sábado, 1 de dezembro de 2018

MEDITAÇÕES 49 - As palavras variam




DEMOCRACIA E SOCIALISMO. PODEMOS ACREDITAR ? 

A experiência nos alerta acerca da volubilidade dos significados de certas palavras. Seria suficiênte comparar os termos que constam em dois dicionários da língua portuguesa editados com umas décadas de diferença. Se possível uma centena. Teriamos algumas surpresas com os significados atribuídos para alguns termos. Além de serem diferentes alguns ficariam em extremos opostos.

Um exemplo curioso é o do significado do termo sacana, que actualmente equivale a biltre, patife, bandalho, scanalha, malandro, s abido, espertalhão, trapaceiro, libertino, libidinoso, décadas atras correspondia, concretamente, a individuo que manuseia o órgão sexual de outro homem com propósitos libidinosos.

Todavia o meu propósito inicial era o de me limitar a comentar se o significado de palavras de uso corrente na política nos merecem confiança. Numa análise imediata nos encontramos com que o mesmo termo pode ser usado com diferentes propósitos, alguns deles situados em cacifos dispares. Limitando-nos ao nosso tempo de vida, não esquecemos que nos países onde se instalaram regimes fortemente ditatoriais, no intuito de mascarar a sua realidade gubernativa utilzaram, como mote para se definirem, as palavras REPÚBLICA, DEMOCRACIA, SOCIALISMO, POPULAR e variantes, sem se cingir ao significado que se admitia -com reservas- no ocidente.

O termo REPÚBLICA, que se considera ter sido cunhado na Grécia clássica, não coincide com o imaginário actual, e muito menos se o ligarmos ao conceito de DEMOCRACIA POPULAR. Pois que na época em que se colocaram estes termos na gíria política, era muito restrito o número de pessoas que tinham direito a se manifestar, a escolher, a decidir. Hoje, de facto, pouco difere a situação, mesmo que, aparentemente se efectuem eleições gerais e livres, dado que o são com listas fechadas.

Resta alguma dúvida acerca de se a denominação de repúblicas socialistas soviéticas ou de Alemanha democrática do Leste cumpriam as normas de liberdade e direitos individuais eram cumpridos rigorosamente ou,pelo contrário, o rigor de cumprir era o determinado por um grupo de auto-seleccionados, “em nome do seu povo”?

Pois sem cair nestes extremos. tão escandalosos, eu pessoalmente me encontro perante a impossibilidade de acreditar nos cabeçalhos de muitos partidos e grupos de políticos. Tomemos o caso do Partido Social Demócrata. PSD, que todos consideramos estar firmemente ligado ao capital, ou dito de outra forma: é considerado como partido da direita, e em consequência, disposto a transigir com muita relutância e até com algumas ratoeiras que os anulem, aos clamores de melhoras emanados das classes proletárias de vários níveis. Com muita benevolência do cidadão pensante, os epítetos de social e de demócrata, não encaixam perfeitamente É pena.

Vamos ao Partido Socialista PS, Pode estar partido nos seus princípios históricos, mas a experiência nos tem mostrado que o seu núcleo duro está cada dia mais em concordãncia com o poder económico. A história das 30 moedas repete-se constantemente, mas admite-se que as importâncias são bem superiores. Não é de hoje, nem ontem, que se admitiu que o socialismo foi guardado na gaveta, bem fechado. E, sinceramente, atendendo ao pragmatismo desejado na condução da sociedade, ainda bem que retiraram do seu livro de tarefas o nacionalizar à brava. Mas a opçaõ conseguiu ser pior, pois venderam as boas empresas, que deviam permanecer na posse do estado, a troco não de um prato de lentilhas mas (se acreditar-mos nos dizeres que por aí proliferam) de depósitos ocultos e bons lugares de administração.

As facções com denominações semelhantes a Democracia Cristã, apesar de se mascararem com a bonomia da religião, todos sabem que estão, em todos os países onde proliferam, íntimamente ligados à banca e aos negócios mais ou menos escuros. A Itália tem uma longa e triste experiência de como governam estes benfeitores. A evolução da sociedade em geral vai criando anticorpos a estes subterfúgios de mascarar a ignomínia com vestes religiosas.

Resta o Partido Comunista já residual e desacreditado, não só pelos seus logros em Portugal mas, principalmente, porque internacionalmente mostrou ter um roteiro sumamente pernicioso, ditatorial e mais selectivamente nepotista do que qualquer outro. Hoje serve para agitar as águas e pressionar os mandantes a ceder rangenddo os dentes. Mas, não esqueçamos que depois, as contrapartidas ocultas são mais graves do que as benesses concedidas.

E chego ao fim, declarando que sempre fui um utópico socialista, mais virado para social demócrata, por não partilhar com convicção das fúrias expoliadoras dos fanáticos revolucionários. Daí que nunca me filiei em nenhum partido, nem entrei em debates. Prefiro ter total liberdade de crítica e opinião, mesmo que fique restrita ao meu colarinho.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

MEDITAÇÕES 48 - Comentando uma entrevista



O QUE CONTOU O ARQUITECTO TOMÁS TAVEIRA

Li, com progressivo interesse a transcrição (fiel? não ponho a mão no lume...) de uma entrevista concedida pelo Arquitecto Tomás Taveira, que foi figura de capa quando se terminou o edifício das Amoreiras, incluindo o naquel então, incomparável centro comercial, Que dizem -eu não frecuento e por isso não posso opinar- que ainda é um local de culto para os adeptos destes aglomerados de lojas onde gastar, restauração e lazer.

É muito interessate seguir o relato de Taveira e ponderar as suas afirmações. Recordar que saíram do seu estúdio, além de dificios privados, alguns dos estádios de futebol que se ergueram para "colocar Portugal no mapa da FIFA". Destas obras, fossem de Taveira ou de outros arquitectos, algumas não conseguem ter um apoveitamento continuado, que amortize ou justifique o investimento nem a sua manutenção. Digamos que alguns foram Fífios. Mas destas decisões tomadas pela influência da mania das grandezas, resultaram construções que nos fazem pensar na acusação de puxar as mangas além do comprimento dos braços.

Transparece que o mercado nacional, em especial naquilo que depende do governo, não tem tido para Taveira o fluxo de trabalho que o seu currículo justificaria. As grandes encomendas, quando se efectivam, lhe vieram de fora. Taveira atribui este alheamento de novos projectos a que o mercado está saturado de arquitectos que poucas novidades trazem. Além de que criaram hábitos diferentes e existem uns poucos profissionais endeusados. Seja como for a sua orientação deixou de ter público, e sente-se sem ânimo para tentar abrir novo caminho.

Ao longo do discurso aparece, em mais de uma ocasião, a referência que o próprio faz da sua origem social, humilde mas honeta e trabalhadora. Não esconde as dificuldades que pesavam sobre a sua família, e relata com algum pormenor o seu percurso profissional e de estudos, e como atingiu renome internacinal enquanto que cá dentro sempre sentiu, como é tradicional, que os poderosos e bem situados na sociedade portuguesa, o toleraram e aplaudiram, paparam os seus almoços e o abraçaram com palmadas nas costas enquanto quiseram, e depois o esqueciam em minutos,

O jornalista, guardou para o fim o isco com o qual pretendia abrir uma brecha que já foi sensacionalista. Tentou que caísse na história dos vídeos eróticos gravados no seu estúdio com senhoras bem situadas, "da alta sociedade". Não mordeu, apesar da insistência.do jornalista. Mas, recordando o episódio, julgo que Taveira quis vingar-se,por interpostas pessoas -concretamente com as esposas- daqueles que o desprezaram. Nunca lhe perdoaram a afronta.

De certa forma, o azedo no esófago que Taveira carrega, recorda-me, sem ser exactamente igual, o de um político nacional de primeira linha que, em demasiadas ocasiões, referia da sua origem popular na tentativa de mostrar como, apesar de não ter nascido em berço de oiro, conseguiu alcançar o lugar mais elevado na escala nacional. Tantas vezes fez referência a que trabalhou com a enxada quando foi necessário, que com esta atitude só conseguiu cavar, dada vez mais fundo,o fosso social, absurdo mas incontestável, que o manteve afastado das pseudo elites nacionais.













quarta-feira, 28 de novembro de 2018

MEDITAÇÕES - 47 . SER JUIZ EM CAUSA PRÓPRIA


UNS SÃO BENÉVOLOS E OUTROS DRÁSTICOS

Ontem vi mais alguns apontamentos sobre a processo interno que a justiça abriu contra o Juíz Carlos Alexandre, e deduzi que se baseava a ter referido facetas da sua participação nos inquéritos feitos a um ex-primeiro ministro -que parece recentemente escolheu residir a Ericeira, quiçá para dali embarcar para o Brasil, em auto-exílio- e. pelos vistos, estes descuidos, ou atrevimentos, por parte de um juiz não se podem aceitar. Dado isto TOMA, QUE É PARA APRENDERES !
O facto de que a acção deste Juiz, ao longo de muitos meses, ter sido valorizada por um enorme sector da população de Portugal como a de um pioneiro, de primeira linha, na aplicação da justiça sem ceder a pressões políticas. Mas estas são considerações anímicas que não pesam nas decisões corporativas., nem alteram a interpretação das leis que nos deviam governar com rapidez e transparência.
Aquilo que, pessoalmente, me entristece é o deduzir que o Juíz Carlos Alexandre, parco em palavras para jornalistas ao longo do processo, tenha aceite entrar e cair numa ratoeira, que era evidente. Considero ser este juiz ser pessoa esperta, honesto e cauteloso, cioso dos seus limites, mas que, desta vez, e sem que se perceba, engoliu o isco, mais o anzol, a cana e o carreto. Os seus pares, aqueles que auferem da potestade de zelar pelo rigoroso cumprimento do livro de conduta dos membros da magistratura, caso optarem por um caminho de excessivo rigor no formalismo, serão vistos pela cidadania -ou por uma parte dela- como possivelmente influenciados pelas pressões políticas de um sector determinado. Temos que aguardar para ver.

Sem que esta situação, que me acompanhou quando decidi fechar os olhos e a mente para dar lugar ao sono reparador, justificasse o que me consumiu durante horas, entrei num balanço muito crítico das minhas actuações profissionais e de ordem pessoal. Nem aquelas que reconheço não foram mal decididas propositadamente. O desleixo ou a incúria não deixam de ser reprováveis.
Este “mea culpa” da noite passada, ou se preferir um julgamento interno, nem sequer foi original, pois que tem acompanhado ao longo de anos. O mais penoso destas meditações é que só me acuso e não apresento a mais mínima desculpa ou justificação para os erros que, vistos ao longe no espaço temporal, carrego, figurativamente, sobre as costas. As depressões que fatalmente induzem  estas memórias, deixa-me arrasado e sem forças para dormir e esquecer.
Por vezes recuo para os anos da primeira infância em que me diziam ter, ao meu lado, um diabrete, maligno como pertence, e no outro um anjo da guarda protector. Ao ter optado pelo ateísmo militante deixei de usufruir do advogado de defesa pessoal. Daí as insónias irremediáveis, pois, como sabemos, nunca poderemos recuar factualmente no tempo e agir sobre acções que já ultrapassaram a fase em que seria possível corrigir. Ficam só os remorsos e auto-críticas, sem poder para neutralizar ou alterar o mal feito.



segunda-feira, 26 de novembro de 2018

MEDITAÇÕES . 46 - SOBRE A PROTECÇÃO CIVIL

 Um erro que já devia ter sido corrigido

Já são demasiadas as vezes em que confrontados com acidentes ou catástrofes localizadas, os serviços de Protecção Civil tem mostrado uma inépcia vergonhosa. A sua capacidade de reacção é muito limitada e fica a impressão de que só servem para situar alguns escolhidos, darem-lhes um espaço, nem que seja um gabinete modesto, mais uma viatura para se passear e umas fardetas para se exibir. E todo este aparato está sob a alçada das Câmaras Municipais respectivas.

Quando as castanhas estão no lume e á falta de meios capazes, os "dirigentes" da dita Protecção Civil, possivelmente empurrados pelo Presidente da Câmara, passam a bola aos bombeiros voluntários, ou semi-profissionais, daquela corporação local que o falecido e saudoso Raúl Solnado, apelidava de A Bombeiral da Moda. Mas quanto a autoridade efectiva, as corporações de soldados da paz, mesmo que enquadrados em organizações de fingida estrutura militarizada, são colocados em segundo plano pois que o Corpo da Guarda nacional republicana é o que, de facto, nas áreas mais provincianas, tem o comando das operações.Pelo menos é assim que eu vejo esta acção de efectiva protecção às populações. Posso estar enganado. e não me envergonho, pois sucede-me com demasiada frequência.

Mas indo ao tema em questão, creio que caso se efectua-se uma consulta geral à população - Aquilo que se denomina de referendar.- e se perguntasse se a cidadania se sentiria mais apoiada se  entregassem esta responsabilidade, directamente e sem fintas, á GNR, o resultado da contagem não deixaria dúvidas da pouca confiança que os cidadãos atribuem à tal "Protecção Civil", pelo menos se funcionar, como tem sido até agora, como um departamento dependente da Câmara Municipal. E as razões profundas para esta descrença de efectividade e isenção estão nos critérios, nada gerais e isentos, com que os serviços camarários deixam cometer fechando os olhos, ou mesmo autorizam com excesso de bonomia, infracções que contêm graves riscos para a vida segura dos cidadãos de sua qualidade "anónimos".

Existe um grave exemplo a referir e que, incompreensivelmente, tem sido esquecido, creio que de propósito, acontecido em Lisboa quando do incêndio do Chiado. O autarca, que por sinal tinha o canudo de engenheiro..., autorizou ou mesmo promoveu a instalação de ilhas com explanadas e grandes vasos com plantas na Rua do Carmo. Quando já o incêndio em actividade, quando as viaturas enviadas para o atacar chegaram a esta artéria, encontraram o accesso ao local barrado por aquela simpática e alegre instalação. 

Como é tradição de imediato se aplicou a receita de "Após a casa roubada, trancas à porta". Desta vez a imagem deveria referir, mais propriamente, que se tiraram as trancas logo antes de retirar as cinzas da catástrofe, que poderia ter sido muito maior e felizmente, ficou circunscrita. Mas a sabedoria popular também nos diz que "Ninguém aprende nas costas alheias". Daí que não nos admira que centros urbanos, atulhados de comércio nas ruas, tenham tanta relutância em obrigar a desimpedir a circulação de viaturas, que nem sequer se podem considerar em exclusividade as ambulâncias e os bombeiros.

Esta permissão, indesculpável, só se conteve pelo facto de que as Câmaras Invocam o ser de sua total e absoluta autoridade o que permitem nas suas ruas. E então perguntamos. O QUE OPINA A TAL AUTORIDADE (?) DE PROTECÇÃO CIVIL?. Apostaria em que se fosse a estrutura militar da GNR a decidir, as ruas estariam SEMPRE, desimpedidas.

domingo, 25 de novembro de 2018

MEDITAÇÕES 45 - Procuram-se responsáveis



BORBA E O PRIMEIRO MINISTRO

Se existe uma situação comum a muitos sucessos mediáticos que,infelizmente,comportam a perda de vidas humanas, concretamente de cidadãos que nada fizeram que justificasse o seu desfecho,é que a maior parte dos cidadãos que recebem a notícia, começando pelos comentadores,só fixam aquela situação concreta, e em consequência rapidamente apontam a um responsável, seja ele directo ou no topo da escala de responsabilidades.
No caso de Borba,conhecendo só aquilo que nos é apresentado nos noticiários, poderíamos atribuir responsabilidades desde o dono da pedreira, ou seu arrendatário e explorador, que podem ser uma só pessoa, a seguir o técnico diplomado que assinava o termo de responsabilidade, mais os inspectores que depois de emitirem o seu parecer e o dirigiram para os serviços competentes,lavaram daí as suas mãos. A cadeia de não intervenientes que, pela sua convivência tácita deveriam ser acusados e julgados,deveria ser bastante longa.
Mas como este, e outros temas parecidos, entra no campo da política, o que causa um maior impacto mediático é atirar a responsabilidade à máxima autoridade governamental do momento. E, como sempre, obviamente ao Primeiro Ministro, que tal como o capitão de uma nave,é o responsável supremo, mesmo que o assunto jamais lhe tenha sido referido nem tivesse tido alguma acção directa.Em casos de importância social e humana quase equivalentes ao que aconteceu em Borba, é usual tentar serenar as águas com a demissão do ministro que estivesse, estatutariamente, mais directamente ligado ao sucesso.
Borba foi utilizado de imediato,pelos partidos actualmente na oposição, como uma bomba de grande potência, baseando-se não só pela conhecida, e repetida, táctica do actual primeiro ministro em sacudir a água do seu capote, como por se desviar, fisicamente e politicamente, da primeira linha nas situações embaraçosas. Podemos dizer que, de facto, tem mostrado uma fixação notável para conseguir e manter o  seu lugar.poder. Todo o seu consulado tem sido um espectáculo de malabarismo digno de uma afamada companhia circense. Não se lhe pode negar a capacidade de manobra. Pelo menos até o dia em que os objectos com que manobra caiam ao chão.
Não desculpo a responsabilidade do P.M., nem tampouco de todos aqueles que,por incúria ou outro género de razões, consentiram naquela exploração perigosa. O que não obsta a que, a meu entender, devemos recordar outros acontecimentos tristes, alguns com perdas de vidas, que aconteceram estando outras personalidades no governo e que, com mais ou menos fintas e habilidades terminaram engolidas pelo tempo, após anos de inquéritos e até de processos em tribunal, sem que jamais alguém, concreto, tivesse sido "levado ao cadafalso".
Se António Costa já deveria ter saído, pelo seu próprio pé, quando o escândalo dos incêndios e incendiários, desde o Pinhal de Leiria até as serras de Pedrogão e meses depois na Serra do Caldeirão, foi por se aproveitar da romaria de beijos e de abraços do presidente da República, que junto com promessas difíceis de satisfazer, lhe permitiram distanciar-se assobiando como alguém que nada tinha que ver com o tema. Para sua defesa existem precedentes de calibre semelhante acontecidos sendo outros os cabeças de cartaz. 
Com pormenores diferentes, os governantes que tem ocupado o trono, simbólico mas efectivo, mais os seus sequazes, tem dado mostras de nada se importarem com o julgamento mental da população. Para eles vale, como um escrito lapidar, o conceito de que o povo é sereno. Que traduzido em linguagem vulgar, a população engole tudo a troco de quase nada.


quinta-feira, 22 de novembro de 2018

MEDITAÇÕES - 44 A roda da fortuna


NÃO HÁ DINHEIRO NOS BOLSOS

Quando uma pessoa se depara com uma despesa inesperada, a qual não pode atender de imediato com os seus recursos, nem com ajudas desinteressadas de familiares directos, o caminho que lhe fica disponível é o de pedir um empréstimo dando como penhora um bem móvel ou imóvel de que é proprietário. Ao se embarcar neste esquema sabe que o empréstimo implica o pagamento de juros, e que a prudência aconselha a poder abater este empréstimo quanto antes através de uma entrada de capital que lhe ofereça uma garantia de ser factível.
Isso seria o esquema mais aceitável, dentro do problema que ,por princípio, todos tentamos evitar. Mas o famoso "mercado" nos incita a gastar mais do que aquilo que normalmente dispomos, e para possibilitar esta ânsia de consumir, surgiu a táctica, simpática e facilitadora, de oferecer crédito bancário imediato através de um contrato que se assina.Nos entregam um cartão que abre portas no momento de pagar ao fornecedor. Simplesmente, esta modernice não passa de ser um disfarce, bem montado e apresentado com requinte, da agiotagem das casas de penhores. É a versão actual da serpente que ofereceu o fruto da árvore da sabedoria à Eva. Simplesmente o casal inicial (da mitologia tradicional) não tinha uma casa para deixar como penhora. Só tinha a sua liberdade para perder. E perdeu, pois que não só não há almoços gratuitos como nem sequer a fruta se oferecia sem um castigo oculto.
O esquema é muito elaborado, pois que na falta de cumprimento no pagamento da dívida, tão extensiva na sociedade e sob tantos argumentos de incitação, o moderno agiota -leia-se o banco- toma a posse do bem deixado como garantia e procede a uma tentativa de o vender no mercado livre. Caso esta anulação de empréstimo não se consiga pelas vias consideradas como normais, dentro dos estatutos, a verba em falta passa a figurar num capítulo de incobrável, donde se irá acumular a outras importâncias, de montastes sempre elevados, em geral ligadas a empréstimos de negócios já montados com fins fraudulentos. Esta acumulação colocam este capítulo do balanço num patamar perigoso. O banco chega a estar numa posição de risco por incumprimento das normas. Chega então o momento de pedir -digamos exigir- o apoio dos políticos comprometidos.
O conluio existente entre o capital e os políticos, estejam no poder ou estivessem anteriormente e pretendam voltar ao lugar, lhes augura que devem tratar de colocar estas dívidas gerais, nas que se incluem as dos cidadãos anónimos, de serem "transferidas, a "bem do equilíbrio financeiro e para cumprir as regras das entidades supranacionais" em dívida geral. E, de imediato, subsidiar a banca pelos seus erros (ou nem tanto) de previsão e gestão. Esta manobra implica que todos os cidadãos, tivessem ou não empréstimos não satisfeitos, passaram a ser pagantes da verba geral. Ou seja, todos os incobráveis são agora carregados sobre a totalidade da população.
Quem fica a ganhar e quem a perder? Ganham os bancos, ganham os que não pagaram e se escaparam com as massas, e perdem os cidadãos anónimos.


quarta-feira, 21 de novembro de 2018

MEDITAÇÕES 43 - Pensar antes de agir


PONTOS DE VISTA

No anterior apontamento foquei um tema pontual, que pode ter induzido a que alguns leitores (daquela meia dúzia de sacrificados) não se sentissem motivados. Neste momento, e influenciado por coisas que encontro passeando pela net insisto em me  debruçar sobre assuntos locais, se bem que, a meu entender, devem ser vistos como mais gerais do que localizados. Mas isto depende da visão de cada pessoa.
Antes de entrar em matéria quero deixar um leve alerta acerca de que não podemos ver a actualidade obcecados com a experiência do passado se isto nos tolhe o raciocínio e nos desfasa do que hoje prima e do que se ultrapassou. É evidente que tampouco é  favorável enterrar o passado como sendo um repositório de inutilidades. É pertinente separar o trigo do joio, e aprender recordando. A cultura é cumulativo, mas com um arquivo de accesso fácil.
O progresso científico e tecnológico sempre substituiu funções e objectos. Para melhor? Normalmente é o que se pretende. Então como podemos agir perante actividades que se tornaram obsoletas? Ficam na memória durante uns tempos até que,por chegarem novos abandonos, que progressivamente vão enterrando os anteriores nos estratos do esquecimento. Felizmente há sempre quem tenta manter algumas brasas acesas.
Como exemplo poderíamos recordar que só os grupos de escuteiros, e mesmo assim uma vez por ano, se tanto, é que tentam recuperar a tecnologia de conseguir acender uma fogueira a partir de golpes numa pederneira. Ou que alguém tente sobreviver produzindo, manualmente, talheres de madeira para uso diário. Ou num campo mais tecnológico, produzir cal em fornos verticais aquecidos com lenha e detritos, carregados e descarregados manualmente, como eu vi fazer ainda nos anos '50 e '60 do século passado. Ou saírem a pescar em barcos impulsados manualmente com remos, ou do vento. Ainda existem pescadores que procuram a subsistência com este método, mas a maioria já depende do motor de explosão.

Hoje vi uma notícia, acompanhada de um incitamento para aderir a uma espécie de impugnação para tentar anular o desmantelamento total dos pavilhões da fábrica de cerâmica SECLA nas Caldas da Rainha. Dizem, os descontentes, que se deve conservar, nem que seja parcialmente, e ali instalar uma espécie de museu, que, como sabemos, seria pouco visitado, a não ser que empurrando grupos com visitas guiadas, habitualmente alunos de escolas, aos quais aquilo lhes interessa pouquíssimo, ou nada. As pessoas radicadas nas Caldas da Rainha, e noutros municípios donde a indústria cerâmica deu muitos postos de trabalho e negócios rentáveis são testemunhas directas de como as matérias plásticas por um lado e a concorrência de produtos vindos do oriente, liquidaram, sem dó nem piedade, um sector que foi florescente.
E estas mudanças ou substituições, imparáveis, são recorrentes, numa sequência cada vez mais rápida. Tentar manter "mortos vivos" como numa série da TV é uma atitude votada ao fracasso. Lamentamos ver desaparecer indústrias e hábitos que acompanhamos com agrado durante décadas. Mas também nos caem os dentes e morreremos, infalivelmente. É aconselhável focar os problemas ou situações com pragmatismo e não nos deixar enlevar pelo sentimentalismo.

A poucos quilómetros das Caldas tem-se um exemplo de como a abordagem fantasiosa do passado, da história visível e não da imaginada, pode afogar uma povoação, deixando-a.literalmente às moscas, mas cheia de visitantes com reduzido tempo de permanência , e vergonhosamente cativados com actividades comerciais mono-temáticas e extensivas. Entretanto foi abandonado ou pouco incentivada a visão real e o passado daquele burgo. Os museus, que estão em fase de abandono - muitos dias com as portas fechadas-  sem visitantes, não se adaptaram a sua temática de modo a oferecer o que um forasteiro, de origem longínqua ou de perto, poderia gostar de encontrar, nomeadamente poder apreciar, nem que seja preparado propositadamente, como os cenários de um filme, o que de diferente foi sendo a vida naquele burgo ao longo dos tempos históricos.. 
Festivais temáticos funcionam durante uns dias por ano, mesmo que os substituam por outros através de um calendário intensivo. E depois tornam-se banais, pois são imitados. Mas um grupo de israelitas sei, por experiência directa, procura saber de como.donde e quando, moravam os judeus em aquela terra. Encontram referências na NET, mas nada de concreto lhes é oferecido para justificar a viagem. Quem subir às muralhas e tiver a sorte de não morrer na aventura, pergunta pela evolução histórica daquela várzea e de como a lagoa de Óbidos foi progressivamente assoreando.  Também, em qualquer país que visitarmos, nos é mostrada a evolução da agricultura, o que deixou de se fazer e o que existe na actualidade. 
Circular entre lojas de artigos manufacturados, como num soco marroquino, não dá uma boa imagem a uma povoação que deveria ter orgulho no seu passado e mostrar, a quem não sabe, o que ali aconteceu.Inclusive a história geológica do local onde se instalou a povoação, irmã do Sobral.
Visitar museus antiquados, por iniciativa pessoal, está fora de moda. Tal como ficaram as enciclopédias, que morrem de tédio numa estante. Hoje a evolução tecnológica levou à noção de que tudo aquilo que nos pode incitar a curiosidade está disponível, sem esforço, num teclado e num visor, a cores e com as explicações pertinentes. Portanto é forçoso mostrar aquilo que não se encontra com facilidade.
Quem se preocupa por questões sociais, promocionais ou culturais, deve, em primeiro lugar, situar-se na realidade do momento e, se possível, tentar antever o futuro mais imediato.