quarta-feira, 15 de maio de 2019

MEDITAÇÕES -Para aqueles dias...


Tratamente para dias negros

Quando rapaz, e já instalados em Portugal, recordo que uma Senhora Amiga, das nossas relações, com a qual dialogavam ela em português lisboeta e a mãe em castelhano, apesar de já ter notado que entre o catalão -sua língua materna e também minha- se encontravam muitas palavras comuns, e com uma pronúncia quase igual, ao contrário do que acontecia com o castelhano, com os seus agressivos J e H aspirados.

Já me desviei do roteiro. Ao que ia! A Amiga, certamente que numa sequência das habituais conversas de esposas, amavelmente se ofereceu para lhe emprestar-lhe um grosso, e famoso, livro de receitas culinárias que ela considerava equivalente a uma Bíblia das Cozinhas. Se o leitor se situar na época em que a acção decorre -anos 50 do século passado-já imaginou que estou referindo o famoso PANTAGRUEL, que depois eu depois o rebaptizei para Pantacruel. Porque fui encarregado de traduzir e escrever à máquina algumas receitas que, entre as duas, entenderam serem importantes. UMA SECA !!!

A razão de que eu lhe mudasse o nome estava em que, visceralmente discordasse das sequelas a muitas receitas, em que se ofereciam sugestões para aproveitar as sobras. Possivelmente com o intuito de agradar o Prof. Doutor António de Oliveira Salazar, que, além de rígido ditador se dizia ser um convicto ferreta, sempre predisposto para aproveitar tudo e inimigo de desperdiçar.

Embirrante e contestatário eu modificava algumas das receitas de aproveitamentos. Debitava uma ladainha de minha lavra que, mais ou menos, continha, além da encomendada preparação do perú assado no Natal, logo na página seguinte: arroz de restos de Peru de Natal, e eu punha mais outras receitas importantes, tais como: sopa de restos de arroz de restos de Peru do Natal, ou: guisado de massa meada com o molho e carcaça do Peru de Natal. Era a minha desforra por ter que traduzir e escrever receitas de cozinha. E são tantas as receitas do Pantagruel com sequelas que me causaram um espanto e uma vontade imensa de gozar com aquela afamada obra literária.

Mas a culinária louca continuou sempre latente em mim. Recordo uma vivência, relativamente recente, mas já com uns 15 anos de adega, que me saiu, espontâneamente ao chegar à caixa de um mini-mercado próximo da nossa residência, onde tinha por missão recompor certas existências.

Coloquei sobre o tapete rolante duas embalagens de leite e uma garrafa de vinho tinto.- A empregada perguntou, solícita, se era tudo. - Desta vez é só isso, mas não pense que é pouco. Com estes ingredientes vou fazer uma coisa muito especial, se quiser dou-lhe a receita. É uma receita bem antiga, dos frades do Clyster em Alcobaça.

Numa panela de tamanhomédio (quatro litros) deitam-se dois litros de leite fresco e põe-se a lume brando. Quando se veja que está quase a subir, mas antes disso, baixar o lume e ir deitando, lentamente, o vinho tinto, e temperando com canela em pó ou bauvnilha cristaliada, a gosto. Mexendo sempre com uma colher de pau para não coalhar. Apagar o lume e deixar arrefecer, tapando com a tampa respectiva. Depois de frio, engarrafar e vedar bem, com lacre se for necessário. E depois de repousar umas semanas, très ou quatro, deitar tudo fora, que deve ser uma porcaria!

As senhoras desculpem. Mas não resisti a esta brincadeira.

E AGORA... TACHIM TACHIM, A NOSSA RECEITA PARA DIAS NEGROS

Infelizmente sempre estamos propensos a problemas de tipo insolúvel,sejam de saúde, familiares ou profissionais, entre outros. A questão está em que nos deprimem, que ficamos mentalmente desmoralizados, e quando não estamos filiados a um psiqiatra que, pelo menos, nos alivie de algum capital, não sabemos como nos safar. É nesta situação que se torna útil a seguinte receita para dias negros.

Ingredientes:
uma colher de sopa, rasa de PACIÊNCIA
dose igual de OPTIMISMO
dose idêntica de RESISGNAÇÃO
mais uma colher de sopa, rasa, de CORAGEM
igual dose de RAIVA
e mais uma de FÉ NO SUPREMO

Juntar tudo numa tigela de vidro, mexer com uma vareta de arame até ficar homogéneo. Não é necessário temperar nem provar com a ponta do dedo indicador, pois que por muito que olhem nada verão. (nem outono, inverno ou primavera)

Se depois deste tratamento não sentirem melhoras e o mal se puder avaliar como de índole profissional, existe uma solução melhor, que funciona bem quando se é “afilhado” de uma personagem política bem situada no esquema. Ele pode ser a solução para todos os seus problemas. Mesmo assim, aconselha-se, encarecidamente, que quando procurarem este padrinho, deixem cair, como quem não quer, uma frase no género: … é que já sabe que eu sei de muitas coisas que não se podem contar... Os efeitos benéficos não devem tardar. É só uma questão de horas, minutos até. Padrinho e afilhado ficarão agarrados entre si, pelos ditos cujos, como dois siameses.

NOTA IMPORTANTE: Se o “padrinho” se atrever a perguntar o que é que sabe? A resposta é um encolher de ombros e faer a sua cara de parvo; ou dizer eu sou como um túmulo do faraó, e faz aquela mímica de quem cose a boca com agulha e linha grossa.preta de preferência, para dar mais peso ao gesto.


domingo, 12 de maio de 2019

CONTINUAMOS COM DOIS PAPAS


 DOIS PAPAS em simultaneous

Existirem dois Papas ao mesmo tempo não é inédito. Quando se deu o denominado Cisma de Ocidente, criou-se em Avinhão (França) e sob os auspícios do Rey de França, uma sede Papal onde São Pedro estava representado por Papas (ou antipapas segundo os de obediência a Roma), concretamente foram Clemente VII (1378-1394) e Bento XIII (1394-1417), enquanto em Roma estiveram na cadeira de Saõ Pedro: Urbano VI, Bonifacio IX, Inocencio VII e Gregório XII

A situação actual do clero romano, ou pelo menos dos cardeais e outros príncipes da Igreja, que deambulam pelo Vaticano, a julgar pelo pouco que transpira ao exterior, nos pode parecer que estão num clima de guerra interna, guerrilha, ou conspiração, devido à presença física de um Papa Emérito, Benedito XVI , reformado mas activo e pedra base para uma fracção conservadora, em oposição ao Papa Eleito Francisco, um jesuita argentino que se mostrou com vontade de modernizar por dentro a Igreja Católica, pelo menos em alguns capítulos.

As últimas semanas nos chegaram referências de desavenças entre os membros ultra-conservadores e os adictos a um agiornamento. Não é inédita esta intenção de ir reduzindo os costumes e o fausto que tanto agrada aos fieis mais conservadores. É um caminho lento, que já tornou normal a celebração da eucaristia cara aos fieis, assim como dirigir-se aos presentes no idioma vernáculo correspondente, reservando o latin canónico para algumas ceremónias muito específicas. As crianças já nãosãoincitadas a beijar as mãos do Senhor Cura, e os processos de pedofilia também influenciam para a necessidade de conseguir um respeito e estima não por regulamentos contra-natura.

Também já se deixou de transportar o Papa num trono carregado em ombros, tal como se herdou de egípcios e romanos, entre outros. É de prever que a simplificação das vestes sacerdotais, em todos os seus graus, venham a ser paulatinamente libertas de fausto. A educação dos fieis irá pressionando no sentido de que os membros da igreja se aproximem cada vez mais do que é usual entre os fieis. E que possam ver nestes membros de presença directa uns adicto em seguir a singeleza de Jesus. Já é raro encontrar na via pública um padre, cónego, bispo ou um outro membro da hierarquia, vestido como era habitual nos anos 50 de XX, sem estar paramentado para dar espectáculo. A pressão do ambiente e da cultura geral da população aceita e aplaude as iniciativas do Papa Francisco.

Discute-se sobre a obrigação do celibato, tantas e tantas vezes não cumprida. Sendo uma imposição muito posterior às indicações que se aceitam como terem sido dadas por Jesus à cidadania, hoje, a população cada vez sente-se menos agradada e respeitadora de falsidades; entende que qualquer lei ou norma, especialmente se póstumas, pode ser revertida sem prejuízo da fé.

Aliás, estas observações não são nada novas, pois já na época medieval as ordens mendicantes predicavam a fé em Cristo junto dos mais pobres, doentes e desfavorecidos. Sempre existiram, dentro da estrutura da Igreja, membros que reegavam do fausto, por ignomioso e teatral, além de sempre ter estado mais unido ao poder do que ao povo.

Sabemos que o fausto, as riquezas terrenas que se mostram, e as que estão rigorosamente guardadas, impõem admiração e respeito, o qual facilita a cativação de um certo nível de fieis, que aliás, tal como no futebol, é a base do seu poder de influência. Mas o que enerva os conservadores do Vaticano é o facto de sentir que O Papa Francisco, já idoso e bastante alquebrado, esteja vocacionado para colaborar de uma forma eficaz, em actualizar o culto para os esquemas sociais deste século, que sabe estar em mutação constante e acelerada. A presença do Emérito, a poucos metros da residência papal é um incentivo para os retrógrados e um estorbo para os evolucionistas (que devem ter saudades dos tempos, nem por isso muito longinquos, em que as mortes súbitas eram normais e previsíveis, se não provocadas)

CRÓNICAS DO VALE – Cap. 82




Uns comilões. E agora rumo à estufa !

Nunca pensei que depois das entradas e daquelas travessas de peixe ainda arranjassem um espaço para sobremesa. Mas como as damas foram as primeiras a “esquecer” o problema dos quilos de mais... Acompanhei os dois casais até ao balcão dos doces e frutas. Se calhar eles imaginavam que com estes metros de andadura, poucos em verdade seja dita, já ginasticavam como castigo e eliminavam umas gramas de excesso.

Seja como for, fiz-lhes meias doses, de oito doces! E assim fingiram que se empanturravam menos. A Amiga e cliente Isabel já me tinha avisado, ontem, que a conta era para eles, de forma que depois dos cafés lhes desejei um resto de tarde feliz, e Toca!, que se faz tarde.

Beijinhos e abraços e cuidado com a estrada. Recordem que apesar de haver poucos pesados circulando, nos sábados e domingos andam por aí muitos inconscientes, e os bombeiros com as suas ambulâncias, mais os hospitais com a falta de pessoal e de camas, detestam estes dias.

- Bem, já estamos reabastecidos por umas horas, Vamos rumar para Vale do Pito, como estava programado? Lá faremos base, depois de espreitar na minha estufa, que pouco tem que ver. Depois tomaremos uma ceia leve, um serão provinciano e teremos muito gosto em lhes proporcionar habitáculo, que suponho será de vosso agrado.

Tal como fizemos quando do encontro para a já famosa adiafa que ofereceu o dono da casa, que já começa a ter barriga! já não sei com que desculpa -na aldeia só se comentava isso durante semanas e meses!- eu proponho que a Diana me acompanhe no nosso carro e os maridos cavalheiros venham atrás, como pertence para nos proteger, no carro do Doutor Cardoso. Assim, durante um curto trajecto, uns e outros poderemos conversar sem interferências.
...
E chegamos à mansão dos Maragato, na qual actualmente resido por direito e vontade expressa dos dois membros do casal. A Idalina e a Alice parece que ouviram o barulho dos carros e nos dão as boas-vindas. Se a Isabel me permite, vou dar uns retoques nas orientações que deixei à governanta antes de ir para Aveiro. Penso que lhes seja agradável entrar e poderem servir-se da casa de banho do quarto que lhes preparamos. Aqui a Alice vos acompanhará com a vossa bagagem. O reencontro será neste mesmo terraço. Como não é uma viagem de agência, a demora é livre, sem compromissos. Até já. 

José, vens comigo depois de orientar a Idalina?

........

Sentem-se com força para aturar esta fantochada da estufa? Ou a curiosidade vence à indiferença ?

- Oh! Isabel. O que lhe aconteceu? O seu olhar, mortiço, e as suas palavras mostram uma certa descrença, ou desânimo em relação a um projecto, seu se não estou enganada, que até recentemente parecia que lhe renovava todas as suas forças de empresária-caseira, que não comercial neste caso.

- Tem toda a razão no que nos diz e agradeço a sua franqueza, pois é coisa que entre nós, lusitanos, não é habitual. É sabido que só embriagados é que soltam a verdade, quando normais optamos sempre pela ambiguidade ou pela lisonja de fancaria.

- Pois sim, já não recordo como embarquei nesta ideia macaca, para não lhe chamar macabra, e este termo é mesmo adequado porque sinto que tomou uma dimensão de problema não prevista inicialmente. Suponho que o vírus, ou a infecção, entrou folheando uma daquelas revistas da Casa e Jardim, ou coisa que o valha, num número recheado de belas fotografias de estufas glamorosas  onde damas formosas e bem trajadas, mesmo que com jardineiras de autor consagrado, e munidas de regadores e tesouras de podar, que aposto não sabem manejar, diziam, o escreveram outros como tendo sido palavras delas, que se sentiam “realizadas” como jamais em tempo algum. Num aparte direi que este uso de estar, ou não, realizada/o faz-me doer os olhos, os ouvidos e a mente, tudo numa cacofonia insuportável.

Também contribuiu à minha queda a conversa com uma cliente do salão que, como me informou, tinha um filho que terminou um curso qualquer de agricultura, jardinagem, floricultura e eu sei lá quantas coisas mais terminadas em -ura. E que este filho, se ela lho propusesse (? só mais tarde entendi, ontem para ser mais concreta, que me estava a passar a carta do burro!) que me desse uma mãozinha neste meu desejo, teria toda a sua colaboração, pois que era um rapaz educado, trabalhador, conhecedor do tema das estufas, etc. e tal. Uma pérola, em suma! À mama só lhe faltava uma guitarra no acompanhamento...
E eu, entusiasmada! Já me via entrevistada e fotografada, com orquídeas de variadas formas e cores, alfazema de estirpe francesa, e num cantinho, convenientemente escondido, um canteirozinho com cenouras, alfaces e “raspanetes”, para que com estes produtos hortícolas fosse possível justificar o investimento. Foi isso mesmo: o investimento, que me deixou de rastros. Foi como se me tivesse investido um toiro do Palha antes de lhe serrarem os cornos. O diplomado em couves e hortenses apareceu acompanhado de um colega. De repente vi que tinha que dar mama a dois!, pois que isso de dar conselhos profissionais de borla é coisa que não se usa por estes lados. Promessas sim, como as de ir até Fátima e deixar algum pilim.

Mas os rapazes, simpáticos de verdade e bem parecidos (se não estivesse presa e agradada aqui como Maragato, era capaz de lidar os dois, juntos ou por separado. Desculpem a franqueza, mas naquela altura tremiam-me as pernas e tinha os mamilos mais rijos do que batatas encruadas). Não vos quero “desilodir” ao nível em que hoje me encontro. E como com este blá-blá-blá já demos a volta à mansão Maragateiril aqui têm,a porta de entrada desta “estortura”, da minha estufa. Mais valia que tivesse ido para a escola de hotelaria no curso monográfico de carne estofada!

- Amiga Isabel! Será que o almoço lhe caiu mal? Foi da lampreia? Eu estou pasmada com esta sua reviravolta, mesmo de 360 degraus como diz o povão que nos alimenta...O que de facto pretende dizer é que não desejava girar em redondo, que preferia fugir a sete pés e esquecer esta veleidade que hoje valoriza de sem sentido. Tem que ultrapassar esta nuvem de poeira que a derrubou. Quando a conheci e até este momento, a avaliei como uma pessoa irresoluta, valente, empreendedora e lutadora. E hoje, de repente, parece derrotada e com a conta de nove já ultrapassada. Está a tirando a toalha, como os lutadores?

- Tem quase razão, a doutora, mas não é uma nuvem de poeira que me entrou nos olhos, como aquelas do Lourenço das Arábias, foi uma ventania de euros, que iam fugindo desalmadamente, sem uma previsão que me tivesse alertado. È possível que na minha insensatez imaginasse uma coisa manhosa, erguida por curiosos, à portuguesa, e que ultrapassada a fase do entusiasmo se deixasse cair por inútil.

Os dois sábios sempre diziam que eles garantiam o bem-fazer (?) Mas, instintivamente eu, desde início, via serem uns tesos -pelo menos quanto à falta de capital circulante- Depressa vi que erams uns mãos largas com as contas que me entregavam, e que se, aparentemente, colaborarem por amor à arte, vi que tinham aprendido muito na escola: mostravam-me, para justificar a sua dedicação ao MEU projecto, uma lista, sempre crescente, de horas dedicas a este fim e de despesas menores, como portagens e cafés, sempre inerentes às suas gestões, e que eu devia amortizar. Se não semanalmente, era à quinzena, pois que necessitavam repor o dinheiro de bolso...lógico e correcto, nada a criticar. Até podiam pedir dinheiro adiantado... E se até agora não quantificaram em dinheiro das horas, eu já estou à espera da facada!

Desculpem esta choradeira, este desconsolo, tenham a certeza de que pressinto que o pior está para vir. Mas, esqueçam o que ouviram. Até o meu marido José, aqui presente, não me tinha ouvido estes lamentos. Mas quando ele se ofereceu para colaborar, só no capítulo do financiamento a fundo perdido, como aconteceu e acontece com os fundos europeus, com a “piquena-grande” diferença de que eles, os de Bruxelas, nos apanham à meia volta, ou de cernelha, sempre a malta acaba por pagar! É me apercebi de que o José estava ciente de que aquilo mais que uma estufa seria um poço, ou una estafa, como dizem nas suas origens além fronteira. Ele, sem papel nem lápis, já captou que aquilo ultrapassava, e muito, aquilo que eu nem sequer tinha quantificado. Para mim era um sonho, e os sonhos não carregam cifrões.

Entrem e perguntem. Eu procurarei vestir a farda de estufista convicta e “sastisfeita”

Só entrarão na próxima entrega. Agora temos que deixar secar a baba e ranho, ou lágrimas, com uma valente esfregona!

sábado, 11 de maio de 2019

NUNCA ACEITEI, MAS DESISTI




Em seguimento ao anterior escrito -que não da série das chochas “Crónicas”- , sinto o impulso de referir uma dúvida existencial que me pesou durante a minha puberdade e que, por muita insistência com que tentasse que o meu pai me elucidasse, jamais me senti satisfeito.

Vendo o que acontecia nas ruas e ouvindo os noticiários radiados -televisão não existia então, mas o que veio a seguir verifiquei que ser bem pior, ou pelo menos mais penoso de ver- perguntava eu COMO É QUE A POLÍCIA, hoje diria “as forças da ordem”, SENDO CONSTITUÍDA POR INDIVÍDUOS ORIGINÁRIOS DA MESMA POPULAÇÃO A QUEM BATEM E ALEIJAM, FAZEM ISSO? UNS E OUTROS SÃO MEMBROS DA MESMA CLASSE!

Não recordo que o meu pai me desse uma resposta que eu aceitasse como boa. Em geral limitava-se a dizer que aqueles polícias, sendo, de facto, gente “do povo” estavam treinados e mandados para obedecer, e nesta obediência estava o bater, aleijar e até matar os “seus irmãos”, e que em caso de não cumprir estrictamente às ordens seriam punidos severamente.

Na situação política em que vivíamos, nos anos 40/50 do século XX, era muito perigoso, especialmente para quem estava referenciado como “republicano” e daí “inimigo do regime”, avançar mais explicações elucidativas. Não podia referir, por exemplo, que o oficial que comandava trazia uma pistola engatilhada. Não para alvejar algum manifestante mais atrevido, mas concretamente para punir um dos seus comandados no caso de que este se negasse a “cumprir o seu dever”, ou seja, que virasse as costas aos manifestantes e se pusesse ao seu lado.

Com os anos admiti que esta pressão ameaçadora para conseguir um comportamento em sintonia com o comando, sempre deve ter existido e continuará a existir. Mas também admiti, sem problemas mentais, que os mais aguerridos, mais cumpridores da sua missão de repressão, o faziam com agrado, mesmo satisfeitos, fossem eles de má formação moral, independentemente do bando onde se encontrassem, ou porque eram convictos de justeza daquelas acções punitivas.

Se aceitarmos esta separação, excessivamente simplista, entre gente boa e gente má, e optarmos por não avaliar indivíduos isolados, porque de não ser assim caíamos no domínio das desculpas “esfarrapadas”, que fornecem argumentos justificativos para as actuações mais nefastas, entenderemos como podem existir denunciantes, torcionários, torturadores, carcereiros sádicos e abusadores, e toda a laia de gente indesejável que continua a proliferar, como sejam alguns dos membros de claques “desportivas” que, tantas vezes, cometem agressões e destruições de bens que em nada justificam nem valorizam grupos de indivíduos que renegam ser o desporto uma forma de manter sã a mente e também o corpo.

Tenho a obrigação e a satisfacção de poder qualificar a actuação das forças da ordem, em momentos de calma social e em especial quando o cidadão lhes solicita o seu apoio, que progressivamente são respeitadores, atentos, educados e atenciosos. Assim como não nos deve custar admitir que alguns cidadãos, com ou sem motivos válidos, tenham atitudes ou mesmo actos físicos provocadores, e que facilmente se tornam agressivos. Caso os agentes da ordem pública recuassem, sabemos que a reacção do grupo, já engrandecido, seria de insistir, avançar e destruir tudo aquilo que encontrassem no seu caminho.

Os pacíficos cidadãos, que são a maioria, quando se encontram perante tais situações, ficam com um dilema: que lado devemos apoiar? E precisamente os dilemas são difíceis de romper, pois dos dois lado se encontraram argumentos. Normalmente, os que não querem guerrear ou não compartem o “ideário” dos agressores, optam por se afastar, fechar-se em casa e aguardar que o temporal passe.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

CRÓNICAS DO VALE – Cap 81



Um almoço prolongado

Afinal aquele ribeiro galego, que deveria ser só um copinho enquanto os comensais se batiam com os aperitivos, escorregou que nem no ZooMarine. Ainda os pratinhos das tapas estavam a meio e já a garrafa tinha dado a sua última gota, que não um derradeiro suspiro, pois quem suspira tem que ser o bebedor e não o recipiente. A Gertrudes, sempre ateta, não demorou a trazer uma suplente, mas desta feita do lado sul do rio minho, com chacela nacional, patriótica. Com a sua chegada os quatro da “vida airada”aceleraram no esvaziamento dos pratinhos Desta feita suspirando de facto pelas ameijoas galegas e o jamón serrano.

Mas o peixe estava à espera e não se podiam demorar mais. Colocaram no meio da mesa uma travessa com um pregado de bom tamanho, que os vizinhos chamam de rodaballo, e com a garantia de não ser de aquacultura, mas bravio como um toiro ribatejano, sem cornos. Veio com molho de manteiga e salsa picada, enfeitado com umas rodelas de limão. A Gertrudes avisou que no molho já se tinha juntado uma boa dose de sumo de limão, e outros temperos que são segredo da sua cozinha.

Cada comensal decidiria se queria expremer a rodela ou confiava no molho. Como acompanhamento vinham uns grelos de nabo, sem amargor, cozidos a preceito, verdes como folhas recentes de uma árvore nesta altura. E numa tigela larga umas batatinhas, cozidas com pele, mas já descascadas, e previamente a serem servidas foram passadas por uma sertã com uns riscos de azeite virgem, bem quente e umas gotas de molho de piripiri caseiro.

Na outra travessa figurava um arroz de lampreia, em dose reduzida, pois que sempre se valorizou a adversão que algumas pessoas sentiam por aquele prato, onde prevalece o sangue escuro e o vinho tinto. Só para quem aprecie. Mas para quem deseje outro prato de peixe tenho, em andamento, uma caldeirada de peixe e marisco da ria, que pode satisfazer.

Vendo que a garrafa de verdelho já ia a meio e prevendo que não se passaria directamente para a água, mesmo que os copos já tivessem sido usados com este líquido indispensável, a Dona Gertrudes perguntou se queriam continuar a o branco ou, os que optassem pela lampreia prefeririam nem que fosse um jarrinho de tinto caseiro de confiança.

Todos se mostraram desejosos de comer tanto do pregado como da lampreia. A sugestão da caldeirada foi aprovada, mas não para esta refeição, pois todos já sentiam o peso de umas décadas às costas e é altura de ter juízo.

Amigo Sílvio, todos sabemos que é de boa educação não falar enquanto se come e tampouco comer quando se fala. Mas, que diabo! Quem é que não gosta de trocar umas palavras quando se está bem acompanhado? Eu, normalmente não me sento junto de pessoas que deteste, ou que me sejam inexplicávelmente repulsivas. Mas em situações como esta, a de agora, umas palavras sossegadas e interessantes podem ajudar a engolir um repasto, por muito agradável que seja de por si. O que lhe parece?
- O José, não é só pelo facto ter mais alguns anos do que nós, que lhe reconhecemos a sua experiência de vida, mais o tacto que sempre mostrou ter Tudo em si o faz merecedor de poder abrir e manter uma conversa acolhedora. Daí que lhe peça que ponha um tema sobre a mesa, e se estivermos afins de o seguir, acrescentaremos um ponto ao conto, um de cada vez.

Pois eu atrevo-me a comentar o recente desafio, quase que taurino, do nosso primeiro ministro que, depois de incitar as hostes com umas propostas dúbias, como se podia esperar de alguém com criação indostânica, conseguiu derrotar os opositores sem necessidade de disparar um tiro. Ao mesmo tempo calou os parceiros, que já se sentiam quase galos, e assim ficaram com a cabeça debaixo da asa. Por enquanto. E tudo sem prometer nada a ninguém. Foi tudo conseguido com elegância e malandrice q.b. Pelo menos esta é a minha visão sobre a actualidade.

- O Maragato não me desiludiu com este comentário. Vejamos: Não atacou nenhum dos lados, nem os diminuiu, só mostrou um certo respeito ou admiração pela jogada de xadrez que o Costa aplicou. Mas... isto foi numa fase em que jogo ainda não começou. Estamos no aquecimento das equipas. Da minha lavra pouco posso dizer que discorde de si, além de que, como sabe, eu estou no meio de um ninho de víboras potenciais e, por circunstâncias profissionais que me restringem, reconhece certamente que não me convêm manifestar-me em locais públicos, onde sempre existe o risco de que depois as minhas palavras se transfiram deturpadamente. Como dizia “o gordo” ao seu parceiro no número: Baptista não me comprometa! E ao ver estas blagues sabíamos que a personagem do moreno representava outro Baptista, mais importante.

E assim, comendo, bebendo e conversando cuidadosamente, deram cabo do enorme pregado e da dose de lampreia, sempre “repugnante”, tanto viva como cozinhada com o seu sangue, ou como sangue dos peixes de quem se tinha alimentado.

Está na hora de descansar, pedir os cafés, sem pressa e ponderar se nos vamos atrever com outra sobremesa que não seja uma fruta. Isso na hipótese de que não olhemos para os tentadores doces da Dona Isaura.

A sobremesa ficará para o seguinte capítulo. Não seja que o leitor fique em risco duma indigestão.

O QUE PENSAVA ESCREVER E PORQUE DESISTI



A discordância entre o AT. E o NT.

Ao longo dos anos e como reflexo da noção de incompatibilidade bélica entre os denominados “povos do livro”, que correspondem aos que no campo das convicções religiosas obedecem, com maior ou menor evidência, os ensinamentos que encontram no LIVRO, que não é outro do que o antigo testamento da Bíblia, a parte básica comum nas três religiões que desde os tempos mais recuados se guerreiam sangrentamente.

Judeus, cristãos e muçulmanos, numa ordem cronológica, são os responsáveis por milhões de mortes de inocentes, ou de alguns dos seus fanáticos, sem que, friamente, lhes encontremos motivos sociais suficientes para mínimamente justificar as incompatibilidades.

Analiticamente temos que aceitar que entre as três religiões preponderantes no mundo ocidental, o cristianismo é aquela que mais tentou uma adaptação aos tempos modernos, a se actualizar e oferecer uma doutrina a seguir que se ajuste melhor - ou tanto quanto lhes pareça sem possível- ao pensamento mais livre e democrático -sem nos restringir à política dos ditos políticos- Até hoje já se libertaram de uma parte da teatralidade ancestral, que tanto satisfaz os retrógrados, mas não se decidiu a romper com a totalidade do fausto e sinais de pretensa sobrenaturalidade, para não desiludir os seus mais fervorosos seguidores.

Pelo contrário, e apesar de existirem no seu seio ramos de reformadores, entre Judeus e muçulmanos prevalecem os mais conservadores, muitos ainda na fase medieval do pensamento que rege o seu comportamento.

Pessoalmente, mesmo sendo ateu por convicção, nunca deixei de ter interesse na leitura do Livro que nos condiciona, queiramos ou não. A leitura completa do Antigo Testamento -que sem dúvida é o mais apreciado pelos ortodoxos de cada um dos três ramos- e enfadonha ,por ser excessivamente reiterativa e ligada a épocas e sentimentos que as sociedades modernas não podem aceitar de peito aberto.

Uma das facetas que se tornam desagradáveis é a de promover e justificar a violência contra aqueles que não professam da sua visão do A.T. As guerras e massacres cometidos, e ainda por cometer, com a pretensa justificação de serem contrários à sua fé, não se pode aceitar actualmente. Os tempos mudaram, mas, infelizmente, nem todos os habitantes que já se consideram como elementos da sociedade do século XXI, e não desejam abdicar dos ensinamentos que lhes são inculcados desde crianças.

Tentei, e dessisti, de fazer e oferecer uma compilação exaustiva de todo o sangue derramado no A.T., sem que as justificações de outrora nos satisfaçam. Pelo contrário, todos sabemos que o Novo Testamento é um repositório homogéneo de concordia, perdão, convicção, caridade e fraternidade. Na doutrina que se foi construindo a partir dos relatos dos que acompanharam Jesus na sua passagem entre nós, sempre escritos por outros e a posteriori, observa-se, claramente, uma antítese total entre os ensinamentos exclusivistas, vingativos e cruéis dos textos bíblicos anteriores. O que se pretendeu oferecer à população são regras (nem sempre seguidas) fruto da nova visão de como nos deveríamos comportar.

Esta minha qualificação do cristianismo -e não só minha mas certamente bastante comum na sociedade actual- não anula totalmente a noção de ENTRE O DITO E O FEITO HÁ UM FOSSO, ou que FAZ O QUE EU DIGO E NÃO FAÇAS O QUE EU FAÇO.

As referências mais habituais desta dualidade de critério encontram-se nos conflitos armados, nos quais se pretende liquidar fisicamente o adversário mas sem a preocupação de os convencer e ficar “como irmãos”. Dos dois lados da barricada sempre houve, e haverá, uns profissionais da fé que, com palavras doces, procurarão levantar o ânimo dos seus soldados para que matem, com sanha cruel, aqueles que estão em situação idêntica. Em geral, tanto de um lado como do outro, obrigados mas não convencidos de que morrer e matar possa servir para nada de  bom.

Esta dualidade existente e fomentada entre os humanos sempre me preocupou desde a puberdade, e me afastou da catequização vigente.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

CRÓNICAS DO VALE – Cap. 80



Um almoço de dois casais amigos.

Se calhar viemos demasiado cedo. Mas assim tive tempo de comprovar que as equipas dos salões continuam a seguir as regras que deixei estabelecidas. Achas que devemos entrar ou esperamos no carro?

O melhor será entrar e ver que mesa nos foi reservada. Com certeza que a dona Gertrudes nos dará uma ideia do que preparou para nos servir. Mas eu prefiro ir ficando à expectativa e ter surpresas gostosas. Quando te sentares pede um cálice de porto branco seco, bem frio, e umas amêndoas torradas, daquelas que lhe mandam desde Espanha. As que só com um toque já soltam a pele. Eu vou até o quiosque da esquina e comprar o jornal, para fingir que leio. Não me demoro.

  • Boa tarde, amiga Gertrudes. Sabia que os nossos amigos, os que devem estar a chegar, ficaram muito agradados da forma como nos atenderam e do que lhes serviu no dia em que cá estivemos com eles? Pois deve ser o que acontece com todos os seus clientes, já que nunca vi quem se levantasse da mesa com cara de ter mal comido. Merece bem aquele diploma que lhe entregaram os do turismo local, e por três anos seguidos! Além dos recortes de jornais e revistas que os seus clientes lhe trazem para juntar no seu livro de recordações.
  • Ora, doutora Diana e doutor Cardoso, uma alegria vos ver. E que bem parecidos ficam com roupagens informais, livrando-se dos trajos, digamos sérios, a que os obrigam os estatutos. O José foi procurar um jornal; deve ser para se abanar pois não creio que consiga ler estando acompanhado. Cá está ele!
  • Posso  saudar este formoso casal? A doutora em primeiro lugar, como é de preceito e um abraço para o Amigo Cardoso. E se nos sentássemos?

- Amigo Maragato, um pedido, quase um ralhete, creio recordar que lhe tínhamos ficado que, quando as obrigações sociais do cargo, não estivessem presentes, gostávamos de que nos tratassem só por Diana e Sílvio, e do nosso lado os amigos continuariam como Isabel e José.

Uma boa mesa esta. Nem escondida, pois não vamos conspirar, nem exposta em demasia. O que é que a Dona do local nos preparou? Se o José não sabe, como se deduz do seu abanar de cabeça, será pertinente chamar a dona Gertrudes; não é este o nome da senhora?_

- Boa tarde, minhas senhoras e seus maridos. Se não se importam vou recitar o que escolhi da ementa geral, seguindo as indicações de liberdade total que a dona Isabel, cliente e amiga de longa data, me deu quando disse preferir ter surpresas à mesa. Podem começar, como é hábito, por umas pequenas entradas, tipo aperitivo. Algumas são tradicionais e outras as mandei vir da vizinha Espanha para agradar ao também cliente e também amigo José Maragato.

Oiçam com atenção e se alguma das coisas que nomear não agrade é dizer, que aqui nada se perde:

  • Umas lascas, pequenas, cortadas com a longa e estreita faca tradicional por lá, de jamón serrano. Do autêntico! E que tenho reservado para clientes muito especiais, como é o caso de hoje.
  • Umas ameijoas de lata, galegas, sem desprimor das nossas ameijoas abertas no momento. Mas as que eles põem como tapas nos bares tem, de facto, um sabor especial.
  • Meia dúzia, ou dúzia e meia, se eu vir que desaparecem milagrosamente, de azeitonas partidas, vindas directamente das terras dos meus pais, tios e primos.
  • Uns bocadinhos de pickles feitos na casa, com verduras seleccionadas e vinagre autêntico.
  • E finalmente um pratinho da minha versão dos callos espanhóis, com colorau e pimenta para temperar o molho.
  • Desta feita não vos falo em joaquinzinhos, nem enguias fritas ou caracoletas do mar. Nem sequer de percebes ou de ovas de pescada, nem linguiça assada na canoa com aguardente. Hoje deu-me para entrar no flamenco! Para a próxima, se estiver na época, vos apresentarei umas alcachofras fritas com polme, à maneira de uma cliente espanhola que também se tornou freguesa certa.
  • E para bebericarem com as entradas o melhor é que sejam os senhores a dar a indicação. Sei que o Dr. José, quando vem ambientado, pede um porto branco seco e bem frio. Mas atrevo-me a dizer que tenho no frio um alvarinho galego, de três estalos. Que tanto pode servir para abrir boca como para o primeiro prato a sério.
- Sílvio, e se fossemos ao tal alvarinho? As senhoras jogam neste convívio luso-galaico? Poderia ser um alvarinho de Monção, que também é bom, mas a proposta da casa creio que é para respeitar. O nacional será noutra ocasião. Prometo!

Todos estão de acordo, e ansiamos por começar a petiscar. Dona Gertrudes, isto será demorado?

- Qual que. Está tudo preparado e já fiz sinal a uma ajudante que, se repararem, já traz uma travessa bem servida de aperitivos. Sem castanholas nem saiotes de bolas, mas com boa disposição.

As doses, como podem observar, não são tão minúsculas como as tapas de alguns bares -a não ser na Galiza e na costa cantábrica- pois quis dar oportunidade a que os quatro presentes pudessem picar. Ah! E se alguma desta iguarias souber a pouco... Não se acanhem, façam sinal que existe uma reserva especial!

Quanto ao peixe, não vos adianto o que tenho para os senhores. Só que serão duas especialidades a repartir. Já verão se depois preferem continuar com pratos de carne ou se reservam um pouco de estômago para as sobremesas “da casa”, mas esta “da casa” não é uma daquelas tretas que é costume impingir a cientes de uma vez. Mais não explico, só admito que os mais curiosos se levantem e venham até à copa para deitar o olho ao que a vossa Gertrudes seleccionou.

O café pode acompanhar-se com um digestivo -será que ajuda a digerir?- mas não com um charuto, pois que a legislação não permite...