onde nos acoitar e depois diz-me. Eu tenho previsto estar atarefada até as 19/20 horas, de forma que tens muito tempo livre. Ah! Eu e se calhar tu tampouco, vim precavida com uma bolsa com roupa para o dia seguinte. Claro que havendo lojas abertas e cartão de débito/crédito, tudo isso se resolve facilmente. Uma beijoca, querido. JUÍZO!!
- Desculpe Ortega, mas isto de trazer uma trela, mesmo que nos aqueça os pés na cama, também traz algumas obrigações. Mas, tudo bem. Vamos ao robalo que já está a chegar! E com bom aspecto! BOM APETITE !

No próximo capítulo teremos o reencontro. Falar-se-á com os filhos do José e outras banalidade.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

CRÓNICAS DO VALE - Cap. 95


CRÓNICAS DO VALE – Cap 95

Gostaria que este seja um dia normal

Hoje acordei apático, sem energia. Falta-me alguma coisa. Tenho que recuperar o meu anterior ritmo de vida. Estou a descurar os meus assuntos e perdendo tempo em coisas que não me podem levar a lado nenhum. Sei, reconheço, que tudo começou com a descoberta de um morto, inicialmente desconhecido, perto dos limites do terreno da Casa do Vale do Pito, quando, por minha decisão, se estava a proceder à limpeza e desmatagem do pinhal e da mata, onde proliferam diferentes espécies arbustivas e arbóreas. Adiantei-me às normas de cumprimento obrigatório. Publicadas sem se alertarem nem precaverem acerca do que fazer quando se verificasse que estas ordens, para muitos proprietários, normalmente descapitalizados, sem equipamentos adequados, e nem força física disponíveis, seriam de difícil ou mesmo impossível cumprimento.

Já estamos habituados a que -agora numa fingida democracia, mas tão musculada como na ditadura-, se aplica o receituário: Quem manda, manda, e depois logo se verá. Mas, como dizia um meu amigo, já falecido, numa frase que mantinha na ponta da língua: Esta lebre já está corrida! O que equivale a dizer que não se pensa mais nisso, pois não tardará em que soltem outra atoarda. E, entretanto, aplica-se a receita antiga: Entre mortos e feridos, algum escapará. Normalmente são mais os que escapam, por entre os pingos da chuva, como diz a malta, do que os mortos e feridos de gravidade.

Recuando umas horas. Poucas. Acordei mais tarde do que o habitual. A Isabel já estava pronta e a sair do quarto, mas viu-me com os olhos abertos e disse, peremptoriamente, ou seja sem dar azo a um contraditório ou alguma variante.

- Tal como falamos ontem, depois de jantar, hoje tenho que dedicar o dia, sem falta, a tratar dos meus negócios, e se calhar prolongarei amanhã. Quero ter o dia livre, mas nada será segredo. Se à hora de almoço eu não me tiver comprometido com alguma chefe de loja, que é muito provável, ligarei para combinar almoçarmos os dois. Mas não apostes nisso. Faz de contra que tens uns dias de férias quanto a casamento. Mas espero que tenhas algum juízo! Não todo, por saber que te é difícil. Quase impossível em ti.

Mas procura agir com tacto e medida, tanto na política como na questão de mulheres. Sei que ainda ter sentes com muito sangue na guelra, um galote, mas se olhares para o teu Cartão de Cidadão e leres a data do teu nascimento, podes imaginar o modo como as tuas pretensas conquistas te calibram. Deve ser bastante triste, desmoralizador mesmo, descobrir que se é o cabrito, ou a balzaquiana, a esmifrar.

Já te darei notícias. E tu telefona de vez em quando, sem medo de estares a interromper. Quero ouvir a tua voz sem ser eu a ligar. Percebes, Zé Maragato?
.....
Depois de uma tirada destas, “sem respirar”, sem me deixar uma dica onde me pendurar, saiu pela porta fora, e eu fiquei “sozinho e abandonado”, como um “orfe” de pai e mãe! E mesmo depois do banho matinal, do rapar a barba, escolher a roupa, vestir-me e descer para o mata-bicho, não estava melhor. Comendo qualquer coisa, mesmo sem grande apetite -pois habituei-me a estar sempre acompanhado. Vou tentar organizar o meu dia “livre”.

Prontos”!! meto-me no carro e vou para Aveiro, sem procurar a Isabel e desviar-me dos seus estabelecimentos de “embelezamento”.
..

Mas aquele turista não será o Ortega, mascarado? O Carnaval já passou, assim como também passou a época das máscaras processionais. Vou dar uma apitadela para que este desconhecido se vire. E é mesmo o Rafael Ortega!

- Senhor Ortega!!. Quem o vê e quem o viu não o reconheceria. Eu, pelo menos, fiquei indeciso por lhe faltar o chapéu preto ou o Panamá de palha de verão, mas o andar em camisa, e colorida, com calças de linho brancas, calçado com sandálias modernas... todo este conjunto é um visual totalmente novo, pelo menos para mim. Está muito apressado ou pode subir no meu carro e irmos para um local sossegado onde poder dar à língua e depois, ali ou noutro sitio que me recomende, poder convidar este Amigo para um almoço tranquilo?
- Com certeza, Doutor Maragato, terei sempre tempo, curto ou longo consoante as coisas evoluírem na conversa, para estar consigo. Pode não acreditar, mas neste mesmo instante estava pensando em si. E não sei dizer porque razão, estava preocupado com o Amigo. Deve ser aquilo que dizem de transmissão de pensamento. Siga em frente, em direcção à ria e já lhe irei dando orientação para onde nos sentar. Possivelmente já lá teremos estado meses atrás, se não foi bem mais de um ano. Pois o tempo corre como um foguete dos busca-pés.

Pois. De facto, como diz e usando as palavras das minhas filhas, netas, sobrinhas e afilhadas, que constituem um regimento de comandos muito aguerrido, fui forçado a me modernizar. Elas decidiram, sem possibilidade de as demover, de se vestir e comportar exactamente como as suas, delas, colegas e amigas não ciganas. E em seguimento, rejeitaram que as suas famílias, ou seja nós os velhos caretas, continuássemos a vestir de preto, e as mulheres de idade, algumas mesmo jovens de facto mas lutuosas, largarem as saias compridas, as cores escuras, que as envergonham.

Chegamos e aqui tem um bom lugar à sombra para deixar o carro.


No próximo capítulo, se estivermos vivos, é possível que o Ortega nos diga das suas preocupações.