terça-feira, 25 de setembro de 2018

MEDITAÇÕES .- 18


Caí da cama
MAS NÃO PERDI O FIO DO SONHO

Estava imerso num sonho que misturava recordações com a colheta do dia e, repentinamente, lembro que devido a uma brusquidão no eléctrico em que viajava, dei de caras no chão. O chão era, precisamente, o espaço que exsite entre “o meu lado no tálamo conjugal” e a parede (não aquela Parede que linda com o empreendimento urbanístico de Carcavelos e que “servirá de apoio” residencial aos docentes e discentes, e até pode ser que de alguns membros da equipa técnica, que estiverem igados à Universidade da Linha, em estado muito adiantado de instalação).

Ao que íamos: Estava eu viajando no eléctrico da Carris e comigo se encontrava, o já defunto estimado colega E.Q. Também recordo outro passajeiro que nos interpelou apontando um letreiro que recomendava que não deixassem o lugar sentado e fossem para a coxia antes do veículo estar parado. Devem ter copiado este aviso das lenga-lengas habituais dos tripulantes dos aviões comerciais. Este cidadão, exemplar, era um rapazinho, bastante encorpado, digamos redondinho, que aparecia em diversas cenas deste sonho, mas que não sei qual era o seu papel nem quem o tinha contratado.

Aquilo que me incitou (segundo creio) a que recordasse diferentes “quadros” deste sonho deve ter sido o lembrar, com saudade, (o que nem sempre acontece) o convívio com E.Q., enquanto e depois do periodo académico. A sua imagem, que permaneceu até hoje, era muito diferente da que a restante equipa de colegas deixava. Uma equipa em mutação periódica, na que entravam novas caras e desapareciam outras.

E.Q. Tinha em si características incomuns naquele grupo. Para já era mais velho, muito mais experiente na vida real, no mundo do trabalho remunerado, uma altura que destacava e a capacidade de esconder um espírito alegre e jocoso atrás de uma cara-de-pau. Não sei explicar as razões que me levaram a pender para ser seu amigo, e até sentir alguma reciprocidade. Ou, sendo mais correcto, não quero deixar aqui alguns detalhes que podem justificar esta aproximação. Deixarei como factor importante que era a sua personalidade, fora das regras existentes naquele grupo, que a meu entender o elevava.

Como certamente acontece com todos os humanos, e humanas (caso existisse esta denominação para as nossas queridas companheiras do planeta) tampouco E.Q., escapou incólume das múltiplas ratoeiras que a vida nos apresenta. Teve os seus momentos, bons, maus e assim-assim. Eram dele, e de quem conviveu com ele nas ocasiões concretas. O facto de conhecer alguns items da sua vida pessoal só me pode orgulhar pela sua confiança, mas não me autoriza a os tornar públicos.

Só um breve recordatório, de uma das últimas conversas que mantivemos. Ao comentar que estava mais do que reformado, dada a idade que devia constar no seu B.I., ou agora do C.C., perguntei-lhe como distribuia o seu tempo e afezeres, caso os tivesse, nesta fase de não trabalhar. Respondeu-me que eu estava, mais uma vez, errado. Ele tinha emprego. Depois de acordar, arranjar-se, incluído o calçado, dirigia-se directamente para o seu local de trabalho. Onde? Perguntei. No centro de idosos da freguesia. Ali convivo com os que ainda falam e dizem coisas coerentes, leio o jornal, almoço e, se encontrar um parceiro idóneo, fazer umas partidas de damas, xadrez ou de cartas, sem dinheiro nem feijões. Era este o seu emprego depois de fora de serviço.

Como as composições de comboio vergonhosamente arrumadas nas linhas mortas entre Oeiras e Carcavelos, aguardando o serem enviadas para a sucata.


sexta-feira, 21 de setembro de 2018

MEDITAÇÕES - 17

CALIMERO ou
A LUSA GUERRA DE TRONOS

De entrada garanto que jamais vi nem sequer um episódio desta série, que me dizem ter tido um sucesso enorme. Aliás, esta e outras séries que afirmam ser de excelente feitura só se conseguem visionar com um contrato suplementar. E as pesoas, cujo dinheiro transborda dos bolsos, aceitam ser exploradas continua e insistentemente. Seraá que algu~em pode negar o ter uma sociedade vítima do consumismo?

Seja como for o simil que proponho fica-se, aparentemente, por usar a fama de um sucesso comercial para o comparar com o eternamente latente conflito norte-sul, ou sul-norte, pois depende do ponto de observação, que existe em Portugal. Curiosamente se olharmos para o mapa rectangular, os polos dos oponentes estão, pelo menos quanto ao “sul”, bastante descentrados, uma vez que abaixo de Lisboa ainda resta um bom pedaço de nação, que pelos vistos não entra no conflito. Como se de Setúbal para baixo existisse um deserto inhabitado.

Outro esclarecimento que admito ser desnecessário é o de que sou avesso a lutas partidárias, tanto internas como entre polos opostos. Não sou adepto de qualquer “ideologia” e muito menos de facções sócio-políticas. O que, a meu entender não me impede de observar e criticar nos meus adentros, e até de o manifestar, com reservas.

A luta, mais ou menos surda, mas ao mesmo tempo gritante, que existe entre os elementos adictos ao PSD, e similares, contra o actual chefe Rui Rio, eleito por sufrágio livre e directo entre os filiados, e os lisboetas, que se consideram como os únicos defensores válidos do seu campo, é patética. Tudo inventam e deturpam para tentar denegrir o actual chefe, sem deixar transparecer, nem ao de leve, que o seu único e principal defeito -por assim dizer-, é o de ser um “homem do norte”. Para a tribo dos afincados na capital isso é inaceitável, intolerável. FORA! FORA!

O caso mais notório e actual de como “tudo serve” é o que o Calimero nos apresentou. Depois de “jurar sobre o Livro Sagrado” que seria um apoiante fiel e eterno de Rui Rio, poucas semanas decorreram até que se decidisse a abandonar o lugar que aceitara e tentar fundar um novo partido, de cariz totalmente ambíguo e que, caso vingar, só serviria para enfraquecer o PSD uma vez que a sua única função é o tentar oferecer um fogacho de notoriedade ao Calimero. Em simultaneidade, caso esta fantasia pessoal se mantenha em pé até as próximas eleições, só pode conseguir um descenso do peso político-nacional do PSD quando computado nas urnas.

Mesmo que se admita que este novo partido possa atingir um número efectivo de adeptos relativamente pouco importante, quem mais será afectado deverá ser o próprio PSD. Posto isso é de admirar que os PSDs, não apreciadores de ter Rui Rio à fente das tropas, não ataquem com unhas e dentes esta iniciativa, pessoal e intransmissível, do ego de Calimero.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

MEDITAÇÕES - Lutar pela fama


LUTAR PELO PODIUM

As pessoas, sejam eles ou elas, principiantes, amadores ou federados, o inclusive bolseiros para poder dedicar-se intensivamente à sua preparação, além de praticarem alguma disciplina, entre as muitas que existem, habitualmente muitos desportistas practicam por gosto e dedicação, nem sempre intensiva mas, pelo menos, consoante as suas possibilidades, capacidades e tempo disponível. Mas isso não impede de que raramente rejeitem a possibilidade de participar numa prova onde se pontue, e até seja possível conseguir ficar com classificação.

Dito de outra forma, practicar sem despique pode ser bonito, interessante e até construtivo, mas além da satisfacção de conseguir melhorar as suas prestações, nunca se pode afirmar, convictamente, que o atleta se esforce e despreze a possibilidade de, algum dia, poder subir ao plinto dos três melhores qualificados. Mesmo quando no grupo em que va entrar figure alguma figuradestacada, das que se consideram, por méritos anteriores, como vencedores à partida. Os outros, nem que seja para melhorar a sua marca anterior, não deixarão de lutar com toda a sua vontade e energia.

Numa situação como a que deixei no parágrafo anterior, mesmo que se anseie por arrebatar o ouro ao favorito, não deixa de se esperar conseguir a prata, ou, pelo menos o bronze. Dando como muito provável que alguns dos atletas participantes não se sintam capacitados para conseguir um dos três lugares de destaque, será que algum destes, “perdedores antes da partida” só se esforçou com o fito de conseguir o terceiro lugar? Ou seja, só trabalhou para o bronze?

Uma frase que, logo que começa o bom tempo, apto para se estender na areia da praia, se utiliza com algum, ou mesmo bastante, caracter despectivo. Quando se diz que alguêm só trabalha para o bronze da-se a entender que de trabalho nada, que dedica-se a “cuidar do físico, ou mais propriamente da epiderme”. Pode atingir a forma de um Adonis e ser o mais apreciado pelos elementos femininos, e até de algum “indefinido”. Mais daí a ser um atleta, mesmo que possível é pouco provável.

Não me parece que um atleta, amador ou federado, aceite a noção de que ele só participa para conseguir a medalha de bronze, o terceiro lugar.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

MEDITAÇÕES - Afinal quem é que manda?



Quando se alcança um lugar de mando, de comandante do navio como exemplo, o cidadão que se encontra esta situação sabe, ou cedo descobre, que mesmo se a sua personalidade o impulse para se tornar um ditador omnipresente omnidecisor, a realidade pode mostrar-lhe que o seu horizonte comporta uma vastidão tão grande de assuntos que não consegue aplicar a mão de ferro em todos os capítulos. Daí que se torna inevitável o ter que escolher pesoas a quem delegar funções, e daí lhes dar alguns vectores de poder, mesmo que limitados.

E aqui podem começar os problemas, inicialmente de pouca monta mas que paulatinamente podem gerar departamentos estanques onde nem ele, o comandante, ou precisamente ele em especial, consegue penetrar. O mais anedótico é que, na maior parte dos casos, o refrido comandante, que mantêm para o exterior a imagem de ser todo-poderoso, o supremo decisor, nem sabe do que se coze nas suas costas. Daí que, no caso bastante vulgar de o grande chefe descobrir que o seu segundo, evoluiu se mostrou ser um ambicioso camuflador, já experiente e sempre cuidando de manter a imagem de ser um leal servidor, sem de facto o ser. O chefe, se lhe resta uma nesga de bom senso, deve decapitar, urgentemente, este que lhe corta a erva debaixo dos seus pés. Tradicionalmente os segundos endem a utilizar todos os meios -em geral pouco éticos- para derrubar o chefe e colocar-se eleno trono.

A história universal está recheada de relatos onde se especifica como até um Rei, de uma coroa absolutista, esteve, de facto, nas mãos de um valido, de um primeiro ministro, dum secretário ou mesmo de um confessor ou um cardeal. Por comodidade e gostando de ter a papinha feita, passou a estar “comodamente” num posto de boneco. Os exemplos críveis referem todos estas possibilidades, e ainda outras, sempre bem identificados. Um dos mandantes por trás do reposteiro mais referido foi o Cardeal Richelieu. Mas houve muitos, mesmo na história moderna.

PATRIARCADO vesus MATRIARCADO

Descendo para o mundo banal, o familiar, podemos dedicar alguma atenção ao que acontece no seio dos casais. É norma, quase que geral, admitir que dentro da casa, abrangendo as decisões mais normais, repetitivas ou não, o comando é delegado à esposa, e mais quando esta atinge o estatuto de mãe, pois que, desde sempre, o início da educação das crianças esteve, por ser práctico e de modo tácito, entregue às mães.

A situação pode tornar-se, progressivamente conflituosa, quando o marido, já sentindo que o estatuto de “cabeça de casal” pedeu muito do seu peso real, decide comentar e pedir a opinião da esposa de uma forma assidua. Uma situação até aqui normal, correcta e socialmente admitida como positiva. Todavia, se o homem, nem que seja por comodidade ou imprevisão, deixa que a esposa se torne a decissora irrevocável de cada vez mais temas, o anteriormente cabeça de casal passa a ser um zero à esquerda. E se ficar revoltado com esta degradação de autoridade inclusive podem atingir um ponto de ruptura. Quase impereptivelmente se passou do esquema de patriarcado ao de matriarcado. E é que o mais difícil neste mundo, mesmo reduzindo a duas pessoas, é o de que tendo visões nem sempre coincidentes, possam atingir um nível de convivência, estilo democrático, sem que um deles aceite ceder mais do que prevalecer.

sábado, 15 de setembro de 2018

MEDITAÇÕES – Cuidar dos reflexos



Por ser sábado, comprei o semanário Expresso, que é o único periódico que consulto, embora não considere que este “eleito por exclusão de partes” seja merecedor de um fé cega. Mas ao não procurar comparação com outro, limito-me a julgar pelos meus preconceitos.

Iniciei com uma leitura seletiva, como habitualmente faço, a alguns artigos e colunas que figuram na revista que acompanha o referido semanário. Por tratar de uma personagem marcante da história recente li, sem ser na tal diagonal, o artigo que anunciava notícias sensacionais, bombásticas, que certamente poderiam melhorar a visão que o cidadão comum tinha sobre o periodo em que Salazar esteve de baixa após a famosa queda da cadeira. Não encontrei nada de novo neste texto, mesmo contando com as opiniões “isentas” do famoso politólogo Jaime Nogueira Pinto.

Apesar de não ter acrescentado nada de importante ao acervo que tenho em mente, tanto sobre a figura do ditador como do meio social que o rodeava, surgiu-me um julgamento, parcial, concreto, sobre uma das ordens severas que Salazar dava para os encarregados de censurar o que se editava e publicava. Diz-se, e encontrei repetidamente MEDITAÇÕES – Cuidar dos reflexos esta afirmação, que o Presidente do Conselho ordenava que não se referissem nos jornais notícias de suicidios. Não por uma questão de respeito para aqueles que decidiam deixar de viver mas, especialmente porque sabia que esta, e outras notícias de índole social, podiam conduzir a que outros cidadãos decidissem seguir o exemplo. O mimetismo sempre existiu e existirá.

Os opositores, como era de prever, opinavam que esta normativa era mais uma das pressões inaceitáveis que, abusivamente, condicionava a livre expressão que deveria ser respeitada, em vez de ser alvo de repressão.

Saltando para actualidade e dentro da liberdade de expressão e comunicação que, teóricamente, nos é dada actualmente nos países ditos democráticos, nada me impede de ajuizar que o que acontece entre os jóvens estudantes, nomeadamente nos EUA em que a situação alcançou níveis de catástrofe social, com a frequência com que um dos alunos, munido de armas de repetição, ataca indiscriminadamente os seus colegas de escola, causando mortes e feridos sem justificação. O reflexo mais imediato centra-se a culpabilizar o sistema vigente, que permite e até incita a que os cidadãos adquiram e possam utilizar armas de fogo, como defesa pessoal ou, sem poder evitar, também para agressão mortífera.

Ligando o nosso passado à actualidade nada me impede de pensar que esta situação, como também a dos ataques terroristas, é incitada, mesmo que alegando não ser este o propósito, ao noticiar este género de sucessos com excessivo detalhe, com morbidez desnecessária, e com isso provocar outros insensatos, mal doutrinados pela noção de ser pertinente a agressividade, que lhe garante o ser respeitado e considerado “super”.

O ter uma arma de fogo, ou mais do que uma, com capacidade letal, possibilita que o aluado possa vingarse de imaginadas -ou mesmo reais mas de um nível pouco importante- ofensas. Quando este jóvem, obcecado, tem a possibilidade de utilizar armas que estão, em muitas ocasiões, na sua casa e de que até receberam instruções de uso, já está practicamente orientado para ser autor de um massacre.

Tenho a noção de que, pelo menos neste caso, Salazar tinha razão. E que as liberdades, quando consentidas indiscriminadamente, são potencialmente um perigo social, com uma magnitude não desprezível.

E termino com uma referência curiosa, de algo corrente na fase ainda rígida de ditadura. Existia uma emissora, de raio de penetração reduzida à area da cidade de Lisboa, onde era consentido um programa irreverente, que hoje nos pode parecer impossível poder ser enviado para as ondas radiofónicas. Neste programa surgiam anúncios comerciais inusitados, mas patrocinados por casas comerciais idóneas e identificadas. Um deles dizia assim: A Agência Barata (uma das mais importante funerárias de então) enterra o que morre e o que se mata! Ding-Dong!

Um atrevimento, consentido, que infringia o silêncio sobre suicídios !


sexta-feira, 14 de setembro de 2018

CRÓNICAS DO VALE – cap 67



Foi só um alarme, mas forte!

Depois de tomar o segundo comprimido comecei a sentir uma moinha esquisita na barriga. Tive uma noite inquieta, mal dormida ou mais propriamente com uma insónia misurada com pesadelos intantâneos. De madrugada guardei a orina que o Dr. me pediu e, no boião transparente vi uns laivos de sangue. Tomei o terceiro comprimido e o mal-estar se acentuou. Quando me arranjava, com muita dificuldade em coordenar movimentos e um sentimento extranho no meu ínterior, sentí como surgiu um fluxo, mais espesso e até violento, do que o meu normal.

- Bom dia. Sou a Senhora Luísa Maragato e vinha deixar as amostras de orina de ontem ao deitar e de esta manhã ao levantar, atendendo ás indicações do Senhor Doutor. Certamente a enfermeira saberá o destino a dar a estas amostras. E creio que por agora é tudo. Se o Dr. Entender tem o meu telefone na ficha para entrar em contacto.

- Desculpe. Não se va embora já. O dr. Avisou que quando a dona Luísa, chegasse para entregar os dois frascos o informassemos, pois deseja consultar a Senhora quanto antes. Faça o favor de aguardar enquanto eu comunico com o Doutor. O Dr. Deu indicação para que entre no gabinete de consulta. Faça o favor de me seguir.

- Doutor, bom dia. Antes de mais queria dizer que, sejam quais forem as razões terapeuticas, os comprimidos que me entregou foram de efeito rápido. Não quero especular acerca do tratamenteo, mas gostaria que o Doutor me esclarecesse. Não tenho uma explicação plausível que me satisfaça, pois o que sei de medicina e nada é a mesma coisa. Só posso afirmar que agradeço ao Doutor a atenção com que atendeu ao nosso - meu e do meu marido- não digo que problema, pois caso se confirmasse existir uma gravidez inesperada. seria encararada com toda a sensibilidade e bom senso pertinente. Mas, de facto não deixava de ser uma situação extemporânea.

Já discursei e assim descarreguei o nervosismo que me pesava desde a noite passada. Agradeço o silêncio com que me ouviu e, também, em primeiro lugar, o método indolor e rápido com que possibilitou uma solução. Peço que me desculpe. Sempre fui impulsiva quando entro em parafuso, e o conhecer o Doutor de bastantes anos tornou-me indesculpávelmente atrevida.

- Amiga Dona Luísa Maragato. Conheço-a desde muitos anos a esta parte, como paciente de seguimento e por sorte sempre com boa saúde, ou seja, foram visitas rotineiras de precaução. Desta vez as coisas não foram, exactamente, como a Dona Luísa imaginou. Mas esteve muito perto. O que a desconcertou foi que, sem dar por isso, chegaram os primeiros sinais da fase menopausica, que altera practicamente todo o funcionamento do aparelho reprodutivo femenino, e provoca uma sintomatologia que nem sempre é agradável. Os homens também tem a sua cruz neste sector sexual: a andropausa, de que, tal como as senhoras, não gostam de falar porque psicológicamente sentem-se diminuídos. E de facto assim é!

Aguardaremos os resultados das análises a fazer com a sua orina, e depois o mais provável é que lhe tenha que receitar um tratamento hormonal específico para esta fase da vida femenina. É melhor tratar disso enquanto os sintomas não se acentuam. Entretanto, e porque a chegada deste declínio hormonal é causa de efeitos psicológicos, a maioria das mulheres, como já disse, não gostam de referir esta situação aos demais. Não devia ser visto como uma vergonha, mas a reacção habitual é como se fosse.

Confio na Dona Luísa para que arquitecte um arrazoado, credível, sem entrar em especulações de mau gosto. E até, se já tinha dado vozes de novidade a pessoas suas conhecidas, use a mesma argumentação para dar uma nova versão mais aceitável, esquecendo o alarme, imprevisto mas em princípio aceite, de que iria dar mais um herdeiro ao José Maragato.

E aqui damos a consulta por terminada. Felizmente sem sequelas, segundo desejo. Quero observa-la daqui a um mês. Trate de marcar a consulta com a senhora da recepção, a quem darei já indicações pelo telefone interno. Os dois estamos de parabéns, tendo remediado uma situação que se podia prever visse a ser potencialmente problemática.

- Então Luísa, como decorreu o encontro com a Dra. Diana? O que me antecipaste pelo telefone creio que é suficiênte, mas tens via livre para completar, caso entendar ser pertinente.

- É um assunto que ainda está no início. Não digo no prólogo, porque já se deram novas e rápidas alterações nao organização da filial de Coimbra. Já não é aquilo que coheciamos. E o melhor seria que pudessemos esquecer das circunstâncias que nos conduzirama ter estes contactos.

Mas há outros assuntos que mais nos podem interessar neste momento, além de que a possibilidade de te dar mais um herdeiro ficou pelo caminho. Segundo parecer do meu médico “de senhoras” acontece que entrei na fase menopausica, com a certeza de vir a sofrer dos calores, conhecidos como afrontamentos e indisposições de novo tipo, própirios das matronas. Querido, não te darei um filho -vade retro, Satanás!- mas cá estou para me investir de senhora respeitável sem despesas de pensos higiénicos, pelo menos numa periodicidade regular.

O outro tema, que trazia na mira, ou seja a vontade de instalar uma estufa para plantas junto da hortinha, pode ser que venha a ter algun avanço. Ao passar pela Vila falei com a referida senhora, mãe de um engenheiro “ingrícola”, especializado em floricultura e meninas -a mamá sempre conta, muito vaidosa, da constante mudança de namoradas do seu rebento. E todas elas de parar o trãnsito!- a fim de que lhe pergunte se pode deslocar-se até o Vale para nos poder dar uma ideia de se entende ser possível a instalção da sonhada estufa. E depois poder contar com a sua asistência futura enquanto eu não ganhe experiência.

Uma loucura seródia que, como ves, está tão longe do lavar cabeças, e pintar cabeleiras, como consta do meu currículo “universitário”, como está Marte em relação a Aveiro.

- Eu dei um dos meus passeios diários no terreno e tive uma conversa com o Ernesto acerca da tua ideia de montar uma estufa. Ele sabia disso, porque tu já lho contaste. Vimos os espaços que nos parecem apropriados e qual implicari o abater de muitas árvores. O que ele nos recomenda é que nos precavermos de que a estrutura a instalar seja resistente a ventanias, pois é uma tristeza ver como algumas instalações deste género são derrubadas e desfeitas caso a aragem seja mais forte; ou seja, se surgir um vendaval. Quando souberes da vinda do “técnico” posso estar por perto. Mas a conversa terás que a ter tu. Como na cozinha, duas pessoas a temperar o mesmo esturgido ou assado é muito arriscado.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

MEDITAÇÕES - Adivinhar o futuro



Mais uma vez não resisto à tentação de entrar no domínio dos sonhos. Mas desta feita tentaria comentar como se teceram muitas teorias com o propósito de tentar explicar as supostas mensagens que a mente nos oferecia. São citados, ao longo da história, e também na actualidade, muitos profetas e adivinhos que se dispuseram a interpretar o significado dos sonhos. Hoje ainda existem estes beneméritos para os crédulos que confiam na suas capacidades esotéricas e não conseguem digerir, calmamente, as fantasias mentais que os preocupam.

Sendo céptico por natureza nunca prestei atenção aos livros que se dizem capazes de interpretar os sonhos. Mesmo assim já comprei algum, que nunca sequer folheei, para atender uma pessoa sumamente crédula. Curiosamente, ou não, estas pessoas que procuram ajuda dos espertos, ou mais propriamente espertalhões, são também crédulos convictos de milagres, pertencem à religião preponderante em Portugal, ou derivaram para alguma seita das muitas que tem proliferado.

A minha perspectiva sobre este assunto implica o admitir que o nosso cerebro, quando com funcionalidade normal, tem uma enorme capacidade de armazenamento de dados, e depois é capaz dos combinar e processar livremente. Para a inteligência natural, que os investigadores pretendem copiar e até ultrapassar artificialmente, quando pode agir sem o seu portador estar em vigilia, e por isso sem que as ordens do utente o procurem orientar para o que deseja, o cérebro encarrega-se de construir uma estrutura, mais ou menos plausível, socorrendo-se dos muitos entradas que recebeu, seja pela vivência do indivíduo portador do crâneo respectivo, como também pelos impulsos que o atingiram por visualização de filmes, de leituras ou de relatos que lhe causaram algum impacto.

As possibilidades de o cerebro criar a partir de elementos recebidos é imensa, e até podemos deduzir com alguma aproximação, aquilo que a experiência nos indicou que pode ter possibilidades de acontecer. Mas tudo isto num processo mental simultâneamente complexo e simples. O que nos é impossível, estando dormidos ou acordados, é antever o futuro. Daí que acreditar que alguêm seja capaz de prever o que há de acontecer através dos sonhos é, além de ser um atrevimento insensato, uma impossibilidade indiscutível. Não há nem nunca houve profetas que mereçam crédito. Muitas profecias que se consideram autênticas foram, certamente, relatadas a posteriori.

A técnica seguida pelos visionários em activo é a de anunciarem um amplio leque de sucessos para o futuro, em geral a médio prazo ou, de preferência, para longo prazo. Depois apostam na voragem do tempo que neutraliza as profecias não cumpridas e ele, o futurólogo, se encarrega de destacar o acontecimento que mais se aproxima do que, de uma forma pouco concreta, distribui às audiências. Ou seja, quanto mais coisas se anunciem para o futuro maior é a possibilidade de acertar numa.

Isso sem referir aqueles que apostam sabendo que irão acertar, por exemplo nos eclipses ou nas cheias de outono. Se não aconteceram as cheias anunciadas não foi por falta de chuva, mas porque as barragens vazias se encarregaram de acumular a água, sem rebentarem. Sempre surgem explicações plausíveis para justificar o fracasso.