quarta-feira, 12 de junho de 2019

MEDITAÇÕES - Tanto fedor !



Quando Shakespeare escreveu a peça de Hamlet (que não foi o inventor da omelete!) é possível que não adivinhasse que ali ficaria, como frase lapidar HÁ ALGO PODRE NO REINO DA DINAMARCA.

Uma citação que me veio à cabeça pensando no muito que se sabe acerca da podridão que nos comanda. Ou mais concretamente, nunca na história a população em geral teve accesso a tanta informação, e, curiosamente, a reacção não aparece. Nem sequer deve ser difícil de explicar o porque da apatia geral e aceitar que as coisas nos passem pela cara, ou pelo nariz, que chega primeiro, sem que o fedor nos moleste.

Dizem que as pessoas habituam-se aos cheiros dominantes, assim como a certos ruídos, e, em consequência só reage se um aroma, neste caso um fedor, for novo, desconhecido. Por saberem isso é que não se molestam em esconder as mal-feitorias, desvios, trapalhadas e desfalques que, sempre, mas sempre, sem falhar, caem nas costas dos mesmos. E, curiosamente estes “carregadores” involuntários, mas resignados e , por ventura, até contentes, de ser uma espécie de pagadores de promessas, continuam a pertencer a estratos sociais bem definidos, embora já ultrapassem o nível das camadas mais desfavorecidas e tenha invadido parte da considerada classe média.

Historicamente sempre as classes mais poderosas, fossem da nobreza=poder militar, ou possuidores de importante capital, souberam como manter a população distraída. Todos citamos a frase latina panem et circenses (proferida por Juvenal criticando a passividade do povo perante o declínio do império, em troca de pão e circo) Fossem ajustiçamentos na praça pública, autos de fé com queima de heréticos, procissões, casamentos, desfiles militares, festejos por motivos fúteis, romarias, expôs, concertos, desafios de futebol, etc., em cada época houve tretas criadas para entreter. Daí que convêm admitir que sempre o poder teve nas suas mãos as formas de distrair o povo e assim o levar a esquecer as agruras da sua vida.

É de pasmar o facto de que estando à disposição de qualquer pessoa o saber aquilo que, anteriormente só se sabia nos corredores de palácio, tudo se aceite sem reacção. O segredo absoluto já não existe. Foi sabiamente substituído pela saturação controlada. Quanta mais porcaria se ponha junto do ventilador e se distribua sem recato (Mas sempre guardando o Filet mignon,que a maralha nem sabe apreciar!?) menos dão por ela, já nem o cheiro incomoda.

Vejamos, assim ao passar sem aprofundar: submarinos, projectos não acabadas, nem saídos do papel, contratos ruinosos, desfalques, vendas de activos nacionais ao desbarato, dívida pública a subir sem recuperar os empréstimos nem os desvios evidentes. Seria uma lista longa que não nos levaria a outra conclusão de que a população deste País -que todos amamos- não sabe defender os seus interesses, nem mesmo punir aqueles que internamente abusam.

Consta que muitos habitantes de Portugal estão viciados com ansiolíticos, que dormem pouco por estarem agarrados a mais do que um emprego ou ao seu computador, brincando nas tais redes sociais. Mas será que somos conscientes de que, com a nossa atitude de “deixa andar...”, também somos culpados das nossas agruras?

terça-feira, 11 de junho de 2019

MEDITAÇÕES - Farto de ser arrastado


MEDITAÇÕES – Farto de ser arrastado

É um bocado tarde, mesmo muito tarde para mim, com 81 primaveras às costas. O sentir-me revoltado, com a atitude “rebelde”, mas totalmente de âmbito interno, de consumo caseiro, não me consola.

Dizem-nos que os meios de contacto via electrónica nos permitem criar um grupo de “activistas” ou contestatários, com toda a facilidade. Tenho que acreditar, já que são tantas as vozes, ou os escritos, que apregoam esta prontidão potencial para poder juntar acólitos, ou “almas gémeas” que, com um peso numérico crescente, nos permita reclamar e agir. E como se põe esta bola em andamento? “é ná sei!”

Não chega o ler que desde as mais profundas fossas abissais até os mais altos cumes do Himalaia, passando pelos peixes e outros alimentos que comemos, ou mesmo a água que bebemos, estão todos contaminados de micro-partículas de plásticos, cujos efeitos perniciosos podem causar na saúde humana, e dos seres vivos que nos acompanham neste planeta, ainda não conhecemos, mas não serão positivos, isso certamente. Que sendo o único lar possível para o género humano, nós, que nos auto-consideramos os réis da natureza, teimamos em destruir.

Admito, com vergonha, que não me basta colaborar com a separação e entrega dos resíduos, tanto de materiais plásticos como de papel, vidro ou matéria orgânica. Nem tampouco fico satisfeito pelo meu cuidado em fazer compostagem no meu jardim. Não basta. É mesmo ridículo quando vemos que tartarugas, baleias e aves, entre muitos outros animais, morrem por ter ingerido plásticos não digeríveis.

E pior me sinto ao saber que muito daquilo que separamos, guardamos e entregamos, na convicção de ser reciclado. DE FACTO NÃO É RECICLADO. Muito deste lixo irá a aterros ditos sanitários, que de sanitário não tem nada, pois limitam-se a amontoar e na melhor das hipóteses ser coberto com uma camada de terra. MAS O PLÁSTICO ESTÁ LÁ !

Ou então segue numa de duas alternativas. O é queimado e daí se possa recuperar alguma energia, ou é DEITADO AO MAR OU AOS RIOS, e que siga como Deus Quiser.

Entretanto, sempre que vamos comprar artigos necessários, sejam alimentos ou produtos consumíveis que se tornaram indispensáveis, a embalagem de plástico está sempre presente. Não se nota um eco positivo das campanhas que alertam e propõem terminar com estes artigos indestrutíveis.

E não falo na destruição da atmosfera, tanto por excessos de produtos poluentes gasosos libertos perto da superfície, como a confirmada diminuição da capa de ozono que nos protege das radiações ultravioletas. Cada voo a alta altitude colabora na sua destruição, além dos foguetões que partem rumo ao espaço exterior. Deixam a camada como uma meia esburacada, e quem é que hoje agarra num ovo, até de madeira, e dedica-se a cerzir? Vai para o lixo! E como pode estar feita, a meia, de material sintético ...

Os partidos políticos existentes, sejam eles quais forem, incluídas as filiais pintadas de verde ecológico, nada fazem de positivo. Tudo continua na mesma , ou pior.

Quando se comercializou a baquelite, o celulóide, e depois a viscosa e outras fibras sintéticas, as pessoas sentiram que se abria um mundo novo, belo, recheado de coisas úteis e a baixo custo. A realidade nos leva a recordar a lendária CAIXA DE PANDORA, ou o seu equivalente GÉNIO MALVADO QUE ESTAVA FECHADO NUMA GARRAFA. Um alerta de como depois de libertado o monstro era muito difícil o manter fechado novamente, ou mesmo impossível. Como vai acontecer com os milhões, trilhões e multilhões de micro-partículas que constantemente são lançadas na atmosfera, aos mares, na terra em fim.

Com a energia atómica aconteceu outro tanto. Os desastres ocorridos não surtiram o efeito da prudência total. O átomo depois de reactivo e radioactivo é tal como o tigre numa jaula, estará mais ou menos domesticado até o dia em que decida atacar o domador.

Mas o homem, que há muito tempo que foi definido como o único animal que tropeça duas vezes na mesma pedra, não aprende com os seus fracassos. Antes pelo contrário, procura os varrer sob o tapete, o enterrar como o médico, e partir à procura de outra utopia.

E aqueles que, como eu, se encontram inermes perante o desastre global, que podemos fazer? Chorar como crianças, que voltamos a ser?

COMENTÁRIO RECEBIDO DE PESSOA AMIGA, e colega.

Gostei de ler estas tuas meditações e venho dar o meu contributo, embora muito pequeno, para o que podemos fazer. 
Em 1º lugar temos de nos consciencializar dos problemas, se não estivermos já conscientes deles.
Depois diria como o Akio Morita (suponho que é assim que se escreve): «Os elefantes comem-se às dentadas»

É pouco o que podemos fazer (contribuir para a reutilização e reciclagem, procurar não desperdiçar água e energias não renováveis, usar mais os transportes públicos, mesmo com algum incómodo). No entanto, se formos muitos a fazer isto, os muitos poucos fazem muito, o elefante vai sendo comido, e, com alguma probabilidade irá aumentando o nº de pessoas com preocupações ecológicas que actuam como tal. Na realidade não consigo ter uma visão completamente pessimista da evolução humana e do mundo, e acredito que está nas nossas mãos melhorar um pouco tudo.

OUTRA OPINIÃO DE APOIO, de um amigo veterano

Até podem todos desistir ...que eu vou continuar "a tentar fazer a minha parte"...

Custa-me a acreditar que todo o trabalho a que se devotam os que "se preocupam" com a defesa do Ambiente, seja assim lançado "no monte" do lixo...como se nada "tivesse sido feito..."

Quero acreditar que isso "é desculpa" daqueles que nada querem fazer, sem colocar de lado a hipóteses de haver no circuito alguns irresponsáveis "que gozam" com o nosso esforço...

Vamos acreditar...

CRÓNICAS DO VALE - Cap. 96


CRÓNICAS DO VALE – Cap. 96

Com Rafael Ortega, e outros temas

- De facto já aqui estivemos, os dois, no princípio do nosso conhecimento. E tenho boas lembranças, tanto do local como do marisco e até da refeição que aqui nos prepararam. A única diferença é que naquele dia o Ortega, por precaução e por não me conhecer directamente -assim pensei eu- veio acompanhado por alguns moços da sua família, que se mantiveram atentos, mas sentados prudentemente afastados da nossa mesa. Expectantes, mas dando nas vistas, dada a pouca clientela que havia no local.
- Boa memória, sim senhor. E se tudo correu bem aquele dia hoje não correrá pior. Para já e dada a hora proponho que tomemos umas leves entradas, digamos uns percebes e uns camarões quase crus, e um vinho leve, fresquinho, que depois pode continuar na mesa para ajudar a passar um robalo, com sangue na guelra e olhos vivos; que eu vi na cozinha quando entrei para lavar as mãos. Pode ser?

- Óptimo. Nada a contrariar. Mas antes de entrar em coisas sérias, sem desmerecer do assunto que pretendia expor, gostaria de saber, por curiosidade mas também por interesse pessoal entre amigos, como terminou aquele problema do casamento negado pela noiva descontente. Recordo que, depois de conversas sérias entre as duas famílias, decidiram afastar o noivo até a Andaluzia, creio que referiu Málaga como lugar de afastamento, e que ali certamente seguiria outro caminho, e não tardaria em se acasalar, a gosto, com uma da mesma etnia, ou não, mas de fala andaluza, que não é exactamente igual à de Castela, apesar de serem da mesma família linguística.

- E assim se fez. Para mal, ou bem, dos meus pecados. Para aliviar o ambiente, quando nos reunimos os representantes das duas famílias acertou-se em viajar uma comitiva bastante representativa, onde se inscreveram, massivamente, as raparigas mais novas. Mas também jovens e adultos. Aquilo parecia uma romaria à Virgem do Rocio, mas exclusiva de familiares dos Ortega, e anexos. Foi uma festa, os malaguenhos se prontificaram a nos dar um espectáculo equivalente, ou quase, ao de um casamento. E se todos se divertiram, os nossos jovens abriram os olhos como pratos de sopa, e absorveram todas as novidades que já estavam fixas entre aqueles parentes calés, mais concretamente espanhóis.

E na viagem de regresso é que se apreciaram os efeitos. Que ultrapassaram bastante ao do tema de um casamento não aceite pela noiva. A influência foi muito mais profundo e rápida. Na época em que nos encontramos, nós que já somos vistos como velhos jarreta. Tudo muda a uma velocidade equivalente à dois novos modelos de telemóveis, que quase já não se usam para falar entre familiares e amigos. Só lhes falta, por enquanto, poder estrelar ovos sobre o seu ecrã. Por isso não me admiro do facto de que o amigo Maragato, e outros da cidadania não calé, verifiquem que ao roupa preta, as barbas cerradas e os chapéus de vampiro, estão desaparecendo. Pelo que me contam os sabedores, nem os decretos dos séculos XVII a XIX conseguiram uma mudança tão notória na nossa imagem pública como a que está em andamento agora. E, sabe? Tudo isso é efeito da educação geral, da inclusão e adaptação à escola oficial. Já temos gente nas universidades, e entre eles uma percentagem notável de raparigas. Muita coisa está a mudar, também entre os calés.

- Não sei se lhe vou dar os parabéns ou os “sentimentos”, mas, de facto, não é só no seio da sociedade dos paios que as mudanças ocorrem. Imaginamos que tendemos a igualar. Mas com a minha idade desconfio que esta igualdade será, como sempre foi, parecida a dos dedos das mãos, são igualmente nomeados como dedos, mas se existe um grupo de quatro mais parecidos entre si, apesar de terem tamanhos diferentes, o quinto dedo, o oposto, é notavelmente diferente. Vistos os homens, e mulheres, em grupo, mantemos em acordo com aquela máxima que alerta: Todos somos iguais, mas uns mais iguais do que outros.
E agora lhe queria dar a palavra para que me esclarecesse o porquê o Ortega sentia que queria falar comigo.

- A sua gentileza em me dar uma entrada de tipo pessoal ao meu discurso foi bem recebida por mim. E até me está a causar um certo retraimento em relação ao assunto que me mantinha em alerta.

Não é credível que nenhum dos que se viram mais ou menos afectados com aquela inesperada “partida” que lhe fizeram, usando os seus terrenos como se fosse um vazadouro clandestino de cadáveres não propriamente mortos mas sim matados.

Alguns dos meus companheiros que colaboraram na vigilância daquela sede da maldade e da sem vergonha, ainda mantiveram o hábito, mesmo que esporádico, de irem dar uma volta por aquela zona, e espreitar o que estava acontecendo depois de uns meses de aparente abandono. E do que viram, perguntaram e ouviram se fez uma nova visão de renascença para aquele casarão. Até agora não consegui organizar de uma forma evidente as diferentes observações que me foram apresentadas. Mas conhecendo como as pessoas são e como se comportam, especialmente sobre o pouco que se muda quando se apanha um vício, não me induz a que se possa antever nada de bom, e muito menos limpo, da evolução que ali se está a preparar.

Primeiro pensei que não era plausível que no futuro se avançasse com as mesmas, ou parecidas, actividades que levaram ao seu encerramento. Tentei imaginar que tivesse sido comprada, a propriedade, por alguma igreja baptista, onde muitos ciganos estão inclusos como fiéis. Sebe que nós, os desta etnia, apesar de pragmáticos e pouco patriotas, ou ligados à sociedade onde nos radicamos, sentimos a necessidade de nos apoiar num credo, quanto mais extravagante melhor.

Mas o que me contaram da divisão do edifício em três blocos totalmente independentes. Sendo um deles o das caves, ou subterrâneo, embora que muito modificado e com pé direito normal e fachada aberta nas traseiras, com instalações sanitárias e ventilação, além de alguma iluminação natural, especialmente pelas traseiras, senti que, mesmo com diferenças notórias, ali também se deveriam albergar pessoas e não somente grades de cerveja e caixas de bebidas espirituosas. Ou as agora desmanteladas salas de castigo e tortura que lhe deram fama.

Por tudo isso e desconhecendo o que virá a seguir, queria alertar o Doutor sobre a reencarnação daquele edifício, de má memória.

- Desculpe amigo Ortega. Tenho que atender uma chamada da minha mulher.

- Estou, o que me traz de novo a querida esposa Isabel?

- Pois que estive esperando que me chamasses, e nada! Já te esqueceste de que existo. E como não te localizei já estou almoçando com as duas encarregadas das lojas. E tu, por onde andas?

- E comigo sucede que encaminhei-me para Aveiro e, inesperadamente, me dei de caras com o Amigo Ortega, que está ao meu lado. Se o visses não o conhecerias. Está com outro look totalmente diferente. Só lhe falta cortar mais um bocado a cabeleira e pintar o cabelo de ruivo ou loiro. Então é que ninguém o identificaria. Até diria que está mais magro, mais elegante. Tinha vontade de o ver, especialmente para saber como evoluiu aquele casamento desfeito. E o Ortega também me disse que estava pensando em me chamar, para contar algumas bisbilhotices. Já te darei pormenores em casa.

Mas pensas continuar até Aveiro e nos encontrarmos na Veneza portuguesa, ou vais direita para o Vale?

- Quase que preferia passar o serão contigo, mas em Aveiro. Procura onde nos acoitar e depois diz-me. Eu tenho previsto estar atarefada até as 19/20 horas, de forma que tens muito tempo livre. Ah! Eu e se calhar tu tampouco, vim precavida com uma bolsa com roupa para o dia seguinte. Claro que havendo lojas abertas e cartão de débito/crédito, tudo isso se resolve facilmente. Uma beijoca, querido. JUÍZO!!
- Desculpe Ortega, mas isto de trazer uma trela, mesmo que nos aqueça os pés na cama, também traz algumas obrigações. Mas, tudo bem. Vamos ao robalo que já está a chegar! E com bom aspecto! BOM APETITE !

No próximo capítulo teremos o reencontro. Falar-se-á com os filhos do José e outras banalidade.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

CRÓNICAS DO VALE - Cap. 95


CRÓNICAS DO VALE – Cap 95

Gostaria que este seja um dia normal

Hoje acordei apático, sem energia. Falta-me alguma coisa. Tenho que recuperar o meu anterior ritmo de vida. Estou a descurar os meus assuntos e perdendo tempo em coisas que não me podem levar a lado nenhum. Sei, reconheço, que tudo começou com a descoberta de um morto, inicialmente desconhecido, perto dos limites do terreno da Casa do Vale do Pito, quando, por minha decisão, se estava a proceder à limpeza e desmatagem do pinhal e da mata, onde proliferam diferentes espécies arbustivas e arbóreas. Adiantei-me às normas de cumprimento obrigatório. Publicadas sem se alertarem nem precaverem acerca do que fazer quando se verificasse que estas ordens, para muitos proprietários, normalmente descapitalizados, sem equipamentos adequados, e nem força física disponíveis, seriam de difícil ou mesmo impossível cumprimento.

Já estamos habituados a que -agora numa fingida democracia, mas tão musculada como na ditadura-, se aplica o receituário: Quem manda, manda, e depois logo se verá. Mas, como dizia um meu amigo, já falecido, numa frase que mantinha na ponta da língua: Esta lebre já está corrida! O que equivale a dizer que não se pensa mais nisso, pois não tardará em que soltem outra atoarda. E, entretanto, aplica-se a receita antiga: Entre mortos e feridos, algum escapará. Normalmente são mais os que escapam, por entre os pingos da chuva, como diz a malta, do que os mortos e feridos de gravidade.

Recuando umas horas. Poucas. Acordei mais tarde do que o habitual. A Isabel já estava pronta e a sair do quarto, mas viu-me com os olhos abertos e disse, peremptoriamente, ou seja sem dar azo a um contraditório ou alguma variante.

- Tal como falamos ontem, depois de jantar, hoje tenho que dedicar o dia, sem falta, a tratar dos meus negócios, e se calhar prolongarei amanhã. Quero ter o dia livre, mas nada será segredo. Se à hora de almoço eu não me tiver comprometido com alguma chefe de loja, que é muito provável, ligarei para combinar almoçarmos os dois. Mas não apostes nisso. Faz de contra que tens uns dias de férias quanto a casamento. Mas espero que tenhas algum juízo! Não todo, por saber que te é difícil. Quase impossível em ti.

Mas procura agir com tacto e medida, tanto na política como na questão de mulheres. Sei que ainda ter sentes com muito sangue na guelra, um galote, mas se olhares para o teu Cartão de Cidadão e leres a data do teu nascimento, podes imaginar o modo como as tuas pretensas conquistas te calibram. Deve ser bastante triste, desmoralizador mesmo, descobrir que se é o cabrito, ou a balzaquiana, a esmifrar.

Já te darei notícias. E tu telefona de vez em quando, sem medo de estares a interromper. Quero ouvir a tua voz sem ser eu a ligar. Percebes, Zé Maragato?
.....
Depois de uma tirada destas, “sem respirar”, sem me deixar uma dica onde me pendurar, saiu pela porta fora, e eu fiquei “sozinho e abandonado”, como um “orfe” de pai e mãe! E mesmo depois do banho matinal, do rapar a barba, escolher a roupa, vestir-me e descer para o mata-bicho, não estava melhor. Comendo qualquer coisa, mesmo sem grande apetite -pois habituei-me a estar sempre acompanhado. Vou tentar organizar o meu dia “livre”.

Prontos”!! meto-me no carro e vou para Aveiro, sem procurar a Isabel e desviar-me dos seus estabelecimentos de “embelezamento”.
..

Mas aquele turista não será o Ortega, mascarado? O Carnaval já passou, assim como também passou a época das máscaras processionais. Vou dar uma apitadela para que este desconhecido se vire. E é mesmo o Rafael Ortega!

- Senhor Ortega!!. Quem o vê e quem o viu não o reconheceria. Eu, pelo menos, fiquei indeciso por lhe faltar o chapéu preto ou o Panamá de palha de verão, mas o andar em camisa, e colorida, com calças de linho brancas, calçado com sandálias modernas... todo este conjunto é um visual totalmente novo, pelo menos para mim. Está muito apressado ou pode subir no meu carro e irmos para um local sossegado onde poder dar à língua e depois, ali ou noutro sitio que me recomende, poder convidar este Amigo para um almoço tranquilo?
- Com certeza, Doutor Maragato, terei sempre tempo, curto ou longo consoante as coisas evoluírem na conversa, para estar consigo. Pode não acreditar, mas neste mesmo instante estava pensando em si. E não sei dizer porque razão, estava preocupado com o Amigo. Deve ser aquilo que dizem de transmissão de pensamento. Siga em frente, em direcção à ria e já lhe irei dando orientação para onde nos sentar. Possivelmente já lá teremos estado meses atrás, se não foi bem mais de um ano. Pois o tempo corre como um foguete dos busca-pés.

Pois. De facto, como diz e usando as palavras das minhas filhas, netas, sobrinhas e afilhadas, que constituem um regimento de comandos muito aguerrido, fui forçado a me modernizar. Elas decidiram, sem possibilidade de as demover, de se vestir e comportar exactamente como as suas, delas, colegas e amigas não ciganas. E em seguimento, rejeitaram que as suas famílias, ou seja nós os velhos caretas, continuássemos a vestir de preto, e as mulheres de idade, algumas mesmo jovens de facto mas lutuosas, largarem as saias compridas, as cores escuras, que as envergonham.

Chegamos e aqui tem um bom lugar à sombra para deixar o carro.


No próximo capítulo, se estivermos vivos, é possível que o Ortega nos diga das suas preocupações.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

CRÓNICAS DO VALE - Cap. 94

Cautela e caldos de galinha velha, nunca são demais


Amigo e Doutor Cardoso. Vou lhe pedir que me oiça com atenção profissional -da sua parte evidentemente- pois que eu não tenho uma profissão bem definida. Isto de ser “empresário” serve tanto para um amolador de carrinho e gaita de pífaro como para o Administrador Delegado da PT, ou da EP, por exemplo.

O que quero dizer, com muita sinceridade e interesse, é que entendo ser aconselhável, ou pelo menos prudente, nos deixar de inventos e especulações mais ou menos gratuitas, ou mesmo pouco fundamentadas, sobre o futuro que os actuais donos podem ter previsto para aquele casarão. Por enquanto estão no segredo dos negócios “internacionais”, sejam redes bancárias ou de actividades ilícitas, sempre activas. Tanto faz.

Acontece que aquilo que mais recentemente me foi dado saber -e não é muito- me orienta no sentido de que é provável que ali venham a situasse negócios que estejam fora dos limites das leis vigentes, tanto nacionais como internacionais. E que, continuando a especular, a disposição dos espaços que me relataram dá ideia de que seja plausível a montagem, naquele casarão, da sede ou núcleo de uma rede de prostituição em vários níveis, desde as acompanhantes de luxo -muitas vezes alunas de cursos superiores- até o mais baixo patamar das mulheres traficadas para se prostituírem.

Dizem que é um negócio habitualmente paralelo com o da droga e até o jogo. E isto porque só assim se explica a divisão da propriedade imóvel, em três unidades independentes, com entradas diferentes, balcões de recepção e serviços complementares.

Como lhe disse, eu já fui cliente, e mais do que uma vez, de serviços de organizações deste género. Pelo menos das duas parcelas superiores. E não quero ver-me em riscos de me encontrar ligado, mesmo que tangencialmente, a este assunto.

Posso estar redondamente enganado, e ter interpretado mal as dicas que fui sabendo pelo pessoal que lá trabalha, mas o que dizem que se está a instalar é uma versão mais reservada e sofisticada do que as bacanais multitudinárias onde, segundo se apurou, valia tudo e mais alguma coisa. Do género de meia bola e força e nada de fé em Deus.

Daquilo que me cheira penso que, na PJ. já podem começar, ou continuar, com um arquivo especial para este edifício e o seu futuro quase que imediato. E não só na Judiciária Nacional, mas na Europol e Interpol. E eu não existo! Ou melhor, gostaria e gosto de pensar em poder continuar a ter uma amizade estritamente pessoal; longe do que pode vir a acontecer naquela obra de modernização.

Até poderia bem acontecer que a nossa primeira versão de por ali instalarem uma central, até internacional, de oferecer -a quem pagasse bem para isso- um entreposto para viagem indolor para o outro mundo, seja, de facto o que se prepara. Mas o terem três zonas isoladas entre si, como as classes de turistas num cruzeiro, seria uma novidade que desconheço.

Seja como for que as coisas avancem, estou convencido que de ali há marosca grossa, pois que o local não parece ser o mais indicado para umas férias de repouso “normais” e, além disso, se o núcleo duro de investidores se mantiver coeso -coisa que ainda não sei se foi verificado, porque desconheço- a experiência me diz que quando se provou uma droga, neste caso um negócio de sexo duro, é muito difícil, até quase impossível, escapar dele para todo o sempre.

Tenho que reconhecer que sou curioso e que os acontecimentos anteriores me deixaram não só com a mosca atrás da orelha como com uma atenção excessivamente aguda. Daí que as minhas tentativas de coscuvilhice se mantenham activas, e que, caso venha a saber de algum pormenor que julgue possa ser do seu interesse profissional, digamos concretamente, da PJ, lho transmitirei, sem pedir um retorno, que entendo deve ficar muito reservado. Mas tudo isso em estrito nível pessoal, humano, e não profissional, a bem de ambos.

Ah! E, por uma questão de cautela, muita cautela, da minha parte quero manter a Isabel totalmente fora da carroça. Entre o casal procurarei que nunca seja referida aquela fase de nervosismo que nos veio enviada desde o casarão. O Cardoso não leve a mal a minha “fuga”, que não é tanto assim, pois que já lhe manifestei que tentarei saber novos factos através dos meus contactos.

Nem que seja procurando coincidir, “por casualidade” com o Ortega, Rei dos Ciganos de Aveiro, que admito ficou satisfeito com a nossa pequena ajuda, ou mais correctamente pelo conselho gratuito. Mas, caso fale com ele, terei muito cuidado em não abrir o jogo do meu lado. É um assunto, se for como imagino, potencialmente muito perigoso, e os mortos de então seriam coisa insignificante perante o perigo de entrar nas redes internacionais de tráfego de pessoas, que admito já devem estar actuando em Portugal.

O amigo Doutor Cardoso ficou muito aborrecido com este meu discurso, tão pessimista?Pelo contrário, Amigo Maragato. Continuo a o qualificar como sendo um indivíduo sumamente observador e sensato. Os seus receios de que a nossa amizade, se ultrapassar os limites do convívio estritamente social, pelo menos na aparência, me possa prejudicar profissionalmente, só me confirma o como avaliei a sua personalidade a partir do nosso primeiro encontro.

Mais lhe digo. Agradeço, sinceramente, que a proposta de reserva atenta, que me fez agora, tenha sido de sua iniciativa, pois a documentação que no meu serviço se foi juntando nos derradeiros dias, leva o carimbo de CONFIDENCIAL. E o Amigo José adiantou-se ao que eu sentia ser obrigatório fazer: fechar as portas de comunicação mais passíveis de serem vigiadas. Sei que já imagina que neste campo não há ninguém, a partir do porteiro que faz a triagem dos visitantes, que seja imune a ser controlado. E quanto mais se sobe mais vigiado se está.

Um grande abraço, com a amizade que merece, e ficamos neste pé. Pelo menos enquanto não sentirmos cãibras.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

CRÓNICAS DO VALE – Cap 93



Enquanto não chega a convocatória

Estou num momento de sossego. A Isabel foi para a Vila e “aodespois” para Aveiro, a fim de actualizar os seus negócios, pois com a inesperada vocação -mais sonhada do que existente- para andar com avental, luvas de jardinagem, e brincar com flores, mais couves, pés de tomateiro, pimento, malagueta “salerosa”, beringelas e outras verduras, umas mais coloridas do que outras, que qualquer Pingo Amargo tem nas suas prateleiras, e quem faz referência a esta rede de lojas não quer dizer que a veja como destacável, ou melhor do que qualquer outra. Pois bem, eu estou aqui sentado num cómodo cadeirão, quase a dormir, e pensando na morte da bezerra, que é um tema bem histórico e actual para muitos dos meus compatriotas.

E já agora. Como falo uma porção de línguas, sem contar a de vaca, que gosto dela estufada, nem a de gato, que por vezes molho no café da manhã, antes mata-bicho, acontece que, sem ser por vontade definida, ou seja de propósito, verifico que a minha cachola está imersa noutra língua, que não a do Camões e da Augustina recentemente falecida e que, a meu ver, embora reconheça que ninguém se interessa pela minha opinião, devia ter sido enviada, por correio azul, para junto “del Marocas”, por ser uma personalidade de muito destaque no meio da mediocridade e desprezo nacional. O menosprezo que esta interessante senhora gerou -enquanto viveu- foi consequência das invejas que se tornaram venenosas em muitas mentes insignificantes.

Depois desta tirada social no campo das loas, agradeço os aplausos e as mostras de agradecimento dos familiares desta Dama. Bem hajam.

Pois como tinha no pensamento, antes de descarrilar, coisa que “nunca me acontece”, tinha dado por mim a pensar em castelhano, ou espanhol se preferirem adoptar a terminologia dos dominantes do outro lado da fronteira (espero que o bom Deus, que não o mau! os mantenha longe de casa) E já sabem que no clã dos Maragato a língua materna, e até a paterna, foi sempre o espanhol, mesmo que com o tempo de degradasse para o tal portunhol.

E o que me tinha vindo à miolada? Sim, porque nesta altura já devem estar ansiosos por saber das minhas interioridades de dentro. Pois tudo estava circunscrito numa frase espanhola ligada ao tema das obras em curso na mansão dos crimes, que parece criada expressamente para a situação que sugere estar por trás das obras. Diz assim La jodienda no tiene enmienda. Admito que não é necessário tentar uma tradução (1), basta recordar a fábula da serpente e Eva, mais a maçã da sabedoria, e as consequências imediatas que ocasionou. Só direi que entraram numa de fornicação obcecada e que, estupidamente, se envergonhavam desta ânsia, que mais tarde partilharam com as conjunções copulativas. Não só contribuíram, incessantemente, para aumentar a população do Paraíso e arredores, como foram o rastilho para o surgir da moda, dos vestidos, da alta costura e da baixa cultura, mas não da baixa pombalina, que careceu da ajuda do terramoto+maremoto (agora tsunami) e do Sebastião e Melo, mais o Carlos Mardel para se concretizar.
...

Quando o telefone toca

Estou! Quem fala?
Ou ninguém quer falar? Esta linha de vez em quando não responde. Deve estar sob vigilância, por indecente e má figura.

  • Nada disso, amigo Maragato, foi um toque de botões sem intenção.E agora ouve bem?
Optimamente, e sem necessitar de amplificador. Podemos dizer que foi um falso alarme. E então, o Doutor está disponível, onde, quando e como -estive aguardando a oportunidade de fazer esta tripla pergunta, mesmo que a última não encaixe perfeitamente- Mas, não ligue a estes meus dislates . Será que nos podemos encontrar?

Então fica para amanhã ao tempo do mata-bicho, no local que me indicou. E adianto que não se preocupe, ou melhor, que escusa de ficar descansado, pois se tenho indícios de que não acertamos, o que parece estar a ser preparado não é muito melhor.

Até amanhã, e de os meus cumprimentos à sua esposa Diana.


(1) Posso sugerir: O foder não tem nada que saber

quarta-feira, 5 de junho de 2019

CRÓNICAS DO VALE - Cap. 92




Toxim !?

- Dr. Cardoso? Sou o José Maragato. Não carrapato!, Maragato! As carrapatas são o mesmo que as carraças: um sinónimo. E o facto de que a Isabel me diga que sou uma carraça, porque quando me agarro a alguém só largo após medidas drásticas não me obriga a aceitar esta feia calúnia. E a segunda pergunta, é se o momento é adequado, ou prefere mais tarde? É que, se recorda, eu prometi que hoje entraria em contacto consigo para relatar se soubera de algum pormenor concreto. E sabe, como que as promessas são de vidro, e é por isso mesmo que tantas são quebradas... temos que as atender com cuidado.

  • Eu fiquei desorientado quando ouvi a sua entrada em linha. Parecia a personagem de um falso pastor a falar por um telelé, num anúncio já antigo e gasto. Depois entendi que estava bem disposto, se bem que não pude averiguar qual ou quais os motivos que o induziram a descontrair. Respondendo à sua pergunta. Neste momento estou envolvido numa série de assuntos que carecem da minha atenção plena. “Portantos”, -entrando levemente na sua brincadeira- proponho que seja preferível conversar depois das dez da noite, com calma e sossego. Tá-bein?
  • Ouvido e entendido. Corto!
....

já depois de cear.

- Zé deixa-me ser eu a ligar, porque quero ter uma fala com a Diana, com quem fiquei em lhe descrever como correu a reunião com os meus assessores na estufatite.

Diana? Ainda bem que foi a amiga que atendeu, pois se tivesse entrado o José, nem no dia do São João Nepomuceno poderíamos ter o aparelho disponível. Como vai? Animada espero eu. Queria dar uma breve notícia acerca da reunião de fecho, total ou parcial, da colaboração destes profissionais. Eu é que tive o principal papel. O marido Maragato esteve presente, mas ficou sempre atento, com os olhos muito abertos como uma coruja, mas sem largar um pio. A não ser quando dos apertos de mão à porta de saída.

São dois jovens educados e eu expus a convicção de os ter induzido a um projecto que excedia a possível realidade. E era a pura, purinha, purreira, verdade!

Saíram sorridentes, mas com as caras um pouco caídas, por se encontrar num desaire. Mas aceitaram as minhas justificações e, de facto, não tenho motivos de queixa deste duo em início de carreira. Mesmo assim ficamos em que me ajudariam a seleccionar os materiais já adquiridos ou encomendados e adaptar o que for mais correcto à minha actual vontade, mas que até ontem,  era excessivamente indefinida. Para a semana virão com algumas contas e já refeitos da banhada. Assim espero. E quanto a si? Os seus pimpolhos estavam bem dispostos? Portaram-se bem em casa dos avós?

Falei só com a minha mãe, a avó portanto, pois o meu pai teve que comparecer a uma reunião do claustro da faculdade, onde é lente desde quase duas décadas. Já vai para decano! Mas os nossos descendentes são muito “concertadinhos” como dizem na terra da minha mãe. E ela tem-lhes um amor de Perdigão Queiroga. Só lhes dá mimo atrás de mimo e eles, como a Isabel pode imaginar, fazem dela o que querem. Mas ainda não partiram vidros nem jarrões, que eu saiba... pelo menos nenhum acusou o outro. São uma dupla de romance juvenil.

Tenho que largar o aparelho, pois o Sílvio já está nervoso esperando entrar. Até salta sobre um pé e no outro. Já lhe indiquei que devia ir fazer um xixi. Nestas coisas os homens não tem emenda. E depois criticam-nos por irmos aos pares, se não em trios, para a casa de banho que nos é reservada!

- Maragato? E depois queixam-se de que lhes atribuímos a má fama de serem muito faladoras. Desmerecida? Então conseguiu saber algumas coisas que nos coloquem os pesadelos na real? Do meu lado quase nada. Nem sequer da Sé tive resposta ao meu pedido. Disseram que o Sr. Bispo está muito ocupado com uma reunião de emergência, em Fátima, condicionada por uma carta vinda de Roma, mais concretamente escrita pelo Papa Francisco. Pelo que não me disseram, mas insinuaram, ali se espera que se verifique uma refrega de antologia, entre os progressistas e os mais irredutíveis conservadores. Para já estes jogam no seu campo. Daí que se erguesse um silêncio sepulcral nos contactos com os fiéis, especialmente os não comprometidos. Suponho que jesuítas e franciscanos vigiam de perto aos do OPUS DEI.

E o Amigo conseguiu abrir brecha na muralha de silêncio?

Sim e não. Mas o suficiente para meter o nariz e ligar dicas de uns e outros, pois já sabe que as opiniões de terceiros -tal como nós construímos a nossa- tendem a magnificar o que sabem. Temos que juntar as metades de cada um e ver como se encaixam. E a conclusão, que não posso garantir estar certa, daquilo que me contaram é que se não acertamos na mosca, pelo menos os nossos tiros entraram no alvo. Ao lado, mas perto. Mas Cardoso, nos falta conhecer muitos capítulos. Para já o pessoal que está na obra, e são algumas dezenas, de várias especialidades, e cada um só pode ver um interlocutor, tem um horizonte propositadamente reduzido. A empreitada está dada a uma empresa de consultoria que deve ser tão fantasma, ou indefinida, como muitas das que existem no papel. Alguns conseguiram ver visitas de “patrões” mas não de fiscais. Mas estes quase extraterrestres nunca dirigiram palavra directamente a operários ou chefes de equipa. É assim que funciona.

Mesmo assim, como eu já tinha um relacionamento anterior com algum do pessoal intermédio, parece que o interior do edifício está a ser totalmente remodelado; sem quase se aproveitar nada do anteriormente existente. Pela descrição que me foi dada, se bem que não pude consultar plantas nem alçados, aquilo se pretende que funcione como duas unidades bem diferenciadas e sem corredores ou portas de ligação. Tal como acontece nos navios de cruzeiro, onde o mundo do pessoal é muito diferente daquilo que vão ver e usar os passageiros.

Por eu ter andado por aí e entrado em muitos lugares pouco recomendados, pelo menos para casais legalmente estabelecidos, fiz uma ideia do que se está a preparar. Mas, cautela! Não aposto desta vez. Na semana passada foi pura invenção, baseados na experiência concreta dos acontecimentos de que, indirectamente fui vítima no Vale. Levei com um murro nos queixos,  por sorte figuradamente, que me custou muito a suportar. E que ainda surge nos meus sonhos, ou melhor dizendo, pesadelos.

- Oh José! Diga-me mais alguma coisa. Pois fico com a impressão de que está a fazer caixinha. Que guarda o melhor para si. E isto não está certo! Será que lhe tenho que mandar uma contra-fé para que apresente na judiciária a fim de prestar declarações? Ah Ah Ah! 

-Tenha paciência e espere a que possamos falar sossegadamente e sem testemunhas, nomeadamente das esposas, porque aquilo que me parece estar por trás da obra, coincide com o espírito sexual da fase anterior. Mas desta feita modulado mais discretamente, e em conformidade com os hábitos já criados na nossa sociedade, que com o accesso aos conteúdos da internet já sabe coisas de mais, e querem experimentar aquilo que nas suas casas não se atrevem a ter. Os homens, já deve saber, desconhecem muito do que se bule nas cabeças das suas esposas. Em geral sabem muito mais, mas mesmo muito mais, do que aquilo que os seus pretensos malandrecos de maridos imaginam.

Por vezes, mas raramente para meu gosto e curiosidade, a Isabel conta algumas das conversas hiper-picantes que se ouvem nos seus salões. Felizmente a maior parte das esposas mantém estas aventuras ao nível de fantasia mental; Mas, de vez em quando, alguma salta para fora da carroça e o caldo entorna-se. O melhor que um marido pode fazer é manter estes temas bastante longe; só no nível da insinuação, sem confirmar. Vade retro, Satanás.

Quando souber da possibilidade de nos encontrar, mesmo que sem ser em refeição, ou sim, dé uma apitadela, e lá nos juntaremos.