sábado, 15 de setembro de 2018

MEDITAÇÕES – Cuidar dos reflexos



Por ser sábado, comprei o semanário Expresso, que é o único periódico que consulto, embora não considere que este “eleito por exclusão de partes” seja merecedor de um fé cega. Mas ao não procurar comparação com outro, limito-me a julgar pelos meus preconceitos.

Iniciei com uma leitura seletiva, como habitualmente faço, a alguns artigos e colunas que figuram na revista que acompanha o referido semanário. Por tratar de uma personagem marcante da história recente li, sem ser na tal diagonal, o artigo que anunciava notícias sensacionais, bombásticas, que certamente poderiam melhorar a visão que o cidadão comum tinha sobre o periodo em que Salazar esteve de baixa após a famosa queda da cadeira. Não encontrei nada de novo neste texto, mesmo contando com as opiniões “isentas” do famoso politólogo Jaime Nogueira Pinto.

Apesar de não ter acrescentado nada de importante ao acervo que tenho em mente, tanto sobre a figura do ditador como do meio social que o rodeava, surgiu-me um julgamento, parcial, concreto, sobre uma das ordens severas que Salazar dava para os encarregados de censurar o que se editava e publicava. Diz-se, e encontrei repetidamente MEDITAÇÕES – Cuidar dos reflexos esta afirmação, que o Presidente do Conselho ordenava que não se referissem nos jornais notícias de suicidios. Não por uma questão de respeito para aqueles que decidiam deixar de viver mas, especialmente porque sabia que esta, e outras notícias de índole social, podiam conduzir a que outros cidadãos decidissem seguir o exemplo. O mimetismo sempre existiu e existirá.

Os opositores, como era de prever, opinavam que esta normativa era mais uma das pressões inaceitáveis que, abusivamente, condicionava a livre expressão que deveria ser respeitada, em vez de ser alvo de repressão.

Saltando para actualidade e dentro da liberdade de expressão e comunicação que, teóricamente, nos é dada actualmente nos países ditos democráticos, nada me impede de ajuizar que o que acontece entre os jóvens estudantes, nomeadamente nos EUA em que a situação alcançou níveis de catástrofe social, com a frequência com que um dos alunos, munido de armas de repetição, ataca indiscriminadamente os seus colegas de escola, causando mortes e feridos sem justificação. O reflexo mais imediato centra-se a culpabilizar o sistema vigente, que permite e até incita a que os cidadãos adquiram e possam utilizar armas de fogo, como defesa pessoal ou, sem poder evitar, também para agressão mortífera.

Ligando o nosso passado à actualidade nada me impede de pensar que esta situação, como também a dos ataques terroristas, é incitada, mesmo que alegando não ser este o propósito, ao noticiar este género de sucessos com excessivo detalhe, com morbidez desnecessária, e com isso provocar outros insensatos, mal doutrinados pela noção de ser pertinente a agressividade, que lhe garante o ser respeitado e considerado “super”.

O ter uma arma de fogo, ou mais do que uma, com capacidade letal, possibilita que o aluado possa vingarse de imaginadas -ou mesmo reais mas de um nível pouco importante- ofensas. Quando este jóvem, obcecado, tem a possibilidade de utilizar armas que estão, em muitas ocasiões, na sua casa e de que até receberam instruções de uso, já está practicamente orientado para ser autor de um massacre.

Tenho a noção de que, pelo menos neste caso, Salazar tinha razão. E que as liberdades, quando consentidas indiscriminadamente, são potencialmente um perigo social, com uma magnitude não desprezível.

E termino com uma referência curiosa, de algo corrente na fase ainda rígida de ditadura. Existia uma emissora, de raio de penetração reduzida à area da cidade de Lisboa, onde era consentido um programa irreverente, que hoje nos pode parecer impossível poder ser enviado para as ondas radiofónicas. Neste programa surgiam anúncios comerciais inusitados, mas patrocinados por casas comerciais idóneas e identificadas. Um deles dizia assim: A Agência Barata (uma das mais importante funerárias de então) enterra o que morre e o que se mata! Ding-Dong!

Um atrevimento, consentido, que infringia o silêncio sobre suicídios !


sexta-feira, 14 de setembro de 2018

CRÓNICAS DO VALE – cap 67



Foi só um alarme, mas forte!

Depois de tomar o segundo comprimido comecei a sentir uma moinha esquisita na barriga. Tive uma noite inquieta, mal dormida ou mais propriamente com uma insónia misurada com pesadelos intantâneos. De madrugada guardei a orina que o Dr. me pediu e, no boião transparente vi uns laivos de sangue. Tomei o terceiro comprimido e o mal-estar se acentuou. Quando me arranjava, com muita dificuldade em coordenar movimentos e um sentimento extranho no meu ínterior, sentí como surgiu um fluxo, mais espesso e até violento, do que o meu normal.

- Bom dia. Sou a Senhora Luísa Maragato e vinha deixar as amostras de orina de ontem ao deitar e de esta manhã ao levantar, atendendo ás indicações do Senhor Doutor. Certamente a enfermeira saberá o destino a dar a estas amostras. E creio que por agora é tudo. Se o Dr. Entender tem o meu telefone na ficha para entrar em contacto.

- Desculpe. Não se va embora já. O dr. Avisou que quando a dona Luísa, chegasse para entregar os dois frascos o informassemos, pois deseja consultar a Senhora quanto antes. Faça o favor de aguardar enquanto eu comunico com o Doutor. O Dr. Deu indicação para que entre no gabinete de consulta. Faça o favor de me seguir.

- Doutor, bom dia. Antes de mais queria dizer que, sejam quais forem as razões terapeuticas, os comprimidos que me entregou foram de efeito rápido. Não quero especular acerca do tratamenteo, mas gostaria que o Doutor me esclarecesse. Não tenho uma explicação plausível que me satisfaça, pois o que sei de medicina e nada é a mesma coisa. Só posso afirmar que agradeço ao Doutor a atenção com que atendeu ao nosso - meu e do meu marido- não digo que problema, pois caso se confirmasse existir uma gravidez inesperada. seria encararada com toda a sensibilidade e bom senso pertinente. Mas, de facto não deixava de ser uma situação extemporânea.

Já discursei e assim descarreguei o nervosismo que me pesava desde a noite passada. Agradeço o silêncio com que me ouviu e, também, em primeiro lugar, o método indolor e rápido com que possibilitou uma solução. Peço que me desculpe. Sempre fui impulsiva quando entro em parafuso, e o conhecer o Doutor de bastantes anos tornou-me indesculpávelmente atrevida.

- Amiga Dona Luísa Maragato. Conheço-a desde muitos anos a esta parte, como paciente de seguimento e por sorte sempre com boa saúde, ou seja, foram visitas rotineiras de precaução. Desta vez as coisas não foram, exactamente, como a Dona Luísa imaginou. Mas esteve muito perto. O que a desconcertou foi que, sem dar por isso, chegaram os primeiros sinais da fase menopausica, que altera practicamente todo o funcionamento do aparelho reprodutivo femenino, e provoca uma sintomatologia que nem sempre é agradável. Os homens também tem a sua cruz neste sector sexual: a andropausa, de que, tal como as senhoras, não gostam de falar porque psicológicamente sentem-se diminuídos. E de facto assim é!

Aguardaremos os resultados das análises a fazer com a sua orina, e depois o mais provável é que lhe tenha que receitar um tratamento hormonal específico para esta fase da vida femenina. É melhor tratar disso enquanto os sintomas não se acentuam. Entretanto, e porque a chegada deste declínio hormonal é causa de efeitos psicológicos, a maioria das mulheres, como já disse, não gostam de referir esta situação aos demais. Não devia ser visto como uma vergonha, mas a reacção habitual é como se fosse.

Confio na Dona Luísa para que arquitecte um arrazoado, credível, sem entrar em especulações de mau gosto. E até, se já tinha dado vozes de novidade a pessoas suas conhecidas, use a mesma argumentação para dar uma nova versão mais aceitável, esquecendo o alarme, imprevisto mas em princípio aceite, de que iria dar mais um herdeiro ao José Maragato.

E aqui damos a consulta por terminada. Felizmente sem sequelas, segundo desejo. Quero observa-la daqui a um mês. Trate de marcar a consulta com a senhora da recepção, a quem darei já indicações pelo telefone interno. Os dois estamos de parabéns, tendo remediado uma situação que se podia prever visse a ser potencialmente problemática.

- Então Luísa, como decorreu o encontro com a Dra. Diana? O que me antecipaste pelo telefone creio que é suficiênte, mas tens via livre para completar, caso entendar ser pertinente.

- É um assunto que ainda está no início. Não digo no prólogo, porque já se deram novas e rápidas alterações nao organização da filial de Coimbra. Já não é aquilo que coheciamos. E o melhor seria que pudessemos esquecer das circunstâncias que nos conduzirama ter estes contactos.

Mas há outros assuntos que mais nos podem interessar neste momento, além de que a possibilidade de te dar mais um herdeiro ficou pelo caminho. Segundo parecer do meu médico “de senhoras” acontece que entrei na fase menopausica, com a certeza de vir a sofrer dos calores, conhecidos como afrontamentos e indisposições de novo tipo, própirios das matronas. Querido, não te darei um filho -vade retro, Satanás!- mas cá estou para me investir de senhora respeitável sem despesas de pensos higiénicos, pelo menos numa periodicidade regular.

O outro tema, que trazia na mira, ou seja a vontade de instalar uma estufa para plantas junto da hortinha, pode ser que venha a ter algun avanço. Ao passar pela Vila falei com a referida senhora, mãe de um engenheiro “ingrícola”, especializado em floricultura e meninas -a mamá sempre conta, muito vaidosa, da constante mudança de namoradas do seu rebento. E todas elas de parar o trãnsito!- a fim de que lhe pergunte se pode deslocar-se até o Vale para nos poder dar uma ideia de se entende ser possível a instalção da sonhada estufa. E depois poder contar com a sua asistência futura enquanto eu não ganhe experiência.

Uma loucura seródia que, como ves, está tão longe do lavar cabeças, e pintar cabeleiras, como consta do meu currículo “universitário”, como está Marte em relação a Aveiro.

- Eu dei um dos meus passeios diários no terreno e tive uma conversa com o Ernesto acerca da tua ideia de montar uma estufa. Ele sabia disso, porque tu já lho contaste. Vimos os espaços que nos parecem apropriados e qual implicari o abater de muitas árvores. O que ele nos recomenda é que nos precavermos de que a estrutura a instalar seja resistente a ventanias, pois é uma tristeza ver como algumas instalações deste género são derrubadas e desfeitas caso a aragem seja mais forte; ou seja, se surgir um vendaval. Quando souberes da vinda do “técnico” posso estar por perto. Mas a conversa terás que a ter tu. Como na cozinha, duas pessoas a temperar o mesmo esturgido ou assado é muito arriscado.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

MEDITAÇÕES - Adivinhar o futuro



Mais uma vez não resisto à tentação de entrar no domínio dos sonhos. Mas desta feita tentaria comentar como se teceram muitas teorias com o propósito de tentar explicar as supostas mensagens que a mente nos oferecia. São citados, ao longo da história, e também na actualidade, muitos profetas e adivinhos que se dispuseram a interpretar o significado dos sonhos. Hoje ainda existem estes beneméritos para os crédulos que confiam na suas capacidades esotéricas e não conseguem digerir, calmamente, as fantasias mentais que os preocupam.

Sendo céptico por natureza nunca prestei atenção aos livros que se dizem capazes de interpretar os sonhos. Mesmo assim já comprei algum, que nunca sequer folheei, para atender uma pessoa sumamente crédula. Curiosamente, ou não, estas pessoas que procuram ajuda dos espertos, ou mais propriamente espertalhões, são também crédulos convictos de milagres, pertencem à religião preponderante em Portugal, ou derivaram para alguma seita das muitas que tem proliferado.

A minha perspectiva sobre este assunto implica o admitir que o nosso cerebro, quando com funcionalidade normal, tem uma enorme capacidade de armazenamento de dados, e depois é capaz dos combinar e processar livremente. Para a inteligência natural, que os investigadores pretendem copiar e até ultrapassar artificialmente, quando pode agir sem o seu portador estar em vigilia, e por isso sem que as ordens do utente o procurem orientar para o que deseja, o cérebro encarrega-se de construir uma estrutura, mais ou menos plausível, socorrendo-se dos muitos entradas que recebeu, seja pela vivência do indivíduo portador do crâneo respectivo, como também pelos impulsos que o atingiram por visualização de filmes, de leituras ou de relatos que lhe causaram algum impacto.

As possibilidades de o cerebro criar a partir de elementos recebidos é imensa, e até podemos deduzir com alguma aproximação, aquilo que a experiência nos indicou que pode ter possibilidades de acontecer. Mas tudo isto num processo mental simultâneamente complexo e simples. O que nos é impossível, estando dormidos ou acordados, é antever o futuro. Daí que acreditar que alguêm seja capaz de prever o que há de acontecer através dos sonhos é, além de ser um atrevimento insensato, uma impossibilidade indiscutível. Não há nem nunca houve profetas que mereçam crédito. Muitas profecias que se consideram autênticas foram, certamente, relatadas a posteriori.

A técnica seguida pelos visionários em activo é a de anunciarem um amplio leque de sucessos para o futuro, em geral a médio prazo ou, de preferência, para longo prazo. Depois apostam na voragem do tempo que neutraliza as profecias não cumpridas e ele, o futurólogo, se encarrega de destacar o acontecimento que mais se aproxima do que, de uma forma pouco concreta, distribui às audiências. Ou seja, quanto mais coisas se anunciem para o futuro maior é a possibilidade de acertar numa.

Isso sem referir aqueles que apostam sabendo que irão acertar, por exemplo nos eclipses ou nas cheias de outono. Se não aconteceram as cheias anunciadas não foi por falta de chuva, mas porque as barragens vazias se encarregaram de acumular a água, sem rebentarem. Sempre surgem explicações plausíveis para justificar o fracasso.


NEM TODO O PASSADO É LINDO




Um colega e amigo “pendurou” no fb um recorte de jornal que, visto assim de repente, parece muito interessante, sensato e exemplar. Eu até comentei que não parece plausível que nos dias de hoje se repita esta atitude, tão cívica e respetadora da cidadania em geral.

Copiei o documento e aqui o recoloco para vossa apreciação:



Passadas umas horas e recordando, memorísticamente, o que ao longo dos anos fui lendo acerca do estado das finanças públicas, incluído o periodo da monarquia, tanto absoluta como a parlamentária, chega-se à conclusão de que estas demostrações de bondade e respeito para a população em geral, em pouco alteram a realidade factual.

Sucede que tanto actualmente como nos tempos pretéritos as máquinas gobernamentais tem sido, e continuarão a ser, um redemominho que engole tudo aquilo que lhes cai por perto. A corte de um rei incluía uma extensa série de indivíduos que viviam à expensas do erário publico. As finanças da casa real sempre padeceram de estar deficitárias.

Quando a corte se deslocava para uma cidade determinada, esta mudança implicava não só o núcleo restrito da família real, como se poderia imaginar se fossemos excessivamente simples. Eram centenas de pessoas que constituiam a comitiva, desde conselheiros a criados, nobres a clérigos, soldados e ecrivãos; uma pléiade de gente. E todos tinham que ser alojados e alimentados às custas dos cidadãos residentes. Tal benesse equivalia, de facto, a uma maldição. Era como se sobre a povoação caísse uma praga de gafanhotos.

Manter o fausto da casa-real e da corte em extensão, avaliado pelo que hoje usufruímos, numa média aritmética, nos deve dar a impressão de ser duma pobreza confrangedora. Os bens correntes eram mínimos, discriminados na documentação de heranças com um pormenor que hoje nos espanta. O conforto em que viviam, se o julgarmos pelos quadros e filmes, era muito diferente, até pobre para as exigências actuais.

E, apesar disso, e mesmo que existisse uma máquina fiscal exigente, as arcas do estado estavam quase sempre vazias. Os reis, ou os seus representantes, tinham que estar permanentemente negociando empréstimos. E na maior parte das ocasiões era com os banqueiros judeus que tinham que se comprometer. A dificuldade permanente era a de poder satisfazer as dívidas acumuladas. E esta situação se repetia, em geral, por todos os reinos europeus. Quantas vezes, para se verem livres dos credores, se provocaram perseguições e massacres dos semitas, com a desculpa de que este povo era, passadas tantas gerações, ainda responsável pela morte de Jesus. Obviamente a igreja oficial colaborava, intensamente, nesta farsa crimonosa e macrabra.

Resumindo: a notícia, antiga, onde se faz referência a um gesto humanista do Rei, pode ser curiosa e até simpática. Mas no fundo não dava efeitos palpáveis. Pior do que isso é o autismo dos governantes actuais, num periodo aparentemente democrático, que agem mais por interesses pessoais e corporativos do que para beneficiar a população.

domingo, 9 de setembro de 2018

MEDITAÇÕES satânicas


OS DIABOS

Desconheço quando foi que se começou a representar os diabos como trazendo um par de cornos na testa. Mas deve ter sido logo no início da comunicação extensiva entre grupos de humanos, e já depois do culto aos fenómenos da natureza,ao receio da morte e todo o cenário de receios que se foram acumulando na mente das pessoas. Do não entender o que acontecia a imaginar que tudo era devido à acção de espíritos malignos, ou benignos, os mitos que se geraram foram a base da gestão de muitas religiões, credose crendices.

O que me causa não extranheza nem admiração, mas pelo menos um certo desconforto, é o facto de verificar que mesmo pessoas cultas, e inclusive que se consideram ateus ou impermeáveis a mitos de índole religioso, caem, seja conscientemente ou não, em reacções de inibição que se podem qualificar, pelo menos, como do campo do esoterismo. Dito de outra forma,o instinto reage, em quase todos os humanos, obedecendo a preceitos inculcados, herdados de muitas gerações anteriores, mesmo aqueles se tentão mostrar-se isentos, descomprometidos, que escapam das pressões históricas, e até afirmem que sentem, convictamente que, de facto, não existem razões plausíveis para seguir presos a preceitos fora do racionalismo, estes dando tantas voltas como um gato que procura ajeitar a sua cama para dormir uma soneca, não conseguem alterar, racionalmente, os seus medos atávicos.

Este arrazoado surge a propósito de que eu, incluído no meu relativamente extenso campo de actividades pseudo-artisticas, fiz algumas talhas de madeira representando, imaginativamente, diabos com cornos. Também moldei caraças “decorativas” seguindo a mesma tónica. Nada original se recordarmos que nos caretos de Trás-os-montes estes diabos chifrudos são a tónica habitual, e que alguns dos artesãos que as talham vendem-nas aos visitantes. Nem sequer conseguem servir a todos os interessados.

O que fazem, este clientes entusiasmados no momento, depois, quando chegam aos seus lares, com as ditas caraças cornúpetas? Será que as colocam expostas numa parede ou as mantêm escondidas, resguardadas dos olhares timoratos? Receosos de que alguém os qualifique de serem adeptos de cultos satânicos?

Da minha parte, e com a colaboração dos meus filhos, que as trazem das suas viagens a países “eróticos” (leiam, exóticos), tenho uma basta colecção destas máscaras, de origens diversas. E algumas arvoram uns chifres bem evidentes, sem que nunca alguém que ao ve-las me tenha manifestado o seu desagrado, uma tenebrosa adversão, com esta presença parietal. As minhas netas, ainda de colo e mal falando, foram treinadas, por mim, com a visão das figuras “repulsivas”.

Se tentarmos ligar esta animosidade “instintiva” aos ensinamentos das religiões, sentimos que será conveniente admitir que para existirem anjos é necessário existir o oposto, ou seja, os diabos. E que tanto uns como outros não passam de figuras de retórica, de pensamentos tão mastigados e repetidos que já não nos devem emocionar. O procurar que só exista o bem é impossível. O bem só se pode avaliar por comparação com o mal. Isto é uma verdade digna do La Palisse, por ser indiscutível. A luminosidade é o posto da oscuridão. E assim sucede com muitos outros conceitos.

Resumindo e concluíndo: Não me parece normal, ou quiçá melhor racional, que adultos já educados se sintam fortemente adversos a terem, em suas casas, peças “artísticas” que tentem representar as imagens latentes, não confrontadas com a realidade, de pretensas entidades que se insinua correspondem ao mal. Sei que reagem assim, mas não me parece digno de quem for ilustrado.

CRÓNICAS DO VALE - cap. 66




Luísa vai ao ginecologista

Boa tarde Doutor. Agradeço que me tenha atendido sem ter pedido uma marcação prévia. Mas carecia da sua opinião profissional.

E de que se queixa a Senhora Luísa Maragato, que como seja que a sigo, profissionalmente, durante bastantes anos e sei que, felizmente, é uma paciente sem grandes problemas, merece ser atendida quanto antes. Não é uma questão de passar à frente, mas sim de desejar poder fazer um diagnóstico rápido e tranquilizador. Diga pois da sua preocupação.

Tenho a impressão e os tests de compra livre confirmam, que estou de esperanças, ou mais claramente que engravidei, sem ser por obra e graça do Espírito Santo.

Faça o favor de se deitar. Pode ficar com a roupa de baixo, se assim desejar. Pois só pretendo apalpar este abdómen. Está um pouco dilatado. Quanto tempo pensa que está com falta do periodo?

Umas seis semanas a partir do último fluxo. E habitualmente sou muito certa, com os antigos relógios suíços.

O melhor é fazer uma ecografia simples, daquelas que nos mostram se é menino ou menina. A minha enfermeira a acompanhará. Ora, vejamos o que o bisbilhoteiro interno nos diz. Para já, não está de facto grávida de verdade, mas o meu diagnóstico é que deve ter uma falsa gravidez, uns sintomas provocados por uma tensão psíquica intensa ou algum problema fisiológico que teremos que pesquisar. Pode descer e vestir-se, se faz favor.

Doutor, tem a certeza do que me disse. Posso estar tranquila acerca desta gravidez, que não vinha muito a calhar, mas que teriamos que assumir por uma questão de respeito à vida indefesa?

Para já terei que lhe tirar sangue e pedir que nos facilite a urina agora e outra de manhâ em jejum. Só para despistar e poder identificar, caso ecxista, o problema que devemos tratar. Por hoje, além da amostra de sangue, lhe darei uns comprimidos. Estes três, para que tome um logo hoje ao deitar, outro ao pequeno almoço e o terceiro novamente à hora da deita.

A enfermeira vai tirar o sangue. É uma artista nisso; e, não esqueça de nos trazer a urina da noite. E, recomendo, amigávelmente, que fique tranquila. Verá que isto fica novamente regularizado.


Não me sinto descansada. Desta história das gravidezes imaginadas já ouvi falar, mas pensei que era moléstia de freiras e outras pessoas atreitas a ficar histéricas. Tenho que procurar o que dizem na Internet sobre as falsas gravidezes. Mas tampouco me parece que tudo o que escrevem ali seja merecedor de crédito às cegas.

No noticiário da rádio do carro dizem que já escolheram o novo presidente do Sporting. Não faço ideia de quem é esta personagem; mas este clube, desportivo (?), tem andado numa rebaldaria excessíva. Não sou adepta de nenhum clube, mas dos nomes que se apresentaram havia um que, de imediato, eu riscaria. Era aquele do clâ dos Espírito-Santo que carrega um apelido italiano. Não me inspira a mínima confiança. De qualquer modo este mundo da bola é atrito a sujeiras, se acreditarmos nas notícias dos jornais especializados, e dos outros, que também lhes interessa chafurdar neste campo pois sabem que vende papel, e não há publicação que se aguente sem um volume de vendas já não digo bom, mas razoável. Para já, dos três grandes aparecem sempre comentários, notícias falsas ou propositadamente inchadas, para satisfazer todos os fanáticos.

Pararei em Aveiro e depois na Vila para dar uma olhadela de patroa, sem avisar, arriscando-me a encontrar surpresas pouco agradáveis. Não tenho a intenção de espiolhar; só quase que cumprimentar e olhar nas entre-linhas. E depois CASA, que quero tranquilizar a mente.

Ao Zé só lhe contarei o que se conversou, ou quase exclusivamente ouvi, da amiga Diana. Não houve surpresas. Mas é lamentável confirmar as nossas suspeitas, concretamente que os tais poderes ocultos existem e tem muita força.




sexta-feira, 7 de setembro de 2018

CRÓNICAS DO VALE - Cap. 65



Isabel e Diana

- Vou encontrar-me com a Diana Cardoso. Veremos se a vontade de falar desta amiga recente, mas que parece fixe, corresponde ao que o José imaginou. Confesso que com alguma probabilidade de ter razão. Está parada à porta da dita lanchonete. Pelos vistos não quis entrar, o que prenuncia que será noutro local, mais recatado, que deseja poder trocar as nossas ideias.

Bom dia, Doutora Diana, desculpe se cheguei atrasada, mas apanhei algum transito e alguma dificuldade para encontrar uma vaga nos parques pagos. Parece que, com a mudanço do tempo todos pensaram em por o carro a rodar.

- Cheguei mesmo agora e peço, por favor e amizade, que não me trate com cerimónias. Falemos como amigas, como se nos conhecessemos da infância. As poucas horas em que pudemos conversar, descontraídamente, ficaram-me marcadas dum mdo indelével. Se não se importa, pensei que era melhor sentarmo-nos num local menos concorrido.

Eu já tenho ideia de onde podemos conversar sem olhares e ouvidos indiscretos. É que esta terra é como uma aldeia, ou pior, pois aqui além de se conhecerem todos entre si, existem personagens cuja actividade principal é a de de vasculhar na vida alheia, e nas aldeias, onde já restam poucas tabernas e os cafés tem sempre as Tvs ligadas para os programas de que o povo gosta, os utentes estão mais interessados em estar de nariz no ar e olhando para o aparelho.

- Vejo que a Diana, se prefere assim, apesar de estar imersa no meio académico não perdeu o espírito de observação de como a sociedade, dita civil, foi alterando o seu comportamento. Seja qual forem os temas que sirvam de conversa, estou de acordo de que os outros, conhecidos ou desconhecidos, não tem o direito de nos ouvirem, e pior, de interptetar á sua maneira, sempre malévola.

- Isabel, desde que estive na vossa casa no Vale, tenho pensado, quase que com obsessão, na vossa felicidade por terem um espaço desafogado, sem vizinhos de janela, onde possa jardinar e até, como me disse pelo telefone, ter uma pequena horta, mesmo que incipiente, pois que só a prepararam, como surpresa, enquanto estiveram de viagem. Já tem alfaces aptas a irem para a mesa? E rabanetes? E cenouras? E flores de vista e de corte? Digo, sem vergonha na cara que invejo a sua sorte, e sei, por intuição, que até pode ser que descure, mas com cuidado e atenção, os seus anteriores afazeres profissionais para chegar a horas de dar umas voltas pelo seu domínio agrícola.

- Diana. As plantas do meu mini-terreno crescem lentamente, à antiga. Propositadamente não lhes são aplicados adubos químicos nem pesticidas. Quando prepararam o terreno, o feitor disse-me que procurou esterco curtido na vacaria de um vizinho, e até este material, biológico, foi devidamente misturado com a terra a fim de não queimar as raízes. Como certamente sabe, quando o esterco animal, com a palha das camas, fermenta, liberta muito calor; até se vê vapor a fumar. Mas, sem dúvida, confiamos mais nesta “porcaria” orgânica do que nos produtos indiustriais, por muitas garantias de inócuidade que nos digam.

- Chegamos Isabel. Esta leitaria, à antiga, quase nunca tem ninguêm qundo em tempo sem aulas. Vinha aqui quando estudava pois o sossego, mais algum movimento esporádico, ajudava-me a empinar e entender as malditas sebentas, e os pesados códigos.

Prefere um chá ou um leite cremoso, morno e com canela? Eu vou no chá.

- Eu optarei pelo leite com canela. Há muito tempo que não bebo este leite temperado, que era a minha delícia nos meus anos de adolescente. Mas, se não se importa, e atendendo a que quando a ouvi ontem, propondo este encontro, senti que a sua voz estava, digamos que nervosa, perturvada, e daí que, por solidariedade instintiva, também tenha vontade de poder oferecer algum sossego. Caso tiver capacidade para tal.

- Amiga Isabel, creio que não disse nada que indiciasse o que me trazia, e traz, inquieta e preocupada. Mas vejo que o seu instinto lhe anunciou que, de facto, algo havia no horizonte. Bem, em verdade não está tão longe como o horizonte, a trovoada já nos caiu em cima.

A versão curta é que o Sílvio foi transferido para o Porto, como chefe de serviço. Aparentemente é uma promoção, mas nós sabemos que foi um pontapé para a frente, que nos altera a vida fortemente.

A versão média pode ser a seguinte: O inspector Cardoso, que sempre tomou as suas responsabilidades ao pé da letra e, tanto quanto conseguisse, no sentido de se cumprirem as leis vigentes, escreveu o relatório que lhe pediram “lá de cima” sobre o que apurara sobre o escãndalo dos crimes ligados à vossa propriedade. È possível que as conversas que teve com o seu marido o levassem a pensar que, de facto, a nossa sociedade tinha-se adaptado aos tempos modernos, ao século XXI e à democracia. À noção de que a lei tinha que ser igual para todos e a justiça cega, sem olhar de lado como sempre fez.

E por isso deve ter feito um relatório, confidencial, que nem eu tive a possibilidade de ler, onde deve ter descrito o que descubriu e as conclusões a que chegou. Nomeadamente que toda aquela trapalhada, por assim dizer, embora os crimes de morte não sejam coisa de somenos. teve a sua origem numa festa-bacanal onde primavam pessoas não identificadas ou que, prudentemente, não queria identificar, embora existissem alguns indícios muito claros, apontando pessoas concretas, que naquele relatório não figuravam, por uma questão de respeito e prudência.

Fecho da versão estilo Triller: Como sucede que os poderosos, apesar dos processos mediáticos, continuam a ter muita força e não cederam a sua capacidade de influenciar na justiça, nem que para tal tenham que pressionar a quem sabem para que retirem algum juiz ou acusador público para um local afastado, a primeira medida que tiveram, antes de que as coisas chegassem aos jornais, foi a de afastar o Cardoso deste inquérito, e colocar outro inspector da sua confiança.

Repercussões: Eu tenho o meu lugar, o ganha-pão, em Coimbra. E nesta cidade montamos a nossa casa. Agora estamos físicamente afastados. A meia solução de o meu marido ir e vir, diáriamente, seja de comboio ou de carro, é posssível mas cansativa e perigosa se dependente do trânsito, Chega a casa cansado e mal disposto, especialmente chateado com o que lhe fizeram. Não quer falar do trabalho que lhe adjudicaram, pois quase que está delimitado à repressão de carteiristas e residentes clandestinos, como se fosse um polícia de giro, dos da PSP e não da PJ.

Não quis enfrentar as chefias pedindo esclarecimento, pois sabe como a casa se governa. Diriam que em vez de agradecer a promoção (?) falava como se tivesse sido castigado. E, após o tirarem bolas fora ainda lhe mostrariam má cara Por enquanto agora tudo são cínicos sorrisos.

Estamos ambos não digo que desiludidos mas sim que muito desconsolados, até íntimamente ofendidos, com o proceder das altas esferas. Os ares de mudança com que sonhávamos, os dois, cada dia que passou os sentimos mais fétidos. Não se pode esperar que a sociedade mude para a utopia. O peso dos poderosos é muito grande. Podem mudar alguns dos artistas, mas o esquema vemos que permanece igual. Ou pior, pois anos atrás tinha-se a ilusão de que as coisas melhoriam, se tornassem maiss correctas, mas, infelizmente, foi só como a beleza do arco-da-velha, que além de durar uns minutos, nem sequer existe materialmente. Não passa de um efeito de luz.

A desorientação é muita. Não sabemos se transferir a casa de família, pelo menos da que queriamos iniciar, para o Porto ou arredores, sem que antes eu tenha conseguido um lugar na faculdade. Equivalente, ou perto disso, ao que tenho em Coimbra. Ainda não tentei, nem sequer conversamos seriamente os dois sobre esta possibilidade. Tenho no Porto professores conhecidos e o meu curriculum é válido em todo o País.

E de empreitada desabafei consigo. Não tinha outro pano de lãgrimas disponível. Tenho que agradecer a sua amabilidade em não me interromper. E nem sequer me atrevo a lhe pedir um conselho, menos ainda do âmbito profissional. Mesmo assim peço que me de a sua opinião e que esta sirva para nos sossegar, mesmo que a solução esteja ainda por definir.

- Amiga Diana. Sendo franca, tal como se abriu comigo, digo que nada do que me conta me causou estranheza. Asco, raiva, nojo, sim, em quantidade. Mas era de esperar quando vimos o modo como o Dr. Cardoso, ou Sílvio -se aceitar esta falta de tratamento respeituoso, que não é tal, mas antes mostra de amizade- conversava com o meu marido.

José, foi criado num meio familiar muito céptico, pouco iluso quanto à seriedade de muitas pessoas, especialmente daquelas que se consideravam respeitáveis, mas que eram tão venais e velhacos como poderia ser um carroceiro. Coitados estes, que viviam num mundo muito limitado e os seus pecados ou deslizes, mesmo que pudessem chegar a crimes de sangue, eram uma bagatela comparativamente com as capacidades e feitos dos outros

A meu entender, e ainda não tive oportunidade de trocar impressãoes com o José, que insisto é homem com muito mundo, pode ser que neste momento vos convêm manter a calma. Dar sinais de que procuram casa na área do Porto. Que a Diana quer tentar uma transferência para uma faculdade sita no Porto. E o seu marido que faça o papel de satisfeito com a promoção e mostre trabalho que -aos de cima- incite a julgar que de facto está contente com se ver livre dos problemas de provincia. Se assim os fintar, forçosamente terão que lhe proporcionar um rumo mais de acordo com as suas capacidades.

E MUITO IMPORTANTE, manter a boca calada com colegas sobre as suas conclusões acerca do que aconteceu no Vale do Pito. A pasta deve estar fechada num cofre, mais do que dormindo numa gaveta, e ele, o Cardoso, terá que engolir este sapo, tornar-se cínico, nen que seja na apariência,

A outra solução, que não sei se serve, e da qual não tenho o menor conhecimento, é a de tentar entrar numa organização de investigação privada, de preferência de nível internacional. Deve, exsitir. Mas isso é um sonho parvo de quem está fora da jogada.

- Não sabe como agradeço o me ter ouvido e os seus comentários. Estes coincidem, quase que totalmente, com aquilo que tenho andado a moer, e de que pouco falei com o Sílvio, dado que chega a casa com um ar tão pesado e triste que não oferece uma aberta para falar tranquilamente. Agora, depois de estar com a Isabel, já me sinto mais apoiada, mais segura de mim mesma.

- Só lhe dei as minhas pobres opiniões. Que pouco valem e nada adiantam. Mas confio em que vocês, um casal educado e com os pés no chão, conseguirão salvar esta situação. Mesmo que pareça que sou curiosa em excesso, gostaria de saber como avança a vossa vida. Não me leve a mal. Aguardarei as suas notícias.

- Eu é que agradeço a sua disponibilidade e atenção. Não faltarei em lhe dar notícias, sejam boas, menos boas ou mesmo más. Beijinho e dê os meus estimados cumprimentos ao seu marido. Até breve, assim espero.
Próximo capítulo: 66 - A Luísa vai ao ginecologista