terça-feira, 2 de outubro de 2018

IN ILLO TEMPORE - 3


I
Estive presente no casamento dos meus pais

Um colega de curso, queficou como amigo até hoje, sempre se mostru possuidor de um humor bastante pessoal. Tal como acontece com os bem dispostos não profissionais, repetia as mesmas piadas vezes sem conta. E uma delas era a de afirmar que aquilo que recordava de mais inicial da sua vida foi o ter ido comos seus pais a uma merenda campestre. O que ficou na memória era o facto de ter ido com o pai e voltado com a mãe.


segunda-feira, 1 de outubro de 2018

IN ILLO TEMPORE – 2



Esquecer o passado

Existem grandes verdades, pensamentos profundos, no meio dos ditados populares, ou rifões. Não faço ideia de se as novas gerações ainda entrarm neste campo da cultura, por arrastamento do que ouvem dizer no seio da família. Mas tenho as minhas dúvidas de que tal aconteça. Esta impressão deve-se por ver como, desde muito crianças, mantem-se totalmente alheadas do que as envolve, e mesmo quando estando num grupo, cada um só tem olhos para o pequeno visor que o traz enfeitiçado. Ja vi uma quase bebé, de chucha, que se entretinha dedilhando e esfregando um telemóvel! muito antes de saber falar e de poder entender cabalmente uma conversa de adulto.

O parágrafo anterior surgiu com o propósito de servir de introito ao que um ditado popular, dos bons, nos avisa, sempre e tanto que o interpretarmos pelo conteúdo abrangente e não só pelo que a frase em si nos diz. O ditado é o seguinte: Cada qual diz da feira consoante lhe vai nela.

Traspondo da situação pontual de uma feira para a vida é fácil entender as razões, ou despropósitos, que levam a que os membros das sucessivas gerações não desejem ouvir das agruras porque podem ter passado os seus antecessores. Do passado dos outros, mesmo sendo tão chegados como os seu proprios pais, só lhes agradam as boas lembranças, as agradáveis, aquelas que se podem valorizar como os programas das televisões generalistas. E a realidade nos diz que por cada vivência engraçada, agradável, se o percurso do familiar incluiu tempos magros, tristes, com dificuldades, serão estas situações as que com mais frequência serão recordadas, especialmente quando a idade avançou e se entra na velhice.

Uma referência conhecida é a de que aqueles que estiveram em frentes de combate, que dispararam a matar e sofreram fogo do inimigo, que viram companheiros mortos ou mutilados, raramente estão dispostos a falar destas vivências. Não só porque estas recordações são pesadas, tristes e trazem traumas para a flor da pele quando ele as preferia manter quase que esquecidas, mas que infelizmente as traz sempre presentes, mas porque sente que os ouvintes, sendo de outra geração, não lhe dão a importãncia que merecem. Obviamente não as podem sentir, dado que não as viveram. Pior, preferem não as ouvir ou, em contraponto, só os sádicos é que prestam atenção, uma atenção que o relator não aprecia.

Possivelmente para conseguir que um descendente se interesse, interiormente, pelas vivências penosas dos seus pais seria necessário que estes, fosse com premeditação ou por não conseguir tirar da sua mente sucessos muito anteriores, tenham martelado os ouvidos dos filhos com uma insistência que tornasse impossível manter os ouvidos moucos. O mais normal é que os filhos rejeitem entrar, entender, valorizar, as situações penosas porque passaram os seus progenitores. Para eles, os da actualidade, o pertinente será atender a outro anexim: Burro morto, cevada ao rabo. Ou Passada a festa, esquece o santo.

domingo, 30 de setembro de 2018

IN ILLO TEMPORE - 1



Introdução

Depois de tanto ler e atingir o risco de ficar com a mioleira saturada, ou feita em papas de aveia, como aconteceu a Alfonso Quijano, também conhecido como Don Quijote, ainda cheguei a tempo de deduzir que, no fim de contas, cada um de nós, passamos por uma série de capítulos, viscisitudes ou experiências, que davam pano para escrever um destes romances de aeroporto que, para conseguir um volume e peso que justifique o preço que está na capa, enchem à volta de 500 páginas. Das quais habitualmente um 10 %, pelo menos, estão em branco e o resto quase que só mostram palha, palavreado sem préstimo, que se poderia dispensar, riscar, e assim deixar o texto em cerca de cem paginas, se tanto.

A minha vaidade pessoal, ou aquilo que se chama de ego, não atinge um nível tão elevado que me incite para avançar direitamente ao suicídio, já que entendo que não poderia sobreviver a uma tentativa de escrever uma obra prima-segunda ou ainda mais afastada. Mesmo assim recolhí, mentalmente alguns acontecimentos, vividos pessoalmente ou apanhados de fontes merecedoras de crédito e respeito, que colocados numa sequência intemporal são capazes de constituir um passatempo sofrível.

sábado, 29 de setembro de 2018

MEDITAÇÕES – 20


QUEM APOSTA ?

Dada a evolução recente nos quadros superiores da Justiça em Portugal, e dando fé ao pouco que conheço pessoalmente deste tema, embora o suficiênte para verificar que não bastam sentenças favoráveis ao demandante, uma vez que as possibilidades de colocar paus nas rodas são muitas e permitem protelar o cumprimento do estipulado pelos juízes até uma data indefinida, que julgo pode estar perto de coincidir com o aparecimento de dentes nas galinhas, não me atrevo a prever como marcharão os processos mais mediáticos após estas mudanças. Mais correctamente: imagino o pior.

Já vi opiniões, identificadas, que nada de bom prenunciam. E outros que não escondem a satisfacção, prevendo que raros serão os indiciados para comparecer a julgamento, que muitos capítulos serão considerados prontos para arquivamento, e que o cidadão normal, o inerme, o que não atingiu o estatuto de intocável, ficará com um desânimo total, após de ter criado uma ilusão, pelos vistos totalmente utópica, de que desta vez as coisas não ficariam penduradas, como tem sido habitual.

Não me admiraria que aqueles, poucos, que já tiveram periodos de prisão efectiva venham a receber chorudas indemnizações do Estado (pagas por todos os já citados cidadãos comuns). Outros, para disfarçar esta prevista lavagem de culpas, podem ser “castigados” com multas simbólicas e penas suspensas in eternum.

Reconheço que as minhas tentativas de criar um diálogo, escrito, com algum leitor já mostraram, fartamente pela ausência de respostas (um fartar que se assemelha mais a uma greve de fome) prenuncia que também desta feita, não terei seguidores. Já estou habituado.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

MEDITAÇÕES - 19


AS MUDANÇAS SÃO INEVITÁVEIS

Cada dia que chega é mais uma pedra que se solta da calçada. Ou, se preferirem, o que encontramos à nossa volta, seja no mundo restrito em que nos movemos, fingindo que tudo está na mesma desde os dias em que começamos a reparar, e esquecer, criando uma falsa noção da sociedade actual para assim tentar convencer-nos de que, pouco mais ou menos, a vida segue os mesmos padrões, não corresponde a uma estrutura sólida, duradoira.

Recordo, sem saudade, o dia em que estando de plantão num barraco de Feira, procurando comercializar as bagatelas que ia criando e fabricando, após a reviravolta que dei ao meu percurso profissional em função do desencontro entre a minha forma de ser, de imaginar que as camadas sociais deviam conviver num ambiente essêncialmente humanista -seja qual for a forma como se entender este termo- em oposição à conduta cínica, desrespeitadora dos outros e em essência exploradora que os que estão no topo, mesmo que originários de um patamar socialmente já afastado, adoptam sem pejo e com propósitos de ataque-defesa.

De improviso vi à frente, mas do lado oposto do balcão, um antigo colega de curso. Este, que sempre foi pessoa faladora e interessante, em vez de fingir que não me reconhecia, entrou numa conversa aparentemente despretensiosa -a minha experiência me alertava para o sempre existente sentimento de repúdio e desprezo; como se eu fosse um padre que abandonasse o sacerdócio em opção para uma vida civil sem restricções. Dado que a minha situação era evidente, perguntei pelo seu percurso.

Respondeu-me, muito ufano, dizendo que estava integrado na equipa de uma Multinacional americana, produtora de uma larga gama de artigos de consumo. Ele, concretamente, estava dedicado a comprar pequenas fábricas de artigos concorrentes, em condições atractivas, pelo menos no programa de absorção. Iriam manter a produção, o pessoal empregado e até as marcas dos produtos. Muito bonito. Mas o programa oculto implicava que esta fase de”casamento inter pares” durasse pouco tempo. A estrategia era a de fazer perder os clientes da casa recém integrada, e seguidamente, num processo que normalmente não chegava a doze meses, a velha competidora e os seus funcionários eram dispensados. Desaparecia do mapa. E, neste processo já conseguira bons resultados. Estava satisfeito.

E estás mesmo contente com o teu proceder? De ser o carrasco por conta de uns capitalstas que nem sequer conheces? Ainda bem que levas o progresso com tanta convicção e que a desgraça alheia não te afecta. Eu continuo como ceramista e artesão. E durmo descansado, sem pesos na consciência. E sinto que tu também nada te afecta. Felizes os dois.

Agarrando esta vivência pessoal e fazendo uma conexão com o que vemos nas ruas por donde circulamos, sentimos que não nos admira tanto quanto deveria o ver como, constantemente, encerram estabelecimentos com porta para a rua, onde adquiriamos artigos de uso corrente e eramos atendidos por pessoas que já eram nossos conhecidos, que cumprimentavamos se coincidissemos num outro local. Na sequência dos factos muitos destes estabelecimentos permanecem fechados, com taipais, ou mudaram de ramo. A maior parte das vezes foram incluídos no sector da restauração e bebidas, ou de agênccias funerárias! Aquilo que não sentimos é que na fase anterior ali existia o sustento de uma família e também a convivência biunívoca entre clientes e lojistas. Estes inclusive podia ser inquiridos a fim de orientarem sobre outro estabelecimento, até concorrente. E sempre se era atendido com bons modos. Hoje a maioria dos empregados das lojas de cadeias não chegam a estar no serviço o tempo necessário para criar um abiente de confiança e diálogo com o cliente. Tudo está num processo acelerado de despersonalização e sem garantias de seriedade tanto para o cliente como para o empregado, habitualmente com contratos a prazo e mal pagos.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

MEDITAÇÕES .- 18


Caí da cama
MAS NÃO PERDI O FIO DO SONHO

Estava imerso num sonho que misturava recordações com a colheta do dia e, repentinamente, lembro que devido a uma brusquidão no eléctrico em que viajava, dei de caras no chão. O chão era, precisamente, o espaço que exsite entre “o meu lado no tálamo conjugal” e a parede (não aquela Parede que linda com o empreendimento urbanístico de Carcavelos e que “servirá de apoio” residencial aos docentes e discentes, e até pode ser que de alguns membros da equipa técnica, que estiverem igados à Universidade da Linha, em estado muito adiantado de instalação).

Ao que íamos: Estava eu viajando no eléctrico da Carris e comigo se encontrava, o já defunto estimado colega E.Q. Também recordo outro passajeiro que nos interpelou apontando um letreiro que recomendava que não deixassem o lugar sentado e fossem para a coxia antes do veículo estar parado. Devem ter copiado este aviso das lenga-lengas habituais dos tripulantes dos aviões comerciais. Este cidadão, exemplar, era um rapazinho, bastante encorpado, digamos redondinho, que aparecia em diversas cenas deste sonho, mas que não sei qual era o seu papel nem quem o tinha contratado.

Aquilo que me incitou (segundo creio) a que recordasse diferentes “quadros” deste sonho deve ter sido o lembrar, com saudade, (o que nem sempre acontece) o convívio com E.Q., enquanto e depois do periodo académico. A sua imagem, que permaneceu até hoje, era muito diferente da que a restante equipa de colegas deixava. Uma equipa em mutação periódica, na que entravam novas caras e desapareciam outras.

E.Q. Tinha em si características incomuns naquele grupo. Para já era mais velho, muito mais experiente na vida real, no mundo do trabalho remunerado, uma altura que destacava e a capacidade de esconder um espírito alegre e jocoso atrás de uma cara-de-pau. Não sei explicar as razões que me levaram a pender para ser seu amigo, e até sentir alguma reciprocidade. Ou, sendo mais correcto, não quero deixar aqui alguns detalhes que podem justificar esta aproximação. Deixarei como factor importante que era a sua personalidade, fora das regras existentes naquele grupo, que a meu entender o elevava.

Como certamente acontece com todos os humanos, e humanas (caso existisse esta denominação para as nossas queridas companheiras do planeta) tampouco E.Q., escapou incólume das múltiplas ratoeiras que a vida nos apresenta. Teve os seus momentos, bons, maus e assim-assim. Eram dele, e de quem conviveu com ele nas ocasiões concretas. O facto de conhecer alguns items da sua vida pessoal só me pode orgulhar pela sua confiança, mas não me autoriza a os tornar públicos.

Só um breve recordatório, de uma das últimas conversas que mantivemos. Ao comentar que estava mais do que reformado, dada a idade que devia constar no seu B.I., ou agora do C.C., perguntei-lhe como distribuia o seu tempo e afezeres, caso os tivesse, nesta fase de não trabalhar. Respondeu-me que eu estava, mais uma vez, errado. Ele tinha emprego. Depois de acordar, arranjar-se, incluído o calçado, dirigia-se directamente para o seu local de trabalho. Onde? Perguntei. No centro de idosos da freguesia. Ali convivo com os que ainda falam e dizem coisas coerentes, leio o jornal, almoço e, se encontrar um parceiro idóneo, fazer umas partidas de damas, xadrez ou de cartas, sem dinheiro nem feijões. Era este o seu emprego depois de fora de serviço.

Como as composições de comboio vergonhosamente arrumadas nas linhas mortas entre Oeiras e Carcavelos, aguardando o serem enviadas para a sucata.


sexta-feira, 21 de setembro de 2018

MEDITAÇÕES - 17

CALIMERO ou
A LUSA GUERRA DE TRONOS

De entrada garanto que jamais vi nem sequer um episódio desta série, que me dizem ter tido um sucesso enorme. Aliás, esta e outras séries que afirmam ser de excelente feitura só se conseguem visionar com um contrato suplementar. E as pesoas, cujo dinheiro transborda dos bolsos, aceitam ser exploradas continua e insistentemente. Seraá que algu~em pode negar o ter uma sociedade vítima do consumismo?

Seja como for o simil que proponho fica-se, aparentemente, por usar a fama de um sucesso comercial para o comparar com o eternamente latente conflito norte-sul, ou sul-norte, pois depende do ponto de observação, que existe em Portugal. Curiosamente se olharmos para o mapa rectangular, os polos dos oponentes estão, pelo menos quanto ao “sul”, bastante descentrados, uma vez que abaixo de Lisboa ainda resta um bom pedaço de nação, que pelos vistos não entra no conflito. Como se de Setúbal para baixo existisse um deserto inhabitado.

Outro esclarecimento que admito ser desnecessário é o de que sou avesso a lutas partidárias, tanto internas como entre polos opostos. Não sou adepto de qualquer “ideologia” e muito menos de facções sócio-políticas. O que, a meu entender não me impede de observar e criticar nos meus adentros, e até de o manifestar, com reservas.

A luta, mais ou menos surda, mas ao mesmo tempo gritante, que existe entre os elementos adictos ao PSD, e similares, contra o actual chefe Rui Rio, eleito por sufrágio livre e directo entre os filiados, e os lisboetas, que se consideram como os únicos defensores válidos do seu campo, é patética. Tudo inventam e deturpam para tentar denegrir o actual chefe, sem deixar transparecer, nem ao de leve, que o seu único e principal defeito -por assim dizer-, é o de ser um “homem do norte”. Para a tribo dos afincados na capital isso é inaceitável, intolerável. FORA! FORA!

O caso mais notório e actual de como “tudo serve” é o que o Calimero nos apresentou. Depois de “jurar sobre o Livro Sagrado” que seria um apoiante fiel e eterno de Rui Rio, poucas semanas decorreram até que se decidisse a abandonar o lugar que aceitara e tentar fundar um novo partido, de cariz totalmente ambíguo e que, caso vingar, só serviria para enfraquecer o PSD uma vez que a sua única função é o tentar oferecer um fogacho de notoriedade ao Calimero. Em simultaneidade, caso esta fantasia pessoal se mantenha em pé até as próximas eleições, só pode conseguir um descenso do peso político-nacional do PSD quando computado nas urnas.

Mesmo que se admita que este novo partido possa atingir um número efectivo de adeptos relativamente pouco importante, quem mais será afectado deverá ser o próprio PSD. Posto isso é de admirar que os PSDs, não apreciadores de ter Rui Rio à fente das tropas, não ataquem com unhas e dentes esta iniciativa, pessoal e intransmissível, do ego de Calimero.