sábado, 25 de maio de 2019

MEDITAÇÕES - Sobre os efeitos da automatização


A ROBÓTICA

São frequentes os artigos onde se especula acerca do futuro que estamos construindo -um plural majestático que não implica a todos, mas apenas aos directamente implicados, apesar de que os apáticos, ou os que não sabem como agir para se opor, também merecem ser inculpados , nem que seja por aquilo de que quem cala consente- ameaça degradar a importância que as pessoas sempre tiveram na condução do trabalho e de qualquer actividade em que as suas decisões tem sido importantes.

Alertam-nos sobre como os automatismos, em implantação acelerada, reduzem o número de pessoas activas em muitas actividades. Mas sem negar esta evidência, pode-se imaginar que as máquinas se ocuparão de todos os capítulos, ou chegar-se a um equilíbrio favorável? Seja qual for a progressão do automatismo, temos que admitir que pessoas continuarão a existir, a nascer, viver e morrer e que na vida corrente ainda não chegamos ao total automatismo robótico.

Aqueles autómatos domésticos, deslocando-se sobre rodas pela casa, e que em muitas ilustrações futuristas, tem um aspecto caricatural de pessoas, inclusive com roupa, e “inté” falam numa voz pouco humana, não se vulgarizou. Por enquanto.

Mas por este caminho já se avançou bastante. Pessoas com idade inferior a quarenta, nem conseguem imaginar o esforço e sacrifício que implicava a lavagem de roupa feita manualmente ! Hoje existem no mercado e numa multiplicidade, máquinas automáticas que se encarregam desta tarefa cansativa. Mesmo assim é necessário separar as peças a lavar consoante os cuidados a que devem ser tratados; carregar a máquina pessoalmente e a programar em conformidade com o tipo de roupa a lavar; mais o detergente recomendado; descarregar e depois, secar e brunir, ou passar que é a mesma coisa.

Por muito sofisticada que seja uma programação existirá sempre um momento em que a opção a seguir estará pendente do raciocíneo do operador. Tentando dar um exemplo citarei, sem concretizar, as notícias que apontam para viaturas automóveis, evolução dos carros de passageiros, de transporte colectivo, e até de mercadorias, que após lhes aplicarem automatismos, cuidadosamente programados, podem circular pelas estradas em absoluta segurança. Será assim? Por enquanto receio que poucos aceitariam ser passageiros de um veículo totalmente robotizado. Que pudesse optar por mudar de faixa, ou por sair num desvio sem que tal estivesse programado com antecedência. E como se safaria de imprevistos?

Que o automatismo vai ferir a actividade humana é aceite como algo inevitável. Mas daí a nos colocar, a todos, numa prateleira por sermos dispensáveis... Ou seja, ferir, ferirá, mas matar... nunca. Toda a evolução será feita pensando na rentabilidade dos processos, e o custo de um operador, ou uma série deles, será o primeiro factor a ponderar. Na contabilidade de custos a verba correspondente a mão de obra há muito que se considera ser preciso reduzir ou mesmo eliminar. 

Em princípio ficarão reservadas para os humanos as tarefas situadas nos dois extremos. Por um lado a concepção e programação dos automatismos, e no lado oposto tudo aquilo que for mais penoso e desgastante para o nosso corpo, mas difíceis de automatizar (como, por exemplo, o desmontar para sucata um petroleiro em fim-de-vida) com a agravante de que são, e serão, as pior remuneradas.

Sem nos delimitar nos extremos, a realidade nos mostra que na maioria dos casos é o trabalho humano, não tecnológico, aquele que pode ser feito por pessoas não especializadas ou facilmente substituíveis na bolsa de desempregados será cada dia pior retribuído. De modo semelhante quando se gera um excesso de diplomados, se especialistas com pouca procura, muitos terminam aceitando postos de trabalho, em princípio abaixo das suas expectativas.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

CRÓNICAS DO VALE - Cap. 86



Passeio com os Cardoso

José, agora que estamos sós, e fechados no quarto, tens que me ouvir. E aviso que vem aí um ralhete. Tu hoje deves ter bebido mais do que a conta. Logo tu, que nem sequer tens graça ao contar anedotas; antes és uma desgraça, e sabes disso, como prova que raramente te atreves a esta façanha, foste contar a história das vacas e dos bois, em véspera de sairmos de passeio com uns amigos e com a mesma distribuição de lugares que retrataste! Até o Badaró tinha mais piada do que tu, e recorda que ele era um emplastro. Querias ofender as pessoas? Não sei como não se levantaram e deram o fosques no mesmo instante.

- Isabel. És uma exagerada. As pessoas deste meio onde nos movemos estão mais do que habituadas a ouvir e contar anedotas, muitas delas bastante mais agressivas do que esta, que estava ao nível do primeiro ciclo do liceu. Apesar de ser velha, requentada, eles bem que se riram, pois já estavam bem dispostos do serão. Vá, Isabelinha, deixa-te de manias. Olha, eu vou tomar um duche relaxante, quentinho, mas sem sabão que já tenho a pele demasiado ressequida. E se estiveres para aí virada, convido-te a me acompanhares, como numa aventura de namorados de primeira vez.

- Está bem. Esqueçamos e vou-te acompanhar. MASSSS mesmo sabendo que detestas, aviso que entrarei com a touca na cabeça. Não estou com paciência para secar o cabelo com o secador durante longos minutos; quero manter a cabeleira bem arrumada logo de manhã. E se me vires colocar uma rede, “auguinta Zé!” Vou recompensar-te como se fosse uma gueixa de olhos amendoados, mas com uns quilitos a mais do que a normativa nipónica permite.

- Tu tranquila e segue em frente, já sabes que as mulheres magras, para meu gosto, são desconfortáveis. Pelo menos na posição do missionário.

..

- Bom dia! Nós não quisemos vir demasiado cedo para evitar ruído e já estão estes recentes nortenhos, do “Puorto”, adiantados. Espero que a Amélia vos tenha atendido condignamente. Não duvido disso, pois já deu excelentes provas de estar imbuída nos costumes da casa.

- Também quero participar nas boas-vindas matinais, incluídos os apertos de mão e dos beijinhos da praxe. E já comodamente sentado vos pergunto se dormiram bem? Se a cama permitia descansar, e se a temperatura do quarto era aceitável. Não digo nada de melgas e mosquitos porque até esta semana ainda não nos visitaram.

- O leite, é duma qualidade difícil de conseguir actualmente. Vem de uma vacaria que está perto da casa, A nossa governanta, quando vai ao pão fresco do dia, ainda quente, sempre traz uma leiteira das antigas, daquelas de alumínio, com tampa e asa, para o nosso pequeno almoço. E outra mais se avisei que queria puré de batata na refeição ou algum pudim que leve leite. Ou seja, é natural do Vale do Pito, antes de ser desnatado e lotado, certamente com água, quando entra no circuito da cooperativa, cuja camionete refrigerada aparece de madrugada para recolher o verdadeiro leite do dia. Mesmo assim, a cooperativa de Aveiro, ou do Vale do Vouga, que é esta zona, tem fama de entregar leite em óptimas condições e qualidade.

.

- Estamos já preparados para passear? E o Cardoso me aceita como pendura? Como não me deu o trajecto a seguir pouco posso ajudar, alertar sobre as velocidades recomendáveis e outros cuidados no percurso. Fraco copiloto! E tenho que retrair a vontade de conversar, para não distrair quem vai ao volante. 
 
- Pois entremos na viatura

Por enquanto a zona por onde passamos vos é conhecida. Mas dentro de pouco vos darei uma surpresa, ou uma novidade. Quando chegarmos ao topo daquele morro pararei num espaço aberto para apreciar a paisagem. Entretanto comentarei a passada noite, especialmente a madrugada. Tivemos o prazer de acordar com o cantar dos melros, coisa que na nossa casa no Porto ainda não demos por eles. Possivelmente porque o barulho de fundo que as rodovias nos oferecem, mesmo que não nos agrade, ofusca os sons muito mais capitosos da natureza.

Do lado das nossas janelas, que deixamos entreabertas, deviam estar, pelo menos, dois melros em despique de canto para seduzir alguma fêmea. Os seus chilreios eram merecedores de ser ouvidos, gravados e passados para uma pauta por algum musicólogo com conhecimentos suficientes para os traduzir.

Ora chegamos ao local que anunciei. Sugiro que desçam todos e comentemos o que nos é dado ver.

- Eu nunca estive neste ponto, mas pelas descrições que tive em seu dia, ou dias, apostaria que este é precisamente o que se pode chamar o lugar do crime. Vocês até podem estranhar esta minha falta de curiosidade, mas eu, com o meu feitio, quando um local, uma pessoa, um tema, me incomoda, prefiro bani-lo no máximo das minhas capacidades. E, se de facto, esta mansão corresponde ao tal centro de festejos sexuais de terceiro, ou quarto, grau...

- O Maragato acertou e partilho a sua adversão. Eu é que, pela minha profissão, não pude escapar de vasculhar neste antro. Que de facto é um antro, em muitos pontos até tenebroso. Não quero estragar o ambiente, especialmente as senhoras, mas quem tenha lido ou visto no cinema, descrições de câmaras de tortura, de aparelhos, de argolas, de sangue nas paredes, aqui existe um repositório completo.

Nós, os da PJ, não nos podíamos manter totalmente ao largo, mesmo que desde as instâncias superiores nos empurrassem para outras investigações. Practicamente, desobedecendo as ordens que sibilinamente nos davam, continuamos sem deixar apagar este escândalo. O que se compilou, num dossier totalmente reservado, o mais SECRETO, que internamente nos permitimos, e que poucas pessoas, além de mim, puderam consultar, ficou gravada uma lista de pessoas graúdas que estão directamente implicadas. Não digo que seja espantosa, porque desde sempre nos corredores dos murmúrios, se soube que os membros das altas esferas tem uma paixão por não obedecer regras, já não digo exclusivamente as escritas em códigos, mas inclusive as mais instintivas acerca do bom comportamento humano. Aquelas que uma pessoa de bem não necessita que lhe sejam apontadas. 

Como devem ver há sinais de que a edificação está em obras. Toda a mansão tem andaimes! E se é grande, mesmo enorme! O quer irá sair daqui? Existe uma escritura de compra e venda pela qual toda a propriedade foi adquirida por uma empresa sediada nas Ilhas Caimão. O que deixa um certo cheiro de esconder alguma coisa.

Voltando às características próprias da PJN, começam por não usarmos farda. Andamos “à paisana”. Depende directa e exclusivamente do poder judicial, ou seja do Ministério da Justiça. Não temos uma força armada, o que não quer dizer que não carreguemos armas... Quando carecemos deste tipo de apoio socorremos da PSP, da Guarda Republicana, ou da Guarda fiscal se o tema entra no espaço das fronteiras. Inclusive podemos solicitar a colaboração do exército, marinha e força aérea. Mas só em casos muito excepcionais. As nossas investigações são pouco espectaculares, e por isso nem sempre carecem de apoio militar ou militarizado. Quando em campo aberto é normal ter a colaboração da GNR.

Cito este aspecto do funcionamento interno para justificar a acção que nos facilitou a GNR, que tem homens no terreno, com contactos na malandragem, do estilo de uma mão lava a outra, que nos poupa muito trabalho. A GNR e as outras forças militarizadas, como sabem, tem também as suas secções de investigação judiciária. De facto, é difícil escapar à densa rede de controle. A não ser quando exista uma porta propositadamente aberta, seja para conseguir um fim ou por um desvio punível do comportamento individual.

Por exemplo. Aqui o Maragato contou-nos, em seu dia, que fora sondado por um indivíduo, esquisito, que pretendia comprar ou arrendar a sua casa no Vale. Mas não conhecia o nome, nem um telefone ou endereço. Nós não tivemos dificuldade para o caçar. Este tipo de colaboradores da malandragem depressa dão nas vistas, nem que seja através de escrituras notariais. Mas, em geral, mal um deles pós o pé fora da casota, nós já o temos debaixo de olho. E este, em particular, mal dei o sinal de caça, após saber da sua existência pelo Maragato, no dia seguinte já foi hospede dos nossos calabouços em Coimbra.

- Muito me conta o Doutor Cardoso. Pelo que diz até a dormir está de serviço! Tenho que ter cuidado consigo Ah! Ah! Ah! É um bom profissional e sabem agir na sombra, sem que a maioria dos cidadãos se apercebam da vossa importância e probidade. E então, o tal homem angariador de novas propriedades, contou muita coisa? Não pretendo entrar nos segredos da investigação. Só por curiosidade e por o ter, eu, qualificado de ser um mero intermediário.

- De facto, depois de uma noite e uma manhã “de molho”, antes de o alimentar e soltar, foi devidamente exprimido. Inicialmente eu mesmo quis calibrar o indígena, e depois os meus colaboradores lhe tiraram o sumo todo. De facto, tinha pouco que contar. Ou era mais habilidoso em disfarçar do que nós a interrogar. Duvido. No fundo não passava de um peão de terceira linha. O seu contacto para cima estava restrito a uma caixa postal, e esta era seguida por uma agência. Quem contratou na agência, que vimos ser um estaminé de gestor, o fez pelo telefone, e depois com estafetas d  empresas, tal como os distribuidores de pizzas. E aí se perdia o fio da meada. São profissionais no que se refere a resguardarem as costas. 

Mas nós somos teimosos, e quando nos colocam pedras em frente das rodas ainda ficamos mais curiosos. Por isso, o Maragato não se admire se lhe digo que fiquei a saber de muitos grandes nomes envolvidos nas mortes que lhe tentaram colocar sobre as suas costas.

Claro que, como é tradicional em quase todos os países, mesmo naqueles que julgamos serem mais abertos, este assunto ficou fechado a sete chaves. E eu “ganhei” por tabela uma promoção. Digamos um pontapé para a frente, que me transferiu para o Porto. Podia ser pior. Se me enviassem para Beja, o que faria eu ali? Alguém, la pelos mais altos gabinetes, entendeu que ainda poderia ser útil caso os ventos mudassem e viesse a ser pertinente bicar na crista de algum galo.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

CRÓNICAS DO VALE – Cap. 85


Um passeio tranquilo

  • Antes de ir fechar as persianas dos olhos creio que tínhamos ficado em que estudaríamos o trajecto a seguir no nosso passeio dominical. Mas depois de tantos temas e de bebidas junto à lareira não sei se ainda temos coragem para estudar alternativas.
  • E não estou a referir sem ser aquela espécie de prova de exame a que se sujeitam os novilheiros, ou estagiários para conseguir o canudo de toureiro/espada/matador. Um cerimonial tauromáquico que chamam de alternativa.

  • Amigo Maragato, para o tranquilizar e justificar que sigamos para um banho quente, xixi e cama, confesso que ontem, enquanto as senhoras tratavam das suas conversas, eu preparei um esquema, bem simples e pouco cansativo, para o dia de amanha. E até, para aproveitar dos comentários que sempre nos surgem quando viajamos, pensei em que seria agradável irmos os quatro num só carro. E, se não vos parece mal, iríamos no nosso carro, o dos Cardoso.
  • Por acaso eu também tinha estado meditando acerca de como podíamos aproveitar o tempo num convívio descomprometido. Aceito a sua sugerência, coisa que jamais faço, pois prefiro ser eu a ter a responsabilidade do volante nas mãos. Desta vez, sem exemplo, e atendendo ao que bem pensou o Cardoso, amanhã farei de “pendura”, e deixaremos as damas mais livres para entrarem em assuntos dos que habitualmente dominam e que sabemos não apreciam que os maridos metam a colher. Só mais uma coisa queria que ficássemos de acordo. No fim do périplo e antes de que os amigos rumassem para o Porto, nos faria jeito que deixassem desembarcar os Maragato em Coimbra. Eu cá sei porque nos convêm pernoitar na Lusa Atenas. São coisas minhas que neste momento não vem ao caso.

Para adoçar o caminho para Vale de Lençóis, tenho uma daquelas histórias que se usam para ver se os ouvintes a encaixam num filme ou numa frase tradicional, e que me veio à memória porque se enquadra, tangencialmente, no que está já decidido para amanhã.

Dois casais saem para um passeio domingueiro. Os homens, no banco da frente, falam. voltam a falar, cada vez mais eufóricos e gesticulam a propósito do futebol, penaltis, árbitros e velhacarias dos dirigentes. Enquanto isso as esposas entraram numa de confidências de carácter nitidamente de adultério. Uma não conseguiu aguentar o desejo de contar as suas andanças com um estudante, normalmente à tarde e em horas de expediente. A outra, ouvindo as aventuras da amiga, decidiu também destapar o seu cofre dos segredos. Esta não com um estudante mas com um vizinho divorciado, ou a caminho disso, que lhe ensinou habilidades de cama que o seu Ernesto nem sequer deve saber que existem.

As duas conversas estavam tão interessantes e obsessivas que nenhum deles ouviu o apitar troante do comboio enquanto o carro se dispunha a atravessar a passagem sem guarda. O condutor, num reflexo imediato, viu que de nada valia travar e acelerou com o prego ao fundo. O carro deu um salto de corça, mas a locomotiva apanhou a traseira da viatura. Digamos que o atropelamento cortou o carro em dois troços, como quem corta um bacalhau com aquele facalhão que está na borda do balcão. Os maridos salvaram-se, mesmo à tangente, só com umas cabeçadas no tablier e magoados com o famoso cinto de segurança. Das senhoras é que nem os sapatos se aproveitaram. Ficaram para serem entregues na cozinha do McDonald. FIM.

NOME DO FILME ? Morreram as vacas e ficaram os bois.

terça-feira, 21 de maio de 2019

MEDITAÇÕES - Sobre gémeos


GEMEOS UNIVITELINOS

A questão dos irmãos gémeos para mim foi sempre um tema fascinante, e só quando em adulto estudei o tema com mais atenção é que encontrei as justificações para as diferenças visíveis entre irmãos gémeos. Por uma decisão pessoal limito-me aqui a referir os Gémeos idênticos, com o mesmo sexo, denominados monozigóticos 0u univitelinos. Em oposição aos dizigóticos, que embora engendrados na mesma altura o foram pela fecundação de dois óvulos, diferentes, e duas moléculas do esperma, também diferentes.

Os monozigóticos partilham o mesmo ADN, e o resto das características pessoais, excepto as impressões digitais, que só se definem depois do nascimento, por influências do meio exterior, alimentação e outros factores não definidos. Contrariamente ao que se aceita socialmente, ambos tem a mesma idade, mesmo que tenham nascido um antes e outro depois das 24/0 horas. O que veio à luz decide a idade de ambos. O outro não tem culpa de vir a seguir.

Os dizigóticos podem ser parecidos como dois irmãos de idades diferentes, mas com os mesmos pais, mas tal situação não os obriga a serem do mesmo sexo nem idênticos no seu aspecto. Assim como podem ter sexos diferentes. Afinal cada um foi engendrado por 2+2 grupos de células diferentes.

O que me incitou a escrever esta meditação foi a constância de que muitos gémeos monozigóticos são manipulados pelos seus pais, ou quiçá pelas suas mães, vestindo-os com roupas idênticas, ou mesmo com pequenas variantes quando já atingem a infância, mais concretamente quando já falam e andam. Este consentimento no mostrar a igualdade sempre me causou estranheza, no sentido de como duas pessoas, com nomes diferentes aceitassem, sem se revoltarem, o serem apresentados como repetidos.

É possível que existam casos de univitelinos, já adultos, que se esforcem para rebater a simetria que carregam com o seu parceiro de matriz. E se estes são habilidosos podem passar como simples irmãos, parecidos mas não exactamente iguais.

Recordo algumas situações, pois foram várias e com os mesmos seres, em que na empresa onde trabalhava tinham dois fornecedores de paletes de madeira que eram gémeos idênticos. Por vezes tinha necessidade de falar com eles, ou mais concretamente com o que me aparecia, para lhe recomendar alguma variante no seu fornecimento. Obviamente não sabia a qual deles estava a falar. No dia seguinte, ao encontrar um dos manos e querer saber se tiveram alguma dificuldade no que lhe indicara. Ao não conseguir identificar qual era , lhe perguntava, com um sorriso de não estar a gozar, se ele era ele ou era o outro...

Ontem, precisamente, coincidi, numa sala de espera, com dois homens com idade entre 40 e 50 anos, que sendo nitidamente gémeos idênticos, vestiam roupas muito semelhantes, com o mesmo tipo e padrão mas com diferentes cores, mas próximas entre si. O calçado era também muito parecido, senão o mesmo modelo, e inclusive ambos usavam igual corte de cabelo, além da cor grisalha em mescla, assim como ambos mostravam manter uma barba cuidada, em tudo propícia a induzir o observador a não os identificar como um e outro. Mas quem era um e qual era o outro? Nunca saberia como os identificar; é o que nos acontece na maioria dos casos.

Esta visão, com desconhecidos e esporádica, fez-me pensar em como se tem utilizado a possível confusão, entre dois gémeos idênticos, em filmes, peças de teatro e romances, em geral para dar maior intensidade em argumentos de crimes, desaparecimentos, trocas de casais sem o conhecimento de um dos parceiros, sempre para dar crédito a confusões com propósitos pouco honestos.

Na vida real, quotidiana, dos gémeos idênticos, mesmo aceitando que se podia prestar a situações cómicas, até hilariantes, permanece em mim a dúvida se esta duplicidade não chega a ser inconveniente para aqueles que a desfrutam, ou sofrem.





CRÓNICAS DO VALE - Cap. 84


Serão tranquilo

  • Afinal, depois da catástrofe que imaginávamos encontrar em face do discurso tenebroso que a Isabel nos deu, como dona e responsável da iniciativa, digamos da estufa, vimos que existia bastante obra feita e até já estavam plantas em fase de aclimatação. Isso não desmerece a sua decisão em reorientar o projecto. Posso dizer, tanto em meu nome como no do meu marido, que os Cardoso concordam totalmente com as suas decisões actualizadas. Agora cabe ao casal Maragato definir a nova rota e conseguir um acordo “de cavalheiros” com aqueles que vos queriam ajudar. Penso que é preferível dar-lhes alguns aplausos e louvores a fim de reduzir a sua presença, sem nunca fechar a porta totalmente.
  • Amiga Diana, agradecemos de coração as suas palavras, por serem sensatas e mostrarem que nos apoiam. A nossa maneira de ver as situações com que nos temos deparado ao longo da vida tem sempre com cuidado de evitar litígios.Tanto quanto possível. Mesmo quando se sabia que nos podiam causar algum prejuízo, pois a norma é que depois, quando as águas acalmam, a nossa posição sempre foi positiva.
  • O José, aqui ao meu lado, já me disse que daqui em diante, pelo menos enquanto não se enquadrar tudo na nova orientação, estará, como nos filmes de caboiada, costas com costas comigo. E até se mostra arrependido de não ter feito tentativas mais explícitas, alarmantes até, quando sentiu que o meu entusiasmo estava a patinar, como se derramasse o leite que se tinha posto ao lume.
-Isabek«l, e3u quero entrar na conversa, mas já fora do tema concreto da vossa estufa, que estou certo de que conseguirão reorientar a tempo. Desejo aplaudir, em nome de todos, e com satisfacção, a sua decisão de mandar acender esta lareira, que gostaríamos, se for possível, a ter por perto quando chegar o momento de cear ou jantar, que espero seja frugal. Apesar dos dias estarem quentes e a chuva ter parado, reconheço que este mês não é de confiança. Não tem fama de ser constante, antes volúvel e caprichoso.

E para mudar de tema, e por ter certos pontos de coincidência com as razões que nos expôs a Isabel, embora noutra escala ainda maior. Recordei umas meditações que tivemos quando comentávamos os possíveis prazeres que se podiam ter se navegassem num iate próprio. Imaginemos que depois de gozar dum muito agradável passeio num veleiro de turismo, convidados pelo dono, nos deixássemos voar na fantasia e “decidir levianamente” fazer o possível para conseguir pertencer ao clube dos felizes navegantes. Mais claramente: imaginaram em comprar um iate com um ou mais mastros. Sem tentar quantificar os custos que este capricho sempre implica.

Dizem que sonhar é fácil, e deviam acrescentar que o acordar é um pesadelo real. Nós, os Cardoso, nem sequer sonhamos com estas veleidades, pois por muito fotografadas e badaladas que apareçam nas revistas de cabeleireiro, como a Isabel deve saber, as pessoas normais tem a obrigação de considerar que este tipo de luxos só está à mão de gente que não sua a camisola para conseguir dinheiro, muito dinheiro.

E entre aqueles que tinham herdado fortunas, que vinham dos séculos XVII a XIX, poucos sabem que estas riquezas foram conseguidas com o negócio da escravatura, fosse no capítulo do transporte de escravos de África, sempre comprados a intermediários também africanos, fossem eles sovas pretos, chefes tribais, ou moiros que se encarregavam de reunir e vender a carne humana. Ou os colonos nas Américas, fosse no Brasil ou noutra costa qualquer. Os escravos, sendo um investimento do mesmo estilo do que tractores ou ceifeiras mecânicas foram mais tarde, Esta mão de obra, sem capacidade para exigir, renderam grandes fortunas.

Por prudência, que é a mulher do Prudêncio, não darei nomes de famílias que com a exploração da energia humana subiram na sociedade, e que ainda estão no topo da consideração social. Quem se sentir vocacionado para levantar o tapete não terá dificuldade em encontrar os livros que descrevem de onde saíram as fortunas, as de aqui e as de outros países evoluídos. Entre eles destacou-se o Rei Leopoldo da Bélgica, que se fez amo e senhor de todo o território do Congo, incluídos as pessoas, os animais, as plantas, os minérios e a exploração de tudo o que lhe podia render sem esforço.

Retomando o exemplo das despesas que implicam o manter certos caprichos, sem quantificar deixo uma curta e incompleta relação de compromissos monetários que se sobrepõem, quase a perpetuidade, ao custo inicial do barco. A manutenção, o arrendamento de um posto de amarração numa marina, ou o erguer para uma base seca, as limpezas de casco e pintura. A manutenção das velas e cordame; o ter algum tripulante profissional; as vistorias e impostos; os cuidados a ter com o motor auxiliar, indispensável; os seguros. E mais um longo etcétera. Uma lista que, se algum entendido nos ajudasse a quantificar, nos fazia desistir antes mesmo de começar. O sonho rebentaria como uma bolha de sabão.

  • Creio que todos compreendemos o moral da história. Quando eu tive que me responsabilizar pela manutenção desta casa, que de repente nos parrece um solar, já imaginava que implicaria uns custos pesados e permanentes. Nem só ficavam compensados pelo facto de ter sido habitada como morada permanente. Mesmo agora o pessoal fixo é reduzido ao mínimo, mas nas épocas áureas o número de pessoas ao serviço da família era muito superior. Hoje algumas tarefas ficaram simplificadas com a utilização de máquinas, e os soalhos deixaram de ser esfregados e encerados manualmente: passaram a estar envernizados e só carecer de esforços menos estafantes.
E eu ainda quero introduzir outra fonte de despesas mal programadas. Refiro-me às segundas residências, as casas de férias, que muitos casais organizaram com entusiasmo quando os filhos eram crianças. Mais tarde, alguns anos depois viram que ao crescer muitos preferiram viajar sem os pais, com grupos ou à aventura, sempre para novos destinos. E aquelas casas ficaram sem uso ou só para que os velhos tentassem justificar a despesa que, inevitavelmente, comportam. Isso sem falar em impostos, seguros, reparações, roubos, vandalismo, deterioração inevitável, problemas com a distribuição de água ou dos esgotos. Quantas vezes o que encontram ao chegar não os incita a virar costas, fechar e fugir a sete pés?

domingo, 19 de maio de 2019

CRÓNICAS DO VALE - Cap. 83


já à entrada da estufa

E cá estamos, finalmente, à entrada do meu sonho, que avanço, - como aliás já devem ter captado- que se não se está a desfazer pelo menos vai dar a tal Grande Volta. Tentarei explicar com argumentos válidos, até para mim, mas será quase um striptease pois que não duvido de que me sentirei muito desconfortável perante os três, pois que não só aos Amigos Cardoso que me tenho que confessar como também ao meu marido José Maragato, que possivelmente já acertou no sentido que terão as minhas palavras. O “sorriso de coelho” que lhe ilumina a face equivale a um discurso bem elaborado.

Mas entremos, sem receio. O que aqui podem ver corresponde à tentativa de realizar um sonho meu, que poucas horas antes de agora explodiu, ou implodiu como aqueles edifícios que com umas tremendas cargas de dinamite caem, desfazendo-se em bocados. Não é que pretenda arrasar tudo isto, mas pelo menos reduzir fortemente, aproveitando aquilo que for possível dentro do realismo e bom senso.

À nossa esquerda temos uma, mesmo grande, bancada de trabalho, equipada com uma zona de lavagem e embalagem, além da área destinada à recepção de materiais. Admito, com uma dose de vergonha, que tudo isto, sem contar os equipamentos que estavam previstos, excede em muito aquilo que uma dona de casa NORMAL (e não era o meu caso, infelizmente) poderia desejar para substituir as antigas lavores femininos, como rendas, bordados e outras tontices que hoje estão totalmente postas de lado.

Quando a noite passada vi -por desígnio divino?-, a luz da verdade, ou senti que, como diria um brasileiro, que caí na real, quase que, de facto, ia tombando do leito conjugal. E não saí disparada para me desfazer em lágrimas de auto-comiseração, por respeito ao sono do José.

Numa tentativa de me desculpar desejava poder enfrentar o José por não me ter alertado sobre o disparate, dimensional e conceptual, em que me estava a meter. Certo que ele me deu ”carta branca” para decidir o que entendesse. Imagino que ele ponderou o acerto com que, bastante antes de nos conhecermos, eu tinha entrado num território profissional que, para ele, era desconhecido, mas que eu tinha palmilhado como empregada, atenta, por conta de outrem. Deve ter pensado que repetiria, neste capricho, as passadas prudentes que me conhecia. Simplesmente, ele não ponderou que nesta iniciativa minha não tinha uns conhecimentos directos onde me apoiar.

Bem. Desculpem e vamos andando. Perguntem sem acanhamento a que correspondem as diferentes áreas que se nota estarem em preparação. Para já, insisto, do que hoje está em fase de estaleiro, que parece avançado, muito desaparecerá. PORQUE NÃO TINHA SENTIDO, não era realizável por falta de conhecimentos adequados, tanto em mim mesma como já tinha entendido que tampouco o José me podia ajudar cabalmente.

O esquema que o “perito”, filho da Dona Eudócia, cliente do salão, mais o atrelado que ele incorporou, implicava, segundo eles, uma pequena área destinada a dar apoio à cozinha de casa, mais um espaço para flores de corte e plantas que carecem de estarem resguardadas no inverno, por serem originárias de zonas mais cálidas, tais como orquídeas, cactos e outras com lindas flores. Depois, um grande sector preparado para ter produtos hortícolas que, segundo eles, proporcionariam uma “rentabilidade assegurada” para a manutenção da estufa, contando com o aquecimento, as regas automáticas, medidores de temperatura e humidade do ar e do chão, etc. UMA MARAVILHA !!

Eu eu, feita tonta, como uma criança a quem se lhe deu uma bicicleta com rodinhas, já me sentia singrar numa aventura “fabulosa”, na qual não tinha a menor hipótese de conseguir avançar positivamente. Sendo assim não digo que abandone o prazer de ter umas alfaces, uns rabanetes e umas couvitas, para “brincar” … mas isso terá que ser conseguido com a ajuda do feitor, o senhor Ernesto, que já conhecem, mais o interesse que senti terem as empregadas da casa, tanto a governanta como a sua ajudante, que hoje, sem as ter presentes fisicamente, vi se sentiam desanimadas, abandonadas depois de que uns cavalheiros, desconhecidos mas muito sabedores lhes tirarem o “nosso” brinquedo. Sentiram-se, e com razão, postas de lado enquanto antes até traziam sementes ou plantinhas para o quintal da senhora, que sentiam também ser delas.

Não sei se me explico de forma a me entenderem, mas neste momento sinto-me “nua”. Mas confortável, por voltar a encarreirar num terreno que não me sentia à vontade. Uma das facetas pesadas que surgiram esta noite, foi a de querer enfrentar o meu marido para lhe recriminar o me ter deixado embrulhar insensatamente. Agora, já desabafada, dou valor à sua coragem em fingir que não via o desnorte em que eu tinha caído. Ele, extremamente sensato nas suas coisas, cuidadoso e procurando sempre ponderar as opções, jamais decidiu meter-se em agricultor nesta propriedade. Nem noutra qualquer, pois o campo não o apaixona, mesmo que seja de o percorrer e admirar. Ele diz que em terra não sabe nadar, e que outros tem mais conhecimentos, até herdados de gerações anteriores, daí que perante este handicap a prudência o orientar, sempre, a pisar terreno que, para ele, fosse firme.

E já chega de surpresas. Grandes novidades, inesperadas, terão os dois “ingrícolas teóricos” quando compareçam à chamada na segunda feira. Agora mostrarei algumas plantas que foram adquiridas para me satisfazer, e que terão que ser re-arrumadas num espaço muito menor, entre os 15 e 20 metros quadrados. Não mais! A decisão que já está firme é a de reorientar esta tal estufa para uma dimensão caseira, entre os 15 e 20 metros quadrados. Não mais. Admitindo poder ter acertos e também erros, mas de pouca monta, suportáveis sem problemas de maior. Os dois especialistas serão dispensados, mesmo que isso implique custos.

Quando voltarem a nos visitar terei um avental e umas luvas próprias preparados para a Diana me acompanhar e poder levar um bonito ramo para a vossa casa.

  • Desculpem eu entrar no momento do fecho. Mas o meu nome foi referido umas poucas de vezes e até admito, com satisfacção, que a Isabel procurou justificar o meu alheamento. Mas sei que tentar argumentos na fase de gestação, ela entusiasmada, não daria bom resultado.
  • Mas não resisto em referir que actualmente temos pimentos, de várias cores, beringela e tomate, todo o ano em qualquer loja do ramo, sem citar os hipermercados. Esta actualização irreal do mercado abastecedor nos deve alertar acerca de que a satisfacção de ver crescer algum destes frutos num espaço nosso, implica uma dedicação e uns custos hoje difíceis de justificar. Mesmo atendendo à agressividade que muitos destes alimentos, sejam vegetais de cozinha ou frutas, podem comportar em função dos produtos que se utilizam, precisamente nas estufas industriais, o mais que nós podemos fazer para nos resguardar é recorrer a pessoas das redondezas que ainda tratam dos seus quintais como antigamente.

  • - José. Já maçamos excessivamente estes Amigos, vítimas da minha insensatez. Paremos aqui, demos a voltinha e a seguir decidir que fazer amanha, para nos distrair e alegrar.

-

quarta-feira, 15 de maio de 2019

MEDITAÇÕES -Para aqueles dias...


Tratamente para dias negros

Quando rapaz, e já instalados em Portugal, recordo que uma Senhora Amiga, das nossas relações, com a qual dialogavam ela em português lisboeta e a mãe em castelhano, apesar de já ter notado que entre o catalão -sua língua materna e também minha- se encontravam muitas palavras comuns, e com uma pronúncia quase igual, ao contrário do que acontecia com o castelhano, com os seus agressivos J e H aspirados.

Já me desviei do roteiro. Ao que ia! A Amiga, certamente que numa sequência das habituais conversas de esposas, amavelmente se ofereceu para lhe emprestar-lhe um grosso, e famoso, livro de receitas culinárias que ela considerava equivalente a uma Bíblia das Cozinhas. Se o leitor se situar na época em que a acção decorre -anos 50 do século passado-já imaginou que estou referindo o famoso PANTAGRUEL, que depois eu depois o rebaptizei para Pantacruel. Porque fui encarregado de traduzir e escrever à máquina algumas receitas que, entre as duas, entenderam serem importantes. UMA SECA !!!

A razão de que eu lhe mudasse o nome estava em que, visceralmente discordasse das sequelas a muitas receitas, em que se ofereciam sugestões para aproveitar as sobras. Possivelmente com o intuito de agradar o Prof. Doutor António de Oliveira Salazar, que, além de rígido ditador se dizia ser um convicto ferreta, sempre predisposto para aproveitar tudo e inimigo de desperdiçar.

Embirrante e contestatário eu modificava algumas das receitas de aproveitamentos. Debitava uma ladainha de minha lavra que, mais ou menos, continha, além da encomendada preparação do perú assado no Natal, logo na página seguinte: arroz de restos de Peru de Natal, e eu punha mais outras receitas importantes, tais como: sopa de restos de arroz de restos de Peru do Natal, ou: guisado de massa meada com o molho e carcaça do Peru de Natal. Era a minha desforra por ter que traduzir e escrever receitas de cozinha. E são tantas as receitas do Pantagruel com sequelas que me causaram um espanto e uma vontade imensa de gozar com aquela afamada obra literária.

Mas a culinária louca continuou sempre latente em mim. Recordo uma vivência, relativamente recente, mas já com uns 15 anos de adega, que me saiu, espontâneamente ao chegar à caixa de um mini-mercado próximo da nossa residência, onde tinha por missão recompor certas existências.

Coloquei sobre o tapete rolante duas embalagens de leite e uma garrafa de vinho tinto.- A empregada perguntou, solícita, se era tudo. - Desta vez é só isso, mas não pense que é pouco. Com estes ingredientes vou fazer uma coisa muito especial, se quiser dou-lhe a receita. É uma receita bem antiga, dos frades do Clyster em Alcobaça.

Numa panela de tamanhomédio (quatro litros) deitam-se dois litros de leite fresco e põe-se a lume brando. Quando se veja que está quase a subir, mas antes disso, baixar o lume e ir deitando, lentamente, o vinho tinto, e temperando com canela em pó ou bauvnilha cristaliada, a gosto. Mexendo sempre com uma colher de pau para não coalhar. Apagar o lume e deixar arrefecer, tapando com a tampa respectiva. Depois de frio, engarrafar e vedar bem, com lacre se for necessário. E depois de repousar umas semanas, très ou quatro, deitar tudo fora, que deve ser uma porcaria!

As senhoras desculpem. Mas não resisti a esta brincadeira.

E AGORA... TACHIM TACHIM, A NOSSA RECEITA PARA DIAS NEGROS

Infelizmente sempre estamos propensos a problemas de tipo insolúvel,sejam de saúde, familiares ou profissionais, entre outros. A questão está em que nos deprimem, que ficamos mentalmente desmoralizados, e quando não estamos filiados a um psiqiatra que, pelo menos, nos alivie de algum capital, não sabemos como nos safar. É nesta situação que se torna útil a seguinte receita para dias negros.

Ingredientes:
uma colher de sopa, rasa de PACIÊNCIA
dose igual de OPTIMISMO
dose idêntica de RESISGNAÇÃO
mais uma colher de sopa, rasa, de CORAGEM
igual dose de RAIVA
e mais uma de FÉ NO SUPREMO

Juntar tudo numa tigela de vidro, mexer com uma vareta de arame até ficar homogéneo. Não é necessário temperar nem provar com a ponta do dedo indicador, pois que por muito que olhem nada verão. (nem outono, inverno ou primavera)

Se depois deste tratamento não sentirem melhoras e o mal se puder avaliar como de índole profissional, existe uma solução melhor, que funciona bem quando se é “afilhado” de uma personagem política bem situada no esquema. Ele pode ser a solução para todos os seus problemas. Mesmo assim, aconselha-se, encarecidamente, que quando procurarem este padrinho, deixem cair, como quem não quer, uma frase no género: … é que já sabe que eu sei de muitas coisas que não se podem contar... Os efeitos benéficos não devem tardar. É só uma questão de horas, minutos até. Padrinho e afilhado ficarão agarrados entre si, pelos ditos cujos, como dois siameses.

NOTA IMPORTANTE: Se o “padrinho” se atrever a perguntar o que é que sabe? A resposta é um encolher de ombros e faer a sua cara de parvo; ou dizer eu sou como um túmulo do faraó, e faz aquela mímica de quem cose a boca com agulha e linha grossa.preta de preferência, para dar mais peso ao gesto.