sábado, 8 de dezembro de 2018

MEDITAÇÕES 54 - A. DIAS & DIAS

NEM TODOS SÃO IGUAIS

E podemos estar bem satisfeitos com esta mudança. Mas nem tudo são rosas, nem malmequeres, bem me queres, muito, pouco ou nada.  Poderíamos dizes que no avariar é que está o ganho, e então agora em que quando uma coisa se avaria é difícil encontrar quem a possa reparar, ou arriscamos a que para a compostura nos apresentem um orçamento que ultrapassa o valor de um traste novo. A solução que nos cabe é a de tentar encontrar a origem do defeito e conseguir safar a onça por nós próprios.

Por estas e outras eventualidades estou sem impressora funcional, embora tenha três aparelhos destes encalhados. Dizem que caso os tenha tido sem uso durante meses os circuitos de tinta estão entupidos e uma reparação seria mais dispendiosa do que o preço actual de um destes aparelhos, dos mais simples. E porque ainda os tenho a estorvar? Não tenho uma resposta que me satisfaça e menos que possa servir para justificar esta ocupação, inútil, de espaço. Penso que é por simples inércia e falta de sensatez. Tenho que me decidir a despachar estas "relíquias".

Falta o A. BOAVIDA? Não foi a tal falta de esquecimento. Foi uma provocação inocente. Sem maldade. Nem sequer com piada. É o que acontece, com excessiva frequência, quando esta-se convencido de ser um indivíduo piadético.

Antes de iniciar esta redacção escolar tinha o propósito de dissertar, com sensatez, sobre as deficiências mentais que sinto,sem necessidade de me olhar ao espelho, actividade que só me atrevo a tomar quando rapo a barba e, antigamente, se tinha que espremer alguma borbulha, daquelas que soltam uma espécie de esparguete de sebo.. Mas esta fase de acne já passou à história macabra, como outras características fisiológicas que não esclareço, por auto-respeito.

Tinha todo o escrito alinhavado na cuca, mas não estava satisfeito anímicamente. Isso de um fulano se despir para o publico, quando o físico já deixou de ter uma estrutura aceitável, sofrível, não é aconselhável. Nem sequer é prudente ou sensato. Por isso,numa atitude de auto-defesa deixei o rascunho morrer num canto. Não no nono, nem no décimo quarto, mas por estar livre, no quarto escuro, aquele que em  miúdo me diziam que tinha ratazanas e que devia fazer tudo para evitar que me isolassem ali.

A Bem da Nação.
Pede Deferimento.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

MEDITAÇÕES 53 - Viajar para fugir



UMA IDA AO CINEMA

Ontem assistimos a uma estreia, se bem que estavam quatro pessoas na sala. Cada vez há menos espectadores no cinema, a não ser que os filmes de muita acção e cenários virtuais chamem o público que, por os ver a comprar bilhetes, já abrange desde crianças que há 40 anos nem podiam sonhar em entrar numa sala de cinema, como segue na pirâmide etária até adultos, uns adúlteros e outros monógamos, ou bissexuais, que hoje já está tudo boamente aceite. Lá diz a citação: OS TEMPOS LADRAM E A CARAVANA PASSA.
Pois o filme, que estreava naquela sessão, tem um título bastante longo: UM BILHETE DE COMBOIO PARA LONGE DAQUI. Só de ida. O filme em questão tem um conteúdo que, em grandes traços, se acomoda ao recentemente exibido A VIÚVA , do prémio Nobel de Literatura.
Por respeito tanto aos autores, como aos artistas, produtores e exibidores, não vou dar um resumo do argumento. Mas se escrevo é porque nos,o casal, já com mais de 80 Primaveras nas costas, acumulamos muita experiência de vida, o que nos permite ou incita, a ponderar as mensagens bem evidentes que o desenrolar da acção, que nem sequer é excessivamente longa no tempo, nos expõe de forma, em muita cenas, extremamente agressiva.
Imagino que as pessoas que mais imediatamente captarão o sentido anímico que afectava a personagem feminina principal, devem ser as mulheres casadas por algumas décadas, com filhos, sejam ainda em activo ou viúvas e divorciadas. Os homens, os espectadores melhor dizendo, se estiverem com os olhos internos tão abertos como os que lhes mostram o ecrã, podem ficar bastante tocados, sem sentirem que a sua atitude lhes seja indutora de culpa. Em verdade aquilo que se aponta está imerso no comportamento diferenciado dos dois membros de um casal. 
Um homem que, pêlo menos em certas ocasiões, não abdique do seu instinto de predador sexual, sem que estes desvios conjugais lhe impliquem um pesado sentimento de culpa. Sem pretender discriminar as mudanças sociológicas que a modernidade nos forneceu, é forçoso admitir que, em consequência da mulher ter sido incluída no mundo laboral, as infidelidades de esposa devem ter sido mais numerosas do que na época em que as mulheres, depois de casadas, viviam enclausuradas no lar.
Mas as situações que mais me impactaram, apesar de as conhecer, foram, por um lado, o ter que admitir que as esposas nem sempre estão animicamente afins a partilhar o furor copulativo do marido. No filme esta situação é insistentemente apresentada, amargamente,  possivelmente com a intenção de educar os maridos. Comentando em casa esta faceta do argumento imediatamente se chega à consideração de que o homem, tal como outros mamíferos, carrega no seu seio um bode. E que mesmo que tendo cometido deslizes no capítulo da fidelidade conjugal, depressa neutraliza o sentimento de culpa por se apoiar com o instinto natural. E quem diz tinto pode dizer branco, palhete ou espumoso, mas jamais água-pé. pois que esta beberagem não é coisa que se apresente seriamente.
A outra situação que o argumentista decidiu e que causou alguma surpresa, mesmo desconforto, é o como decidiu terminar a narrativa. Sem ceder ao "politicamente correcto". Sensatamente não fecha a história, e concede à personagem feminina uns graus de liberdade, de opções, que nos podem deixar desconfortáveis quando nos levantamos para sair.


terça-feira, 4 de dezembro de 2018

MEDITAÇÕES 52 . Batem à porta


CARONTE PEDE A PALAVRA

Bom dia Senhor Virella, desde ontem Amigo.

Li, e reli por duas vezes, sempre com muito agrado o relato que editou neste seu espaço, centrado na troca de impressões que tivemos ontem enquanto eu estava, meditando e isolado no meio de, uma longa e estática fila de desempregados para tentar conseguir uma ajuda profissional de sobrevivência sobrevivência. E agora venho tentar que me ceda um pouco de tempo de antena para poder referir uma recente mas pujante situação que fez entornar o copo das minhas desgraças.

Se o tema de hoje não ficou devidamente descrito, ontem, deve ter sido por causa de quando aquele maralhal o viu chegar com um microfone na mão, logo, como moscas, nos rodearam compactamente. E eu não estou habituado a apertos. Mesmo quando há chacinas, seja em guerras ou acidentes, como a barca é pequena, só posso levar um máximo de meia dúzia de clientes de cada vez. Os outros tem que esperar na praia. Fiquei nervoso e esqueci metade do que teria desejado contar.

Vou entrar no assunto de hoje. Deve saber, Senhor Virella, que a decisão de optar para uma cremação em vez do enterro tradicional tem tido uma procura espantosa, tornou-se uma moda. Eu, conhecedor do problema da  consumição dos corpos centrado na troca de impressãoes que tivemos ontem enquanto eu estava, meditabundo e isolado no meio de, uma longa e estática fila de desempregados para tentar conseguir uma  ajuda profissional de sobrevivência sobrevivência. E agora venho tentar que me ceda um pouco de tempo de antena para poder referir uma recente mas pujante situação que fez entornar o copo das minhas desgraças.


Se o tema de hoje não ficou devidamente descrito, ontem, deve ter sido por causa de quando aquele maralhal o viu chegar com um microfone na mão, logo, como moscas, nos rodearam compactamente. E eu não estou habituado a apertos. Mesmo quando há chacinas, seja em guerras ou acidentes, como a barca é pequena, só posso levar um máximo de meia dúzia de clientes de cada vez. Os outros tem que esperar na praia. Fiquei nervoso e esqueci metade do que teria desejado contar.

Vou entrar no assunto de hoje. Deve saber, Senhor Virella, que a decisão de optar para uma cremação em vez do enterro tradicional tem tido uma procura espantosa, tornou-se uma moda. Eu, conhecedor do problema da consumição dos corpos, entendo que é uma opção pertinente e ecológica, pois que os cemitérios tem a terra saturada e os corpos levam muito mais tempo a se desfazer, tudo por causa dos medicamentos acumulados nos corpos, especialmente de antibióticos.

Tudo bem, mas o que sei é que na minha barca. Descontando os  caloteiros que não querem pagar o serviço e os trafulhas que trazem uma rodela de plástico onde se pode ler que “vale 50 cêntimos” a realidade é que ninguém as aceita para trocar por moeda a sério. O que posso afirmar é que o rendimento do meu trabalho cada vez é mais fraco, e os meus braços de remador já se cansam como jamais tinha acontecido.

O Amigo Virella, se pudesse estar um par de dias acompanhando-me na barca veria como está a crise para este humilde servidor social. Sim, porque levar as almas até o seu destino final implica conhecer bem a  costa e as características de cada um dos portos onde largar as almas. Lá verificaria que não aparecem almas queimadas ou enfarruscadas, só algumas com as vestes com alguma terra da cova, mas que sacudidas ficam aceitáveis. 

E sabe parqué? Eu sei! Tive que ir espreitar no crematório para ver, embora os meus conhecimentos históricos já me tinham explicado o que acontecia. Ao queimar o corpo, num caixão de aparite ou cartão, muito se transforma em fumo e daí que sai pela chaminé rumo aos céus, quando o estatuto determinado para cada defunto lhe destinava um lugar possivelmente bem diferente. Com os ossos grandes é diferente, pois que não se desfazem. Mas não vamos falar de coisas desagradáveis.

Memorizando recordo que dos que foram queimados em autos de fé pela Sagrada Inquisição, cujas decisões tinham força de lei, nenhum embarcou na minha barca, fossem ou não culpados. Todos rumaram para cima,misturados no fumo da lenha, verde para que durasse mais tempo. Outro tanto aconteceu com os que foram gaseados e queimados nos campos de extermínio nazis. Se o Sr. Virella pensar nisso que lhe digo entenderá o quanto eu tenho sofrido com a crise de trabalho.

Como pode imaginar eu pertenço a uma confraria de barqueiros, que tem confrades pelo globo todo, e com tarefas muito semelhantes. Por isso e pela idade que tenho, que não se pode contabilizar por anos, nem séculos, mas por milénios, não se admirará se lhe digo que falo, leio e escrevo numa imensidade de línguas, antigas, algumas mesmo já mortas, como o sânscrito. E outras em actividade, mas delas as há em declínio, como eu no meu trabalho.

E não maço mais. A conversa foi demasiado longa, e sou falador por natureza, se bem que raramente tenho com quem dialogar dado o facto de que os meus clientes nunca podem falar e de vivos era muito raro aparecer um. Se conseguir ter uma tarde livre gostaria de o ter como companheiro de remadas. Veria quantos lugares ficam vazios nas viagens de agora. E, já agora, lembrei-me de que no dia em que carecer do meu trabalho (que seja dentro de bastantes anos) o levarei a um porto de confiança. Não diga nada a ninguém, mas tenho boas relações com os porteiros da Glória, e sei que tenha muito ou pouco na sua ficha, lhe darão entrada, nem que seja pela porta do cavalo.

Os meus respeitosos cumprimentos e votos de muita saúde. 

O Amigo CARONTE


segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

MEDITAÇÕES 51 - Não me surpreendeu


CARONTE INSCREVEU-SE NO DESEMPREGO

Era uma situação que se antevia desde meses ou anos. A evolução da sociedade não pode oferecer só alegrias e gostosuras, tal como o branco e o preto, também existem sempre os dois polos opostos. E esta dicotomia, que descuidamos como se não existisse, inclusive afecta, num retrocesso que não estava previsto, até ao nível da mitologia clássica.
Por esta razão, e por partilhar do pessimismo que tanto se teme, quando me comunicaram que viram Caronte na fila para se inscrever no fundo de desemprego, de imediato deduzi que esta personagem, mesmo que de segundo plano, estava profundamente afectado e desanimado com as mudanças e faltas de respeito dos humanos actuais.
Procurei informações directas acerca dos motivos que  empurraram Caronte á situação de sentir-se inactivo, abandonado, sem clientes com quem trabalhar na sua função de barqueiro no transporte das almas ao longo do rio Estiges e os desembarcar na praia donde lhes estava destinado ficarem a penar, com maiores ou menores castigos consoante tivesse sido o seu comportamento na vida terrena.
Caronte, enquanto esperava para ser atendido, pacientemente naquela fila, que pouco avançava, recordava a dedicação e esmero que foi seu apanágio ao longo da sua.vida, que julgava eterna, desde a mais escura antiguidade. Obviamente sentia-se humilhado e desprezado, sem que conseguisse encontrar justificações para o que lhe estava acontecendo.
Fomos pedir que nos concedesse uma entrevista, pois o respeito que, pessoalmente, ainda sentimos pela personagem que, de certo modo, encarnou. mesmo que simbolicamente, nos obrigava a tentar entender as suas razões. E Caronte nos concedeu um tempo de antena, dando a entender que com isto poderia ultrapassar aquela tediosa fase de espera na estática fila.
Quis que recordássemos que ele era o barqueiro, em princípio voluntário e gratuito, mas que desde os tempos mais remotos os parentes dos defuntos, quando os depositavam no túmulo, e assim a sua alma poderia libertar-se para poder partir para o futuro interminável,  colocavam uma moeda debaixo da língua do morto, e amarravam o queixo à testa para evitar que a moeda caísse, caso acidentalmente o cadáver decidisse abrir a boca. Quando a alma chegava à praia de embarque na barca de Caronte, entregava ao barqueiro o óbolo que servia para "gratificar" Caronte -ou seja, mais concretamente pagar- sabendo, pélas informações colhidas através das pitonisas, que o barqueiro era ganancioso e que uma valiosa moeda garantia o desembarque num ponto menos mau.
Caronte lamentou-se de que, com a evolução dos costumes sociais, as moedas passaram a ser cada vez de menor valor, e até houve almas que vinham à praia mais pobres que Job. Ele, Caronte, tinha pena deles e  os transportava até um local de terceira ou quarta classe, desculpando-se péla desfeita que os familiares do defunto lhe tinham infligido.
Mas as coisas foram piorando. Recentemente, os familiares,  numa demostração de falta de respeito e até de vontade de insultar o barqueiro, começaram a colocar sob a língua do defunto, uma daquelas chapas de vil plástico que servem para conseguir usar um carrinho onde colocar as mercas no super. Ora, eu -dizia Caronte- fui desde início uma personagem respeitada no universo da mitologia, e não posso permitir que uns badamecos da actualidade, não tão só se furtem ao pagamento como até se permitam insultar.
Tenho ou não tenho motivos de queixa e de pedir um subsídio de desemprego?

Quem somos nós para contrariar tão sensatas e coerentes palavras. Não nos atrevemos a responder a Caronte que como o podem respeitar se eles nem respeitam os seus pais, professores e mestres?



domingo, 2 de dezembro de 2018

MEDITAÇÕES 50 - Memória enganadora


NÃO NOS PODEMOS FIAR DA MEMÓRIA

A nossa memória, que vai e vem, conforme lhe apetece, não é de fiar. É mais mentirosa do que a lua em quarto minguante, e traiçoeira. Pior, tem vontade própra e não aceita ser governada pelo utente. Não liga a requerimentos de pesquisa, e quando já entende que estamos totalmente perdidos, desorientados, então pode ser que decida abrir a gaveta onde guardou aquilo que queriamos recordar.
Se não bastasse com as demostrações de egoísmo e prepotência habituais, tem outra arma, letal, com quese deleita em nos massacrar, ou nos agradar quando ela está de boa maré. Todos reconhecem aquio que aqui deixarei: a nossa memória é terrívelmente selectiva. Ela escolhe e decide trazer para ser consultado aquilo que entende. Em geral e para evitar que não decidirmos dar um tiro na cabeça e terminar com estes abusos de confiança, pode colocar-se do nosso lado, mantendo na escuridão os factos desagradáveis e oferecendo, em bandeja de prata, só boas lembranças.
Mas cuidado, lembrem que já nos pregou pesadas partidas, nomeadamente quando manipulou, por conta própria, factos que não aconteceram como nos apresenta ao tentar lembrar. Quantas vezes, depois de afirmar com convicção que uma situação em que tivemos parte activa aconteceu desta ou de aquela forma, em que um disse isso e outro respondeu aquilo,somos confrontados com que nada daquilo que relatamos correspondia à realidade dos factos.Por vontade oculta, mas muito firme,da nossa memória, manipuladora do arquivo interno, ficamos atados ao pelourinho por ter faltado à verdade. Sem águas mornas: coloca o confiado relator no papel de mentiroso, sem que tenha possibilidade, por si mesmo, de esclarecer o como,quando e porque.
Este comportamento abusivo do arquivista pode conduzir a que o indivíduo responsável, ou irresponsável, dos desvios irreais venha a ser qualificado como possuidor de umamente excessivamente fértil, mais rudemente até passar a ser definido como um mentiroso compulsivo e daí ficar socialmente desqualificado, desmerecedor de crédito, mesmo quando não se desvia da realidade nem por um milímetro. Conhecí, de perto, um bom profissional que tinha por hábito melhorar os seus relatos,colocando as suas fantasias com excessiva frequência. Era um dos tais que depois raramente convencem.O tipo de personagem que retrata a história de Pedro e o lobo. Pois numa ocasião em que estava um grupo de pessoas em descontraída cavaqueira, o tal de mente fértil, começou um relato tão fantástico, recheado de tantos pormenores brilhantes, que a certa altura o mais graduado do grupo lhe atirou, sem preparação e cortando a palavra do discursante: O Senhor desculpe, mas não acredito nesta sua história. E digo porqué: é tão interessante, tão brilhante, que quando disse que tinha acontecido uns anos atrás, eu deduzí que estava a sair da fornada neste momento, que era mais um invento seu. E isso baseando-me precisamente no facto de que sendo tão interessante não a tivesse contado anteriormente.
Dizem que a mentira tem pernas curtas, e por isso é apanhada rápidamente. Eu acrescento que nem sempre se consegue descobrir o fraude, Que há especialistas em enganar a muitos. E não digo a todos porque não seria credível. Mas, para ser um pouco bondoso afirmo que o mitómano nem sempre nos pega petas propositadamente. Creio que,de facto, a sua mente fértil o empurra a melhorar os relatos,ou mesmo a os inventar de raíz, por mera satisfacção própria, e inclusive para assim agradar ao ouvinte.  Até o poderiamos considerar um artista incomprendido.
A afirmação final do parágrafo anterior não nos deveria incomodar se avaliarmos as obras de mestres de ficção, Mesmo recohecendo que em certas passagens ou partes das suas obras, se vislumbre que foram ajudados pela facilidade com que conseguem utilizar factos verídicos, fossem testemunhados por eles mesmos ou ouvidos, consultados, de fontes credíveis. Depois tem a tarefa de embelezar, de lhes tirar a identificação real e dar-lhe outra imaginada. São ou não uns mentirosos? E apesar disso lemos as suas obras, e até as compramos para as guardar na nossa estante.



sábado, 1 de dezembro de 2018

MEDITAÇÕES 49 - As palavras variam




DEMOCRACIA E SOCIALISMO. PODEMOS ACREDITAR ? 

A experiência nos alerta acerca da volubilidade dos significados de certas palavras. Seria suficiênte comparar os termos que constam em dois dicionários da língua portuguesa editados com umas décadas de diferença. Se possível uma centena. Teriamos algumas surpresas com os significados atribuídos para alguns termos. Além de serem diferentes alguns ficariam em extremos opostos.

Um exemplo curioso é o do significado do termo sacana, que actualmente equivale a biltre, patife, bandalho, scanalha, malandro, s abido, espertalhão, trapaceiro, libertino, libidinoso, décadas atras correspondia, concretamente, a individuo que manuseia o órgão sexual de outro homem com propósitos libidinosos.

Todavia o meu propósito inicial era o de me limitar a comentar se o significado de palavras de uso corrente na política nos merecem confiança. Numa análise imediata nos encontramos com que o mesmo termo pode ser usado com diferentes propósitos, alguns deles situados em cacifos dispares. Limitando-nos ao nosso tempo de vida, não esquecemos que nos países onde se instalaram regimes fortemente ditatoriais, no intuito de mascarar a sua realidade gubernativa utilzaram, como mote para se definirem, as palavras REPÚBLICA, DEMOCRACIA, SOCIALISMO, POPULAR e variantes, sem se cingir ao significado que se admitia -com reservas- no ocidente.

O termo REPÚBLICA, que se considera ter sido cunhado na Grécia clássica, não coincide com o imaginário actual, e muito menos se o ligarmos ao conceito de DEMOCRACIA POPULAR. Pois que na época em que se colocaram estes termos na gíria política, era muito restrito o número de pessoas que tinham direito a se manifestar, a escolher, a decidir. Hoje, de facto, pouco difere a situação, mesmo que, aparentemente se efectuem eleições gerais e livres, dado que o são com listas fechadas.

Resta alguma dúvida acerca de se a denominação de repúblicas socialistas soviéticas ou de Alemanha democrática do Leste cumpriam as normas de liberdade e direitos individuais eram cumpridos rigorosamente ou,pelo contrário, o rigor de cumprir era o determinado por um grupo de auto-seleccionados, “em nome do seu povo”?

Pois sem cair nestes extremos. tão escandalosos, eu pessoalmente me encontro perante a impossibilidade de acreditar nos cabeçalhos de muitos partidos e grupos de políticos. Tomemos o caso do Partido Social Demócrata. PSD, que todos consideramos estar firmemente ligado ao capital, ou dito de outra forma: é considerado como partido da direita, e em consequência, disposto a transigir com muita relutância e até com algumas ratoeiras que os anulem, aos clamores de melhoras emanados das classes proletárias de vários níveis. Com muita benevolência do cidadão pensante, os epítetos de social e de demócrata, não encaixam perfeitamente É pena.

Vamos ao Partido Socialista PS, Pode estar partido nos seus princípios históricos, mas a experiência nos tem mostrado que o seu núcleo duro está cada dia mais em concordãncia com o poder económico. A história das 30 moedas repete-se constantemente, mas admite-se que as importâncias são bem superiores. Não é de hoje, nem ontem, que se admitiu que o socialismo foi guardado na gaveta, bem fechado. E, sinceramente, atendendo ao pragmatismo desejado na condução da sociedade, ainda bem que retiraram do seu livro de tarefas o nacionalizar à brava. Mas a opçaõ conseguiu ser pior, pois venderam as boas empresas, que deviam permanecer na posse do estado, a troco não de um prato de lentilhas mas (se acreditar-mos nos dizeres que por aí proliferam) de depósitos ocultos e bons lugares de administração.

As facções com denominações semelhantes a Democracia Cristã, apesar de se mascararem com a bonomia da religião, todos sabem que estão, em todos os países onde proliferam, íntimamente ligados à banca e aos negócios mais ou menos escuros. A Itália tem uma longa e triste experiência de como governam estes benfeitores. A evolução da sociedade em geral vai criando anticorpos a estes subterfúgios de mascarar a ignomínia com vestes religiosas.

Resta o Partido Comunista já residual e desacreditado, não só pelos seus logros em Portugal mas, principalmente, porque internacionalmente mostrou ter um roteiro sumamente pernicioso, ditatorial e mais selectivamente nepotista do que qualquer outro. Hoje serve para agitar as águas e pressionar os mandantes a ceder rangenddo os dentes. Mas, não esqueçamos que depois, as contrapartidas ocultas são mais graves do que as benesses concedidas.

E chego ao fim, declarando que sempre fui um utópico socialista, mais virado para social demócrata, por não partilhar com convicção das fúrias expoliadoras dos fanáticos revolucionários. Daí que nunca me filiei em nenhum partido, nem entrei em debates. Prefiro ter total liberdade de crítica e opinião, mesmo que fique restrita ao meu colarinho.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

MEDITAÇÕES 48 - Comentando uma entrevista



O QUE CONTOU O ARQUITECTO TOMÁS TAVEIRA

Li, com progressivo interesse a transcrição (fiel? não ponho a mão no lume...) de uma entrevista concedida pelo Arquitecto Tomás Taveira, que foi figura de capa quando se terminou o edifício das Amoreiras, incluindo o naquel então, incomparável centro comercial, Que dizem -eu não frecuento e por isso não posso opinar- que ainda é um local de culto para os adeptos destes aglomerados de lojas onde gastar, restauração e lazer.

É muito interessate seguir o relato de Taveira e ponderar as suas afirmações. Recordar que saíram do seu estúdio, além de dificios privados, alguns dos estádios de futebol que se ergueram para "colocar Portugal no mapa da FIFA". Destas obras, fossem de Taveira ou de outros arquitectos, algumas não conseguem ter um apoveitamento continuado, que amortize ou justifique o investimento nem a sua manutenção. Digamos que alguns foram Fífios. Mas destas decisões tomadas pela influência da mania das grandezas, resultaram construções que nos fazem pensar na acusação de puxar as mangas além do comprimento dos braços.

Transparece que o mercado nacional, em especial naquilo que depende do governo, não tem tido para Taveira o fluxo de trabalho que o seu currículo justificaria. As grandes encomendas, quando se efectivam, lhe vieram de fora. Taveira atribui este alheamento de novos projectos a que o mercado está saturado de arquitectos que poucas novidades trazem. Além de que criaram hábitos diferentes e existem uns poucos profissionais endeusados. Seja como for a sua orientação deixou de ter público, e sente-se sem ânimo para tentar abrir novo caminho.

Ao longo do discurso aparece, em mais de uma ocasião, a referência que o próprio faz da sua origem social, humilde mas honeta e trabalhadora. Não esconde as dificuldades que pesavam sobre a sua família, e relata com algum pormenor o seu percurso profissional e de estudos, e como atingiu renome internacinal enquanto que cá dentro sempre sentiu, como é tradicional, que os poderosos e bem situados na sociedade portuguesa, o toleraram e aplaudiram, paparam os seus almoços e o abraçaram com palmadas nas costas enquanto quiseram, e depois o esqueciam em minutos,

O jornalista, guardou para o fim o isco com o qual pretendia abrir uma brecha que já foi sensacionalista. Tentou que caísse na história dos vídeos eróticos gravados no seu estúdio com senhoras bem situadas, "da alta sociedade". Não mordeu, apesar da insistência.do jornalista. Mas, recordando o episódio, julgo que Taveira quis vingar-se,por interpostas pessoas -concretamente com as esposas- daqueles que o desprezaram. Nunca lhe perdoaram a afronta.

De certa forma, o azedo no esófago que Taveira carrega, recorda-me, sem ser exactamente igual, o de um político nacional de primeira linha que, em demasiadas ocasiões, referia da sua origem popular na tentativa de mostrar como, apesar de não ter nascido em berço de oiro, conseguiu alcançar o lugar mais elevado na escala nacional. Tantas vezes fez referência a que trabalhou com a enxada quando foi necessário, que com esta atitude só conseguiu cavar, dada vez mais fundo,o fosso social, absurdo mas incontestável, que o manteve afastado das pseudo elites nacionais.