segunda-feira, 22 de abril de 2019

CRÓNICAS DO VALE - Cap 72


Medeiros bate à porta

Doutor, da licença? O Senhor Presidente da Junta está na sala e pediu para ser recebido pelo Doutor.
..
- Amigo Presidente, desculpe se teve que esperar por mim. Garanto que não foi de propósito. Estava preso por um telefonema de trabalho. Mas é com muito prazer que o vejo em casa. Faço figas para que não seja nada grave o que o orientou a me visitar.

- De facto existe um motivo especial, preocupante mas não tão grave nem urgente, mas o suficiente para me empurrar para que o vir incomodar na sua propriedade. Pode parecer uma infantilidade, que me leva a qualificar a minha vinda como, metafóricamente «ir chorar no seu ombro” e o que me pesa não é só devida às minhas responsabilidades e obrigações na Junta, como por não saber como atender, satisfactoriamente, aos cidadãos do Vale. 

Para começar por algum lado é de minha obrigação dizer que o Amigo Maragato se adiantou a tratar dos cuidados que se podiam, e agora nos dizem que são obrigatórios, aplicar na prevenção dos incêndios florestais. Pode ser visto como um exemplo a seguir, se não fosse que a realidade social nem sempre está de modo a que todos possam cumprir com o que o Governo decretou ser uma obrigação, sujeita a coimas para quem não cumprir o exigido.

E, por tabela, eu me encontro no meio de um problema de difícil solução. Como certamente sabe, e mais porque a sua decisão teve uma repercussão monetária nada desprezível, que pode imaginar não está ao nível das capacidades económicas da maioria dos nossos proprietários, mini fundistas e com explorações hortícolas, vinha, pastos ou madeira, que só lhes podem garantir, e nem sempre, uma vida pacata.

Não há um só dia em que não venha alguém chorar, as vezes mesmo com lágrimas abundantes, com medo de ser multado por não limpar a faixa de seu terreno que faz linde com a via pública. A dimensão de alguns talhões é de tal maneira reduzida que se desbastam as tais faixas, practicamente desaparece a propriedade!

Estas pessoas, em geral idosos e sem familiares jovens por perto -pois todos abalaram para conseguir emprego remunerado-  raramente tem corpo nem força para cortar árvores, roçar mato e dar-lhe seguimento. E tampouco podem comprometer-se a pagar uma equipa de homens que trate disso. Quando decidem vender umas árvores, sejam pinheiros ou eucaliptos, negoceiam com um madeireiro, que se incumbe do serviço. E as fracas vindimas, ou são feitas com a ajuda de vizinhos e parentes, numa permuta de favores, ou vendem as uvas ainda nas cepas.

Como sabem do que aparece na televisão -ou no jornal dos alarmes, o tal Correio -que vão ler no clube ou no café- me encaram dizendo que, em casos destes, as ordens parece que indicam que a Junta, ou a Câmara, teria que se encarregar do cumprimento do legislado. E aqui é que eu entro mais directamente na dificuldade de dormir.

Se peço ajuda à Câmara, dali respondem que estes custos não estão devidamente discriminados no seu orçamento, e que não receberam qualquer notícia de transferência para este compromisso. Não sei se isto é mesmo assim, ou se é uma desculpa. Só sei que na Câmara são especialistas em sacudir a água do capote.

Eu estou entre a espada e a parede. Não tenho pessoal na Junta, nem o equipamento necessário, que possa escalar para esta tarefa. Mesmo com os terrenos camarários já tenho dificuldades que cheguem. Doutor, não durmo sossegado, a minha mulher também está nervosa, e os homens da GNR de vez em quando, quase dia-sim-dia-não, aparecem na Junta para me pressionar, ameaçando com a lista dos proprietários incumpridores. Eles, com as suas fardas e o comando militar que os apoia já ficam cobertos. E nós?

- Amigo Presidente, sabe se as outras freguesias e até concelhos limítrofes, conseguiram arranjar verbas e pessoal para cumprir esta lei? É que eu, que não estou por dentro, não creio que a situação que o amigo Medeiros me contou se possa considerar como um caso isolado. Se a única solução que a governação conseguiu engendrar é a de multar sem atender às reais capacidades da cidadania pode cumprir esta normativa. Mesmo que a consideremos pertinente e merecedora de ser cumprida, mostra, tão só, que desconhece a realidade do nosso território rural.

Pelo meu lado, não sou um exemplo a tomar, pois felizmente, tenho rendimentos que não dependem das terras -das quais só tenho despesas e obrigações fiscais-. Após ter conhecimento destas novas regras chamei o meu feitor, o Ernesto Carrapato que o Presidente conhece, e fomos dar uma volta pelos caminhos que passam ou delimitam os nossos terrenos. Dei indicações para levar um ou dois homens com ele, mais as ferramentas e máquinas necessárias no tractor com o reboque, deixar aquelas faixas sem nada que constitua um perigo de fogo, fosse posto por malandragem ou por causas naturais.

- Mas isso pode decidir e efectivar o Doutor Maragato, e outros proprietários abastados. E como podem cumprir esta obrigação estas gentes que até poucos anos nem sabiam ler e menos escrever? Tem alguma ideia que me possa ajudar? Eu estou de mãos e pés atados. Até tenho dores de estômago. Deixei de beber um copito, esqueci o café e mesmo assim sinto-me doente!

- Amigo Aníbal Medeiros. Eu, com toda a sinceridade, além de não ter muita confiança nalgumas decisões tomadas pelos governantes, mesmo que, como neste caso, me pareçam pertinentes e aconselháveis, sinto que nem sempre são ponderados devidamente os reflexos que implicam. Dito de outra forma, por vezes dá ideia de que decidem sentados na praia, assinam por cima do joelho, e assim passam a bola a outros. No seu caso concreto, actual, e enquanto as coisas não se arrumarem com bom senso, eu lhe aconselharia que tivesse calma, que aguardasse até ver em como param as modas, e que mantenha uma  auscultação, quase que diária, no que se decidiram fazer nas freguesias e concelhos vizinhos, nomeadamente os rurais, como são a maioria. Se eu vier a saber de alguma novidade positiva, lha comunicarei de imediato.

Posso ajudar, de facto, nalguma coisa que esteja ao meu alcance? Eu gostaria de o convidar a um café e uma bebida, mas receio que o sue estômago, que me alertou estar ressentido, não aceite o convite.

- Amigo Maragato, reconheço que não resolvemos o problema, mas pude desabafar com alguém com mais conhecimentos do que os homens da terra. Vou seguir o seu conselho. Farei uma lista dos telefonemas a bater e os escalarei em dias diferentes, em três grupos, para não ser excessivamente maçador. Para já, alguns colegas já têm sido eles a me pedirem ajuda, que não posso dar. Só palavras. Teremos que ir ao Governador Civil do Distrito ou ao organismo que agora o substitui, pois esta gente passa as semanas a mudar o nome dos gabinetes e colocar mais alguns parentes!
  • Próxima entrega: O Ortega traz novidades

sábado, 20 de abril de 2019

SOMOS TODOS MUITO INTELIGENTES



Não desfazendo ...

Alguém que a morte lá tem, e que recordo com saudade, dizia sempre que vinha a propósito: Ouvindo o que as pessoas opinaram, nomeadamente acerca de si mesmo e, por tabela, de como avaliavam os outros, era muito raro, ou mesmo nunca acontecia que alguém se declarasse ser burro. Ou o equivalente: não ter o discernimento apurado que era necessário dispor para competir, mesmo que verbalmente, em pé de igualdade com os que o rodeavam.

E se, por uma quebra de convicção positiva caísse “na real” esperava que, de imediato e magnánimamente, aqueles que o escutavam não demorassem a rebater aquela sua afirmação, mesmo sabendo que o linguarudo estava totalmente certo.

Mais uma vez socorro-me da compilação de ditados populares para ilustrar esta participação:

  • A ignorância do bem é a causa do mal.
  • A ignorância é má conselheira.
  • A ignorância e o vento são do maior atrevimento.
  • A ignorância é um mal, mas não é contagioso.
  • O ignorante a todos repreende e mais fala do que não entende.
  • O ignorante e a candeia, a si queima e a outros alumeia.
  • O ignorante é o que mais fala.
  • Sabe muito a raposa, mas quem a apanha sabe mais.
  • Sabe o que digo? Que cevada não é trigo.
  • O saber escondido, da ignorância vista pouco dista.
  • Saber muitas artes é ter pouco dinheiro.
  • Saber muitas línguas é ser muitas vezes homem.
  • Saber muito não evita que nos enganemos um pouco.
  • O saber não está numa cabeça só.
  • O saber não pesa na cabeça.
  • O sábio desabafa escrevendo e o néscio maldizendo.
  • O sábio sabe que não sabe e o néscio cuida que sabe.
  • O sábio só deve ter a si por guardião de seu segredo.
  • Todos querem saber, mas ninguem quer pagar.
  • Nada duvida quem nada sabe.
  • Quem não sabe pergunta.
  • Burro calado se torna sábio.
  • Burro velho não aprende línguas.

E há muitos mais à solta por aí.

TENHAM UMA BOA PÁSCOA, mas cuidado com as amêndoas e os doces em geral.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

CRÓNICAS DO VALE - Cap. 71


VIVÊNCIAS DE VIRELLA - Cap 71


O parecer do Dr. Cardoso

Pois como já vi que, por enquanto, o Dr. Cardoso além de já não ter nada que ver, directamente, com a zona de Aveiro, mas sendo o supervisor desta e de mais outras áreas, até à raia de Valença, a resposta que me aconselhou para o Ortega, e que estou seguro de que não vai ser do seu total agrado, encaixa bastante como que eu já pensava. Terei que procurar uma forma de adoçar a pílula. Mas não nesta noite. Temos que dormir tranquilos, que este sarilho não nos tcca, felizmente. É coisa de ciganos, e são eles que tem que o desfazer, arrumar. Seja com a sua autoridade ou através dos mais responsáveis no seu grupo. Amanhã será dia, e agora a conversar e descansar.

- Luísa. O que tinha a tratar como Dr. Cardoso já ficou apalavrado. Tal como eu pensei é um assunto interno, entre eles, e quanto mais confusão passar para a justiça do País, pior para todos. Não dei atenção á vossa conversa entre senhoras, não por desinteresse mas porque as damas tem um esquema de conversa diferente da dos homens. Falais muito e dão muitas voltas; e no fim, aquilo que estava para ser tratado, é despachado em duas palhetadas.

Diz-me se ficaram em se encontrar. Se combinaram alguma refeição de casais, ou se aceitou a proposta de visitar a tua estufa. Neste momento o que me apetece, além de ir para o nosso quarto sem interferências do exterior, é tomar um banho, vestir um pijama e levar uma bebida para a mesa de cabeceira. Ligar o ecrã plano e escolher algum programa interessante no cabo. E tu?

- Com todo o gosto te farei companhia, e para ver se não fumas na cama, vou levar um pratinho com salgados, especiais. Eu também vou-me fardar com o requinte pertinente.
..
- Senhor Rafael Ortega? Sou Maragato. Está tudo bem consigo? Assim espero. Imagino que aguardava conhecer o que conseguí do dr.Cardoso. Só terminamos a conversa quando ja era noite cerrada, pois antes as nossas mulheres tiveram os telefones ocupados. Dadas as horas decidí que, por uma questão de respeito, não era a altura de o incomodar e que hoje seria tempo de tratarmos deste vosso assunto.

- Bom dia e desde já agradeço a prontidão com que o amigo Dr. Maragato procurou atender o meu pedido. E então, o que nos aconselha o chefe dos inspectores.

- Para já no gabinete do Director ainda não chegou nenhuma comunicação respeitante a esta denúncia. Todos estes assuntos têm que seguir as suas tramitações, e como o crime, a se decidir o nível com que deve ser estudado, não meteu sangue, deve ter ficado nos assuntos a ser tratados, sem grande pressa... Mas falamos um bom bocado na situação em que o nosso amigo Ortega se viu embrulhado. E a opinião dele não difere da nossa.

Segundo a forma como o Dr.Cardoso analisou a denûncia, ou a queixa, que insisto ainda não foi transferida para o Porto, pois está ao nível da polícia de Aveiro, entende que este tema é mais do tipo social do que criminal, mesmo que tivesse existido uma faceta que se poderia valorizar como sendo um rapto. Mas, como sabe o Ortega, ao implicar os costumes ancestrais da vossa etnia, a justiça nacional não tem muita vontade, nem costume, de interferir com a possibilidade de chegar a entendimentos internos, respeitando as vossas normas e costumes. Quando não tem outra solução do que entrar num litígio oficial, em geral as coisas complicam-se sem necessidade. E rara vez se chega a soluções ao nível que para os nossos códigos seriam normais.

Resumindo: o Dr. Cardoso, sem se colocar de fora totalmente e dando garantia de que, caso a situação piorasse, ele entraria em acção, mas em consonância com as regras internas da Judiciária. Opina que o mais prudente, e até eficaz, seria que o Ortega convocasse uma reunião entre uma meia dúzia de elementos respeitáveis do seu grupo e lhes pedisse que tratassem de anular aquele “compromisso matrimonial”. Inclusive podia argumentar que o matrimónio poderia ser anulado porque não se tinha consumado.

Possivelmente será um caso excepcional, e portanto desagradável, mas o Ortega terá que se esforçar para encontrar argumentos, dando importância à evolução da sociedade em geral e a dos calés em particular, que não tem outro caminho que não seja o acompanhar, mesmo que manquejando, o que sucede à vossa volta.

Insiste, o Doutor Cardoso, em que o irem para um processo cível na Justiça nacional vos traria mais dissabores e desentendimentos entre famílias do que um acordo de novo cunho.

Da minha parte, se o Amigo Ortega opinar que era conveniênte ter a minha pessoa ao seu lado, eu não deixaria de o acompanhar e confirmar que os pareceres que vos dei são aqueles que, entendemos, vos seriam mais favoráveis. O importante é conseguir que o “noivo” aceitasse o desfecho sem considerar que se lhe faltou ao respeito. E a seguir, se ele estivesse conforme, o Ortega acompanhasse a noiva ao tribunal para anular a queixa.

Pense com calma, deixe passar umas horas, fale com pessoas sérias da vossa raça e, amanhã, depois de consultar a almofada, e a sua esposa, pois certamente as mulheres querem dar a sua opinião, e em certas coisas são mais sensatas do que nós. Então espero que me diga que encontraram uma solução sem ter que andar à pancada.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

CRÓNICAS DO VALE - Cap. 70



Cá vem a cunha que se previa.

- Amigo Ortega. Este problema que provoca desassossego, a meu ver, é um assunto de família, que deveria ser resolvido internamente dentro do seu clã. Mas... como já chegou ao tribunal, agora estão num sarilho que não podem acalmar internamente. Penso que só poderiam tentar anular o processo se a noiva Júlia, se apresentasse no tribunal dizendo que queria retirar a queixa. O que equivale a dizer que se sujeitava às regras da vossa etnia. E, se como o Ortega diz, ela é de nariz torcida, não é muito provável que ceda.

- Diz bem o Doutor, mas desconhece como pensam as novas gerações dos ciganos. Há costumes e obrigações que eles rejeitam, negam totalmente. E os casamentos fora do grupo étnico, por assim dizer, estão mais presentes cada dia. No nosso clâ de Ortegas, os mais velhos, vem dizer-me que nas suas casas todos aqueles com menos de 30 anos estão a favor de Júlia e contra o Macário. Especialmente as raparigas, que dizem ser donas do seu corpo e não os pais, tios ou chefes do grupo. Estou num sarilho pior do que quando nos aparecem os da ASAE para nos lixar. A estes sabemos como os manobrar.

- Então, amigo Rafael, tem alguma ideia em mente com a qual lhe parece que eu possa colaborar?

- Se não tivesse não lhe teria telefonado. Sabe, gostei muito do tratamento que o Doutor Inspector-Chefe da Judiciária, de seu nome, se não estou confundido, Dr. Silvio CARDOSO. E pela forma nada presunçosa com que sempre me tratou. Imaginei -e desculpe a ousadia- que se o Amigo Dr. Maragato não aceitaria o pedido de sondar este Senhor no sentido de que, com a experiência que deve ter, nos pode sugerir algum caminho, sensato e com possibilidades de arrumar este problema sem alterar gravemente os nossos costumes, que já lhe disse estão em processo de desagregação.

- Senhor Ortega. Já nos conhecemos e falamos de muitas coisas, mas dos vossos costumes pouco ou nada me atreví a comentar. Agora, porém, e mesmo antes de prometer, e cumprir, que ainda hoje vou tentar falar com o Dr. Cardoso, sem que à partida lhe possa garantir nada mais do que a minha seriedade e boa vontade. Que sem dúvida me merece. Gostaria de dizer umas palavras, curtas, que não serão novidade para si.

O grupo da vossa etnia, que já anda por este País, e pelos outros da orla mediterrânica, à volta de 500 anos, insistiram e conseguiram viver no meio dos nacionais como se estivessem num universo paralelo, com uma língua própria, embora possa ser vista como uma mistura de influências, e uns costume possivelmente ancestrais que para vocés, devem ser leis a cumprir, sem discussão. Hoje tem Cartão de Cidadão, passaportes (possível que vários por cabeça...) que imagino só os comprometem em certas e determinadas ocasiões. Para a vida normal e familiar insistem em seguir as vossas regras especiais.

Mas nem que seja pela influência das novas gerações e, certamente que pela instrucção obrigatória consequência de terem deixado a vida nómada, pelo menos alguns, mesmo que as raparigas sejam afastadas da escolaridade quando chegam à puberdade, o certo é que os vossos costumes e regras tem o futuro muito comprometido.

Teriam que migrar todos de retorno ao Paquistão ou seja qual for o local de onde partiram. Coisa que obviamente não farão. Ou então ceder aos tempos actuais, abdicando de algumas das características que insistem em manter para se diferenciar dos paios.

Veremos o que nos dirá o Dr, Cardoso. Hoje nada mais podemos fazer, eu nem o Ortega. Só podemos conversar de assuntos sem importância, até que decida que são horas de regressar à sua casa.

Como no fado de Coimbra, chegou a hora das despedidas, pelo menos por hoje. Esteja descansado, vou telefonar à hora de jantar ao Dr. Cardoso e procurarei ser seu advogado, pois entendo que só se decidiu a pedir ajuda porque estava entre a espada e a parede -que fica entre Carcavelos e São Pedro de Estoril-

........

- Isabel, já viste como pensando um pouco nos acontecimentos recentes, e ligando ao passado, podemos ter algum sucesso na previsão. Neste assunto do Ortega de facto era fácil, quase infantil. Depois do jantar, para não dar uma noção de ser assunto oficial, vou pedir que sejas tu a ligar para casa dos Cardoso, perguntes pela Doutora Diana. Fica bem começar com uma conversa social, com os temas próprios das senhoras. Podes, se entenderes estar na onda, deixar cair, como se por acaso, que já avançamos com a tua estufa, pois recordo que a Doutora lamentava-se de não ter um jardim donde descargar da pressão do trabalho. E, tens liberdade, se estiveres para esta maçada, para combinar um almoço,ou jantar, em casa ou num local público.

E depois a parte mais importante: perguntar se o marido, dr. Cardoso, está disponível para uns minutos, poucos, de conversa comigo. Podes tratar disso “meu amor perfeito, matizado?”

- José, tens tão pouco jeito para salamaleques … só comparável à tua táctica de entrar logo a matar nas  conversas. Assim espantas a caça, nos dois tabuleiros. Mas vou fazer a chamada... pois claro...isso de matrimónio traz obrigações...
    .....
Doutora Diana, agradeço a sua sempre clara simpatia em me dedicar uns minutos, e já que está disposta a entregar o aparelho ao seu marido, Doutor Cardoso. Vou passar o telefone ao meu José Maragato, a quem já recomendei que não seja muito maçador.

- Doutor? Como está de trabalho este amigo? Uma amizade relativamente recente, de meses, mas que ficou nas minhas entranhas como se nos conhecêssemos desde a primária!

- Pois eu, normal. Já me encontro encaixado na estrutura do Porto, e com bastantes assuntos a que me dedicar. O pessoal que aqui encontrei é mais profissional, quase do nível da Central, mas com as características especiais da gente nortenha. Posso dizer que não estou a desgosto. E o amigo Maragato? Creio saber -pois aqui, neste meio, sempre temos as fichas abertas...- que teve uns tempos bastante atarefados com negócios dentro da normalidade, ou melhor, que não despertaram suspeitas.

Mas conhecendo o Maragato, tenho a impressão de que a sua chamada não é de simples convívio social. Algum tema o pressionou para procurar o parecer profissional deste seu amigo, que assim me considero, fielmente.

- O Dr. tem uma calejo de inspector e uma pituitária tão treinada, que até de longe, e através de um telefone, é capaz de prever da existência de um gato escondido. De facto me vi pressionado para lhe pedir uma opinião, desta vez, por enquanto, não implica crime de sangue. Vou tentar ser breve..

O Dr. Deve recordar o termos tido uma espécie de “joint-venture” com o chefe dos ciganos de Aveiro … bla, bla, bla..... Antes de aceitar o pedido de lhe transmitir, a si, o assunto, dei a minha opinião ao Ortega... bla, bla, bla. . . . Mas o homem estava muito aflito e “ateimou”. E por isso agora estou a maçar em casa, para não dar ao assunto um ar oficial, nem sequer oficioso, sem papéis nem a necessidade de abrir uma pasta.

Sei que o Doutor tem uma mente, além de esclarecida, rápida para estruturar os factos. Daí que, mesmo “na hora”, como dizem os brasileiros, me atreva a lhe perguntar se tem alguma ideia, útil e factível, que possa transmitir ao Ortega. Como pode imaginar, o homem está nervoso, aos saltinhos, como se com isso tentasse reter a bexiga.

Na entrega seguinte veremos se o Dr. Cardoso consegue sossegar ao Rei Ortega.

terça-feira, 16 de abril de 2019

CRÓNICAS DO VALE - Cap 69



Ortega bate à porta

De facto o Gypsi King não chegou a bater à porta. Estava eu -não a caminho de Viseu,desta vez- sentado no alpendre de entrada lendo um opus-culo, em castelhano, acerca da plantação rentável de avelãs, que parece não tem sido bem sucedida neste rectângulo, mas que a venda do fruto é tão estimada e valorizada como os outros frutos secos. Com a pressão mediática actual para que se coma bem e racionalmente, os frutos secos têm tido uma procura inhabitual entre nós.Então Senhor Ortega, bem vindo a esta humilde casa e benditos os olhos que o veem (neste caso os meus...) Já passaram uns meses desde a última vez em que coincidimos, ou nos procuramos, e até nos sentamos na mesma mesa. Posso dizer que já sentia a sua falta. E o que é que o levou a me procurar nesta altura?

- Antes que responda, queria fazer-lhe uma pergunta sem importância: se a vossa família tem alguma ligação com o Armancio Ortega, fundador e dono do grupo Inditex – Zara, e que faleceu em Dezembro passado? O ser um dos homens mais ricos do mundo não afugentou a dama da gadanha!

- Doutor, infelizmente os Ortega do meu lado, eu que saiba, não estão directamente ligados aos galegos da Zara. É pena. Eu até tentei, sem sucesso, aproximar-me destes ricalhaços, especialistas como nós de vender a preços relativamente baixos -nós estamos ao nível dos saldos abaixo de zero- e comprar ou mandar confeccionar a gente que recebe uma miséria pelo seu trabalho. Bateram-me com a porta no nariz.

E como dizem que perguntando consegue-se ir a Roma, dei umas voltas à arena e soube que eles trabalham com séries relativamente curtas, mas amplas em modelos e cores, e com grande rotação. As sobras, quando ultrapassam o período de saldos nas suas lojas, enviam-nas para outras lojas deles, que ainda trabalham quase a preço de custo. E assim não dão a ganhar a feirantes-quincalheiros como nós.
Mas, cá para mim, deve existir uma porção de sangue calé nesta família. Mas negaram esta ascendência. E hoje penso que foram sensatos. Fizeram bem ao atender aos seus interesses.

E agora, se me permitir vou expor o que me empurrou a chamar: Deve ter chegado a seu conhecimento um sarilho de noivados e casamentos ao estilo dos nossos costumes. E que a moça escolhida para ser a noiva, que para meu azar e dores de cabeça, é minha sobrinha e afilhada. Possivelmente incitada pelos maus exemplos que viu entre as suas colegas na escola -o andarem na escola só estraga as famílias!- torceu o narizinho. Se visse que belo narizinho tem ela! Os meus filhos e netos, que andam sempre com livros de banda desenhada nas mãos, dizem que é igual ao da Cleopatra (?) Nem me atrevo a perguntar que é ou era esta senhora, pois seria gozado pelos churumbeles todos, e até pelos maiores já ilustrados.

A questão é que o noivo agarrou na cachopa e queria consumar o casamento nem que fosse à força. Mas a Júlia, que é o seu nome, não foi nisso; rapou duma naifa que trazia escondida num bolso do saiote e ameaçando o noivo dirigiu-se à porta da rua. Abrindo de roldão, saiu e logo ali, “casualmente”, estava um outro primo dela, montado numa mota potente e barulhenta. E a descarregou em casa do padrinho, ou seja na minha casa...

A partir daí meteu polícia, pois que a Júlia não quis aceitar a justiça dos ciganos. Fez a denúncia à PSP pelo telefone e compareceu um carro da Nivea. Aquilo foi classificado de rapto e tentativa de estupro, e não sei que mais palavrões meteu o juíz de primeira instância.

O noivo, também sobrinho, Macário Ortega de sua graça -já sabe que neste grupo somos todos parentes, muitas vezes sem respeitar a consanguinidade- diz, aos gritos, para todos os que o querem ouvir, que ele a vai raptar, à força, e que fugirá com ela, atada e amordaçada se fizer falta, até Marrocos ou Argélia, donde existem famílias da mesma etnia que os acolheriam. Isso é o que ele diz, mas a minha palavra tem mais força do que a dele, e se chegasse o caso convocaria os chefes das famílias mais chegadas e procurariamos o atrevido, mais a Júlia, pois não acredito que se atreva a lhe fazer mal. No fundo ele, o marido rejeitado, não é nada que se respeite, uma desgraça.

- Isabel, eu não te disse sempre que tenho um dedinho que adivinha? E agora vem a segunda parte. Que também suspeito para onde vai, mas não te dou dica nenhuma. Só que o Ortega vai pedir a minha colaboração para falar com alguém, que eu já imagino quem seja.

Na entrega seguinte saberemos da "cunha"


segunda-feira, 15 de abril de 2019

CRÓNICAS DO VALE - Cap. 68



Uma chamada imprevista, mas …

Doutor, tenho um senhor ao telefone que diz ser seu amigo e que gostaria de falar consigo, pessoalmente e em pessoa, a ser possível esta tarde e na sua casa. Eu trago o aparelho.

- Estou. Maragato em linha. Quem é que me procura?

- Senhor Maragato, Doutor, desculpe, sou o Rafael Ortega, desde Aveiro, e surgiu-me um sarilho na família que gostaria de lhe apresentar, para ver se me poderá orientar melhor sendo pessoa de conhecimentos e não estar ligado às minhas gentes.

- Terei todo o prazer em o ouvir e tentarei ser-lhe útil. Mas por enquanto não sei do que se trata. Às duas horas está bem para si?

- Óptimo, e desde já agradeço a sua disponibilidade e prontidão. Estarei à sua porta como um relógio de torre.

Quem era o deste telefonema? E com tanta pressa?

Era o Rei dos ciganos da zona de Aveiro. Que conheces desde antes do almoço popular. Vem cá dentro de uma hora, mais ou menos, e creio que já me cheira o problema a que mal se referiu. Antes que me esqueça. Tenho que o atender a sós, sem ti nem testemunhas. Ele pediu assim. Manda preparar um café e uns cálices para beber um digestivo.

E agora vou-te fazer partícipe das minhas suspeitas. Deves ter lido ou ouvido, dum romance de cordel, acontecido entre membros da etnia cigana, onde se combinou, como lhes é tradção, um casamento sem contar com a opinião da noiva, que para eles é um ente ao nível da burra. Entregaram uma sobrinha do Ortega à família do noivo, e ela, que já lhe deve agradar o que sabe ser costume na sociedade igualitária das tugas, fechou-se em copas ou mais propriamente nas pernas. Ou seja, que não aceitou as normas antigas e mandou o noivo a que fosse dar uma volta. A partir daí houve um rapto, uma devolução e um problema bicudo entre duas famílias “respeitáveis”. E não me admiraria muito se me dissesse que todos eles são parentes, quase consanguíneos, ou mesmo sem o quase.

Queres apostar comigo em que não estou muito errado?

Nada de apostas e menos a dinheiro, e esta deveria ser com cacau à vista. Entre marido e mulher, como é o caso, não devemos meter os dinheiros em jogo.

Eu não teria dito melhor. E como ainda temos coisa de uma hora antes de que o Rei nos bata à porta, e se me mostrares os teus domínios, estufados, de que tínhamos falado antes dos tais negócios com o Nelson Sousa de Ermesinde?

Sinto-me em falta, envergonhado até, mas valorizo altamente o teu bom senso e sei que reparaste que saia de casa, pensativo e orientado, e nunca me deu para dar a volta ao edifício para ver o progresso dos teus domínios,nem tu me sugeriste, sempre com o bom senso característico das boas esposas. Não foi por desprezo, mas sim por preocupações “profissionais”, a bem dizer.

Querido José, nem é tarde nem é cedo. E como está bom tempo iremos de braço dado, como dois namoradinhos, até à estufa.

Um espanto! Mas isso é muito maior do que eu imaginava. Deve ter custado muita pasta e eu não entrei com nada, até agora. Tens muito que me contar. Para já, isto tem alguma garantia? É que nas minhas voltas pelos Caminhos de Portugal (lá, lá lá...) vi muitas estufas deitadas abaixo pelos vendavais, tudo em destroços e as culturas que lá existiam perdidas.

Zé. Para já lembra que estas eventualidade cobrem-se com seguros. E antes de aceitar a proposta fiz o possível para me ilustrar sobre este tema. Comprei uns livros e consultei as revistas que me indicaram. Por isso sabia, ou julgava que sabia, o que exigir não só quanto à resistência da estrutura como da grossura do filme, das aberturas reguláveis para ventilação e equilíbrio das pressõe e depressões do vento, assim como dos sistemas de controle de umidade e temperatura. Mais algumas características dos solos e adubos não poluentes, e fitossanitários que dizem ser indispensáveis, mas que eu procurarei evitar totalmente. Neste aspecto da poluição da terra e das águas freáticas estou totalmente convencida de que devemos mudar, para nosso bem e para o dos netos, quando os teus se decidirem aos encomendar.

E deram-te garantias? Certamente, ou pensas que lhes entregaria as minhas economias assim como assim, de mão beijada? Já te mostrarei o contrato com as cláusulas, que foi registado no notário! Lá estão duas garantias, em prazos diferentes. Uma diz respeito a acontecimentos imprevistos mas de fácil conserto durante 18 meses, e outra, mais ampla, por três anos, concretamente com a qualidade dos equipamentos e materiais.

Luisinha. Podes ficar viúva que não te apanharão com as calcinhas na mão. Saíste-me uma empresária de bigode! Daqueles que eram de uso corrente pelos guardas republicanos do século XIX. Esta tua capacidade não me apanhou de surpresa, pois tinha visto como organizaste os teus salões para entender que não eras uma parvinha. Se fosses não durarias comigo mais do que umas poucas noitadas, com quecas incluídas.

E tu, pensas que não te avaliei antes de “juntar os trapinhos”? Ambos somos gatos velhos, batidos na sociedade que nos rodeia. Mas neste diálogo passaram muitos minutos. Parece-te que temos tempo para ver, com olhos de ver, o que está dentro desta estufa? E que necesitamos duas horas, ou mais, para eu te poder explicar tudo, e o Ortega deve estar a bater ao ferrolho. Tu vai para a porta da frente e eu entrarei pela cozinha para tratar de que a Idalina prepare um tabuleiro que nos deixe bem vistos.

Próximo capítulo: As preocupações do Ortega.


MENSAGEM RECUPERADA


CRÓNICAS DO VALE – cap 67

por razões de programação, como mais adiante se verá. repetimos o último capítulo anteriormente editado da saga CRÓNICAS DO VALE

Foi falso alarme ?

Depois de tomar o segundo comprimido comecei a sentir uma moinha esquisita na barriga. Tive uma noite inquieta, mal dormida ou mais propriamente com uma insónia misturada com pesadelos instantâneos. De madrugada guardei a orina que o Dr. me pediu e, no boião transparente vi uns laivos de sangue. Tomei o terceiro comprimido e o mal-estar se acentuou. Quando me arranjava, com muita dificuldade em coordenar movimentos e um sentimento estranho no meu interior, sentí como surgiu um fluxo, mais espesso e até violento, do que o meu normal.

- Bom dia. Sou a Senhora Luísa Maragato e vinha deixar as amostras de urina de ontem ao deitar e de esta manhã ao levantar, atendendo às indicações do Senhor Doutor. Certamente a enfermeira saberá o destino a dar a estas amostras. E creio que por agora é tudo. Se o Dr. Entender tem o meu telefone na ficha para entrar em contacto.

- Desculpe. Não se vá embora já. O dr. Avisou que quando a dona Luísa, chegasse para entregar os dois frascos o informassem, pois deseja consultar a Senhora quanto antes. Faça o favor de aguardar enquanto eu comunico com o Doutor. O Dr. Deu indicação para que entre no gabinete de consulta. Faça o favor de me seguir.

- Doutor, bom dia. Antes de mais queria dizer que, sejam quais forem as razões terapêuticas, os comprimidos que me entregou foram de efeito rápido. Não quero especular acerca do tratamento, mas gostaria que o Doutor me esclarecesse. Não tenho uma explicação plausível que me satisfaça, pois o que sei de medicina e nada é a mesma coisa. Só posso afirmar que agradeço ao Doutor a atenção com que atendeu ao nosso - meu e do meu marido- não digo que problema, pois caso se confirmasse existir uma gravidez inesperada. seria encarada com toda a sensibilidade e bom senso pertinente. Mas, de facto não deixava de ser uma situação extemporânea.

Já discursei e assim descarreguei o nervosismo que me pesava desde a noite passada. Agradeço o silêncio com que me ouviu e, também, em primeiro lugar, o método indolor e rápido com que possibilitou uma solução. Peço que me desculpe. Sempre fui impulsiva quando entro em parafuso, e o conhecer o Doutor de bastantes anos tornou-me indesculpávelmente atrevida.

- Amiga Dona Luísa Maragato. Conheço-a desde muitos anos a esta parte, como paciente de seguimento e por sorte sempre com boa saúde, ou seja, foram visitas rotineiras de precaução. Desta vez as coisas não foram, exactamente, como a Dona Luísa imaginou. Mas esteve muito perto. O que a desconcertou foi que, sem dar por isso, chegaram os primeiros sinais da fase menopáusica, que altera practicamente todo o funcionamento do aparelho reprodutivo feminino, e provoca uma sintomatologia que nem sempre é agradável. Os homens também tem a sua cruz neste sector sexual: a andropausa, de que, tal como as senhoras, não gostam de falar porque psicologicamente sentem-se diminuídos. E de facto assim é!

Aguardaremos os resultados das análises a fazer com a sua urina, e depois o mais provável é que lhe tenha que receitar um tratamento hormonal específico para esta fase da vida femenina. É melhor tratar disso enquanto os sintomas não se acentuam. Entretanto, e porque a chegada deste declínio hormonal é causa de efeitos psicológicos, a maioria das mulheres, como já disse, não gostam de referir esta situação aos demais. Não devia ser visto como uma vergonha, mas a reacção habitual é como se fosse.

Confio na Dona Luísa para que arquitecte um arrazoado, credível, sem entrar em especulações de mau gosto. E até, se já tinha dado vozes de novidade a pessoas suas conhecidas, use a mesma argumentação para dar uma nova versão mais aceitável, esquecendo o alarme, imprevisto mas em princípio aceite, de que iria dar mais um herdeiro ao José Maragato.

E aqui damos a consulta por terminada. Felizmente sem sequelas, segundo desejo. Quero voltar a observar daqui a um mês. Trate de marcar a consulta com a senhora da recepção, a quem darei já indicações pelo telefone interno. Os dois estamos de parabéns, tendo remediado uma situação que se podia prever visse a ser potencialmente problemática.

- Então Luísa, como decorreu o encontro com a Dra. Diana? O que me antecipaste pelo telefone creio que é suficiente, mas tens via livre para completar, caso entendar ser pertinente.

- É um assunto que ainda está no início. Não digo no prólogo, porque já se deram novas e rápidas alterações não organização da filial de Coimbra. Já não é aquilo que conhecemos. E o melhor seria que pudéssemos esquecer das circunstâncias que nos conduziram a ter estes contactos.

Mas há outros assuntos que mais nos podem interessar neste momento, além de que a possibilidade de te dar mais um herdeiro ficou pelo caminho. Segundo parecer do meu médico “de senhoras” acontece que entrei na fase menopáusica, com a certeza de vir a sofrer dos calores, conhecidos como afrontamentos e indisposições de novo tipo, próprios das matronas. Querido, não te darei um filho -vade retro, Satanás!- mas cá estou para passar a ser uma senhora respeitável, sem despesas de pensos higiénicos, pelo menos numa periodicidade regular.

O outro tema, que trazia na mira, ou seja a vontade de instalar uma estufa para plantas junto da hortinha, pode ser que venha a ter algun avanço. Ao passar pela Vila falei com a referida senhora, mãe de um engenheiro “ingrícola”, especializado em floricultura e meninas -a mamá sempre conta, muito vaidosa, da constante mudança de namoradas do seu rebento. E todas elas de parar o trânsito!- a fim de que lhe pergunte se pode deslocar-se até o Vale para nos poder dar uma ideia de se entende ser possível a instalação da sonhada estufa. E depois poder contar com a sua assistência futura enquanto eu não ganhe experiência.

Uma loucura serôdia que, como ves, está tão longe do lavar cabeças, e pintar cabeleiras, como consta do meu currículo “universitário”, como está Marte em relação a Aveiro.

- Eu dei um dos meus passeios diários no terreno e tive uma conversa com o Ernesto acerca da tua ideia de montar uma estufa. Ele sabia disso, porque tu já lho contaste. Vimos os espaços que nos parecem apropriados e qual implicaria abater muitas árvores. O que ele nos recomenda é que nos precavermos de que a estrutura a instalar seja resistente a ventanias, pois é uma tristeza ver como algumas instalações deste género são derrubadas e desfeitas caso a aragem seja mais forte; ou seja, se surgir um vendaval. Quando souberes da vinda do “técnico” posso estar por perto. Mas a conversa terás que a ter tu. Como na cozinha, duas pessoas a temperar o mesmo estrugido ou assado é muito arriscado.