domingo, 9 de setembro de 2018

CRÓNICAS DO VALE - cap. 66




Luísa vai ao ginecologista

Boa tarde Doutor. Agradeço que me tenha atendido sem ter pedido uma marcação prévia. Mas carecia da sua opinião profissional.

E de que se queixa a Senhora Luísa Maragato, que como seja que a sigo, profissionalmente, durante bastantes anos e sei que, felizmente, é uma paciente sem grandes problemas, merece ser atendida quanto antes. Não é uma questão de passar à frente, mas sim de desejar poder fazer um diagnóstico rápido e tranquilizador. Diga pois da sua preocupação.

Tenho a impressão e os tests de compra livre confirmam, que estou de esperanças, ou mais claramente que engravidei, sem ser por obra e graça do Espírito Santo.

Faça o favor de se deitar. Pode ficar com a roupa de baixo, se assim desejar. Pois só pretendo apalpar este abdómen. Está um pouco dilatado. Quanto tempo pensa que está com falta do periodo?

Umas seis semanas a partir do último fluxo. E habitualmente sou muito certa, com os antigos relógios suíços.

O melhor é fazer uma ecografia simples, daquelas que nos mostram se é menino ou menina. A minha enfermeira a acompanhará. Ora, vejamos o que o bisbilhoteiro interno nos diz. Para já, não está de facto grávida de verdade, mas o meu diagnóstico é que deve ter uma falsa gravidez, uns sintomas provocados por uma tensão psíquica intensa ou algum problema fisiológico que teremos que pesquisar. Pode descer e vestir-se, se faz favor.

Doutor, tem a certeza do que me disse. Posso estar tranquila acerca desta gravidez, que não vinha muito a calhar, mas que teriamos que assumir por uma questão de respeito à vida indefesa?

Para já terei que lhe tirar sangue e pedir que nos facilite a urina agora e outra de manhâ em jejum. Só para despistar e poder identificar, caso ecxista, o problema que devemos tratar. Por hoje, além da amostra de sangue, lhe darei uns comprimidos. Estes três, para que tome um logo hoje ao deitar, outro ao pequeno almoço e o terceiro novamente à hora da deita.

A enfermeira vai tirar o sangue. É uma artista nisso; e, não esqueça de nos trazer a urina da noite. E, recomendo, amigávelmente, que fique tranquila. Verá que isto fica novamente regularizado.


Não me sinto descansada. Desta história das gravidezes imaginadas já ouvi falar, mas pensei que era moléstia de freiras e outras pessoas atreitas a ficar histéricas. Tenho que procurar o que dizem na Internet sobre as falsas gravidezes. Mas tampouco me parece que tudo o que escrevem ali seja merecedor de crédito às cegas.

No noticiário da rádio do carro dizem que já escolheram o novo presidente do Sporting. Não faço ideia de quem é esta personagem; mas este clube, desportivo (?), tem andado numa rebaldaria excessíva. Não sou adepta de nenhum clube, mas dos nomes que se apresentaram havia um que, de imediato, eu riscaria. Era aquele do clâ dos Espírito-Santo que carrega um apelido italiano. Não me inspira a mínima confiança. De qualquer modo este mundo da bola é atrito a sujeiras, se acreditarmos nas notícias dos jornais especializados, e dos outros, que também lhes interessa chafurdar neste campo pois sabem que vende papel, e não há publicação que se aguente sem um volume de vendas já não digo bom, mas razoável. Para já, dos três grandes aparecem sempre comentários, notícias falsas ou propositadamente inchadas, para satisfazer todos os fanáticos.

Pararei em Aveiro e depois na Vila para dar uma olhadela de patroa, sem avisar, arriscando-me a encontrar surpresas pouco agradáveis. Não tenho a intenção de espiolhar; só quase que cumprimentar e olhar nas entre-linhas. E depois CASA, que quero tranquilizar a mente.

Ao Zé só lhe contarei o que se conversou, ou quase exclusivamente ouvi, da amiga Diana. Não houve surpresas. Mas é lamentável confirmar as nossas suspeitas, concretamente que os tais poderes ocultos existem e tem muita força.




sexta-feira, 7 de setembro de 2018

CRÓNICAS DO VALE - Cap. 65



Isabel e Diana

- Vou encontrar-me com a Diana Cardoso. Veremos se a vontade de falar desta amiga recente, mas que parece fixe, corresponde ao que o José imaginou. Confesso que com alguma probabilidade de ter razão. Está parada à porta da dita lanchonete. Pelos vistos não quis entrar, o que prenuncia que será noutro local, mais recatado, que deseja poder trocar as nossas ideias.

Bom dia, Doutora Diana, desculpe se cheguei atrasada, mas apanhei algum transito e alguma dificuldade para encontrar uma vaga nos parques pagos. Parece que, com a mudanço do tempo todos pensaram em por o carro a rodar.

- Cheguei mesmo agora e peço, por favor e amizade, que não me trate com cerimónias. Falemos como amigas, como se nos conhecessemos da infância. As poucas horas em que pudemos conversar, descontraídamente, ficaram-me marcadas dum mdo indelével. Se não se importa, pensei que era melhor sentarmo-nos num local menos concorrido.

Eu já tenho ideia de onde podemos conversar sem olhares e ouvidos indiscretos. É que esta terra é como uma aldeia, ou pior, pois aqui além de se conhecerem todos entre si, existem personagens cuja actividade principal é a de de vasculhar na vida alheia, e nas aldeias, onde já restam poucas tabernas e os cafés tem sempre as Tvs ligadas para os programas de que o povo gosta, os utentes estão mais interessados em estar de nariz no ar e olhando para o aparelho.

- Vejo que a Diana, se prefere assim, apesar de estar imersa no meio académico não perdeu o espírito de observação de como a sociedade, dita civil, foi alterando o seu comportamento. Seja qual forem os temas que sirvam de conversa, estou de acordo de que os outros, conhecidos ou desconhecidos, não tem o direito de nos ouvirem, e pior, de interptetar á sua maneira, sempre malévola.

- Isabel, desde que estive na vossa casa no Vale, tenho pensado, quase que com obsessão, na vossa felicidade por terem um espaço desafogado, sem vizinhos de janela, onde possa jardinar e até, como me disse pelo telefone, ter uma pequena horta, mesmo que incipiente, pois que só a prepararam, como surpresa, enquanto estiveram de viagem. Já tem alfaces aptas a irem para a mesa? E rabanetes? E cenouras? E flores de vista e de corte? Digo, sem vergonha na cara que invejo a sua sorte, e sei, por intuição, que até pode ser que descure, mas com cuidado e atenção, os seus anteriores afazeres profissionais para chegar a horas de dar umas voltas pelo seu domínio agrícola.

- Diana. As plantas do meu mini-terreno crescem lentamente, à antiga. Propositadamente não lhes são aplicados adubos químicos nem pesticidas. Quando prepararam o terreno, o feitor disse-me que procurou esterco curtido na vacaria de um vizinho, e até este material, biológico, foi devidamente misturado com a terra a fim de não queimar as raízes. Como certamente sabe, quando o esterco animal, com a palha das camas, fermenta, liberta muito calor; até se vê vapor a fumar. Mas, sem dúvida, confiamos mais nesta “porcaria” orgânica do que nos produtos indiustriais, por muitas garantias de inócuidade que nos digam.

- Chegamos Isabel. Esta leitaria, à antiga, quase nunca tem ninguêm qundo em tempo sem aulas. Vinha aqui quando estudava pois o sossego, mais algum movimento esporádico, ajudava-me a empinar e entender as malditas sebentas, e os pesados códigos.

Prefere um chá ou um leite cremoso, morno e com canela? Eu vou no chá.

- Eu optarei pelo leite com canela. Há muito tempo que não bebo este leite temperado, que era a minha delícia nos meus anos de adolescente. Mas, se não se importa, e atendendo a que quando a ouvi ontem, propondo este encontro, senti que a sua voz estava, digamos que nervosa, perturvada, e daí que, por solidariedade instintiva, também tenha vontade de poder oferecer algum sossego. Caso tiver capacidade para tal.

- Amiga Isabel, creio que não disse nada que indiciasse o que me trazia, e traz, inquieta e preocupada. Mas vejo que o seu instinto lhe anunciou que, de facto, algo havia no horizonte. Bem, em verdade não está tão longe como o horizonte, a trovoada já nos caiu em cima.

A versão curta é que o Sílvio foi transferido para o Porto, como chefe de serviço. Aparentemente é uma promoção, mas nós sabemos que foi um pontapé para a frente, que nos altera a vida fortemente.

A versão média pode ser a seguinte: O inspector Cardoso, que sempre tomou as suas responsabilidades ao pé da letra e, tanto quanto conseguisse, no sentido de se cumprirem as leis vigentes, escreveu o relatório que lhe pediram “lá de cima” sobre o que apurara sobre o escãndalo dos crimes ligados à vossa propriedade. È possível que as conversas que teve com o seu marido o levassem a pensar que, de facto, a nossa sociedade tinha-se adaptado aos tempos modernos, ao século XXI e à democracia. À noção de que a lei tinha que ser igual para todos e a justiça cega, sem olhar de lado como sempre fez.

E por isso deve ter feito um relatório, confidencial, que nem eu tive a possibilidade de ler, onde deve ter descrito o que descubriu e as conclusões a que chegou. Nomeadamente que toda aquela trapalhada, por assim dizer, embora os crimes de morte não sejam coisa de somenos. teve a sua origem numa festa-bacanal onde primavam pessoas não identificadas ou que, prudentemente, não queria identificar, embora existissem alguns indícios muito claros, apontando pessoas concretas, que naquele relatório não figuravam, por uma questão de respeito e prudência.

Fecho da versão estilo Triller: Como sucede que os poderosos, apesar dos processos mediáticos, continuam a ter muita força e não cederam a sua capacidade de influenciar na justiça, nem que para tal tenham que pressionar a quem sabem para que retirem algum juiz ou acusador público para um local afastado, a primeira medida que tiveram, antes de que as coisas chegassem aos jornais, foi a de afastar o Cardoso deste inquérito, e colocar outro inspector da sua confiança.

Repercussões: Eu tenho o meu lugar, o ganha-pão, em Coimbra. E nesta cidade montamos a nossa casa. Agora estamos físicamente afastados. A meia solução de o meu marido ir e vir, diáriamente, seja de comboio ou de carro, é posssível mas cansativa e perigosa se dependente do trânsito, Chega a casa cansado e mal disposto, especialmente chateado com o que lhe fizeram. Não quer falar do trabalho que lhe adjudicaram, pois quase que está delimitado à repressão de carteiristas e residentes clandestinos, como se fosse um polícia de giro, dos da PSP e não da PJ.

Não quis enfrentar as chefias pedindo esclarecimento, pois sabe como a casa se governa. Diriam que em vez de agradecer a promoção (?) falava como se tivesse sido castigado. E, após o tirarem bolas fora ainda lhe mostrariam má cara Por enquanto agora tudo são cínicos sorrisos.

Estamos ambos não digo que desiludidos mas sim que muito desconsolados, até íntimamente ofendidos, com o proceder das altas esferas. Os ares de mudança com que sonhávamos, os dois, cada dia que passou os sentimos mais fétidos. Não se pode esperar que a sociedade mude para a utopia. O peso dos poderosos é muito grande. Podem mudar alguns dos artistas, mas o esquema vemos que permanece igual. Ou pior, pois anos atrás tinha-se a ilusão de que as coisas melhoriam, se tornassem maiss correctas, mas, infelizmente, foi só como a beleza do arco-da-velha, que além de durar uns minutos, nem sequer existe materialmente. Não passa de um efeito de luz.

A desorientação é muita. Não sabemos se transferir a casa de família, pelo menos da que queriamos iniciar, para o Porto ou arredores, sem que antes eu tenha conseguido um lugar na faculdade. Equivalente, ou perto disso, ao que tenho em Coimbra. Ainda não tentei, nem sequer conversamos seriamente os dois sobre esta possibilidade. Tenho no Porto professores conhecidos e o meu curriculum é válido em todo o País.

E de empreitada desabafei consigo. Não tinha outro pano de lãgrimas disponível. Tenho que agradecer a sua amabilidade em não me interromper. E nem sequer me atrevo a lhe pedir um conselho, menos ainda do âmbito profissional. Mesmo assim peço que me de a sua opinião e que esta sirva para nos sossegar, mesmo que a solução esteja ainda por definir.

- Amiga Diana. Sendo franca, tal como se abriu comigo, digo que nada do que me conta me causou estranheza. Asco, raiva, nojo, sim, em quantidade. Mas era de esperar quando vimos o modo como o Dr. Cardoso, ou Sílvio -se aceitar esta falta de tratamento respeituoso, que não é tal, mas antes mostra de amizade- conversava com o meu marido.

José, foi criado num meio familiar muito céptico, pouco iluso quanto à seriedade de muitas pessoas, especialmente daquelas que se consideravam respeitáveis, mas que eram tão venais e velhacos como poderia ser um carroceiro. Coitados estes, que viviam num mundo muito limitado e os seus pecados ou deslizes, mesmo que pudessem chegar a crimes de sangue, eram uma bagatela comparativamente com as capacidades e feitos dos outros

A meu entender, e ainda não tive oportunidade de trocar impressãoes com o José, que insisto é homem com muito mundo, pode ser que neste momento vos convêm manter a calma. Dar sinais de que procuram casa na área do Porto. Que a Diana quer tentar uma transferência para uma faculdade sita no Porto. E o seu marido que faça o papel de satisfeito com a promoção e mostre trabalho que -aos de cima- incite a julgar que de facto está contente com se ver livre dos problemas de provincia. Se assim os fintar, forçosamente terão que lhe proporcionar um rumo mais de acordo com as suas capacidades.

E MUITO IMPORTANTE, manter a boca calada com colegas sobre as suas conclusões acerca do que aconteceu no Vale do Pito. A pasta deve estar fechada num cofre, mais do que dormindo numa gaveta, e ele, o Cardoso, terá que engolir este sapo, tornar-se cínico, nen que seja na apariência,

A outra solução, que não sei se serve, e da qual não tenho o menor conhecimento, é a de tentar entrar numa organização de investigação privada, de preferência de nível internacional. Deve, exsitir. Mas isso é um sonho parvo de quem está fora da jogada.

- Não sabe como agradeço o me ter ouvido e os seus comentários. Estes coincidem, quase que totalmente, com aquilo que tenho andado a moer, e de que pouco falei com o Sílvio, dado que chega a casa com um ar tão pesado e triste que não oferece uma aberta para falar tranquilamente. Agora, depois de estar com a Isabel, já me sinto mais apoiada, mais segura de mim mesma.

- Só lhe dei as minhas pobres opiniões. Que pouco valem e nada adiantam. Mas confio em que vocês, um casal educado e com os pés no chão, conseguirão salvar esta situação. Mesmo que pareça que sou curiosa em excesso, gostaria de saber como avança a vossa vida. Não me leve a mal. Aguardarei as suas notícias.

- Eu é que agradeço a sua disponibilidade e atenção. Não faltarei em lhe dar notícias, sejam boas, menos boas ou mesmo más. Beijinho e dê os meus estimados cumprimentos ao seu marido. Até breve, assim espero.
Próximo capítulo: 66 - A Luísa vai ao ginecologista



quinta-feira, 6 de setembro de 2018

MEDITAÇÕES - não bate certo



Não sei como os cidadãos menos abastados avaliaram as repetidas notícias, que a meu entender são alarmantes, e não um sintoma de corporativismo. Refiro concretamente as sucessivas demissões, em grupo, dos responsáveis de hospitais civis, ou seja daquelas unidades de cuidados de saúde que dependem para o seu funcionamento directamente do Ministério da Saúde, e portanto das cerbas aprovadas quando se discutiu o Orçamento Geral do estado. Verbas que, de facto, lhes deveriam ser atribuídas para poderem não só tratar os pacientes que ali se acolhem mas, indispensável, poder abastecer-se dos artigos necessários, desde medicamentos, meterial de consumo, equipamentos funcionais e conseguir os elementos humanos sem os quais é difícil ou impossível manter aquelas unidades hospitalares funcionais.

Isto parece tão claro e evidente que, tendo no governo um conjunto de forças que se auto-qualificam de esquerda, e sendo uma das premissas desta facção social o garantir os cuidados de saúde, ajam perversamente em oposição factual ao aprovado no tal Orçamento Geral do Estado. Com o intuito de ganhar méritos contabilísticos perante os credores, retiraram uma parte das verbas teóricamente atribuídas em muitos departamentos. Chamam a esta manobra sibilina, o aplicar cativações.

Este truque aritmético consiste, traduzido na linguagem normal, em dar com uma mão e tirar de imediato com a outra. Agindo assim é impossível cumprir um plano de acção sério. Anda coxo logo à partida.

São muitos os serviços que se queixam desta diminuição efectiva de verbas disponíveis. Podemos admitir, sem que o País caia, que se corte no orçamento real da “cultura”. Que os museus tenham que manter salas fechadas por não ter o quadro de vigilantes completo. Que as companhias de teatro, ballet ou orquestras estejam na penúria por falta de apoio monetário; que não se possam subsidiar filmagens ou restauros considerados urgentes; etc.

Mas que os cidadãos carentes de cuidados de saúde vejam que não podem ser atendidos nos hospitais, e outras unidades de saúde, por carência de meios, e se tente justificar este crime social pelo propósito de ficar bem qualificados perante quem nos avalia, é inaceitável. E se os sindicatos, sejam filiados na CGTP,na UGT ou Independentes (teóricamente) fazem greves, pressionam e conseguem, se não tudo aquilo que reclamam pelo menos uma fracção a fim de que se calem, nem que seja por um periodo de tempo relativamente curto, o que podem fazer os doentes?

A greve do doente deve ser o morrer sem assistência. Quem se importa na governação? A opção, para aqueles que tenham uma reserva económica com uma certa magnitude, é a de poder procurar tratamento junto das unidades de saúde particulares, privadas, cujas contas são, posteriormente, cobertas pelos cofres do estado. Assim,pelo caminho, há quem lucre com a desgraça alheia. Bacano!

Os críticos, apoiantes indirectos ou camuflados, das habilidades do ministro -agora a tempo parcial, enquanto sorri com toda a dentadura- dirão que desde os médicos às equipas de enfermagem e de diagóstico, são muitos aqueles que, mesmo sem estarem em greve, prestam o seu trabalho profissional nos hospitais privados. Centros estes que constantemente aliciam os profisiionais que foram preparados pelo estado. A estes denunciantes podiamos perguntar: que entendem que deviam fazer estes membros dos quadros hospitalares, quando não os contratam ou não são remunerados como na concorrência -que sabemos joga com as costas e as contas quentes, garantidas pelas verbas do estado- para sobreviver e tirar proveito económico da sua capacidade profissional?

E este esquema, além de outros também do domínio público, funciona com o beneplácito duns elementos que se proclamam como tendo um intenso sentindo, um pendor, social; preocupados com os problemas dos mais desfavorecidos. Pelo menos, aqueles que aceitam, claramente, a sua vocação direitista, não tentam enganar o pessoal.

Uma vergonha. Não que aconteça isto, mas pior, o facto de não existir um sentimento geral de repúdio e revolta. Que vale o fingir que estamos no bom caminho quando se sacrificam os serviços essenciais?



CRÓNICAS DO VALE – cap. 64



No sossego da casa

- Boa tarde Dona Idalina Benditos os olhos que a vejam, que por acaso, entre outros, estão os meus! Então como vão os preparativos para a ceia? Certamente que já falou directamente com a dona da casa, mas não sei se lhe referiu que almoçamos na casa da Dona Gertrudes, na Vila, e nos deixou empanturrados. De maneira que o mais aconselhável é que seja, de facto, uma ceia leve.

- Boa Tarde. Menino Doutor José. Nesta casa já se sentia falta da sua boa disposição, das suas brinncadeiras de eternamente jóvem. Desde criança que sempre ouvi as suas graças, nunca ofensivas, se bem que algumas as repetia vezes sem conta. Quanto ao jantar, está tudo em andamento, como combinei com a menina Luísa. Mas tem tempo de descansarem uns minutos -ji ji ji- e tomarem um banho refrescante, caso a pressa para cear não seja muita.

- Gosto deste tratamento de menina, faz-me sentir mais nova. Seria agradável não fosse que tenho uma novidade que nem sequer o meu marido conhece. A Idalina deve ter conhecido casais em que, depois da esposa já pensar que o seu periodo de fertilidade tinha terminado, súbitamente e sem ter tido sinais de alarme, sentiu que estava de esperanças! Pois parece que é o que me está acontecendo. Já fiz a prova da farmácia, por três vezes seguidas, e parece que está confirmado. Uma vergonha! Já com idade de ser avó e poder mimar netos, vai daí o seu menino José deu-me uma prenda que não entrava nos nossos projectos.

Tenho um compromisso marcado em Coimbra e aproveitarei para visitar o ginecologista, que já me espreitou para dentro demasiadas vezes. Oxalá seja um falso alarme Rezarei, eu que não sou de crenças e menos de igrejas, para que aconteça o que já li naquelas revistas sem préstimo que temos nos salões: que por vezes o teste dá positivo mas, por outras causas, e não corresponde a uma gravidez.

E tu, José Maragato, escusas de fazer caretas. Não te espantes nem tenhas ilusões. O que precisas é de netos, e seria bom que insinuasses este desejo ao Bruno e à Luísa, pois esta demora que hoje se tornou habitual em muitos jóvens na sociedade evoluída, já maduros, conduz a que lhes cheguem as crianças quando já quase não tem vontade nem tempo de lhes dedicar atenção, e principalmente brincarem, os carregarem às cavalitas, ensinar-lhes a andar de biciclete, depois de treinar no triciclo, e colaborarem nas brincadeiras do faz de conta, que é uma forma de crescerem.

Vamos ao banho e a Idalina pode dar uma meia hora, comprida, para os nossos preparativos e descanso, que esta coisa de andar de um lado para outro com o carro também já cansa.

José, agora sem testemunhas, tenho que te fazer um pedido pessoal. Já te contei que nunca tive a oportunidade de ter um jardim à minha conta. Fiquei muito contente com a surpresa que o Ernesto me deu quando regressamos da nossa adiada viagem de noivos. Não passa dia em que eu deixe de visitar, e mais do que uma vez, os canteiros e as flores. É uma alegria ver como surgem os pequenos botões, que engordam até se abrirem em flores.

Apanhar uns coentros ou um raminho de salsa para colaborar na cozinha, é uma emoção que não podes imaginar. E sem falar nas galinhas poedeiras que a Idalina comprou a uma sua amiga que mora perto de nós. Ah! E um galote já desafiador, que não gosta que se entre no capoeiro para recolher os ovos. Os que moram num andar na cidade, ou mesmo na Vila caso não tenham um quintal anexo, não sabem o que perdem. O contacto com a natureza é um complemento importante na nossa vida. E, tal como parece que me acontece, uma das galinhas está no choco. A Idalina não tem a certeza de se os ovos estão devidamente galados, ou fertilizados sendo mais cultivado. Mas eu aposto no jovem galo, pois passa o dia montado nas galinhas.

- Falas tanto que não consigo absorver tudo o que dizes, e mesmo assim fiquei com a impressão de que guardaste a cereja do discurso para o fim. Por isso, continuarei calado, à espectativa.

- Zé, es um fulano muito vivido e vês de longe. Mas esta minha vontade é quase impossível que a tenhas imaginado. Como sabes fui comprando livrinhos de jardinagem e horta; já tenho uma mini biblioteca, e todos foram tidos, não como a maior parte dos volumes que se encontram expostos nas casas particulares. Alguns só tem a lombada! Pois destes livros e da paixão para as flores surgiu o interesse em ter uma mini-estufa no jardim. Já pensei onde a podiamos instalar e pedi folhetos a casas especializadas. Gostaria de ter orquídeas e cactos que não aguentam o inverno, de saber orientar as regras e o aquecimento, solar se possível. E esta mania, loucura se quisermos, ainda custa uns cobres largos. Gostaria de que autorizasses o meter-me nesta aventura e que fosse eu a financiar. Em vez de trocar de carro, por capricho, ou actualizar o vestuário como uma vítima das modas, preferiria avançar neste terreno que desconheço.

- Muitas novidades num só dia, ou em poucos minutos. Para já esta surpresa de poder vir a sermos pais em vez de avós, pelo menos eu, que tu tens mais de dez anos de diferença sobre este velho. E depois esta febre na agricultura que despontou em ti. Ambas novidades são um espanto, mas que darei o meu apoio. Na condição de que tu trates de contratar e gerir a estufa, ao teu gosto, mas com o apoio de alguém conhecedor deste ramo especial da floricultura, e depois que seja eu o financeiro responsável.

- Querido marido, sinto-me lisonjeada, mais uma vez, pelo modo simpático e carinhoso com que acolhes as minhas propostas. Quanto ao apoio técnico creio que o tenho garantido. Uma das minhas clientes do salão tem um filho, licenciado numa faculdade de couves e vinhas, agrícola se preferires, que, curiosamente, estagiou numas estufas que uns holandeses -que são uns barras nesta coisa- montaram num sapal entre Aveiro e Murtosa. Ouvi a mamá e não abri o meu jogo até falar contigo, mas tenho o palpite de que, pelo menos na instalação e num apoio ao jeito de avença, poderia contar com este moço, ou com algum colega dele se o recomendasse.

- Não sei se conseguirei digerir todo este chorrilho de histórias que me enfiaste sem respirar. Para já vamos à ceia e necessito de um gin-tónico para entrar em sintonia. E, por favor, hoje não me contes mais novidades, a não sei que desejas que tenha um AVC e fique por aí sentado com a boca torcida.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

CRÓNICAS DO VALE - cap. 63




Com a Isabel

Não posso dizer que saí da Judiciária mais tranquilo do que ao entrar. Mas desabafei contando a minha verdade e eles, seja o Cardoso ou o Quaresma, que cozinhem as coisas como entendam ou como lhes permitam, caso lhes entreguem um roteiro concreto para seguirem sem se desviarem. Para já vou ligar à Isabel para a tranquilizar, e também para eu tirar algum do azedume que aquela casa me deixou na boca.

Isabel, já estou na rua. Não foi desta que estrei os calabouços. E quero me encontrar contigo, almoçar e conversar. Donde estás? Diz-me donde nos podemos encontrar e a que horas. Eu posso fazer tempo visitando os teus conhecidos advogados. Mas esta visita pode esperar para outra ocasião. Fico aguardando pela tua chamada. Para já entrarei num café para relaxar junto de uma bica ou um cimbalino. Já não sei o que se diz em cada terra. Até já.

Zé, estou em Aveiro e tenho alguns assuntos a tratar antes do almoço. Nada de grave, mas já sabes que é conveniênte nunca deixar a cavalgadura sem manter as rédeas na mão. Todos e todas são excelentes pessoas, mas convêm afastar as tentações. E mesmo com cuidados não estamos resguardados de aborrecimentos. Bem aconselham (em 1780) Hum olho há de Dormir, e com o outro vigiar.

Seja como for, podemos almoçar na Vila, no “restaurante típico” CALECHE da Dona Gertrudes. Depois daquele almoço “social” no armazém da tua propriedade fiquei devedora das atenções que esta Senhora nos dedicou. O que não obstou a que pagassemos todas as contas que foram surgindo. Espero por ti entre a uma e uma e meia.

Cheguei! Como diziam num anúncio qualquer ou num programa brasileiro. Espero que aquelas quase duas semanas de andar de um lado para outro já tenham acalmado. Já tinha saudade do tal conforto do lar e de dormir acompanhado por uma pessoa amada. Ficou um bocado melosa esta frase, mas não me ocorreram palavras mais impessoais. Vamos trocar uma beijoca, e quero ouvir primeiro as tuas novidades.

Nos salões as coisas estavam normais. Tinha algumas decisões a tomar, sem ser o dos templários. Mas os anos de experiência neste ramo já me abriram caminho para me orientar, mesmo em mar revolto. Que não era o caso de hoje. Felizmente.

A única novidade, que pode ser interessante, é que mal desligaste tocou o telefone com a voz da Drª Diana, a esposa do Cardoso. Não esperava este contacto. Mas ela pediu-me que gostaria, se possível, encontrarmo-nos amanhã à tarde, em Coimbra, numa lanchonete da Rua das Montras, que sei qualé mas que, neste momento, não me surge o nome -sabes que já sinto brancas de memória? A idade já se faz notar, e não quero aceitar que caminho para a decrepitude, tal como acontece logo que nascemos- Ficamos em nos ver às quatro da tarde. Mas não me adiantou nada de nada. Não sei se eu estava com ouvidos a desconfiar ou se simplesmente prefere conversar cara-a-cara. Sabes que gostei desta Senhora, que não se armava em importante apesar de dar aulas na faculdade. E, possívelmente por eu a ter em excelente conta fez que a sentisse para o triste. Aguardaremos por amanhâ.

Se calhar não é necessário manteres-te na espectativa. Ontem soube coisas que podem ter influênciado desagradávelmente a este casal. Mas, por favor, o que ouvires de mim guarda no fundo do saco. Não faças como é costume em muitas mulheres. Logo que a sua interlocutora começa a rezar o seu terço, interropem dizemdo: já sabia disso!ortam a palavra e é muito desagradável. Coisas de mulheres, e de alguns homens.

Ao longo da entrevista-interrogatório na PJ de Coimbra, agora com um novo inspector responsável do inquérito no caso dos mortos colocados nos terrenos do Vale do Pito. Este chama-se Emílio Quaresma e faz o possível para se mostrar simpático e compreensivo. Nunca fiando com estas gentes, que foram escolhidos e treinados para não mostrar o seu jogo. Não quero dizer que joguem sujo, mas que trazem ases na manga podes ter a certeza, e isso quando não jogam com dois baralhos, como na canasta, ou mesmo três.

Este Quaresma comunicou-me que o Cardoso foi destacado para a central do Porto (aqui devem estar as razões de tristeza da esposa Diana) De imediato cheirou-me a um pontapé para a frente, possívelmente porque o Cardoso se mostrou relutante para deixar esquecer o tema, dado que, obviamente, tinha que haver gente importante, de peso e influência, aue estando implicados não desejavam aparecer nas gazetas. O dossié do Vale foi-lhe entregue a ele, Quaresma. Ele disse que depois de ler, atentamente, o que estava relatado na pasta, ficou com algumas dúvidas a meu respeito.

Depois de conversarmos, ou mais propriamente, eu desbobinar a minha verdade e as minhas deduções, que ele afirmou estavam coincidentes com o relatório que guardava fechado à sua frente, acabou por dizer que o colega Cardoso lhe disse, abertamente, que me chamasse e procurasse em mim, directamente, esclarecer o que para ele não estava claro, ou tão diáfano como gostaria.

E ao longo da longa hora que estive no seu gabinete não saiu disso, do que está nos autos. No fim dei uma dica sobre as pressões que supunha que as pessoas no seu posto recebiam quando os asuntos a inquirir podiam atingir círculos que não apreciavam serem apresentados em público. Ficou calado como um rato -de esgoto?- e quis despedir-se saíndo da sua mesa e pedindo um abraço que, acompanhou com umas palavras de apreço e concordância com as minhas reticências, bem justificadas, de sentir que aquilo tudo, onde se mataram pessoas, além das bacanais infames, podia terminar esquecido no fundo de uma gaveta.

E agora, querida Isabel, eu quero descarregar a tensão e almoçar com outros temas menos aborrecidos. Dado que chegaste primeiro admito que já deves ter conversado com a “Trudes”, como diziam os rústicos mas agora todos já falam à lisboeta como lhes ensinou a televisão. Daí que aposto em que já escolheste uma ementa para este almoço. Estou nas tuas mãos, sabendo que terás feito uma boa selecção de petiscos.


segunda-feira, 3 de setembro de 2018

CRÓNICAS DO VALE – cap. 62




O depoimento

Boa tarde. Entregaram esta convocação em casa. E cá estou eu, como prova o meu cartão de cidadão.

Faça o favor de aguardar nesta saleta. Vou avisar o Inspector.

- Dr. José Maragato, não é assim?

- Poderia ser, mas não é. Pela simples razão de que apesar de ter frequentado a Universidade nunca cheguei a conquistar o canudo. Devo ser o único que se matriculou, várias vezes, que se mascarou de seminarista, com a capa e batina. Que desistiu por falta de vocação. E apesar disso não aceita de bom grado o título -honorífico?- de Doutor (seria da mula ruça). Escapei da palhaçada Felizmente na minha época de “estudante” escapei da palhaçada das tunas, copiada dos espanhóis.

- Pois Sr. José Maragato, sem doutor. Sou o Inspector Quaresma, e foi-me atribuído o papel de instrutor do processo aberto, em seu dia, pelo meu colega Dr. Cardoso, que, depois de um curto periodo de férias, foi destacado para a secção do Porto. Digamos que foi promovido. Indiquei que o chamassem porque gostaria que me esclarecese alguns pontos, um pouco anormais, que encontrei ao estudar o processo.

- Mas, antes de entrar nos tais esclarecimentos, eu quero saber se sou arguido, pois se for este o caso, creio que posso requerer a presença dos meus advogados.

- Calma, Senhor Maragato. Nada de arguido nem de testemunha. Verá que só pretendo tocar em questões de segunda ou terceira linha. Mesmo assim, se a certa altura preferir ter aqui os seus advogados interromperei a conversa e marcaremos outra data. Verá que não há razões para recear.

- O Dr. Quaresma, Emílio segundo reza na placa sobre a mesa, é que fará as perguntas e, como imagina, os que tem em frente, neste caso eu, podemos desconfiar da fartura, ou da simpatia e empatia que emanem da pessoa que pergunta, ou interroga sendo mais correcto. Dispare!

- O que consta nos autos e que me causou alguma admiração é que o Sr. Maragato, desde o primeiro momento não se mostrou admirado com a encenação, e até se adiantou de motu próprio a dar uma explicação à lamentável farsa montada com o primeiro cadáver. Quando lemos o relato fica-se com a ideia de que sabia do assunto antes dos cães terem encontrado o morto, muito mal enterrado. Pode explicar esta situação?

- Não sei o que escreveram nos autos, mas eu dei, de imediato, ao Dr. Cardoso a minha dedução e as razões que me levaram a pensar daquela forma. Para já o meu feitor, mais os homens que já se encontravam junto do morto, reconheceram quem era. E curiosamente tratava-se de um conhecido travesti, possívelmente homosexual, que desfilava sacoroteando em estilo de sambista carnavalesca do Rio, em trajos reduzidos. Mostrava ter sido mutilado e abusado, se se pode dizer, antes de ser sacrificado. Instintivamente e porque há muitas décadas que deixiei de chuchar no dedo, deduzi que aquele crime não era obra de um rústico qualquer. Ali havia mostras de sadismo “educado”.

Chegado a este ponto recordei que pouco tempo antes veio ter comigo um desconhecido, que se intitulava como sendo um intermediário de compra e venda de propriedades, sem jamais se identificar e muito menos dar um cartão de empresa. Queria saber se estava disposto a vender a casa, mais o armazém que está ao lado; quantos quartos de cama havia, as casas de banho, os salões, e por aí fora. Tive que lhe travar os pés dado que não estava nos nossos planos vender a propriedade. Se fosse coisa séria o paleio seria outro.rr

Logo com o primeiro morto já desconfiei que alí havia uma tentativa de nos espantar e desvalorizar o prédio. E, como disse logo ao Dr. Cardoso, comecei a atar cabos e imaginar que os dois acontecimentos estavam ligados, e possívelmente a festanças da alta.

Como ve, nada que outro cidadão, experiente na vida e conhecedor de ambientes mais “evoluídos” do que o das aldeias, não pudesse magicar. Se estava certo ou errado, o tempo iria confirmar. Mas sempre, e repito, dei parte ao Dr. Cardoso das minhas deduções. Suponho, ou gostaria, que nos relatórios constassem as minhas palavras de forma clara e sem deixar pontos escuros. Mas, posso tentar esclarecer mais algum detalhe caso o Dr. Quaresma entenda que seria conveniente.

- Senhor Maragato, como pode imaginar, não lhe posso deixar ler os documentos que estão nesta pasta. Mas confirmo que, mais palavra menos adjectivo, o que aqui encontro condiz com o que me relatou de viva voz. A minha ex sitação tinha como razão que não é nada vulgar encontrar pela frente um cidadão que se atreva a pensar, e ainda a deduzir unindo situações aparentemente desconexas, e muito menos que as manifeste tão expontâneamente como se falasse do último desafio de futebol entre dois rivais. O Senhor mostra ter muito mundo no seu arquivo mental, e ainda não ficar perante a autoridade com os joelhos a tremer.

Continuando a ler o processo, são várias as referências a seu respeito, e sempre positivas. Até encontrei uma, bastante velada, em que parece que sugeriu ou mesmo fez a diligencia de propor a colaboração, interessada como é evidente, dos ciganos desta zona para vigiar uns forasteiros que se via estarem directamente ligados aos crimes de morte. Segundo é descita foi uma gestão combinada, mas encapotada, que deu bons resultados.

Como já disse, o Dr. Cardoso só deixou escritos bons pareceres a seu respeito. Ou seja, nada de ser arguido. Mas fiquei com muita curiosidade e vontade de o conhecer pessoalmente. Pode ser bom a representar ou merece a nossa estima. E dou o encontro por terminado, agradecendo a sua comparência.

- Tudo muito bonito. A baba já me deve cair pelo queixo abaixo. E permita a brincadeira ou falta de respeito. Mas, não sinto que ao fechar a pasta eu possa ficar sarisfeito. Então, e o resto do filme? Saímos no intervalo, fazemos um xixi e vamos para casa? E os autores putativos, os mandantes? Quando vislumbrei que aquela primeira morte, e depois as que se seguiram, estavam ligadas a uma versão actualizada dos famosos ballet rose de outro tempo, senti a ilusão de que desta vez as coisas não morressem numa gaveta. E desta feita houve mortes!

Como disse antes, e creio que por duas vezes, eu não nasci ontem, e fui criado por militares que tiveram que sair do seu país por discordarem. Há sentimentos em mim que estão recalcados de gerações. Mas isso não impede que seja consciente das pressões que vos travam, e, dando de barato, que tanto o Dr. Cardoso como o Dr. Quaresma são pessoas interiormente de bem, respeitaveis e respeitadoras, não gostaria de estar no vosso lugar. Ja não falo nas poucas vergonhas e nas sujeiras sexuais, que podemos considerar como desvios humanos eternamente presentes nas sociedades. Mas além de mortes, de abater vidas sem justificação plausível e menos legal, existe a devassa de uma propriedade particular, dos bens de um cidadão respeitável!

Posso sair vencido, ou ir parar ao calaboiço por lhe faltar ao respeito. Mas não sairei satisfeito com o arquivar, tácito, de um processo onde o meu nome aparece, sem ser de minha vontade, abusivamente.

- Senhor Maragato. As suas palavras não foram registadas. Falou correctamente e não posso concordar com o seu conteúdo pelos compromissos profissionais que sabe tenho. Permita-me que o despeça com um abraço, com o qual digo o que não posso verbalizar.

Gostaria de o encontrar em terreno neutral. Já o colega Cardoso me adiantou a possibilidade de que o pedido de esclarecimentos seria mais uma questáo de concordia do que de processo. Lamento o que prevé.

domingo, 2 de setembro de 2018

CRÓNICAS DO VALE - cap. 61



Desliguei e arejei

Estive na zona de Ermesinde, Maia, Trofa, Famalicão, até Braga, Guimarães, Fafe e Felgueiras.umas vezes na companhia do Nelson Sousa e noutras com outros contactos que trago sempre disponíveis, seja em acção ou na reserva. Sucede que com os últimos acontecimentos no Vale descuidei bastante os meus negócios, tanto imobiliários como de “prestação de serviços” ou intermediário se preferirem. E o clima tem subido de interesse. Não sei bem se o pessoal acredita que este esquema de governo em que estamos é, de facto, favorável ou se espera que a UE abra mais os bolsos, para nos manter quietos e evitar que uma nova quebra da nossa periclitante economia levasse, como numa montagem com peças de dominó, a que o pânico se espalhasse, não só pelos países da orla mediterrânea como inclusive pela França, e pior se a Alemanha cedesse.

O que me pareceu é que existe uma febre para entrarem na especulação imobiliária, e compra de unidades industriais, mesmo de pequena dimensão. Eu já apresentei ofertas, em nomes falsos ou de familiares, para algumas propriedades e empresas, em especial se são minhas ou se nelas tenho uma participação avultada, sempre no intuito de as fazer subir na cotação. Sei que há mais malandros jogando o mesmo jogo, mas alguns podem ter pressa ou não terem uma base de capital que lhes permita jogar forte. O meu esquema é o de só entrar “a matar” quando consiga tirar os fantasmas do tabuleiro. Ou seja, que só me interessa dialogar com o cliente final, especialmente se for chinés ou de uma filial oriental do governo sino-comunista, que gosta de invadir a economia ocidental e a nossa em concreto. Mostramos que temos tanta falta de dinheiro fesco que não só venderiamos a mulher e os filhos -as filhas de preferência deles- mas também os sogros, e outro qualquer familiar que estivesse em nível de ser cotizado. Em caso premente até dávamos o olho do cú como prenda, pois que os anéis e os dedos já foram.

Entretanto a Isabel tem-se mantido à frente dos seus negócios e tomando conta dos assuntos da propriedade de Vale do Pito. com mão mais férrea do que a minha, segundo pude apreciar. As mulheres, como sabemos, tanto podem ser mel e beijinhos a granel -ao jeito do Presidente- como podem ser mais azedas do que o vinagre ou as reinetas quando verdes, enquando dão a cara como sendo uma paz de alma.

Só nos temos visto às fugidas, e nem todos os fins de semana estão livres totalmente, pois certos contactos e negócios carecem de ser pactuados num ambiente de aparente descontracção, fingida de parte a parte. Mas a Isabel e eu já somos crescidinhos e entendemos que uma vez que se abriu a época da caça, por assim dizer, não convêm que deixemos as armas enferrujar. Tal como se diz noblésse oblige, ou na nossa língua Em tempo de guerra não se limpam armas.

Curiosamente o ambiente no Vale está tão mole, pacífico, digamos que adormecido como quando vivia a falecida Constança e os filhos eram crianças. Até desconfiamos de tanta bonança. Não temos tido contactos com ninguêm, nem com o Presidente da Junta e os guardas das rondas mal se deixam ver. Se não fosse que sabemos, e não esquecemos, o que nos caiu em cima semanas atrás podiamos pensar que tudo aquilo não passou de um pesadelo. É para desconfiar de tanta paz e sossego, ou se pode recordar o aviso Quando a esmola é muita o pobre desconfia.

Parece que adivinhava o mau tempo. A Luísa acaba de telefonar dizendo que chegou um aviso, entregue por um GNR, em que me convoca para me dirigir, quanto antes, á delegação da Polícia Judiciária em Coimbra, a fim de prestar declarações. Ora toma!

Tenho que ir esta mesma tarde. As coisas amargas o melhor é as engolir depressa, sem apaladar. E que querem desta vez? Será ainda alguma sequela dos assasinatos ou alguma trafulhice mal feita com os negócios? Neste caso tenho tido muito cuidado, pois nada é passado ao papel sem que antes não seja bem estudado e analisado pelos advogados Menezes e Rodrigues, que apesar de amigos não deixam de facturar com força. Se as coisas se puserem feias terei que pedir a comparência destes camaradas. O que vou evitar é o procurar a inspector Cardoso. Se for ele quem me peça declarações, e ouuver outros funcionários presentes, não darei sinais de conhecimento pessoal; mas prefiro que não seja ele quem tiver de enfrentar.