sexta-feira, 5 de abril de 2019

IGOTE NULLA CUPIDO (Ovidio)



Não se deseja o que não se conhece

Esta máxima clássica, do tempo dos romanos, deve constituir a primeira regra de trabalho para quem se dedica à publicidade, assim como de quem produz e distribui artigos de consumo perecível ou sujeitos à pressão para serem substituídos por outros mais recentes.

O incitamento ao consumo, apesar de que em menos de cem anos se tornou uma força intensiva, já existe desde muitos séculos atrás. Os pregões e cartazes estimulantes foram as primeiras intromissões na vida de cada cidadão para nos comunicar das excelências, tantas vezes falsas, de produtos comerciais que se desejava viessem a ter um público consumidor quanto mais numeroso melhor.

Históricamente, no mundo ocidental onde nos encontramos, ficaram famosas as mensagens promocionais que se conservaram ainda hoje nos muros de Pompéia, preservadas pela chuva de cinzas vulcânicas do Vesúvio que a soterrou, com muitos dos seus habitantes tal como estavam, antes de morrerem sufocados pelas poeiras e gases.

Em Pompeia encontram-se mensagens de tipo político e comercial, em várias actividades, desde barbeiros, ferradores, restauração e até a prostituição. É este sector aquele que é mais referenciado . Alguns exemplos:
  • Lais chupa por dois ases.
  • Paute, garota simpática. Seis ases.
  • Serei tua por dois ases de bronze.
  • Esperança. Deliciosas habilidades. Nove ases.
  • LOGRAS. Escravas do país. Nascidas em casa. Oito ases.
  • Marcos ama Espedusia.
  • TESTIS EGO SUMS FELLATVS. Sou testemunha de que aqui há fellatio.
  • Não vendo o meu homem por preço algum.
  • Marcelão o ama Pernestina e não é correspondido.
Através destes exemplos podemos verificar que pouco se avançou neste ramo de publicidade até agora, a não ser na inclusão de fotos, embora em Pompeia também existe um extenso repositório de frescos elucidativos das possibilidades de escolha.

Algumas mensagens são muito extensas e descritivas. Como esta:
Bar de Prima (a história de Successus, Severus e Iris é contada nas paredes do bar): [Severus]: “Successus, um tecelão, ama a escrava do dono desse bar chamada Iris. Ela, no entanto, não o ama. Ainda assim, ele implora que ela tenha pena dele. Seu rival escreveu isso. Adeus.” [Resposta de Successus]: “Pessoa invejosa, porque se intromete? Submeta-se a um homem mais bonito que está sendo injustiçado e é charmoso.” [Resposta de Severus]: “O que eu tinha a dizer foi dito. Escrevi tudo que devia. Você ama Iris, mas ela não te ama.”

Mas ali também encontramos avisos de restaurantes, tabernas do estilo “aqui vendemos o melhor vinho”. Muito provavelmente as casas de pasto e similares tinham à porta uns angariadores, escravos já domesticados, que importunavam os passantes referindo as excelências da cozinha e a frescura dos seus alimentos, nomeadamente do peixe e marisco.

A publicidade, como sabemos, presta-se a dar gato por lebre -como referiu um anterior Presidente da República- e mesmo sabendo que aquilo que nos oferecem nem sempre corresponde ao que de facto está à venda, a obsessão do consumo desenfreado faz com que se aceitem as pretensas novas valências do produto já em vias de estar estafado. Com uma mudança de embalagem, um palavreado novo e cativante, mais uma grafia e colorido chamativos, consegue-se recuperar, ou mesmo a ultrapassar, o nível de vendas anterior.

Concluíndo: Se já os latinos eram conscientes de que o que se deseja conseguir vender tinha que, com alguma antecedência e seguida de uma pressão mediática continuada, ser insinuado, proposto e até com uma degustação promocional, concluímos que pouco de novo existe agora.

Os profissionais de vendas e publicidade sabem que, se agem com habilidade, não serão alvo de represálias por enganar o consumidor. Hoje as técnicas, batidas e sempre actualizadas, embora no fundo permanecem as mesmas, são estudadas em cursos especializados.

NOTA Há muita bibliografia sobre publicidade, e nomeadamente sobre os graffiti de Pompeia. Parte deste material podem encontrar no Google – Wikipedia.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

NON OMNIS MORIAR




NÃO VOU MORRER TOTALMENTE

Uma afirmação bastante egocêntrica e não universal, pois se deixa a noção de que se lembrarão do defunto durante um tempo, que para ele deve ser longo. A cruel realidade é que a maior parte de nós passa por este mundo sem pena nem glória e que recordar-se-ão, com maior ou menor intensidade, alguns familiares e uns poucos conhecidos, em especial aqueles que, de facto, se tornaram amigos “do peito” ou inimigos fidegais do ausente.

Já que utilizo algumas frases célebres do Latim clássico, a que recordo estar mais ligada ao declínio físico do homem/mulher é a célebre Atravessar o Rubicão, que se históricamente corresponde ao limite septentrional, marcado pelo rio Rubicão, -que corre desde a cordilheira central da península italiana até o Mar Adriático, perto de Rímini- A lei estabelecia que este rio devia respeitar-se como uma fronteira militar.

As legiões romanas que estavam distribuídas pelos territórios da República não podiam entrar na península a sul deste rio, sob pena de licenciamento imediato, forçoso e inapelável dos soldados legionários. Quando Júlio César, que estava no comando na Gália, entrou em litígio com os seus parceiros no triunvirato, e decidiu rumar para Roma a fim de disputar a liderança do Império, dando início à segunda guerra civil. Esta decisão de César, em atravessar a fronteira do Rubicão tornou-se célebre desde então.

Colóquialmente, para quem tem um mínimo de conhecimentos, referir a passagem do Rubicão corresponde a admitir que a vida terrestre do indivíduo concreto passou para se poder considerar como “fora de prazo”. Este valor, além de ser variável de pessoa para pessoa, foi afastando-se progressivamente com as melhoras da vida tanto alimentar como de cuidados de saúde. Tal como nos é explicado quando avançam com a idade de reforma legal.

Sendo assim que as coisas acontecem, nunca podemos afirmar a quanto estamos de perto ou se já ultrapassamos o nosso rubicão. Os mais sensatos afirmam, e estão certos, que mal nascemos caminhamos para o nosso desfecho. Outros, que nem sequer chegam a nascer vivos, ultrapassam este rio sem saberem da história.

Pragmaticamente podemos considerar que o conseguir uma certa “imortalidade”, mais concretamente em permanecer durante us tempos na memória colectiva, não depende exclusivamente dos nossos feitos mas, sem dúvida, de como alguns dos contemporâneos nos valorizaram e trataram, com os seus esforços, de procurar manter viva a imagem que eles seleccinaram.

Sei que é evidente que qualquer personagem que é recordada, nunca o é pela totalidade dos seus feitos, escritos ou de que foi actor principal. Cada biógrafo selecciona os capítulos da vida do defunto segundo o seu critério. Uns preparam uma imagem de santidade, de humanismo, de estudo, exemplar vida social e familiar, deixando sob o tapete todos aqueles factos que contrariam este retrato. Outros escribas, pelo contrário, limitam-se, com sanha, a referir todas as maldades, iniquidades, malfeitorias que tenham sido cometidas pela pessoa visada, sejam de facto de grau imperdoável ou meras nimiedades.

quarta-feira, 3 de abril de 2019

ISKALETOS NO AL MÁRIO




Pode acontecer que, de facto, ao abrir o armário de alguém ou mesmo o próprio, nos encontrar com a figura de um humano despido de carne, só com os ossos, a estrutura óssea de suporte.

Mas o normal é que a frase seja utilizada em sentido metafórico. Ou seja, metade dentro e metade fora, como é referido na história da velhota que foi chamada a depor em tribunal num processo de adultério. Concretamente por ter assistido, espreitando por uma frincha, a um dueto que se exercitava numa actividade absorvente e quase convulsiva, sem ter passado previamente pelo registo civil com o propósito de conseguir a licença legal para practicar o coito.

Podemos dar como seguro que todos os meus cultos seguidores conhecem a grafia tradicional do cabeçalho desta croniqueta, e que o seu significado é intuitivo. Dá uma imagem, uma metáfora, onde se diz que segredos todos temos. Sendo assim fui pesquisar alguns anexins adequados:

  • Segredo de dois, segredo de Deus; segredo de três o diabo o fez.
  • O segredo é a alma do negócio.
  • Segredo em boca de mulher é manteiga em focinho de cão.
  • Segredo em boca de mulher, é o mesmo que escrever num papel.
  • O segredo melhor guardado é o que a ninguém é revelado.
E recordamos, sem ser palavra por palavra, uma citação do Novo Testamento em que relata que passeando Jesus deparou-se com um ajuntamento em gritaria. Um grupo de homens, todos eles de barba crescida e segurando pedregulhos, estavam dispostos a lapidar uma linda e esbelta jóvem, acusando-a de ser adúltera.

Jesus, que não era parvo, bem viu e qualificou aquela corja de invejosos, possívelmente todos eles cornudos. Colocando-se frente da rapariga lhes disse: O pescador sem pescado pode atirar a primeira rede. Todos se olharam entre si e deixando cair os seus projectis, viraram costas e abandonaram o terreiro, que ficou entregue ao profeta (ainda não adquirira o título de Cristo, porque nem sequer estavam no domingo de Ramos, e daí não tinha chegado a sua hora de ser crucificado) e da formosa jóvem.

Chegando-se mais perto, e tomando o seu ar beatífico de bom rapaz, que nunca tinha partido um prato, lhe perguntou se ela podia ir até um local seguro, para se acoitar. Perante a sua negativa ofereceu-lhe companhia, e a conduziria até à casa da sua amiga Magdalena, que certamente a acolheria como mais uma pomba no seu pombal. E assim foi.
É que as pedras preciosas tem que ser lapidadas com esmero por um experto que as saiba transformar em jóias. Bem se recorda o conselho de não dar pérolas a suinos.

Pois, voltando à vaca frígida, a mensagem inicial serve para alertar do facto de que poucos, ou nenhum, pode gabar-se de não guardar segredos inconfessáveis, coisas da sua vida que prefere não serem divulgadas ao quatro ou mais ventos (recordar a Rosa dos ditos, que tem tantos bicos).

Os factos mais íntimos nunca se podem revelar a ninguém, e especialmente em conversa de travesseiro. A situação potencialmente mais perigosa é a que ocorre quando se atinge um estado de euforia por embriaguez, não total, de cair para o lado, mas de perder o bom senso e a cautela. Pode sentir-se um incitamento interno para revelar aquilo que, mesmo estando guardado no fundo da gaveta mais alta, sempre nos espreita acusando de faltar às nossas regras.

RECOMENDAM-SE CAUTELAS E CALDOS DE GALINHA. E dormir sem companhia até passarem as tonturas.


terça-feira, 2 de abril de 2019

UMA RECEITA DE PAELLA


Para cumprir uma promessa feita a pessoa amiga que gostaria de cozinhar este petisco, escreví a receita, que não consta desta página,pois é segredo!!!!!

Existem muitas variantes da que, genéricamente, se chama PAELLA VALENCIANA, e aquilo que habitualmente servem nos restaurantes de categoria média/baixa é uma imitação sem qualidade.

Em Portugal são raros os restaurantes que contam com um cozinheiro habilitado ou que se lhe dê mão livre, para preparar uma paella com boa qualidade.

O princípio da paella está numa sertã (PAELLERA) larga e com pouca altura no seu rebordo, e com dimensão proporcional ao número de doses ou comensais que se pretende abastecer. Nesta paellera cozinha-se, fundamentalmente, arroz (sempre carolino porque absorve os gostos e aromas e liberta uma goma muito apreciada).

Inicialmente era uma refeição de camponeses e pescadores, preparada no local de trabalho por um dos membros da companha, considerado como o mais habilidoso nesta tarefa. Uma vez pronta a cozedura os comensais situavam-se à roda e munidos de uma fatia de pão caseiro e uma colher iam-se servindo, exclusivamente do que se encontrava no sector que tinham à sua frente (como se fosse um corte de pizza). Estes artistas usavam, como se pode imaginar, um lume de gravetos e brasas numa área superior á da paella, para garantir um aquecimento uniforme.

Quanto aos componentes do cozinhado podemos incluir, além do arroz, quase tudo o que se tiver à mão, sempre que se faça com juízo e bom gosto. Por isso existem tantas paellas diferentes, desde as vegetarianas às de marisco. Ou uma mistura heterogénea sempre e tanto que o responsável tenha bom gosto e evite incorporar condutos que guerreiem entre si.

Na gama dos vegetais podem entrar, além da cebola, pimentos, pimentão e alguma erva de cheiro, alcachofas, espargos bravios, algumas favas tenras, ervilhas, etc.

Carnes também dependem dos gostos e das possibilidades de abastecimento. No campo podem entrar peças de caça, incluídas pernas de rã. Esquilos. Aves, tanto silvestres como de capoeira. Dos mamíferos seleccionan-se bocados de tamanho reduzido, excepto o frango, pato e coelho, troceados em pedaços fáceis de manipular, ou adquiridos já numa selecção pré-determinada.

Do mar (podem identificar o tipo de paella), aceitam-se muitos mariscos, tanto bivalves como gastropodes, cefalópodes (nomeadamente o choco e as lulas) e toda a gama entre lagosta, lagostins e camarões. Não é muito usual incorporar peixes neste prato. Mas reconhecemos a presença de safio, moreia e charroco, além de lascas de bacalhau seco, previamente demolhado para o libertar do excesso de sal.

A RECEITA ?

Está escrita e revista por uma especialista, mas não a incluí porque é um segredo. Paciência

ABRIMOS UMA EXCEPÇÃO  PARA QUEM A PEDIR DIRECTAMENTE PELO CORREIO

sexta-feira, 29 de março de 2019

BREXIT 4



Uma embrulhada

Os últimos dias nos ofereceram, desde Londres, um espectáculo interessante, que sendo único só se pode comparar, no sentido oposto, com aquelas sessões em países onde as pessoas se inflamam a pontos de se agredirem fisicamente, em pancadaria feroz.

Para já a sala de sessões do Parlamento Inglés é muito diferente das que estamos habituados a ver nas reportagens do resto do mundo “civilizado”. Estão enfrentados os dois grupos rivais, instalados bem apertadinhos, sem uma mesinha donde se apoiarem ou colocarem uma aparelhagem electrónica de uso normal. Para completar tem umas regras muito próprias e, pelo menos agora, um porta-voz, ou uma espécie de coordenador-moderador que, além de pedir aos membros da assembleia que se portem com ordem, tem uma expressão facial que podemos considerar, pelo menos, como curiosa e até patusca, mesmo que respeitadora das regras sociais e políticas.

O que nos deu de novo a mais recente sessão foi ver que, implícitamente, os dois bandos estavam já saturados do seu Primeiro Ministro. Aquela espécie de gafanhoto desengonçado que não conseguiu levar a água ao seu moínho. Nem sequer entre os seus membros de governo, que desde meses teimam em se dimitir, e muito menos em conseguir uma demostração unânime de parecer por parte dos seus representantes eleitos, e muito menos da população em geral, que vimos como se tem manifestado publicamente nas ruas e praças, com diferentes opções. Uma rebaldaria que não se sente com solução à vista.

Um ponto,porém, está saliente no sentimento de indecisão sobre como agir neste impasse, que os seus representante abriram com a U.E. Já referi, numa entrega anterior, que o problema mais forte para os cidadãos do Reino Unido é o de não aceitar a hipótese de se re-instalar uma fronteira entre a República Irlandesa, católica, e o Norte, protestante, unido ao U.K.

Não aceitam o previsível retorno a um conflito armado entre as duas zonas, mas tampouco lhes agrada a possibilidade de uma união política e territorial entre as duas Irlandas, pois que esta implicaria a saída do Ulster do R.U. Este tema parece que é o mais agreste neste momento. E a única semi-solução, dada a existência dum conflito religioso de difícil arranjo, os outros membros do U.K., não é provável que aceitassem, assim de repente, abdicar de mais uma parcela do seu já encolhido Império Britânico.

Logicamente tem que se encontrar uma saída para este diferendo, que nem sequer é visto de forma unânime pelos subditos de Sua Majestade. A mais correcta, mesmo que amarga de engolir, poderia ser o abandonar, totalmente os propósitos do BREXIT. Esquecer as possíveis pressões vindas desde os USA, que desejam enfraquecer a União Europeia, quase tanto quanto alguns dos seus membros efectivos, se avaliarmos os conflitos que tem surgido.

Os membros do Parlamento, se quiserem ter uma acção brilhante, além de dar o dito por não dito, podiam propor a entrada do U.K. na moeda única, como mostra de boa-vontade e arrependimento (mesmo que se dessem outros argumentos mais simpáticos e menos amargos). Com esta união monetária podiam tentar recuperar parte da desvalorização que sofreu a libra a partir do anúncio do BREXIT.

segunda-feira, 25 de março de 2019

BREXIT 3




PROBLEMAS INTERNOS

De imediato confesso que não estou preparado -nem sequer tentei- para poder dissertar sobre as consequências económicas que podem acontecer caso a Inglaterra desista de pertencer à União Europeia, tal como valorizar a sua continuidade neste “clube”, numa fase da sua evolução em que se refere existirem desvios nacionais, com perigo potencial num desmembramento. O ambiente dentro da UE não está calmo, tranquilo, antes parece com preanuncios de problemas.

Aquilo que sinto, a propósito do BREXIT, E com alguma convicção baseando-me exclusivamente no que encontro na imprensa e nos noticiários-comentários da TV, é que parece evidente que muitos eleitores do UK, quando se decidiram a votar na consulta geral para decidir se queriam sair ou continuar como membros da União Europeia, ou entrar na iniciativa nomeada de BREXIT, não estavam bem elucidados sobre o que existia por trás daquela consulta, ou até donde poderia ser alterado todo o seu esquema de vida.

Ou seja, admite-se que muitos votaram por sentimento, às cegas. E hoje devem estar preocupados por se optaram erradamente. Muitos gostariam de mudar o seu sentido de voto. Caso as normas vigentes o permitam.

Um dos factores que pode ter influenciado fortemente na decisão do voto pode ser o da visão, possivelmente exagerada, da presença de um número de estrangeiros. O cidadão comum pode sentir que esta presença já é excessiva e que, coincidindo com uma quebra nas ofertas de emprego, em especial nas de tarefas mal remuneradas, criou um ambiente de rejeição perante os recém chegados, dispostos a aceitar o pouco que oferecessem.

Ver as reportagens dos grupos de migrantes ainda na costa francesa, frente ao canal, que tentam, insistentemente, em entrar no UK, sem documentação, ocasionou o atribuir esta situação, perigosa, ao terem sido abertas as fronteiras entre os países membros da UE. Quando se publicitou a hipótese de instalar os controles nas fronteiras inglesas, caso se abandonasse a União Europeia, muitos terão decidido que o BREXIT era a melhor opção.

Esqueceram-se de que muito antes das fronteiras abertas na Europa já lhes chegava um fluxo, practicamente incontrolável, de pessoas com passaporte e entrada legalizada, provenientes de antigos territórios do Império Colonial. Compareceram gentes de cor vindas da Jamaica e outras ilhas do Caribe, mais do Pakistão, da India, e outros lugares onde esteve a bandeira imperial. Alguns integraram-se, como os taxistas e motorista de ómnibus com volumosos turbantes. Outros mais se instalaram-se em sectores comerciais. 

Por outro lado a proliferação familiar deste inmigrantes, muito superior à das famílias inglesas, introduziu mais elementos com nacionalidade britânica do que postos de trabalho disponíveis. De onde que passassem a ser credores das ajudas sociais, ou de se movimentar por zonas clandestinas.

Imagino, sem outra base do que a simples especulação comparativa, que no UK existem muitos cidadãos sossegados, cumpridores, que sendo maioria não deixam de estar temerosos dos que invadem as ruas tumultuosamente, os que insistem em ficar ébrios, drogados, fazer desacatos e agressões injustificadas -caso existam justificadas que não sejam a auto defesa – e, como é fácil de entender, os “pacatos” identificam os transgressores da paz pública como uns indesejáveis. E na multidão destacam, por serem mais visíveis, as pessoas de cor, os diferentes da imagem que desejariam ser a dos seus verdadeiros compatriotas (?), renegando o facto de que muitos destes elementos, com visual de forasteiro, já nasceram no UK, de segunda ou terceira geração, e são legalmente tão cidadãos como eles próprios. A partir daí devem transferir a rejeição para aqueles que ainda não entraram, mas que os sentem como ameaçadores potenciais.

Paralelamente, os recursos humanos gerados no seio dos naturais do RU mostram-se, em alguns sectores, insuficientes para cobrir muitas tarefas imprescindíveis. Por  sector de informática é conhecida a boa preparação, em quantidade e qualidade dos indostânicos, entre outros, com a vantagem de que dominam o idioma, tanto o de uso normal como o profissional.

Um dos sectores onde a Inglaterra não consegue abastecer o seu mercado é na saúde hospitalar. É conhecida a oferta de trabalho para enfermeiros, com salários mais elevados do que conseguem nos seus países de origem. Os recebem com os braços abertos e com a vantagem suplementar de que a preparação profissional foi financiada pelo seu País de origem. Estes podem vir !

Ainda neste aspecto de sim ou não à União Europeia, os ingleses devem estar perante o dilema de estudar todos os efeitos que implicaria um BREXIT, uns positivos e outros negativos, mas com a certeza de que sair mas podendo seleccionar, como numa ementa, os parágrafos que lhe podem agradar e rejeitar os outros, não parece factível. Por muito interesse que exista entre os membros da UE para que o UK não active o Brexit, as normas do tratado terão que ser obedecidas e cumpridas.

Para já, dado que na vida normal, nomeadamente na alimentação, a Inglaterra está muito dependente da importação de produtos frescos da Europa Continental, o BREXIT, puro e duro,implicaria um aumento imprevisto do custo de vida. E esta consequência não seria bem recebida na economia doméstica.

Alterar a situação actual, implicaria uma interrupção das negociações com uma duração suficiente para poder fazer o que não foi feito. Ou seja, elucidar detalhadamente a população com um sério balanço dos ganhos e perdas que uma saída ou uma permanência forçosamente implica. Será que o governo de Sua Magestade pedirá estas tréguas? E a UE concederá este bonus temporal?

O Reino Unido, que em linguagem simplificada nomeamos de Inglaterra, tem aquela localização geográfica, desligada territorialmente do continente europeu, que se prestou à famosa graçola de que “devido aos fortes temporais a Europa está isolada”. A realidade actual é muito diferente. Já é difícil, ou mesmo impossível, retroceder a um isolamento imperial.


Moral da história Pretender alterar seleccionando o que se gosta, nem sempre é possível.

sábado, 23 de março de 2019

BREXIT 2



DIVAGAÇÕES SOBRE RELIGIÕES

Sem que considere ser uma cedência ao “politicamente correcto” podemos admitir que, desde a alvorada da civilização, o homem sentiu a necessidade de construir um esquema misterioso, inexplicável, com o qual tentava justificar tanto a evolução das estações como os cataclismos que o penalizavam. E mais o resto, especialmente o penoso.

Uma vez que se aceitou colocar a imaginação em funcionamento as várias soluções que foram surgindo ao longo do tempo e dos diferentes pontos em que os humanos se dispunham a tecer lucubrações, chegou-se ao paradoxo de que todas as montagens se assemelhavam entre si, e algumas inclusive eram practicamente iguais, quase que decalcadas, embora fossem engendradas separadamente. Em comum tiveram o criarem uma classe sincrética que, em nome de entidades divinas, exerciam um poder civil desmesurado.

Deixando de lado esta divagação sem importância o que em geral se deu foi que se organizaram, em paralelo, umas mitologías e uns cánones de conducta, com regras que implicavam, como é de preceito, prémios e castigos para quem as devia seguir, com a exigência de uma obediência cega, sem discussões nem desvios. Daí que se estabelecessem uns preceitos que, logo desde o início, neutralizam a inicial liberdade de acção e de pensamento.

Saltando para a actualidade e abrindo o capítulo da religião que afecta as decisões da população do famoso UK -que teima-se em denominar como Inglaterra, só pelo facto de se admitir ser o reino mais poderoso desta união- verifica-se que, abstraindo dos sentimentos de decisão independente do País de Gales, do qual pouco se ouve falar, e da mais acutilante Escócia, que de vez em quando levanta a voz ao mandão inglés, é na verde Irlanda que o ambiente é mais propício a gerar problemas. Concretamente porque se anuncia o voltar a separar a ilha em duas porções,com fronteiras armadas. E com direitos alfandegários. Um desastre se valorizarem estes anos de parceiros da UE em que os ânimos tinham acalmado.

E este ninho de vespas identifica-se, precisamente, pelo fanatismo religioso. Recuando na história, -que sempre pesa, mesmo que nos custe aceitar esta pressão- até início do século XVI, quando o domínio dos países do sul da Europa estava baseado no poder, terrenal que era aceite ter a Igreja Católica Romana, por designio divino (?) E que esta, se encarregava de conceder o aval ou de o negar, sempre a seu bel prazer.

Em 1517 o frade alemão MARTINHO LUTERO emitiu um manifesto com 95 teses, no qual, baseando-se no abuso que a Igreja Romana perpetrava com os seus fiéis, através das bulas e outras normas de fé, desligou-se de Roma e criou a IGREJA PROTESTANTE. Desta iniciativa resultou uma longa luta armada, a Contra Reforma e uma desavença que ainda perdura.

Quase de imediato, reinando na Inglaterra o famoso Enrique VIII, que entre outras características, tinha a de querer mudar de esposa com excessiva frequência, ao ver que as normas de Lutero não lhe permitiam os divórcios rápidos que desejava, em 1543 decidiu criar a IGREJA ANGLICANA, da qual seria a entidade suprema.

Chegados aqui embarcamos para a verde Irlanda. A população desta grande ilha manteve-se no seio do credo católico, excepto uma zona a norte, que, colonizada por ingleses, aderiu à Igreja Anglicana. E aqui se armou a tenda!

As incompatibilidades entre as duas comunidades foram crescendo, até ultrapassar a simples dialéctica e derivar, claramente, numa luta armada, numa guerra civil -depois da segunda guerra mundial em que os católicos estiveram, embora disfarçadamente, do lado dos nazis- Londres, como éóbvio, não aceitava que os “papistas” tomassem toda a Irlanda, e chegou o dia em que se estabeleceu uma linha separando o sul, católico, do norte protestante.

Muitos de nós recordamos, e vimos até em filmes, a guerra de atentados, lutas de rua, prisões e até torturas, mortes e suicídios, que esta situação comportava. O clima só acalmou quando tanto a Irlanda independente como o UK, carregando o Norte às costas, entraram na União Europeia. Eliminaram os controles de fronteira e as forças militares ou militarizadas recolheram às bases.

A proposta do BREXIT, se chegar a se tornar efectiva, implicaria o retorno da fronteira entre as duas Irlandas, que se habituaram a mais liberdade de circulação e comércio entre si. Este recuar na história política desta ilha é um dos pontos cruciais nas negociação, se não o mais importante anímicamente. Como a cedência tem que vir de Londres e, indirectamente, dava uma dupla vantagem “moral” e política, além de económica, à zona católica os conservadores ingleses, que não ponderaram devidamente as consequências do seu brilhante BREXIT, agora estão pressionados a ceder, e isso custa!

Deixar que a religião condicione a sociedade pode trazer, e traz, consequências que a mesma religião é incapaz de resolver. As guerras que se tem fomentado coma desculpa de credos diferentes, alegadamente incompatíveis, é uma das atitudes mais insensatas, direi mesmo estúpidas, que os humanos tentam em se meter. E mesmo assim se autoclassificam como seres racionais.


O seguinte capítulo tratará das carências sociais do UK e na pretensão de fechar fronteiras à imigração, quando eles as tem abertas, por tratados válidos, com os países da Comunidade Britânica.