O QUE CONTOU O ARQUITECTO TOMÁS TAVEIRA
Li,
com progressivo interesse a transcrição (fiel? não ponho a
mão no lume...) de uma entrevista concedida pelo Arquitecto
Tomás Taveira, que foi figura de capa quando se terminou o
edifício das Amoreiras, incluindo o naquel então,
incomparável centro comercial, Que dizem -eu não frecuento e
por isso não posso opinar- que ainda é um local de culto para
os adeptos destes aglomerados de lojas onde gastar, restauração
e lazer.
É
muito interessate seguir o relato de Taveira e ponderar as suas
afirmações. Recordar que saíram do seu estúdio, além de
dificios privados, alguns dos estádios de futebol que se
ergueram para "colocar Portugal no mapa da FIFA".
Destas obras, fossem de Taveira ou de outros arquitectos,
algumas não conseguem ter um apoveitamento continuado, que
amortize ou justifique o investimento nem a sua manutenção.
Digamos que alguns foram Fífios. Mas destas decisões tomadas
pela influência da mania das grandezas, resultaram construções
que nos fazem pensar na acusação de puxar as mangas
além do comprimento dos braços.
Transparece
que o mercado nacional, em especial naquilo que depende do
governo, não tem tido para Taveira o fluxo de trabalho que o
seu currículo justificaria. As grandes encomendas, quando se
efectivam, lhe vieram de fora. Taveira atribui este alheamento
de novos projectos a que o mercado está saturado de
arquitectos que poucas novidades trazem. Além de que criaram
hábitos diferentes e existem uns poucos profissionais
endeusados. Seja como for a sua orientação deixou de ter
público, e sente-se sem ânimo para tentar abrir novo caminho.
Ao
longo do discurso aparece, em mais de uma ocasião, a
referência que o próprio faz da sua origem social, humilde
mas honeta e trabalhadora. Não esconde as dificuldades que
pesavam sobre a sua família, e relata com algum pormenor o seu
percurso profissional e de estudos, e como atingiu renome
internacinal enquanto que cá dentro sempre sentiu, como é
tradicional, que os poderosos e bem situados na sociedade
portuguesa, o toleraram e aplaudiram, paparam os seus almoços
e o abraçaram com palmadas nas costas enquanto quiseram, e
depois o esqueciam em minutos,
O
jornalista, guardou para o fim o isco com o qual pretendia
abrir uma brecha que já foi sensacionalista. Tentou que caísse
na história dos vídeos eróticos gravados no seu estúdio com
senhoras bem situadas, "da alta sociedade". Não
mordeu, apesar da insistência.do jornalista. Mas, recordando o
episódio, julgo que Taveira quis vingar-se,por interpostas
pessoas -concretamente com as esposas- daqueles que o
desprezaram. Nunca lhe perdoaram a afronta.
De
certa forma, o azedo no esófago que Taveira carrega,
recorda-me, sem ser exactamente igual, o de um político
nacional de primeira linha que, em demasiadas ocasiões,
referia da sua origem popular na tentativa de mostrar como,
apesar de não ter nascido em berço de oiro, conseguiu
alcançar o lugar mais elevado na escala nacional. Tantas vezes
fez referência a que trabalhou com a enxada quando foi
necessário, que com esta atitude só conseguiu cavar, dada vez
mais fundo,o fosso social, absurdo mas incontestável, que o
manteve afastado das pseudo elites nacionais.
|
Neste espaço pretendo colocar relatos de experiência próprias e algumas elucubrações mais ou menos disparatadas.
sexta-feira, 30 de novembro de 2018
MEDITAÇÕES 48 - Comentando uma entrevista
quarta-feira, 28 de novembro de 2018
MEDITAÇÕES - 47 . SER JUIZ EM CAUSA PRÓPRIA
UNS
SÃO BENÉVOLOS E OUTROS DRÁSTICOS
Ontem
vi mais alguns apontamentos sobre a processo interno que a justiça
abriu contra o Juíz Carlos Alexandre, e deduzi que se baseava a ter
referido facetas da sua participação nos inquéritos feitos a um
ex-primeiro ministro -que parece recentemente escolheu residir a
Ericeira, quiçá para dali embarcar para o Brasil, em
auto-exílio- e. pelos vistos, estes descuidos, ou atrevimentos,
por parte de um juiz não se podem aceitar. Dado isto TOMA, QUE É
PARA APRENDERES !
O
facto de que a acção deste Juiz, ao longo de muitos meses, ter sido
valorizada por um enorme sector da população de Portugal como a de
um pioneiro, de primeira linha, na aplicação da justiça sem ceder
a pressões políticas. Mas estas são considerações anímicas que
não pesam nas decisões corporativas., nem alteram a interpretação
das leis que nos deviam governar com rapidez e transparência.
Aquilo
que, pessoalmente, me entristece é o deduzir que o Juíz Carlos
Alexandre, parco em palavras para jornalistas ao longo do processo,
tenha aceite entrar e cair numa ratoeira, que era evidente.
Considero ser este juiz ser pessoa esperta, honesto e cauteloso,
cioso dos seus limites, mas que, desta vez, e sem que se perceba,
engoliu o isco, mais o anzol, a cana e o carreto. Os seus pares,
aqueles que auferem da potestade de zelar pelo rigoroso cumprimento
do livro de conduta dos membros da magistratura, caso optarem por um
caminho de excessivo rigor no formalismo, serão vistos pela
cidadania -ou por uma parte dela- como possivelmente influenciados
pelas pressões políticas de um sector determinado. Temos que
aguardar para ver.
Sem
que esta situação, que me acompanhou quando decidi fechar os olhos
e a mente para dar lugar ao sono reparador, justificasse o que me
consumiu durante horas, entrei num balanço muito crítico das minhas
actuações profissionais e de ordem pessoal. Nem aquelas que
reconheço não foram mal decididas propositadamente. O desleixo ou a
incúria não deixam de ser reprováveis.
Este
“mea culpa” da noite passada, ou se preferir um julgamento
interno, nem sequer foi original, pois que tem acompanhado ao longo
de anos. O mais penoso destas meditações é que só me acuso e não
apresento a mais mínima desculpa ou justificação para os erros
que, vistos ao longe no espaço temporal, carrego, figurativamente,
sobre as costas. As depressões que fatalmente induzem estas
memórias, deixa-me arrasado e sem forças para dormir e esquecer.
Por
vezes recuo para os anos da primeira infância em que me diziam ter,
ao meu lado, um diabrete, maligno como pertence, e no outro um anjo
da guarda protector. Ao ter optado pelo ateísmo militante deixei de
usufruir do advogado de defesa pessoal. Daí as insónias
irremediáveis, pois, como sabemos, nunca poderemos recuar
factualmente no tempo e agir sobre acções que já ultrapassaram a
fase em que seria possível corrigir. Ficam só os remorsos e
auto-críticas, sem poder para neutralizar ou alterar o mal feito.
segunda-feira, 26 de novembro de 2018
MEDITAÇÕES . 46 - SOBRE A PROTECÇÃO CIVIL
Um erro que já devia ter sido corrigido
Já são demasiadas as vezes em que confrontados com acidentes ou catástrofes localizadas, os serviços de Protecção Civil tem mostrado uma inépcia vergonhosa. A sua capacidade de reacção é muito limitada e fica a impressão de que só servem para situar alguns escolhidos, darem-lhes um espaço, nem que seja um gabinete modesto, mais uma viatura para se passear e umas fardetas para se exibir. E todo este aparato está sob a alçada das Câmaras Municipais respectivas.
Quando as castanhas estão no lume e á falta de meios capazes, os "dirigentes" da dita Protecção Civil, possivelmente empurrados pelo Presidente da Câmara, passam a bola aos bombeiros voluntários, ou semi-profissionais, daquela corporação local que o falecido e saudoso Raúl Solnado, apelidava de A Bombeiral da Moda. Mas quanto a autoridade efectiva, as corporações de soldados da paz, mesmo que enquadrados em organizações de fingida estrutura militarizada, são colocados em segundo plano pois que o Corpo da Guarda nacional republicana é o que, de facto, nas áreas mais provincianas, tem o comando das operações.Pelo menos é assim que eu vejo esta acção de efectiva protecção às populações. Posso estar enganado. e não me envergonho, pois sucede-me com demasiada frequência.
Mas indo ao tema em questão, creio que caso se efectua-se uma consulta geral à população - Aquilo que se denomina de referendar.- e se perguntasse se a cidadania se sentiria mais apoiada se entregassem esta responsabilidade, directamente e sem fintas, á GNR, o resultado da contagem não deixaria dúvidas da pouca confiança que os cidadãos atribuem à tal "Protecção Civil", pelo menos se funcionar, como tem sido até agora, como um departamento dependente da Câmara Municipal. E as razões profundas para esta descrença de efectividade e isenção estão nos critérios, nada gerais e isentos, com que os serviços camarários deixam cometer fechando os olhos, ou mesmo autorizam com excesso de bonomia, infracções que contêm graves riscos para a vida segura dos cidadãos de sua qualidade "anónimos".
Existe um grave exemplo a referir e que, incompreensivelmente, tem sido esquecido, creio que de propósito, acontecido em Lisboa quando do incêndio do Chiado. O autarca, que por sinal tinha o canudo de engenheiro..., autorizou ou mesmo promoveu a instalação de ilhas com explanadas e grandes vasos com plantas na Rua do Carmo. Quando já o incêndio em actividade, quando as viaturas enviadas para o atacar chegaram a esta artéria, encontraram o accesso ao local barrado por aquela simpática e alegre instalação.
Como é tradição de imediato se aplicou a receita de "Após a casa roubada, trancas à porta". Desta vez a imagem deveria referir, mais propriamente, que se tiraram as trancas logo antes de retirar as cinzas da catástrofe, que poderia ter sido muito maior e felizmente, ficou circunscrita. Mas a sabedoria popular também nos diz que "Ninguém aprende nas costas alheias". Daí que não nos admira que centros urbanos, atulhados de comércio nas ruas, tenham tanta relutância em obrigar a desimpedir a circulação de viaturas, que nem sequer se podem considerar em exclusividade as ambulâncias e os bombeiros.
Esta permissão, indesculpável, só se conteve pelo facto de que as Câmaras Invocam o ser de sua total e absoluta autoridade o que permitem nas suas ruas. E então perguntamos. O QUE OPINA A TAL AUTORIDADE (?) DE PROTECÇÃO CIVIL?. Apostaria em que se fosse a estrutura militar da GNR a decidir, as ruas estariam SEMPRE, desimpedidas.
domingo, 25 de novembro de 2018
MEDITAÇÕES 45 - Procuram-se responsáveis
BORBA
E O PRIMEIRO MINISTRO
Se
existe uma situação comum a muitos sucessos mediáticos
que,infelizmente,comportam a perda de vidas humanas, concretamente de
cidadãos que nada fizeram que justificasse o seu desfecho,é que a
maior parte dos cidadãos que recebem a notícia, começando pelos
comentadores,só fixam aquela situação concreta, e em consequência
rapidamente apontam a um responsável, seja ele directo ou no topo da
escala de responsabilidades.
No
caso de Borba,conhecendo só aquilo que nos é apresentado nos
noticiários, poderíamos atribuir responsabilidades desde o dono da
pedreira, ou seu arrendatário e explorador, que podem ser uma só
pessoa, a seguir o técnico diplomado que assinava o termo de
responsabilidade, mais os inspectores que depois de emitirem o seu
parecer e o dirigiram para os serviços competentes,lavaram daí as
suas mãos. A cadeia de não intervenientes que, pela sua convivência
tácita deveriam ser acusados e julgados,deveria ser bastante longa.
Mas
como este, e outros temas parecidos, entra no campo da política, o
que causa um maior impacto mediático é atirar a responsabilidade à
máxima autoridade governamental do momento. E, como sempre,
obviamente ao Primeiro Ministro, que tal como o capitão de uma
nave,é o responsável supremo, mesmo que o assunto jamais lhe tenha
sido referido nem tivesse tido alguma acção directa.Em casos de
importância social e humana quase equivalentes ao que aconteceu em
Borba, é usual tentar serenar as águas com a demissão do ministro
que estivesse, estatutariamente, mais directamente ligado ao sucesso.
Borba
foi utilizado de imediato,pelos partidos actualmente na oposição,
como uma bomba de grande potência, baseando-se não só pela
conhecida, e repetida, táctica do actual primeiro ministro em
sacudir a água do seu capote, como por se desviar, fisicamente e
politicamente, da primeira linha nas situações embaraçosas.
Podemos dizer que, de facto, tem mostrado uma fixação notável para
conseguir e manter o seu lugar.poder. Todo o seu consulado tem
sido um espectáculo de malabarismo digno de uma afamada companhia
circense. Não se lhe pode negar a capacidade de manobra. Pelo menos
até o dia em que os objectos com que manobra caiam ao chão.
Não
desculpo a responsabilidade do P.M., nem tampouco de todos aqueles
que,por incúria ou outro género de razões, consentiram naquela
exploração perigosa. O que não obsta a que, a meu entender,
devemos recordar outros acontecimentos tristes, alguns com perdas de
vidas, que aconteceram estando outras personalidades no governo e
que, com mais ou menos fintas e habilidades terminaram engolidas pelo
tempo, após anos de inquéritos e até de processos em tribunal, sem
que jamais alguém, concreto, tivesse sido "levado ao
cadafalso".
Se
António Costa já deveria ter saído, pelo seu próprio pé, quando
o escândalo dos incêndios e incendiários, desde o Pinhal de Leiria
até as serras de Pedrogão e meses depois na Serra do Caldeirão,
foi por se aproveitar da romaria de beijos e de abraços do
presidente da República, que junto com promessas difíceis de
satisfazer, lhe permitiram distanciar-se assobiando como alguém que
nada tinha que ver com o tema. Para sua defesa existem precedentes
de calibre semelhante acontecidos sendo outros os cabeças de
cartaz.
Com
pormenores diferentes, os governantes que tem ocupado o trono,
simbólico mas efectivo, mais os seus sequazes, tem dado mostras de
nada se importarem com o julgamento mental da população. Para eles
vale, como um escrito lapidar, o conceito de que o povo é sereno.
Que traduzido em linguagem vulgar, a população engole tudo a troco
de quase nada.
quinta-feira, 22 de novembro de 2018
MEDITAÇÕES - 44 A roda da fortuna
NÃO HÁ DINHEIRO NOS BOLSOS
Quando
uma pessoa se depara com uma despesa inesperada, a qual não pode
atender de imediato com os seus recursos, nem com ajudas
desinteressadas de familiares directos, o caminho que lhe fica
disponível é o de pedir um empréstimo dando como penhora um bem
móvel ou imóvel de que é proprietário. Ao se embarcar neste
esquema sabe que o empréstimo implica o pagamento de juros, e que a
prudência aconselha a poder abater este empréstimo quanto antes
através de uma entrada de capital que lhe ofereça uma garantia de
ser factível.
Isso
seria o esquema mais aceitável, dentro do problema que ,por
princípio, todos tentamos evitar. Mas o famoso "mercado"
nos incita a gastar mais do que aquilo que normalmente dispomos, e
para possibilitar esta ânsia de consumir, surgiu a táctica,
simpática e facilitadora, de oferecer crédito bancário imediato
através de um contrato que se assina.Nos entregam um cartão que
abre portas no momento de pagar ao fornecedor. Simplesmente, esta
modernice não passa de ser um disfarce, bem montado e apresentado
com requinte, da agiotagem das casas de penhores. É a versão actual
da serpente que ofereceu o fruto da árvore da sabedoria à Eva.
Simplesmente o casal inicial (da mitologia tradicional) não tinha
uma casa para deixar como penhora. Só tinha a sua liberdade para
perder. E perdeu, pois que não só não há almoços gratuitos como
nem sequer a fruta se oferecia sem um castigo oculto.
O
esquema é muito elaborado, pois que na falta de cumprimento no
pagamento da dívida, tão extensiva na sociedade e sob tantos
argumentos de incitação, o moderno agiota -leia-se o banco- toma a
posse do bem deixado como garantia e procede a uma tentativa de o
vender no mercado livre. Caso esta anulação de empréstimo não se
consiga pelas vias consideradas como normais, dentro dos estatutos, a
verba em falta passa a figurar num capítulo de incobrável, donde se
irá acumular a outras importâncias, de montastes sempre elevados,
em geral ligadas a empréstimos de negócios já montados com fins
fraudulentos. Esta acumulação colocam este capítulo do balanço
num patamar perigoso. O banco chega a estar numa posição de risco
por incumprimento das normas. Chega então o momento de pedir -digamos
exigir- o apoio dos políticos comprometidos.
O
conluio existente entre o capital e os políticos, estejam no poder ou
estivessem anteriormente e pretendam voltar ao lugar, lhes augura que
devem tratar de colocar estas dívidas gerais, nas que se incluem as
dos cidadãos anónimos, de serem "transferidas, a "bem do
equilíbrio financeiro e para cumprir as regras das entidades
supranacionais" em dívida geral. E, de imediato, subsidiar a
banca pelos seus erros (ou nem tanto) de previsão e gestão.
Esta manobra implica que todos os cidadãos, tivessem ou não
empréstimos não satisfeitos, passaram a ser pagantes da verba
geral. Ou seja, todos os incobráveis são agora carregados sobre a
totalidade da população.
Quem
fica a ganhar e quem a perder? Ganham os bancos, ganham os que não
pagaram e se escaparam com as massas, e perdem os cidadãos anónimos.
quarta-feira, 21 de novembro de 2018
MEDITAÇÕES 43 - Pensar antes de agir
PONTOS DE VISTA
No
anterior apontamento foquei um tema pontual, que pode ter induzido a
que alguns leitores (daquela meia dúzia de sacrificados) não se
sentissem motivados. Neste momento, e influenciado por coisas que
encontro passeando pela net insisto em me debruçar sobre
assuntos locais, se bem que, a meu entender, devem ser vistos como
mais gerais do que localizados. Mas isto depende da visão de cada
pessoa.
Antes
de entrar
em matéria quero
deixar um leve alerta acerca de que não podemos ver a actualidade
obcecados com a experiência do passado se isto nos tolhe o
raciocínio e nos desfasa do que hoje prima e do que se ultrapassou.
É evidente que tampouco é favorável enterrar
o passado como
sendo um repositório de inutilidades. É pertinente separar o trigo
do joio, e aprender recordando. A cultura é cumulativo, mas com um
arquivo de accesso fácil.
O
progresso científico e tecnológico sempre substituiu funções e
objectos. Para melhor? Normalmente é o que se pretende. Então como
podemos agir perante actividades que se tornaram obsoletas? Ficam na
memória durante uns tempos até que,por chegarem novos abandonos,
que progressivamente vão enterrando os anteriores nos estratos do
esquecimento. Felizmente há sempre quem tenta manter algumas brasas
acesas.
Como
exemplo poderíamos recordar que só os grupos de escuteiros, e
mesmo assim uma vez por ano, se tanto, é que tentam recuperar a
tecnologia de conseguir acender uma fogueira a partir de golpes numa
pederneira. Ou que alguém tente sobreviver produzindo, manualmente,
talheres de madeira para uso diário. Ou num campo mais tecnológico,
produzir cal em fornos verticais aquecidos com lenha e detritos,
carregados e descarregados manualmente, como eu vi fazer ainda nos
anos '50 e '60 do século passado. Ou saírem a pescar em barcos
impulsados manualmente com remos, ou do vento. Ainda existem
pescadores que procuram a subsistência com este método, mas a
maioria já depende do motor de explosão.
Hoje
vi uma notícia, acompanhada de um incitamento para aderir a uma
espécie de impugnação para tentar anular o desmantelamento total
dos pavilhões da fábrica de cerâmica
SECLA nas Caldas da Rainha.
Dizem, os descontentes, que se deve conservar, nem que seja
parcialmente, e ali instalar uma espécie de museu, que, como
sabemos, seria pouco visitado, a não ser que empurrando grupos com
visitas guiadas, habitualmente alunos de escolas, aos quais aquilo
lhes interessa pouquíssimo, ou nada. As pessoas radicadas nas
Caldas da Rainha, e noutros municípios donde a indústria cerâmica
deu muitos postos de trabalho e negócios rentáveis são
testemunhas directas de como as matérias plásticas por um lado e a
concorrência de produtos vindos do oriente, liquidaram, sem dó nem
piedade, um sector que foi florescente.
E
estas mudanças ou substituições, imparáveis, são recorrentes,
numa sequência cada vez mais rápida. Tentar manter "mortos
vivos" como numa série da TV é uma atitude votada ao
fracasso. Lamentamos ver desaparecer indústrias e hábitos que
acompanhamos com agrado durante décadas. Mas também nos caem os
dentes e morreremos, infalivelmente. É aconselhável focar os
problemas ou situações com pragmatismo e não nos deixar enlevar
pelo sentimentalismo.
A
poucos quilómetros das Caldas tem-se um exemplo de como a abordagem
fantasiosa do passado, da história visível e não da imaginada,
pode afogar uma povoação, deixando-a.literalmente às moscas, mas
cheia de visitantes com reduzido tempo de permanência , e
vergonhosamente cativados com actividades comerciais mono-temáticas
e extensivas. Entretanto foi abandonado ou pouco incentivada a visão
real e o passado daquele burgo. Os museus, que estão em fase de
abandono - muitos dias com as portas fechadas- sem visitantes,
não se adaptaram a sua temática de modo a oferecer o que um
forasteiro, de origem longínqua ou de perto, poderia gostar de
encontrar, nomeadamente poder apreciar, nem que seja preparado
propositadamente, como os cenários de um filme, o que de diferente
foi sendo a vida naquele burgo ao longo dos tempos históricos..
Festivais
temáticos
funcionam durante uns dias por ano, mesmo que os substituam por
outros através de um calendário intensivo. E depois tornam-se
banais, pois são imitados. Mas um grupo de israelitas sei, por
experiência directa, procura saber de como.donde e quando, moravam
os judeus em aquela terra. Encontram referências na NET, mas nada
de concreto lhes é oferecido para justificar a viagem. Quem subir
às muralhas e tiver a sorte de não morrer na aventura, pergunta
pela evolução histórica daquela várzea e de como a lagoa de
Óbidos foi progressivamente assoreando. Também, em qualquer
país que visitarmos, nos é mostrada a evolução da agricultura, o
que deixou de se fazer e o que existe na actualidade.
Circular
entre lojas
de artigos manufacturados,
como num soco marroquino, não dá uma boa imagem a uma povoação
que deveria ter orgulho no seu passado e mostrar, a quem não sabe,
o que ali aconteceu.Inclusive a história geológica do local onde
se instalou a povoação, irmã do Sobral.
Visitar
museus antiquados, por iniciativa pessoal, está fora de moda. Tal
como ficaram as enciclopédias, que morrem de tédio numa estante.
Hoje a evolução tecnológica levou à noção de que tudo aquilo
que nos pode incitar a curiosidade está disponível, sem esforço,
num teclado e num visor, a cores e com as explicações pertinentes.
Portanto é forçoso mostrar aquilo que não se encontra com
facilidade.
Quem
se preocupa por questões sociais, promocionais ou culturais, deve,
em primeiro lugar, situar-se na realidade do momento e, se possível,
tentar antever o futuro mais imediato.
terça-feira, 20 de novembro de 2018
MEDITAÇÕES . 42 Evitar miragens
PRAGMATISMO
A
minha noção pessoal de pragmatismo é a de procurar, sempre se
possível, ver os assuntos pelo seu lado real, seja positivo ou
negativo. É evidente que a maioria das pessoas comporta-se, sem ser
propositadamente, no sentido de procurar seguir o caminho que mais
lhes agrada, sem se preocuparem acerca de se esta solução é
factível ou, pelo contrário, penosa para os seus interesses.
Esta
meditação surgiu por dois motivos. O primeiro resultou de ter lido
umas declarações atribuídas ao ex-Presidente da República,
general Ramalho Eanes. Escreveram que ele disse que, a seu entender,
a cidadania portuguesa e por extensão a do mundo ocidental, atingiu
um estado de apatia tal que não se rebela contra os abusos que, em
seu nome, fazem aqueles que elegeram para os representar e comandar.
Os qualifica de excessivamente obedientes, ou mais concretamente,
como indiferentes como não era habitual entre as populações,
fossem livres ou oprimidas.
Meditando
sobre esta análise eu discordo de um comportamento
canino generalizado
por parte dos cidadãos anónimos. Não me parece que as pessoas ajam
como fieis cães domésticos. A meu entender o que nos pode definir
ajusta-se melhor aos gatos domésticos, que sabemos serem amáveis e
dados a carinhos quando lhes apetece, mas são intrinsecamente
egoístas, interesseiros e selectivos.
O
segundo motivo surgiu, nesta mente desvairada,sem ter uma ligação
directa ao que escrevi nas linhas anteriores surgiu-me, nesta mente
desvairada. Um assunto que é só mais um daqueles que reiteradamente
aparece nas preocupações citadinas, e não só, e que cabe dentro
da longa lista de consequências funestas ocasionadas pela insistente
vocação em querer viver
acima das possibilidades.
Os
governantes, para satisfazer interesses de quem por um lado lhes pode
ter facilitado subir ao poleiro e também de dar alguma atenção
aos que os podem derrubar, comprometem-se a investimentos que, ao
nível das capacidades do país, são faraónicos, e difíceis de
digerir. Além das concessões económicas que não se coadunam com
as entradas de capital.
Um
dos assuntos importantes, pelo reflexo que tem para o cidadão
anónimo, é o desmantelamento
da antiga CP
e o consequente congelamento do investimento em melhoras nas linhas
férreas e, perigosamente no desleixo com o material de tracção
e circulante. Quando, para dar lugar a muitos parasitas políticos se
desdobrou a CP numa série de empresas "independentes",
afirmando, com falsidade premeditada -ou total ignorância e
ineptidão-, que tal decisão lhe daria uma gestão mais moderna e
equilibrada, deram a sentença de morte ao transito ferroviário,
tanto de pessoas como de mercadorias. A rede em serviço é muito
inferior à que encontrou Salazar quando lhe deram o poder.
E,
como resultado da pretensão de modernizar as comunicações, com
dinheiro oferecido ou a baixo custo, não só se melhorou, um pouco,
a rede viária existente como, principalmente, se entrou numa
vertigem de construção
de auto-estradas.
A febre de proporcionar negócio às empresas de construção e a
inevitável atracção das grandes urbes para conseguir emprego à
mão de obra "excedentária" do campo, geraram um círculo,
cada vez maior, de subúrbios
urbanos,
cujos habitantes entraram no conhecido fluxo e refluxo entre a
residência e o trabalho. Noutros países, não ibéricos, esta
deslocalização pendular se resolveu com a conjugação de
transportes colectivos com ligação à rede ferroviária. Aqui
falha-se em todos os capítulos.
Mas
o problema da ferrovia é mais grave: As despesas e decisões mal
pensadas, ou tomadas para favorecer interesses privados, conduziram à
obsolescência
do material ferroviário:
Falta tracção e faltam carruagens. E desmantelou-se a oficina que
fabricava este tipo de material. Dizem que tratarão de alugar o que
falta à vizinha RENFE espanhola. Mas eles tampouco tem excedência
de material; só trastes velhos!
As
linhas suburbanas estão a braços com falta de material e deficiente
manutenção. Há longas filas de equipamento parado em linhas
mortas, porque não sabem como o reparar. Não encontram peças
sobresselentes nem pessoal habilitado! É fatal que um dia, quando
menos se espere (nunca se espera) podemos ter um desastre com muitos
mortos numa hora-de-ponta. O Presidente da República terá mais uma
oportunidade de dar carinhos, beijinhos e fotos a granel. Vão nomear
uma comissão de inquérito (mais uma) que depois de muito paleio e
anos de espera não dará culpados, porque estes seriam,
forçosamente, os governantes que destruíram a ferrovia. E estes são
intocáveis na orgânica vigente.
E
depois surgem grupos de "líricos", (sem ânimo de ofender)
que se manifestam para exigir (sem noção da realidade) a
recuperação de traçados inoperantes. Não há dinheiro, nem sequer
para alimentar os sangue-sugas, em número sempre crescente, quanto
mais em actualizar traçados que foram executados há mais de cem
anos. Em algumas linhas, das que pretendiam modernizar a província,
inclusive já desapareceram os carris!, vendidos como sucata. Muitas
estações e apeadeiros estão desactivados, abandonados, aos ratos e
desfazendo-se de podres. Como se pode pensar em renascer a ferrovia
sem material, sem dinheiro e sem pessoal capaz de gerir um País?
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