quinta-feira, 6 de setembro de 2018

MEDITAÇÕES - não bate certo



Não sei como os cidadãos menos abastados avaliaram as repetidas notícias, que a meu entender são alarmantes, e não um sintoma de corporativismo. Refiro concretamente as sucessivas demissões, em grupo, dos responsáveis de hospitais civis, ou seja daquelas unidades de cuidados de saúde que dependem para o seu funcionamento directamente do Ministério da Saúde, e portanto das cerbas aprovadas quando se discutiu o Orçamento Geral do estado. Verbas que, de facto, lhes deveriam ser atribuídas para poderem não só tratar os pacientes que ali se acolhem mas, indispensável, poder abastecer-se dos artigos necessários, desde medicamentos, meterial de consumo, equipamentos funcionais e conseguir os elementos humanos sem os quais é difícil ou impossível manter aquelas unidades hospitalares funcionais.

Isto parece tão claro e evidente que, tendo no governo um conjunto de forças que se auto-qualificam de esquerda, e sendo uma das premissas desta facção social o garantir os cuidados de saúde, ajam perversamente em oposição factual ao aprovado no tal Orçamento Geral do Estado. Com o intuito de ganhar méritos contabilísticos perante os credores, retiraram uma parte das verbas teóricamente atribuídas em muitos departamentos. Chamam a esta manobra sibilina, o aplicar cativações.

Este truque aritmético consiste, traduzido na linguagem normal, em dar com uma mão e tirar de imediato com a outra. Agindo assim é impossível cumprir um plano de acção sério. Anda coxo logo à partida.

São muitos os serviços que se queixam desta diminuição efectiva de verbas disponíveis. Podemos admitir, sem que o País caia, que se corte no orçamento real da “cultura”. Que os museus tenham que manter salas fechadas por não ter o quadro de vigilantes completo. Que as companhias de teatro, ballet ou orquestras estejam na penúria por falta de apoio monetário; que não se possam subsidiar filmagens ou restauros considerados urgentes; etc.

Mas que os cidadãos carentes de cuidados de saúde vejam que não podem ser atendidos nos hospitais, e outras unidades de saúde, por carência de meios, e se tente justificar este crime social pelo propósito de ficar bem qualificados perante quem nos avalia, é inaceitável. E se os sindicatos, sejam filiados na CGTP,na UGT ou Independentes (teóricamente) fazem greves, pressionam e conseguem, se não tudo aquilo que reclamam pelo menos uma fracção a fim de que se calem, nem que seja por um periodo de tempo relativamente curto, o que podem fazer os doentes?

A greve do doente deve ser o morrer sem assistência. Quem se importa na governação? A opção, para aqueles que tenham uma reserva económica com uma certa magnitude, é a de poder procurar tratamento junto das unidades de saúde particulares, privadas, cujas contas são, posteriormente, cobertas pelos cofres do estado. Assim,pelo caminho, há quem lucre com a desgraça alheia. Bacano!

Os críticos, apoiantes indirectos ou camuflados, das habilidades do ministro -agora a tempo parcial, enquanto sorri com toda a dentadura- dirão que desde os médicos às equipas de enfermagem e de diagóstico, são muitos aqueles que, mesmo sem estarem em greve, prestam o seu trabalho profissional nos hospitais privados. Centros estes que constantemente aliciam os profisiionais que foram preparados pelo estado. A estes denunciantes podiamos perguntar: que entendem que deviam fazer estes membros dos quadros hospitalares, quando não os contratam ou não são remunerados como na concorrência -que sabemos joga com as costas e as contas quentes, garantidas pelas verbas do estado- para sobreviver e tirar proveito económico da sua capacidade profissional?

E este esquema, além de outros também do domínio público, funciona com o beneplácito duns elementos que se proclamam como tendo um intenso sentindo, um pendor, social; preocupados com os problemas dos mais desfavorecidos. Pelo menos, aqueles que aceitam, claramente, a sua vocação direitista, não tentam enganar o pessoal.

Uma vergonha. Não que aconteça isto, mas pior, o facto de não existir um sentimento geral de repúdio e revolta. Que vale o fingir que estamos no bom caminho quando se sacrificam os serviços essenciais?



CRÓNICAS DO VALE – cap. 64



No sossego da casa

- Boa tarde Dona Idalina Benditos os olhos que a vejam, que por acaso, entre outros, estão os meus! Então como vão os preparativos para a ceia? Certamente que já falou directamente com a dona da casa, mas não sei se lhe referiu que almoçamos na casa da Dona Gertrudes, na Vila, e nos deixou empanturrados. De maneira que o mais aconselhável é que seja, de facto, uma ceia leve.

- Boa Tarde. Menino Doutor José. Nesta casa já se sentia falta da sua boa disposição, das suas brinncadeiras de eternamente jóvem. Desde criança que sempre ouvi as suas graças, nunca ofensivas, se bem que algumas as repetia vezes sem conta. Quanto ao jantar, está tudo em andamento, como combinei com a menina Luísa. Mas tem tempo de descansarem uns minutos -ji ji ji- e tomarem um banho refrescante, caso a pressa para cear não seja muita.

- Gosto deste tratamento de menina, faz-me sentir mais nova. Seria agradável não fosse que tenho uma novidade que nem sequer o meu marido conhece. A Idalina deve ter conhecido casais em que, depois da esposa já pensar que o seu periodo de fertilidade tinha terminado, súbitamente e sem ter tido sinais de alarme, sentiu que estava de esperanças! Pois parece que é o que me está acontecendo. Já fiz a prova da farmácia, por três vezes seguidas, e parece que está confirmado. Uma vergonha! Já com idade de ser avó e poder mimar netos, vai daí o seu menino José deu-me uma prenda que não entrava nos nossos projectos.

Tenho um compromisso marcado em Coimbra e aproveitarei para visitar o ginecologista, que já me espreitou para dentro demasiadas vezes. Oxalá seja um falso alarme Rezarei, eu que não sou de crenças e menos de igrejas, para que aconteça o que já li naquelas revistas sem préstimo que temos nos salões: que por vezes o teste dá positivo mas, por outras causas, e não corresponde a uma gravidez.

E tu, José Maragato, escusas de fazer caretas. Não te espantes nem tenhas ilusões. O que precisas é de netos, e seria bom que insinuasses este desejo ao Bruno e à Luísa, pois esta demora que hoje se tornou habitual em muitos jóvens na sociedade evoluída, já maduros, conduz a que lhes cheguem as crianças quando já quase não tem vontade nem tempo de lhes dedicar atenção, e principalmente brincarem, os carregarem às cavalitas, ensinar-lhes a andar de biciclete, depois de treinar no triciclo, e colaborarem nas brincadeiras do faz de conta, que é uma forma de crescerem.

Vamos ao banho e a Idalina pode dar uma meia hora, comprida, para os nossos preparativos e descanso, que esta coisa de andar de um lado para outro com o carro também já cansa.

José, agora sem testemunhas, tenho que te fazer um pedido pessoal. Já te contei que nunca tive a oportunidade de ter um jardim à minha conta. Fiquei muito contente com a surpresa que o Ernesto me deu quando regressamos da nossa adiada viagem de noivos. Não passa dia em que eu deixe de visitar, e mais do que uma vez, os canteiros e as flores. É uma alegria ver como surgem os pequenos botões, que engordam até se abrirem em flores.

Apanhar uns coentros ou um raminho de salsa para colaborar na cozinha, é uma emoção que não podes imaginar. E sem falar nas galinhas poedeiras que a Idalina comprou a uma sua amiga que mora perto de nós. Ah! E um galote já desafiador, que não gosta que se entre no capoeiro para recolher os ovos. Os que moram num andar na cidade, ou mesmo na Vila caso não tenham um quintal anexo, não sabem o que perdem. O contacto com a natureza é um complemento importante na nossa vida. E, tal como parece que me acontece, uma das galinhas está no choco. A Idalina não tem a certeza de se os ovos estão devidamente galados, ou fertilizados sendo mais cultivado. Mas eu aposto no jovem galo, pois passa o dia montado nas galinhas.

- Falas tanto que não consigo absorver tudo o que dizes, e mesmo assim fiquei com a impressão de que guardaste a cereja do discurso para o fim. Por isso, continuarei calado, à espectativa.

- Zé, es um fulano muito vivido e vês de longe. Mas esta minha vontade é quase impossível que a tenhas imaginado. Como sabes fui comprando livrinhos de jardinagem e horta; já tenho uma mini biblioteca, e todos foram tidos, não como a maior parte dos volumes que se encontram expostos nas casas particulares. Alguns só tem a lombada! Pois destes livros e da paixão para as flores surgiu o interesse em ter uma mini-estufa no jardim. Já pensei onde a podiamos instalar e pedi folhetos a casas especializadas. Gostaria de ter orquídeas e cactos que não aguentam o inverno, de saber orientar as regras e o aquecimento, solar se possível. E esta mania, loucura se quisermos, ainda custa uns cobres largos. Gostaria de que autorizasses o meter-me nesta aventura e que fosse eu a financiar. Em vez de trocar de carro, por capricho, ou actualizar o vestuário como uma vítima das modas, preferiria avançar neste terreno que desconheço.

- Muitas novidades num só dia, ou em poucos minutos. Para já esta surpresa de poder vir a sermos pais em vez de avós, pelo menos eu, que tu tens mais de dez anos de diferença sobre este velho. E depois esta febre na agricultura que despontou em ti. Ambas novidades são um espanto, mas que darei o meu apoio. Na condição de que tu trates de contratar e gerir a estufa, ao teu gosto, mas com o apoio de alguém conhecedor deste ramo especial da floricultura, e depois que seja eu o financeiro responsável.

- Querido marido, sinto-me lisonjeada, mais uma vez, pelo modo simpático e carinhoso com que acolhes as minhas propostas. Quanto ao apoio técnico creio que o tenho garantido. Uma das minhas clientes do salão tem um filho, licenciado numa faculdade de couves e vinhas, agrícola se preferires, que, curiosamente, estagiou numas estufas que uns holandeses -que são uns barras nesta coisa- montaram num sapal entre Aveiro e Murtosa. Ouvi a mamá e não abri o meu jogo até falar contigo, mas tenho o palpite de que, pelo menos na instalação e num apoio ao jeito de avença, poderia contar com este moço, ou com algum colega dele se o recomendasse.

- Não sei se conseguirei digerir todo este chorrilho de histórias que me enfiaste sem respirar. Para já vamos à ceia e necessito de um gin-tónico para entrar em sintonia. E, por favor, hoje não me contes mais novidades, a não sei que desejas que tenha um AVC e fique por aí sentado com a boca torcida.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

CRÓNICAS DO VALE - cap. 63




Com a Isabel

Não posso dizer que saí da Judiciária mais tranquilo do que ao entrar. Mas desabafei contando a minha verdade e eles, seja o Cardoso ou o Quaresma, que cozinhem as coisas como entendam ou como lhes permitam, caso lhes entreguem um roteiro concreto para seguirem sem se desviarem. Para já vou ligar à Isabel para a tranquilizar, e também para eu tirar algum do azedume que aquela casa me deixou na boca.

Isabel, já estou na rua. Não foi desta que estrei os calabouços. E quero me encontrar contigo, almoçar e conversar. Donde estás? Diz-me donde nos podemos encontrar e a que horas. Eu posso fazer tempo visitando os teus conhecidos advogados. Mas esta visita pode esperar para outra ocasião. Fico aguardando pela tua chamada. Para já entrarei num café para relaxar junto de uma bica ou um cimbalino. Já não sei o que se diz em cada terra. Até já.

Zé, estou em Aveiro e tenho alguns assuntos a tratar antes do almoço. Nada de grave, mas já sabes que é conveniênte nunca deixar a cavalgadura sem manter as rédeas na mão. Todos e todas são excelentes pessoas, mas convêm afastar as tentações. E mesmo com cuidados não estamos resguardados de aborrecimentos. Bem aconselham (em 1780) Hum olho há de Dormir, e com o outro vigiar.

Seja como for, podemos almoçar na Vila, no “restaurante típico” CALECHE da Dona Gertrudes. Depois daquele almoço “social” no armazém da tua propriedade fiquei devedora das atenções que esta Senhora nos dedicou. O que não obstou a que pagassemos todas as contas que foram surgindo. Espero por ti entre a uma e uma e meia.

Cheguei! Como diziam num anúncio qualquer ou num programa brasileiro. Espero que aquelas quase duas semanas de andar de um lado para outro já tenham acalmado. Já tinha saudade do tal conforto do lar e de dormir acompanhado por uma pessoa amada. Ficou um bocado melosa esta frase, mas não me ocorreram palavras mais impessoais. Vamos trocar uma beijoca, e quero ouvir primeiro as tuas novidades.

Nos salões as coisas estavam normais. Tinha algumas decisões a tomar, sem ser o dos templários. Mas os anos de experiência neste ramo já me abriram caminho para me orientar, mesmo em mar revolto. Que não era o caso de hoje. Felizmente.

A única novidade, que pode ser interessante, é que mal desligaste tocou o telefone com a voz da Drª Diana, a esposa do Cardoso. Não esperava este contacto. Mas ela pediu-me que gostaria, se possível, encontrarmo-nos amanhã à tarde, em Coimbra, numa lanchonete da Rua das Montras, que sei qualé mas que, neste momento, não me surge o nome -sabes que já sinto brancas de memória? A idade já se faz notar, e não quero aceitar que caminho para a decrepitude, tal como acontece logo que nascemos- Ficamos em nos ver às quatro da tarde. Mas não me adiantou nada de nada. Não sei se eu estava com ouvidos a desconfiar ou se simplesmente prefere conversar cara-a-cara. Sabes que gostei desta Senhora, que não se armava em importante apesar de dar aulas na faculdade. E, possívelmente por eu a ter em excelente conta fez que a sentisse para o triste. Aguardaremos por amanhâ.

Se calhar não é necessário manteres-te na espectativa. Ontem soube coisas que podem ter influênciado desagradávelmente a este casal. Mas, por favor, o que ouvires de mim guarda no fundo do saco. Não faças como é costume em muitas mulheres. Logo que a sua interlocutora começa a rezar o seu terço, interropem dizemdo: já sabia disso!ortam a palavra e é muito desagradável. Coisas de mulheres, e de alguns homens.

Ao longo da entrevista-interrogatório na PJ de Coimbra, agora com um novo inspector responsável do inquérito no caso dos mortos colocados nos terrenos do Vale do Pito. Este chama-se Emílio Quaresma e faz o possível para se mostrar simpático e compreensivo. Nunca fiando com estas gentes, que foram escolhidos e treinados para não mostrar o seu jogo. Não quero dizer que joguem sujo, mas que trazem ases na manga podes ter a certeza, e isso quando não jogam com dois baralhos, como na canasta, ou mesmo três.

Este Quaresma comunicou-me que o Cardoso foi destacado para a central do Porto (aqui devem estar as razões de tristeza da esposa Diana) De imediato cheirou-me a um pontapé para a frente, possívelmente porque o Cardoso se mostrou relutante para deixar esquecer o tema, dado que, obviamente, tinha que haver gente importante, de peso e influência, aue estando implicados não desejavam aparecer nas gazetas. O dossié do Vale foi-lhe entregue a ele, Quaresma. Ele disse que depois de ler, atentamente, o que estava relatado na pasta, ficou com algumas dúvidas a meu respeito.

Depois de conversarmos, ou mais propriamente, eu desbobinar a minha verdade e as minhas deduções, que ele afirmou estavam coincidentes com o relatório que guardava fechado à sua frente, acabou por dizer que o colega Cardoso lhe disse, abertamente, que me chamasse e procurasse em mim, directamente, esclarecer o que para ele não estava claro, ou tão diáfano como gostaria.

E ao longo da longa hora que estive no seu gabinete não saiu disso, do que está nos autos. No fim dei uma dica sobre as pressões que supunha que as pessoas no seu posto recebiam quando os asuntos a inquirir podiam atingir círculos que não apreciavam serem apresentados em público. Ficou calado como um rato -de esgoto?- e quis despedir-se saíndo da sua mesa e pedindo um abraço que, acompanhou com umas palavras de apreço e concordância com as minhas reticências, bem justificadas, de sentir que aquilo tudo, onde se mataram pessoas, além das bacanais infames, podia terminar esquecido no fundo de uma gaveta.

E agora, querida Isabel, eu quero descarregar a tensão e almoçar com outros temas menos aborrecidos. Dado que chegaste primeiro admito que já deves ter conversado com a “Trudes”, como diziam os rústicos mas agora todos já falam à lisboeta como lhes ensinou a televisão. Daí que aposto em que já escolheste uma ementa para este almoço. Estou nas tuas mãos, sabendo que terás feito uma boa selecção de petiscos.


segunda-feira, 3 de setembro de 2018

CRÓNICAS DO VALE – cap. 62




O depoimento

Boa tarde. Entregaram esta convocação em casa. E cá estou eu, como prova o meu cartão de cidadão.

Faça o favor de aguardar nesta saleta. Vou avisar o Inspector.

- Dr. José Maragato, não é assim?

- Poderia ser, mas não é. Pela simples razão de que apesar de ter frequentado a Universidade nunca cheguei a conquistar o canudo. Devo ser o único que se matriculou, várias vezes, que se mascarou de seminarista, com a capa e batina. Que desistiu por falta de vocação. E apesar disso não aceita de bom grado o título -honorífico?- de Doutor (seria da mula ruça). Escapei da palhaçada Felizmente na minha época de “estudante” escapei da palhaçada das tunas, copiada dos espanhóis.

- Pois Sr. José Maragato, sem doutor. Sou o Inspector Quaresma, e foi-me atribuído o papel de instrutor do processo aberto, em seu dia, pelo meu colega Dr. Cardoso, que, depois de um curto periodo de férias, foi destacado para a secção do Porto. Digamos que foi promovido. Indiquei que o chamassem porque gostaria que me esclarecese alguns pontos, um pouco anormais, que encontrei ao estudar o processo.

- Mas, antes de entrar nos tais esclarecimentos, eu quero saber se sou arguido, pois se for este o caso, creio que posso requerer a presença dos meus advogados.

- Calma, Senhor Maragato. Nada de arguido nem de testemunha. Verá que só pretendo tocar em questões de segunda ou terceira linha. Mesmo assim, se a certa altura preferir ter aqui os seus advogados interromperei a conversa e marcaremos outra data. Verá que não há razões para recear.

- O Dr. Quaresma, Emílio segundo reza na placa sobre a mesa, é que fará as perguntas e, como imagina, os que tem em frente, neste caso eu, podemos desconfiar da fartura, ou da simpatia e empatia que emanem da pessoa que pergunta, ou interroga sendo mais correcto. Dispare!

- O que consta nos autos e que me causou alguma admiração é que o Sr. Maragato, desde o primeiro momento não se mostrou admirado com a encenação, e até se adiantou de motu próprio a dar uma explicação à lamentável farsa montada com o primeiro cadáver. Quando lemos o relato fica-se com a ideia de que sabia do assunto antes dos cães terem encontrado o morto, muito mal enterrado. Pode explicar esta situação?

- Não sei o que escreveram nos autos, mas eu dei, de imediato, ao Dr. Cardoso a minha dedução e as razões que me levaram a pensar daquela forma. Para já o meu feitor, mais os homens que já se encontravam junto do morto, reconheceram quem era. E curiosamente tratava-se de um conhecido travesti, possívelmente homosexual, que desfilava sacoroteando em estilo de sambista carnavalesca do Rio, em trajos reduzidos. Mostrava ter sido mutilado e abusado, se se pode dizer, antes de ser sacrificado. Instintivamente e porque há muitas décadas que deixiei de chuchar no dedo, deduzi que aquele crime não era obra de um rústico qualquer. Ali havia mostras de sadismo “educado”.

Chegado a este ponto recordei que pouco tempo antes veio ter comigo um desconhecido, que se intitulava como sendo um intermediário de compra e venda de propriedades, sem jamais se identificar e muito menos dar um cartão de empresa. Queria saber se estava disposto a vender a casa, mais o armazém que está ao lado; quantos quartos de cama havia, as casas de banho, os salões, e por aí fora. Tive que lhe travar os pés dado que não estava nos nossos planos vender a propriedade. Se fosse coisa séria o paleio seria outro.rr

Logo com o primeiro morto já desconfiei que alí havia uma tentativa de nos espantar e desvalorizar o prédio. E, como disse logo ao Dr. Cardoso, comecei a atar cabos e imaginar que os dois acontecimentos estavam ligados, e possívelmente a festanças da alta.

Como ve, nada que outro cidadão, experiente na vida e conhecedor de ambientes mais “evoluídos” do que o das aldeias, não pudesse magicar. Se estava certo ou errado, o tempo iria confirmar. Mas sempre, e repito, dei parte ao Dr. Cardoso das minhas deduções. Suponho, ou gostaria, que nos relatórios constassem as minhas palavras de forma clara e sem deixar pontos escuros. Mas, posso tentar esclarecer mais algum detalhe caso o Dr. Quaresma entenda que seria conveniente.

- Senhor Maragato, como pode imaginar, não lhe posso deixar ler os documentos que estão nesta pasta. Mas confirmo que, mais palavra menos adjectivo, o que aqui encontro condiz com o que me relatou de viva voz. A minha ex sitação tinha como razão que não é nada vulgar encontrar pela frente um cidadão que se atreva a pensar, e ainda a deduzir unindo situações aparentemente desconexas, e muito menos que as manifeste tão expontâneamente como se falasse do último desafio de futebol entre dois rivais. O Senhor mostra ter muito mundo no seu arquivo mental, e ainda não ficar perante a autoridade com os joelhos a tremer.

Continuando a ler o processo, são várias as referências a seu respeito, e sempre positivas. Até encontrei uma, bastante velada, em que parece que sugeriu ou mesmo fez a diligencia de propor a colaboração, interessada como é evidente, dos ciganos desta zona para vigiar uns forasteiros que se via estarem directamente ligados aos crimes de morte. Segundo é descita foi uma gestão combinada, mas encapotada, que deu bons resultados.

Como já disse, o Dr. Cardoso só deixou escritos bons pareceres a seu respeito. Ou seja, nada de ser arguido. Mas fiquei com muita curiosidade e vontade de o conhecer pessoalmente. Pode ser bom a representar ou merece a nossa estima. E dou o encontro por terminado, agradecendo a sua comparência.

- Tudo muito bonito. A baba já me deve cair pelo queixo abaixo. E permita a brincadeira ou falta de respeito. Mas, não sinto que ao fechar a pasta eu possa ficar sarisfeito. Então, e o resto do filme? Saímos no intervalo, fazemos um xixi e vamos para casa? E os autores putativos, os mandantes? Quando vislumbrei que aquela primeira morte, e depois as que se seguiram, estavam ligadas a uma versão actualizada dos famosos ballet rose de outro tempo, senti a ilusão de que desta vez as coisas não morressem numa gaveta. E desta feita houve mortes!

Como disse antes, e creio que por duas vezes, eu não nasci ontem, e fui criado por militares que tiveram que sair do seu país por discordarem. Há sentimentos em mim que estão recalcados de gerações. Mas isso não impede que seja consciente das pressões que vos travam, e, dando de barato, que tanto o Dr. Cardoso como o Dr. Quaresma são pessoas interiormente de bem, respeitaveis e respeitadoras, não gostaria de estar no vosso lugar. Ja não falo nas poucas vergonhas e nas sujeiras sexuais, que podemos considerar como desvios humanos eternamente presentes nas sociedades. Mas além de mortes, de abater vidas sem justificação plausível e menos legal, existe a devassa de uma propriedade particular, dos bens de um cidadão respeitável!

Posso sair vencido, ou ir parar ao calaboiço por lhe faltar ao respeito. Mas não sairei satisfeito com o arquivar, tácito, de um processo onde o meu nome aparece, sem ser de minha vontade, abusivamente.

- Senhor Maragato. As suas palavras não foram registadas. Falou correctamente e não posso concordar com o seu conteúdo pelos compromissos profissionais que sabe tenho. Permita-me que o despeça com um abraço, com o qual digo o que não posso verbalizar.

Gostaria de o encontrar em terreno neutral. Já o colega Cardoso me adiantou a possibilidade de que o pedido de esclarecimentos seria mais uma questáo de concordia do que de processo. Lamento o que prevé.

domingo, 2 de setembro de 2018

CRÓNICAS DO VALE - cap. 61



Desliguei e arejei

Estive na zona de Ermesinde, Maia, Trofa, Famalicão, até Braga, Guimarães, Fafe e Felgueiras.umas vezes na companhia do Nelson Sousa e noutras com outros contactos que trago sempre disponíveis, seja em acção ou na reserva. Sucede que com os últimos acontecimentos no Vale descuidei bastante os meus negócios, tanto imobiliários como de “prestação de serviços” ou intermediário se preferirem. E o clima tem subido de interesse. Não sei bem se o pessoal acredita que este esquema de governo em que estamos é, de facto, favorável ou se espera que a UE abra mais os bolsos, para nos manter quietos e evitar que uma nova quebra da nossa periclitante economia levasse, como numa montagem com peças de dominó, a que o pânico se espalhasse, não só pelos países da orla mediterrânea como inclusive pela França, e pior se a Alemanha cedesse.

O que me pareceu é que existe uma febre para entrarem na especulação imobiliária, e compra de unidades industriais, mesmo de pequena dimensão. Eu já apresentei ofertas, em nomes falsos ou de familiares, para algumas propriedades e empresas, em especial se são minhas ou se nelas tenho uma participação avultada, sempre no intuito de as fazer subir na cotação. Sei que há mais malandros jogando o mesmo jogo, mas alguns podem ter pressa ou não terem uma base de capital que lhes permita jogar forte. O meu esquema é o de só entrar “a matar” quando consiga tirar os fantasmas do tabuleiro. Ou seja, que só me interessa dialogar com o cliente final, especialmente se for chinés ou de uma filial oriental do governo sino-comunista, que gosta de invadir a economia ocidental e a nossa em concreto. Mostramos que temos tanta falta de dinheiro fesco que não só venderiamos a mulher e os filhos -as filhas de preferência deles- mas também os sogros, e outro qualquer familiar que estivesse em nível de ser cotizado. Em caso premente até dávamos o olho do cú como prenda, pois que os anéis e os dedos já foram.

Entretanto a Isabel tem-se mantido à frente dos seus negócios e tomando conta dos assuntos da propriedade de Vale do Pito. com mão mais férrea do que a minha, segundo pude apreciar. As mulheres, como sabemos, tanto podem ser mel e beijinhos a granel -ao jeito do Presidente- como podem ser mais azedas do que o vinagre ou as reinetas quando verdes, enquando dão a cara como sendo uma paz de alma.

Só nos temos visto às fugidas, e nem todos os fins de semana estão livres totalmente, pois certos contactos e negócios carecem de ser pactuados num ambiente de aparente descontracção, fingida de parte a parte. Mas a Isabel e eu já somos crescidinhos e entendemos que uma vez que se abriu a época da caça, por assim dizer, não convêm que deixemos as armas enferrujar. Tal como se diz noblésse oblige, ou na nossa língua Em tempo de guerra não se limpam armas.

Curiosamente o ambiente no Vale está tão mole, pacífico, digamos que adormecido como quando vivia a falecida Constança e os filhos eram crianças. Até desconfiamos de tanta bonança. Não temos tido contactos com ninguêm, nem com o Presidente da Junta e os guardas das rondas mal se deixam ver. Se não fosse que sabemos, e não esquecemos, o que nos caiu em cima semanas atrás podiamos pensar que tudo aquilo não passou de um pesadelo. É para desconfiar de tanta paz e sossego, ou se pode recordar o aviso Quando a esmola é muita o pobre desconfia.

Parece que adivinhava o mau tempo. A Luísa acaba de telefonar dizendo que chegou um aviso, entregue por um GNR, em que me convoca para me dirigir, quanto antes, á delegação da Polícia Judiciária em Coimbra, a fim de prestar declarações. Ora toma!

Tenho que ir esta mesma tarde. As coisas amargas o melhor é as engolir depressa, sem apaladar. E que querem desta vez? Será ainda alguma sequela dos assasinatos ou alguma trafulhice mal feita com os negócios? Neste caso tenho tido muito cuidado, pois nada é passado ao papel sem que antes não seja bem estudado e analisado pelos advogados Menezes e Rodrigues, que apesar de amigos não deixam de facturar com força. Se as coisas se puserem feias terei que pedir a comparência destes camaradas. O que vou evitar é o procurar a inspector Cardoso. Se for ele quem me peça declarações, e ouuver outros funcionários presentes, não darei sinais de conhecimento pessoal; mas prefiro que não seja ele quem tiver de enfrentar.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

MEDITAÇÕES – 16 - Jogar a feijões



Como no volei de praia

É penoso meditar sobre a situação social que existe sob o clima de perfeita normalidade que se instalou na mente das pessoas. Temos que reconhecer que a ideia de governar em cama compartilhada, numa espécie de albergue espanhol, onde, para ser correctos, o principal sócio pelo menos sob o ponto de vista histórico, insiste em permanecer fora da carroça (e faz muito bem, sob o ponto de vista meramente táctico) e o PS consegue manter-se à tona de água consentindo em algumas das exigências do seu sócio mais afoito.

Claro que só cede a uma gritaria de cada vez, e nem sempre consente em tudo o que exigem. Antes procura entregar aquilo que não temos, mas com algumas restricções. Para que não se diga que está de pernas abertas. O que é espantoso é que, como a aritmética não pode enganar-se, que contas são contas, aquilo que dá -mesmo com restricções- tem que se ir buscar a outro lado. E apesar dos aumentos de taxas e preços, mais ou menos dissimulados, o facto é que a dívida nacional continua sendo enorme. Os optimistas imaginam que chegará o dia em que os credores nos perdoarão aquilo que foi pedido emprestado. Um “sucesso” brilhante que só contecerá, se for e mesmo neste caso só parcialmente, quando aceitarmos vender mais algum dedo, pois que os anéis já se foram.

Este negrume de pensamento apareceu quando a chuva de fim de Agosto, a que estávamos habituados, não fez acto de presença. Em vez dela temos uma enorme nube negra com o estado de degradação a que chegou a estrutura da CP, tanto no material de tracção como no circulante e, ainda, em muitas linhas que tiveram promessas de recuperação ou de melhoria mas que, como era de prever dada a falta permanente de recursos na tesouraria, foram e continuar a ficar na gaveta das promessas.

Quando daqui a poucos dias terminar o pino do período de férias e as pessoas tenham que retomar os transportes, particulares e colectivos, para acudir ao seu local de trabalho e depois regressarem aos seus lares, vai ser a hecatombe do costume, mas até ampliada. Brinca-se com a realidade como se estivessemos num desafio entre amigos num volei de praia, ninguêm se aleija, e se a bola bate no chão ou sai fora, é só pontuar e seguir em frente.

Todos sabem os dois vectores que complicaram a vida dos assalariados e os empurrou para os subúrbios. Por um lado a dificuldade em conseguir uma habitação na cidade a um preço compatível com os seus ingressos, o desemprego entre os membros do aglomerado familiar e a mais recente pressão para desalojar os habitantes dos bairros populares mais centrais a fim de promover o aluguer estilo taxímetro.

Como, em vez de encarar este problema da deslocação da residência longe do local de trabalho da mesma forma como se fez nos países do centro da Europa, a rede de transportes colectivos que une os bairros periféricos às estações de caminho de ferro é insuficiênte e indutora a que o cidadão se veja empurrado a usar uma viatura própria, com um custo por hora e quilómetro muito superior ao do comboio. Sem falar na poluição gerada e nos engarrafamentos de trãnsito.

Para complicar ainda mais a situação temos um parque ferroviário degradado, em que muitas composições já ultrapassaram os tempos de uso recomendado. Os problemas que possam surgir na via férrea fatalmente se agravarão. E não se resolvem pela anulação de composições, antes pelo contrário. Toda uma situação que é consequência dos compromissos tomados pelos sucessivos governos.

Quando foi noticiado que, fossem quais fossem as razões invocadas, iriam fechar as instalações da Sorefame, tanto na Amadora como em Sines, não se atendeu ao que, fatalmente e como se está a verificar, o não ter uma base nacional para apoio dos caminhos de ferro, cumulativamente ao aplicar todos os meios económicos próprios, mais os vindos da Uniâo Europeia, à rede de auto-estradas, o cidadão ficou satisfeito com as possibiloidades de adquirir, com o recurso ao crédito, não só uma residência fora dos limites da grande urbe como também um automóvel, ou mais do que um em muitos casos, que lhe desse a ilusão de ter subido na vida.

Mais uma vez, e tal como aconteceu com os aeroportos, a electricidade, a saúde e os correios, a solução mágica que propõe os governantes, sejam eles quais forem, é a de “privatizar” a CP, e assim conseguir matar dois coelhos de uma só cajadada. Por um lado safar-se de compromissos que eles mesmo avolumaram, e por outro garantir bons lugares e algumas gratificações, que estão sempre agarradas ás privatizações, como as rêmoras que acompanham os tubarões e outros animais marítimos de porte mediano e grande. A voz da caserna, que em geral acerta, avisa de que os privados que se mostram interessados na exploração da rede ferroviária só querem ficar com as linhas que sabem podem ser rentáveis. Depois de as maquilharem e subir os preços, que deixarão de ser sociais, como acontece com os combustíveis e a electricidade.

E assim se conseguirá amainar o temporal por uns meses. À imagem do que faziam os heroicos caçadores de baleias do alto mar quando os seu barcos veleiros enfrentavam terríveis tempestades. Deitavam o óleo ao mar na tentativa de diminuir a força das vagas. As tentativas de recurso, por não ser sólidas, preparadas para durar e resolver problemas, não passam de adesivos e tintura. Não resolvem nada.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

FORA DA SÉRIE

Proponho que leiam o conteúdo. E insisto que não sou adepto de nenhum partido político.


A conversão ferroviária de Cristas e Companhia

A causa da conversão de Cristas e Companhia do CDS à ferrovia, aos comboios e linhas de caminho-de-ferro  tem uma causa e um nome pagãos: PLANO DE INVESTIMENTOS EM INFRAESTRUTURAS – FERROVIA 2020.