quinta-feira, 2 de maio de 2019

CRÓNICAS DO VALE - Cap. 76


CRÓNICAS DO VALE . Cap. 76 

José. Depois de todo o relato “histórico” que me ofereceste ficou-me a dúvida do que terás ouvido, depois disso, por boca do avô. Há situações que, para mim com a curiosidade pelos detalhes própria das mulheres, não me parecem evidentes. Por exemplo, este desabafo do avô, que parece ter sido às portas da morte, aconteceu onde? Em que terra? Em casa de quem?

Foi na casa de família, na Guarda. Uma casa que estava alugada por nós, Maragatos, ainda quando todos moravam em Espanha. Era a base logística, perto da fronteira para onde recolher e tratar dos negócios de contrabando deste lado . Mais tarde, já com o meu pai também afastado do exército espanhol, juntamo-nos todos ali. Passou a ser a nossa morada, totalmente. E foi ali, ou no hospital na Guarda, que o avô morreu. Eu, não estava presente, embora também na Guarda, porque me tinham interno no colégio dos jesuítas. Só fui ao funeral, onde recordo que chorei baba e ranho. 

Mas tens que me contar, com poucas palavras, esta fase de teres frequentado o ninho dos jesuítas. Logo tu, que não mostras, hoje, a mínima fidelidade à Igreja Católica, nem a outra qualquer, verdade seja dita.

O que os meus pais decidiram, e acertadamente, foi que eu tinha que me integrar perfeitamente na sociedade portuguesa, falar sem aquele acento delator que os meus pais nunca conseguiram eliminar os meus. Além de que podia criar conhecimentos e amizades que mais tarde me seriam favoráveis, não só entre famílias da Guarda mas com outras que enviavam os filhos para lá estudarem o secundário.

A negação religiosa que me conheces foi precisamente neste colégio que cresceu. Verdade é que não convivi, no seio da família, com beatos de missa diária nem dominical. Acompanhavam os funerais de alguém conhecido que respeitassem, mais por atenção à família do defunto do que para agradar a estrutura da Igreja. Mas tal não impedia a que, tanto o meu pai como o meu avô, enquanto vivos, tivessem encontros cordiais com os membros de primeira linha, e até com o pároco da freguesia. Os Maragatos sempre disseram que um padre, um bispo ou outro qualquer com saias, era, para eles, equivalente a um farmacêutico, um notário, médico ou arquitecto, para nomear algumas profissões de nível educado destacado.

Posso afirmar que a minha gente, e até o avô farmacêutico de Zamora, que se chamava Rodrigo, pensava como eles, eram mais demócratas do que republicanos, pois admitiam todas as tendências políticas, sempre que mantivessem o respeito total aos que não partilham das suas ideias.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

CRÓNICAS DO VALE – Cap. 75



O que o avô não queria levar para a cova.


Como se fosse uma história “de encantar” contou que sendo ele novo, recém entrado na Escola Militar de Toledo, na Espanha monárquica, um dia viu andar pelo Alcazar, que era a antiga fortaleza casteleja dos moiros, que ficou intacta quando eles se renderam e fugiram mais para o sul, uma jóvem tão formosa que o deixou enfeitiçado. Soube que era filha do Comandante da Escola, e que se chamava Inmaculada, ou familiarmente Inma, com uns muitos apelidos de nobreza: Ponce de Leon Almagro Rodriguez de Ahumada.

Eu, um Zé Ninguém, com um apelido, Maragato, que mais não era do que uma alcunha que mostrava a sua origem numa zona esquecida e pobre, a Maragateria, sentiu que o seu coração batia como louco, latejavam-lhe as fontes e os pulsos. Chorava sem lágrimas ao avaliar que não tinha, mem teria, a mínima chance para conseguir fazer daquela mulher a sua esposa. Isso aconteceu tendo ele dezoito anos, nem agora a esqueceu, estando às portas da morte.

- Mas o avô nunca mais a viu?

- Claro que a vi, pelo menos enquanto estive naquela escola e o pai se manteve como responsável. Mas quantas mais vezes a via, mais sofria, desesperado! As agruras esmoreceram quando fui enviado já como tenente para Marrocos, em Melilha. Aquilo era uma loteria para a morte, onde nos davam bilhetes sem os comprar. Os guerrilheiros marroquis -mais correcto será chamar-lhes de bere-beres, pois eles pertenciam a esta estirpe moruna-, não nos davam tempo livre para meditar e escrever ou ler correspondência. Uma tontice da minha parte, pois nunca me atrevi a escrever à minha sonhada Inma.

Ultrapassado o tempo que me tinham destinado na defesa (?) das praças do norte de África, e já com um estilhaço de granada na perna esquerda, que como sabes ainda hoje me faz andar mancamente, fui “licenciado” e destacado para regimento aquartelado em Zamora. Ali soube, através dos mexericos da tropa, que a Inmaculada tinha casado com um oficial de cavalaria, com patente de capitão segundo diziam, e que já tinham dois filhos. Este teu avô, naquele instante admiti que estaba definitivamente arrumado, sem que a minha Dulcinéia sonhada soubesse que eu existia e menos que por ela estava apaixonado sem remédio. Em Zamora queimei as naves e decidi que tinha que rumar para outro porto.

- E então avô? O que aconteceu?

- Conheci uma senhora respeitável, com idade um pouco mais nova do que eu, e sem bigode. De boas famílias, mas não de militares! Filha, e com irmãos, de um boticário, dono da farmácia mais importante da cidade, onde eu ia encomendar os medicamentos, ligaduras e pomadas quando a distribuição do Ministério da Guerra se atrasava. Ali conheci a que veio a ser minha mulher e tua avó. A avó Eugénia.

- Tenho muitas saudades da avó Eugênia. Era muito bonita e muito simpática. Contava-me histórias em castelhano ainda quando a família, creio que por problemas políticos, se deslocou para Portugal. E que que conta a seguir, avô ?

- Pouco mais há que contar, que tu não saibas. A tua avó Eugênia era uma excelente pessoa, uma esposa sem igual e mãe insubstituível. Foi a melhor companheira que eu poderia ter tido. Sem dúvida. Mas não faças esta careta, menino, sei o que trazes na cabeça para perguntar e não te decides.

Podes estar certo que de vez em quando via a Inmaculada pela rua, ou a confundia com outra jovem, sabendo que os anos também passaram por ela e que a imagem que eu guardava, feito parvo e mais que parvo, era só uma miragem, que me acompanhará no caixão. Ali estaremos três cadáveres, a avó Eugénia, que me espera no cemitério, eu e do outro lado a Inma. De facto só estarei eu, os meus restos. Para ver a avó terei que sair do caixão e procurar a sua campa. A da Inma, quem sabe donde está ou estará. Foi um sonho de anos, de uma vida aos soluços, mas que não amargou a vida dos teus avós como casal.

- E a avó sabia dessa paixão, de romance?

- Saber sabia, mas era suficientemente inteligente para saber que dali não veria qualquer perigo. Filho, ou melhor neto, José, procura recordar, até morrer, que as mulheres são mais espertas do que os homens, e quando nós vamos elas já voltam. Nunca as poderás enganar totalmente pois que as tuas aventuras, mesmo as que fizeres a sério não passarão de imaginações, mas sempre deixarás sinais que elas captam.Isso quando estão interessadas, pois em caso contrário não ligam! O importante acontecerá com a que vier a ser a tua esposa, a mãe dos teus filhos, que ainda estás muito longe de a conhecer e mais ainda de saber quem deixarás neste mundo.

- José, marido, isto que me contaste  e que eu ouvi atentamente, é um romance dos folhetins da rádio! Não me estiveste a passar uma treta, , uma aldrabice para entreter a parva da tua mulher?, como no conto das mil e uma noites?


- Contei o que me recordo. Não garanto que tudo acontecesse assim. Mas no fundo, sei que o avô trazia esta espinha na garganta desde que era novo. E agora toca a levantar da cama, que tenho coisas para fazer!

Na entrega seguinte, que sabe-se lá quando aparecerá, saberemos quando voltou a ver o avô Paco.

domingo, 28 de abril de 2019

CRÓNICAS DO VALE - cap 74


No sossego do lar


Bom dia, Isabel. Dormiste bem? Eu posso dizer que fiquei como uma pedra, um santo de gesso. Mas só depois de cumprir com o meu, nosso, dever de casal em activo.

- José, o dormir encostada a ti, mesmo quando são noites de calor, é muito bom, reconfortante, e mais quando ao acordar não me aparecem ao pensamento problemas a que dar atenção.


-Não digo que sejam problemas, mas não fixei nada do que me contaste, caso o tenhas feito, das tuas conversas com a esposa do Dr. Cardoso. E creio recordar que havia, pelo menos, dois assuntos que careciam de ser puntualizados. Vou faze-te memória: um era se ficaram em nos juntar numa refeição e o outro estava ligado a se a Drª estaria interessada em visitar a tua estufa para flores e vegetais comestíveis..


- Do terceiro tema,mais complexo e que ficava fora das conversas de casal, e mais concretamente era referente ao sarilho entre familias de etnia cigana, creio que, depois do que me contou o rei Rafael Ortega, tivemos bastante sorte em que, tal como lhes foi proposto, eles arrumassem o problema entre eles. Daí que só resta puntualizar a refeição de convívio, caso a tenham quase que decidida, e depois o ir à estufa.

- Quanto à estufa, propriamente dita lembro que chegamos a entrar naquele espaço e estavas a descrever a complexidade em que te meteste, mas que tivemos que largar a meio porque estava o Ortega à porta.

- Pois José avançando um pouco, que não tudo. A Dra Diana quase que batia palmas. Disse que não tinha criado amizades desde que chegou ao Porto. Encontrou colegas de estudos, mas estão todas muito atarefadas com as aulas, ou com o emprego, ao que se juntam as famílias respectivas, concretamente os filhos em idade escolar, liceal ou já universitários. Dizem-lhe que esperam um encontro informal, seja organizado por uma entidade qualquer, na faculdade ou num edifício oficial, no qual estejam presentes os maridinhos.

Ali seria oportuno fazer as apresentações e quebrar o gelo, como quem diz. Quanto às amigas que ficaram em Coimbra, está convencida de que a Diana foi engolida pelo famoso nevoeiro que sobe do tenebroso Atlântico. Referiu até um anexim: Quem não é visto não é lembrado.

Para marcar o almoço admite que poderá dar notícia dentro e horas ou poucos dias.Tem que combinar a data com o marido, e depois me chamará. Do que não abdica é de visitar o meu projecto de jardim de inverno, que ela também sonha em algum dia, que não imagina quando seja, poder ter uma estufa. Não sabe onde nem quando. É um sonho pendurado no ar, nas núvens.

Sendo assim, ou assim sendo, que vai dar ao mesmo, o mais ajuizado será aguardar esta companhia para ver a dita estufa em pormenor. Assim só terei que explicar uma vez, espero eu!. Certamente que não demorarão a propor a data.

- Isto de conversar no tálamo (leito conjugal para o caso de não te vir a ideia a que se refere) sem pressa de levantar, até porque a Idalina já nos trouxe um enorme tabuleiro com tudo o que entendeu gostariamos de dispor para desdejum, nos pode dar azo a falaricar sobre temas que até podem ser novidade entre nós, pelo menos para ti Isabel.

Quando acordei esta manhã, tinha fresca na memória uma cena com o meu avô Francisco Maragato, o Avô Paco, já velhinho e que já devia sentir os seus dias a terminar.

Um dia, estando eu sentado junto dele petiscando umas ameixas do pomar -por certo eram rainhas cláudias, bem maduras, moles ao tacto e tão doces que até arranhavam na garganta- começou uma história, na voz baixinha, débil, que lhe era normal naqueles anos de velhice, e que me prendeu a atenção, tal era a cara e o sentimento que eu denotava. Pressenti que o que se seguiria seria uma espécie de confissão, de algum assunto que o avô queria deitar para fora antes de morrer.

No próximo capítulo saberemos do segredo do avô Paco.




sábado, 27 de abril de 2019

QUEM CONHECE BEM AS PERSONAGENS




Quando lemos ficção, seja ela do caracter que for, tentamos, instintivamente, fazer um retrato mental não só do aspecto físico da personagem, mas também quase como uma sequela inevitável, compor o seu retrato psicológico, e assim entender e até prever o seu comportamento ao longo da obra.

Não se pode dizer, de modo taxativo, que o leitor jamais pode criar a personagem da mesma forma como o escritor a vai desenvolvendo. Mas, atendendo a uma quase certa boa fé, ou de bem fazer, e dando por muito provável que o ficcionista procura dar um desfecho quase que inesperado, procura, sempre, oferecer uma conclusão minimamente lógica. E cuidará desta forma de apresentar a sua obra porque pretende que seja apreciado por mentes semelhantes a sua própria.

O relator debe saber que as mentes humanas regem-se por umas regras gerais, e que este desconhecido, sentir que não se respeitam totalmente no texto que está lendo. O pode qualificar como absurdo, incongruente e, em última análise, rejeitará continuar a ler.

Por outro lado, mesmo que o esquema habitual de quem escreve ficção aconselhe a que antes de iniciar, ou após poucos parágrafos da primeira página, estrutura, seja mentalmente, se tiver uma mente com uma superior capacidade memorística, ou, em alternativa mais positiva escrever «um guião prévio, que não tomará como de obrigado cumprimento, dado que é ele mesmo o criador, e, sendo dono e senhor pode auto-autorizar para avançar sem receio de entrar em discordâncias evidentes com que escreveu anteriormente. Para colmatar os erros de incompatibilidades é que tem que reler e corrigir, muitas vezes socorrendo-se de uma pessoa habilitada, pois que o autor pode tropeçar nos mesmos erros sem os encontrar.

De qualquer modo é conveniente aceitar que um escritor -que seja colocado pelo seu público acima da mediocridade- recorre para o argumento de factos e pessoas de cuja vida, ou partes da mesma, foi testemunha directa ou indirecta, e as coloque no meio do enredo. Quem, por coincidências da vida, tenha tido contacto com o passado do escritor, seja da família ou das pessoas que saiba ter convivido, é possível que encontre descrições que os/as retratem, por vezes fielmente. Mas em geral o escritor usará de cautela e limitar-se algumas pinceladas verossímeis. Não no intuito de denunciar ou desenmascarar, más só com a simples pretensão de conferir um mínimo de credibilidade.

Resumindo: quem sabe como são as personagens é o escritor. Mas cuidado, pode acontecer, e acontece com frequência, que o desenrolar do tema “empurre” alguma ou algumas personagens para comportamentos não previstos ou previsíveis inicialmente. O mudar, sem destruir o que se definiu anteriormente, é um predicado que não está à disposição do leitor. Só o escritor tem poder para manobrar o percurso dos intervenientes na ficção.

Mesmo tendo em atenção estas regras ou artifícios estruturais que se utilizam na escrita de ficção, é frequente que o leitor sinta o impulso de avançar antes de ler o que aparecerá no texto impresso (ou nas imagens de cinema ou de TV) E acertará em muitas ocasiões, consoante a sua experiência pessoal, tanto na leitura como no seguimento dos comportamentos de quem tenha oportunidade de ver.

Por outro lado alguns escritores, quando o fim da obra está por perto, tem o “saudável hábito” de, indirectamente, provocar o leitor no sentido de ver se este adivinha o desfecho. No caso mais habitual, em especial nos romances policiais, o bom escritor faz muitas manobras para confundir o leitor e fechar o caso com uma saída que mesmo tendo deixado umas pistas pelo caminho, eram tão discretas e pouco evidentes (de propósito!) que raramente foram tomadas a sério.

sexta-feira, 26 de abril de 2019

POLÉMICAS




Aconselho, com convicção, evitar ou mesmo fugir de polêmicas, em especial quando estas estiverem conectadas com convicções políticas ou religiosas. Estes temas, e alguns outros como as equipas de futebol, tem a característica de, quase sempre serem obsesivas . Assuntos onde existe uma imensa dificuldade em admitir a conveniência de ceder nos seus pontos de vista e convicções pessoais, que por quase soberba se consideram ser inamovíveis. Daí que nestes assuntos aquilo que se pode iniciar como uma conversa suave, sem a mínima agressividade, tem muitas probabilidades de conduzir a uma incompatibilidade, quase que feroz, que até pode destruir uma anterior agradável convivência. Pode desabar mesmo a um arrefecer irreversível. Pelo menos de difícil recuperação.

Estes dias, anteriores e posteriores, em que se rememorou a revolta militar que abriu a sociedade portuguesa à real e possível democracia -com todos os defeitos e algumas qualidades, que podemos atribuir à falta de seriedade e correcção inerente aos humanos, temos mais uma vez o recrudescer das convicções pessoais e grupais. Biologicamente para os mais atreitos a polemizar é semelhante ao periódico surto das sezões, ou febres palúdicas.

Infelizmente a visão mental e social dos mais acérrimos defensores de cada bando os mantêm enrrocados, entendendo por isso que cada parte só aponta os logros que entende como positivos e o outro, em especial se é o dos saudosistas, só encontram negrume, queixas, mau caminho da sociedade em geral, desrespeito para os valores que estruturam a sociedade antes de cair no que entendem ser um caos de difícil recuperação.

Tudo o que apontei pertence ao domínio da sociologia e comportamento dos humanos. Mas podemos dar algumas pinceladas noutros temas “pesados”. Que também são perigosos pela possibilidade de conduzir a separar muitas pessoas de bem. Sem que friamente lhe encontremos uma justificação válida.

O capítulo da religião é um dos mais escorregadios. Seja ela qual for. Pois que vistas sem paixão, friamente, todas elas se baseiam e manobram dentro da mesma área de preceitos, positivos, negativos e obrigatórios. De nada serve referir que os prelúdios das estruturas catequistas ou dogmáticas, são muito anteriores ao que se valoriza como cultura independente. Ou referir que a gênese das diferentes divindades que se tem adorado, respeitado ou temerosamente aceite, é sempre igual. Que todas se geraram no pensamento humano. É uma premissa que nenhum convicto aceita, seja qual for o credo a que aderiu. Todos invocarão a revelação através de uma entidade sobrenatural, superior a todos e sem possibilidade normal de ser vista, de dialogar, de visitar quando for necessário. Tudo fica, sempre, no âmbito do nebuloso, do mistério, do inalcançável. Excepto em casos muito especiais e de difícil explicação racional.

Retomando o ambiente de Abril, sabemos, os que olham com tranquilidade e sem favoritismo exacerbado, que é sempre possível, escamoteando aquilo que não convêm para a nossa dissertação, encontrar vectores de evolução evidentemente positivos. E, por outro lado referir situações que se valorizam como ser prejudiciais.

Temos exemplos, simples e sintéticos, que para bem ser teriam que se debater com cuidado. Um deles pode ser o sentimento de que se perdeu aquilo de “o respeitinho é muito bonito”, frase que, de imediato nos traz a visão do humilde respeitador, agarrado ao seu boné, e com a cabeça devidamente agachada, esperando ser ouvido pelo respeitado e ser “magnanimamente” atendido.

Outro aspecto que habitualmente se refere é que a educação que o estado oferece aos seus jóvens, é muito menos abrangente do que a que anteriormente se dava a um universo muito restrito de jovens. Aqui peca-se por ignorância dos adultos actuais. Para já o educar a uma massa quase que indiferenciada, onde muitos partem de ambientes familiares com pouca ou nenhuma cultura literária, afecta não só a capacidade de atenção e compreensão de uma boa parte dos alunos, e até dos resultados que podem conseguir os docentes mais empenhados.

O entorno em que as pessoas se movem na actualidade fornece, se assim for aproveitado, muitas mais possibilidades de educação geral do que nos outros tempos. Mas, paralelamente, também põe nas mãos dos alunos uns campos de distracção, alguns até tecnicamente evoluídos, que os podem afastar do estudo oficial proposto.

Além disso, não podemos tentar comparar, sem aprofundar devidamente, a sociedade portuguesa de 50 anos atrás com a actual, em que as “necessidades” de ordem múltipla e que se podem considerar, em muitos casos, como dispensáveis, são promocionadas insistentemente pela múltipla acção do consumismo.

Entre umas razões e muitas mais que deixei para trás, o lamentar o “bom tempo passado” é uma atitude absurda, por extemporânea. Os idosos é que estão totalmente cientes de que não se pode recuar para o passado, por muitas saudades das facetas boas que nos venham á memória. Seja qual for o resultado de um cômputo social, racionalmente é imperioso pensar no tempo actual, hoje, amanhã e mais adiante para quem tiver oportunidade.

COM LEITE DERRAMADO JAMAIS SE PODE FAZER QUEIJO.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

LEITURAS INDIGESTAS


MATAR O TEMPO

Já que temos que estar cientes de que o tempo nos mata o melhor que podemos fazer, para nos desforrar, é matar o dito tempo. Gastá-lo da melhor maneira que se possa imaginar, atendendo às nossas vocações e capacidades.

Consoante a temperatura ambiente, digamos mais correctamente, a climatologia do dia, no permite e oriente, escolher entre ler, escrever, pintar e, por vezes, fazer alguma inutilidade talhando madeira, seja ela seca ou ainda viva. Confesso o pecado ambiental de talhar caras no tronco das árvores, procurando ferir menos do que eu vi, durante a minha juventude, as feridas que os resineiros faziam aos pinheiros com o propósito de lhes retirar a seiva vital (não confundir com o Moreira, que nem sequer conheço)

Sou um devorador de livros, e tenho tantos em casa, arrumados mas esquecidos, que depois de consulta aos meus descendentes -que me elucidaram não lhes interessar aquelas velharias- decidi reler e, umas vez digeridos, os oferecer a um vendedor de livros usados para que os colocasse na sua banca. Pode ser que assim tenham mais uma oportunidade de ser úteis.

E hoje, finalmente, terminei um livro, escrito em l969 -a edição que tive nas mãos já tem o papel torrado pelo tempo!- por uma jornalista italiana, ORIANA FALLACI. que teve um período de fama devido aos seus escritos. O livro traz o título de NADA E ASSIM SEJA.

A temática consiste em oferecer as meditações que lhe ocorreram quando esteve, como correspondente de guerra, no Vietnam, durante mais do que um a vez. Para quem não se sinta vocacionado para seguir as experiências de um civil, tanto na retaguarda como no meio das operações, aguentar os relatos das  mortes súbitas de jovens recrutas, enviados na véspera desde as bases e serem estilhaçados num conflito que não entendiam, e que verificaram as justificações que lhes foram dadas para os enviara uma morte absurda. Para os idosos de hoje nos pode recordar o que sabemos acerca do Vietcong, do Ho Chi Min, dos governos promovidos pelo USA a fim de justificar um símil de guerra civil e poder entrar num conflito, de índole planetário, entre o Capitalismo e o Comunismo, e assim “promover e defender a democracia?”

Anos mais tarde e por facilidade de um familiar (filho) destacado em Hanoi, verifiquei como aquele povo era pacífico, amável, aberto no convívio com estrangeiros, incluídos os “benfeitores” americanos, de triste memória. O que o “ocidente democrático” fez naquela zona do Oriente não se pode esquecer, e muito menos perdoar.

Imagino que actualmente as pessoas que ainda leem, sem ser o Correio ou as revistecas com falsas celebridades, fabricadas a martelo, não devem ter a mente propensa para enfrentar assuntos tão desagradáveis como são relatos das centenas, e muitos milhares, de pessoas que são arrancadas da vida por decisores sentados em poltronas.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

VERDADES E FANTASIAS SOBRE O 25 de ABRIL




Ao longo destes anos mais recentes temos tido ocasião para ler artigos relatando e comentando, muitas vezes fantasiando, aquilo que originou, consistiu e derivou da revolta corporativista dos oficiais do quadro. E dado que toda a sua génese e evolução esteve envolta num conjunto de forças, nem sempre, ou raramente, paralelas, é fatal que as interpretações difiram entre si, pouco ou muito.

Em primeiro lugar temos a necessidade, honesta, de ponderar o sentimento da população civil não comprometida, que então como hoje, é muito mais numerosa do que os pretensamente ansiosos de se comprometer, em prol da “liberdade e democracia”. A população em geral, e evito dizer “o povo”, pois que este termo o usamos, com excessiva leviandade e até desprezo, como sendo à facção rural, ou equiparável nas cidades, da população.

De facto, como se depreende da observação cuidadosa, o povo, o mesmo povo que se rejeita e do qual fazemos quase todos parte integrante, age e reage como no tempo do Império Romano. Contenta-se com a fatuidade, com aquilo que então se definia como PÃO E CIRCO. Hoje o circo está quase morto; foi substituído, com êxito total, pelo consumismo.

Sem dúvida que este mesmo povo, que era de onde sempre se recrutaram as tropas destinadas a abater ou serem abatidos, ingloriamente apesar das parangonas debitadas pelos governantes, e numa persistência comparável à dos anúncios publicitários de algo dispensável, estava saturado, farto, luctuoso, pela duração da guerra “patriótica” do ultramar, ou usando a terminologia da época, das “nossas províncias ultramarinas”. Mas, mesmo que aparecesse uma Maria da Fonte, o povo pode ser neutralizado com recurso a alguns, relativamente poucos, elementos recrutados entre este mesmo sector social, mas fardados e armados com os impostos pagos pelo mesmo povo. Sempre foi assim e assim continuará.

Mas... insistimos na génese do dito movimento, sem cravos pois que estes incorporaram-se na imagem por decisão gratuita das floristas do Rossio. Quem estava queixoso era o sector, igualmente reduzido, dos oficiais do quadro, os que tinham tirado curso na Escola do Exército e que, durante anos se apoiaram com os oficiais milicianos, recrutados nas universidades, para comandarem os soldados na frente de batalha -que raramente era uma frente definida, mas simplesmente a famosa guerra de emboscadas, de guerrilha, de bate e foge- Como a extensão do conflito implicava ter mais elementos no comando, e os tais do quadro não eram suficientes, foi imprescindível incorporar uns milicianos no estatuto de oficiais intermédios. E aqui é que a porca torceu o rabo!

Enquanto os milicianos iam para o mato, e alguns morriam ou ficavam estropiados, mas não se “sentavam na sua mesa”, figurativamente claro, as coisas tolerava-se com bom humor. Mas o cansaço, fastio ou espírito de rejeição já estava latente em todos os degraus da escala. Uns porque estavam donde não queriam, nem entrava nos seus propósitos de vida. E outros porque sentiam-se em minoria numérica, recordando a boa vida nos quartéis, nos passeios fardados e nas conquistas de saias que a farda proporcionava.

No meio desta salada estava o virus da contra-revolução esquerdista, ou mais concretamente comunista, financiada pela URSS, pois que este partido, extremista e experto no prometer uma utópica igualdade, era o que estava mais organizado e preparado para a luta clandestina, que durava desde décadas em Portugal.

Nesta altura entrou em palco o, posteriormente, famoso actor porno que, segundo dizem, se encarga de organizar o golpe de estado dos militares do quadro. Para figura de proa, escolhida “a dedo” pelos seus analistas ineptos, surgiu o Marechal Spínola, elemento de uma saga de militares profissionais que desde muitos anos atrás prestaram os seus serviços aos governos, inicialmente monárquicos, de Portugal. Além do seu monóculo e do pingalim metido no suvaco direito, mais a sua figura arrogante (como é indispensável num militar profissional) ele completou o seu curriculum publicando e distribuindo, com o consentimento evidente da Censura Marcelista, o seu livro. 

Que poucos leram mas foi encumbrado como a bíblia das escolas, ao prometer um futuro que não era factível, excepto no que respeita à saída, derrotados e abandonados pelos seus apoiantes da NATO, das colónias. Ele, o Marechal, aceitou galhardamente ser colocado como (pretenso) chefe daquele movimento corporativo.

A partir deste momento, e mesmo quando o País esteve pendente do que acontecia no largo do Carmo, e a seguir frente à sede da PIDE, os comunistas, bem reparados e organizados, não tardaram em se fazer donos do jogo. Todos os que estávamos vivos e capazes de pensar no que viamos, fomos avaliando a evolução que teve esta mal chamada revolução democrática.

Muitas fantasias se teceram e continuam a tecer depois de tantos anos. Mas mesmo então se percebia que os EUA não podiam consentir que nesta costa atlântica, incluídos os dois arquipélagos, mesmo cara-a-cara com o seu território, se instalar uma base soviética. NEM PENSAR !

De imediato transferiram, com o título de seu Embaixador, um dos capos mafiosos da CIA, que, já conhecedor do que por aqui sucedia, procurou logo a pessoa que podia utilizar -com ou sem compesações económicas?- para se opor, com algumas possibilidades de sucesso, à outro personagem, mais carismática mas também ainda assustadora para muita gente, que representava a URSS nesta pretendida anexação.

Dou como indiscutível a existência, por trás do pano, de conluios entre Washington e Moscovo para conseguir que em Portugal, se criasse uma nova Cuba, sem se iniciar um período sangrento de luta civil, abafando o forte empenho e introdução, especialmente entre operários e ilustrados adeptos às fantasias de igualdade -sem entender que os homens nunca se comportaram com um bloco igualitário. Sempre houve e haverá “uns mais iguais do que outros”.

E assim estamos hoje. As famílias com poder, e obviamente com dinheiro, do tempo da ditadura por aí andam, e a eles se juntaram uns ambiciosos penetras, sem estatuto próprio mas com os bolsos bem fundos, dispostos a fazer fortuna como sempre se fez, a partir do que se saca dos que labutam, uns mais e outros menos, uns suando e outros olhando. E a roda sempre está girando. Pouco ou nada se pode fazer, é próprio da humanidade.