segunda-feira, 3 de setembro de 2018

CRÓNICAS DO VALE – cap. 62




O depoimento

Boa tarde. Entregaram esta convocação em casa. E cá estou eu, como prova o meu cartão de cidadão.

Faça o favor de aguardar nesta saleta. Vou avisar o Inspector.

- Dr. José Maragato, não é assim?

- Poderia ser, mas não é. Pela simples razão de que apesar de ter frequentado a Universidade nunca cheguei a conquistar o canudo. Devo ser o único que se matriculou, várias vezes, que se mascarou de seminarista, com a capa e batina. Que desistiu por falta de vocação. E apesar disso não aceita de bom grado o título -honorífico?- de Doutor (seria da mula ruça). Escapei da palhaçada Felizmente na minha época de “estudante” escapei da palhaçada das tunas, copiada dos espanhóis.

- Pois Sr. José Maragato, sem doutor. Sou o Inspector Quaresma, e foi-me atribuído o papel de instrutor do processo aberto, em seu dia, pelo meu colega Dr. Cardoso, que, depois de um curto periodo de férias, foi destacado para a secção do Porto. Digamos que foi promovido. Indiquei que o chamassem porque gostaria que me esclarecese alguns pontos, um pouco anormais, que encontrei ao estudar o processo.

- Mas, antes de entrar nos tais esclarecimentos, eu quero saber se sou arguido, pois se for este o caso, creio que posso requerer a presença dos meus advogados.

- Calma, Senhor Maragato. Nada de arguido nem de testemunha. Verá que só pretendo tocar em questões de segunda ou terceira linha. Mesmo assim, se a certa altura preferir ter aqui os seus advogados interromperei a conversa e marcaremos outra data. Verá que não há razões para recear.

- O Dr. Quaresma, Emílio segundo reza na placa sobre a mesa, é que fará as perguntas e, como imagina, os que tem em frente, neste caso eu, podemos desconfiar da fartura, ou da simpatia e empatia que emanem da pessoa que pergunta, ou interroga sendo mais correcto. Dispare!

- O que consta nos autos e que me causou alguma admiração é que o Sr. Maragato, desde o primeiro momento não se mostrou admirado com a encenação, e até se adiantou de motu próprio a dar uma explicação à lamentável farsa montada com o primeiro cadáver. Quando lemos o relato fica-se com a ideia de que sabia do assunto antes dos cães terem encontrado o morto, muito mal enterrado. Pode explicar esta situação?

- Não sei o que escreveram nos autos, mas eu dei, de imediato, ao Dr. Cardoso a minha dedução e as razões que me levaram a pensar daquela forma. Para já o meu feitor, mais os homens que já se encontravam junto do morto, reconheceram quem era. E curiosamente tratava-se de um conhecido travesti, possívelmente homosexual, que desfilava sacoroteando em estilo de sambista carnavalesca do Rio, em trajos reduzidos. Mostrava ter sido mutilado e abusado, se se pode dizer, antes de ser sacrificado. Instintivamente e porque há muitas décadas que deixiei de chuchar no dedo, deduzi que aquele crime não era obra de um rústico qualquer. Ali havia mostras de sadismo “educado”.

Chegado a este ponto recordei que pouco tempo antes veio ter comigo um desconhecido, que se intitulava como sendo um intermediário de compra e venda de propriedades, sem jamais se identificar e muito menos dar um cartão de empresa. Queria saber se estava disposto a vender a casa, mais o armazém que está ao lado; quantos quartos de cama havia, as casas de banho, os salões, e por aí fora. Tive que lhe travar os pés dado que não estava nos nossos planos vender a propriedade. Se fosse coisa séria o paleio seria outro.rr

Logo com o primeiro morto já desconfiei que alí havia uma tentativa de nos espantar e desvalorizar o prédio. E, como disse logo ao Dr. Cardoso, comecei a atar cabos e imaginar que os dois acontecimentos estavam ligados, e possívelmente a festanças da alta.

Como ve, nada que outro cidadão, experiente na vida e conhecedor de ambientes mais “evoluídos” do que o das aldeias, não pudesse magicar. Se estava certo ou errado, o tempo iria confirmar. Mas sempre, e repito, dei parte ao Dr. Cardoso das minhas deduções. Suponho, ou gostaria, que nos relatórios constassem as minhas palavras de forma clara e sem deixar pontos escuros. Mas, posso tentar esclarecer mais algum detalhe caso o Dr. Quaresma entenda que seria conveniente.

- Senhor Maragato, como pode imaginar, não lhe posso deixar ler os documentos que estão nesta pasta. Mas confirmo que, mais palavra menos adjectivo, o que aqui encontro condiz com o que me relatou de viva voz. A minha ex sitação tinha como razão que não é nada vulgar encontrar pela frente um cidadão que se atreva a pensar, e ainda a deduzir unindo situações aparentemente desconexas, e muito menos que as manifeste tão expontâneamente como se falasse do último desafio de futebol entre dois rivais. O Senhor mostra ter muito mundo no seu arquivo mental, e ainda não ficar perante a autoridade com os joelhos a tremer.

Continuando a ler o processo, são várias as referências a seu respeito, e sempre positivas. Até encontrei uma, bastante velada, em que parece que sugeriu ou mesmo fez a diligencia de propor a colaboração, interessada como é evidente, dos ciganos desta zona para vigiar uns forasteiros que se via estarem directamente ligados aos crimes de morte. Segundo é descita foi uma gestão combinada, mas encapotada, que deu bons resultados.

Como já disse, o Dr. Cardoso só deixou escritos bons pareceres a seu respeito. Ou seja, nada de ser arguido. Mas fiquei com muita curiosidade e vontade de o conhecer pessoalmente. Pode ser bom a representar ou merece a nossa estima. E dou o encontro por terminado, agradecendo a sua comparência.

- Tudo muito bonito. A baba já me deve cair pelo queixo abaixo. E permita a brincadeira ou falta de respeito. Mas, não sinto que ao fechar a pasta eu possa ficar sarisfeito. Então, e o resto do filme? Saímos no intervalo, fazemos um xixi e vamos para casa? E os autores putativos, os mandantes? Quando vislumbrei que aquela primeira morte, e depois as que se seguiram, estavam ligadas a uma versão actualizada dos famosos ballet rose de outro tempo, senti a ilusão de que desta vez as coisas não morressem numa gaveta. E desta feita houve mortes!

Como disse antes, e creio que por duas vezes, eu não nasci ontem, e fui criado por militares que tiveram que sair do seu país por discordarem. Há sentimentos em mim que estão recalcados de gerações. Mas isso não impede que seja consciente das pressões que vos travam, e, dando de barato, que tanto o Dr. Cardoso como o Dr. Quaresma são pessoas interiormente de bem, respeitaveis e respeitadoras, não gostaria de estar no vosso lugar. Ja não falo nas poucas vergonhas e nas sujeiras sexuais, que podemos considerar como desvios humanos eternamente presentes nas sociedades. Mas além de mortes, de abater vidas sem justificação plausível e menos legal, existe a devassa de uma propriedade particular, dos bens de um cidadão respeitável!

Posso sair vencido, ou ir parar ao calaboiço por lhe faltar ao respeito. Mas não sairei satisfeito com o arquivar, tácito, de um processo onde o meu nome aparece, sem ser de minha vontade, abusivamente.

- Senhor Maragato. As suas palavras não foram registadas. Falou correctamente e não posso concordar com o seu conteúdo pelos compromissos profissionais que sabe tenho. Permita-me que o despeça com um abraço, com o qual digo o que não posso verbalizar.

Gostaria de o encontrar em terreno neutral. Já o colega Cardoso me adiantou a possibilidade de que o pedido de esclarecimentos seria mais uma questáo de concordia do que de processo. Lamento o que prevé.

domingo, 2 de setembro de 2018

CRÓNICAS DO VALE - cap. 61



Desliguei e arejei

Estive na zona de Ermesinde, Maia, Trofa, Famalicão, até Braga, Guimarães, Fafe e Felgueiras.umas vezes na companhia do Nelson Sousa e noutras com outros contactos que trago sempre disponíveis, seja em acção ou na reserva. Sucede que com os últimos acontecimentos no Vale descuidei bastante os meus negócios, tanto imobiliários como de “prestação de serviços” ou intermediário se preferirem. E o clima tem subido de interesse. Não sei bem se o pessoal acredita que este esquema de governo em que estamos é, de facto, favorável ou se espera que a UE abra mais os bolsos, para nos manter quietos e evitar que uma nova quebra da nossa periclitante economia levasse, como numa montagem com peças de dominó, a que o pânico se espalhasse, não só pelos países da orla mediterrânea como inclusive pela França, e pior se a Alemanha cedesse.

O que me pareceu é que existe uma febre para entrarem na especulação imobiliária, e compra de unidades industriais, mesmo de pequena dimensão. Eu já apresentei ofertas, em nomes falsos ou de familiares, para algumas propriedades e empresas, em especial se são minhas ou se nelas tenho uma participação avultada, sempre no intuito de as fazer subir na cotação. Sei que há mais malandros jogando o mesmo jogo, mas alguns podem ter pressa ou não terem uma base de capital que lhes permita jogar forte. O meu esquema é o de só entrar “a matar” quando consiga tirar os fantasmas do tabuleiro. Ou seja, que só me interessa dialogar com o cliente final, especialmente se for chinés ou de uma filial oriental do governo sino-comunista, que gosta de invadir a economia ocidental e a nossa em concreto. Mostramos que temos tanta falta de dinheiro fesco que não só venderiamos a mulher e os filhos -as filhas de preferência deles- mas também os sogros, e outro qualquer familiar que estivesse em nível de ser cotizado. Em caso premente até dávamos o olho do cú como prenda, pois que os anéis e os dedos já foram.

Entretanto a Isabel tem-se mantido à frente dos seus negócios e tomando conta dos assuntos da propriedade de Vale do Pito. com mão mais férrea do que a minha, segundo pude apreciar. As mulheres, como sabemos, tanto podem ser mel e beijinhos a granel -ao jeito do Presidente- como podem ser mais azedas do que o vinagre ou as reinetas quando verdes, enquando dão a cara como sendo uma paz de alma.

Só nos temos visto às fugidas, e nem todos os fins de semana estão livres totalmente, pois certos contactos e negócios carecem de ser pactuados num ambiente de aparente descontracção, fingida de parte a parte. Mas a Isabel e eu já somos crescidinhos e entendemos que uma vez que se abriu a época da caça, por assim dizer, não convêm que deixemos as armas enferrujar. Tal como se diz noblésse oblige, ou na nossa língua Em tempo de guerra não se limpam armas.

Curiosamente o ambiente no Vale está tão mole, pacífico, digamos que adormecido como quando vivia a falecida Constança e os filhos eram crianças. Até desconfiamos de tanta bonança. Não temos tido contactos com ninguêm, nem com o Presidente da Junta e os guardas das rondas mal se deixam ver. Se não fosse que sabemos, e não esquecemos, o que nos caiu em cima semanas atrás podiamos pensar que tudo aquilo não passou de um pesadelo. É para desconfiar de tanta paz e sossego, ou se pode recordar o aviso Quando a esmola é muita o pobre desconfia.

Parece que adivinhava o mau tempo. A Luísa acaba de telefonar dizendo que chegou um aviso, entregue por um GNR, em que me convoca para me dirigir, quanto antes, á delegação da Polícia Judiciária em Coimbra, a fim de prestar declarações. Ora toma!

Tenho que ir esta mesma tarde. As coisas amargas o melhor é as engolir depressa, sem apaladar. E que querem desta vez? Será ainda alguma sequela dos assasinatos ou alguma trafulhice mal feita com os negócios? Neste caso tenho tido muito cuidado, pois nada é passado ao papel sem que antes não seja bem estudado e analisado pelos advogados Menezes e Rodrigues, que apesar de amigos não deixam de facturar com força. Se as coisas se puserem feias terei que pedir a comparência destes camaradas. O que vou evitar é o procurar a inspector Cardoso. Se for ele quem me peça declarações, e ouuver outros funcionários presentes, não darei sinais de conhecimento pessoal; mas prefiro que não seja ele quem tiver de enfrentar.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

MEDITAÇÕES – 16 - Jogar a feijões



Como no volei de praia

É penoso meditar sobre a situação social que existe sob o clima de perfeita normalidade que se instalou na mente das pessoas. Temos que reconhecer que a ideia de governar em cama compartilhada, numa espécie de albergue espanhol, onde, para ser correctos, o principal sócio pelo menos sob o ponto de vista histórico, insiste em permanecer fora da carroça (e faz muito bem, sob o ponto de vista meramente táctico) e o PS consegue manter-se à tona de água consentindo em algumas das exigências do seu sócio mais afoito.

Claro que só cede a uma gritaria de cada vez, e nem sempre consente em tudo o que exigem. Antes procura entregar aquilo que não temos, mas com algumas restricções. Para que não se diga que está de pernas abertas. O que é espantoso é que, como a aritmética não pode enganar-se, que contas são contas, aquilo que dá -mesmo com restricções- tem que se ir buscar a outro lado. E apesar dos aumentos de taxas e preços, mais ou menos dissimulados, o facto é que a dívida nacional continua sendo enorme. Os optimistas imaginam que chegará o dia em que os credores nos perdoarão aquilo que foi pedido emprestado. Um “sucesso” brilhante que só contecerá, se for e mesmo neste caso só parcialmente, quando aceitarmos vender mais algum dedo, pois que os anéis já se foram.

Este negrume de pensamento apareceu quando a chuva de fim de Agosto, a que estávamos habituados, não fez acto de presença. Em vez dela temos uma enorme nube negra com o estado de degradação a que chegou a estrutura da CP, tanto no material de tracção como no circulante e, ainda, em muitas linhas que tiveram promessas de recuperação ou de melhoria mas que, como era de prever dada a falta permanente de recursos na tesouraria, foram e continuar a ficar na gaveta das promessas.

Quando daqui a poucos dias terminar o pino do período de férias e as pessoas tenham que retomar os transportes, particulares e colectivos, para acudir ao seu local de trabalho e depois regressarem aos seus lares, vai ser a hecatombe do costume, mas até ampliada. Brinca-se com a realidade como se estivessemos num desafio entre amigos num volei de praia, ninguêm se aleija, e se a bola bate no chão ou sai fora, é só pontuar e seguir em frente.

Todos sabem os dois vectores que complicaram a vida dos assalariados e os empurrou para os subúrbios. Por um lado a dificuldade em conseguir uma habitação na cidade a um preço compatível com os seus ingressos, o desemprego entre os membros do aglomerado familiar e a mais recente pressão para desalojar os habitantes dos bairros populares mais centrais a fim de promover o aluguer estilo taxímetro.

Como, em vez de encarar este problema da deslocação da residência longe do local de trabalho da mesma forma como se fez nos países do centro da Europa, a rede de transportes colectivos que une os bairros periféricos às estações de caminho de ferro é insuficiênte e indutora a que o cidadão se veja empurrado a usar uma viatura própria, com um custo por hora e quilómetro muito superior ao do comboio. Sem falar na poluição gerada e nos engarrafamentos de trãnsito.

Para complicar ainda mais a situação temos um parque ferroviário degradado, em que muitas composições já ultrapassaram os tempos de uso recomendado. Os problemas que possam surgir na via férrea fatalmente se agravarão. E não se resolvem pela anulação de composições, antes pelo contrário. Toda uma situação que é consequência dos compromissos tomados pelos sucessivos governos.

Quando foi noticiado que, fossem quais fossem as razões invocadas, iriam fechar as instalações da Sorefame, tanto na Amadora como em Sines, não se atendeu ao que, fatalmente e como se está a verificar, o não ter uma base nacional para apoio dos caminhos de ferro, cumulativamente ao aplicar todos os meios económicos próprios, mais os vindos da Uniâo Europeia, à rede de auto-estradas, o cidadão ficou satisfeito com as possibiloidades de adquirir, com o recurso ao crédito, não só uma residência fora dos limites da grande urbe como também um automóvel, ou mais do que um em muitos casos, que lhe desse a ilusão de ter subido na vida.

Mais uma vez, e tal como aconteceu com os aeroportos, a electricidade, a saúde e os correios, a solução mágica que propõe os governantes, sejam eles quais forem, é a de “privatizar” a CP, e assim conseguir matar dois coelhos de uma só cajadada. Por um lado safar-se de compromissos que eles mesmo avolumaram, e por outro garantir bons lugares e algumas gratificações, que estão sempre agarradas ás privatizações, como as rêmoras que acompanham os tubarões e outros animais marítimos de porte mediano e grande. A voz da caserna, que em geral acerta, avisa de que os privados que se mostram interessados na exploração da rede ferroviária só querem ficar com as linhas que sabem podem ser rentáveis. Depois de as maquilharem e subir os preços, que deixarão de ser sociais, como acontece com os combustíveis e a electricidade.

E assim se conseguirá amainar o temporal por uns meses. À imagem do que faziam os heroicos caçadores de baleias do alto mar quando os seu barcos veleiros enfrentavam terríveis tempestades. Deitavam o óleo ao mar na tentativa de diminuir a força das vagas. As tentativas de recurso, por não ser sólidas, preparadas para durar e resolver problemas, não passam de adesivos e tintura. Não resolvem nada.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

FORA DA SÉRIE

Proponho que leiam o conteúdo. E insisto que não sou adepto de nenhum partido político.


A conversão ferroviária de Cristas e Companhia

A causa da conversão de Cristas e Companhia do CDS à ferrovia, aos comboios e linhas de caminho-de-ferro  tem uma causa e um nome pagãos: PLANO DE INVESTIMENTOS EM INFRAESTRUTURAS – FERROVIA 2020.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

MEDITAÇÕES - 15 O teatro trágico



Será que no seu íntimo mudaram?

Antes de tentar expor aquilo que nem sequer está bem estruturado na minha cabeça, penso que pode ser útil, a modo de introdução, que o seguidor faça o esforço de recordar a anedota do marido que, para satisfazer umdesejo da esposa, anda seca e meca á procura de um papagaio e termina sendo enganado por um astuto comerciante, que o convence de que um mocho é, na realidade, um loro exótico, mas com a característica muito particular que, antes de se decidir a falar, quer ganhar uma ampla bagagem linguística, como irá mostrar inequívocamente ao manter os olhos sempre bem abertos com uma atenção incomum.

Ou então socorram-se da fábula bem antiga do lacrau e a rã.

Qualquer das duas pistas nos ilustram de como é difícil, se não impossível, mudar os sentimentos das pessoas, uma vez que entendermos que o recurso a animais é só um estratagema para não ferir excessivamente as pessoas.

Nesta época em que, durante muitos anos, temos sido manobrados por uma longa série de personagens que comportando-se ao contrário em relação as suas afirmações e promessas, creio que muitos de nós já sentimos aquele desânimo do Diógenes, que circulava por Atenas levando uma candeia acesa, mesmo em pleno dia, a fim de que esta luz extra o ajudasse a encontrar um homem efectivamente honesto.

Por razões evidentes não pretendo qualifificar ninguém em concreto de deshonesto, mentiroso, vigarista ou qualquer outro epíteto ao estilo. Simplesmente sinto que devemos dar crédito ao que recordamos do passado de certas personagens. E eles são tantos os que por aí andam vendendo a banha da cobra que, para acautelar a nssa saúde mental, recomendo que nos limitemos a uns exemplos entre os que nestes dias estão nas primeiras páginas.

O historial exemplar do tal “menino reguila”, que chorava no berço quando lhe tiravam a chucha, e que, agindo sempre como o penetra insistente, já ocupou tantos lugares e deu tantas barracas que só lhe falta ser mestre da banda de Quadrasais, bispo de uma diocese rica (pode ser de Fátima) ou Presidente da República. O curioso deste caso é que sempre consegue arregimentar uns comparsas que o aplaudam, possívelmente uns que se sentem, ou são sem darem por isso, uns desenganados da vida e imaginam que ao acompanhar este elemento, incombustível, poderão ter uma oportunidade de singrar no meio dos que mamam da teta.

Como é tradicional, este cavalheiro, discursa prometendo o novo maná, um renascer farto e honesto, umas mudanças de paradigma (?) que deixarão os programas dos outros ao nível da cartilha maternal. Será possível que os cidadãos tenham esquecido o seu passado e o carreguem às costas, tal como a râ fez com o lacrau?

A outra personagem de topo actualmente é, sem dúvida, o famoso Professor Marcelo Rebelo de Sousa, nesta ocasião eleito para exercer o cargo de Presidente desta República. No meio das outras cartas do baralho que se apresentaram às eleições, sem dúvida que foi escolhido limpamente. E agora são bastantes os que já enjeitam aquilo que consideram ser excessos de populismo, de beijinhos, abraços, fotografias e meiguices. Tantas que mais se assemelha a um patriarca de uma igreja da treta do que o respeitável representante da nação.

M.R.de S. foi sempre um vocacionado falador e não desmerece das suas origens, apesar do esforço que constantemente faz para parecer “um de nós”. Não é um de nós! Não se encaixa convictamente com as camadas mais desfavorecidas nem tampouco entre as diferentes camadas da tal colasse média, que fermentou e levedou após ser arrumado o PCP num canto. Nem se podia esperar que o fizesse, pois o seu estatuto é mais de símbolo do que de actuante.

Isso não o tem impedido de, com a habilidade que lhe é característica, dar picadelas no executivo, dando o aspecto de que ele tem poderes para orientar e decidir, apesar de que a Constituição da República em vigor o limita especificamente. Os maldosos, que sempre os há, dizem que tem dois alvos na mira. Por um lado manter uma popularidade que lhe ofereça um segundo mandato e, na outra mão, proteger subrepticiamente o seu partido.

Tanto um como o outro, assim como muitos mais, fazem o seu papel neste teatro, que de facto éuma tragi-comédia, mesmo que muitos não sintam esta realidade ou, para evitar cortes de digestão e AVCs prefiram olhar para o lado, deixando andar.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

MEDITAÇÕES – 14 - Sonhar



Ao acordar perdemos sem recuperar

Sei que, como é normal acontecer e os estudos científicos efectuados sobre o sono dos humanos mostraram, practicamente sonho todas as noites. A testemunha que me acompanha no tálamo conjugal refere que muitas noites passo por fantasias inconsciêntes, involuntárias, tão agitadas que chega a temer pela sua integridade física, dado que é sumamente exagerado e violento é o entusiasmo com que esbracejo. Felizmente, até hoje, parece que tivemos sorte ou ela é sumamente hábil em esquivar os meus golpes de karaté.

A intensidade mental dos meus sonhos não tem, que eu possa apreciar, uns periodos concretos dentro do horário dedicado ao descanso nocturno. Mas é provável que siga os periodos que se identificaram com os voluntários que se pretaram a ser estudaos. Assim sendo devo ser Não sei mais activo nas fases REM, que dizem acontecerem por mais do que uma vez aolongo do sono, do que nas fases NaoREM, que os encefalogramas mostram ser mais tranquilas. Acordo em muitas ocasiões e naquelas alturas ainda mantenho os acontecimentos oníricos bastante presentes, se bem que dispersam-se no esquecimento com rapidez.

Mesmo assim, não é infrequente que um acordar, repentino, na madrugada, sinta o tema da última sessão muito vigente, e quando o assunto do sonho é do mau agrado fecho os olhos com uma intensa vontade de recuperar o fio da meada; de conseguir empalmar a cena interrompida e poder continuar numa linha de ficção que me satisfazia.

Hoje foi um destes dias. E conseguí manter na memória parte dos sucessos que estavam presentes naquela fantasia. Uma fantasia que, como é normal, ou usual, estava baseada em factos vividos anteriormente, mesmo que modificados com a inclusão de personagens inventadas e sem seguir uma cronologia que respeitasse, mínimanete, o que podia estar na origem daquela compexidade ficcional.

Recordo que as cenas estavam situadas num cenário que pretendia ser o retrato dos locais e ambientes que vivi na primeira fase da minha vida profissional. Mas nem todas as personagens eram reconhecíveis. Por exemplo, uma das cenas acontecia numa reunião de profissionais, todos eles desconhecidos, onde se deviam debater assuntos técnicos. Esta cena terminou rápidamente, e foi subsituída por outra personificada por uma senhora, elegante, educada e de excelente trato, com idade mais perto dos 40 do que dos 35, que se apresentou como sendo a delegada para as relações públicas. Mostrou ser de uma perspicácia e intuição pouco habituais, que deu azo a umas conversas a duo cheias de subentendidos, de trocadilhos levemente picantes, que me entusiamou de tal modo que, acordando súbitamente, fiz um esforço, tremendo, mas improficuo, para retomar o sono. Curioso o facto de que esta dama não correspondia, pelo menos não a fixei como identificável a nenhuma pessoa conhecida na vida real. Aceitei a perda com uma tristeza tal que me levou a recordar esta cena, o que raramente me sucede. Sentia que aquele diálogo, estilo Sit-com estava predestinado a dar pano para mangas.

domingo, 26 de agosto de 2018

MEDITAÇÕES - 13 - Reagir



Ficar Parados ?

Tenho estado a pensar acerca do que editei ontem, e na possibilidade de que fosse interpretado como um incitamento a ficar parados, a negar a possibilidade de manter os avanços científicos. Não era este o meu ponto de vista, mas, antes pelo contrário, manifestar o desejo pessoal, que a meu entender deveria ser comum à maioria dos humanos, para que se reagisse rápida e eficazmente contra a maré de poluição que se instalou sobre o planeta que nos acolhe.

Não parece que as alertas que diariamente nos são enviadas consigam alterar. Nem sequer minimamente, a progressão da poluição irreversível em que TODOS, mesmo que contrariados ou inconscientemente, colaboramos. Espantam-nos com o real incremento de gases poluentes na atmosfera e das consequências nefastas que daí derivam, não só no clima e nas alterações do ambiente como inclusive nas agressões para o nosso corpo que através dos muitos aditivos incorporados nos alimentos manipulados, aceitamos sem rejeitar. A evolução do mercado abastecedor nos oferece poucas alternativas para fugir dos produtos químicos perniciosos.

Inclusive os vegetais, que deveriam constituir uma boa parte da nossa alimentação omnívora, passaram a ser produzidos em regime intensivo, em condições muito diferentes das que a natureza proporciona. Os produtos de síntese que se incorporam logo nas sementes para garantir a sua germinação rentável, vão entrando numa progressão constante até o momento em que ingerimos estes vegetais, sejam tubérculos, frutas ou verdes. Inclusive devemos desconfiar dos tais produtos biológicos; não porque os seus criadores nos enganem conscientemente mas por ser muito difícil, quase impossível, escapar dos problemas sem o recurso a materiais estranhos.

Esta agressão alimentar é a menos perceptível para a cidadania, precisamente por ser quotidiana e as alternativas absolutistas devem ser muito poucas. Só aqueles que se refugiam nas zonas mais isoladas e profundas do País e optarem por um regime naturista, “retrógrado” é que podem ter algúm êxito. Mas nunca total.

O que mais nos alarma, pela sua dimensão visível e as consequências macroscópicas e microscópicas que se detectaram e publicitaram, é a utilização desmedida dos plásticos como recipientes e invólucros. Hoje é quase impossível comprar um lápis, uma triste esferográfica, ou umas peças de fruta sem que o produto não venha embalado de origem dentro de um invólucro, fechado, de plástico; ou, quando seleccionado a granel, nos exijam que o coloquemos num saco de plástico. E isso repete-se em quase tudo aquilo que é comercializado. E qual o destino destas embalagens, a maior parte sem reutilização ou que por serem tantas nem temos capacidade de as guardar ou utilizar? Evidentemente o lixo, seja urbano ou descontrolado pelo ambiente. E, por mais tentativas que se apresentem, o fluxo de desperdícios não degradáveis é de tal magnitude que não é possível “digerir”. Inclusive a queima com o propósito de gerar energia eléctrica é totalmente inócua. Muitos gases da combustão são de composição potencialmente perigosa. E restam os subprodutos. Sejam cinzas ou condensados, que constituem um novo problema a tentar resolver.

Uma das soluções que foram apresentadas, já com o problema em andamento, era o dos plástico degradáveis. De facto aquilo que acontece com estes materiais é que se desfazem em pequenas partículas, sem que a sua composição química se tenha alterado. Daí que terminam entrando na cadeia alimentar através dos animais marinhos.

E deixamos por referir, para não ser excessivamente maçadores, muitos outros produtos manufacturados, como os pneus dos veículos, que apesar de se lhes procurar aplicações, são de tal magnitude que se acumulam em perigosos aterros, sejam legais ou clandestinos.

De facto, o Homem está, despreocupadamente, cavando a sua própria sepultura.