sábado, 23 de março de 2019

BREXIT 2



DIVAGAÇÕES SOBRE RELIGIÕES

Sem que considere ser uma cedência ao “politicamente correcto” podemos admitir que, desde a alvorada da civilização, o homem sentiu a necessidade de construir um esquema misterioso, inexplicável, com o qual tentava justificar tanto a evolução das estações como os cataclismos que o penalizavam. E mais o resto, especialmente o penoso.

Uma vez que se aceitou colocar a imaginação em funcionamento as várias soluções que foram surgindo ao longo do tempo e dos diferentes pontos em que os humanos se dispunham a tecer lucubrações, chegou-se ao paradoxo de que todas as montagens se assemelhavam entre si, e algumas inclusive eram practicamente iguais, quase que decalcadas, embora fossem engendradas separadamente. Em comum tiveram o criarem uma classe sincrética que, em nome de entidades divinas, exerciam um poder civil desmesurado.

Deixando de lado esta divagação sem importância o que em geral se deu foi que se organizaram, em paralelo, umas mitologías e uns cánones de conducta, com regras que implicavam, como é de preceito, prémios e castigos para quem as devia seguir, com a exigência de uma obediência cega, sem discussões nem desvios. Daí que se estabelecessem uns preceitos que, logo desde o início, neutralizam a inicial liberdade de acção e de pensamento.

Saltando para a actualidade e abrindo o capítulo da religião que afecta as decisões da população do famoso UK -que teima-se em denominar como Inglaterra, só pelo facto de se admitir ser o reino mais poderoso desta união- verifica-se que, abstraindo dos sentimentos de decisão independente do País de Gales, do qual pouco se ouve falar, e da mais acutilante Escócia, que de vez em quando levanta a voz ao mandão inglés, é na verde Irlanda que o ambiente é mais propício a gerar problemas. Concretamente porque se anuncia o voltar a separar a ilha em duas porções,com fronteiras armadas. E com direitos alfandegários. Um desastre se valorizarem estes anos de parceiros da UE em que os ânimos tinham acalmado.

E este ninho de vespas identifica-se, precisamente, pelo fanatismo religioso. Recuando na história, -que sempre pesa, mesmo que nos custe aceitar esta pressão- até início do século XVI, quando o domínio dos países do sul da Europa estava baseado no poder, terrenal que era aceite ter a Igreja Católica Romana, por designio divino (?) E que esta, se encarregava de conceder o aval ou de o negar, sempre a seu bel prazer.

Em 1517 o frade alemão MARTINHO LUTERO emitiu um manifesto com 95 teses, no qual, baseando-se no abuso que a Igreja Romana perpetrava com os seus fiéis, através das bulas e outras normas de fé, desligou-se de Roma e criou a IGREJA PROTESTANTE. Desta iniciativa resultou uma longa luta armada, a Contra Reforma e uma desavença que ainda perdura.

Quase de imediato, reinando na Inglaterra o famoso Enrique VIII, que entre outras características, tinha a de querer mudar de esposa com excessiva frequência, ao ver que as normas de Lutero não lhe permitiam os divórcios rápidos que desejava, em 1543 decidiu criar a IGREJA ANGLICANA, da qual seria a entidade suprema.

Chegados aqui embarcamos para a verde Irlanda. A população desta grande ilha manteve-se no seio do credo católico, excepto uma zona a norte, que, colonizada por ingleses, aderiu à Igreja Anglicana. E aqui se armou a tenda!

As incompatibilidades entre as duas comunidades foram crescendo, até ultrapassar a simples dialéctica e derivar, claramente, numa luta armada, numa guerra civil -depois da segunda guerra mundial em que os católicos estiveram, embora disfarçadamente, do lado dos nazis- Londres, como éóbvio, não aceitava que os “papistas” tomassem toda a Irlanda, e chegou o dia em que se estabeleceu uma linha separando o sul, católico, do norte protestante.

Muitos de nós recordamos, e vimos até em filmes, a guerra de atentados, lutas de rua, prisões e até torturas, mortes e suicídios, que esta situação comportava. O clima só acalmou quando tanto a Irlanda independente como o UK, carregando o Norte às costas, entraram na União Europeia. Eliminaram os controles de fronteira e as forças militares ou militarizadas recolheram às bases.

A proposta do BREXIT, se chegar a se tornar efectiva, implicaria o retorno da fronteira entre as duas Irlandas, que se habituaram a mais liberdade de circulação e comércio entre si. Este recuar na história política desta ilha é um dos pontos cruciais nas negociação, se não o mais importante anímicamente. Como a cedência tem que vir de Londres e, indirectamente, dava uma dupla vantagem “moral” e política, além de económica, à zona católica os conservadores ingleses, que não ponderaram devidamente as consequências do seu brilhante BREXIT, agora estão pressionados a ceder, e isso custa!

Deixar que a religião condicione a sociedade pode trazer, e traz, consequências que a mesma religião é incapaz de resolver. As guerras que se tem fomentado coma desculpa de credos diferentes, alegadamente incompatíveis, é uma das atitudes mais insensatas, direi mesmo estúpidas, que os humanos tentam em se meter. E mesmo assim se autoclassificam como seres racionais.


O seguinte capítulo tratará das carências sociais do UK e na pretensão de fechar fronteiras à imigração, quando eles as tem abertas, por tratados válidos, com os países da Comunidade Britânica.

sexta-feira, 22 de março de 2019

BREXIT




INFLUÊNCIAS DESACTUALIZADAS

Penso que muitas pessoas já estão enjoadas com este vai-não-vai que os ingleses montaram ao pretender não se manterem, -mesmo que parcialmente pois não aderiram à moeda única- fora da complexa União Europeia. E ao mesmo tempo com pretensões de poder usufruir do “filet mignon” e deixar na travessa os pratos que não desejassem.

Fazer um balanço total,ponderado, dos benefícios e problemas que se criaram ao pretender criar um bloco europeu, trans-nacional, eliminando, gradualmente, as identidades nacionais, e até regionais, que uma já longa história deixaram fixas nos membros da integrada, sem o ser totalmente, U.E. Um dos propósitos mais lógicos e ambiciosos, mas difíceis de conseguir, era o de chegar a um bloco econômico, com governos locais cada vez mais próximos entre si, que pudessem competir com algum pé de igualdade não só perante os EUA como dos novos impérios que se estavam criando ao Oriente.

Procurar justificações racionais ou absurdas para esta pretendida fuga do U.K., que se assemelha ao clássico Agarrem-me se não eu o mato!, e da também clássica fuga de sair pela porta alegando que “vou comprar tabaco”, mas com a oculta pretensão de que depois de “fumar aquela broca” pode regressar ao lar e encontrar uma forte amizade. Quantos desejaríamos poder partilhar de soluçoes assim, pouco definidas e cheias de escapatórias?

Todavia os vectores que pressionaram os eleitores ingleses a votar num referendum pouco ou nada meditado, sem avaliar o futuro em que cairiam, são tão diversos e alguns inclusive tão recuados no tempo, que quase se torna ridículo os colocar sobre a mesa, sabendo que, instintivamente, quem oiça estas referências vai negar que tenham algum peso na sociedade actual.

A situação sedimentada que pouca atenção se lhe dá é a do trauma saudosista de que padecem as nações que tiveram uma expansão colonial importante e que, hoje, se encontram na situação de restos de um naufrágio quando chegam às praias, após os fortes temporais e as marés vivas. Aquilo que orgulhosamente se quer valorizar como sendo a aportação de uma cultura mais avançada, que substitisse as culturas ancestrais locais, implicou a transferência de uma língua europeia, que não sendo autóctona lhes é estranha, mas que se tornou indispensável na vida actual.

As gerações que viveram na fase de desmembramento do “seu império” ainda retêm, intimamente, a ideia de que aquilo tudo era nosso , mesmo quando a capacidade de manter aqueles territórios sob o seu domínio era reduzida dada a diferença numérica das populações naturais e a dos invasores, além do poder económico, cultural e industrial.

Só a colonização do norte da continente americano, em que se decidiu exterminar os habitantes indígenas, é que atingiu um equilíbrio diferente. Embora instável dada a substituição dos indígenas por escravos africanos e a proliferação ancestral dos ameríndios a sul do Rio Grande, que ameaçam substituir os wasps como uma coluna de termites.

Deixemos os casos da península ibérica, por nos tocarem de perto, e observemos à derrocada do Império Francês, herança da era napoleónica. O território africano mais apreciado após o fim da segunda guerra mundial, era a Argélia. Ali se estabeleceram muitos colonos e explorações, mas também se tinham preparado, militarmente naturais daquela zona (1) Por um lado tinham as forças militares francesas, apoiado e apoiando-se pelos residentes franceses, muitos de segunda e terceira geração, que não queriam deixar aquilo que tinham conseguido. Do lado oposto o exército de libertação argelino, onde ilitavam muitos argelinos que tinham sido incorporados no exército francês durante a segunda guerra mundial. A contra-guerrilha francófona terminou opondo-se ao governo de Paris. Os apelidados de pied-noir não só mantiveram um estado de guerra no território argelino como fizeram atentados terroristas no próprio hexágono.

A Europa constitui um extenso repositório de casos semelhantes, que ainda hoje rabejam como a cauda de uma sardanisca mutilada do corpo principal.

Tomaram-se, e continuam a se tomar, decisões mais por influência do saudosismo do que como resultado de uma ponderação actual. As pressões do passado histórico existem e não deixam de ter peso no descontrolar da realidade actual.

(1) Como sempre se fez ao longo da história, usando o pelo do mesmo cão

Na próxima entrega trataremos do triste problema da religião.

segunda-feira, 18 de março de 2019

IN MEDIO STAT VIRTUS


No meio está a virtude

Nem sempre aquilo que parece evidente numa mensagem clássica é só uma das possíveis interpretações, e, pelo contrário, aquilo que mais de imediato nos é sugerido pode ser o cerne do recado. A tradução que apresento para a máxima latina é a mais socialmente correcta, se a entendermos equivalente ao outro ditado de Nem tanto ao mar nem tanto à terra. Nos propõe fugir dos extremos, da ambição desmedida, ir para um equilíbrio que satisfaça ambas partes.

Todavia, a picardia da linguagem vulgar, interpreta literalmente onde se guarda a virtude, concretamente das mulheres. Pelo contrário quando são referidas mulheres de virtude, o léxico popular não se refere precisamente a mulheres que tenham um comportamento virtuoso, sem mácula. Antes esse qualificativo se usa para definir mulheres que se dedicam a más artes, a bruxedos e outras acções que sendo reprováveis socialmente a mesma sociedade aceita e até promove.

Uma situação que pode ser ainda se mantenha vigente nas zonas rurais mais esquecidas, e a de que estas mulheres a quem se atribuem poderes ocultos, tanto para fornecer mezinhas de medicina popular como até, em casos extremos podem facilitar abortos ou um fim de vida sem sofrimento. Aquilo que se chamava de uma boa morte, que na linguagem e costumes actuais se refere como aplicar a eutanâsia. E quantos de nós, se nos encontrássemos perto de um fim irremediável, sem possibilidades de cura e perante o ter que padecer de um tempo indefinido de sofrimento, não desejaria que alguém, fosse homem ou mulher, médico ou curandeiro nos ajudasse a partir?

Outra frase feita, que ouvi referir durante a minha juventude e que desconheço se ainda perdura na linguagem coloquial, era: Deu-lhe água de cú lavado. Que além da rudeza de interpretação literal se pode entender como, para conseguir prender um namorado, sempre houve e haverá, quem arrisque a oferecer “o seu tesouro máximo”, não necessariamente através de uma beberagem nojenta mas antes por facilitar, consentir, uma apertura do tal meio onde se atribui residir a virtude, e praticar aquele acto que, simpáticamente se pode definir como um acto de amor.

E numa sequência muito corrente podia -ou pode- acontecer que mesmo sacrificando a virtude do meio, o fim pretendido não surgisse e o parceiro se escapuliu depois de satisfeita a sua lubricidade. A ex-virgem dizia, neste caso, que foi enganada a falsa fé, possivelmente com o uso da lábia traiçoeira do castigador que, antes dela, já tinha conseguido resultados iguais com outras convencidas do seu valor e capacidade de não vir a ter o mesmo destino das anteriormente enganadas.

Esta capacidade que alguns têm, e usam, para conseguir o que desejam chama-se cantar a canção do bandido. Que, como é evidente, aquele que tem o dom de convencer outro, usará a canção mais apropriada em cada caso. Os membros da dita etnia cigana possuem um repertório bastante extenso para convencer, enfeitiçar, quem se coloque a jeito de os ouvir. O que se recomenda é que jamais lhes de a mais mínima oportunidade de iniciarem o seu “canto”, pois que uma vez ligada a fita é difícil interromper e escapar incólumes.

domingo, 17 de março de 2019

TOT CAPITA TOT SENTENTIAE

Tantas cabeças tantas sentenças

Habitualmente aceitamos, mesmo que algum ranger de dentes, que as opiniões que dois dialogantes possam ter sobre qualquer assunto não coincidam, ou sejam claramente opostas, incompatíveis. Caso alarguemos o inquérito, sem condicionar as respostas, deixando total liberdade de expressão e opinião, certamente verificaremos que o leque de respostas cada vez é mais lato.

E se repetimos a pergunta, com alguma variante de léxico mas procurando que não se altere o fundo da questão, até pode acontecer que os que deram uma opinião determinada, na segunda volta mudem para o sentido oposto.

Esta constatação, que não é taxativa mas que é real, nos leva a um segundo cabeçalho para este escrito:

VOLÚVEL OU OBCECADO, EIS O PROBLEMA.
(uma variação à guitarra da frase célebre de Shakespeare)

As duas posições, opostas numa primeira análise, podem ser alvo de críticas ferozes. Uns opinaram que o mudar de opinião como de camisa -mesmo que só a mude de longe em longe-, mostra não ser uma pessoa de palavra e que o seu pensamento é tão mutável como a seta de um catavento. Mas aquele que não arreda das suas ideias fixas também não escapa das críticas, pois que não aceita modular as suas opiniões em função da evolução a que todos estamos sujeitos.

Fisiológicamente já todos leram, mesmo que não fixassem ao pormenor, que o nosso corpo, desde o cabelo até às unhas dos pés, incluída toda a aparelhagem que carregados no interior do corpo. Mais a estrutura óssea e a derme, constantemente rejeita células mortas e se renova com novas. Não vale a pena fixarmos um período geral, pois certos órgãos devem ter um tempo útil mais longo do que outros. Mas, o conjunto, desde a concepção até à morte, muda paulatinamente. Enquanto estamos vivos, evidentemente.

E as nossas ideias, as nossas sentenças, incluídas as que ficam internas e por isso não se apresentam á crítica exterior, tem que ser sempre idênticas? É pouco provável. Todos admitimos que as reacções e os critérios extremistas, próprios da puberdade e juventude, vão perdendo intensidade e vão mudando, modulando, passando até para o sentido oposto, sem ser súbitamente. Leva o seu tempo. Não é por acaso que se refere: O velho muda o conselho.

O tempo que a Parca nos concede, apesar de nos parecer curto, ou longo -consoante o momento e o nosso estado de espírito-, é suficiente para que assistimos a mudanças, lentas ou súbitas, que nos pressionam para alterar algumas noções de consideramos estarem imutáveis, de pedra e cal. Algumas não as podemos atribuir directamente à influência de outras pessoas, governos, leis e outros condicionalismos que não dependiam de nós. Outras serão consequência da passagem do tempo e de como, tal como as estações do ano, nos condiciona.Em suma,podemos afirmar que o nosso leque de possibilidades de opção e decisão é mais reduzido do que habitualmente pensamos. Ou nem sequer dedicamos algum tempo de meditação para especular sobre isso.

sábado, 16 de março de 2019

SOL LUCET OMNIBUS - o sol nasce para todos



Ou como encarei a minha formação universitária.

Admito que os poucos leitores que perdem tempo a ler o que coloco aqui sabem que tirei um curso superior de Engenheiro Químico Industrial (no tempo em que era completo). Mais concretamente pensando, desde inicio, em dedicar o que viesse a aprender numa indústria transformadora. Não tinha pretensões de me integrar em entidades públicas, fossem de ensino ou de investigação. Ou seja, tomei a formatura precisamente pelo cabeçalho.

E tinha, além das bases teóricas, uns conhecimentos practicos e humanos que sabia iam facilitar a condução de homens, tanto dos quadros subalternos como dos operários. A primeira regra que devia aplicar era a de não falar com o pessoal desde cima da burra. Vestí sempre um fato-macaco e admiti que, depois de explicar, numa linguagem que se adaptasse á do ouvinte, e ter deixado as indicações por escrito, devia ficar um tempo, não demqsido curto, para a observar como o operário agia.

A segunda regra, que se aprende para benefício próprio, é que após ensinar como devem manobrar, regular, apontar no quadro, e em periodos determinados, os valores que em aparecem nos indicadores do painel de comando. Assim como é de sábio admitir que, com a práctica, o operador tanto pode cair numa manobra errada como pode encontrar uma solução que não estava prevista. Em laboração contínua, mesmo que ser der a ordem de que nos devem comunicar qualquer anormalidade, sabemos que, quando a complexidade do sistema operativo e das diferentes fases e equipamentos por que passam os materiais, desde as matérias primas até o produto final, é fundamental contar com uma equipa de pessoas que nos aceitem, que colaborem sem preconceitos sociais que podem interferir.

Não se consegue navegar e chegar a bom porto com uma tripulação desajustada do comando. Sempre entendi que era positivo ensinar os colaboradores acerca das tecnologias que se aplicavam na fase que estava a seu cuidado. Bem entendido que não se pode pensar em ilustrar por completo a pessoas que até o dia anterior nunca tiveram contacto com aparelhagens complexas e desconhecidas. E sempre foi positivo dar oportunidade ao operador para nos referisse as suas observações. Serenamente tinham que ser observados os efeitos e, caso fosse pertinente, incorporar às intrucções gerais. Os mal sucedidos só se sabiam a posteriori.

Considerei, desde o primeiro dia, que era fundamental o dialogar com o pessoal, reconhecendo no íntimo, que dependemos deles. No trabalho fabril todos os elementos humanos são importantes e, em princípio, merecedores de ser respeitados. Se algum se mostrar incapaz temos que lhe procurar um posto onde se possa adaptar, sem o achincalhar. Este é o melhor exemplo que se pode dar ao resto da tripulação.

Outros problemas, potencialmente mais bicudos, podem-se encontrar com os patamares mais acima do nosso. O pior sucede caso “lá de cima” se decidam alterações que afectem o pessoal que se tem para laborar. Os administradores, em geral, agem de acordo com regras próprias e não estão preparados para avaliar as consequências a nível funcional. Nem sequer tal os preocupa. Não querem saber. Esquecem que podem afectar pessoas, sensíveis em grau que não podem imaginar, e que por isso devem ser tratadas com cuidado. Depois são os quadros de topo que tem que tentar colar os pratos rotos.

Mesmo assim eu, pessoalmente, estaba dedicado totalmente a esta tarefa de intermediário, comulativa com a producção, qualidade e rentabilidade. Sabendo que ao contrário da Isabel de Aragão, citada com frequência, nem tudo eram rosas, e estas sempre traziam espinhos.

quinta-feira, 14 de março de 2019

CARREGAR UM ESTIGMA




Se atendermos ao dicionário o termo ESTIGMA correspondem, entre outras aceitações: Marca infamante feita com ferro em brasa (livra ! Como nos romances de Alexandre Dumas e similares!) cicatriz; ferrete, sinal infamante. Prefiro adotar uma interpretação mais de acorde com as letras de alguns fados castiços: Ter o destino marcado.

Pois eu, sem nunca ter chegado ao nível de um “entretainer” pago e procurado, desde os tempos da primária que fui classificado como “engraçado”, que era capaz, e com certa frequência, de sacar bico não só ao lápis de pau, mas também a uma situação ou a uma conversa que, para os outros presentes não dava azo a um trocadilho gracioso. Concretando, que fazia rir a  assembleia constituinte.

Todavia esta capacidade, espontânea, nunca conseguí que se mostrasse “a pedido”. As graças surgem no meio de uma conversa, e também em situações em que não se considera serem as adequadas para gerar e transmitir graçolas. Quanto mais séria fosse a situação em que me encontrasse, aquele respeito geral, do qual não acreditava ser real, mais incitava a ver, entre os assistentes uma personagem que destacasse, fosse por dormir e ressonar, ou por fazer limpeza às narinas, entre outras atitudes. Podia ser o reparar que “ele” apalpava o nalguedo da sua vizinha, nomeadamente se esta não fosse a sua companheira oficial, sem que ninguém se desse por achado.

Já sabemos que funerais e outras cerimónias "respeitáveis", sejam religiosas ou civis, prestam a incitar apartes que não estão propriamente ao nível do momento. Mas precisamente são nestas alturas de manter um digno e respeitoso recolhimento que mais me pica a vontade de soltar uma barbaridade.

Esta dissertação a laia de introito foi a consequência de ter lido certos artigos de imprensa ao longo dos derradeiros dias. Somos avisados, já depois do leite derramado, acerca de que a evolução da tecnologia informática colocou a clássica censura no lixo. Além de que poucas cartas se escrevem para ser enviadas pelos serviços postais, nem sequer é necessário ouvir ou gravar directamente as conversas telefónicas.

Sabe-se que todo o correio electrónico, e qualquer documento transmitido por via electrónica, além dos telefonemas e conteúdos pessoais nas redes sociais, são constantemente contrastados por servidores automáticos que, por meio de palavras-sinal (os tais algoritmos) gravam, seleccionam, arquivam e oferecem, seja a organismos oficiais, oficiosos ou particulares, enormes quantidades de detalhes pessoais, que podem ser úteis a terceiros sem que o visado tenha conhecimento e muito menos autorizado.

A primeira recomendação que nos fazem aqueles que sabem que outros sabem, ou podem sabem, é o de não referir, voluntariamente, pormenores da nossa vida pessoal, familiar e profissional, incluídos os nossos passatempos preferidos. Que evitemos disseminar pormenores pois que nunca podemos prever a que propósito lhes podem interessar.

Pessoalmente e dado que sei estar de partida, já em nada me afecta que seja quem for confirme que sou, intrínseca e visceralmente, um “hilário”, um “piadético” empedernido e irrecuperável, e que não me envergonho desta característica dado que desde muitas décadas atrás (mesmo desde a escolinha pré-primária) isto é do conhecimento geral.

Além do mais estou convencido de que um cómico, um palhaço se descermos na qualificação, só pode ser bom no que faz se, enquanto actua, diverte-se. Nota-se que está na onda e gosta do seu trabalho quando altera os seus números com emendas que lhe surgem espontaneamente. No teatro de revista dizia-se que estas inclusões,inesperadas mas aguardadas, se referiam como "buchas"

Para quem seja curioso confesso, sem me envergonhar, que inclusive quando estou só, desfruto fazendo palhaçadas e dialogando (em monólogo) tontices para o meu exclusivo gaudio. Já devia estar isso na minha ficha pidesca.

terça-feira, 12 de março de 2019

GANHAR OU PERDER - PERDER OU GANHAR



A ordem destas duas situações, mesmo que em ambos casos implique que de um lado se consegue alguma coisa que não se tinha e do outro lado se perde alguma coisa que se possuía, não é indiferente, pelo menos para quem tem algum ligame com esta dicotomia. Daí que, para quem escreve e para quem ler, a ordem não é displicente.

É um tema que tem sido abordado por muitas pessoas, e desde tempos recuados. Habitualmente é conectado com os jogos de fortuna, ou de azar a avaliação de cada um. E neste capítulo encontram-se muitas verdades irrefutáveis, como: Quem muito quer tudo perde, ou, Quem não arrisca não petisca, assim como se recorda a sensatez e a prudência: Quem não quer perder não jogue. Assim como avisa Quem usa tramoias cai nas sentenças.

Deixando os adágios de lado podemos divagar -que é o que se recomenda para chegar ao longe- sobre o que de facto está subjacente aos termos ganhar e perder.

Perder para a maioria dos cidadãos equivale a deixar de ter algo que era seu, de direito. Simbolicamente ou factualmente podem-se perder a virgindade, a honra, a própria vida, a fortuna, o respeito que consideramos merecer, e outras coisas mais, entre elas um familiar, a carteira, os óculos, o comboio ou um meio de transporte que estava no nosso propósito utilizar. Mas sempre se entende como o deixar de ter.

Quem aposta e não ganha, de facto só perde aquilo que colocou de penhora, nem que seja dinheiro vivo. De imediato atribui a culpa ao azar, à pouca sorte, mas raramente se culpará por não ser sensato e previdente.

CARLOS BERTINI escreveu, e eu aproveito, um pensamento muito válido Devemos ganhar com graça e perder com dignidade.

Quanto ao GANHAR nem todas as situações são equiparáveis, pois que a vida não se resume a uma série de apostas, nem sempre honestas na sua estrutura. Existem ocasiões em que se confunde recuperar e ganhar. O ganho é visto como uma recompensas do trabalho ou do esforço. Muitas vezes é impossível recuperar aquilo que se perdeu. Nem todas as perdas se podem emendar como o virgo, Mas o chegar a um ponto em que seja reposta uma injustiça é uma satisfacção tão profunda que consegue amainar todas as agruras anteriores.

As máximas que se aplicam a esta situação são muitas. Algumas nos podem parecer que foram pensadas concretamente para situações da vida corrente, e certamente que assim foi: A razão é a prova da verdade, e precisamente a verdade mereceu muita atenção: A verdade não sofre dissimulações; A verdade não tem pés e anda; A verdade, ainda que amarga, se traga. E a parceira do lado oposto não deixa de ser citada: A mentira é sempre vencida; O mentiroso larga a honra a pouco preço.

E por falar em honra citaremos: Honra e proveito não tem jeito; Honra é sem honra, alcaide de aldeia e padrinho de boda.