segunda-feira, 3 de junho de 2019

CRÓNICAS DO VALE Cap. 91



A Isabel mostra o seu valor

Os dois “engenheiros de couves e árvores de lenha e fruto” compareceram à hora marcada. Tão pontuais, ou melhor, melhor do que os autênticos relógios suíços, comprados na loja do chinês, onde aliás os p.v.p., não tem parado de altear. De facto a relação qualidade/preço está a cair para manter o interesse da clientela, ávida de falsas pechinchas.

Eu estive e mantive-me, em segundo plano; mas bem visível e dando a entender que podia entrar em cena caso as conversas derivassem e a Isabel desse sinal de carecer de apoio. Não foi necessário. A empresária mostrou a sua capacidade de gestora e até ter uma dialéctica eficaz para dar a volta ao texto.

Logo de início agradeceu aos neófitos, mas encanudados, o muito que lhe mostraram que ela ignorava, e igualmente que lhe deixaram plena convicção de que sempre agiram zelando os seus (da Isabel ?) interesses. Ela é que se culpou de ter agido e continuado a manter ao lume um projecto para o qual não tinha capacidade, e nem sequer tempo disponível, pois já estava em risco de descuidar os seus anteriores negócios. Que estes sim se mantiveram sempre em actividades onde se sentia firme, conhecedora em profundidade.

Que teve largas horas de insónia, culpando-se de insensatez e de que, sem se aperceber, estava caindo num abismo que, sem duvida seria fatal. Recordava o ditado que alerta ao sapateiro que queria tocar rabecão. Dos dois, o filho da Dona Eudócia, sua cliente no salão da Vila, sabe através das conversas anteriores com a sua mãe. que eu, Isabel, era incapaz de manter vivo nem sequer um manjerico envasado, que comprasse nos Santos Populares. Nenhum chegou a se mostrar verde e cheiroso a meados de Julho.

Avançando continuou com os motivos que a levaram a lhes pedir que comparecessem a esta reunião de trabalho. Que os convocou, e quis que o meu marido assistisse, na previsão de assumir o seu “mea culpa”, e também para lhes pedir que a ajudassem no propósito de practicamente anular, desistir do seu projecto, indefinido, de montar uma estufa multi-funcional. 

Se for possível aproveitar um espaço fechado com área entre 15 e 20 metros quadrados, onde eu possa brincar, esporadicamente, com algumas begónias, orquídeas e plantas da Madeira, ou de zonas ainda mais tropicais, que não conseguem aguentar o inverno nesta latitude, nem sequer dentro de casa, eu sentir-me ia feliz.

A preocupação de me meter num campo totalmente desconhecido, com risco de cair e partir os dentes, obriga-me a vos pedir que me ajudem a recuar. Não sei como, mas temos aqui materiais e equipamento ainda por instalar e outro já encomendado. Será que se conseguiria desviar estes materiais, que certamente são modulados e de série, para outros projectos, mais sensatos? Seja como for tenho que dar andamento ao que já está e que exceda a nova dimensão. Mesmo que isso me vá causar prejuízos monetários. Já se sabe que em negócios, e mais quando não se conhecem os riscos, é muito provável ter prejuízos. Mas temos que os minimizar...

A Isabel não esqueceu de referir que sabia ser devedora de trabalho pessoal da equipa formada pelos dois colegas, e que não queria ficar com o estigma de caloteira, por fugir de responsabilidades. Sem implicar outros compromissos, façam as vossas contas e apresentem-nos, que cá, o casal, somos gente séria.

Os jovens profissionais, encararam a situação com seriedade e garantiram que fariam o possível, e até mais, para conseguir eliminar a preocupação que a Dona Isabel lhes fez sabedores. Que não se preocupasse neste momento. Quando tivessem a matéria estudada, e vissem como se podia atender o que nos parece, de facto ser razoável, e por isso não se sentir capazes de contrariar, por saber que tem razão. Afirmaram que também eles se deixaram entusiasmar, avançando para um nível quase profissional que, de facto, hoje admitem não ser compatível com a sua experiência e menos com os seus negócios pessoais, que domina desde bastantes anos. Concluíram pedindo desculpa por não avaliarem a realidade do mini projecto a nível de dona de casa, que a Dona Isabel tinha sonhado e foi incapaz de definir, por inexperiência.

A Isabel fechou a entrevista insistindo em que não queria prejudicar a dedicação e o trabalho da equipa, e que estava disposta a servir de referência para novos clientes, caso entendessem que lhes seria válida a sua opinião, inequivocamente positiva. Despediram-se com a certeza de que não abandonavam a “cliente” mas que tudo fariam para adaptar às novas orientações. E até breve. Certamente que dentro de dez a quinze dias, poderiam trazer boas notícias.

Da minha lavra só colaborei como um santo de gesso na peanha. Os leves sorrisos, intercalados com cara séria, devem ter servido para pano de fundo para esta peça de teatro da vida. É de sábios ter a noção de que se deve recuar antes de o desastre desabar. E nem sequer tive que fazer uma campanha elucidativa para avisar a Isabel. Ela me disse que alguns olhares meus, sem palavras, a seco, a alertaram para o futuro que eu já devia ter previsto quando os “rapazes” começaram a desbobinar o que tinham estudado na escola. E é que entre a teoria e a prática, especialmente quando entra em risco o capital próprio, pode existir um abismo.

....

Enquanto um dos meus ouvidos estava ligado à reunião sobre o futuro do projecto de estufa para plantas exóticas ou eróticas, a outra metade do meu cérebro decidiu torpedear a fantasia que, impulsivamente, instalei no espírito do Doutor Cardoso.

Além de admitir que eu não tenho unhas para um negócio daquela envergadura, isso não implica que considere ser um disparate e que existem empresas multi-funções do género do que imaginamos. Mas será que em Portugal temos um sector, potencial, de clientes, que aguentassem uma complexidade deste calibre? Até pode ser que o Cardoso consiga entusiasmar capitalistas do Norte ansiosos de diversificar a sua carteira. Conhecemos a carreira ascendente do recentemente falecido que se fez dono de uma fábrica de “serradurite” e terminou numa diversidade de negócios, desde alimentação a electrodomésticos e equipamento de informática, desporto e outros sectores que nem todos podem listar.

Vendo as coisas com ar profissional não sinto que fosse uma loucura, uma insensatez, o criar uma sociedade anónima que conseguisse travar, em seco, a obra que está em curso naquela mansão, precisamente porque se desconhece o seu propósito. Nada vimos em revistas ou jornais que nos orientasse neste sentido. Só imaginamos, com risco elevado de não passar de especulações sem sentido.reconheço ser pessoa prolifera em projectos, a maior parte deles utópicos para as minhas capacidades e aceitação de riscos.

Tampouco me sinto com coragem de dizer ao Cardoso que eu salto para fora da carroça, mas sim que os capitais estão practicamente todos comprometidos, com graus de risco mais ou menos conhecidos e aceitáveis. Que enfiar com projecto da envergadura que, despudoradamente imaginamos, implicaria além de avultadas despesas em obras, o conseguir obter as licenças exigidas, com os custos “colaterais” inevitáveis que lhes são intrínsecos. Conseguir a colaboração de gente conhecedora dos assuntos. E aguentar com uma máquina burocrática própria com custos sempre ascendentes. Imagino que seria indispensável criar uma máquina publicitária, insistente e com características especiais, para promover o interesse entre nacionais e estrangeiros. Assim como na Suiça contam com num número de forasteiros que para lá se dirigem a fim de terminar os seus dias de um modo menos sofredor.

Quanto ao financiamento, que não seria de uns meros milhões de euros, todos conhecemos, ou ouvimos referir, de expertos em gastar dinheiros da União Europeia em projectos que, por vezes, não saem das fundações, e tudo fica no silêncio dos compadres. E ninguém exige contas das enormes verbas que se sumiram, ou melhor, que foram parar a locais e bolsos propositadamente “indefinidos”. Eu sei e cometi algumas trafulhices, mas todas de pouca monta e sempre apoiado em indefinições legais. Mas isso não me dá calo para entrar em cavalarias altas. E nem sei se a minha mente fértil pode ser valorizada como “consultor”


Na próxima entrega estão previstas algumas respostas ao que se perguntou.

domingo, 2 de junho de 2019

CRÓNICAS DO VALE - Cap. 90



Um encontro conspiratório ?

Já na terça feira

- Bom dia Dr. Cardoso, parece que chegamos ambos na hora marcada. Estamos de parabéns, coisa rara no nosso meio, onde o hábito é chegar sempre com atraso. Dizem que n ão nos respeitamos se comparecermos na hora marcada! Coisas de burrice congénita e de falta de respeito perante os outros. Mas vejo que está bem disposto, embora com o semblante sério. Aconteceu algum contratempo? Uma doença, acidente. Ou coisa semelhante? Espero que não.

- Nada de especial. Simplesmente andei a meditar sobre o assunto que nos incitou a nos juntar e, quantas mais voltas lhe dou, continuo a não ver as coisas claras. Antes pelo contrário. Possivelmente uma segunda feira não é a altura propícia para tentar abrir gavetas, mas alguma coisa podia ter transpirado sem eu ligar. De facto são vários os dossiers que tenho na minha mesa, e cada um deles com um carimbo de urgente, mesmo aqueles, que são a maioria, que tratam de assuntos de lana caprina, mas que fazem perder tempo. Não podemos negar que sempre foi difícil por a trabalhar as engrenagens da rotina numa segunda feira, depois de um sábado e domingo descansados.

Seja como for e aceitando que podemos estar enganados, de estar “sonhando com ladrões”. Eu dei corda aos sapatos do pessoal que temos em campo para que procurassem, em primeiro lugar, quem estava de facto por trás da compra daquela propriedade “assombrada” ou mal afamada por sucessos recentes que causaram alarme. Nada, até o momento nada.

E mesmo assim receio que por trás da empresa fantasma, a tal sediada num ilha, ou numa simples caixa postal, multi-usos, e atendida por um sujeito sentado numa secretária, num escritório diminuto dos muitos que dizem existir nestas paragens do Caribe, e que só se encarregam de receber e reenviar mensagens e documentos. Desconfio que por trás do pano estará um, ou até mais do que um, dos passarões que os nossos serviços identificaram em consequência da leviandade com que os esbirros, em quem confiaram. Uns e outros foram excessivamente incautos.

Não sou de apostas. Mas desta feita recordo uma história que se contava entre estudantes acerca dos despiques dos pais, sentados nas mesas do café da terra, o dos senhores. Ali, entre cafés, charutos e copos de brandy espanhol, cada um deles queria alardear dos conhecimentos que o seu respectivo filho já tinha alcançado na faculdade. Aquele dia no meio do grupo de paternidades se encontrava um dos filhos ”estudantes”, devidamente mascarado com capa e batina. O pai, tentava ver sinais de apoio vindos do seu herdeiro, mas este permanecia mudo, quedo, estático; até que a conversa foi parar para a gulodice. Qual dos filhos seria capaz de comer, de uma assentada, duas dúzias ou mais de pastéis de nata? O estudante presente chegou-se ao ouvido do pai e lhe disse: Pai, aposte em mim, e alto! Pois garanto que nesta ganha!

Pois eu apostaria em que, por enquanto, o negócio que devem ter em olho para aquele local deve estar entre elementos do tal grupo. O que não impediria que, tal como o Maragato alvitrou, depois não se juntem a forasteiros, possivelmente americanos, com risco de estarem ligados a alguma das máfias do jogo e da droga. E eu, como português ainda patriota, não me agrada esta possibilidade. Mesmo que aceite o facto de estamos longe de garantir que aquela montagem especulativa possa ser concretizada.

E mais digo, antes de lhe dar a palavra, sei, documentalmente, que na organização daquelas festanças, que deram em torturas e até mortes, havia elementos graúdos do clero. Eles bem avisam com aquilo de que “a carne é fraca...”, uma desculpa que lhes serve como um anel de casamento, mesmo com voto de celibato. Pois bem, apesar de me ter avisado de que aquela montagem mental que nos ofereceu não tinha uns alicerces onde se apoiar, eu senti que a estrutura imaginada estava longe de ser absurda.

Acrescento o facto de que, apesar de estar na lista dos católicos, eu não sou crente, e muito menos cego perante as faltas de carácter social e económico que a estrutura eclesiástica cometeu, comete e cometerá. Mas, apesar de todo isto, e respeitando a ignorância em que está a nossa população, especialmente as camadas mais incultas, -e os cultos seguem na procissão por interesse, seja terrena ou imaginando para uma eternidade beatífica-. Pois, apesar de todas as minhas reticências, não me agradaria que este nosso pesadelo -pois que ultrapassa o ser um sonho- se convertesse em realidade, sem que se respeitasse a tradição do nosso povo.

Pondo as coisas de um modo mais explícito. Pensei em pedir uma audiência, não oficial, ao Bispo do Porto, na qual me agradaria que me acompanhasse, para lhe expor o perigo de que um credo com base fora de Portugal, tomasse conta de uma capela mortuária, caso os nossos temores se fundamentassem. Seria uma jogada de antecipação, pois se as coisas seguissem aquele rumo que imaginamos, mais tarde ou mais cedo, ele seria informado. Mas em “segredo de confissão”, ou seja, confidencialmente. Se nós nos adiantássemos já teriam que modular as coisas de forma a serem mais aceitáveis.

Termino com o esquema, atrevido, que eu penso apresentar ao Bispo como ente responsável neste domínio. Sugerir que na previsão de ali se instalar um aparente centro de repouso para geriatas, mas que de facto seria uma porta camuflada para o dia em que a morte assistida estivesse legalizada, a “nossa igreja católica” devia promover, quase que exigir, que o local onde se realizassem as exéquias, digamos a capela mortuária, estivesse aberta a ser usada por qualquer credo, sem excepção. Ou seja, não ser exclusivo do catolicismo. Claro que não antevemos que se autorizassem, por enquanto, cremações públicas nas margens do Mondego, do Vouga, do Minho ou Tejo, como um Benarés europeu.

Como o amigo José Maragato ouviu, eu fermentei na sua exposição. E gostaria de conhecer os seus comentários.

- Pois eu, depois de o ouvir atentamente, tenho medo de mim mesmo, ou de nós. O mais certo é que estejamos colocando a carroça à frente dos bois, mas também podemos acreditar no que é comum nos negócios: O que bate primeiro bate duas vezes. E mesmo que o negócio previsto não passe de um delírio meu, uma especulação sem bases reais, não deixam de existir precedentes na Europa, e a tal funerária que, sem conhecimentos concretos, referi, só por aquilo de emprenhar de ouvido, poderia ser uma testa de ponte.

Pela minha parte estou aguardando notícias tanto das pesquisas em cartórios como em empreiteiros e até gentes de trabalho. Creio que o mais tardar na quinta-feira terei algumas respostas. Entretanto, caso a entrevista com o Sr. Bispo, Dom “Não recordo o nome”, se concretizar terei todo o prazer, também como não crente (é possível que “ele” também não seja crente convicto. Coisas mais estranhas se tem visto, ou inesperadas, porque de bizarrices...está o mundo cheio) em o poder acompanhar, e ajudar se ficasse atrapalhado, pois para inventar eu sou um alho.


No próximo capítulo terei que referir em que pé ficou a Isabel com os técnicos do projecto de estufa.


sábado, 1 de junho de 2019

MEDITAÇÕES- Como valorizamos a UE


 ACERCA DAS ELEIÇÕES PARA O PARLAMENTO EUROPEU

Admito que nem sempre votei nas Eleições Europeias, e que a minha adversão tinha, e tem, dois vectores importantes, pelo menos a meu ver. Nada daquela frase parva de “pela minha óptica”, pois que nenhuma das aceitações que figuram no dicionário da língua portuguesa dá como válida que, também entre outras, corresponda à ponderação pessoal sobre algum tema. Eu, no intuito de denegrir (sem ofender) o uso deste termo como base de opinião, digo, sempre, que eu não posso partilhar pela simples razão de que não sou dono de uma loja de lentes e óculos.

Retomando o fio da meada, já que mais uma vez, me desviei do tema que pretendia expor. Sinto, baseado no meu desconhecimento, que o organismo UE. Se converteu numa enorme burocracia, que custa muito dinheiro e perde muitas energias dos membros que compõem este aglomerado, que se diz estar em vias de desagregação. Aceito quer se tomaram decisões acertadas, mas que, felizmente, os cidadãos dos países membros desconhecem muitas das burrices cometidas, dos compadrios, das preferências injustificadas e, possivelmente, das fraudes que sob a sua bandeira poli-estrelada e do seu papel timbrado tenham tido a porta aberta. Os humanos são useiros e vezeiros em cair na tentação de meter a mão na gaveta. Quem lida com mel, sempre lambe os dedos.

Além das desconfianças, quase inevitáveis, temos que os problemas caseiros sempre condicionam, ou deturpam, o voto que devia ser exclusivamente europeísta. E a propagando eleitoral pecou, precisamente, por ser excessivamente de carácter nacional. Ofereci o meu voto mais por sentido de eficiência nacional do que por uma visão multinacional, abrangente portanto. Mas já foi.

Posteriormente dediquei mais atenção aos pretensos programas dos concorrentes. E digo pretensos porque não os considerei à altura das que pretendiam ser as suas responsabilidades. Ou seja, nem os cabeças de lista, mais os comentadores "esclarecidos", conseguiam livrar-se da pressão interna de nacionalismo bacoco. Mesmo assim, e sem que eu tivesse contribuído para tal, uma parte do eleitorado activo apoiou o grupo menos egoísta, patrioteiro, exclusivista. E que certamente por alguns prever que poderia destacar-se entre os pequenos, foi alvo de uma campanha insidiosa. Mesmo que se saiba, pela evidencia manifesta, de que o Partido Verde é uma filial do PCP, nada nos garante, nem nega, da possibilidade de que exista a vontade de algum dos partidos de centro ou da direita de tomarem o comando do PAN, que foi uma revelação a sua entrada no Parlamento Europeu, não só pelo discurso dos seus dirigentes  -poucos- mas porque a noção do desastre ambiental já se fixou em muitos europeus.

Dei o meu voto ao PAN, com a fé de que os seus princípios pró recuperação do ambiente terrestre sejam levados a sério, em oposição à forma  desinteressada  com que continuamos e colaboramos em estragar o planeta. O facto de que na sua proclama refiram, denunciem mesmo, a forma como se eliminam, constantemente, espécies animais, que são nossos companheiros de planeta e até parceiros na nossa cadeia evolutiva, em vez de se levar seriamente, como é evidente para quem se entretenha a pensar, nos devia causar uma repulsa aguda, e colocar o PAN no lugar cimeiro das nossas preocupações. O planeta, nossa casa e única possibilidade de sobrevivência, exige que os cidadãos eleitores, abdiquem dos seus preconceitos partidários e pensem de uma forma mais global.

Promover a desacreditação da poluição dos mares, rios e até montanhas e vales, usando como argumento que estes partidários do simbólico verde, se oporem à lide de toiros, desvalorizando o seu mérito marialvista, é uma mostra de ignorância só comparável ao da banal citação de pretender tapar o sol com uma peneira.

O facto de ser compreensível é louvável lutar pelo bem de terceiros, apesar de que os resultados possam reflectir-se em nós, temos que entender que existem acções que deixamos acontecer, sem reagir, e que prejudicam a toda a humanidade, e até aos que nos seguirão caso a vida na terra continuar a ser possível, mesmo que num planeta degradado.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

CRÓNICAS DO VALE – Cap. 89


Em Coimbra

Existiam temas para tratar nesta cidade, mas a eles se juntaram os que, inesperadamente, surgiram quando nos encontramos defronte às obras de restauro? ou de adaptação? daquele casarão que nos afectou durante semanas e meses. Mas o que me incitou a marcar pousada no Hotel Avenida foi uma questão pessoal. Além de que os dois temos as nossas recordações de estadias neste local, queria poder ter alguma distância física entre o assunto que temos que definir e o próprio local.

- José, meu querido, estando tão perto de casa e o dia ainda ter muitas horas de sol pela frente, como é que te caprichaste para esta escala? É que mais parece um engate de adultério do que um motivo sério.

- Se o estar na “nossa suite de canto”, virada para o largo da portagem e com vista para o bazófias, te provoca calafrios de transgressão, fico feliz por isso. E espero que antes de ir para a rua, e apreciar a circulação de forasteiros, mais ou menos desorientados, nós podemos ter um bocado de descanso ao nível da picaresca. Para já, e antes de nos lançar nas pouca-vergonhas, proponho que baixemos as persianas e procuremos dormir uma sesta entre irmãos, ou seja, sem dar azo a aquecimentos. Para já eu vou tomar um duche, reparador, e, depois de enxuto, vestir estes boxers como prova de que não pretendo transgredir.

-Pois eu vou a seguir, sem boxers, mas vestirei umas cuecas de gola alta, especiais para desanimar até o Senhor Cura mais afoito.
..

- Mas que agradável soneca! Nem dei pelas horas passarem, nem por ter tirado a minha peça de roupa. O que aconteceu? Será que me deu uma crise de sonambulismo e ataquei a minha companheira de leito sem sequer proferir umas palavras ternurentas? A rigidez do meu aparelho reprodutor não me esclarece de ter descarregado minutos atrás. Tu sabes se neste intervalo de inconsciência fui capaz de alguma mal feitoria?

~ Zé, escusas de estar descansado ou preocupado. Cumpriste a tua função como um “carvalhelhos”, e sabendo, como sabes, que és capaz de bisar sem desligar… Mas será que ainda estás com vontade de festa rija, Maria Botija? O melhor é deixar alguma coisa para depois de jantar, se bem que pelo que me diz respeito só queria uma coisa mesmo leve, do estilo de uma omelete mal passada com uns camarões no interior. Quiçá uma pequena tigela de caldo verde enquanto se aguarda e depois, se o estômago ou a gula assim o pedirem uma sobremesa cremosa.

Ontem disseste, sem usar palavras de cartório notarial, que hoje pretendias combinar, com tranquilidade e vagar, a forma como iríamos, em dueto, mas ficando tu mais mudo e sério do que participante activo, na conversa séria que tinha marcado com o filho da cliente do salão. Aquele diplomado em couves e cravos que me ilustrou, a seu gosto, na minha aventura de "estufadora" amadora.

- De facto eu tinha este propósito. Pensei bastante no tipo de conversa que devias ter. Mas depois de algumas trocas de impressões que sobre o tema já tivemos, fiquei convencido de que tu sabes bem como tens que orientar a mudança de planos. Mostraste estares ciente de que aquilo que te propunham carecia de um investimento pesado, com poucas, ou mesmo nenhumas, possibilidades de retorno, e que com muito menos, com a ajuda do nosso caseiro, e a vontade que mostraram as senhoras da casa em te ajudar, seria mais do que suficiente para brincar em floricultora e horticultora mesmo nos meses agressivos. Ter algumas plantas de flor, mesmo das que carecem de resguardo no inverno, mais os pais pés de salsa, meia dúzia de alfaces e outros mimos que gostamos de ter por perto sem ir à loja. Que mais do que isso não seria compatível com os teus negócios pessoais, dos quais, tenho que confessar, a minha presença te tem afastado demasiado. Tens que voltar ao leme antes que seja tarde.

Resumindo, estarei presente ao teu lado, e com cara séria, e obviamente apoiarei o que decidires. Em compensação tu poderás retomar a atenção não só aos teus salões mas retomar o projecto do outro que já tinhas mais ou menos alinhavado. A lida da casa já verificaste que com a Idalina, como governanta experiente e eficaz, funciona sem necessidade de estares permanentemente presente. Eu até sou apologista de que, apesar de manter um controle atento, devemos deixar os bons elementos com liberdade para decidir. Com nosso comando!

E eu, pelo meu lado, já te contei que o Cardoso me convocou para um encontro, amanhã ou na terça. Em local e hora que não sei, para avançar ou rejeitar por inalcançável ou despropositado, um projecto que nos surgiu defronte do casarão em obras. Veremos se a ideia se pode centrar naquele local ou noutro ainda mais idóneo. Por enquanto são só uns sonhos. Não digo que com ou sem fundamento, mas que sei já se terem concretizado na vizinha Espanha. A influência dos ianques não se fica nos McDonald e similares já foram concretizados. Pode ser uma perda de tempo. Fazendo uma intensa campanha publicitária são capazes de nos imbuir coisas que nunca nos passaram pela cabeça.

Se o que nós intuímos ontem tiver pernas para andar, não será interessante só pelo dinheiro, mas também pode ser o germe dum negócio quase que garantido, mas preferir que ficasse nas mãos de nacionais e não de colonizadores capitalistas.

Mudando de rumo, houve mais uma coisa que se acendeu na minha cabeça. Sinto que deixei passar demasiado tempo sem ter contacto directo com os meus filhos, ou nossos depois de legitimar a nossa união no cartório, de papel passado como dizem os brasileiros, de ficares com a categoria de madrasta-madrinha-mãe suplente. Tenho que combinar com eles, juntos ou separados, um encontro, seja em Lisboa ou até fora de portas. Que te parece se fossemos juntos a Sevilha, Madrid, Barcelona ou Paris? Sem descartar outro destino considerado interessante. Os aviões e as marcações pela internet nos colocam noutra cidade sem problemas.

E agora vamos cear qualquer coisa. Se virmos que nesta grande aldeia há alguma fita em cartaz que nos desperte a atenção, entraremos. E em caso de contrário e se queres regressar a casa, eu faço contas na recepção e abalamos num táxi até Vale do Pito. Mas antes, como disse, temos que reabastecer.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

MEDITAÇÕES – Incongruências




Para quem tenha, como eu, uma mente bloqueada e uns ouvidos falheiros, além da visão conspurcada por um derrame sanguíneo interno, torna-se difícil de entender o facto de que, ao mesmo tempo que soam alarmes à direita, à esquerda, por cima e por baixo (até no fundo da fossa das Marianas!) sobre a poluição que nos está a afundar, -com a ajuda de todos nós, mesmo aqueles que, por não encontrar alternativas, colaboramos passivamente- surjam, como cogumelos em primavera chuvosa, comentários apontando como ser uma insensatez, um erro, o apoiar qualquer partido menor que use, a seu proveito, o ser respeitador da natureza.

O facto, comprovado e evidente, de que OS VERDES seja uma filial do PCP e que o PAN, por sua vez, seja denunciado como ser um filho canhestro, ou pseudo contestatário, do espectro centrista ou direitista deste Portugal que nos acolhe, não obsta a que se devam apreciar as suas tentativas, ou simples intenções, de chamar a atenção da cidadania em geral para o desastre ecológico que entrou em progressão acelerada nas últimas décadas.

Não se pode negar que o homem, que se ungiu a si mesmo como rei da natureza, tal como fez Napoleão com a coroa de Imperador, fez uma fraca figura ao criar esta dinastia global. Pelo menos, o anterior rei, o tal Rei Leão, não faz outra coisa do que tratar da sua sobrevivência, utilizando os meios próprios que a evolução lhe deu. Pelo contrário, o reinado do Homem tem-se pautado, desde muito cedo, por um desrespeito quase que constante e geral pela natureza que o sustenta. De facto, podemos concluir que a humanidade em geral é constituída por um lato conjunto de imbecis.

Também não deixa de ser curioso que, nesta fase de acelerada alteração do conhecimento, nomeadamente pela influência da informática, aceitemos que as novíssimas gerações tem acesso a temas que anteriormente lhes estavam vedados, ou restringidos. Mesmo que, com uma certa dose de pragmatismo, se admitir que o avançar, desalmadamente, num certo sentido, seja ele qual for, vai deixar ficar para trás, e até pode ser que irremediavelmente, outros campos de conhecimento que se consideravam de suma importância.

O parágrafo imediatamente anterior pretende servir de introdução à ideia de que não é de desprezar o facto de que tenham surgido jovens, mesmo adolescentes, que alertados pelo que lhes chega do exterior, decidissem ser activistas e promotores do respeito para a natureza. Entre os adultos uns podem apoiar as tentativas da juventude em travar ou recuperar o eco-sistema que está em perda. Outros, até pais e avós de família, desprezam o atrevimento destas, segundo eles, ainda crianças, incapazes de poder avaliar e agir com eficácia. E se por um lado verificam como estão habilitados em campos que, para os progenitores, lhes causam complexos de não dominarem, por outro lado lhes negam o terem avançado precisamente nestes domínios tão recentes. E que a geração da tablet os utilize com uma rapidez e eficiência que até os deixa envergonhados.

CRÓNICAS DO VALE - Cap. 88



Já deglutido o almoço

Tal como ficou anteriormente registado o grupo de dois casais foi direito a um local conhecido e recomendado pelo Dr. Sílvio Cardoso. E que não identifico para o manter em reserva especial. Alem de mostrar um ementa, reduzida, mas excelentemente seleccionada, também é de salientar e agradecer o facto que não ser permitida a entrada daqueles grupos, muito maçadores, de fulanos envergando capas e batinas, eles e elas, e que fazendo barulho com instrumentos portáteis, cantavam traduções em portunhol, tais como “cravinhos”. Como se isso não bastasse para estragar a digestão de quem não os chamou, é habitual fazerem saltos e trejeitos bastante apalhaçados. Só por esta rejeição a ser invadido, merece o local muitas estrelas.

Tampouco darei as receitas da ementa. Só direi que apesar de manter um respeito assinalável pela gastronomia nacional clássica, os apontamentos de modernidade, que o chefe considerou aceitáveis, não colidiram com o nome, quase secular, dos pratos, assim como se notou o evitaram as repelentes riscas coloridas a que muitos cozinheiros aderiram, creio que com o intuito de se mostrar “a la page”.

Foi um repasto agradável e sem pressas. Ultrapassada a fase das sobremesas e cafés, quando as esposas se dirigiram, em tropel de duas, às casas de banho, o Dr Cardoso, quase que em surdina, me disse que depois do que eu apresentei quando estávamos de fronte da casa dos festejos eróticos, e não só, ficou interessado pelas perspectivas que eu tinha apresentado, mas também inquieto, ou alertado negativamente, com o alarme que lhes mostrei. Dai que me propunha um encontro a duo, em data próxima e em local e hora que ele se encarregaria de definir: possivelmente na próxima segunda ou terça feira.

- Tanta pressa?

- E pode ser que já seja tarde. Esta noite porei em andamento alguns colaboradores de Coimbra, que sempre foram dedicados e eficientes, para ver de descobrir quem é que está por trás destas obras. Temos que malhar quando o ferro está bem quente.

É questão de entrar nas conservatórias e puxar de cordelinhos, e nos estúdios de engenharia, e na Câmara Municipal a que pertence aquele local. Pois que pouco ou muito tem que se ter deixado para justificar as obras. Os membros da Judiciária temos porta aberta, e sem perguntas, em todos os gabinetes e repartições.

- Pois, ao Cardoso posso garantir que aquela discursata que lhes dei não tinha sido meditada. Foi saindo espontâneamente, por si mesma. As palavras e pensamentos vieram agarrados como as cerejas. E quanto mais avançava naquela hipótese bizarra, também eu ficava paulatinamente mais preocupado.
As damas devem estar a chegar. É melhor mudar de assunto - disfarçar e assobiar- pois sabe que as mulheres tem um faro muito apurado para sarilhos. Ficamos como disse. Entretanto eu também farei umas pesquisas, que dificilmente darão um resultado imediato.
    ......

Nessa mesma tarde e princípio da noite.

Boa tarde Carlos Costa. Sou o Maragato. Desde já lhe peço que desculpe o meu atrevimento em o procurar para um assunto profissional, sendo hoje um dia de dedicação à família. Podia falar nisso amanhã, mas sei que terei uma segunda feira muito ocupada.

Não se preocupe com estes pruridos. Diga-me em que tenho alguma possibilidade de lhe ser útil.

- Certamente recorda o problema, desagradável e potencialmente perigoso, em que me meteram ao colocar uns mortos, assassinados, num meu terreno em Vale do Pito? Pois estes mortos vieram, já bem defuntos, desde um solar, bem grande, lá pelas bandas do Buçaco. É uma história feia que mexeu com personagens da Alta Roda, e da ralé, que são os encarregados de efectuar as porcarias. O solar ficou uns meses vazio e sem uso, mas agora, de repente, vi que estava a sofrer obras de vulto.

E fiquei com curiosidade para saber quem está por trás desse empreendimento, e mais por o local ser muito conhecido, no meio rural e citadino, até nacional, por ali se terem efectuado vários crimes, entre eles, possivelmente, mais do que duas mortes violentas.
Eu fui apanhado de tabela, ou de propósito. Mas fiquei intrigado. E sempre desconfiei de causalidades. Ao ver aquele movimento de andaimes, gruas e pessoal, mais os barracões de obra. Era evidente que pretendiam lavar o passado do local.

Se, através dos seus conhecimentos, seja nos bancos ou no cartório de advogados e notários, conseguir uns elementos que me permitam tranquilizar, agradeço que me informa. Já sabe que o gato escaldado foge até da água fria, e eu estive em risco de apanhar um escaldão valente, que ainda me tira o sono em certas noites. Eu podia ter chegado mais ao pé das barracas da obra e com o telemóvel tirar uma fotografia daquele quadro branco identificativo que é obrigatório. Mas receiei ser reconhecido e, sem querer, levantar a lebre.

- Doutor Maragato, não se preocupe com isso. Terei todo o gosto de o poder ajudar. E não será difícil, pois conheço muita gente nas obras, desde empreiteiros, sub-empreiteiros, encarregados e até operários. E estes da parte inferior da escala não é raro que conheçam mais do que aparentam.
- Desde já agradeço a sua disponibilidade. E confio que este assunto não lhe estrague o resto do domingo.
....

Outros telefonemas, muito semelhantes, quase idênticos, tive com:
CHICO FAÍSCA. Um chefe de equipa de electricistas que sempre tem pessoal destacado em muitas obras.

MACÁRIO CORREIA. Um notário de Coimbra, muito capaz para desembrulhar assuntos obscuros. Trabalho com ele desde muitos anos.

VÍTOR MENESES, advogado de Coimbra, que foi meu colega durante o tempo em que frequentei a faculdade de Direito.

NELSON DE SOUSA, industrial de Ermesinde que é meu sócio nalguns negócios e empreendimentos.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

MEDITAÇÕES - Cinema


MEDITAÇÕES - Cinema

HOTEL MUMBAI

Ontem decidimos entrar numa sala de cinema. As opções não eram claramente para uma fita destacável. Seleccionamos, apesar de saber que o tema era tudo menos agradável e descontraído, aquele que relatava, dentro dos esquemas da ficção em cinema, um brutal atentado acontecido em Bombaim, India. Mais concretamente ficou centrado num dos pontos da cidade que foram alvo de ataques indiscriminados. O tema era o TERRORISMO.

Mas aquilo que mais se salientou é, mais uma vez, o inaceitável fanatismo que converte em inimigos fidegais membros de diferentes credos religiosos. Neste caso os terroristas pertenciam a uma célula de muçulmanos paquistanis, enquadrados por um “orientador,” sempre afastado do local das acções com esquema militar, para manter os activistas bem pressionados e adictos a causar muitas mortes indiscriminadamente. Mantinha ao seus destacamentos num controle constante. A palavra de ordem era que aqueles civis que não fossem muçulmanos mereciam a morte; e se entre as vítimas houvesse quem fosse muçulmano, seria uma vítima colateral, aceite de imediato no seio dos bem.vindos.

Para quem rejeite, liminarmente, que as crenças ou credos religiosos possam justificar a agressividade criminosa sobre aqueles que não sejam adeptos da sua seita, a única e importante mensagem do filme é a de não aderir, ou repudiar públicamente, os males que qualquer credo religioso pode causar através dos seus fanáticos activistas.

Não só se deve confirmar a frase revolucionária de que A RELIGIÃO É O ÓPIO DO POVO, como também como um potencial veneno, que já muito contribuiu para massacres de gente inocente, incluídos os fanáticos de campo oposto.

No mundo ocidental onde convivemos -seja muito ou pouco- mas ao qual sem dúvida pertencemos, sentimos que, por enquanto, não temos ameaças concretas entre os grupos com variantes do credo; mas isso não nos pode dar nem sequer um mínimo de garantias de não vir a ser alvo de gente fanática. Se não for hoje pode ser num amanhâ não definido.

Para já sentem-se os rumores da pressão da facção mais conservadora do cristianismo, católico em especial, perante as tentativas de contemporização da Igreja Católica, e ter como alvo concreto o actual Papa Francisco (mas de facto jesuíta). Sem esquecer que também entre os judeus existem os bandos ortodoxos e modernistas, inimigos potenciais.