segunda-feira, 10 de junho de 2019

CRÓNICAS DO VALE - Cap. 95


CRÓNICAS DO VALE – Cap 95

Gostaria que este seja um dia normal

Hoje acordei apático, sem energia. Falta-me alguma coisa. Tenho que recuperar o meu anterior ritmo de vida. Estou a descurar os meus assuntos e perdendo tempo em coisas que não me podem levar a lado nenhum. Sei, reconheço, que tudo começou com a descoberta de um morto, inicialmente desconhecido, perto dos limites do terreno da Casa do Vale do Pito, quando, por minha decisão, se estava a proceder à limpeza e desmatagem do pinhal e da mata, onde proliferam diferentes espécies arbustivas e arbóreas. Adiantei-me às normas de cumprimento obrigatório. Publicadas sem se alertarem nem precaverem acerca do que fazer quando se verificasse que estas ordens, para muitos proprietários, normalmente descapitalizados, sem equipamentos adequados, e nem força física disponíveis, seriam de difícil ou mesmo impossível cumprimento.

Já estamos habituados a que -agora numa fingida democracia, mas tão musculada como na ditadura-, se aplica o receituário: Quem manda, manda, e depois logo se verá. Mas, como dizia um meu amigo, já falecido, numa frase que mantinha na ponta da língua: Esta lebre já está corrida! O que equivale a dizer que não se pensa mais nisso, pois não tardará em que soltem outra atoarda. E, entretanto, aplica-se a receita antiga: Entre mortos e feridos, algum escapará. Normalmente são mais os que escapam, por entre os pingos da chuva, como diz a malta, do que os mortos e feridos de gravidade.

Recuando umas horas. Poucas. Acordei mais tarde do que o habitual. A Isabel já estava pronta e a sair do quarto, mas viu-me com os olhos abertos e disse, peremptoriamente, ou seja sem dar azo a um contraditório ou alguma variante.

- Tal como falamos ontem, depois de jantar, hoje tenho que dedicar o dia, sem falta, a tratar dos meus negócios, e se calhar prolongarei amanhã. Quero ter o dia livre, mas nada será segredo. Se à hora de almoço eu não me tiver comprometido com alguma chefe de loja, que é muito provável, ligarei para combinar almoçarmos os dois. Mas não apostes nisso. Faz de contra que tens uns dias de férias quanto a casamento. Mas espero que tenhas algum juízo! Não todo, por saber que te é difícil. Quase impossível em ti.

Mas procura agir com tacto e medida, tanto na política como na questão de mulheres. Sei que ainda ter sentes com muito sangue na guelra, um galote, mas se olhares para o teu Cartão de Cidadão e leres a data do teu nascimento, podes imaginar o modo como as tuas pretensas conquistas te calibram. Deve ser bastante triste, desmoralizador mesmo, descobrir que se é o cabrito, ou a balzaquiana, a esmifrar.

Já te darei notícias. E tu telefona de vez em quando, sem medo de estares a interromper. Quero ouvir a tua voz sem ser eu a ligar. Percebes, Zé Maragato?
.....
Depois de uma tirada destas, “sem respirar”, sem me deixar uma dica onde me pendurar, saiu pela porta fora, e eu fiquei “sozinho e abandonado”, como um “orfe” de pai e mãe! E mesmo depois do banho matinal, do rapar a barba, escolher a roupa, vestir-me e descer para o mata-bicho, não estava melhor. Comendo qualquer coisa, mesmo sem grande apetite -pois habituei-me a estar sempre acompanhado. Vou tentar organizar o meu dia “livre”.

Prontos”!! meto-me no carro e vou para Aveiro, sem procurar a Isabel e desviar-me dos seus estabelecimentos de “embelezamento”.
..

Mas aquele turista não será o Ortega, mascarado? O Carnaval já passou, assim como também passou a época das máscaras processionais. Vou dar uma apitadela para que este desconhecido se vire. E é mesmo o Rafael Ortega!

- Senhor Ortega!!. Quem o vê e quem o viu não o reconheceria. Eu, pelo menos, fiquei indeciso por lhe faltar o chapéu preto ou o Panamá de palha de verão, mas o andar em camisa, e colorida, com calças de linho brancas, calçado com sandálias modernas... todo este conjunto é um visual totalmente novo, pelo menos para mim. Está muito apressado ou pode subir no meu carro e irmos para um local sossegado onde poder dar à língua e depois, ali ou noutro sitio que me recomende, poder convidar este Amigo para um almoço tranquilo?
- Com certeza, Doutor Maragato, terei sempre tempo, curto ou longo consoante as coisas evoluírem na conversa, para estar consigo. Pode não acreditar, mas neste mesmo instante estava pensando em si. E não sei dizer porque razão, estava preocupado com o Amigo. Deve ser aquilo que dizem de transmissão de pensamento. Siga em frente, em direcção à ria e já lhe irei dando orientação para onde nos sentar. Possivelmente já lá teremos estado meses atrás, se não foi bem mais de um ano. Pois o tempo corre como um foguete dos busca-pés.

Pois. De facto, como diz e usando as palavras das minhas filhas, netas, sobrinhas e afilhadas, que constituem um regimento de comandos muito aguerrido, fui forçado a me modernizar. Elas decidiram, sem possibilidade de as demover, de se vestir e comportar exactamente como as suas, delas, colegas e amigas não ciganas. E em seguimento, rejeitaram que as suas famílias, ou seja nós os velhos caretas, continuássemos a vestir de preto, e as mulheres de idade, algumas mesmo jovens de facto mas lutuosas, largarem as saias compridas, as cores escuras, que as envergonham.

Chegamos e aqui tem um bom lugar à sombra para deixar o carro.


No próximo capítulo, se estivermos vivos, é possível que o Ortega nos diga das suas preocupações.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

CRÓNICAS DO VALE - Cap. 94

Cautela e caldos de galinha velha, nunca são demais


Amigo e Doutor Cardoso. Vou lhe pedir que me oiça com atenção profissional -da sua parte evidentemente- pois que eu não tenho uma profissão bem definida. Isto de ser “empresário” serve tanto para um amolador de carrinho e gaita de pífaro como para o Administrador Delegado da PT, ou da EP, por exemplo.

O que quero dizer, com muita sinceridade e interesse, é que entendo ser aconselhável, ou pelo menos prudente, nos deixar de inventos e especulações mais ou menos gratuitas, ou mesmo pouco fundamentadas, sobre o futuro que os actuais donos podem ter previsto para aquele casarão. Por enquanto estão no segredo dos negócios “internacionais”, sejam redes bancárias ou de actividades ilícitas, sempre activas. Tanto faz.

Acontece que aquilo que mais recentemente me foi dado saber -e não é muito- me orienta no sentido de que é provável que ali venham a situasse negócios que estejam fora dos limites das leis vigentes, tanto nacionais como internacionais. E que, continuando a especular, a disposição dos espaços que me relataram dá ideia de que seja plausível a montagem, naquele casarão, da sede ou núcleo de uma rede de prostituição em vários níveis, desde as acompanhantes de luxo -muitas vezes alunas de cursos superiores- até o mais baixo patamar das mulheres traficadas para se prostituírem.

Dizem que é um negócio habitualmente paralelo com o da droga e até o jogo. E isto porque só assim se explica a divisão da propriedade imóvel, em três unidades independentes, com entradas diferentes, balcões de recepção e serviços complementares.

Como lhe disse, eu já fui cliente, e mais do que uma vez, de serviços de organizações deste género. Pelo menos das duas parcelas superiores. E não quero ver-me em riscos de me encontrar ligado, mesmo que tangencialmente, a este assunto.

Posso estar redondamente enganado, e ter interpretado mal as dicas que fui sabendo pelo pessoal que lá trabalha, mas o que dizem que se está a instalar é uma versão mais reservada e sofisticada do que as bacanais multitudinárias onde, segundo se apurou, valia tudo e mais alguma coisa. Do género de meia bola e força e nada de fé em Deus.

Daquilo que me cheira penso que, na PJ. já podem começar, ou continuar, com um arquivo especial para este edifício e o seu futuro quase que imediato. E não só na Judiciária Nacional, mas na Europol e Interpol. E eu não existo! Ou melhor, gostaria e gosto de pensar em poder continuar a ter uma amizade estritamente pessoal; longe do que pode vir a acontecer naquela obra de modernização.

Até poderia bem acontecer que a nossa primeira versão de por ali instalarem uma central, até internacional, de oferecer -a quem pagasse bem para isso- um entreposto para viagem indolor para o outro mundo, seja, de facto o que se prepara. Mas o terem três zonas isoladas entre si, como as classes de turistas num cruzeiro, seria uma novidade que desconheço.

Seja como for que as coisas avancem, estou convencido que de ali há marosca grossa, pois que o local não parece ser o mais indicado para umas férias de repouso “normais” e, além disso, se o núcleo duro de investidores se mantiver coeso -coisa que ainda não sei se foi verificado, porque desconheço- a experiência me diz que quando se provou uma droga, neste caso um negócio de sexo duro, é muito difícil, até quase impossível, escapar dele para todo o sempre.

Tenho que reconhecer que sou curioso e que os acontecimentos anteriores me deixaram não só com a mosca atrás da orelha como com uma atenção excessivamente aguda. Daí que as minhas tentativas de coscuvilhice se mantenham activas, e que, caso venha a saber de algum pormenor que julgue possa ser do seu interesse profissional, digamos concretamente, da PJ, lho transmitirei, sem pedir um retorno, que entendo deve ficar muito reservado. Mas tudo isso em estrito nível pessoal, humano, e não profissional, a bem de ambos.

Ah! E, por uma questão de cautela, muita cautela, da minha parte quero manter a Isabel totalmente fora da carroça. Entre o casal procurarei que nunca seja referida aquela fase de nervosismo que nos veio enviada desde o casarão. O Cardoso não leve a mal a minha “fuga”, que não é tanto assim, pois que já lhe manifestei que tentarei saber novos factos através dos meus contactos.

Nem que seja procurando coincidir, “por casualidade” com o Ortega, Rei dos Ciganos de Aveiro, que admito ficou satisfeito com a nossa pequena ajuda, ou mais correctamente pelo conselho gratuito. Mas, caso fale com ele, terei muito cuidado em não abrir o jogo do meu lado. É um assunto, se for como imagino, potencialmente muito perigoso, e os mortos de então seriam coisa insignificante perante o perigo de entrar nas redes internacionais de tráfego de pessoas, que admito já devem estar actuando em Portugal.

O amigo Doutor Cardoso ficou muito aborrecido com este meu discurso, tão pessimista?Pelo contrário, Amigo Maragato. Continuo a o qualificar como sendo um indivíduo sumamente observador e sensato. Os seus receios de que a nossa amizade, se ultrapassar os limites do convívio estritamente social, pelo menos na aparência, me possa prejudicar profissionalmente, só me confirma o como avaliei a sua personalidade a partir do nosso primeiro encontro.

Mais lhe digo. Agradeço, sinceramente, que a proposta de reserva atenta, que me fez agora, tenha sido de sua iniciativa, pois a documentação que no meu serviço se foi juntando nos derradeiros dias, leva o carimbo de CONFIDENCIAL. E o Amigo José adiantou-se ao que eu sentia ser obrigatório fazer: fechar as portas de comunicação mais passíveis de serem vigiadas. Sei que já imagina que neste campo não há ninguém, a partir do porteiro que faz a triagem dos visitantes, que seja imune a ser controlado. E quanto mais se sobe mais vigiado se está.

Um grande abraço, com a amizade que merece, e ficamos neste pé. Pelo menos enquanto não sentirmos cãibras.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

CRÓNICAS DO VALE – Cap 93



Enquanto não chega a convocatória

Estou num momento de sossego. A Isabel foi para a Vila e “aodespois” para Aveiro, a fim de actualizar os seus negócios, pois com a inesperada vocação -mais sonhada do que existente- para andar com avental, luvas de jardinagem, e brincar com flores, mais couves, pés de tomateiro, pimento, malagueta “salerosa”, beringelas e outras verduras, umas mais coloridas do que outras, que qualquer Pingo Amargo tem nas suas prateleiras, e quem faz referência a esta rede de lojas não quer dizer que a veja como destacável, ou melhor do que qualquer outra. Pois bem, eu estou aqui sentado num cómodo cadeirão, quase a dormir, e pensando na morte da bezerra, que é um tema bem histórico e actual para muitos dos meus compatriotas.

E já agora. Como falo uma porção de línguas, sem contar a de vaca, que gosto dela estufada, nem a de gato, que por vezes molho no café da manhã, antes mata-bicho, acontece que, sem ser por vontade definida, ou seja de propósito, verifico que a minha cachola está imersa noutra língua, que não a do Camões e da Augustina recentemente falecida e que, a meu ver, embora reconheça que ninguém se interessa pela minha opinião, devia ter sido enviada, por correio azul, para junto “del Marocas”, por ser uma personalidade de muito destaque no meio da mediocridade e desprezo nacional. O menosprezo que esta interessante senhora gerou -enquanto viveu- foi consequência das invejas que se tornaram venenosas em muitas mentes insignificantes.

Depois desta tirada social no campo das loas, agradeço os aplausos e as mostras de agradecimento dos familiares desta Dama. Bem hajam.

Pois como tinha no pensamento, antes de descarrilar, coisa que “nunca me acontece”, tinha dado por mim a pensar em castelhano, ou espanhol se preferirem adoptar a terminologia dos dominantes do outro lado da fronteira (espero que o bom Deus, que não o mau! os mantenha longe de casa) E já sabem que no clã dos Maragato a língua materna, e até a paterna, foi sempre o espanhol, mesmo que com o tempo de degradasse para o tal portunhol.

E o que me tinha vindo à miolada? Sim, porque nesta altura já devem estar ansiosos por saber das minhas interioridades de dentro. Pois tudo estava circunscrito numa frase espanhola ligada ao tema das obras em curso na mansão dos crimes, que parece criada expressamente para a situação que sugere estar por trás das obras. Diz assim La jodienda no tiene enmienda. Admito que não é necessário tentar uma tradução (1), basta recordar a fábula da serpente e Eva, mais a maçã da sabedoria, e as consequências imediatas que ocasionou. Só direi que entraram numa de fornicação obcecada e que, estupidamente, se envergonhavam desta ânsia, que mais tarde partilharam com as conjunções copulativas. Não só contribuíram, incessantemente, para aumentar a população do Paraíso e arredores, como foram o rastilho para o surgir da moda, dos vestidos, da alta costura e da baixa cultura, mas não da baixa pombalina, que careceu da ajuda do terramoto+maremoto (agora tsunami) e do Sebastião e Melo, mais o Carlos Mardel para se concretizar.
...

Quando o telefone toca

Estou! Quem fala?
Ou ninguém quer falar? Esta linha de vez em quando não responde. Deve estar sob vigilância, por indecente e má figura.

  • Nada disso, amigo Maragato, foi um toque de botões sem intenção.E agora ouve bem?
Optimamente, e sem necessitar de amplificador. Podemos dizer que foi um falso alarme. E então, o Doutor está disponível, onde, quando e como -estive aguardando a oportunidade de fazer esta tripla pergunta, mesmo que a última não encaixe perfeitamente- Mas, não ligue a estes meus dislates . Será que nos podemos encontrar?

Então fica para amanhã ao tempo do mata-bicho, no local que me indicou. E adianto que não se preocupe, ou melhor, que escusa de ficar descansado, pois se tenho indícios de que não acertamos, o que parece estar a ser preparado não é muito melhor.

Até amanhã, e de os meus cumprimentos à sua esposa Diana.


(1) Posso sugerir: O foder não tem nada que saber

quarta-feira, 5 de junho de 2019

CRÓNICAS DO VALE - Cap. 92




Toxim !?

- Dr. Cardoso? Sou o José Maragato. Não carrapato!, Maragato! As carrapatas são o mesmo que as carraças: um sinónimo. E o facto de que a Isabel me diga que sou uma carraça, porque quando me agarro a alguém só largo após medidas drásticas não me obriga a aceitar esta feia calúnia. E a segunda pergunta, é se o momento é adequado, ou prefere mais tarde? É que, se recorda, eu prometi que hoje entraria em contacto consigo para relatar se soubera de algum pormenor concreto. E sabe, como que as promessas são de vidro, e é por isso mesmo que tantas são quebradas... temos que as atender com cuidado.

  • Eu fiquei desorientado quando ouvi a sua entrada em linha. Parecia a personagem de um falso pastor a falar por um telelé, num anúncio já antigo e gasto. Depois entendi que estava bem disposto, se bem que não pude averiguar qual ou quais os motivos que o induziram a descontrair. Respondendo à sua pergunta. Neste momento estou envolvido numa série de assuntos que carecem da minha atenção plena. “Portantos”, -entrando levemente na sua brincadeira- proponho que seja preferível conversar depois das dez da noite, com calma e sossego. Tá-bein?
  • Ouvido e entendido. Corto!
....

já depois de cear.

- Zé deixa-me ser eu a ligar, porque quero ter uma fala com a Diana, com quem fiquei em lhe descrever como correu a reunião com os meus assessores na estufatite.

Diana? Ainda bem que foi a amiga que atendeu, pois se tivesse entrado o José, nem no dia do São João Nepomuceno poderíamos ter o aparelho disponível. Como vai? Animada espero eu. Queria dar uma breve notícia acerca da reunião de fecho, total ou parcial, da colaboração destes profissionais. Eu é que tive o principal papel. O marido Maragato esteve presente, mas ficou sempre atento, com os olhos muito abertos como uma coruja, mas sem largar um pio. A não ser quando dos apertos de mão à porta de saída.

São dois jovens educados e eu expus a convicção de os ter induzido a um projecto que excedia a possível realidade. E era a pura, purinha, purreira, verdade!

Saíram sorridentes, mas com as caras um pouco caídas, por se encontrar num desaire. Mas aceitaram as minhas justificações e, de facto, não tenho motivos de queixa deste duo em início de carreira. Mesmo assim ficamos em que me ajudariam a seleccionar os materiais já adquiridos ou encomendados e adaptar o que for mais correcto à minha actual vontade, mas que até ontem,  era excessivamente indefinida. Para a semana virão com algumas contas e já refeitos da banhada. Assim espero. E quanto a si? Os seus pimpolhos estavam bem dispostos? Portaram-se bem em casa dos avós?

Falei só com a minha mãe, a avó portanto, pois o meu pai teve que comparecer a uma reunião do claustro da faculdade, onde é lente desde quase duas décadas. Já vai para decano! Mas os nossos descendentes são muito “concertadinhos” como dizem na terra da minha mãe. E ela tem-lhes um amor de Perdigão Queiroga. Só lhes dá mimo atrás de mimo e eles, como a Isabel pode imaginar, fazem dela o que querem. Mas ainda não partiram vidros nem jarrões, que eu saiba... pelo menos nenhum acusou o outro. São uma dupla de romance juvenil.

Tenho que largar o aparelho, pois o Sílvio já está nervoso esperando entrar. Até salta sobre um pé e no outro. Já lhe indiquei que devia ir fazer um xixi. Nestas coisas os homens não tem emenda. E depois criticam-nos por irmos aos pares, se não em trios, para a casa de banho que nos é reservada!

- Maragato? E depois queixam-se de que lhes atribuímos a má fama de serem muito faladoras. Desmerecida? Então conseguiu saber algumas coisas que nos coloquem os pesadelos na real? Do meu lado quase nada. Nem sequer da Sé tive resposta ao meu pedido. Disseram que o Sr. Bispo está muito ocupado com uma reunião de emergência, em Fátima, condicionada por uma carta vinda de Roma, mais concretamente escrita pelo Papa Francisco. Pelo que não me disseram, mas insinuaram, ali se espera que se verifique uma refrega de antologia, entre os progressistas e os mais irredutíveis conservadores. Para já estes jogam no seu campo. Daí que se erguesse um silêncio sepulcral nos contactos com os fiéis, especialmente os não comprometidos. Suponho que jesuítas e franciscanos vigiam de perto aos do OPUS DEI.

E o Amigo conseguiu abrir brecha na muralha de silêncio?

Sim e não. Mas o suficiente para meter o nariz e ligar dicas de uns e outros, pois já sabe que as opiniões de terceiros -tal como nós construímos a nossa- tendem a magnificar o que sabem. Temos que juntar as metades de cada um e ver como se encaixam. E a conclusão, que não posso garantir estar certa, daquilo que me contaram é que se não acertamos na mosca, pelo menos os nossos tiros entraram no alvo. Ao lado, mas perto. Mas Cardoso, nos falta conhecer muitos capítulos. Para já o pessoal que está na obra, e são algumas dezenas, de várias especialidades, e cada um só pode ver um interlocutor, tem um horizonte propositadamente reduzido. A empreitada está dada a uma empresa de consultoria que deve ser tão fantasma, ou indefinida, como muitas das que existem no papel. Alguns conseguiram ver visitas de “patrões” mas não de fiscais. Mas estes quase extraterrestres nunca dirigiram palavra directamente a operários ou chefes de equipa. É assim que funciona.

Mesmo assim, como eu já tinha um relacionamento anterior com algum do pessoal intermédio, parece que o interior do edifício está a ser totalmente remodelado; sem quase se aproveitar nada do anteriormente existente. Pela descrição que me foi dada, se bem que não pude consultar plantas nem alçados, aquilo se pretende que funcione como duas unidades bem diferenciadas e sem corredores ou portas de ligação. Tal como acontece nos navios de cruzeiro, onde o mundo do pessoal é muito diferente daquilo que vão ver e usar os passageiros.

Por eu ter andado por aí e entrado em muitos lugares pouco recomendados, pelo menos para casais legalmente estabelecidos, fiz uma ideia do que se está a preparar. Mas, cautela! Não aposto desta vez. Na semana passada foi pura invenção, baseados na experiência concreta dos acontecimentos de que, indirectamente fui vítima no Vale. Levei com um murro nos queixos,  por sorte figuradamente, que me custou muito a suportar. E que ainda surge nos meus sonhos, ou melhor dizendo, pesadelos.

- Oh José! Diga-me mais alguma coisa. Pois fico com a impressão de que está a fazer caixinha. Que guarda o melhor para si. E isto não está certo! Será que lhe tenho que mandar uma contra-fé para que apresente na judiciária a fim de prestar declarações? Ah Ah Ah! 

-Tenha paciência e espere a que possamos falar sossegadamente e sem testemunhas, nomeadamente das esposas, porque aquilo que me parece estar por trás da obra, coincide com o espírito sexual da fase anterior. Mas desta feita modulado mais discretamente, e em conformidade com os hábitos já criados na nossa sociedade, que com o accesso aos conteúdos da internet já sabe coisas de mais, e querem experimentar aquilo que nas suas casas não se atrevem a ter. Os homens, já deve saber, desconhecem muito do que se bule nas cabeças das suas esposas. Em geral sabem muito mais, mas mesmo muito mais, do que aquilo que os seus pretensos malandrecos de maridos imaginam.

Por vezes, mas raramente para meu gosto e curiosidade, a Isabel conta algumas das conversas hiper-picantes que se ouvem nos seus salões. Felizmente a maior parte das esposas mantém estas aventuras ao nível de fantasia mental; Mas, de vez em quando, alguma salta para fora da carroça e o caldo entorna-se. O melhor que um marido pode fazer é manter estes temas bastante longe; só no nível da insinuação, sem confirmar. Vade retro, Satanás.

Quando souber da possibilidade de nos encontrar, mesmo que sem ser em refeição, ou sim, dé uma apitadela, e lá nos juntaremos.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

CRÓNICAS DO VALE Cap. 91



A Isabel mostra o seu valor

Os dois “engenheiros de couves e árvores de lenha e fruto” compareceram à hora marcada. Tão pontuais, ou melhor, melhor do que os autênticos relógios suíços, comprados na loja do chinês, onde aliás os p.v.p., não tem parado de altear. De facto a relação qualidade/preço está a cair para manter o interesse da clientela, ávida de falsas pechinchas.

Eu estive e mantive-me, em segundo plano; mas bem visível e dando a entender que podia entrar em cena caso as conversas derivassem e a Isabel desse sinal de carecer de apoio. Não foi necessário. A empresária mostrou a sua capacidade de gestora e até ter uma dialéctica eficaz para dar a volta ao texto.

Logo de início agradeceu aos neófitos, mas encanudados, o muito que lhe mostraram que ela ignorava, e igualmente que lhe deixaram plena convicção de que sempre agiram zelando os seus (da Isabel ?) interesses. Ela é que se culpou de ter agido e continuado a manter ao lume um projecto para o qual não tinha capacidade, e nem sequer tempo disponível, pois já estava em risco de descuidar os seus anteriores negócios. Que estes sim se mantiveram sempre em actividades onde se sentia firme, conhecedora em profundidade.

Que teve largas horas de insónia, culpando-se de insensatez e de que, sem se aperceber, estava caindo num abismo que, sem duvida seria fatal. Recordava o ditado que alerta ao sapateiro que queria tocar rabecão. Dos dois, o filho da Dona Eudócia, sua cliente no salão da Vila, sabe através das conversas anteriores com a sua mãe. que eu, Isabel, era incapaz de manter vivo nem sequer um manjerico envasado, que comprasse nos Santos Populares. Nenhum chegou a se mostrar verde e cheiroso a meados de Julho.

Avançando continuou com os motivos que a levaram a lhes pedir que comparecessem a esta reunião de trabalho. Que os convocou, e quis que o meu marido assistisse, na previsão de assumir o seu “mea culpa”, e também para lhes pedir que a ajudassem no propósito de practicamente anular, desistir do seu projecto, indefinido, de montar uma estufa multi-funcional. 

Se for possível aproveitar um espaço fechado com área entre 15 e 20 metros quadrados, onde eu possa brincar, esporadicamente, com algumas begónias, orquídeas e plantas da Madeira, ou de zonas ainda mais tropicais, que não conseguem aguentar o inverno nesta latitude, nem sequer dentro de casa, eu sentir-me ia feliz.

A preocupação de me meter num campo totalmente desconhecido, com risco de cair e partir os dentes, obriga-me a vos pedir que me ajudem a recuar. Não sei como, mas temos aqui materiais e equipamento ainda por instalar e outro já encomendado. Será que se conseguiria desviar estes materiais, que certamente são modulados e de série, para outros projectos, mais sensatos? Seja como for tenho que dar andamento ao que já está e que exceda a nova dimensão. Mesmo que isso me vá causar prejuízos monetários. Já se sabe que em negócios, e mais quando não se conhecem os riscos, é muito provável ter prejuízos. Mas temos que os minimizar...

A Isabel não esqueceu de referir que sabia ser devedora de trabalho pessoal da equipa formada pelos dois colegas, e que não queria ficar com o estigma de caloteira, por fugir de responsabilidades. Sem implicar outros compromissos, façam as vossas contas e apresentem-nos, que cá, o casal, somos gente séria.

Os jovens profissionais, encararam a situação com seriedade e garantiram que fariam o possível, e até mais, para conseguir eliminar a preocupação que a Dona Isabel lhes fez sabedores. Que não se preocupasse neste momento. Quando tivessem a matéria estudada, e vissem como se podia atender o que nos parece, de facto ser razoável, e por isso não se sentir capazes de contrariar, por saber que tem razão. Afirmaram que também eles se deixaram entusiasmar, avançando para um nível quase profissional que, de facto, hoje admitem não ser compatível com a sua experiência e menos com os seus negócios pessoais, que domina desde bastantes anos. Concluíram pedindo desculpa por não avaliarem a realidade do mini projecto a nível de dona de casa, que a Dona Isabel tinha sonhado e foi incapaz de definir, por inexperiência.

A Isabel fechou a entrevista insistindo em que não queria prejudicar a dedicação e o trabalho da equipa, e que estava disposta a servir de referência para novos clientes, caso entendessem que lhes seria válida a sua opinião, inequivocamente positiva. Despediram-se com a certeza de que não abandonavam a “cliente” mas que tudo fariam para adaptar às novas orientações. E até breve. Certamente que dentro de dez a quinze dias, poderiam trazer boas notícias.

Da minha lavra só colaborei como um santo de gesso na peanha. Os leves sorrisos, intercalados com cara séria, devem ter servido para pano de fundo para esta peça de teatro da vida. É de sábios ter a noção de que se deve recuar antes de o desastre desabar. E nem sequer tive que fazer uma campanha elucidativa para avisar a Isabel. Ela me disse que alguns olhares meus, sem palavras, a seco, a alertaram para o futuro que eu já devia ter previsto quando os “rapazes” começaram a desbobinar o que tinham estudado na escola. E é que entre a teoria e a prática, especialmente quando entra em risco o capital próprio, pode existir um abismo.

....

Enquanto um dos meus ouvidos estava ligado à reunião sobre o futuro do projecto de estufa para plantas exóticas ou eróticas, a outra metade do meu cérebro decidiu torpedear a fantasia que, impulsivamente, instalei no espírito do Doutor Cardoso.

Além de admitir que eu não tenho unhas para um negócio daquela envergadura, isso não implica que considere ser um disparate e que existem empresas multi-funções do género do que imaginamos. Mas será que em Portugal temos um sector, potencial, de clientes, que aguentassem uma complexidade deste calibre? Até pode ser que o Cardoso consiga entusiasmar capitalistas do Norte ansiosos de diversificar a sua carteira. Conhecemos a carreira ascendente do recentemente falecido que se fez dono de uma fábrica de “serradurite” e terminou numa diversidade de negócios, desde alimentação a electrodomésticos e equipamento de informática, desporto e outros sectores que nem todos podem listar.

Vendo as coisas com ar profissional não sinto que fosse uma loucura, uma insensatez, o criar uma sociedade anónima que conseguisse travar, em seco, a obra que está em curso naquela mansão, precisamente porque se desconhece o seu propósito. Nada vimos em revistas ou jornais que nos orientasse neste sentido. Só imaginamos, com risco elevado de não passar de especulações sem sentido.reconheço ser pessoa prolifera em projectos, a maior parte deles utópicos para as minhas capacidades e aceitação de riscos.

Tampouco me sinto com coragem de dizer ao Cardoso que eu salto para fora da carroça, mas sim que os capitais estão practicamente todos comprometidos, com graus de risco mais ou menos conhecidos e aceitáveis. Que enfiar com projecto da envergadura que, despudoradamente imaginamos, implicaria além de avultadas despesas em obras, o conseguir obter as licenças exigidas, com os custos “colaterais” inevitáveis que lhes são intrínsecos. Conseguir a colaboração de gente conhecedora dos assuntos. E aguentar com uma máquina burocrática própria com custos sempre ascendentes. Imagino que seria indispensável criar uma máquina publicitária, insistente e com características especiais, para promover o interesse entre nacionais e estrangeiros. Assim como na Suiça contam com num número de forasteiros que para lá se dirigem a fim de terminar os seus dias de um modo menos sofredor.

Quanto ao financiamento, que não seria de uns meros milhões de euros, todos conhecemos, ou ouvimos referir, de expertos em gastar dinheiros da União Europeia em projectos que, por vezes, não saem das fundações, e tudo fica no silêncio dos compadres. E ninguém exige contas das enormes verbas que se sumiram, ou melhor, que foram parar a locais e bolsos propositadamente “indefinidos”. Eu sei e cometi algumas trafulhices, mas todas de pouca monta e sempre apoiado em indefinições legais. Mas isso não me dá calo para entrar em cavalarias altas. E nem sei se a minha mente fértil pode ser valorizada como “consultor”


Na próxima entrega estão previstas algumas respostas ao que se perguntou.

domingo, 2 de junho de 2019

CRÓNICAS DO VALE - Cap. 90



Um encontro conspiratório ?

Já na terça feira

- Bom dia Dr. Cardoso, parece que chegamos ambos na hora marcada. Estamos de parabéns, coisa rara no nosso meio, onde o hábito é chegar sempre com atraso. Dizem que n ão nos respeitamos se comparecermos na hora marcada! Coisas de burrice congénita e de falta de respeito perante os outros. Mas vejo que está bem disposto, embora com o semblante sério. Aconteceu algum contratempo? Uma doença, acidente. Ou coisa semelhante? Espero que não.

- Nada de especial. Simplesmente andei a meditar sobre o assunto que nos incitou a nos juntar e, quantas mais voltas lhe dou, continuo a não ver as coisas claras. Antes pelo contrário. Possivelmente uma segunda feira não é a altura propícia para tentar abrir gavetas, mas alguma coisa podia ter transpirado sem eu ligar. De facto são vários os dossiers que tenho na minha mesa, e cada um deles com um carimbo de urgente, mesmo aqueles, que são a maioria, que tratam de assuntos de lana caprina, mas que fazem perder tempo. Não podemos negar que sempre foi difícil por a trabalhar as engrenagens da rotina numa segunda feira, depois de um sábado e domingo descansados.

Seja como for e aceitando que podemos estar enganados, de estar “sonhando com ladrões”. Eu dei corda aos sapatos do pessoal que temos em campo para que procurassem, em primeiro lugar, quem estava de facto por trás da compra daquela propriedade “assombrada” ou mal afamada por sucessos recentes que causaram alarme. Nada, até o momento nada.

E mesmo assim receio que por trás da empresa fantasma, a tal sediada num ilha, ou numa simples caixa postal, multi-usos, e atendida por um sujeito sentado numa secretária, num escritório diminuto dos muitos que dizem existir nestas paragens do Caribe, e que só se encarregam de receber e reenviar mensagens e documentos. Desconfio que por trás do pano estará um, ou até mais do que um, dos passarões que os nossos serviços identificaram em consequência da leviandade com que os esbirros, em quem confiaram. Uns e outros foram excessivamente incautos.

Não sou de apostas. Mas desta feita recordo uma história que se contava entre estudantes acerca dos despiques dos pais, sentados nas mesas do café da terra, o dos senhores. Ali, entre cafés, charutos e copos de brandy espanhol, cada um deles queria alardear dos conhecimentos que o seu respectivo filho já tinha alcançado na faculdade. Aquele dia no meio do grupo de paternidades se encontrava um dos filhos ”estudantes”, devidamente mascarado com capa e batina. O pai, tentava ver sinais de apoio vindos do seu herdeiro, mas este permanecia mudo, quedo, estático; até que a conversa foi parar para a gulodice. Qual dos filhos seria capaz de comer, de uma assentada, duas dúzias ou mais de pastéis de nata? O estudante presente chegou-se ao ouvido do pai e lhe disse: Pai, aposte em mim, e alto! Pois garanto que nesta ganha!

Pois eu apostaria em que, por enquanto, o negócio que devem ter em olho para aquele local deve estar entre elementos do tal grupo. O que não impediria que, tal como o Maragato alvitrou, depois não se juntem a forasteiros, possivelmente americanos, com risco de estarem ligados a alguma das máfias do jogo e da droga. E eu, como português ainda patriota, não me agrada esta possibilidade. Mesmo que aceite o facto de estamos longe de garantir que aquela montagem especulativa possa ser concretizada.

E mais digo, antes de lhe dar a palavra, sei, documentalmente, que na organização daquelas festanças, que deram em torturas e até mortes, havia elementos graúdos do clero. Eles bem avisam com aquilo de que “a carne é fraca...”, uma desculpa que lhes serve como um anel de casamento, mesmo com voto de celibato. Pois bem, apesar de me ter avisado de que aquela montagem mental que nos ofereceu não tinha uns alicerces onde se apoiar, eu senti que a estrutura imaginada estava longe de ser absurda.

Acrescento o facto de que, apesar de estar na lista dos católicos, eu não sou crente, e muito menos cego perante as faltas de carácter social e económico que a estrutura eclesiástica cometeu, comete e cometerá. Mas, apesar de todo isto, e respeitando a ignorância em que está a nossa população, especialmente as camadas mais incultas, -e os cultos seguem na procissão por interesse, seja terrena ou imaginando para uma eternidade beatífica-. Pois, apesar de todas as minhas reticências, não me agradaria que este nosso pesadelo -pois que ultrapassa o ser um sonho- se convertesse em realidade, sem que se respeitasse a tradição do nosso povo.

Pondo as coisas de um modo mais explícito. Pensei em pedir uma audiência, não oficial, ao Bispo do Porto, na qual me agradaria que me acompanhasse, para lhe expor o perigo de que um credo com base fora de Portugal, tomasse conta de uma capela mortuária, caso os nossos temores se fundamentassem. Seria uma jogada de antecipação, pois se as coisas seguissem aquele rumo que imaginamos, mais tarde ou mais cedo, ele seria informado. Mas em “segredo de confissão”, ou seja, confidencialmente. Se nós nos adiantássemos já teriam que modular as coisas de forma a serem mais aceitáveis.

Termino com o esquema, atrevido, que eu penso apresentar ao Bispo como ente responsável neste domínio. Sugerir que na previsão de ali se instalar um aparente centro de repouso para geriatas, mas que de facto seria uma porta camuflada para o dia em que a morte assistida estivesse legalizada, a “nossa igreja católica” devia promover, quase que exigir, que o local onde se realizassem as exéquias, digamos a capela mortuária, estivesse aberta a ser usada por qualquer credo, sem excepção. Ou seja, não ser exclusivo do catolicismo. Claro que não antevemos que se autorizassem, por enquanto, cremações públicas nas margens do Mondego, do Vouga, do Minho ou Tejo, como um Benarés europeu.

Como o amigo José Maragato ouviu, eu fermentei na sua exposição. E gostaria de conhecer os seus comentários.

- Pois eu, depois de o ouvir atentamente, tenho medo de mim mesmo, ou de nós. O mais certo é que estejamos colocando a carroça à frente dos bois, mas também podemos acreditar no que é comum nos negócios: O que bate primeiro bate duas vezes. E mesmo que o negócio previsto não passe de um delírio meu, uma especulação sem bases reais, não deixam de existir precedentes na Europa, e a tal funerária que, sem conhecimentos concretos, referi, só por aquilo de emprenhar de ouvido, poderia ser uma testa de ponte.

Pela minha parte estou aguardando notícias tanto das pesquisas em cartórios como em empreiteiros e até gentes de trabalho. Creio que o mais tardar na quinta-feira terei algumas respostas. Entretanto, caso a entrevista com o Sr. Bispo, Dom “Não recordo o nome”, se concretizar terei todo o prazer, também como não crente (é possível que “ele” também não seja crente convicto. Coisas mais estranhas se tem visto, ou inesperadas, porque de bizarrices...está o mundo cheio) em o poder acompanhar, e ajudar se ficasse atrapalhado, pois para inventar eu sou um alho.


No próximo capítulo terei que referir em que pé ficou a Isabel com os técnicos do projecto de estufa.


sábado, 1 de junho de 2019

MEDITAÇÕES- Como valorizamos a UE


 ACERCA DAS ELEIÇÕES PARA O PARLAMENTO EUROPEU

Admito que nem sempre votei nas Eleições Europeias, e que a minha adversão tinha, e tem, dois vectores importantes, pelo menos a meu ver. Nada daquela frase parva de “pela minha óptica”, pois que nenhuma das aceitações que figuram no dicionário da língua portuguesa dá como válida que, também entre outras, corresponda à ponderação pessoal sobre algum tema. Eu, no intuito de denegrir (sem ofender) o uso deste termo como base de opinião, digo, sempre, que eu não posso partilhar pela simples razão de que não sou dono de uma loja de lentes e óculos.

Retomando o fio da meada, já que mais uma vez, me desviei do tema que pretendia expor. Sinto, baseado no meu desconhecimento, que o organismo UE. Se converteu numa enorme burocracia, que custa muito dinheiro e perde muitas energias dos membros que compõem este aglomerado, que se diz estar em vias de desagregação. Aceito quer se tomaram decisões acertadas, mas que, felizmente, os cidadãos dos países membros desconhecem muitas das burrices cometidas, dos compadrios, das preferências injustificadas e, possivelmente, das fraudes que sob a sua bandeira poli-estrelada e do seu papel timbrado tenham tido a porta aberta. Os humanos são useiros e vezeiros em cair na tentação de meter a mão na gaveta. Quem lida com mel, sempre lambe os dedos.

Além das desconfianças, quase inevitáveis, temos que os problemas caseiros sempre condicionam, ou deturpam, o voto que devia ser exclusivamente europeísta. E a propagando eleitoral pecou, precisamente, por ser excessivamente de carácter nacional. Ofereci o meu voto mais por sentido de eficiência nacional do que por uma visão multinacional, abrangente portanto. Mas já foi.

Posteriormente dediquei mais atenção aos pretensos programas dos concorrentes. E digo pretensos porque não os considerei à altura das que pretendiam ser as suas responsabilidades. Ou seja, nem os cabeças de lista, mais os comentadores "esclarecidos", conseguiam livrar-se da pressão interna de nacionalismo bacoco. Mesmo assim, e sem que eu tivesse contribuído para tal, uma parte do eleitorado activo apoiou o grupo menos egoísta, patrioteiro, exclusivista. E que certamente por alguns prever que poderia destacar-se entre os pequenos, foi alvo de uma campanha insidiosa. Mesmo que se saiba, pela evidencia manifesta, de que o Partido Verde é uma filial do PCP, nada nos garante, nem nega, da possibilidade de que exista a vontade de algum dos partidos de centro ou da direita de tomarem o comando do PAN, que foi uma revelação a sua entrada no Parlamento Europeu, não só pelo discurso dos seus dirigentes  -poucos- mas porque a noção do desastre ambiental já se fixou em muitos europeus.

Dei o meu voto ao PAN, com a fé de que os seus princípios pró recuperação do ambiente terrestre sejam levados a sério, em oposição à forma  desinteressada  com que continuamos e colaboramos em estragar o planeta. O facto de que na sua proclama refiram, denunciem mesmo, a forma como se eliminam, constantemente, espécies animais, que são nossos companheiros de planeta e até parceiros na nossa cadeia evolutiva, em vez de se levar seriamente, como é evidente para quem se entretenha a pensar, nos devia causar uma repulsa aguda, e colocar o PAN no lugar cimeiro das nossas preocupações. O planeta, nossa casa e única possibilidade de sobrevivência, exige que os cidadãos eleitores, abdiquem dos seus preconceitos partidários e pensem de uma forma mais global.

Promover a desacreditação da poluição dos mares, rios e até montanhas e vales, usando como argumento que estes partidários do simbólico verde, se oporem à lide de toiros, desvalorizando o seu mérito marialvista, é uma mostra de ignorância só comparável ao da banal citação de pretender tapar o sol com uma peneira.

O facto de ser compreensível é louvável lutar pelo bem de terceiros, apesar de que os resultados possam reflectir-se em nós, temos que entender que existem acções que deixamos acontecer, sem reagir, e que prejudicam a toda a humanidade, e até aos que nos seguirão caso a vida na terra continuar a ser possível, mesmo que num planeta degradado.