terça-feira, 7 de maio de 2019

CRÓNICAS DO VALE - Cap. 79



Temos que planificar o encontro

José. Falei agora mesmo com a Doutora Diana Cardoso, e parece que após exaustivos diálogos com o marido chegaram à conclusão de que este fim de semana, ou seja no próximo sábado, era o dia mais propício (segundo rezam os astros, digo eu) para nos reunirmos. Almoçar e “aospois” dar uma volta pela excessivamente falada estufa, mais cacarejada do que o ovo da galinha cocó, aquelas minúsculas. Põem uns ovinhos que mais parecem de pomba

.E a propósito, a Idalina me elucidou acerca das notáveis características destas mini-galinhas. Diz ela que são umas excelente chocadeiras e ainda melhores amas para ovos das galinhas normais. Que quando ficam com o choco, quem as tem sempre as deita com ovos de outros, nem que sejam de pata, mas que sejam garantidamente galados, ou seja, fecundados.

Muito se aprende com as pessoas do campo. É uma cultura que seria uma perda enorme caso se esquecer.

Mas vamos ao nosso assunto. A Diana referiu que tinham apreciado a refeição que lhes proporcionamos na Caleche, aquele restaurante da Vila onde tantas vezes almoçamos e jantamos antes de eu me mudar com cama e pucarinhos para o teu casarão. Onde não sei se reparaste, sempre me sinto como uma usurpadora dos bens da tua mulher Constança, prematuramente falecida, mas de cujo fim eu não tive culpa, nem conhecimento.

Penso que hoje, depois de almoçarmos, vou dar uma visita à, para dar uma olhadela de patroa aos meus estabelecimentos de beleza, e também passarei pela Caleche para combinar com a Dona Gertrudes um almoço simpático, típico mas não muito pesado. Deixarei a selecção dos manjares à decisão dela e, certamente, que dependerá do que encontrar de frescos no mercado. Pela cara que fez quando lhe disse que teríamos aqueles convidados, de quem se lembra, vi que tinha tenção de fazer o seu melhor.

Ainda queria falar contigo de mais uma coisa. Como entre a sobremesa, café-falado e nos deslocarmos até o Vale do Pito, mais a visita técnico-turística à minha estufa -ou nossa, caso tu colaborares com a despesa, que já vai muito alta- pensei que poderíamos tentar completar o fim-de-semana em comum se aceitassem passar o serão em casa, e dormir também, pois o que não faltam cá é quartos preparados para casal. O que dizes?

- Eu pouco tenho a dizer, mais do que dizer, muito de ouvir. Mas, muito a sério, digo que fizeste um bom trabalho, que estou a 300 % contigo, se isso  matematicamente fosse possível. Mas antes de te meteres em acção para a segunda parte creio que tens que apresentar as tuas ideia à amiga Diana, e ela não sei se terá alvará para te responder de imediato ou terá que consultar ao seu marido quando chegar a casa

Meu “crido”, como sei que detestas ouvir! Desta vez não consegui deixar de te picar. Tens toda a razão. Logo que consiga falar com a doutora Diana, tratarei de procurar a companhia caseira para o serão campestre. E, postos a ser uma carraça, sondarei para ver se, indo em carros separados, nos acompanhavam num passeio dos tristes domingueiros Onde não imagino, mas sei que eles não tem vontade de entrar é em Coimbra. Deixaram a área académica local aos das capas e batinas, e similares. A não ser que eles gostem das actuações “músico-ginásticas” que, com pandeireta e saltos acrobáticos foleiros, imitando as tunas dos vizinhos espanhóis, se tornaram prato forte nas apresentações académicas.

Ao jantar:

Já ficou tudo combinado! A amiga Diana quase que estava eufórica, faltava uma unha para o entusiasmo. Vamos encontrar-nos na Caleche por volta do meio-dia e meia. Quem chegar primeiro apresenta-se à dona e toma lugar na mesa. E depois, o resto do fim-de-semana vai seguir o plano, indefinido, de serão e voltinha dominical.

Ao longo do serão e com um mapa aberto, os dois maridos podem estudar a rota a seguir. MAS, antes de decidir, será de bom tom pedir a opinião das esposas. Nem que seja um “pró-forma”, pois em princípio e com base no que as duas falamos, parece que a única pedra no sapato está na Lusa Atenas.

As pessoas, quando num local lhes aconteceu alguma vivência menos agradável criam uma adversão, inconsciente mas por vezes profunda, que os induz a evitar a terra ou cidade em questão. Nem tudo o que sentimos e fazemos obedece a um raciocínio frio e ponderado.

AS RELIGIÕES DO LIVRO - Um anexo



Tentativa de situar no espaço e no tempo

Toda a especulação acerca da influência das normas contidas na Bíblia carece de uma visão histórica e social das civilizações que se organizaram na zona que conhecemos como oriente próximo.

O homem, normalmente um animal gregário e com uma evolução social inicialmente de tipo recolector e caçador, e como tal pouco sedentário, na sua evolução descobriu o fogo, como o fazer e manter. A seguir domesticou alguns animais. Tornou-se pastor e agricultor, inicialmente transumante e depois sedentário. Uma evolução que careceu de tempo para se efectivar; milénios até. Durante esta fase evolutiva o cerebro humano teve muitas oportunidades para pensar, discorrer e tentar explicar algumas das situações estranhas com que se deparava, entre elas a morte. Mas não só. As mudanças do tempo, a periodicidade das estações não tardaram a ser observados e aguardados. Procurou nas estrelas, no voo dos pásaros, nos ventos, etc. as explicações para os factos.

As migrações dos animais. Os períodos de fertilidade das fêmeas. As doenças e epidemias. A influência notória das fases da lua. Os ventos, por vezes terríveis. Os cataclismos. As marés. Os períodos de seca extrema em contraste com as chuvas persistentes; etc. O homem foi-se deparando com assuntos que não conseguia explicar.

Esta situação não lhe era cômoda. Ele necessitava de encontrar uma entidade com quem se apoiar. O primeiro apoio veio com a figura do chamam, o bruxo, o feiticeiro em suma. Um indivíduo que sendo originário do seu grupo afirmava que mantinha diálogo com o oculto, fossem as aves, as águas, as árvores, o fogo ou até uma figura antropomórfica que o ajudasse a conseguir credibilidade. Daí surgiu o animismo. (1) Evoluiu para estructuras mais complexas e elaboradas, nas quais os membros mais habilitados adquiriram o estatuto de sacerdotes e visionários.

A área entre a costa mediterrânea, a poente, e o indostão a oriente, foi berço de várias religiões, muito antes do que (milénios) através da Grécia e do Egipto, a “cultura” chegasse à Europa ocidental. Destas civilizações, de Caldeus, Mesopotâmicos, etc. evoluíram as proto-religiões que originaram as que nos ocupamos neste tosco estudo.

Avançando: Todas as religiões têm em comum o serem engendradas pelo homem, todas afirmam terem sido reveladas; todas mentem! O intuito que os moveu foi o de explicar aquilo que não se entendia, e colocar mais outras dúvidas nas mentes que os escutavam. São tão “verdadeiras” umas como as outras todas, incluídos os fetiches dos povos mais selvagens, mais a sua evolução para as quiromantes, videntes, astrólogos e demais gananciosos.

(1) doutrina que atribui às coisas inanimadas uma alma análoga à alma humana

segunda-feira, 6 de maio de 2019

AS RELIGIÕES DO LIVRO - 1º capítulo

UM ENSAIO PARA ENTENDER PORQUE SOMOS TÃO MATADORES

Dou como sabido, pois considero os meus seguidores medianamente ilustrados, que sabem quais são as chamadas religiões do livro e que o livro em si é a Bíblia, mais concretamente o Antigo Testamento, pois que o Novo Testamento corresponde aos relatos de acontecimentos vividos por Jesus, ou relatados, com maior ou menor dose de fantasia pelos Evangelistas, Epístolas e posteriores criações literárias às que se deu o alvará de dogmas de fé.

Aquilo onde me dedicarei neste pequeno estudo é, concretamente, no que consta do ANTIGO TESTAMENTO, que, em princípio é a base das doutrinas judaica, cristã e muçulmana, se as situarmos pela ordem de antiguidade.

Como não poderia deixar de acontecer nenhum destes três grupos de crentes é homogéneo entre si, e devemos recordar que até tempos bem recentes, a leitura do Antigo Testamento estava interdita aos católicos. Existe uma compilação, seleccionados com critérios de hermetismo, que se ofereciam como uma base pré-cristã com o nome de “história sagrada”. Uma das facetas que surgiram com o protestantismo, cristão, foi o da insistente consulta dos textos do tal Antigo Testamento. Quais as razões que justificavam esta diferença de documentos a consultar é um assunto ligado à censura eclesiástica.

Aquilo que me impulsionou a entrar neste campo minado é o de procurar explicar porque os crentes (os obcecados!) em qualquer um destes três grupos, são tão exclusivistas e predispostos às soluções drásticas, concretamente ao extermínio do oponente em vez de tentar uma concórdia, como normalmente se entende eram as regras de Jesus nas suas prédicas.

Vamos iniciar com a pesquisa no Antigo Testamento, pelo GÉNESIS, escolhendo os trechos mais ligados à violência que os criadores desta proto-religião consideraram como essenciais para ser divulgados:

PRIMEIRO LIVRO DE MOISÉS
A criação do céu e da terra e e tudo o que nela se contém

1,26 E disse Deus: Façamos o homem a nossa imagem, conforme a nossa semelhança …
1,27 E criou Deus o homem... criou macho e fêmea....
1,28 E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.
2,8 E plantou o Senhor Deus um jardim no Eden, dabanda do oriente: e pôs ali o homem que tinha formado.
2,9 E o Senhor Deus fez brotar da terra toda a árvore ...e a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore da ciência do bem e do mal.
.
2,15 E tomou o Senhor Deus o homem, e o pôs no jardim do Eden para o lavrar e guardar (já começou a dar ordens!)
2,16 E ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente.
2,17 Mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás.

Como Deus criou a mulher
2,18 E disse o Senhor Deus: não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma adjutora que esteja como diante dele.
.
2,21 Então o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre Adão, e este adormeceu e tomou uma das suas costelas, e cerrou a carne em seu lugar.
2,22 E da costela que o Senhor Deus tomou do homem, formou uma mulher: e trouxe-a a Adão.
2,23 E disse Adão: esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será chamada varoa, porquanto do varão foi tomada.
.
2,25 E ambos estavam nus, o homem e a sua mulher, e não se envergonhavam.
..
Tentação de Eva e queda do homem

3,3 Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: não comereis dele, nem nele tocareis, para que não morrais.
3,4 Então a serpente disse à mulher: Certamente não morrereis.
3,5 Porque Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e do mal.
3,6 E vendo a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos,...tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela.
..
3,12 Então disse Adão: a mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi.

...
A corrupção geral do género humano

6,1 E aconteceu que, como os homens se começaram a multiplicar sobre a face da terra, e lhes nasceram filhas.
6,2 Viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas, e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram.
Uma dúvida: quem eram estes filhos de Deus, que não eram os homens?
.

6,7 E disse o Senhor destruirei de sobre a face da terra, o homem que criei, desde o homem até ao animal, até ao réptil, e até à ave dos céus; porque me arrependo de os haver feito.
..
6,9 Estas são as gerações de Noé: Noé era varão justo e recto em suas gerações. Noé andava com Deus.
.....

Deus anuncia o dilúvio a Noé
6,13 Então disse Deus a Noé o fim de toda a carne é vindo perante a minha face porque a terra está cheia de violência; e eis que os desfarei com a terra.

E deu as indicações de como devia construir a arca e de que animais devia recolher. Entrariam Noé, seus filhos, suas mulheres. Passados sete dias e com todos a bordo, começaram as chuvas.

7,12 E houve chuva sobre a terra quarenta dias e quarenta noites.
7,17 … e cresceram as águas, e levantaram a arca, e ela se elevou sobre a terra.
7,21 E expirou toda a carne que se movia sobre a terra, tanto de ave como de gado e de feras... e todo o homem.
.
7,23 Assim foi desfeita toda a substância que havia sobre a face da terra, desde o homem … ficou somente Noé, e os que com ele estavam na arca.

VEMOS COMO, LOGO DE INÍCIO, ESTE DEUS QUE OS SEMITAS INVENTARAM NÃO TINHA PEJO EM ELIMINAR A POPULAÇÃO.

Avançaremos umas páginas até ver como se decidiu liquidar, de uma assentada, as populações de Sodoma e Gomorra 

sábado, 4 de maio de 2019

CRÓNICAS DO VALE - Cap. 78




Desta vez o tema está delimitado pela estufa.

Sei que ficou combinado só voltarmos ao tema da “minha” estufa quando comparecer a casal Cardoso. Apesar disso sinto uma necessidade irresistível de te fazer partícipe de alguns assuntos que estão ligados a este projecto, nos quais não me sinto com forças e muito menos experiência para entrar confiadamente.

Do que te contei da minha meninice e juventude sabes que eu, de terra, plantas, couves e nabiças, só sei alguma coisa quando já as vejo no mercado. Sei que nascem e criam-se, ou criavam-se então, na terra. Hoje, pelo que li já crescem alfaces, espinafres e sei lá mais que sem terra, penduradas sobre uma água adicionada de “alimentos”.

Tentei ultrapassar esta crassa ignorância lendo livrinhos, começando com os que tratavam das estufas de jardim, que em geral também trazem, lá para as últimas páginas, indicações para tratar de plantas comestíveis. Por muita vontade que tenha posto nesta tentativa de me ilustrar fiquei não só com uma notória falta de um mínimo saber sobre estes assuntos, como como fiquei muito confundida, mesmo atrapalhada com a quantidade de conselhos ou propostas sérias (?) que tentavam entrar na minha cabeça.

Desta confusão, complexa de mais para mim, aceitei algumas dicas que me pareceram totalmente sensatas. A mais simples de aceitar foi a sugestão, quase imposição, de ter, perto da entrada, uma bancada de trabalho, na qual se trataria da recepção das plantas e materiais, escolher e transferir para vasos ou para canteiros; arrumar devidamente os produtos industriais como adubos e sementes, alguns, poucos, insecticidas; preparar as flores cortadas antes de as levar para as jarras da casa ou fazer ramos bonitos para oferecer. Só no que dizem que se pode e deve fazer na bancada gastam algumas páginas. Que eu li atentamente, pois que as considerei como uma espécie de tabuada, sem a qual não se pode avançar.

Mais adiante, entre outros capítulos, encontrei a explicação das bondades e perigos que os diferentes estercos animais podem oferecer. Para que plantas se podem usar uns e outros não. As pessoas que se criaram no ambiente rural, com criação de animais de pena e de pelo, e até de algum suíno e cabras misturadas com ovelhas, e também com hortas que tratar -das quais dependia uma boa parte da sua alimentação- devem ouvir e aprender estes conselhos desde a meninice. Mas e eu? Para mim todo o esterco é a mesma coisa !

Agora já sei que esta ignorância simplista pode levar a magnos desaires e problemas. E tive que desbastar este e outros assuntos sem a tua ajuda. Que nem me atrevi a pedir por ter a certeza de que, nisto, eras tão desconhecedor quanto eu.

Com certeza que não sabes que para os efeitos de melhorar uma terra de cultura, seja de hortaliças, vinha ou flores, não são iguais os detritos vindos de galinhas, coelhos, ovelhas, burros e cavalos, porcos ou gado bobino. Nem como se podem ou devem aplicar na terra, se em profundidade ou misturados com a terra envolvente, se é pertinente encharcara terra depois de adubar. E até que consoante a acidez do solo (esta sabias?) pode ser necessário juntar pó de pedra calcária ou mesmo um pouco de pó de cal apagada, cinzas, ou um composto de enxofre. São tantas as recomendações a seguir e os riscos de não as cumprir, que depois de ler isto fiquei com a cabeça quente.

Neste complexo tema dos estercos, como são chamados popularmente, pois que o termo adubos está reservado para os compostos sintéticos, fabris ou, quase que indevidamente, para aquelas sacas que dizem conter adubos compostos, com incorporação de esterco animal fermentado e neutralizado, e outras maravilhas comerciais.

Pois como ia dizendo, e já me estava a perder com a conversa, fui pedir ajuda ao nosso feitor Ernesto Carrapato, dando como seguro que ele saberia bastante neste assunto, e noutros, e que já me orientara mais do que uma vez. Foi uma decisão acertada. Mas as explicações foram tão complexas que tive que inaugurar um caderno de apontamentos para as fixar e consultar quando necessário.

Explicou-me, o Ernesto, que uns animais dejectam fezes ácidas, que são muito prejudiciais para certas plantas. Outros estercos só se devem empregar quando já tenham um período de fermentação capaz; em geral quando deixarem de “fumar” (ele refere-se a que libertam mechas de vapor e logo abaixo da superfície está muito quente) Mesmo assim, com os cuidados pertinentes da selecção e aplicação, ele insiste que para as plantas e flores não há melhor do que a adubação com esterco dos animais.

Também me ensinou que algumas culturas podem fazer-se colocando as sementes directamente no chão, devidamente cavado e desterroado, como são os cereais e alguns legumes, nem todos. Para flores e plantas de alimentação, como couves, tomateiros, pimentos, cebolas ou pepinos, a plantação começa num pequeno canteiro, que chama de viveiro, como o das trutas na ria. E depois levam-se as plantinhas para a área donde crescerão. Por vezes algum conhecido pode ter uma boa semente que nos venda ou ofereça. Mas que ele, para a sua horta, em certas ocasiões compra já as plantas a colocar no seu quintal a algum vendedor no mercado de Aveiro, mas só a um conhecido ou que lhe recomendaram.

- Muito me contas Isabel. Fico envergonhado do que já sabes e eu ignoro. Tenho que me acautelar com as perguntas que me venham à língua. Gostaria que me mostrasses donde tens estes livrinhos que te ajudaram, tenho o propósito de tentar educar-me nas “ingrícolas”, mas não garanto que consiga acompanhar a tua pedalada.

- Pois o que ouviste ainda não é nada. Aqueles especialistas que contratei tem dificuldade em descer ao meu nível, de dona de casa curiosa e com vontade de passar um tempo, indefinido, entretida com flores e alfaces, rabanetes e tomateiros. Por vontade deles já teríamos transformado o mato que nos rodeia num mar de estufas de plástico. NEM SOMBRAS! Não quero cair nestes exageros. Prefiro ficar no nível doméstico que eu imaginei inicialmente. Insisto!

quinta-feira, 2 de maio de 2019

MEDITAÇÕES TÉTRICAS



TRATAM-NOS BEM QUANDO MORTOS ?

Numa visão imediatista e centrada naquilo com que convivemos, creio que a maioria dos cidadãos não se preocupa, e estou com eles, com o que façam com o nosso corpo quando a vida nos abandonar. Antes que se vocacionem a me ajuizar deixo, mais uma vez, constância de que a minha vontade é a de ser esturricado, assado como São Lourenço, mas bem queimado (mais ou menos, pois além dos 80 e tal % de água, o carbonato (não cabronato! A não ser em casos muito particulares...! de cálcio que compõe o nosso esqueleto, não se decompõe nas temperaturas que se devem atingir nos fornos crematórios existentes). Quanto aos restos que fiquem, e da parte peneirada que entreguem aos familiares, por mim qualquer local de reciclagem é adequado, precisamente para iniciar a reciclagem. Lá dizem os anglófonos: ACHAS PARA AS ACHAS.

E com a minha vontade expressa tenho notícia de que cada dia mais cidadãos se decidem por esta opção,nem que seja por uma questão de higiene ambiental. Todavia esta practica colide com os costumes mais ou menos arcaicos que regem no nosso meio. Outros credos ou civilizações ainda vigentes no planeta já aderiram à cremação desde séculos. Nalguns casos quando o defunto era homem casado, o preceito implica que a esposa se imolará na mesma pira! Seria para satisfazer uma vingança ou para dar saída a um excesso de viúvas?

Mas limitemo-nos aos costumes ocidentais. O dito progresso tem conduzido a que as empresas funerárias -antigamente cangalheiros, que se encarregavam tanto de quem morria como de quem se matava..- hoje já embelezam o defunto/a com maquilhagens que não devem ficar atrás das que os egípcios aplicavam aos seus, pelo menos quando os descendentes decidiam pagar este tratamento.

E pode perguntar-se: E nós na actualidade? Não conheço o negócio das funerárias, mas admito que os costumes normais nos USA já se estão implantado na nossa sociedade. Entre eles o de oferecer um reconstituinte beberete ou mesmo refeição aos parentes e amigos que se apresentaram para homenagear o defunto/a, ou para ficar bem visto perante os familiares. Seja como for que as coisas evoluam, não tardará a se aplicar o esquema de além-atlântico.

Para já os nossos mortos são, habitualmente, vestidos em fato de passeio ou mesmo de cerimónia, e calçados de meia e sapato, nem que sejam uns falsos, de cartão a fingir cabedal. Porque não nos deixam ir descalços? Será para que não se firam os seus pés quando entrarem na fase de mortos-vivos?

Ora bem. Se nos preocupamos em não os enviar para o além a pé descalço, porque nos fecham os olhos? Não bastará aquele andar incerto? Teremos que usar uma bengala de morto ou um andarilho? Ou andar às apalpadelas? Uma pessoa que os seus conhecidos sempre o viram com uns óculos sobre o nariz, devem ficar desconcertados ao ver que, tendo as pálpebras baixadas -não por opção própria- não corresponde fielmente à imagem que traz na sua memória. 

No Antigo Egipto, aqueles que eram momificados, de facto também tinham os olhos fechados, e vazados e cosidos, para efeitos da técnica de mumificação. Mas depois, na altura de ficar expostos no correspondente sarcófago, lhes colocavam uma máscara com olhos bem abertos. Somos menos que os egipcios?

A desconsideração na ausência dos óculos correctores, que para já, na dúvida de se os deixar com o defunto com o propósito de lhe possibilitar a visão ao perto ou ao longe, nos levaria a colocar, sempre, uns com lentes progressivas (que a minha experiência não aconselha serem usados em vida, quanto mais em morto!) ou bifocais.

E mais objectos de uso pessoal deveríamos colocar na campa; como era norma já em tempos históricos. Por exemplo: se era fumador de cachimbo, aquele que se sabia era seu preferido. Ou se mais modernaço usava o tal cigarro electrónico que deita umas fumaradas comparáveis às do vendedor de castanhas assadas. Deveriam ter à mão, mesmo se esquelética, aquele útil que em vida lhe era indispensável! Assim como o isqueiro que tanto estimava. (O Bic ou equivalente não entra nesta selecção de bens pessoais, por ser de usar e deitar fora. Lixo!) E já agora: a tablet com que estava constantemente a esfregar o dedo, devia ficar com ele, ou a deixar de herança? E o té-lé-lé, já a caminho de ser abandonado?

Quando na antiguidade europeia, ou mediterrânica, era costume colocar uma moeda na boca do defunto para que com ela pudesse pagar a viagem ao barqueiro Caronte, o qual se supunha que ia decidir, consoante o valor da moeda, o local donde deixaria aquela alma para todo o sempre -Certamente havia locais classificados em categorias diversas...- O costume de não entregar o corpo sem um mínimo de numerário não se abandonou de imediato, como se comprova nas excavações de sepulturas relativamente recentes, pelo menos do medievo. Em muitas, é usual encontrar moedas, além de outros objectos junto das ossadas. Para que fim os parentes colocavam dinheiro e diversos objectos? Nem todos deviar ser vistos como ofertas para quem recebesse o morto. Para tal propósito já estava destinada a moeda de Caronte. Era um farnel para os primeiros tempos no outro mundo ?

NÃO SEI SE CONSEGUIREI DORMIR DESCANSADO ESTA NOITE, POIS O ASSUNTO DEIXOU-ME DEVERAS PREOCUPADO.

CRÓNICAS DA VILA – Cap. 77



Como o neto se meteu, ou não, nos sonhos do Avô

Simplesmente a força dos ensinamentos familiares estava bem fixa na mente do meu pai que era impossível não voltar a repetir a conspiração. Que desta feita foi denunciada por um colega bufo. Ambos, em datas diferentes, tomaram decisões que não posso dizer estivessem erradas, mas pelo menos fora das suas possibilidades reais. Sucintamente o que aconteceu foi que insistiram em apostar em cavalos perdedores. Pensaram que o meio social já tinha evoluído politicamente e que seria coisa de dias o destituir a monarquia. Eram uns conspiradores ilusos!

Eu, felizmente, practicamente fui crescer noutro ambiente do que aquele cerrado que sempre existiu em Espanha. No colégio da Guarda havia alunos vindos de famílias muito diversas. Uns sonhavam com brasões e anéis de sinete. Outros eram de origem mais rural, que foram galgando degraus económicos pelas suas capacidades -que não avalio como sempre correctas, pois para o caso não importa- Ou seja, eram elementos da incipiente burguesia provinciana. A maior parte dos meus companheiros neste colégio já foram estudar cursos superiores, quase todos em Coimbra, como eu mesmo -que não terminei nenhum- Outros para o Porto ou Lisboa.

O que reconheço, especialmente pela influência de ouvir histórias dos Maragatos em casa, é que na vizinha Espanha existia um profundo fosso social entre o clero e os militares de um lado, e os “civis” do outro. Os que se dedicaban à política activa, tanto podiam ser originários do exército como podiam chegar a ocupar lugares de ministério por valor económico pessoal, ou familiar, mesmo que com origens não brasonadas. Depois, uma vez dentro da camarilha, muitos conseguiam um brasão de armas sem valor histórico. Como debes saber, por cá não foram só os que regressaram dos Brasis com sacas de dinheiro que compraram brasões de falsa nobreza. Outros também foram clientes desta necessidade de capital fresco que a coroa carecia, e vender “nobreza a martelo” dava proventos!

No que toca às características sociais e políticas e mostra uma certa diferença entre o que sucedeu, e sucede, na Espanha e em Portugal. São reflexos do quantitativo populacional, bem diferente entre os dois países. E também influencia a capacidade económica das diferentes regiões geográficas da península. Além disso o carácter das pessoas não é exactamente o mesmo entre as duas faces da fronteira, e nem sequer é homogêneo para todas as regiões espanholas.

Retomando a tua questão de como seguí ou não as passadas do avô e do meu pai, não te posso afirmar, convictamente, que o que vês hoje em mim seja uma cópia dos Maragato de então. Como sempre me ouves dizer, com frases lapidarias nas que, sem respeitar o original, altero algumas palavras: Os tempos passam, mudam e a caravana ladra.

  • José. Já te ouvi demasiadas vezes esta e outras variantes. E não aprecio. Só tu é que encontras graça a estas tontices. Todavia, no fundo sei o que queres dizer, sempre, nesta e noutras ocasiões: Que nada se repete exactamente e que os tempos em que se vive modulam os factos e as situações, tornando-as tão diversas que não se podem considerar como decalques do passado. Assim está certo!
  • Tem paciência Isabel. Tu mesma dizes que entendes o que pretendo dizer com uma frase alterada. Mas porque não a ouves, traduzes, e continuas sem te queixar? Para dizer a mesma coisa já sabes que teria que usar um discurso mais longo e discriminado. Era mesmo necessário?
Quando dialogamos com alguém, ou até ao ler um escrito, caso a nossa mente esteja funcional, procuramos captar o que está sub-entendido, ou como se diz correntemente. “nas entre linhas”. Pode suceder que os disfarces utilizados pelo relator sejam de tal modo subtís e alambicados que ficam ininteligíveis para quem os segue; só aquele que o põe cá para fora é que sabe o que pretendia dizer, tão escondido que nem as orelhas tinha de fora.

CRÓNICAS DO VALE - Cap. 76


CRÓNICAS DO VALE . Cap. 76 

José. Depois de todo o relato “histórico” que me ofereceste ficou-me a dúvida do que terás ouvido, depois disso, por boca do avô. Há situações que, para mim com a curiosidade pelos detalhes própria das mulheres, não me parecem evidentes. Por exemplo, este desabafo do avô, que parece ter sido às portas da morte, aconteceu onde? Em que terra? Em casa de quem?

Foi na casa de família, na Guarda. Uma casa que estava alugada por nós, Maragatos, ainda quando todos moravam em Espanha. Era a base logística, perto da fronteira para onde recolher e tratar dos negócios de contrabando deste lado . Mais tarde, já com o meu pai também afastado do exército espanhol, juntamo-nos todos ali. Passou a ser a nossa morada, totalmente. E foi ali, ou no hospital na Guarda, que o avô morreu. Eu, não estava presente, embora também na Guarda, porque me tinham interno no colégio dos jesuítas. Só fui ao funeral, onde recordo que chorei baba e ranho. 

Mas tens que me contar, com poucas palavras, esta fase de teres frequentado o ninho dos jesuítas. Logo tu, que não mostras, hoje, a mínima fidelidade à Igreja Católica, nem a outra qualquer, verdade seja dita.

O que os meus pais decidiram, e acertadamente, foi que eu tinha que me integrar perfeitamente na sociedade portuguesa, falar sem aquele acento delator que os meus pais nunca conseguiram eliminar os meus. Além de que podia criar conhecimentos e amizades que mais tarde me seriam favoráveis, não só entre famílias da Guarda mas com outras que enviavam os filhos para lá estudarem o secundário.

A negação religiosa que me conheces foi precisamente neste colégio que cresceu. Verdade é que não convivi, no seio da família, com beatos de missa diária nem dominical. Acompanhavam os funerais de alguém conhecido que respeitassem, mais por atenção à família do defunto do que para agradar a estrutura da Igreja. Mas tal não impedia a que, tanto o meu pai como o meu avô, enquanto vivos, tivessem encontros cordiais com os membros de primeira linha, e até com o pároco da freguesia. Os Maragatos sempre disseram que um padre, um bispo ou outro qualquer com saias, era, para eles, equivalente a um farmacêutico, um notário, médico ou arquitecto, para nomear algumas profissões de nível educado destacado.

Posso afirmar que a minha gente, e até o avô farmacêutico de Zamora, que se chamava Rodrigo, pensava como eles, eram mais demócratas do que republicanos, pois admitiam todas as tendências políticas, sempre que mantivessem o respeito total aos que não partilham das suas ideias.