JÁ CHEGAMOS
Obrigado a todos os que me ignoram. Já chegamos ao zero absoluto, onde o frio é tanto que não é possível sobreviver.
Neste espaço pretendo colocar relatos de experiência próprias e algumas elucubrações mais ou menos disparatadas.
domingo, 7 de outubro de 2018
terça-feira, 2 de outubro de 2018
IN ILLO TEMPORE - 3
I
Estive
presente no casamento dos meus pais
Um
colega de curso, queficou como amigo até hoje, sempre se mostru
possuidor de um humor bastante pessoal. Tal como acontece com os bem
dispostos não profissionais, repetia as mesmas piadas vezes sem
conta. E uma delas era a de afirmar que aquilo que recordava de mais
inicial da sua vida foi o ter ido comos seus pais a uma merenda
campestre. O que ficou na memória era o facto de ter ido com o pai e
voltado com a mãe.
segunda-feira, 1 de outubro de 2018
IN ILLO TEMPORE – 2
Esquecer
o passado
Existem
grandes verdades, pensamentos profundos, no meio dos ditados
populares, ou rifões. Não faço ideia de se as novas gerações
ainda entrarm neste campo da cultura, por arrastamento do que ouvem
dizer no seio da família. Mas tenho as minhas dúvidas de que tal
aconteça. Esta impressão deve-se por ver como, desde muito
crianças, mantem-se totalmente alheadas do que as envolve, e mesmo
quando estando num grupo, cada um só tem olhos para o pequeno visor
que o traz enfeitiçado. Ja vi uma
quase bebé, de chucha, que se entretinha dedilhando e esfregando um
telemóvel! muito antes de saber falar e de poder entender cabalmente
uma conversa de adulto.
O
parágrafo anterior surgiu com o propósito de servir de introito ao
que um ditado popular, dos bons, nos avisa, sempre e tanto que o
interpretarmos pelo conteúdo abrangente e não só pelo que a frase
em si nos diz. O ditado é o seguinte: Cada
qual diz da feira consoante lhe vai nela.
Traspondo
da situação pontual de uma feira para a vida é fácil entender as
razões, ou despropósitos, que levam a que os membros das sucessivas
gerações não desejem ouvir das agruras porque podem ter passado os
seus antecessores. Do passado dos outros, mesmo sendo tão chegados
como os seu proprios pais, só lhes agradam as boas lembranças, as
agradáveis, aquelas que se podem valorizar como os programas das
televisões generalistas. E a realidade nos diz que por cada vivência
engraçada, agradável, se o percurso do familiar incluiu tempos
magros, tristes, com dificuldades, serão estas situações as que
com mais frequência serão recordadas, especialmente quando a idade
avançou e se entra na velhice.
Uma
referência conhecida é a de que aqueles que estiveram em frentes de
combate, que dispararam a matar e sofreram fogo do inimigo, que viram
companheiros mortos ou mutilados, raramente estão dispostos a falar
destas vivências. Não só porque estas recordações são pesadas,
tristes e trazem traumas para a flor da pele quando ele as preferia
manter quase que esquecidas, mas que infelizmente as traz sempre
presentes, mas porque sente que os ouvintes, sendo de outra geração,
não lhe dão a importãncia que merecem. Obviamente não as podem
sentir, dado que não as viveram. Pior, preferem não as ouvir ou, em
contraponto, só os sádicos é que prestam atenção, uma atenção
que o relator não aprecia.
Possivelmente
para conseguir que um descendente se interesse, interiormente, pelas
vivências penosas dos seus pais seria necessário que estes, fosse
com premeditação ou por não conseguir tirar da sua mente sucessos
muito anteriores, tenham martelado os ouvidos dos filhos com uma
insistência que tornasse impossível manter os ouvidos moucos. O
mais normal é que os filhos rejeitem entrar, entender, valorizar, as
situações penosas porque passaram os seus progenitores. Para eles,
os da actualidade, o pertinente será atender a outro anexim: Burro
morto, cevada ao rabo.
Ou Passada a festa,
esquece o santo.
domingo, 30 de setembro de 2018
IN ILLO TEMPORE - 1
Introdução
Depois
de tanto ler e atingir o risco de ficar com a mioleira saturada, ou
feita em papas de aveia, como aconteceu a Alfonso Quijano, também
conhecido como Don Quijote, ainda cheguei a tempo de deduzir que, no
fim de contas, cada um de nós, passamos por uma série de capítulos,
viscisitudes ou experiências, que davam pano para escrever um destes
romances de aeroporto que, para conseguir um volume e peso que
justifique o preço que está na capa, enchem à volta de 500
páginas. Das quais habitualmente um 10 %, pelo menos, estão em
branco e o resto quase que só mostram palha, palavreado sem
préstimo, que se poderia dispensar, riscar, e assim deixar o texto
em cerca de cem paginas, se tanto.
A
minha vaidade pessoal, ou aquilo que se chama de ego, não atinge um
nível tão elevado que me incite para avançar direitamente ao
suicídio, já que entendo que não poderia sobreviver a uma
tentativa de escrever uma obra prima-segunda ou ainda mais afastada.
Mesmo assim recolhí, mentalmente alguns acontecimentos, vividos
pessoalmente ou apanhados de fontes merecedoras de crédito e
respeito, que colocados numa sequência intemporal são capazes de
constituir um passatempo sofrível.
sábado, 29 de setembro de 2018
MEDITAÇÕES – 20
QUEM APOSTA ?
Dada
a evolução recente nos quadros superiores da Justiça em Portugal,
e dando fé ao pouco que conheço pessoalmente deste tema, embora o
suficiênte para verificar que não bastam sentenças favoráveis ao
demandante, uma vez que as possibilidades de colocar paus nas rodas
são muitas e permitem protelar o cumprimento do estipulado pelos
juízes até uma data indefinida, que julgo pode estar perto de
coincidir com o aparecimento de dentes nas galinhas, não me atrevo
a prever como marcharão os processos mais mediáticos após estas
mudanças. Mais correctamente: imagino o pior.
Já
vi opiniões, identificadas, que nada de bom prenunciam. E outros que
não escondem a satisfacção, prevendo que raros serão os
indiciados para comparecer a julgamento, que muitos capítulos serão
considerados prontos para arquivamento, e que o cidadão normal, o
inerme, o que não atingiu o estatuto de intocável, ficará com um
desânimo total, após de ter criado uma ilusão, pelos vistos
totalmente utópica, de que desta vez as coisas não ficariam
penduradas, como tem sido habitual.
Não
me admiraria que aqueles, poucos, que já tiveram periodos de prisão
efectiva venham a receber chorudas indemnizações do Estado (pagas
por todos os já citados cidadãos comuns). Outros, para
disfarçar esta prevista lavagem de culpas, podem ser “castigados”
com multas simbólicas e penas suspensas in eternum.
Reconheço
que as minhas tentativas de criar um diálogo, escrito, com algum
leitor já mostraram, fartamente pela ausência de respostas (um
fartar que se assemelha mais a uma greve de fome) prenuncia que
também desta feita, não terei seguidores. Já estou habituado.
sexta-feira, 28 de setembro de 2018
MEDITAÇÕES - 19
AS MUDANÇAS SÃO INEVITÁVEIS
Cada
dia que chega é mais uma pedra que se solta da calçada. Ou, se
preferirem, o que encontramos à nossa volta, seja no mundo restrito
em que nos movemos, fingindo que tudo está na mesma desde os dias em
que começamos a reparar, e esquecer, criando uma falsa noção da
sociedade actual para assim tentar convencer-nos de que, pouco mais
ou menos, a vida segue os mesmos padrões, não corresponde a uma
estrutura sólida, duradoira.
Recordo,
sem saudade, o dia em que estando de plantão num barraco de Feira,
procurando comercializar as bagatelas que ia criando e fabricando,
após a reviravolta que dei ao meu percurso profissional em função
do desencontro entre a minha forma de ser, de imaginar que as camadas
sociais deviam conviver num ambiente essêncialmente humanista -seja
qual for a forma como se entender este termo- em oposição à
conduta cínica, desrespeitadora dos outros e em essência
exploradora que os que estão no topo, mesmo que originários de um
patamar socialmente já afastado, adoptam sem pejo e com propósitos
de ataque-defesa.
De
improviso vi à frente, mas do lado oposto do balcão, um antigo
colega de curso. Este, que sempre foi pessoa faladora e interessante,
em vez de fingir que não me reconhecia, entrou numa conversa
aparentemente despretensiosa -a minha experiência me alertava
para o sempre existente sentimento de repúdio e desprezo; como se eu
fosse um padre que abandonasse o sacerdócio em opção para uma vida
civil sem restricções. Dado que a minha situação era
evidente, perguntei pelo seu percurso.
Respondeu-me,
muito ufano, dizendo que estava integrado na equipa de uma
Multinacional americana, produtora de uma larga gama de artigos de
consumo. Ele, concretamente, estava dedicado a comprar pequenas
fábricas de artigos concorrentes, em condições atractivas, pelo
menos no programa de absorção. Iriam manter a produção, o pessoal
empregado e até as marcas dos produtos. Muito bonito. Mas o programa
oculto implicava que esta fase de”casamento inter pares” durasse
pouco tempo. A estrategia era a de fazer perder os clientes da casa
recém integrada, e seguidamente, num processo que normalmente não
chegava a doze meses, a velha competidora e os seus funcionários
eram dispensados. Desaparecia do mapa. E, neste processo já
conseguira bons resultados. Estava satisfeito.
E
estás mesmo contente com o teu proceder? De ser o carrasco por conta
de uns capitalstas que nem sequer conheces? Ainda bem que levas o
progresso com tanta convicção e que a desgraça alheia não te
afecta. Eu continuo como ceramista e artesão. E durmo descansado,
sem pesos na consciência. E sinto que tu também nada te afecta.
Felizes os dois.
Agarrando
esta vivência pessoal e fazendo uma conexão com o que vemos nas
ruas por donde circulamos, sentimos que não nos admira tanto quanto
deveria o ver como, constantemente, encerram estabelecimentos com
porta para a rua, onde adquiriamos artigos de uso corrente e eramos
atendidos por pessoas que já eram nossos conhecidos, que
cumprimentavamos se coincidissemos num outro local. Na sequência dos
factos muitos destes estabelecimentos permanecem fechados, com
taipais, ou mudaram de ramo. A maior parte das vezes foram incluídos
no sector da restauração e bebidas, ou de agênccias funerárias!
Aquilo que não sentimos é que na fase anterior ali existia o
sustento de uma família e também a convivência biunívoca entre
clientes e lojistas. Estes inclusive podia ser inquiridos a fim de
orientarem sobre outro estabelecimento, até concorrente. E sempre se
era atendido com bons modos. Hoje a maioria dos empregados das lojas
de cadeias não chegam a estar no serviço o tempo necessário para
criar um abiente de confiança e diálogo com o cliente. Tudo está
num processo acelerado de despersonalização e sem garantias de
seriedade tanto para o cliente como para o empregado, habitualmente
com contratos a prazo e mal pagos.
terça-feira, 25 de setembro de 2018
MEDITAÇÕES .- 18
Caí da cama
MAS NÃO PERDI O FIO DO SONHO
MAS NÃO PERDI O FIO DO SONHO
Estava
imerso num sonho que misturava recordações com a colheta do dia e,
repentinamente, lembro que devido a uma brusquidão no eléctrico em
que viajava, dei de caras no chão. O chão era, precisamente, o
espaço que exsite entre “o meu lado no tálamo conjugal” e a
parede (não aquela Parede que linda com o empreendimento
urbanístico de Carcavelos e que “servirá de apoio” residencial
aos docentes e discentes, e até pode ser que de alguns membros da
equipa técnica, que estiverem igados à Universidade da Linha, em
estado muito adiantado de instalação).
Ao
que íamos: Estava eu viajando no eléctrico da Carris e comigo se
encontrava, o já defunto estimado colega E.Q. Também recordo outro
passajeiro que nos interpelou apontando um letreiro que recomendava
que não deixassem o lugar sentado e fossem para a coxia antes do
veículo estar parado. Devem ter copiado este aviso das lenga-lengas
habituais dos tripulantes dos aviões comerciais. Este cidadão,
exemplar, era um rapazinho, bastante encorpado, digamos redondinho,
que aparecia em diversas cenas deste sonho, mas que não sei qual era
o seu papel nem quem o tinha contratado.
Aquilo
que me incitou (segundo creio) a que recordasse diferentes “quadros”
deste sonho deve ter sido o lembrar, com saudade, (o que nem sempre
acontece) o convívio com E.Q., enquanto e depois do periodo
académico. A sua imagem, que permaneceu até hoje, era muito
diferente da que a restante equipa de colegas deixava. Uma equipa em
mutação periódica, na que entravam novas caras e desapareciam
outras.
E.Q.
Tinha em si características incomuns naquele grupo. Para já era
mais velho, muito mais experiente na vida real, no mundo do trabalho
remunerado, uma altura que destacava e a capacidade de esconder um
espírito alegre e jocoso atrás de uma cara-de-pau. Não sei
explicar as razões que me levaram a pender para ser seu amigo, e até
sentir alguma reciprocidade. Ou, sendo mais correcto, não quero
deixar aqui alguns detalhes que podem justificar esta aproximação.
Deixarei como factor importante que era a sua personalidade, fora das
regras existentes naquele grupo, que a meu entender o elevava.
Como
certamente acontece com todos os humanos, e humanas (caso
existisse esta denominação para as nossas queridas companheiras do
planeta) tampouco E.Q., escapou incólume das múltiplas
ratoeiras que a vida nos apresenta. Teve os seus momentos, bons, maus
e assim-assim. Eram dele, e de quem conviveu com ele nas ocasiões
concretas. O facto de conhecer alguns items da sua vida pessoal só
me pode orgulhar pela sua confiança, mas não me autoriza a os
tornar públicos.
Só
um breve recordatório, de uma das últimas conversas que mantivemos.
Ao comentar que estava mais do que reformado, dada a idade que devia
constar no seu B.I., ou agora do C.C., perguntei-lhe como distribuia
o seu tempo e afezeres, caso os tivesse, nesta fase de não
trabalhar. Respondeu-me que eu estava, mais uma vez, errado. Ele
tinha emprego. Depois de acordar, arranjar-se, incluído o calçado,
dirigia-se directamente para o seu local de trabalho. Onde?
Perguntei. No centro de idosos da freguesia. Ali convivo com os que
ainda falam e dizem coisas coerentes, leio o jornal, almoço e, se
encontrar um parceiro idóneo, fazer umas partidas de damas, xadrez
ou de cartas, sem dinheiro nem feijões. Era este o seu emprego
depois de fora de serviço.
Como
as composições de comboio vergonhosamente arrumadas nas linhas
mortas entre Oeiras e Carcavelos, aguardando o serem enviadas para a
sucata.
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