segunda-feira, 15 de abril de 2019

CRÓNICAS DO VALE - Cap. 68



Uma chamada imprevista, mas …

Doutor, tenho um senhor ao telefone que diz ser seu amigo e que gostaria de falar consigo, pessoalmente e em pessoa, a ser possível esta tarde e na sua casa. Eu trago o aparelho.

- Estou. Maragato em linha. Quem é que me procura?

- Senhor Maragato, Doutor, desculpe, sou o Rafael Ortega, desde Aveiro, e surgiu-me um sarilho na família que gostaria de lhe apresentar, para ver se me poderá orientar melhor sendo pessoa de conhecimentos e não estar ligado às minhas gentes.

- Terei todo o prazer em o ouvir e tentarei ser-lhe útil. Mas por enquanto não sei do que se trata. Às duas horas está bem para si?

- Óptimo, e desde já agradeço a sua disponibilidade e prontidão. Estarei à sua porta como um relógio de torre.

Quem era o deste telefonema? E com tanta pressa?

Era o Rei dos ciganos da zona de Aveiro. Que conheces desde antes do almoço popular. Vem cá dentro de uma hora, mais ou menos, e creio que já me cheira o problema a que mal se referiu. Antes que me esqueça. Tenho que o atender a sós, sem ti nem testemunhas. Ele pediu assim. Manda preparar um café e uns cálices para beber um digestivo.

E agora vou-te fazer partícipe das minhas suspeitas. Deves ter lido ou ouvido, dum romance de cordel, acontecido entre membros da etnia cigana, onde se combinou, como lhes é tradção, um casamento sem contar com a opinião da noiva, que para eles é um ente ao nível da burra. Entregaram uma sobrinha do Ortega à família do noivo, e ela, que já lhe deve agradar o que sabe ser costume na sociedade igualitária das tugas, fechou-se em copas ou mais propriamente nas pernas. Ou seja, que não aceitou as normas antigas e mandou o noivo a que fosse dar uma volta. A partir daí houve um rapto, uma devolução e um problema bicudo entre duas famílias “respeitáveis”. E não me admiraria muito se me dissesse que todos eles são parentes, quase consanguíneos, ou mesmo sem o quase.

Queres apostar comigo em que não estou muito errado?

Nada de apostas e menos a dinheiro, e esta deveria ser com cacau à vista. Entre marido e mulher, como é o caso, não devemos meter os dinheiros em jogo.

Eu não teria dito melhor. E como ainda temos coisa de uma hora antes de que o Rei nos bata à porta, e se me mostrares os teus domínios, estufados, de que tínhamos falado antes dos tais negócios com o Nelson Sousa de Ermesinde?

Sinto-me em falta, envergonhado até, mas valorizo altamente o teu bom senso e sei que reparaste que saia de casa, pensativo e orientado, e nunca me deu para dar a volta ao edifício para ver o progresso dos teus domínios,nem tu me sugeriste, sempre com o bom senso característico das boas esposas. Não foi por desprezo, mas sim por preocupações “profissionais”, a bem dizer.

Querido José, nem é tarde nem é cedo. E como está bom tempo iremos de braço dado, como dois namoradinhos, até à estufa.

Um espanto! Mas isso é muito maior do que eu imaginava. Deve ter custado muita pasta e eu não entrei com nada, até agora. Tens muito que me contar. Para já, isto tem alguma garantia? É que nas minhas voltas pelos Caminhos de Portugal (lá, lá lá...) vi muitas estufas deitadas abaixo pelos vendavais, tudo em destroços e as culturas que lá existiam perdidas.

Zé. Para já lembra que estas eventualidade cobrem-se com seguros. E antes de aceitar a proposta fiz o possível para me ilustrar sobre este tema. Comprei uns livros e consultei as revistas que me indicaram. Por isso sabia, ou julgava que sabia, o que exigir não só quanto à resistência da estrutura como da grossura do filme, das aberturas reguláveis para ventilação e equilíbrio das pressõe e depressões do vento, assim como dos sistemas de controle de umidade e temperatura. Mais algumas características dos solos e adubos não poluentes, e fitossanitários que dizem ser indispensáveis, mas que eu procurarei evitar totalmente. Neste aspecto da poluição da terra e das águas freáticas estou totalmente convencida de que devemos mudar, para nosso bem e para o dos netos, quando os teus se decidirem aos encomendar.

E deram-te garantias? Certamente, ou pensas que lhes entregaria as minhas economias assim como assim, de mão beijada? Já te mostrarei o contrato com as cláusulas, que foi registado no notário! Lá estão duas garantias, em prazos diferentes. Uma diz respeito a acontecimentos imprevistos mas de fácil conserto durante 18 meses, e outra, mais ampla, por três anos, concretamente com a qualidade dos equipamentos e materiais.

Luisinha. Podes ficar viúva que não te apanharão com as calcinhas na mão. Saíste-me uma empresária de bigode! Daqueles que eram de uso corrente pelos guardas republicanos do século XIX. Esta tua capacidade não me apanhou de surpresa, pois tinha visto como organizaste os teus salões para entender que não eras uma parvinha. Se fosses não durarias comigo mais do que umas poucas noitadas, com quecas incluídas.

E tu, pensas que não te avaliei antes de “juntar os trapinhos”? Ambos somos gatos velhos, batidos na sociedade que nos rodeia. Mas neste diálogo passaram muitos minutos. Parece-te que temos tempo para ver, com olhos de ver, o que está dentro desta estufa? E que necesitamos duas horas, ou mais, para eu te poder explicar tudo, e o Ortega deve estar a bater ao ferrolho. Tu vai para a porta da frente e eu entrarei pela cozinha para tratar de que a Idalina prepare um tabuleiro que nos deixe bem vistos.

Próximo capítulo: As preocupações do Ortega.


MENSAGEM RECUPERADA


CRÓNICAS DO VALE – cap 67

por razões de programação, como mais adiante se verá. repetimos o último capítulo anteriormente editado da saga CRÓNICAS DO VALE

Foi falso alarme ?

Depois de tomar o segundo comprimido comecei a sentir uma moinha esquisita na barriga. Tive uma noite inquieta, mal dormida ou mais propriamente com uma insónia misturada com pesadelos instantâneos. De madrugada guardei a orina que o Dr. me pediu e, no boião transparente vi uns laivos de sangue. Tomei o terceiro comprimido e o mal-estar se acentuou. Quando me arranjava, com muita dificuldade em coordenar movimentos e um sentimento estranho no meu interior, sentí como surgiu um fluxo, mais espesso e até violento, do que o meu normal.

- Bom dia. Sou a Senhora Luísa Maragato e vinha deixar as amostras de urina de ontem ao deitar e de esta manhã ao levantar, atendendo às indicações do Senhor Doutor. Certamente a enfermeira saberá o destino a dar a estas amostras. E creio que por agora é tudo. Se o Dr. Entender tem o meu telefone na ficha para entrar em contacto.

- Desculpe. Não se vá embora já. O dr. Avisou que quando a dona Luísa, chegasse para entregar os dois frascos o informassem, pois deseja consultar a Senhora quanto antes. Faça o favor de aguardar enquanto eu comunico com o Doutor. O Dr. Deu indicação para que entre no gabinete de consulta. Faça o favor de me seguir.

- Doutor, bom dia. Antes de mais queria dizer que, sejam quais forem as razões terapêuticas, os comprimidos que me entregou foram de efeito rápido. Não quero especular acerca do tratamento, mas gostaria que o Doutor me esclarecesse. Não tenho uma explicação plausível que me satisfaça, pois o que sei de medicina e nada é a mesma coisa. Só posso afirmar que agradeço ao Doutor a atenção com que atendeu ao nosso - meu e do meu marido- não digo que problema, pois caso se confirmasse existir uma gravidez inesperada. seria encarada com toda a sensibilidade e bom senso pertinente. Mas, de facto não deixava de ser uma situação extemporânea.

Já discursei e assim descarreguei o nervosismo que me pesava desde a noite passada. Agradeço o silêncio com que me ouviu e, também, em primeiro lugar, o método indolor e rápido com que possibilitou uma solução. Peço que me desculpe. Sempre fui impulsiva quando entro em parafuso, e o conhecer o Doutor de bastantes anos tornou-me indesculpávelmente atrevida.

- Amiga Dona Luísa Maragato. Conheço-a desde muitos anos a esta parte, como paciente de seguimento e por sorte sempre com boa saúde, ou seja, foram visitas rotineiras de precaução. Desta vez as coisas não foram, exactamente, como a Dona Luísa imaginou. Mas esteve muito perto. O que a desconcertou foi que, sem dar por isso, chegaram os primeiros sinais da fase menopáusica, que altera practicamente todo o funcionamento do aparelho reprodutivo feminino, e provoca uma sintomatologia que nem sempre é agradável. Os homens também tem a sua cruz neste sector sexual: a andropausa, de que, tal como as senhoras, não gostam de falar porque psicologicamente sentem-se diminuídos. E de facto assim é!

Aguardaremos os resultados das análises a fazer com a sua urina, e depois o mais provável é que lhe tenha que receitar um tratamento hormonal específico para esta fase da vida femenina. É melhor tratar disso enquanto os sintomas não se acentuam. Entretanto, e porque a chegada deste declínio hormonal é causa de efeitos psicológicos, a maioria das mulheres, como já disse, não gostam de referir esta situação aos demais. Não devia ser visto como uma vergonha, mas a reacção habitual é como se fosse.

Confio na Dona Luísa para que arquitecte um arrazoado, credível, sem entrar em especulações de mau gosto. E até, se já tinha dado vozes de novidade a pessoas suas conhecidas, use a mesma argumentação para dar uma nova versão mais aceitável, esquecendo o alarme, imprevisto mas em princípio aceite, de que iria dar mais um herdeiro ao José Maragato.

E aqui damos a consulta por terminada. Felizmente sem sequelas, segundo desejo. Quero voltar a observar daqui a um mês. Trate de marcar a consulta com a senhora da recepção, a quem darei já indicações pelo telefone interno. Os dois estamos de parabéns, tendo remediado uma situação que se podia prever visse a ser potencialmente problemática.

- Então Luísa, como decorreu o encontro com a Dra. Diana? O que me antecipaste pelo telefone creio que é suficiente, mas tens via livre para completar, caso entendar ser pertinente.

- É um assunto que ainda está no início. Não digo no prólogo, porque já se deram novas e rápidas alterações não organização da filial de Coimbra. Já não é aquilo que conhecemos. E o melhor seria que pudéssemos esquecer das circunstâncias que nos conduziram a ter estes contactos.

Mas há outros assuntos que mais nos podem interessar neste momento, além de que a possibilidade de te dar mais um herdeiro ficou pelo caminho. Segundo parecer do meu médico “de senhoras” acontece que entrei na fase menopáusica, com a certeza de vir a sofrer dos calores, conhecidos como afrontamentos e indisposições de novo tipo, próprios das matronas. Querido, não te darei um filho -vade retro, Satanás!- mas cá estou para passar a ser uma senhora respeitável, sem despesas de pensos higiénicos, pelo menos numa periodicidade regular.

O outro tema, que trazia na mira, ou seja a vontade de instalar uma estufa para plantas junto da hortinha, pode ser que venha a ter algun avanço. Ao passar pela Vila falei com a referida senhora, mãe de um engenheiro “ingrícola”, especializado em floricultura e meninas -a mamá sempre conta, muito vaidosa, da constante mudança de namoradas do seu rebento. E todas elas de parar o trânsito!- a fim de que lhe pergunte se pode deslocar-se até o Vale para nos poder dar uma ideia de se entende ser possível a instalação da sonhada estufa. E depois poder contar com a sua assistência futura enquanto eu não ganhe experiência.

Uma loucura serôdia que, como ves, está tão longe do lavar cabeças, e pintar cabeleiras, como consta do meu currículo “universitário”, como está Marte em relação a Aveiro.

- Eu dei um dos meus passeios diários no terreno e tive uma conversa com o Ernesto acerca da tua ideia de montar uma estufa. Ele sabia disso, porque tu já lho contaste. Vimos os espaços que nos parecem apropriados e qual implicaria abater muitas árvores. O que ele nos recomenda é que nos precavermos de que a estrutura a instalar seja resistente a ventanias, pois é uma tristeza ver como algumas instalações deste género são derrubadas e desfeitas caso a aragem seja mais forte; ou seja, se surgir um vendaval. Quando souberes da vinda do “técnico” posso estar por perto. Mas a conversa terás que a ter tu. Como na cozinha, duas pessoas a temperar o mesmo estrugido ou assado é muito arriscado.


domingo, 14 de abril de 2019

AINDA ACERCA DO BURACO PRETO


Dando liberdade à mente

Se aceitarmos o princípio de que a liberdade de pensamento e de expressão é um direito indiscutível e democrático, atrevo-me a vos maçar, com umas especulações gratuitas.

Antes de entrar em matéria creio que se impõe-se deixar bem explícito que o escribidor de serviço é um ignorante, muito mais ignorante do que o nível em que já me tinham classificado.

Sendo assim, sem abdicar da liberdade de atrevimento, considero que muitas das teorias que nos tem sido apresentadas não passam disso mesmo, de ser teorias, mais ou menos plausíveis mas nem sempre confirmadas na totalidade. Algumas carregadas de fórmulas matemáticas (que os cépticos, como eu, consideram poderem ser tão amanhadas como os tais sete dias da criação descritos nas Sagradas Escrituras) e apoiadas en observações astronómicas não só efectuadas desde a superfície do planeta onde estamos radicados, como em aparelhos viajantes que perscrutam o espaço infinito, sem nunca chegarem ao infinito propriamente dito. Entre o que se imagina e o que se consegue provar, é pertinente admitir que o conhecimento vai sendo incrementado paulatinamente.

Não me parece sensato negar a existência de uns poços sorvedouros no firmamento, que antes de ser confirmada a sua existência (dizem que sim, que existem!), eu tenho que confiar não nos meus olhos, cansados e bastante defeituosos, que os bichos irão comer dentro de pouco tempo, mas na seriedade de quem nos transmite suas descobertas. Daí que assinamos por baixo em que existem, e mais do que um, umas portas de fuga, de transferência num só sentido -por enquanto não sabemos se existem novas incorporações- As observações e deduções apontam a que tudo o que passar esta fronteira, do buraco negro, deixa de existir deste lado, que é transferido para outro lado, desconhecido.

Entre as opiniões que se apresentaram há pelo menos uma com a qual não posso estar de acordo. É quando dizem que do outro lado dos buracos negros deve encontrar-se uma grande lixeira, um vazadouro sujo e mal cheiroso, uma espécie de esgoto sideral e não um outro mundo, com vida e civilizações. Considero este racicíneo como um exagero de auto-convencimento dos humanos.

Admito que é muito difícil imaginar situações diferentes do que conhecemos na Terra. Mas se já estamos preparados para aceitar que, nesta vastidão do cosmos de que fazemos parte, é provável que existam outros planetas habitados, seja qual for o aspecto físico desses seres desconhecidos, e qual o seu grau de conhecimentos, ou daquilo que valorizamos como civilização em que se encontram, dar mais um passo na aceitação de novas possibilidades é só “avançar um pé”. Não pode custar muito.

Paralelamente podemos aceitar, sem vaidade, que os princípios que regem a física e a química, num outro universo (neste caso formado com transferências deste universo “nosso”), os elementos químicos, atómicos e moleculares, devem ser iguais aos da Terra, e dos corpos celeste que nos acompanham, pois que os espectros que nos chegam correspondem a uma homogeneidade geral.

Vamos supor que quando um corpo atravessa o buraco negro, e é transferido para outro universo, ao longo desta viagem sofre, ao longo desta traumática passagem, uma trituração, uma decomposição tão completa que, do outro lado uma nuvem de poeira, uma mistura de elementos ou de partículas totalmente caótica. Porque razão estas partículas não seguirão um processo de atracções, ligações, combinações e formação de compostos? E até de corpos sólidos e de novos corpos celestes com dimensões consideráveis? Tudo deveria ser possível, tal como se supõe que aconteceu neste universo onde vogamos.

É muito improvável, ou quase impossível, que do outro lado possa existir uma reprodução especular do que existe no “nosso” lado. Mesmo nesta complexidade de galáxias à nossa volta nada nos garante que a evolução num dos muitos corpos semelhantes ao nosso planeta, não se tenha gerado toda uma complexa estrutura, com vida própria, baseada no silício ou no enxofre. Pensar que só aquilo que conhecemos é a solução possível, é um excesso de vaidade. E O HOMEM PECOU SEMPRE DE SER VAIDOSO E CONVENCIDO.

sábado, 13 de abril de 2019

O BURACO NEGRO




Desde que se publicaram as primeiras fotografias (electrónicas) deste fenómeno do universo mais profundo, tentou-se vulgarizar uma tentativa de explicação científica desta anomalia. Cuja génese, na idade contemporânea, primeiro foi só imaginada por Einstein na sequência da sua Teoria da Relatividade, e à que se acrescentaram os avanços teóricos na Mecânica Quântica e o estudo das partículas mais elementares, com a sua dualidade energia-matéria.

Existem muitos estudos académicos disponíveis ao grande público, embora a sua compreensão não está ao alcance dos cidadãos pouco versados nestes assuntos de nível muito especializado. Mesmo assim é possível aceder, com calma e boa vontade, a alguns textos de divulgação no espaço da Internet. Provavelmente muitos dos que tentem entrar neste domínio desistirão por falta de conhecimentos já de nível superior.

Em poucas palavras admite-se que os tais “buracos negros”, que se caracterizam porque tudo o que cai no seu raio de atracção é absorvido e desaparece, sem que se saiba, hoje, para donde vai parar. Em princípio, seja matéria ou energia, que se admite serem equivalentes, considera-se que nenhuma destas formas pode destruir-se; só pode transformar-se. Daí que no outro lado do tal buraco deve existir, possivelmente, um outro universo, organizado a partir das aportações do conjunto de buracos negros que existem e se vão criando, neste imensurável universo onde a Terra circula.

As teorias hoje apresentadas, como poderão verificar os neófitos (e se não me engano tampouco os sábios estão totalmente convencidos) o acreditar ou não é equivalente ao dilema da Santíssima Trindade (peço aos crentes que desculpem esta blasfémia) Por outras palavras, os menos versados podem acreditar ou passar ao lado, sem negar. Deixar a opinião mais credível para as novas gerações. São teorias, hipóteses. Outras virão a completar ou alterar.

Se procurarmos uma imagem do quotidiano que nos possa dar uma ideia de como age um buraco negro, proponho que recordemos o que sucede quando se abre a descarga da água da banheira ou do lava-loiça. Apesar da colocação cautelosa de um ralo perfurado que sirva para retenção de partículas passíveis de entupir os canos, vemos como a água a despejar movimenta-se numa espiral, deixando um olho central, e por ali desaparecem partículas sólidas, desde cabelos, pelos e escamas corporais até bocadinhos da esponja e outras coisas mais. E qual é o destino de tudo o que vemos ser engolido?

No caso dos esgotos domésticos, ou outras descargas equivalentes, o percurso a parir do ralo já não nos preocupa, a não ser quando por alguma obstrução deixa de fluir. Com os corpos celestes que são atraídos pela forte gravitação dos buracos negros é mais difícil descobrir para onde vão parar. Para nos tranquilizar admitimos que ali sucede como nalgumas histórias para crianças: Vão para uma espécie do país onde irás e não voltarás.

Se por enquanto as viagens para fora do nosso sistema solar, e mesmo para alguns dos planetas nossos parceiros à volta do Sol, não se tem conseguido organizar, dadas as enormes distâncias a vencer e o nosso curto tempo de vida física -por enquanto ser limitado- o desafio humano para vencer o espaço longínquo continua impossível.

Mesmo assim, e dado que a nossa mente sempre se baseia em tentar encontrar explicações que, nem que seja ao de leve, possam considerar-se como perceptíveis à nossa dimensão e experiência, a noção do infinito é aceite mas não credível de imediato. Assim sendo e como corolário ao que escrevi (mal e atrapalhadamente) é duplamente incrível que ao “nosso” espaço sideral infinito exista outro, constituído também pela dupla matéria-energia e que provêm do nosso através dos tais buracos negros, que devem ser uma multiplicidade. Uma espécie de osmose em escala sideral.

E neste, hipotético, universo paralelo, não se geram fenómenos de absorção e desaparecimento semelhantes? E para donde vão ter os seus “esgotos”? Noutro espaço paralelo, o terceiro? Ou regressam, por um caminho de retorno, para o “nosso” universo?

quarta-feira, 10 de abril de 2019

NULLA DIES SINE LINEA - Plínio



Nem um só dia sem linha

Que se pode e deve interpretar como que não se deve deixar passar nem um dia sem dedicar algum tempo ao nosso trabalho, seja por obrigação ou por prazer.

Entendemos que algumas actividades pessoais não são remuneradas em si mesmas, mas que nos satisfazem anímicamente. Muitas vezes o que fazemos por paixão pessoal serve de contrapeso ao esforço que dedicamos às ditas obrigações. Para ultrapassar este fosso anímico a melhor táctica é a de procurar que o trabalho deixe de ser visto como uma maldição bíblica e se considere não como uma obrigação penosa, mas uma actividade que nos vai permitir usufruir de um tempo livre, descomprometido, pessoal, sem outros encargos que não os materiais e consumíveis.

Não me atrevo a oferecer uma listagem de passatempos que sejam simultaneamente gratificantes e remuneradores. Ou seja, que não interferirem negativamente com a nossa vida real. Mesmo assim devo garantir que as possibilidades são muitas, perto de infinitas, pois podem abranger actividades desportivas, voluntariado, coleccionismo, pedrestismo, pintar, escrever poesia ou prosa, observar os astros, especular sobre o desconhecido, activista na conservação do ambiente, observador sistemático de animais, sejam insectos, peixes, aves, mamíferos ou inclusive de bactérias (se tiver possibilidade de usar a aparelhagem indispensável) Umas podem implicar esforços físicos e outras mais sedentárias. Para alguns casos basta ficar meditando à sombra da bananeira, mas outras carecem de utensílios, seja papel e canetas ou ferramentas, materiais e até equipamentos.

Não são raros os casos que de um início singelo, sem imaginar muito das possibilidades que podem surgir, um passatempo pode evoluir e tornar-se na actividade principal e económicamente rentável. A passagem do nível amador para o profissional, entendendo isso pelo facto de passar a comercializar as suas obras com algum sucesso, tem o perigo implícito de que, mais cedo ou mais tarde, aquilo que tanto prazer dava passe a ser um castigo, uma carga que se deseje largar quanto antes, e para que tal seja factível será necessário encontrar novas opções. Poder retomar um lugar na profissão anterior, naquilo que se abandonou “prematuramente”, nem sempre pode ser viável, mas não impossível. É questão de procurar,insistir e não desanimar. E pelo caminho podem surgir hipóteses impensadas mas possíveis.

Seja como for, as mudanças de área profissional, especialmente se a nova está num sector muito diferente daquele onde labutou anteriormente, implicam um esforço de adaptação que nem sempre se consegue com sucesso. Dependerá da capacidade de mimetismo e de simbiose com o novo ambiente, além do esforço, voluntário, de estar mentalizado para não cair nas saudades de outrora. É de preceito reconhecer que factores positivos e outros negativos existem em todas partes.

Não é fácil encontrar rosas sem espinhos. Recordo uma lição, que não vem a propósito do anteriormente exposto, mas que se adapta se houver vontade mental para isso.

Um “faz tudo” do Coliseu de Lisboa, de nome de cartaz França, nos anos 50/60, naqueles intervalos em que a mudança de equipamentos na pista implicam uma acção que distraísse o público, contava histórias possivelmente inventadas, ou melhoradas, para conseguir o que era sua obrigação. Uma delas referia que numa tourné à China na hora da refeição lhe puseram à frente uma taça com baratas -vamos supor que cozinhadas e temperadas- e mais nada, ou se calhar arroz, mas ele não se referiu a este acompanhamento, ou não recordo. Perante o dilema fez um cerrar de dentes e pensou: Come França, que aqui comer baratas é comer de gente!. No seio da minha família este dito tornou-se lapidar e era referido com certa frequência, nomeadamente quando algum dos mais novos torcia o nariz perante a pitança do dia.

Curiosamente, passado meio século, de quando em vez, encontramos citações de que “no futuro” teremos que nos alimentar com insectos, e é um pau!. Noutra página nos alertam acerca da diminuição drástica de insectos no planeta. Será que já os comemos, incorporados sem nos dizerem, nos preparados industriais? A razão que alegam para este decréscimo é a do uso de pesticidas e métodos de cultivo que interferem no ciclo evolutivo das espécies. Paralelamente nos referem que diminui o número de aves insectívoras e caçadoras de roedores.

É que a humanidade, quando perde a noção das coisas, tanto estraga as água como a biosfera. HAJA DIVERSÕES!

terça-feira, 9 de abril de 2019

BREXIT 5


Um participante escondido ?

Esta iniciativa do Reino Unido, mas nem por isso coerente nos seus propósitos, já está demasiado tempo em cartaz. Parece uma telenovela com infinitos episódios. E mesmo assim, além de enfastiar, nos induz a pensar se o que está por trás desta pretendida saída do grupo UE -que recordamos a sua incorporação nunca foi completa. Uma vez que não aderiram à moeda única- não existirá uma manobra escondida, subversiva, por parte do seu “descendente” macro-país, cada ve menos macro e mais super.

Não sou politólogo mas habitualmente olho para o horizonte esperando nuvens que possam regrar o meu jardim. Na maior parte dos dias do calendário, as minhas esperanças não se cumprem. Neste capítulo da pluviosidade Abril é pródigo em ditados. Eis alguns, entre muitos:

- Abril frio e molhado, enche o celeiro e farta o gado.
  • Abril frio, pão e vinho.
  • A ti chova todo o ano e a mim em Abril e Maio
  • É próprio do mês de Abril as águas serem mil.
  • Não há mês mais irritado do que Abril zangado.

Mas não era da meteorologia que estava especulando. Era acerca do tal BREXIT e do pode estar escondido por trás do pano. Tal como nos é anunciado na literatura amarela -que por inicialmente uma colecção de romances policia se apresentar com umas capas desta cor- quando surge o crime e o enredo se complica aconselham a que se procure quem se beneficia pelo crime, e também é sugerida a influência feminina naquele sarilho.- procurar a mulher.

Com o BREXIT a presença de um protagonista do belo sexo é óbvia: a desengonçada Teresa May. Portanto nos resta ponderar que é que, económicamente, quem está ansioso de que o RU se desligue da “Europa continental” e assim enfraquecer este bloco económico, mas não político, antes de que se torne uma potência a respeitar.

Posso estar errado, mas aquele dedo que dizem ser adivinho, aponta para os conservadores e egocêntricos dos EUA, que não sabendo como podem travar a China, depois de ter conseguido baixar a fervura do Japão, e temendo um reviver da ânsia imperial da Rússia, ressurgimento, decidiram cobrar a dívida, já vetusta, do apoio à “mãe” Inglaterra nas duas guerras mundiais, podem estar manobrando, por trás das cortinas, para empurrar os sentimentalistas britânicos para uma série de problemas ainda mal conhecidos.

Os USA são, pelo seu entender, sempre obcecados pela sua grandeza, tal como sempre aconteceu com os já falidos impérios, a imaginar que o seu poder científico e económico é inexpugnável. E mesmo que guardem alguns ases na manga, optam por enfraquecer aquele pretenso inimigo que consideram ser o mais fraco. E a sua táctica, velha e comprovada em inúmeras vezes. Mas que sempre conduz a desastres, é a de inflamar o orgulho patriótico, e isolacionista, da vítima propiciatória. Agora está na vez do U.K. ser o seu cavalo de Troia.



segunda-feira, 8 de abril de 2019

MORS ULTIMA RATIO



A morte é a razão final

E se nos limitarmos aos ditados portugueses aqui ponho alguns

  • Morra o homem e fique a fama.
  • Morte de rico, desavença de herdeiros.
  • A morte não poupa o fraco nem o forte.
  • Morto por morto antes a velha que o porco.
  • O morto à cova e o vivo à fogaça.
  • Morte certa, hora incerta.

Este derradeiro anexim trouse-me à memória uma quarteta que aprendi quando rapaz, em castelhano...

SABES QUE DEUS TODO LO VE,
SABES QUE TE ESTÁ MIRANDO,
SABES QUE TE VAS A MORIR,
Y SABES QUE NÃO SABES CUANDO.....

Não é que esteja, neste momento, em estado depressivo, mas sucede que estava corrigindo um teXto em que se referia um falecimento e fui dar uma olhadela pelas frases latinas célebres. Algumas não resisti a transcrever:

    • MORTIS EN SOLATIUM (Fedro) Eis a consolação da morte.
    • AVE, CESAR, MORITURI TE SALUTANT Salve, César, os que vão morrer saúdam-te.

Na nossa cultura, judaico-cristâ, toda a educação, ou persuasão que foi induzida ao longo de séculos, tem sido no sentido de nos pesar, aterrorizar mesmo, a inevitabilidade do fim da nossa presença na Terra. Apesar de que sejam referidos, como factos inquestionáveis, a ressurreição de uns poucos indivíduos e que se procure neutralizar o pavor ancestral sobre uma viagem sem retorno anunciando uma hipotética ressurreição universal das almas. Ja que se deixou para trás a hipótese de ressuscitar os corpos, pelo menos inteiros e em bom estado, e não como ficaram após decepações e degradação por velhice. Todavia não li, até agora, que a doutrina nos oferece a possibilidade de escolher a idade da tal ressurreição corporal. Eu escolheria os 20 anos.

Outros humanos que engendraram culturas diferentes da nossa, afirmam a possibilidade de reencarnação, não só com outro corpo humano como ser possível reencarnar como um animal. Um conceito que depois de muito debater nas possibilidades de escolha deram origem a considerar certas espécies como “sagrados”, fossem vacas, macacos ou outro bicho qualquer. Inclusive se optou por certas árvores como destino ulterior à morte, e por tal serem também sagradas.

É que dada o inevitável fim do percurso e o desespero com que o nosso pensamento aceita um terminus, as opções que se engendraram foram de todo o género, inclusive justificou-se a mumificação dos corpos para que pudessem entrar numa nova vida com certa dignidade. Não temos emenda, e muito menos juízo nem ponderação do realidade. Daí que muitos, quando sentem que estão prestes a bater a bota abjuram do ateísmo de que fizeram gala enquanto o medo cerval não lhes chegou.

Actualmente nos alertam acerca dos possíveis avanços tecnológicos e da quase certa possibilidade de nos recolocar o cérebro numa máquina capaz de utilizar o seu potencial. E podemos negar esta possibilidade após se terem conseguido corações mecânicos funcionais? De facto se o corpo pode ser substituído por uma máquina sofisticada, só o cérebro se considerar como ser a base e a reserva da nossa personalidade.

Como não viverei até lá, imagino um robot de banda desenhada que seja comandado totalmente por um cérebro humano “transferido” do corpo de uma pessoa “normal”.

Só uma catástrofe mundial, que nos faça retroceder até os primeiro hominídeos é que pode evitar esta loucura.