terça-feira, 21 de maio de 2019

CRÓNICAS DO VALE - Cap. 84


Serão tranquilo

  • Afinal, depois da catástrofe que imaginávamos encontrar em face do discurso tenebroso que a Isabel nos deu, como dona e responsável da iniciativa, digamos da estufa, vimos que existia bastante obra feita e até já estavam plantas em fase de aclimatação. Isso não desmerece a sua decisão em reorientar o projecto. Posso dizer, tanto em meu nome como no do meu marido, que os Cardoso concordam totalmente com as suas decisões actualizadas. Agora cabe ao casal Maragato definir a nova rota e conseguir um acordo “de cavalheiros” com aqueles que vos queriam ajudar. Penso que é preferível dar-lhes alguns aplausos e louvores a fim de reduzir a sua presença, sem nunca fechar a porta totalmente.
  • Amiga Diana, agradecemos de coração as suas palavras, por serem sensatas e mostrarem que nos apoiam. A nossa maneira de ver as situações com que nos temos deparado ao longo da vida tem sempre com cuidado de evitar litígios.Tanto quanto possível. Mesmo quando se sabia que nos podiam causar algum prejuízo, pois a norma é que depois, quando as águas acalmam, a nossa posição sempre foi positiva.
  • O José, aqui ao meu lado, já me disse que daqui em diante, pelo menos enquanto não se enquadrar tudo na nova orientação, estará, como nos filmes de caboiada, costas com costas comigo. E até se mostra arrependido de não ter feito tentativas mais explícitas, alarmantes até, quando sentiu que o meu entusiasmo estava a patinar, como se derramasse o leite que se tinha posto ao lume.
-Isabek«l, e3u quero entrar na conversa, mas já fora do tema concreto da vossa estufa, que estou certo de que conseguirão reorientar a tempo. Desejo aplaudir, em nome de todos, e com satisfacção, a sua decisão de mandar acender esta lareira, que gostaríamos, se for possível, a ter por perto quando chegar o momento de cear ou jantar, que espero seja frugal. Apesar dos dias estarem quentes e a chuva ter parado, reconheço que este mês não é de confiança. Não tem fama de ser constante, antes volúvel e caprichoso.

E para mudar de tema, e por ter certos pontos de coincidência com as razões que nos expôs a Isabel, embora noutra escala ainda maior. Recordei umas meditações que tivemos quando comentávamos os possíveis prazeres que se podiam ter se navegassem num iate próprio. Imaginemos que depois de gozar dum muito agradável passeio num veleiro de turismo, convidados pelo dono, nos deixássemos voar na fantasia e “decidir levianamente” fazer o possível para conseguir pertencer ao clube dos felizes navegantes. Mais claramente: imaginaram em comprar um iate com um ou mais mastros. Sem tentar quantificar os custos que este capricho sempre implica.

Dizem que sonhar é fácil, e deviam acrescentar que o acordar é um pesadelo real. Nós, os Cardoso, nem sequer sonhamos com estas veleidades, pois por muito fotografadas e badaladas que apareçam nas revistas de cabeleireiro, como a Isabel deve saber, as pessoas normais tem a obrigação de considerar que este tipo de luxos só está à mão de gente que não sua a camisola para conseguir dinheiro, muito dinheiro.

E entre aqueles que tinham herdado fortunas, que vinham dos séculos XVII a XIX, poucos sabem que estas riquezas foram conseguidas com o negócio da escravatura, fosse no capítulo do transporte de escravos de África, sempre comprados a intermediários também africanos, fossem eles sovas pretos, chefes tribais, ou moiros que se encarregavam de reunir e vender a carne humana. Ou os colonos nas Américas, fosse no Brasil ou noutra costa qualquer. Os escravos, sendo um investimento do mesmo estilo do que tractores ou ceifeiras mecânicas foram mais tarde, Esta mão de obra, sem capacidade para exigir, renderam grandes fortunas.

Por prudência, que é a mulher do Prudêncio, não darei nomes de famílias que com a exploração da energia humana subiram na sociedade, e que ainda estão no topo da consideração social. Quem se sentir vocacionado para levantar o tapete não terá dificuldade em encontrar os livros que descrevem de onde saíram as fortunas, as de aqui e as de outros países evoluídos. Entre eles destacou-se o Rei Leopoldo da Bélgica, que se fez amo e senhor de todo o território do Congo, incluídos as pessoas, os animais, as plantas, os minérios e a exploração de tudo o que lhe podia render sem esforço.

Retomando o exemplo das despesas que implicam o manter certos caprichos, sem quantificar deixo uma curta e incompleta relação de compromissos monetários que se sobrepõem, quase a perpetuidade, ao custo inicial do barco. A manutenção, o arrendamento de um posto de amarração numa marina, ou o erguer para uma base seca, as limpezas de casco e pintura. A manutenção das velas e cordame; o ter algum tripulante profissional; as vistorias e impostos; os cuidados a ter com o motor auxiliar, indispensável; os seguros. E mais um longo etcétera. Uma lista que, se algum entendido nos ajudasse a quantificar, nos fazia desistir antes mesmo de começar. O sonho rebentaria como uma bolha de sabão.

  • Creio que todos compreendemos o moral da história. Quando eu tive que me responsabilizar pela manutenção desta casa, que de repente nos parrece um solar, já imaginava que implicaria uns custos pesados e permanentes. Nem só ficavam compensados pelo facto de ter sido habitada como morada permanente. Mesmo agora o pessoal fixo é reduzido ao mínimo, mas nas épocas áureas o número de pessoas ao serviço da família era muito superior. Hoje algumas tarefas ficaram simplificadas com a utilização de máquinas, e os soalhos deixaram de ser esfregados e encerados manualmente: passaram a estar envernizados e só carecer de esforços menos estafantes.
E eu ainda quero introduzir outra fonte de despesas mal programadas. Refiro-me às segundas residências, as casas de férias, que muitos casais organizaram com entusiasmo quando os filhos eram crianças. Mais tarde, alguns anos depois viram que ao crescer muitos preferiram viajar sem os pais, com grupos ou à aventura, sempre para novos destinos. E aquelas casas ficaram sem uso ou só para que os velhos tentassem justificar a despesa que, inevitavelmente, comportam. Isso sem falar em impostos, seguros, reparações, roubos, vandalismo, deterioração inevitável, problemas com a distribuição de água ou dos esgotos. Quantas vezes o que encontram ao chegar não os incita a virar costas, fechar e fugir a sete pés?

domingo, 19 de maio de 2019

CRÓNICAS DO VALE - Cap. 83


já à entrada da estufa

E cá estamos, finalmente, à entrada do meu sonho, que avanço, - como aliás já devem ter captado- que se não se está a desfazer pelo menos vai dar a tal Grande Volta. Tentarei explicar com argumentos válidos, até para mim, mas será quase um striptease pois que não duvido de que me sentirei muito desconfortável perante os três, pois que não só aos Amigos Cardoso que me tenho que confessar como também ao meu marido José Maragato, que possivelmente já acertou no sentido que terão as minhas palavras. O “sorriso de coelho” que lhe ilumina a face equivale a um discurso bem elaborado.

Mas entremos, sem receio. O que aqui podem ver corresponde à tentativa de realizar um sonho meu, que poucas horas antes de agora explodiu, ou implodiu como aqueles edifícios que com umas tremendas cargas de dinamite caem, desfazendo-se em bocados. Não é que pretenda arrasar tudo isto, mas pelo menos reduzir fortemente, aproveitando aquilo que for possível dentro do realismo e bom senso.

À nossa esquerda temos uma, mesmo grande, bancada de trabalho, equipada com uma zona de lavagem e embalagem, além da área destinada à recepção de materiais. Admito, com uma dose de vergonha, que tudo isto, sem contar os equipamentos que estavam previstos, excede em muito aquilo que uma dona de casa NORMAL (e não era o meu caso, infelizmente) poderia desejar para substituir as antigas lavores femininos, como rendas, bordados e outras tontices que hoje estão totalmente postas de lado.

Quando a noite passada vi -por desígnio divino?-, a luz da verdade, ou senti que, como diria um brasileiro, que caí na real, quase que, de facto, ia tombando do leito conjugal. E não saí disparada para me desfazer em lágrimas de auto-comiseração, por respeito ao sono do José.

Numa tentativa de me desculpar desejava poder enfrentar o José por não me ter alertado sobre o disparate, dimensional e conceptual, em que me estava a meter. Certo que ele me deu ”carta branca” para decidir o que entendesse. Imagino que ele ponderou o acerto com que, bastante antes de nos conhecermos, eu tinha entrado num território profissional que, para ele, era desconhecido, mas que eu tinha palmilhado como empregada, atenta, por conta de outrem. Deve ter pensado que repetiria, neste capricho, as passadas prudentes que me conhecia. Simplesmente, ele não ponderou que nesta iniciativa minha não tinha uns conhecimentos directos onde me apoiar.

Bem. Desculpem e vamos andando. Perguntem sem acanhamento a que correspondem as diferentes áreas que se nota estarem em preparação. Para já, insisto, do que hoje está em fase de estaleiro, que parece avançado, muito desaparecerá. PORQUE NÃO TINHA SENTIDO, não era realizável por falta de conhecimentos adequados, tanto em mim mesma como já tinha entendido que tampouco o José me podia ajudar cabalmente.

O esquema que o “perito”, filho da Dona Eudócia, cliente do salão, mais o atrelado que ele incorporou, implicava, segundo eles, uma pequena área destinada a dar apoio à cozinha de casa, mais um espaço para flores de corte e plantas que carecem de estarem resguardadas no inverno, por serem originárias de zonas mais cálidas, tais como orquídeas, cactos e outras com lindas flores. Depois, um grande sector preparado para ter produtos hortícolas que, segundo eles, proporcionariam uma “rentabilidade assegurada” para a manutenção da estufa, contando com o aquecimento, as regas automáticas, medidores de temperatura e humidade do ar e do chão, etc. UMA MARAVILHA !!

Eu eu, feita tonta, como uma criança a quem se lhe deu uma bicicleta com rodinhas, já me sentia singrar numa aventura “fabulosa”, na qual não tinha a menor hipótese de conseguir avançar positivamente. Sendo assim não digo que abandone o prazer de ter umas alfaces, uns rabanetes e umas couvitas, para “brincar” … mas isso terá que ser conseguido com a ajuda do feitor, o senhor Ernesto, que já conhecem, mais o interesse que senti terem as empregadas da casa, tanto a governanta como a sua ajudante, que hoje, sem as ter presentes fisicamente, vi se sentiam desanimadas, abandonadas depois de que uns cavalheiros, desconhecidos mas muito sabedores lhes tirarem o “nosso” brinquedo. Sentiram-se, e com razão, postas de lado enquanto antes até traziam sementes ou plantinhas para o quintal da senhora, que sentiam também ser delas.

Não sei se me explico de forma a me entenderem, mas neste momento sinto-me “nua”. Mas confortável, por voltar a encarreirar num terreno que não me sentia à vontade. Uma das facetas pesadas que surgiram esta noite, foi a de querer enfrentar o meu marido para lhe recriminar o me ter deixado embrulhar insensatamente. Agora, já desabafada, dou valor à sua coragem em fingir que não via o desnorte em que eu tinha caído. Ele, extremamente sensato nas suas coisas, cuidadoso e procurando sempre ponderar as opções, jamais decidiu meter-se em agricultor nesta propriedade. Nem noutra qualquer, pois o campo não o apaixona, mesmo que seja de o percorrer e admirar. Ele diz que em terra não sabe nadar, e que outros tem mais conhecimentos, até herdados de gerações anteriores, daí que perante este handicap a prudência o orientar, sempre, a pisar terreno que, para ele, fosse firme.

E já chega de surpresas. Grandes novidades, inesperadas, terão os dois “ingrícolas teóricos” quando compareçam à chamada na segunda feira. Agora mostrarei algumas plantas que foram adquiridas para me satisfazer, e que terão que ser re-arrumadas num espaço muito menor, entre os 15 e 20 metros quadrados. Não mais! A decisão que já está firme é a de reorientar esta tal estufa para uma dimensão caseira, entre os 15 e 20 metros quadrados. Não mais. Admitindo poder ter acertos e também erros, mas de pouca monta, suportáveis sem problemas de maior. Os dois especialistas serão dispensados, mesmo que isso implique custos.

Quando voltarem a nos visitar terei um avental e umas luvas próprias preparados para a Diana me acompanhar e poder levar um bonito ramo para a vossa casa.

  • Desculpem eu entrar no momento do fecho. Mas o meu nome foi referido umas poucas de vezes e até admito, com satisfacção, que a Isabel procurou justificar o meu alheamento. Mas sei que tentar argumentos na fase de gestação, ela entusiasmada, não daria bom resultado.
  • Mas não resisto em referir que actualmente temos pimentos, de várias cores, beringela e tomate, todo o ano em qualquer loja do ramo, sem citar os hipermercados. Esta actualização irreal do mercado abastecedor nos deve alertar acerca de que a satisfacção de ver crescer algum destes frutos num espaço nosso, implica uma dedicação e uns custos hoje difíceis de justificar. Mesmo atendendo à agressividade que muitos destes alimentos, sejam vegetais de cozinha ou frutas, podem comportar em função dos produtos que se utilizam, precisamente nas estufas industriais, o mais que nós podemos fazer para nos resguardar é recorrer a pessoas das redondezas que ainda tratam dos seus quintais como antigamente.

  • - José. Já maçamos excessivamente estes Amigos, vítimas da minha insensatez. Paremos aqui, demos a voltinha e a seguir decidir que fazer amanha, para nos distrair e alegrar.

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quarta-feira, 15 de maio de 2019

MEDITAÇÕES -Para aqueles dias...


Tratamente para dias negros

Quando rapaz, e já instalados em Portugal, recordo que uma Senhora Amiga, das nossas relações, com a qual dialogavam ela em português lisboeta e a mãe em castelhano, apesar de já ter notado que entre o catalão -sua língua materna e também minha- se encontravam muitas palavras comuns, e com uma pronúncia quase igual, ao contrário do que acontecia com o castelhano, com os seus agressivos J e H aspirados.

Já me desviei do roteiro. Ao que ia! A Amiga, certamente que numa sequência das habituais conversas de esposas, amavelmente se ofereceu para lhe emprestar-lhe um grosso, e famoso, livro de receitas culinárias que ela considerava equivalente a uma Bíblia das Cozinhas. Se o leitor se situar na época em que a acção decorre -anos 50 do século passado-já imaginou que estou referindo o famoso PANTAGRUEL, que depois eu depois o rebaptizei para Pantacruel. Porque fui encarregado de traduzir e escrever à máquina algumas receitas que, entre as duas, entenderam serem importantes. UMA SECA !!!

A razão de que eu lhe mudasse o nome estava em que, visceralmente discordasse das sequelas a muitas receitas, em que se ofereciam sugestões para aproveitar as sobras. Possivelmente com o intuito de agradar o Prof. Doutor António de Oliveira Salazar, que, além de rígido ditador se dizia ser um convicto ferreta, sempre predisposto para aproveitar tudo e inimigo de desperdiçar.

Embirrante e contestatário eu modificava algumas das receitas de aproveitamentos. Debitava uma ladainha de minha lavra que, mais ou menos, continha, além da encomendada preparação do perú assado no Natal, logo na página seguinte: arroz de restos de Peru de Natal, e eu punha mais outras receitas importantes, tais como: sopa de restos de arroz de restos de Peru do Natal, ou: guisado de massa meada com o molho e carcaça do Peru de Natal. Era a minha desforra por ter que traduzir e escrever receitas de cozinha. E são tantas as receitas do Pantagruel com sequelas que me causaram um espanto e uma vontade imensa de gozar com aquela afamada obra literária.

Mas a culinária louca continuou sempre latente em mim. Recordo uma vivência, relativamente recente, mas já com uns 15 anos de adega, que me saiu, espontâneamente ao chegar à caixa de um mini-mercado próximo da nossa residência, onde tinha por missão recompor certas existências.

Coloquei sobre o tapete rolante duas embalagens de leite e uma garrafa de vinho tinto.- A empregada perguntou, solícita, se era tudo. - Desta vez é só isso, mas não pense que é pouco. Com estes ingredientes vou fazer uma coisa muito especial, se quiser dou-lhe a receita. É uma receita bem antiga, dos frades do Clyster em Alcobaça.

Numa panela de tamanhomédio (quatro litros) deitam-se dois litros de leite fresco e põe-se a lume brando. Quando se veja que está quase a subir, mas antes disso, baixar o lume e ir deitando, lentamente, o vinho tinto, e temperando com canela em pó ou bauvnilha cristaliada, a gosto. Mexendo sempre com uma colher de pau para não coalhar. Apagar o lume e deixar arrefecer, tapando com a tampa respectiva. Depois de frio, engarrafar e vedar bem, com lacre se for necessário. E depois de repousar umas semanas, très ou quatro, deitar tudo fora, que deve ser uma porcaria!

As senhoras desculpem. Mas não resisti a esta brincadeira.

E AGORA... TACHIM TACHIM, A NOSSA RECEITA PARA DIAS NEGROS

Infelizmente sempre estamos propensos a problemas de tipo insolúvel,sejam de saúde, familiares ou profissionais, entre outros. A questão está em que nos deprimem, que ficamos mentalmente desmoralizados, e quando não estamos filiados a um psiqiatra que, pelo menos, nos alivie de algum capital, não sabemos como nos safar. É nesta situação que se torna útil a seguinte receita para dias negros.

Ingredientes:
uma colher de sopa, rasa de PACIÊNCIA
dose igual de OPTIMISMO
dose idêntica de RESISGNAÇÃO
mais uma colher de sopa, rasa, de CORAGEM
igual dose de RAIVA
e mais uma de FÉ NO SUPREMO

Juntar tudo numa tigela de vidro, mexer com uma vareta de arame até ficar homogéneo. Não é necessário temperar nem provar com a ponta do dedo indicador, pois que por muito que olhem nada verão. (nem outono, inverno ou primavera)

Se depois deste tratamento não sentirem melhoras e o mal se puder avaliar como de índole profissional, existe uma solução melhor, que funciona bem quando se é “afilhado” de uma personagem política bem situada no esquema. Ele pode ser a solução para todos os seus problemas. Mesmo assim, aconselha-se, encarecidamente, que quando procurarem este padrinho, deixem cair, como quem não quer, uma frase no género: … é que já sabe que eu sei de muitas coisas que não se podem contar... Os efeitos benéficos não devem tardar. É só uma questão de horas, minutos até. Padrinho e afilhado ficarão agarrados entre si, pelos ditos cujos, como dois siameses.

NOTA IMPORTANTE: Se o “padrinho” se atrever a perguntar o que é que sabe? A resposta é um encolher de ombros e faer a sua cara de parvo; ou dizer eu sou como um túmulo do faraó, e faz aquela mímica de quem cose a boca com agulha e linha grossa.preta de preferência, para dar mais peso ao gesto.


domingo, 12 de maio de 2019

CONTINUAMOS COM DOIS PAPAS


 DOIS PAPAS em simultaneous

Existirem dois Papas ao mesmo tempo não é inédito. Quando se deu o denominado Cisma de Ocidente, criou-se em Avinhão (França) e sob os auspícios do Rey de França, uma sede Papal onde São Pedro estava representado por Papas (ou antipapas segundo os de obediência a Roma), concretamente foram Clemente VII (1378-1394) e Bento XIII (1394-1417), enquanto em Roma estiveram na cadeira de Saõ Pedro: Urbano VI, Bonifacio IX, Inocencio VII e Gregório XII

A situação actual do clero romano, ou pelo menos dos cardeais e outros príncipes da Igreja, que deambulam pelo Vaticano, a julgar pelo pouco que transpira ao exterior, nos pode parecer que estão num clima de guerra interna, guerrilha, ou conspiração, devido à presença física de um Papa Emérito, Benedito XVI , reformado mas activo e pedra base para uma fracção conservadora, em oposição ao Papa Eleito Francisco, um jesuita argentino que se mostrou com vontade de modernizar por dentro a Igreja Católica, pelo menos em alguns capítulos.

As últimas semanas nos chegaram referências de desavenças entre os membros ultra-conservadores e os adictos a um agiornamento. Não é inédita esta intenção de ir reduzindo os costumes e o fausto que tanto agrada aos fieis mais conservadores. É um caminho lento, que já tornou normal a celebração da eucaristia cara aos fieis, assim como dirigir-se aos presentes no idioma vernáculo correspondente, reservando o latin canónico para algumas ceremónias muito específicas. As crianças já nãosãoincitadas a beijar as mãos do Senhor Cura, e os processos de pedofilia também influenciam para a necessidade de conseguir um respeito e estima não por regulamentos contra-natura.

Também já se deixou de transportar o Papa num trono carregado em ombros, tal como se herdou de egípcios e romanos, entre outros. É de prever que a simplificação das vestes sacerdotais, em todos os seus graus, venham a ser paulatinamente libertas de fausto. A educação dos fieis irá pressionando no sentido de que os membros da igreja se aproximem cada vez mais do que é usual entre os fieis. E que possam ver nestes membros de presença directa uns adicto em seguir a singeleza de Jesus. Já é raro encontrar na via pública um padre, cónego, bispo ou um outro membro da hierarquia, vestido como era habitual nos anos 50 de XX, sem estar paramentado para dar espectáculo. A pressão do ambiente e da cultura geral da população aceita e aplaude as iniciativas do Papa Francisco.

Discute-se sobre a obrigação do celibato, tantas e tantas vezes não cumprida. Sendo uma imposição muito posterior às indicações que se aceitam como terem sido dadas por Jesus à cidadania, hoje, a população cada vez sente-se menos agradada e respeitadora de falsidades; entende que qualquer lei ou norma, especialmente se póstumas, pode ser revertida sem prejuízo da fé.

Aliás, estas observações não são nada novas, pois já na época medieval as ordens mendicantes predicavam a fé em Cristo junto dos mais pobres, doentes e desfavorecidos. Sempre existiram, dentro da estrutura da Igreja, membros que reegavam do fausto, por ignomioso e teatral, além de sempre ter estado mais unido ao poder do que ao povo.

Sabemos que o fausto, as riquezas terrenas que se mostram, e as que estão rigorosamente guardadas, impõem admiração e respeito, o qual facilita a cativação de um certo nível de fieis, que aliás, tal como no futebol, é a base do seu poder de influência. Mas o que enerva os conservadores do Vaticano é o facto de sentir que O Papa Francisco, já idoso e bastante alquebrado, esteja vocacionado para colaborar de uma forma eficaz, em actualizar o culto para os esquemas sociais deste século, que sabe estar em mutação constante e acelerada. A presença do Emérito, a poucos metros da residência papal é um incentivo para os retrógrados e um estorbo para os evolucionistas (que devem ter saudades dos tempos, nem por isso muito longinquos, em que as mortes súbitas eram normais e previsíveis, se não provocadas)

CRÓNICAS DO VALE – Cap. 82




Uns comilões. E agora rumo à estufa !

Nunca pensei que depois das entradas e daquelas travessas de peixe ainda arranjassem um espaço para sobremesa. Mas como as damas foram as primeiras a “esquecer” o problema dos quilos de mais... Acompanhei os dois casais até ao balcão dos doces e frutas. Se calhar eles imaginavam que com estes metros de andadura, poucos em verdade seja dita, já ginasticavam como castigo e eliminavam umas gramas de excesso.

Seja como for, fiz-lhes meias doses, de oito doces! E assim fingiram que se empanturravam menos. A Amiga e cliente Isabel já me tinha avisado, ontem, que a conta era para eles, de forma que depois dos cafés lhes desejei um resto de tarde feliz, e Toca!, que se faz tarde.

Beijinhos e abraços e cuidado com a estrada. Recordem que apesar de haver poucos pesados circulando, nos sábados e domingos andam por aí muitos inconscientes, e os bombeiros com as suas ambulâncias, mais os hospitais com a falta de pessoal e de camas, detestam estes dias.

- Bem, já estamos reabastecidos por umas horas, Vamos rumar para Vale do Pito, como estava programado? Lá faremos base, depois de espreitar na minha estufa, que pouco tem que ver. Depois tomaremos uma ceia leve, um serão provinciano e teremos muito gosto em lhes proporcionar habitáculo, que suponho será de vosso agrado.

Tal como fizemos quando do encontro para a já famosa adiafa que ofereceu o dono da casa, que já começa a ter barriga! já não sei com que desculpa -na aldeia só se comentava isso durante semanas e meses!- eu proponho que a Diana me acompanhe no nosso carro e os maridos cavalheiros venham atrás, como pertence para nos proteger, no carro do Doutor Cardoso. Assim, durante um curto trajecto, uns e outros poderemos conversar sem interferências.
...
E chegamos à mansão dos Maragato, na qual actualmente resido por direito e vontade expressa dos dois membros do casal. A Idalina e a Alice parece que ouviram o barulho dos carros e nos dão as boas-vindas. Se a Isabel me permite, vou dar uns retoques nas orientações que deixei à governanta antes de ir para Aveiro. Penso que lhes seja agradável entrar e poderem servir-se da casa de banho do quarto que lhes preparamos. Aqui a Alice vos acompanhará com a vossa bagagem. O reencontro será neste mesmo terraço. Como não é uma viagem de agência, a demora é livre, sem compromissos. Até já. 

José, vens comigo depois de orientar a Idalina?

........

Sentem-se com força para aturar esta fantochada da estufa? Ou a curiosidade vence à indiferença ?

- Oh! Isabel. O que lhe aconteceu? O seu olhar, mortiço, e as suas palavras mostram uma certa descrença, ou desânimo em relação a um projecto, seu se não estou enganada, que até recentemente parecia que lhe renovava todas as suas forças de empresária-caseira, que não comercial neste caso.

- Tem toda a razão no que nos diz e agradeço a sua franqueza, pois é coisa que entre nós, lusitanos, não é habitual. É sabido que só embriagados é que soltam a verdade, quando normais optamos sempre pela ambiguidade ou pela lisonja de fancaria.

- Pois sim, já não recordo como embarquei nesta ideia macaca, para não lhe chamar macabra, e este termo é mesmo adequado porque sinto que tomou uma dimensão de problema não prevista inicialmente. Suponho que o vírus, ou a infecção, entrou folheando uma daquelas revistas da Casa e Jardim, ou coisa que o valha, num número recheado de belas fotografias de estufas glamorosas  onde damas formosas e bem trajadas, mesmo que com jardineiras de autor consagrado, e munidas de regadores e tesouras de podar, que aposto não sabem manejar, diziam, o escreveram outros como tendo sido palavras delas, que se sentiam “realizadas” como jamais em tempo algum. Num aparte direi que este uso de estar, ou não, realizada/o faz-me doer os olhos, os ouvidos e a mente, tudo numa cacofonia insuportável.

Também contribuiu à minha queda a conversa com uma cliente do salão que, como me informou, tinha um filho que terminou um curso qualquer de agricultura, jardinagem, floricultura e eu sei lá quantas coisas mais terminadas em -ura. E que este filho, se ela lho propusesse (? só mais tarde entendi, ontem para ser mais concreta, que me estava a passar a carta do burro!) que me desse uma mãozinha neste meu desejo, teria toda a sua colaboração, pois que era um rapaz educado, trabalhador, conhecedor do tema das estufas, etc. e tal. Uma pérola, em suma! À mama só lhe faltava uma guitarra no acompanhamento...
E eu, entusiasmada! Já me via entrevistada e fotografada, com orquídeas de variadas formas e cores, alfazema de estirpe francesa, e num cantinho, convenientemente escondido, um canteirozinho com cenouras, alfaces e “raspanetes”, para que com estes produtos hortícolas fosse possível justificar o investimento. Foi isso mesmo: o investimento, que me deixou de rastros. Foi como se me tivesse investido um toiro do Palha antes de lhe serrarem os cornos. O diplomado em couves e hortenses apareceu acompanhado de um colega. De repente vi que tinha que dar mama a dois!, pois que isso de dar conselhos profissionais de borla é coisa que não se usa por estes lados. Promessas sim, como as de ir até Fátima e deixar algum pilim.

Mas os rapazes, simpáticos de verdade e bem parecidos (se não estivesse presa e agradada aqui como Maragato, era capaz de lidar os dois, juntos ou por separado. Desculpem a franqueza, mas naquela altura tremiam-me as pernas e tinha os mamilos mais rijos do que batatas encruadas). Não vos quero “desilodir” ao nível em que hoje me encontro. E como com este blá-blá-blá já demos a volta à mansão Maragateiril aqui têm,a porta de entrada desta “estortura”, da minha estufa. Mais valia que tivesse ido para a escola de hotelaria no curso monográfico de carne estofada!

- Amiga Isabel! Será que o almoço lhe caiu mal? Foi da lampreia? Eu estou pasmada com esta sua reviravolta, mesmo de 360 degraus como diz o povão que nos alimenta...O que de facto pretende dizer é que não desejava girar em redondo, que preferia fugir a sete pés e esquecer esta veleidade que hoje valoriza de sem sentido. Tem que ultrapassar esta nuvem de poeira que a derrubou. Quando a conheci e até este momento, a avaliei como uma pessoa irresoluta, valente, empreendedora e lutadora. E hoje, de repente, parece derrotada e com a conta de nove já ultrapassada. Está a tirando a toalha, como os lutadores?

- Tem quase razão, a doutora, mas não é uma nuvem de poeira que me entrou nos olhos, como aquelas do Lourenço das Arábias, foi uma ventania de euros, que iam fugindo desalmadamente, sem uma previsão que me tivesse alertado. È possível que na minha insensatez imaginasse uma coisa manhosa, erguida por curiosos, à portuguesa, e que ultrapassada a fase do entusiasmo se deixasse cair por inútil.

Os dois sábios sempre diziam que eles garantiam o bem-fazer (?) Mas, instintivamente eu, desde início, via serem uns tesos -pelo menos quanto à falta de capital circulante- Depressa vi que erams uns mãos largas com as contas que me entregavam, e que se, aparentemente, colaborarem por amor à arte, vi que tinham aprendido muito na escola: mostravam-me, para justificar a sua dedicação ao MEU projecto, uma lista, sempre crescente, de horas dedicas a este fim e de despesas menores, como portagens e cafés, sempre inerentes às suas gestões, e que eu devia amortizar. Se não semanalmente, era à quinzena, pois que necessitavam repor o dinheiro de bolso...lógico e correcto, nada a criticar. Até podiam pedir dinheiro adiantado... E se até agora não quantificaram em dinheiro das horas, eu já estou à espera da facada!

Desculpem esta choradeira, este desconsolo, tenham a certeza de que pressinto que o pior está para vir. Mas, esqueçam o que ouviram. Até o meu marido José, aqui presente, não me tinha ouvido estes lamentos. Mas quando ele se ofereceu para colaborar, só no capítulo do financiamento a fundo perdido, como aconteceu e acontece com os fundos europeus, com a “piquena-grande” diferença de que eles, os de Bruxelas, nos apanham à meia volta, ou de cernelha, sempre a malta acaba por pagar! É me apercebi de que o José estava ciente de que aquilo mais que uma estufa seria um poço, ou una estafa, como dizem nas suas origens além fronteira. Ele, sem papel nem lápis, já captou que aquilo ultrapassava, e muito, aquilo que eu nem sequer tinha quantificado. Para mim era um sonho, e os sonhos não carregam cifrões.

Entrem e perguntem. Eu procurarei vestir a farda de estufista convicta e “sastisfeita”

Só entrarão na próxima entrega. Agora temos que deixar secar a baba e ranho, ou lágrimas, com uma valente esfregona!

sábado, 11 de maio de 2019

NUNCA ACEITEI, MAS DESISTI




Em seguimento ao anterior escrito -que não da série das chochas “Crónicas”- , sinto o impulso de referir uma dúvida existencial que me pesou durante a minha puberdade e que, por muita insistência com que tentasse que o meu pai me elucidasse, jamais me senti satisfeito.

Vendo o que acontecia nas ruas e ouvindo os noticiários radiados -televisão não existia então, mas o que veio a seguir verifiquei que ser bem pior, ou pelo menos mais penoso de ver- perguntava eu COMO É QUE A POLÍCIA, hoje diria “as forças da ordem”, SENDO CONSTITUÍDA POR INDIVÍDUOS ORIGINÁRIOS DA MESMA POPULAÇÃO A QUEM BATEM E ALEIJAM, FAZEM ISSO? UNS E OUTROS SÃO MEMBROS DA MESMA CLASSE!

Não recordo que o meu pai me desse uma resposta que eu aceitasse como boa. Em geral limitava-se a dizer que aqueles polícias, sendo, de facto, gente “do povo” estavam treinados e mandados para obedecer, e nesta obediência estava o bater, aleijar e até matar os “seus irmãos”, e que em caso de não cumprir estrictamente às ordens seriam punidos severamente.

Na situação política em que vivíamos, nos anos 40/50 do século XX, era muito perigoso, especialmente para quem estava referenciado como “republicano” e daí “inimigo do regime”, avançar mais explicações elucidativas. Não podia referir, por exemplo, que o oficial que comandava trazia uma pistola engatilhada. Não para alvejar algum manifestante mais atrevido, mas concretamente para punir um dos seus comandados no caso de que este se negasse a “cumprir o seu dever”, ou seja, que virasse as costas aos manifestantes e se pusesse ao seu lado.

Com os anos admiti que esta pressão ameaçadora para conseguir um comportamento em sintonia com o comando, sempre deve ter existido e continuará a existir. Mas também admiti, sem problemas mentais, que os mais aguerridos, mais cumpridores da sua missão de repressão, o faziam com agrado, mesmo satisfeitos, fossem eles de má formação moral, independentemente do bando onde se encontrassem, ou porque eram convictos de justeza daquelas acções punitivas.

Se aceitarmos esta separação, excessivamente simplista, entre gente boa e gente má, e optarmos por não avaliar indivíduos isolados, porque de não ser assim caíamos no domínio das desculpas “esfarrapadas”, que fornecem argumentos justificativos para as actuações mais nefastas, entenderemos como podem existir denunciantes, torcionários, torturadores, carcereiros sádicos e abusadores, e toda a laia de gente indesejável que continua a proliferar, como sejam alguns dos membros de claques “desportivas” que, tantas vezes, cometem agressões e destruições de bens que em nada justificam nem valorizam grupos de indivíduos que renegam ser o desporto uma forma de manter sã a mente e também o corpo.

Tenho a obrigação e a satisfacção de poder qualificar a actuação das forças da ordem, em momentos de calma social e em especial quando o cidadão lhes solicita o seu apoio, que progressivamente são respeitadores, atentos, educados e atenciosos. Assim como não nos deve custar admitir que alguns cidadãos, com ou sem motivos válidos, tenham atitudes ou mesmo actos físicos provocadores, e que facilmente se tornam agressivos. Caso os agentes da ordem pública recuassem, sabemos que a reacção do grupo, já engrandecido, seria de insistir, avançar e destruir tudo aquilo que encontrassem no seu caminho.

Os pacíficos cidadãos, que são a maioria, quando se encontram perante tais situações, ficam com um dilema: que lado devemos apoiar? E precisamente os dilemas são difíceis de romper, pois dos dois lado se encontraram argumentos. Normalmente, os que não querem guerrear ou não compartem o “ideário” dos agressores, optam por se afastar, fechar-se em casa e aguardar que o temporal passe.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

CRÓNICAS DO VALE – Cap 81



Um almoço prolongado

Afinal aquele ribeiro galego, que deveria ser só um copinho enquanto os comensais se batiam com os aperitivos, escorregou que nem no ZooMarine. Ainda os pratinhos das tapas estavam a meio e já a garrafa tinha dado a sua última gota, que não um derradeiro suspiro, pois quem suspira tem que ser o bebedor e não o recipiente. A Gertrudes, sempre ateta, não demorou a trazer uma suplente, mas desta feita do lado sul do rio minho, com chacela nacional, patriótica. Com a sua chegada os quatro da “vida airada”aceleraram no esvaziamento dos pratinhos Desta feita suspirando de facto pelas ameijoas galegas e o jamón serrano.

Mas o peixe estava à espera e não se podiam demorar mais. Colocaram no meio da mesa uma travessa com um pregado de bom tamanho, que os vizinhos chamam de rodaballo, e com a garantia de não ser de aquacultura, mas bravio como um toiro ribatejano, sem cornos. Veio com molho de manteiga e salsa picada, enfeitado com umas rodelas de limão. A Gertrudes avisou que no molho já se tinha juntado uma boa dose de sumo de limão, e outros temperos que são segredo da sua cozinha.

Cada comensal decidiria se queria expremer a rodela ou confiava no molho. Como acompanhamento vinham uns grelos de nabo, sem amargor, cozidos a preceito, verdes como folhas recentes de uma árvore nesta altura. E numa tigela larga umas batatinhas, cozidas com pele, mas já descascadas, e previamente a serem servidas foram passadas por uma sertã com uns riscos de azeite virgem, bem quente e umas gotas de molho de piripiri caseiro.

Na outra travessa figurava um arroz de lampreia, em dose reduzida, pois que sempre se valorizou a adversão que algumas pessoas sentiam por aquele prato, onde prevalece o sangue escuro e o vinho tinto. Só para quem aprecie. Mas para quem deseje outro prato de peixe tenho, em andamento, uma caldeirada de peixe e marisco da ria, que pode satisfazer.

Vendo que a garrafa de verdelho já ia a meio e prevendo que não se passaria directamente para a água, mesmo que os copos já tivessem sido usados com este líquido indispensável, a Dona Gertrudes perguntou se queriam continuar a o branco ou, os que optassem pela lampreia prefeririam nem que fosse um jarrinho de tinto caseiro de confiança.

Todos se mostraram desejosos de comer tanto do pregado como da lampreia. A sugestão da caldeirada foi aprovada, mas não para esta refeição, pois todos já sentiam o peso de umas décadas às costas e é altura de ter juízo.

Amigo Sílvio, todos sabemos que é de boa educação não falar enquanto se come e tampouco comer quando se fala. Mas, que diabo! Quem é que não gosta de trocar umas palavras quando se está bem acompanhado? Eu, normalmente não me sento junto de pessoas que deteste, ou que me sejam inexplicávelmente repulsivas. Mas em situações como esta, a de agora, umas palavras sossegadas e interessantes podem ajudar a engolir um repasto, por muito agradável que seja de por si. O que lhe parece?
- O José, não é só pelo facto ter mais alguns anos do que nós, que lhe reconhecemos a sua experiência de vida, mais o tacto que sempre mostrou ter Tudo em si o faz merecedor de poder abrir e manter uma conversa acolhedora. Daí que lhe peça que ponha um tema sobre a mesa, e se estivermos afins de o seguir, acrescentaremos um ponto ao conto, um de cada vez.

Pois eu atrevo-me a comentar o recente desafio, quase que taurino, do nosso primeiro ministro que, depois de incitar as hostes com umas propostas dúbias, como se podia esperar de alguém com criação indostânica, conseguiu derrotar os opositores sem necessidade de disparar um tiro. Ao mesmo tempo calou os parceiros, que já se sentiam quase galos, e assim ficaram com a cabeça debaixo da asa. Por enquanto. E tudo sem prometer nada a ninguém. Foi tudo conseguido com elegância e malandrice q.b. Pelo menos esta é a minha visão sobre a actualidade.

- O Maragato não me desiludiu com este comentário. Vejamos: Não atacou nenhum dos lados, nem os diminuiu, só mostrou um certo respeito ou admiração pela jogada de xadrez que o Costa aplicou. Mas... isto foi numa fase em que jogo ainda não começou. Estamos no aquecimento das equipas. Da minha lavra pouco posso dizer que discorde de si, além de que, como sabe, eu estou no meio de um ninho de víboras potenciais e, por circunstâncias profissionais que me restringem, reconhece certamente que não me convêm manifestar-me em locais públicos, onde sempre existe o risco de que depois as minhas palavras se transfiram deturpadamente. Como dizia “o gordo” ao seu parceiro no número: Baptista não me comprometa! E ao ver estas blagues sabíamos que a personagem do moreno representava outro Baptista, mais importante.

E assim, comendo, bebendo e conversando cuidadosamente, deram cabo do enorme pregado e da dose de lampreia, sempre “repugnante”, tanto viva como cozinhada com o seu sangue, ou como sangue dos peixes de quem se tinha alimentado.

Está na hora de descansar, pedir os cafés, sem pressa e ponderar se nos vamos atrever com outra sobremesa que não seja uma fruta. Isso na hipótese de que não olhemos para os tentadores doces da Dona Isaura.

A sobremesa ficará para o seguinte capítulo. Não seja que o leitor fique em risco duma indigestão.