sábado, 1 de junho de 2019

MEDITAÇÕES- Como valorizamos a UE


 ACERCA DAS ELEIÇÕES PARA O PARLAMENTO EUROPEU

Admito que nem sempre votei nas Eleições Europeias, e que a minha adversão tinha, e tem, dois vectores importantes, pelo menos a meu ver. Nada daquela frase parva de “pela minha óptica”, pois que nenhuma das aceitações que figuram no dicionário da língua portuguesa dá como válida que, também entre outras, corresponda à ponderação pessoal sobre algum tema. Eu, no intuito de denegrir (sem ofender) o uso deste termo como base de opinião, digo, sempre, que eu não posso partilhar pela simples razão de que não sou dono de uma loja de lentes e óculos.

Retomando o fio da meada, já que mais uma vez, me desviei do tema que pretendia expor. Sinto, baseado no meu desconhecimento, que o organismo UE. Se converteu numa enorme burocracia, que custa muito dinheiro e perde muitas energias dos membros que compõem este aglomerado, que se diz estar em vias de desagregação. Aceito quer se tomaram decisões acertadas, mas que, felizmente, os cidadãos dos países membros desconhecem muitas das burrices cometidas, dos compadrios, das preferências injustificadas e, possivelmente, das fraudes que sob a sua bandeira poli-estrelada e do seu papel timbrado tenham tido a porta aberta. Os humanos são useiros e vezeiros em cair na tentação de meter a mão na gaveta. Quem lida com mel, sempre lambe os dedos.

Além das desconfianças, quase inevitáveis, temos que os problemas caseiros sempre condicionam, ou deturpam, o voto que devia ser exclusivamente europeísta. E a propagando eleitoral pecou, precisamente, por ser excessivamente de carácter nacional. Ofereci o meu voto mais por sentido de eficiência nacional do que por uma visão multinacional, abrangente portanto. Mas já foi.

Posteriormente dediquei mais atenção aos pretensos programas dos concorrentes. E digo pretensos porque não os considerei à altura das que pretendiam ser as suas responsabilidades. Ou seja, nem os cabeças de lista, mais os comentadores "esclarecidos", conseguiam livrar-se da pressão interna de nacionalismo bacoco. Mesmo assim, e sem que eu tivesse contribuído para tal, uma parte do eleitorado activo apoiou o grupo menos egoísta, patrioteiro, exclusivista. E que certamente por alguns prever que poderia destacar-se entre os pequenos, foi alvo de uma campanha insidiosa. Mesmo que se saiba, pela evidencia manifesta, de que o Partido Verde é uma filial do PCP, nada nos garante, nem nega, da possibilidade de que exista a vontade de algum dos partidos de centro ou da direita de tomarem o comando do PAN, que foi uma revelação a sua entrada no Parlamento Europeu, não só pelo discurso dos seus dirigentes  -poucos- mas porque a noção do desastre ambiental já se fixou em muitos europeus.

Dei o meu voto ao PAN, com a fé de que os seus princípios pró recuperação do ambiente terrestre sejam levados a sério, em oposição à forma  desinteressada  com que continuamos e colaboramos em estragar o planeta. O facto de que na sua proclama refiram, denunciem mesmo, a forma como se eliminam, constantemente, espécies animais, que são nossos companheiros de planeta e até parceiros na nossa cadeia evolutiva, em vez de se levar seriamente, como é evidente para quem se entretenha a pensar, nos devia causar uma repulsa aguda, e colocar o PAN no lugar cimeiro das nossas preocupações. O planeta, nossa casa e única possibilidade de sobrevivência, exige que os cidadãos eleitores, abdiquem dos seus preconceitos partidários e pensem de uma forma mais global.

Promover a desacreditação da poluição dos mares, rios e até montanhas e vales, usando como argumento que estes partidários do simbólico verde, se oporem à lide de toiros, desvalorizando o seu mérito marialvista, é uma mostra de ignorância só comparável ao da banal citação de pretender tapar o sol com uma peneira.

O facto de ser compreensível é louvável lutar pelo bem de terceiros, apesar de que os resultados possam reflectir-se em nós, temos que entender que existem acções que deixamos acontecer, sem reagir, e que prejudicam a toda a humanidade, e até aos que nos seguirão caso a vida na terra continuar a ser possível, mesmo que num planeta degradado.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

CRÓNICAS DO VALE – Cap. 89


Em Coimbra

Existiam temas para tratar nesta cidade, mas a eles se juntaram os que, inesperadamente, surgiram quando nos encontramos defronte às obras de restauro? ou de adaptação? daquele casarão que nos afectou durante semanas e meses. Mas o que me incitou a marcar pousada no Hotel Avenida foi uma questão pessoal. Além de que os dois temos as nossas recordações de estadias neste local, queria poder ter alguma distância física entre o assunto que temos que definir e o próprio local.

- José, meu querido, estando tão perto de casa e o dia ainda ter muitas horas de sol pela frente, como é que te caprichaste para esta escala? É que mais parece um engate de adultério do que um motivo sério.

- Se o estar na “nossa suite de canto”, virada para o largo da portagem e com vista para o bazófias, te provoca calafrios de transgressão, fico feliz por isso. E espero que antes de ir para a rua, e apreciar a circulação de forasteiros, mais ou menos desorientados, nós podemos ter um bocado de descanso ao nível da picaresca. Para já, e antes de nos lançar nas pouca-vergonhas, proponho que baixemos as persianas e procuremos dormir uma sesta entre irmãos, ou seja, sem dar azo a aquecimentos. Para já eu vou tomar um duche, reparador, e, depois de enxuto, vestir estes boxers como prova de que não pretendo transgredir.

-Pois eu vou a seguir, sem boxers, mas vestirei umas cuecas de gola alta, especiais para desanimar até o Senhor Cura mais afoito.
..

- Mas que agradável soneca! Nem dei pelas horas passarem, nem por ter tirado a minha peça de roupa. O que aconteceu? Será que me deu uma crise de sonambulismo e ataquei a minha companheira de leito sem sequer proferir umas palavras ternurentas? A rigidez do meu aparelho reprodutor não me esclarece de ter descarregado minutos atrás. Tu sabes se neste intervalo de inconsciência fui capaz de alguma mal feitoria?

~ Zé, escusas de estar descansado ou preocupado. Cumpriste a tua função como um “carvalhelhos”, e sabendo, como sabes, que és capaz de bisar sem desligar… Mas será que ainda estás com vontade de festa rija, Maria Botija? O melhor é deixar alguma coisa para depois de jantar, se bem que pelo que me diz respeito só queria uma coisa mesmo leve, do estilo de uma omelete mal passada com uns camarões no interior. Quiçá uma pequena tigela de caldo verde enquanto se aguarda e depois, se o estômago ou a gula assim o pedirem uma sobremesa cremosa.

Ontem disseste, sem usar palavras de cartório notarial, que hoje pretendias combinar, com tranquilidade e vagar, a forma como iríamos, em dueto, mas ficando tu mais mudo e sério do que participante activo, na conversa séria que tinha marcado com o filho da cliente do salão. Aquele diplomado em couves e cravos que me ilustrou, a seu gosto, na minha aventura de "estufadora" amadora.

- De facto eu tinha este propósito. Pensei bastante no tipo de conversa que devias ter. Mas depois de algumas trocas de impressões que sobre o tema já tivemos, fiquei convencido de que tu sabes bem como tens que orientar a mudança de planos. Mostraste estares ciente de que aquilo que te propunham carecia de um investimento pesado, com poucas, ou mesmo nenhumas, possibilidades de retorno, e que com muito menos, com a ajuda do nosso caseiro, e a vontade que mostraram as senhoras da casa em te ajudar, seria mais do que suficiente para brincar em floricultora e horticultora mesmo nos meses agressivos. Ter algumas plantas de flor, mesmo das que carecem de resguardo no inverno, mais os pais pés de salsa, meia dúzia de alfaces e outros mimos que gostamos de ter por perto sem ir à loja. Que mais do que isso não seria compatível com os teus negócios pessoais, dos quais, tenho que confessar, a minha presença te tem afastado demasiado. Tens que voltar ao leme antes que seja tarde.

Resumindo, estarei presente ao teu lado, e com cara séria, e obviamente apoiarei o que decidires. Em compensação tu poderás retomar a atenção não só aos teus salões mas retomar o projecto do outro que já tinhas mais ou menos alinhavado. A lida da casa já verificaste que com a Idalina, como governanta experiente e eficaz, funciona sem necessidade de estares permanentemente presente. Eu até sou apologista de que, apesar de manter um controle atento, devemos deixar os bons elementos com liberdade para decidir. Com nosso comando!

E eu, pelo meu lado, já te contei que o Cardoso me convocou para um encontro, amanhã ou na terça. Em local e hora que não sei, para avançar ou rejeitar por inalcançável ou despropositado, um projecto que nos surgiu defronte do casarão em obras. Veremos se a ideia se pode centrar naquele local ou noutro ainda mais idóneo. Por enquanto são só uns sonhos. Não digo que com ou sem fundamento, mas que sei já se terem concretizado na vizinha Espanha. A influência dos ianques não se fica nos McDonald e similares já foram concretizados. Pode ser uma perda de tempo. Fazendo uma intensa campanha publicitária são capazes de nos imbuir coisas que nunca nos passaram pela cabeça.

Se o que nós intuímos ontem tiver pernas para andar, não será interessante só pelo dinheiro, mas também pode ser o germe dum negócio quase que garantido, mas preferir que ficasse nas mãos de nacionais e não de colonizadores capitalistas.

Mudando de rumo, houve mais uma coisa que se acendeu na minha cabeça. Sinto que deixei passar demasiado tempo sem ter contacto directo com os meus filhos, ou nossos depois de legitimar a nossa união no cartório, de papel passado como dizem os brasileiros, de ficares com a categoria de madrasta-madrinha-mãe suplente. Tenho que combinar com eles, juntos ou separados, um encontro, seja em Lisboa ou até fora de portas. Que te parece se fossemos juntos a Sevilha, Madrid, Barcelona ou Paris? Sem descartar outro destino considerado interessante. Os aviões e as marcações pela internet nos colocam noutra cidade sem problemas.

E agora vamos cear qualquer coisa. Se virmos que nesta grande aldeia há alguma fita em cartaz que nos desperte a atenção, entraremos. E em caso de contrário e se queres regressar a casa, eu faço contas na recepção e abalamos num táxi até Vale do Pito. Mas antes, como disse, temos que reabastecer.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

MEDITAÇÕES – Incongruências




Para quem tenha, como eu, uma mente bloqueada e uns ouvidos falheiros, além da visão conspurcada por um derrame sanguíneo interno, torna-se difícil de entender o facto de que, ao mesmo tempo que soam alarmes à direita, à esquerda, por cima e por baixo (até no fundo da fossa das Marianas!) sobre a poluição que nos está a afundar, -com a ajuda de todos nós, mesmo aqueles que, por não encontrar alternativas, colaboramos passivamente- surjam, como cogumelos em primavera chuvosa, comentários apontando como ser uma insensatez, um erro, o apoiar qualquer partido menor que use, a seu proveito, o ser respeitador da natureza.

O facto, comprovado e evidente, de que OS VERDES seja uma filial do PCP e que o PAN, por sua vez, seja denunciado como ser um filho canhestro, ou pseudo contestatário, do espectro centrista ou direitista deste Portugal que nos acolhe, não obsta a que se devam apreciar as suas tentativas, ou simples intenções, de chamar a atenção da cidadania em geral para o desastre ecológico que entrou em progressão acelerada nas últimas décadas.

Não se pode negar que o homem, que se ungiu a si mesmo como rei da natureza, tal como fez Napoleão com a coroa de Imperador, fez uma fraca figura ao criar esta dinastia global. Pelo menos, o anterior rei, o tal Rei Leão, não faz outra coisa do que tratar da sua sobrevivência, utilizando os meios próprios que a evolução lhe deu. Pelo contrário, o reinado do Homem tem-se pautado, desde muito cedo, por um desrespeito quase que constante e geral pela natureza que o sustenta. De facto, podemos concluir que a humanidade em geral é constituída por um lato conjunto de imbecis.

Também não deixa de ser curioso que, nesta fase de acelerada alteração do conhecimento, nomeadamente pela influência da informática, aceitemos que as novíssimas gerações tem acesso a temas que anteriormente lhes estavam vedados, ou restringidos. Mesmo que, com uma certa dose de pragmatismo, se admitir que o avançar, desalmadamente, num certo sentido, seja ele qual for, vai deixar ficar para trás, e até pode ser que irremediavelmente, outros campos de conhecimento que se consideravam de suma importância.

O parágrafo imediatamente anterior pretende servir de introdução à ideia de que não é de desprezar o facto de que tenham surgido jovens, mesmo adolescentes, que alertados pelo que lhes chega do exterior, decidissem ser activistas e promotores do respeito para a natureza. Entre os adultos uns podem apoiar as tentativas da juventude em travar ou recuperar o eco-sistema que está em perda. Outros, até pais e avós de família, desprezam o atrevimento destas, segundo eles, ainda crianças, incapazes de poder avaliar e agir com eficácia. E se por um lado verificam como estão habilitados em campos que, para os progenitores, lhes causam complexos de não dominarem, por outro lado lhes negam o terem avançado precisamente nestes domínios tão recentes. E que a geração da tablet os utilize com uma rapidez e eficiência que até os deixa envergonhados.

CRÓNICAS DO VALE - Cap. 88



Já deglutido o almoço

Tal como ficou anteriormente registado o grupo de dois casais foi direito a um local conhecido e recomendado pelo Dr. Sílvio Cardoso. E que não identifico para o manter em reserva especial. Alem de mostrar um ementa, reduzida, mas excelentemente seleccionada, também é de salientar e agradecer o facto que não ser permitida a entrada daqueles grupos, muito maçadores, de fulanos envergando capas e batinas, eles e elas, e que fazendo barulho com instrumentos portáteis, cantavam traduções em portunhol, tais como “cravinhos”. Como se isso não bastasse para estragar a digestão de quem não os chamou, é habitual fazerem saltos e trejeitos bastante apalhaçados. Só por esta rejeição a ser invadido, merece o local muitas estrelas.

Tampouco darei as receitas da ementa. Só direi que apesar de manter um respeito assinalável pela gastronomia nacional clássica, os apontamentos de modernidade, que o chefe considerou aceitáveis, não colidiram com o nome, quase secular, dos pratos, assim como se notou o evitaram as repelentes riscas coloridas a que muitos cozinheiros aderiram, creio que com o intuito de se mostrar “a la page”.

Foi um repasto agradável e sem pressas. Ultrapassada a fase das sobremesas e cafés, quando as esposas se dirigiram, em tropel de duas, às casas de banho, o Dr Cardoso, quase que em surdina, me disse que depois do que eu apresentei quando estávamos de fronte da casa dos festejos eróticos, e não só, ficou interessado pelas perspectivas que eu tinha apresentado, mas também inquieto, ou alertado negativamente, com o alarme que lhes mostrei. Dai que me propunha um encontro a duo, em data próxima e em local e hora que ele se encarregaria de definir: possivelmente na próxima segunda ou terça feira.

- Tanta pressa?

- E pode ser que já seja tarde. Esta noite porei em andamento alguns colaboradores de Coimbra, que sempre foram dedicados e eficientes, para ver de descobrir quem é que está por trás destas obras. Temos que malhar quando o ferro está bem quente.

É questão de entrar nas conservatórias e puxar de cordelinhos, e nos estúdios de engenharia, e na Câmara Municipal a que pertence aquele local. Pois que pouco ou muito tem que se ter deixado para justificar as obras. Os membros da Judiciária temos porta aberta, e sem perguntas, em todos os gabinetes e repartições.

- Pois, ao Cardoso posso garantir que aquela discursata que lhes dei não tinha sido meditada. Foi saindo espontâneamente, por si mesma. As palavras e pensamentos vieram agarrados como as cerejas. E quanto mais avançava naquela hipótese bizarra, também eu ficava paulatinamente mais preocupado.
As damas devem estar a chegar. É melhor mudar de assunto - disfarçar e assobiar- pois sabe que as mulheres tem um faro muito apurado para sarilhos. Ficamos como disse. Entretanto eu também farei umas pesquisas, que dificilmente darão um resultado imediato.
    ......

Nessa mesma tarde e princípio da noite.

Boa tarde Carlos Costa. Sou o Maragato. Desde já lhe peço que desculpe o meu atrevimento em o procurar para um assunto profissional, sendo hoje um dia de dedicação à família. Podia falar nisso amanhã, mas sei que terei uma segunda feira muito ocupada.

Não se preocupe com estes pruridos. Diga-me em que tenho alguma possibilidade de lhe ser útil.

- Certamente recorda o problema, desagradável e potencialmente perigoso, em que me meteram ao colocar uns mortos, assassinados, num meu terreno em Vale do Pito? Pois estes mortos vieram, já bem defuntos, desde um solar, bem grande, lá pelas bandas do Buçaco. É uma história feia que mexeu com personagens da Alta Roda, e da ralé, que são os encarregados de efectuar as porcarias. O solar ficou uns meses vazio e sem uso, mas agora, de repente, vi que estava a sofrer obras de vulto.

E fiquei com curiosidade para saber quem está por trás desse empreendimento, e mais por o local ser muito conhecido, no meio rural e citadino, até nacional, por ali se terem efectuado vários crimes, entre eles, possivelmente, mais do que duas mortes violentas.
Eu fui apanhado de tabela, ou de propósito. Mas fiquei intrigado. E sempre desconfiei de causalidades. Ao ver aquele movimento de andaimes, gruas e pessoal, mais os barracões de obra. Era evidente que pretendiam lavar o passado do local.

Se, através dos seus conhecimentos, seja nos bancos ou no cartório de advogados e notários, conseguir uns elementos que me permitam tranquilizar, agradeço que me informa. Já sabe que o gato escaldado foge até da água fria, e eu estive em risco de apanhar um escaldão valente, que ainda me tira o sono em certas noites. Eu podia ter chegado mais ao pé das barracas da obra e com o telemóvel tirar uma fotografia daquele quadro branco identificativo que é obrigatório. Mas receiei ser reconhecido e, sem querer, levantar a lebre.

- Doutor Maragato, não se preocupe com isso. Terei todo o gosto de o poder ajudar. E não será difícil, pois conheço muita gente nas obras, desde empreiteiros, sub-empreiteiros, encarregados e até operários. E estes da parte inferior da escala não é raro que conheçam mais do que aparentam.
- Desde já agradeço a sua disponibilidade. E confio que este assunto não lhe estrague o resto do domingo.
....

Outros telefonemas, muito semelhantes, quase idênticos, tive com:
CHICO FAÍSCA. Um chefe de equipa de electricistas que sempre tem pessoal destacado em muitas obras.

MACÁRIO CORREIA. Um notário de Coimbra, muito capaz para desembrulhar assuntos obscuros. Trabalho com ele desde muitos anos.

VÍTOR MENESES, advogado de Coimbra, que foi meu colega durante o tempo em que frequentei a faculdade de Direito.

NELSON DE SOUSA, industrial de Ermesinde que é meu sócio nalguns negócios e empreendimentos.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

MEDITAÇÕES - Cinema


MEDITAÇÕES - Cinema

HOTEL MUMBAI

Ontem decidimos entrar numa sala de cinema. As opções não eram claramente para uma fita destacável. Seleccionamos, apesar de saber que o tema era tudo menos agradável e descontraído, aquele que relatava, dentro dos esquemas da ficção em cinema, um brutal atentado acontecido em Bombaim, India. Mais concretamente ficou centrado num dos pontos da cidade que foram alvo de ataques indiscriminados. O tema era o TERRORISMO.

Mas aquilo que mais se salientou é, mais uma vez, o inaceitável fanatismo que converte em inimigos fidegais membros de diferentes credos religiosos. Neste caso os terroristas pertenciam a uma célula de muçulmanos paquistanis, enquadrados por um “orientador,” sempre afastado do local das acções com esquema militar, para manter os activistas bem pressionados e adictos a causar muitas mortes indiscriminadamente. Mantinha ao seus destacamentos num controle constante. A palavra de ordem era que aqueles civis que não fossem muçulmanos mereciam a morte; e se entre as vítimas houvesse quem fosse muçulmano, seria uma vítima colateral, aceite de imediato no seio dos bem.vindos.

Para quem rejeite, liminarmente, que as crenças ou credos religiosos possam justificar a agressividade criminosa sobre aqueles que não sejam adeptos da sua seita, a única e importante mensagem do filme é a de não aderir, ou repudiar públicamente, os males que qualquer credo religioso pode causar através dos seus fanáticos activistas.

Não só se deve confirmar a frase revolucionária de que A RELIGIÃO É O ÓPIO DO POVO, como também como um potencial veneno, que já muito contribuiu para massacres de gente inocente, incluídos os fanáticos de campo oposto.

No mundo ocidental onde convivemos -seja muito ou pouco- mas ao qual sem dúvida pertencemos, sentimos que, por enquanto, não temos ameaças concretas entre os grupos com variantes do credo; mas isso não nos pode dar nem sequer um mínimo de garantias de não vir a ser alvo de gente fanática. Se não for hoje pode ser num amanhâ não definido.

Para já sentem-se os rumores da pressão da facção mais conservadora do cristianismo, católico em especial, perante as tentativas de contemporização da Igreja Católica, e ter como alvo concreto o actual Papa Francisco (mas de facto jesuíta). Sem esquecer que também entre os judeus existem os bandos ortodoxos e modernistas, inimigos potenciais.

terça-feira, 28 de maio de 2019

CRÓNICAS DO VALE - Cap. 87



Comentários diversos

- Pois, Amigos Cardoso, nunca me cheguei a este lugar “sagrado” apesar de saber, mais palmo menos palmo, onde ficava o solar dos cadáveres deslocados. Tive que refrear a minha curiosidade por saber que se me deixasse levar pelo impulso, era capaz de fazer alguma besteira, nem que fosse arranjar uma bazuka e dois ou três dos mísseis que estas armas disparam, e destruir o que fosse capaz de deitar abaixo. Por esta razão e outras semelhantes, preferi ficar ao largo, e ajudar a outros que se encarregassem das investigações e até das possíveis represálias.

Agora, ao encontrar andaimes e sinais de estarem em obras, tenho curiosidade acerca do que daí vai surgir. Uma estação termal? Que eu saiba não existem grandes nascentes de águas consideradas minero-medicinais, e a proximidade do Buçaco não me parece ser uma vizinhança propícia para lhe fazer concorrência.

Eu, postos a imaginar, quase que apostaria para a instalação de uma residência de idosos, mais concretamente uma grande sala de espera para o necrotério. E se os donos ou empresários que financiam a obra, tiverem este negócio na mira, eu lhes aconselharia que, nas traseiras, ou relativamente perto do edifício, mas ligado por um corredor subterrâneo, instalassem um tanatório mais o forno crematório. É o negócio do futuro para o jardim da terceira idade.

Postos a imitar o passado, em anexo deveria ter uma versão moderna dos columbários romanos, ou seja, uma espécie de arquivo, bem amanhado, decorado com sobriedade mas sem necrofilia, onde os familiares pudessem arrumar as tais vasilhas que, supostamente, mas sem garantias sérias, estão recolhidas as cinzas do seu “ente querido”. Assim evitava-se a necessidade de as levar para casa ou procurar um lugar pouco frequentado da costa onde as despejar. Arriscando-se a uma coima, sem que prevaleça a afirmação de que se pretendia dar a oportunidade de aprender a nadar, caso ele/ela não fosse um nadador habilitado. Só a alma é que poderia aproveitar tal oportunidade de recordar a juventude.

- Oiça lá, Amigo Maragato, depois de ouvir os seus projectos, mais do que completos, para esta renovação de utilidade pública deste grande edifício, enquanto lhe prestava atenção, pensei, para meus botões e fechos de correr, pois todos este úteis merecem ser citados: Será que o Doutor -não se zangue, pois ao estar perto de Coimbra sabe que, automaticamente, ganhou o diploma!- está por trás desta empresa fantasma, que dizem estar sediada nas tais Ilhas Caimão, ou em luso idioma Ilhas Jacaré. É que o seu relato surgiu tão completo que, salvo o logótipo já pouco lhe falta. Bem, um exagero, faltariam muitas coisas importantes. A seu tempo.

- Se o meu esposo me autoriza e o Maragato aceita uma sugestão útil para este “seu empreendimento”, do qual os anteriores locatários deram, por duas vezes, o sinal de partida, creio que na previsão do que poderia suceder, e adiantando-se entes que ser agarrados de surpresa, porque não propor sociedade à Servilusa, que como todos sabemos é uma filial da empresa americana, especialista em cerimónias fúnebres e em fazer desaparecer os vestígios? Caso, sem brincar com o Amigo José, alguém quiser dedicar esta recôndita propriedade a este mester, mais cedo ou mais tarde, sejam “mericanos” ou “chins” quererão meter a unha.

E mais digo, baseando-me na literatura e cinema dos USA, no futuro e se a propriedade tiver uma extensão razoável. Além do tal columbário que nos recordou o José, já vislumbro um terreno. Amplo e devidamente ajardinado e com caminhos pavimentados, onde se possam “plantar” jazigos, ou de preferência, campas rasas, com a pedra lapidar vertical como hoje se está a impor já na Europa.

Aceita sócios? Fez.me nascer uma veia necrófila, já que no meu espírito existia, bem agarrado, o síndrome de não referir esta situação de fim de festa. Avance Maragato, eu acompanho com algum capital.

- Ó Diana, não lhe conhecia esta veia de humor negro. Neste assunto, sou mais conservadora e apesar de entender e aceitar as razões dos modernos, ainda guardo um certa dose de atavismo ancestral que me pressiona para falar pouco da morte. É como fechar os olhos e meter a cabeça debaixo dos lençóis quando, em criança, estávamos amedrontados com os barulhos que sempre existem nas casas, especialmente nas mais antigas.

Que conversa macabra se instalou neste carro. Eu que já sentia o ratinho a dar sinal no estômago, não sei se terei coragem de me sentar num restaurante. Por favor, metam uns quilómetros pelo meio e deixem este tema em pousio. E cá, a Isabel, fecho a matraca!

- O piloto e navegador, simultâneamente comandante deste navio com rodas, e que sou eu, com vossa aceitação, proponho que se deve atender o pedido, justificado, da nossa companheira de passeio, e pensar em almoçar.

Pensei em diversas hipóteses. Aqui perto temos a Lousã com o seu mini-castelo, que é o preferido das crianças, embora hoje não nos acompanham -ficaram entregues aos avós, sempre desejosos de poder partilhar os descendentes- dizem que, há poucos dias abriu um novo restaurante, e ainda alvitraram ser possível que esta iniciativa tenha usufruído de algum dinheiro da Europa. Uns amigos já o recomendaram.

Outra hipótese é a se abancar num restaurante castiço na baixa coimbrã, que sei o Maragato gosta para recordar os tempos de juventude e de estudante. E, finalmente sugiro, para quem já tenha saudades, ir até à Bairrada, atacar um leitão assado no forno de lenha, tenro e estaladiço.

Eu abstenho-me na votação, mas quero ouvir os comentários a favor e em contra das minhas hipóteses. O que não obsta a que entre no despique se surgirem outras propostas. Agora são os três “penduras” que tem que decidir.
........

Após longos quilómetros e várias tentativas de conseguir unanimidade, ficou decidido, por pressão do Dr. Cardoso, que recordou o interesse do José Maragato em ficar em Coimbra, que se recompensariam as forças na tal Lusa "Antenas". Mas com a CONDIÇÃO, INDISCUTÍVEL, também imposta pelo dono da viatura, de que, desta vez, seria ele quem os levaria a um local que, possivelmente, os Maragato não conhecem.


TANATÓRIO - Do grego tanatos,  (morte) Local donde se recebem os falecidos e se condicionam para ter um melhor aspecto nas cerimónias fúnebres,

segunda-feira, 27 de maio de 2019

MEDITAÇÕES - ainda sobre canhotos



Sobre canhotos

Deixei por referir, cautelosamente, por não me sentir suficientemente documentado, mas tampouco aceitar que era uma invenção minha, que encontrei referências, colhidas entre especialistas na matéria, que advogam da existência de muitos nasciturnos com inclinação para serem canhotos, o facto de que estes são o sobrevivente de uma concepção de gémeos especulares, ou seja, que embora sendo iguais correspondem a uma réplica face-a-face, como a imagem num espelho.

É maioritariamente aceite que o ser destro ou canhoto está previamente definido pelo código genético, e através da observação de fetos por meio da ecografia descobriu-se que, já com o corpo incipiente, existe no feto uma propensão a usar o braço e mão de um dos seus lados, e que depois de nascer já o bebé nitidamente dá sinais de ser direito ou esquerdo. Também está confirmado que sendo o cérebro estruturado de forma diferente nos dois lóbulos, direito e esquerdo, o comando das mãos está instintivamente localizado num mesmo lóbulo.

A existência de pessoas ambidestras é aceite ser consequência da pressão familiar, escolar e social, para seguir o comportamento manual da maioria. Só muito recentemente e sociedade aceitou a existência normal de pessoas instintivamente mais capacitadas na sua mão esquerda do que na direita.

Todavia é possível, mas difícil por razões de sigilo profissional, encontrar referências sérias de obstetras sobre uma possível explicação para alguns casos de esquerdino. Não é assunto que os médicos obstetras gostem de citar para o público não especializado, mas existem referências de casos em que ao retirar a placenta depois de sair o bebé, junto a ela vem um feto, de pequena dimensão, incipiente, que não progrediu, que ficou sem desenvolver. O “sobrevivente” tanto pode ser destro como canhoto, mas este sempre numa proporção inferior entre a população europeia.