Quando me decidi a colocar os meus pensamentos, em vez de os deixar morrer em páginas de papel, no que se chamava de diário pessoal, e os editei neste meio electrónico, ficando à disposição de não identificados leitores, sempre esperei conseguir uma dose, mesmo que pequena, de diálogo. Não que esperasse aplausos ou adesões, pois aqui não germinaria uma movimento político.
A realidade dos factos é que fiquei mais isolado do que o canário na gaiola. Por varias vezes tentei abandonar esta triste e solitária iniciativa, mas minha falta de respeito a mim mesmo me fez tombar uma e outra vez nesta vergonha de isolamento. Até um dia em que vos deixarei sossegados.
Neste espaço pretendo colocar relatos de experiência próprias e algumas elucubrações mais ou menos disparatadas.
sábado, 15 de dezembro de 2018
quinta-feira, 13 de dezembro de 2018
MEDITAÇÕES 59 - Ser racional e honesto
Sempre?
É difícil
Admito
que as pessoas, pelo menos aquelas que se auto-avaliam como tais,
desejam se apresentar e manifestar, seja de viva voz ou por escrito,
sempre com total racionalidade, e sendo possível com honestidade. A
experiência obriga a reconhecer que não são poucas as ocasiões em
que, seja pressionados pelas obrigações sociais ou para não
desgostar intrinsecamente aquele/a a quem nos dirigimos, falseamos o
nosso parecer. Depois podemos sentir a consciência pesada; não
estarmos satisfeitos connosco; a opção mais practica é a de
aproveitar o automatismo de nos defender esquecendo os remorsos.
Infelizmente,
o ter atingido uma idade provecta (gosto deste termo. É bom para
aplicar nas palavras cruzadas) oferece-me o lastro de rememorar
acções de que, hoje, me recrimino e, para mais peso na consciência,
reconheço que não se pode voltar atrás no propósito de corrigir.
Dentro deste saco de recordações desagradáveis há pecadilhos,
veniais com diziam na catequese (o dicionário diz que este termo
corresponde a uma falta leve) outros mais graves e no topo da escala
os mortais, sem possível remissão. Cinicamente tento ficar
no nível dos veniais. Mas sem convicção.A catequese pesa.
As
horas sem conseguir ferrar o sono e nas que, quase sempre, faço
inventário dos meus pecados. São fases amargas, e constituem a minha
penitência em vida, pois que, pelo que me atinge, não
necessito de falecer para me encarar com o santo tribunal. Eu mesmo
nestes momentos de fraqueza, sou o meu juiz implacável. Ou
seja, a história da classificação dos pecados ainda me pesa. Mas
não me ameaço com penas pós-morte, dado que não conseguiram que
ficasse até a idade adulta com a crença da ressurreição e das almas penadas. Sou dos
que afirmam, convictamente, que os que tem penas são os índios
americanos, os outros levam um turbante, quando levam. Pontualizando, os índios penados, do continente americano, são
cada vez em menor número; e mesmo entre os que restam a maioria
desistiram de cravar penas na cabeça.
Não
quero terminar sem insistir que, dentro de ser possível, é
conveniênte e favorável para a convivência -mas arriscado- ser
racional e honesto. O risco que se corre é sobejamente conhecido, pois se há coisa perigosa é ser escravo voluntário da
verdade. Em muitas ocasiões é preferível um cauto silêncio e
deixar passar a bola. Até já ouvimos contos didácticos em que se
referem os perigos da verdade. A maior parte das pessoas, bem
educadas e conhecedoras, sabias portanto, utilizam eufemismos menos
crus do que a estrita verdade. Aliás, recordemos que existe a
máxima social que avisa Com a verdade me enganas, afirmação
que implicitamente nos diz que existem verdades que é preferível
negar.
E
agora um apanhado de provérbios sobre o tema:
A
verdade, ainda que amarga, se traga.
A
verdade é amarga, a mentira é doce.
A
verdade é clara e a mentira é sombra.
A
verdade é manca, mas chega sempre a tempo. (será assim?)
A
verdade e o azeite andam sempre ao de cima.
A
verdade não quer enfeites.
A
verdade não sofre dissimulações.
A
verdade não tem pés e anda.
A
verdade tem asas.
Mal
me querem as comadres, porque lhes digo as verdades.
Do
dinheiro e da verdade a metade da metade.
Onde
falecem as verdades, prevalecem os enganos.
As
más suspeitas destroem as verdades.
Não
há pior zombaria do que a verdade.
Pelejam-se
as comadres,descobrem-se as verdades.
Dobrada
é a maldade se feita com cor de verdade.
Ao
médico, ao advogado e ao abade, falar verdade.
Quem
não me crê, verdade não diz.
Vai-te
a língua para a verdade.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2018
MEDITAÇÕES 58 - XENOFOBIA
POR ENQUANTO AINDA NÃO APANHAMOS
As
notícias frequentes de atentados, sempre atribuídos à pressão
islâmica, são, propositadamente, desdramatizados das suas origens
simultâneamente referindo a presumível existência de xenofobia,
por parte dos ocupantes, e jamais dos migrantes, e justificando as
consequenciais da pressão invasora de fluxos humanos. Dando a
entender que todos nós somos culpados das pressões existentes no
seu território de origem. Pressões ocasionadas, por diversos
problemas, sejam eles de guerras, perseguições, fomes,
excesso populacional, ou combinação de diversos factores que
induzem os povos a se deslocar, em migração, para tentar escapar e
melhorar a sua vida. Uma situação que está muito longe de ser
novidade, pois que desde os primórdios das civilizações estas
migrações, invasoras, tiveram ligar.
Existem
diversos factores que influenciam a situação. Um deles, que é
referido com frequência, é que nos países com economia evoluída
a renovação populacional, vista como a substituição dos cidadãos
falecidos por novos elementos, descendentes do mesmo grupo social e
étnico, é deficiente. Facto que, não se pode considerar como
inusitado, pois que após grandes conflitos e pestes as populações
residentes se viram drasticamente dizimadas. O que é novo é que se
anteriormente a diminuição populacional se compensava, quase no
período de uma geração, hoje os novos casais optam por não ter
descendência ou por reduzir o número de filhos a um. Os migrantes,
que não atingiram o estado de estabilidade económica, continuam no
esquema mais tradicional de procurar garantir o sobrevivência do
grupo por meio de contínuas gravidezes, mesmo que as doenças
endémicas deixasses de desbastar, cruelmente, as populações.
O
que é relativamente novo nas sociedades ocidentais não é a
convivência entre indivíduos de etnias muito diferentes, com
costumes e doutrinas religiosas que conduzem a confrontos
violentos. A xenofobia é instintiva, natural, e não só
entre os humanos. Para vencer o desconforto, o receio, de ter que
conviver com gente notoriamente diferente daqueles com que estávamos
habituados, ou com os quais não existiam confrontos com
agressividade, é necessário um duplo esforço, por um lado de
educação para aceitar o diferente, e depois de vencer os naturais
receios gerados quando o número de forâneos ultrapassa a quantia
que, sem estar definida, aceitaríamos sem receios alarmistas. Neste
jardim calcula-se que os africanos de origem e seus descendentes,
somem uma quantidade raiana dos 90.000 indivíduos, que até se
admite ser, provavelmente superior.
A
noção de xenofobia com que nos procuramos inculpar é
relativamente recente, em dimensão, na sociedade ocidental. Os
precedentes na literatura europeia são bastantes, mas podemos
referir três como amostras de diferentes fases do receio racial.
Quando em 1603 William Shakespeare publicou o drama
de Otello. O mercador de Veneza, o cerne da situação
não estava exclusivamente na cor da pele do protagonista (um moiro
de pele escura, casado com uma dama branca da corte veneziana, mas
dos ciúmes que germinaram por infâmias sobre o comportamento da
esposa com um veneziano, branquinho como o requeijão. Otello
continuava sendo bem visto e apreciado pela alta sociedade
veneziana.
Em
1719 o inglês,Daniel Defoe metodista fervoroso,
apoiando-se em relatos de náufragos posteriormente resgatados,
escreveu as aventuras de Robinson Crusoé, uma obra que,
pelo seu conteúdo e mensagens socialmente cativantes, predispunha a
considerar que o homem criado sem a influência da cultura
ocidental, tinha em si um nível de bondade inquestionável. Isso
apesar de que entre eles existissem guerras cruéis e inclusive
canibalismo. Uma obra que se tornou extensivamente divulgada e
considerada como fundamental para a educação dos jovens europeus.
Por todo o século XVIII foi o texto que mais edições teve e que
em mais línguas foi traduzido.
Esta
noção da nefasta influência que a cultura ocidental exerceu sobre
os povos indígenas, ou selvagens no conceito de não estarem
cultivados no mesmas regras do que (teoricamente) se regiam os
ocidentais, teve uma ampla difusão no século XVIII. Muitas obras
se escreveram e ditaram com esta argumento. O mais famoso texto é
de Jean Jacques Rousseau, que em 1755 publicou O BOM
SELVAGEM. As doutrinas emanadas na noção de que a maldade dos
povos "incultos" era consequência do mau comportamento
dos "brancos", ficaram gravadas, inconscientemente, em
muitas mentes e nos levaram a assumir culpas injustificadas, se não
de tudo aquilo de que nos acusamos, pelo menos de uma boa parte do
que sucede à nossa volta neste contexto.
O
que sim posso afirmar é que, até hoje, o tentar explicar certos
acontecimentos, traumatizantes, com distúrbios e mortes, tornou-se
incómodo para muitos cidadãos, temerosos de que as suas opiniões
pessoais conduzam a que, aquele que se atreveu a polemizar, seja
qualificado de racista e xenófobo. Como em muitos outros assuntos,
não nos podemos cingir, estritamente, ao claro e ao escuro; há
muito cinzento que deve ser visto com calma.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2018
MEDITAÇÕES 57 - HAVERÁ TEMPORAL ?
O
QUE VEMOS NA EUROPA, E NO CONTINENTE AMERICANO
Temos
que reconhecer que o facto, irreversível, de Portugal estar no
extremo oriental do continente sempre proporcionou uma decalagem
temporal importante em relação às convulsões políticas que se
geraram, especialmente no centro europeu. Mas, à semelhança da
amortiguação dos movimentos oscilatórios, as ondas de choque,
quando nos alcançaram já não carregavam a virulência da sua
génese. Apesar desta constatação hoje temos a obrigação de
valorizar que a globalização não se limita ao
comércio e às sociedades que ficam directamente afectadas.
Tudo é mais rápido do que jamais foi.
Não
pretendo alarmar a tranquilidade de quem tenha a pachorra de me ler,
mas se dermos uma volta pela imprensa internacional, onde os artigos
de opinião e os editoriais nos contam muito mais do que os
noticiários esquemáticos, podemos ficar cientes de que se estão
organizando mudanças sociais e políticas muito importantes, não só
as devidas a efeitos secundários da referida globalização, como
são a precariedade laboral, a estagnação de muitos níveis
salariais, o progressivo desemprego profissional, os receios de
quebras no esquema de reformas e outras regalias, o aumento constante
de impostos, directos e indirectos, mas a verificada deslocação,
repentina e imprevista, do eleitorado no sentido de aderir aos
partidos da direita, em especial da extrema direita, que se
beneficiam do descontentamento existente, e que a sua propagando
magnifica.
O
clima de descontentamento e desorientação das classes que dependem
de salários, sejam do nível baixo ou médio, são um alvo
apetecível, e propício, para a propaganda de grupos
extremistas. Imaginar que entre nós, em Portugal, o facto de termos
um governo que muitos consideram "contra natura", onde se
finge manter uma colaboração de fidelidade quase que canina,
entre partidos teoricamente mais radicais, mas de facto lutando pelos
interesses dos seus sócios e um partido que deixou de ser
socialista e se acomodou, ou melhor, os seus quadros
dirigentes se acomodaram, ás benesses do capitalismo e podem
permitir-se o mesmo estatuto efectivo de impunidade que todos os
políticos, seja no activo -caso de estar na linha visível se possa
considerar que trabalham- gozam (um gozar não só na aceitação de
usufruir mas também, e tristemente, de fazer pouco da população) e
o pântano em que os fazedores de legislação colocaram a Justiça,
não passam desapercebidos da cidadania.
Está
criado um caldo de cultura, um ambiente rarefeito, que mesmo
aceitando a pretensa qualificação de ser um povo tranquilo,
sossegado, pouco disposto a bater-se por problemas comuns, a história
nos mostra que em existindo um interesse, mais ou menos oculto, na
exacerbação da população, não é tão difícil como se pode
pensar, criar um ambiente de mudança gerida por controle remoto.
Inclusive é factível, como se provou noutras sociedades, mais
evoluídas do que a nossa, criar novas formações políticas que,
com orientações quase programáticas, mas sempre mal definidas,
podem conseguir alterar o panorama eleitoral.
Por
hábito, ou por apatia mental, custa.nos acreditar nos financiamentos
ocultos, mas eles existem, e colocam importantes somas de dinheiro
vivo, que permitem organizar, quase de pé para a mão, a propaganda
para incitar o descontentamento. Temos os exemplos concretos de como
os eleitorados americano, brasileiro e mais recentemente da Andaluzia
espanhola, deram um virote nas suas escolhas. De repente nos
deparamos com uma progressão inesperada dos partidos xenófobos,
direitistas, nacionalistas, a um degrau apenas de aderirem às acções
fascistas, que se pensava estarem relevadas para a memória
histórica.
A
cupidez, ambição e o desrespeito pelas suas funções de
condutores e servidores do povo, daqueles que se diz foram eleitos
por nós, estão deixando um caminho aberto, com muitas faixas, para
que os extremistas da direitona se movimentarem quando assim o
entenderem. Os cidadãos não sentem, caso alguma vez o tenham
sentido, respeito nem fé na Assembleia da República. É ali onde
teria que se dar uma forte reviravolta preventiva a muita coisa e que
não se prevê aconteça. E não teria que ser amanha, hoje já era
tarde.
Quanto
antes acordem melhor para todos; eles inclusive. Mas é impossível
pensar nesta prenda de Natal. Antes pelo contrário. Mais parece que
em vez de ocuparem (quando lá estão de facto) um semicírculo estão
num quadrado como em Chaimite, defendendo com unhas e dentes, tal
como gatos assanhados, as suas prebendas. Podem, e podemos todos, ter
uma surpresa. Que gostaria de considerar improvável.
domingo, 9 de dezembro de 2018
MEDITAÇÕES 55 - SINTOMAS DE DESCONFORTO
REVOLTA NOS BOMBEIROS ?
Penso que a maioria dos cidadãos devem ter ficado um pouco admirados ao receber a notícia de que a Corporação Nacional de Bombeiros decidiu afastar-se do domínio da Protecção Civil. Não estou minimamente ligado a este conflito, mas considero que deve ter sido visto como anormal pela população. Todavia, se atendermos aos sucessos dos últimos dois anos, especialmente nos grandes incêndios florestais, incluídos os que afectaram fortemente as populações, com mortes e perdas de património, era de prever que os tais "soldados da paz", se vistos como uma corporação merecedora de apreço e respeito, se sentissem atingidos e tratados como "carne de canhão" por parte de um comando mais consentido do que respeitado, nomeadamente quando múltiplo.
Dias atrás, e sem eu ter os elementos de juízo fundamentais, tive o atrevimento de afirmar que, pelo menos nos concelhos mais amplos em território do que em população, os bombeiros voluntários é possível que dependam, económicamente, do que se decide na sua Câmara Municipal, ou seja que, factualmente são funcionários municipais. Assim como, localmente, também o departamento responsável da Protecção Civil não passa de mais um gabinete sob as ordens da equipa municipal. Visto de fora, sem ter nenhuma conversa com algum cidadão afecto a um destes sectores, uma análise imediatista nos pode levar a considerar que a situação, dos bombeiros voluntários, ser por um lado uma despesa paga por um patrão e por outro um corpo de acção, que em chegando a hora da verdade são demasiados os que dão ordens e orientações, que sendo múltiplas é fácil que nem todas sejam coincidentes. Daí a possibilidade de se ter cimentado um sentimento negativo sobre o seu estatuto, por demais indefinido.
Sabem que sou adicto (afeiçoado) aos rifões (provérbios) populares, e não vos estranhará que procurasse localizar um que, metafóricamente, se ajustasse à situação, que desde longe, eu admitia existir no corpo dos bombeiros: PANELA MEXIDA POR MUITOS NÃO PRESTA. Na cozinha caseira está, tacitamente estabelecido, que só há uma pessoa com poder de adicionar sal como condimento, sob risco de que quando o manjar chegue à mesa se verifique estar salgado o insonso.
Não sei qual vai ser a solução a tomar para clarificar o comando dos bombeiros. E até estou disposto a acreditar que, tal como acontece em muitos casos, isto fique em água de bacalhau que, como sabemos, corresponde a esperar que o tempo resolva o problemas. De facto esta inércia só os pode incrementar. Os problemas, caso não se ataquem de frente, persistem e em cada dia que passa ficam com mais azedume.
A hipótese de Incorporar todos os voluntários para um estatuto de "soldados do quadro" imagino que implicaria a responsabilidade de pagamento directamente ao Orçamento do Estado. Não parece factível. Existe capacidade económica para tal?
Caso, como imagino, que as quotas voluntárias de munícipes devem ser,globalmente, insuficientes, as contas das corporações locais devem estar, sempre, dependentes de subsídios camarários. Se for assim, então estas quantias ficam englobadas no bolo municipal. a troco de serem efectivamente servos dos mandantes da Câmara. Já sabemos que não há almoços grátis.
Atribuir o descontrole efectivo de ter demasiados a mandar não se pode orientar exclusivamente ao departamento de Protecção Civil. Todo este sector de acção humana na defesa de pessoas e bens deve merecer um estudo aprofundado, eliminando a multiplicidade de intervenientes dado que, quando os problemas são graves, sabemos que é importante ter um comando centralizado.
sábado, 8 de dezembro de 2018
MEDITAÇÕES 54 - A. DIAS & DIAS
NEM TODOS SÃO IGUAIS
E podemos estar bem satisfeitos com esta mudança. Mas nem tudo são rosas, nem malmequeres, bem me queres, muito, pouco ou nada. Poderíamos dizes que no avariar é que está o ganho, e então agora em que quando uma coisa se avaria é difícil encontrar quem a possa reparar, ou arriscamos a que para a compostura nos apresentem um orçamento que ultrapassa o valor de um traste novo. A solução que nos cabe é a de tentar encontrar a origem do defeito e conseguir safar a onça por nós próprios.
Por estas e outras eventualidades estou sem impressora funcional, embora tenha três aparelhos destes encalhados. Dizem que caso os tenha tido sem uso durante meses os circuitos de tinta estão entupidos e uma reparação seria mais dispendiosa do que o preço actual de um destes aparelhos, dos mais simples. E porque ainda os tenho a estorvar? Não tenho uma resposta que me satisfaça e menos que possa servir para justificar esta ocupação, inútil, de espaço. Penso que é por simples inércia e falta de sensatez. Tenho que me decidir a despachar estas "relíquias".
Falta o A. BOAVIDA? Não foi a tal falta de esquecimento. Foi uma provocação inocente. Sem maldade. Nem sequer com piada. É o que acontece, com excessiva frequência, quando esta-se convencido de ser um indivíduo piadético.
Antes de iniciar esta redacção escolar tinha o propósito de dissertar, com sensatez, sobre as deficiências mentais que sinto,sem necessidade de me olhar ao espelho, actividade que só me atrevo a tomar quando rapo a barba e, antigamente, se tinha que espremer alguma borbulha, daquelas que soltam uma espécie de esparguete de sebo.. Mas esta fase de acne já passou à história macabra, como outras características fisiológicas que não esclareço, por auto-respeito.
Tinha todo o escrito alinhavado na cuca, mas não estava satisfeito anímicamente. Isso de um fulano se despir para o publico, quando o físico já deixou de ter uma estrutura aceitável, sofrível, não é aconselhável. Nem sequer é prudente ou sensato. Por isso,numa atitude de auto-defesa deixei o rascunho morrer num canto. Não no nono, nem no décimo quarto, mas por estar livre, no quarto escuro, aquele que em miúdo me diziam que tinha ratazanas e que devia fazer tudo para evitar que me isolassem ali.
A Bem da Nação.
Pede Deferimento.
sexta-feira, 7 de dezembro de 2018
MEDITAÇÕES 53 - Viajar para fugir
| ||||
Pois
o filme, que estreava naquela sessão, tem um título bastante longo:
UM BILHETE DE COMBOIO PARA LONGE DAQUI. Só de ida. O filme em questão
tem um conteúdo que, em grandes traços, se acomoda ao recentemente
exibido A VIÚVA , do prémio Nobel de Literatura.
Por
respeito tanto aos autores, como aos artistas, produtores e exibidores, não
vou dar um resumo do argumento. Mas se escrevo é porque nos,o casal, já com mais de 80 Primaveras nas costas, acumulamos muita
experiência de vida, o que nos permite ou incita, a ponderar as
mensagens bem evidentes que o desenrolar da acção, que nem sequer é
excessivamente longa no tempo, nos expõe de forma, em muita cenas,
extremamente agressiva.
Imagino
que as pessoas que mais imediatamente captarão o sentido anímico
que afectava a personagem feminina principal, devem ser as mulheres
casadas por algumas décadas, com filhos, sejam ainda em activo ou viúvas e divorciadas. Os homens, os
espectadores melhor dizendo, se estiverem com os olhos internos tão
abertos como os que lhes mostram o ecrã, podem ficar bastante
tocados, sem sentirem que a sua atitude lhes seja indutora de culpa.
Em verdade aquilo que se aponta está imerso no comportamento
diferenciado dos dois membros de um casal.
Um homem que, pêlo menos
em certas ocasiões, não abdique do seu instinto de predador sexual,
sem que estes desvios conjugais lhe impliquem um pesado sentimento de
culpa. Sem
pretender discriminar as mudanças sociológicas que a
modernidade nos forneceu, é forçoso admitir que, em consequência
da mulher ter sido incluída no mundo laboral, as infidelidades de
esposa devem ter sido mais numerosas do que na época em que as
mulheres, depois de casadas, viviam enclausuradas no lar.
Mas
as situações que mais me impactaram, apesar de as conhecer, foram,
por um lado, o ter que admitir que as esposas nem sempre estão
animicamente afins a partilhar o furor copulativo do marido. No filme
esta situação é insistentemente apresentada, amargamente, possivelmente com a
intenção de educar os maridos. Comentando em casa esta faceta do
argumento imediatamente se chega à consideração de que o homem,
tal como outros mamíferos, carrega no seu seio um bode. E que mesmo
que tendo cometido deslizes no capítulo da fidelidade conjugal,
depressa neutraliza o sentimento de culpa por se apoiar com o
instinto natural. E quem diz tinto pode dizer branco, palhete ou
espumoso, mas jamais água-pé. pois que esta beberagem não é coisa
que se apresente seriamente.
A
outra situação que o argumentista decidiu e que causou alguma
surpresa, mesmo desconforto, é o como decidiu terminar a narrativa. Sem
ceder ao "politicamente correcto". Sensatamente não fecha
a história, e concede à personagem feminina uns graus de liberdade,
de opções, que nos podem deixar desconfortáveis quando nos
levantamos para sair.
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